Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 214)





Uma Trova de Curitiba/PR
VANDA ALVES DA SILVA

Eu nunca temo o futuro,
se você pai, me conduz,
ao vasto porto seguro,
com o seu rastro de luz!

Uma Trova de São José dos Campos/SP
MIFORI

Diz o pai não existir
bebê mais lindo que o seu,
beija os lábios ao sorrir,
da mulher que o concebeu.

Uma Trova de Belém/PA
ANTONIO JURACI SIQUEIRA

Com amor segue em teus trilhos,
do bom caminho não sai
para que, sempre, teus filhos
possam chamar-te de…Pai!

Duas Trovas sobre Pai de Belo Horizonte/MG
OLYMPIO COUTINHO

Meu pai, que eu nunca esqueci,
veja em mim a sua glória:
Segui seus passos, venci!
É sua a minha vitória!

De meu pai, a honestidade,
de minha mãe, a ternura:
porisso, em meio à maldade,
mantenho minha alma pura.
Um Soneto de Santos/SP
CAROLINA RAMOS

Meu Pai...
(O soneto que ele não teve tempo de ler)
      
Quando te vejo, assim, domando a vida,
com a fibra invulgar do cavaleiro
que não teme as corcovas da subida,
nos reveses e quedas, altaneiro...

cabeça branca, face já curtida
pelo tempo e inclemência do roteiro,
velho e valente, fronte sempre erguida,
que a rude estrada forja o caminheiro...

mesmo que eu queira te dizer o tudo
que na alma eu sinto, meu falar é mudo,
minha voz na garganta se retrai!

Assim... faço dos versos o ofertório...
do coração, um cálido oratório...
e neles rogo a Deus por ti, meu Pai!

Uma Trova Hispânica, da Venezuela
CARLOS RODRIGUEZ SANCHEZ

Si la sonrisa te alumbra
el camino de la vida,
nunca sentirás penumbra
en la senda recorrida.

Uma Trova de Brasília/DF
ANTONIO CARLOS TEIXEIRA

É de dor a sensação:
meu Pai… arrastando os passos;
e eu… puxando pela mão
quem já me levou nos braços!

Um Poema de Canchungo/Guiné-Bissau
ANTÓNIO BATICÃ FERREIRA

O Mar

Olhai: o Mar tem influência singular
Sobre mim. Os animais aquáticos são tantos
Valia a pena persegui-los no mar alto;
Valia a pena vê-los saltar através das ondas.

O Mar, esse mundo que os homens não habitam,
É imenso, tão belo e tão perfeito!
O Mar tem influência singular
Sobre mim. Eu bem queria ir ver as ondas;

Valia a pena olhá-las a correr
Loucamente; valia a pena
Ver qual delas primeiro entrava na baía.

Ah!, o Mar vasto, no entanto, aqui nos fala
Sim, fala-nos interiormente,
E nós compreendemos a sua língua:
É uma língua que se entende.

(Ah!, que impressão nos faz o Mar!)

Trovadores que Deixaram Saudades
NÁDIA HUGUENIN
(Nádia Elisa Sanches Huguenin, a "Nadinha")
Nova Friburgo/RJ (1946 -2008)

Foi amigo de verdade,
meu exemplo, meu herói.
Hoje meu pai é saudade,
e como a saudade dói!…

Uma Poema de Balneário Camboriú/SC
ELIANA RUIZ JIMENEZ

Ser Poeta

Ser poeta é tão somente ser criança,
com o joelho eternamente machucado.
É correr pelo terreno capinado
e procurar no concreto envelhecido
a flor do campo nascida num jazigo.

É libertar-se mesmo preso a convenções,
sorver o sumo de fugazes alegrias.
É desfrutar de sentimentos sem razão
e inventar que borboletas fugidias
podem enfim centrifugar o coração.

É relembrar de seduções que não viveu
em tempos idos de tornozelos escondidos
com carruagens de trotes compassados,
levantando a poeira enquanto os anos
vão desfocando os flashes do passado.

É sentir o vento fresco num deserto
e calafrios onde o sol brilha ou deveria.
Apropriar-se de vidas outras, divergentes,
e em breve êxtase transpor à poesia
o que não sente ou o que sentirá um dia.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
DELCY CANALLES

Dia dos Pais, eu desejo
que seja um dia de brilhos,
que a brisa leve o meu beijo
a cada pai e seus filhos!

