Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 240)





Uma Trova de Paracuru/CE
Abigail Sampaio

Lenços brancos acenando
no instante da despedida
adeus nos dizem, roubando
metade da nossa vida.

Uma Trova de Ipu/CE
Abílio Martins

Tantos encantos encerra.
O beijo, é coisa tão boa,
quem não dá beijo na terra,
Deus lá no céu não perdoa.

Uma Trova Humorística de Massapê/CE
Aloísio Bezerra

- Ao andar, sinto cansaço.
Que me aconselha, doutor?
- Nenhum remédio lhe passo,
só tome um táxi, senhor!

Uma Trova de Araçoiaba/CE
Ana Maria do Nascimento

Para não ver meu amor
vagar no mundo tristonho,
resguardei-o com primor
numa redoma de sonho

Um Poema de Fortaleza/CE
Rachel de Queiroz
1910 – 2003, Rio de Janeiro/RJ+

Telha de Vidro

 Quando a moça da cidade chegou,
veio morar na fazenda
na casa velha...
tão velha...
quem fez aquela casa foi seu bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
Mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha..a.
A moça não disse nada;
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro,
queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora
o quarto onde ela mora
e o quarto mais alegre da fazenda.
Tão clara que, ao meio-dia, aparece uma renda
de arabescos de sol nos ladrilhos vermelhos
que, apesar de tão velhos,
só agora conhecem a luz do dia...

A lua branca e fria
também se mete às vezes pelo claro
da telha milagrosa...
ou alguma estrelinha audaciosa
carateia no espelho onde a moça se penteia...
Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta, fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você não experimenta?
A moça foi tão bem sucedida?
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

Um Poema de Assaré/CE
Patativa do Assaré
(Antônio Gonçalves da Silva)
(1909 – 2002)

Minha viola

 Minha viola querida,
Certa vez, na minha vida,
De alma triste e dolorida
Resolvi te abandonar.
Porém, sem as notas belas
De tuas cordas singelas,
Vi meu fardo de mazelas
Cada vez mais aumentar.

Vaguei sem achar encosto,
Correu-me o pranto no rosto,
O pesadelo, o desgosto,
E outros martírios sem fim
Me faziam, com surpresa,
Ingratidão, aspereza,
E o fantasma da tristeza
Chorava junto de mim.

Voltei desapercebido,
Sem ilusão, sem sentido,
Humilhado e arrependido,
Para te pedir perdão,
Pois tu és a jóia santa
Que me prende, que me encanta
E aplaca a dor que quebranta
O trovador do sertão.

Sei que, com tua harmonia,
Não componho a fantasia
Da profunda poesia
Do poeta literato,
Porém, o verso na mente
Me brota constantemente,
Como as águas da nascente
Do pé da serra do Crato.

Viola, minha viola,
Minha verdadeira escola,
Que me ensina e me consola,
Neste mundo de meu Deus.
Se és a estrela do meu norte,
E o prazer da minha sorte,
Na hora da minha morte,
Como será nosso adeus?

Meu predileto instrumento,
Será grande o sofrimento,
Quando chegar o momento
De tudo se esvaicer,
Inspiração, verso e rima.
Irei viver lá em cima,
Tu ficas com tua prima,
Cá na terra, a padecer.

Porém, se na eternidade,
A gente tem liberdade
De também sentir saudade,
Será grande a minha dor,
Por saber que, nesta vida,
Minha viola querida
Há de passar constrangida
Às mãos de outro cantor.

Trovadores que deixaram Saudades
Adauto Gondim
Pedra Branca/CE 1915 – 1980 Fortaleza/CE

No teu jardim, entre flores,
feliz estou ao teu lado
meu calendário de dores
hoje marcou feriado.

Um Poema de Ipu/CE
Abílio Martins

         A população da capital cearense, em 1920, foi surpreendida pela aparição sensacional de um galo com chifres.
         Os jornais se ocuparam do fenômeno e o poeta lá esteve para, de visu, observá-lo. Instantes depois, registrava as suas impressões:

– Eis um fato banal,
que nem merece a pena comentá-lo,
pois me parece muito natural

o que acontece ao galo...

Penso que o galo, como o cidadão,
tendo o seu lar... no fundo do quintal,
e, entre a família, nome e projeção,
está sujeito
ao mesmo preconceito,
de ordem social,
que rege e orienta a vida conjugal.

Vê-se, portanto, positivamente,
que a Natureza tinha,
de cedo ou tarde, assinalar o mal...
Pois se a mulher do galo, infelizmente,
foi sempre uma galinha,
a cabeça do boi era fatal...

Muito cuidado, camaradas, tomem:
se a Natureza fez assim com o galo,
pode fazê-lo muito bem com o homem...

Uma Trova de Fortaleza/CE
Haroldo Lyra

Era um garoto travesso,
Um mestre na peraltice:
virava tudo ao avesso,
era o rei da macaquice.

Um Haicai de Baturité/CE
Almir Gomes de Castro

Rasga coração,
a amante com o diamante
corta a solidão.