Um Poema de Curitiba/PR
PAULO LEMINSKI
(1944 – 1989)

Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito sejas que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Uma Trova de Campos dos Goytacazes/RJ
DIAMANTINO FERREIRA

Filhos, enquanto pequenos;
crescer, demora demais!
nem esperamos – ao menos,
a hora de sermos pais!

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
LUIZ POETA

Quando teu filho te chamar de pai,
Guarda esse momento no teu coração;
Teu tempo é curto e se esse  amor se esvai,
Deixa cicatrizes, culpa,  solidão.

O teu presente no dia dos pais
Não são canetas, meias ou camisas;
É um silêncio simples, não é mais
Que uma ternura que te suaviza.

Pois na mudez dos teus olhos abertos,
Há tua imagem noutra dimensão:
São os teus filhos, que tão longe ou perto,
São complementos do teu coração.

Deus te deu o dom do amor, procura despertá-lo,
Sempre que teu filho dele precisar;
Há tantas maneiras simples de amá-lo
Basta compreendê-lo e tê-lo em teu olhar.

E quando um dia, enfim te ausentares
Desse teu tempo na terra e na vida,
Cada detalhe do que ensinares
Renascerá após tua partida.

Logo que um filho teu for pai de um novo  filho,
Ou tua doce filha, mãe de um novo herdeiro,
O teu olhar feliz há de pairar no brilho
Do olhar de um novo pai... sensível, verdadeiro.

Por isso, pai, celebra esse  teu dia,
Agradecendo ao Pai por todo o teu destino,
Pois cada riso teu ou lágrima que cai,
Há de lembrar teu pai, teus tempos de menino.

Chora em silêncio, ri, deixa fluir
Tua alegria de acreditar
Que  tua história nunca acaba aqui
Em cada filho teu, ela renascerá.

Agradece a Deus e celebra teu dia
Deixaste uma história... o que queres mais ?
Curta o teu momento com muita alegria
Porque tu mereces teu dia dos pais !

Um Haicai, de Irati/PR
SILVIA MARIA SVEREDA

Bisneto a caminho.
As mãos trêmulas tricotam
Luvinhas de lã.

Um Poema de Catanduva/SP
ÓGUI LOURENÇO MAURI

À Mãe (viva) que amo!

Mesmo que nas veias de teus descendentes
Não corra o sangue dos vasos de meus filhos,
Percebo em ti, sem maiores empecilhos,
Que tu és mãe de dotes clarividentes.

És pai e mãe; mulher de duplo papel!
Acompanhaste só, do ventre ao altar,
O que a maternidade lhe pôde dar...
Coloriste a família com teu pincel.

Na aquarela do lar, esbanjaste a cor.
Da Fé, dos bons costumes, da dignidade.
Puseste nuances de felicidade...
Sozinha, com molduras de muito amor.

No âmbito familiar, dás segurança.
Tudo se resolve sob tua batuta.
Convocas à Fé e pões todos à luta,
Repeles o ódio e vertes a esperança. 

Face ao denodo com que te sobressais,
Fazes jus a duas comemorações:
Pela vontade de muitos corações,
Louvores no Dia das Mães e dos Pais.

Uma Trova de Caicó/RN
PROF. GARCIA

Lembrança que me distrai,
que acaba com meu desgosto,
é ver teu rosto, meu Pai
retratado no meu rosto!

Um Poema de São Paulo/SP
SILAS CORREA LEITE

My Way

Um dia você acorda e olha pra trás
E diz: eu não era nada.
E vê toda vida que fez do seu jeito
E pergunta: terá valido a pena?
Você acha que venceu na vida
Mas sabe: o que restou de você?
Talvez muito pouco ou quase nada
Daquilo: uma criança pura.

Um dia você cai em si e teme
O resultado: o que fizeram de você
A luta a dor, as amarguras e
Seqüelas: terá sido uma vitória?
Dentro do seu coração os sonhos
E as escuridões: são os poemas
Que você escreve porque tem medo
De se matar: morrer depois de tudo?
..........................................................
Um dia você não quer olhar pra trás
E nem pra você: foge para a poesia.

(Na escrita há um tempo irreal
Uma ilhota íntima: você em você!)

Uma Trova de Niterói/RJ
ELEN NOVAES FELIX

Se o teu rosto, Pai, confessa
o cansaço das jornadas,
quanta ternura se expressa
em tuas mãos calejadas!

Uma Cantiga Infantil de Roda
A MARGARIDA

Uma menina da saia larga e as outras pegando na barra do vestido dela, formando uma roda. Do lado de fora uma outra garota, volteando e cantando:

Onde está a Margarida,
Ô lê ô lê ô lá;
Onde está a Margarida
Ô lê, seus cavalheiros.

Respondem as da roda:

Ela está em seu castelo.
Ô lê ô lê ô lá
Ela está em seu castelo,
Ô lê, seus cavalheiros.

A menina do lado de fora:

Mas eu queria vê-la.
Ô lê ô lê ô lá;
Mas eu queria vê-la,
Ô lê, seus cavalheiros.

A roda:

Mas o muro é muito alto,
Ô lê ô lê ô 1á
Mas o muro é muito alto,
Ô lê, seus cavalheiros.

A menina de fora, da roda, tira uma outra e canta:

Tirando uma pedra,
Ô lê ô lê ô lá;
Tirando uma pedra.
Ô lê, seus cavalheiros.

A roda:

Uma pedra não faz falta
Ô lê ô lê ô lá
Uma pedra não faz falta.
Ô lê, seus cavalheiros.

A menina de fora tira uma por uma da roda, só deixando mesmo a Margarida. À medida que vão saindo, as que continuam na roda, cantam: Uma pedra não faz falta, duas pedras não faz falta, três pedras, etc. até sair a última. Nesta ocasião, cantam todas:

Apareceu a Margarida
Ô lê o lê ô lá
Apareceu a Margarida
Ô lê, seus cavalheiros.

Se querem brincar de novo, repetem os mesmos versos

Fonte:
Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.

Uma Trova de São Paulo/SP
HÉRON PATRÍCIO

Quando uma lágrima cresce
e cai dos olhos de um pai,
pesa tanto que parece
ser a própria dor que cai!

Recordando Velhas Canções
Guimarães Passos e Miguel Emílio Pestana

NA CASA BRANCA DA SERRA
(1880)

Na casa branca da serra
Onde eu ficava horas inteiras
Entre as esbeltas palmeiras
Ficaste calma e feliz
Tudo em meu peito me deste
Quando eu pisei na tua terra
Depois de mim te esqueceste
Quando eu deixei teu país.

Nunca te visse oh! formosa
Nunca contigo falasse
Antes nunca te encontrasse
Na minha vida enganosa
Por que não se abriu a terra
Por que os céus não me puniram
Quando os meus olhos te viram
Na casa branca da serra.

Embora tudo bendigo
Desta ditosa lembrança
Que sem me dar esperança
De unir-me ainda contigo
Bendigo a casa da serra
Bendigo as horas fagueiras
Bendigo as belas palmeiras
Queridas da tua terra.

Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ
FRANKLIN MAGALHÃES

Mais um beija-flor.
Ou será outra visita
de um freguês antigo?

Hinos de Cidades Brasileiras
NITERÓI/RJ
Letra: Nilo Neves; Melodia: Almanir Grego     

Vila Real da Praia Grande,
Sempre altaneira, operosa.
Vila Real da Praia Grande,
Terra feliz, dadivosa.
"Cidade Sorriso, encantada",
"Niterói, Niterói, como és formosa"

Por amor ao Brasil, unido, imenso,
Aprendeste a lição do "índio herói",
Começando a escrever, em São Lourenço,
Tua história, querida Niterói...

Evocando, orgulhosos, teu passado
De bravura, de trabalho e de nobreza,
Nós louvamos que Deus nos tenha dado
A paisagem de luz da natureza...

Um Poema de Santiago do Cacém/Portugal
MANUEL LOPES FONSECA
Santiago do Cacém (1911 – 1993) Lisboa

Poema da Menina Tonta

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.

A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.

A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...

No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...

A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

Uma Trova de Fortaleza/CE
FRANCISCO JOSÉ PESSOA

Demonstrando seu amor
com o peito em chamas, ardendo,
o pai sente a mesma dor
ao ver o filho sofrendo.

Um Poema de Salvador/BA
ERNANE GUSMÃO

Licor de Anis

Licor de anis,azul,embriagante,
A cada gole meus desejos trais.
O vulto da singela e doce amante,
Fluidos perfumes, densas espirais.

Eu sorvo a tona desse anil bacante
E me inebrio em delírios tais…
Ouço o murmúrio dela, soluçante,
Em sintonia com meus mudos ais.

A timidez me prende, relutante
O coração reclama-segue avante,
Por que não quebras o temor e vais?

E quêdo embora, bafejou-me a graça,
Licor de anis sumiu da minha taça,
Mas ela… dos meus olhos… nunca mais!

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
VINICIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
(1913 – 1980)

Soneto do Maior Amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer — e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Um Martelo Agalopado de Pilõezinhos/Distrito de Guarabira/PB
JOSÉ CAMELO DE MELO REZENDE
(1885 – 1964)

O orgulho nasceu em noite escura,
E é filho da triste ignorância,
Ao descer o seu corpo à sepultura,
Cai-lhe verme por cima, em abundância,
E seu todo se torna uma figura,
Que nos causa a maior repugnância.

Trovador Destaque


A fome, sempre presente,
faz sair o Chico Brito
atrás de um cachorro-quente,
“matando cachorro a grito”!…

A Natureza... Que escola!
Sempre nos deixa encantados...
Faz um mundo que é uma “bola’
para um bando de ‘quadrados’...

Anchieta, ouve os que gritam
e converte, como Saulo,
os “gentios” que hoje habitam
a grande selva... São Paulo!

A onda brava, agitando
o barco, com desconforto,
é a mão do mar acenando
para os que ficam no porto!

A saudade, triste fado
do meu coração descrente,
é janela do passado
aberta no meu presente!

A tristeza só se instala
no quarto do coração,
quando a voz do amor se cala
e quem fala é a solidão!

A vida é um cinema infindo
onde, entre dor e alegria,
mocidade é um filme lindo
que esteve em cartaz um dia!

A vida é um trem nos levando
com destino à eternidade,
que segue, sacolejando,
pelos trilhos da saudade...

A vida que nós levamos
não é vida... na verdade,
é ponte na qual cruzamos
o rio da eternidade!

Buscai refúgio e energias
na usina do amor profundo,
para dar calor aos dias
e luz às noites do mundo...

Cada esperança perdida
na Estrada da Eternidade,
é tributo pago à vida
no Pedágio da Saudade!

Carinho é ramal, talvez,
que o Divino Construtor
pôs no projeto que fez
da Ferrovia do Amor!

Chora o homem do sertão
na esperança que ele encerra,
que o rio do coração
vire mar, inunde a terra!

Cometa Halley”! chamei
minha musa mais querida,
pois só uma vez a encontrei
nas noites de minha vida...

De que adiantou, coração,
buscares a liberdade,
se hoje vives na prisão
bem mais cruel da saudade?

Desespero mais certeiro,
nesse mundo errado e torto,
é o coitado do coveiro
não ter onde cair morto!

De tanta ilusão, mentira,
que a vida me ofereceu,
creio - ainda que me fira
que a maior delas... sou eu!

De toda mulher emana
o encanto que me fascina:
- A metade que é humana
e a metade que é divina!

Deu-me o destino malvado
a angústia maior, eu creio,
de ter, na vida sonhado,
um sonho que nunca veio!

Discórdia é dia cinzento
que, no céu do coração,
não deixa, em nenhum momento,
passar o sol da razão...

Do reino da mocidade
só restam hoje, tristonhos,
pedaços de eternidade
nas ruínas dos meus sonhos…

É madrugada, e na paz
que reina sobre a cidade,
a voz do silêncio traz
seu nome a gritar "saudade"...

És, neste museu de sonhos
que a vida me transformou,
um dos quadros mais risonhos
que a mão do tempo pintou...

És, saudade, realmente,
artesã que em hábil lida,
encaderna, no presente,
páginas soltas da vida...

É tão sábia a natureza
que consegue introduzir
encanto, charme e beleza
num vulcão pronto a explodir...

- Eu preciso ir ao velório
da minha sogra, patrão!.
- Primeiro o trabalho, Honório,
e depois... a diversão!

Fala tanto nome feio
a minha sogra insolente...
Minha sorte é que ela veio
com uma boca somente!

Homem de idade, casado
com moça, ardorosa amante,
me lembra um pires gelado
e a xícara esfumaçante...

Muitas palavras busquei
que rimassem com “amor”,
e a mais bonita que achei
foi uma só… “Professor”!

Na Companhia Blindada
causou riso de montão
o general-de-brigada
ser marido de um "canhão"...

Não basta o grilo gaiato
com quem toda noite eu brigo
e a sogra, ajudando o chato,
resolveu morar comigo!

Não ter saudade... é profano,
mas senti ao vê-la, creia:
- Não perdi meu oceano,
mas somente... um grão de areia!

Natureza, em teus mistérios,
prezas tanto as nossas dores,
que até mesmo os cemitérios
enfeitas todos de flores!!!

Na vida, irônico jogo
que um bravo bombeiro arrasa
é não apagar o "fogo"
da mulher que tem em casa...

Na vida, uma longa estrada
que conduz à eternidade,
o tempo é ponte assentada
nos pilares da saudade.

Na vida que a gente monta,
tantos sonhos cavalguei,
que até já perdi a conta
das vezes que o chão beijei!

No fórum do coração,
na audiência do sem-lar,
a dor da perda é pensão
que a vida nos faz pagar...

No rodeio da ilusão
o meu sonho, em liberdade,
vai cavalgando o alazão
indomável da saudade...

Nosso amor... realidade
de um passado tão bonito,
hoje é grito de saudade
ecoando no infinito!

O passado é uma vertente
que em sutil habilidade
torna-se o rio imponente
formando o mar da saudade!

Os instantes de saudade
são, em nosso ir e vir,
pedaços de eternidade
que o tempo deixou cair...

O tempo é tipografia
onde, em letras de saudade,
Deus imprime, a cada dia,
o livro da eternidade...

"Paga mico" o jardineiro
que vive galhos podando,
e em sua casa, o leiteiro
outros "galhos" lhe plantando...

Pobre mulher do Carvalho
que até hoje ainda reclama,
pois, de tanto “quebrar-galho”
foi multada pelo… Ibama!

Poeta, és  velho coreto
onde, na noite estrelada,
teus sonhos fazem dueto
com a voz da  madrugada…

Professores são abelhas
distribuindo, em seu afã,
os polens que são centelhas
das flores de um amanhã!

Quem não fez da sua vida
 tributo à vida de alguém,
teve a vida mal vivida,
 viveu...mas não foi ninguém!

Que otário! Jamais saiu
de casa durante a vida,
porque sempre residiu
em um beco sem saída!

São as chuvas, na impiedade
da natureza agredida,
as lágrimas de orfandade
nos olhos tristes da vida!!!

Saudade é imenso navio
no mar de minha existência,
a navegar no vazio
deixado por sua ausência...

Sem sapato... madrugada...
Ao entrar, pé, ante pé,
fui – que ironia danada –
traído pelo... chulé!

Se o vendaval da paixão
causa estragos, é verdade
que depois, no coração,
sopra a brisa da saudade...

Seu rosto esquecido, creia,
no tempo, em tantas andanças,
hoje é só um grão de areia
no mar de minhas lembranças!

Somente o júri divino
pode, na força que encerra,
julgar o filho assassino
no matricídio da Terra!

Sou carro velho, cansado...
A vela, a faísca nega...
Às vezes, mesmo empurrado
só “pipoca”... mas não pega!

Triste drama está vivendo
dia-a-dia o Ricardinho,
ao ver, no “filho” crescendo,
a cara... do seu vizinho!

Tristeza é sentir saudade
do amor, dos beijos e abraços,
que hoje tem continuidade
na alegria de outros braços !

Um coração solitário,
 sem amor, sem ter um bem,
é um quarto sem mobiliário,
casa onde mora ninguém...

Veja um bom jogo, sugiro,
seja no campo ou na estrada.
Mas cá entre nós: eu prefiro
mais é uma “boa” pelada...

Você, que foi sol ardente
nas tardes do meu Verão,
hoje é uma vela, somente,
nas noites de solidão...


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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