Um Poema de Fortaleza/CE
Márcio Catunda
(Márcio Catunda Ferreira Gomes)

Elegia para José Alcides Pinto

Quando foi que rodopiaste ria catástrofe,
exorcista, dervixe dos dragões?
Quando nos demos o último abraço,
forjador de diabruras?
Místico desesperado,
quanto aprendi contigo!
Tua irreverência, tua marginalidade,
teu dom de transmitir sentimento.
Demônio iluminado,
o látego das horas te fustigava!
É que a vida te desafiava como uma trincheira.
O dispensário, o manicômio, as harpias,
tudo te obrigava a renunciar.
No entanto, insistias no ofício martirizante.
Nenhum discípulo esteve, como eu,
agrilhoado à terra em declínio.
Nenhum riu tanto contigo dos puritanos cínicos;
nem zombou da glória conquistada com festins,
nem abominou tanto os relógios de ponto
e a deslealdade.
Andei na tua trilha de eleito,
amolador de punhais.
A fatalidade foi a tua última travessura.
Peripécia trágica, na angústia do momento final.
Quanta vez me falaste da terrível abjeção!
Onde quer que estejas,
espera: irei à tua procura!

Uma Trova de Maranguape/CE
João Osvaldo Soares (Vaval)

Nasce o sol de um novo dia
Pondo em tudo muita cor;
Trazendo mais poesia
Ao poeta sonhador.

Uma Poema de Acaraú/CE
Padre Antonio Thomaz
(Padre Antônio Thomaz Lourenço)
1868 – 1941, Fortaleza/CE+

Contraste

Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, célebres, ufanos,
Vamos marchando descuidosamente;
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então, nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede, exatamente,

O contrário dos tempos de rapaz:
– Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás.

Uma Trova de Camocim/CE
José de Arimatéa Filho

Às seis da tarde, meu Deus,
quando o sino exorta à prece,
quanta tristeza no adeus
do sol que desaparece.

Uma Canção Cearense
Ceará Terra da Luz

Imagina um lugar lindo todo colorido
pintado na mais bela tela pelo criador
Imagina o meu lugar dos sonhos o meu paraíso
As cores da felicidade sorrindo pra você
Imagina meu porto seguro minha alegria
Eu agradeço todo dia eu tenho amor e paz
Daqui o mundo é tão bonito pode ter certeza
Tanta beleza, não troco por nada
Eu sou feliz demais

E o sol iluminando os corações
E o verde do teu mar que me seduz
A tua maravilha encanta, eu posso me orgulhar

Porque eu sou cearense, porque sou brasileiro
Sou apaixonado pelo meu lugar
Eu trago no peito um amor verdadeiro
Eu sou da Terra da Luz, eu sou do Ceará!

Uma Trova de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Se você anda amargado,
tristonho, ou com grande dor,
procure ser "medicado"
por um Doutor TROVADOR!

Um Haicai de Pacatuba/CE
Artur Eduardo Benevides

Memória

Frio e solidão!
Lembro uma tarde em setembro.
Esperei-te, em vão.

Uma Trova de Fortaleza/CE
Francisco José Pessoa de Andrade Reis

Aquele pé de carvalho
plantado em minha lembrança,
cintila gotas de orvalho
quando me vejo criança.

Hinos do Brasil
Estado do Ceará

Letra: Thomaz Pompeu Ferreira Lopes

Terra do sol, do amor, terra da luz!
Soa o clarim que a tua glória conta!
Terra, o teu nome a fama aos céus remonta
Em clarão que seduz!
Nome que brilha - esplêndido luzeiro
Nos fulvos braços de ouro do cruzeiro!

Mudem-se em flor as pedras dos caminhos!
Chuvas de pratas rolem das estrelas
E despertando, deslumbrada ao vê-las
Ressoe a voz dos ninhos
Há de florar nas rosas e nos cravos
Rubros o sangue ardente dos escravos

Seja o teu verbo a voz do coração
Verbo de paz e amor do Sul ao Norte!
Ruja teu peito em luta contra a morte
Acordando a amplidão
Peito que deu alívio a quem sofria
E foi o sol iluminando o dia!

Tua jangada afoita enfune o pano!
Vento feliz conduza a vela ousada
Que importa que teu barco seja um nada
Na vastidão do oceano
Se à proa vão heróis e marinheiros
E vão no peito corações guerreiros?

Se, nós te amamos, em aventuras e mágoas!
Porque esse chão que embebe a água dos rios
Há de florar em messes, nos estios
E bosques, pelas águas!
Selvas e rios, serras e florestas
Brotem do solo em rumorosas festas!

Abra-se ao vento o teu pendão natal
Sobre as revoltas águas dos teus mares!
E desfraldando diga aos céus e aos mares
A vitória imortal!
Que foi de sangue, em guerras leais e francas
E foi na paz, da cor das hóstias brancas!

Um Poema de Águas Belas, município de Ipueiras/CE
Kideniro Teixeira
(Kideniro Flaviano Teixeira)
1908 – 2008, Santa Quitéria/CE+

A minha mestra    

          "Possa ao menos sentir tua presença
          nestes versos que escrevo, amargurado,
          ante a profunda, ante a sombria e imensa
          saudade de teu vulto idolatrado."
                    Homero de Miranda Leão

 Foi minha mãe a minha Mestra
que me ensinou a ler, em nosso humilde ninho;
eu era um menininho,
uma criança...
De minha mãe, exímia trovadora,
é de quem guardo esta divina herança.

Recordo agora,
que a sua voz se erguia,
branda e sonora,
como se fosse um sino
tangendo na alvorada fria
do meu Destino:

- Lê! Estuda! Lê, menino!
Era este o heróico estribilho
de cada dia:
- Lê! Estuda! Lê, meu filho!

Como era bela a minha Professora,
no seu vestidinho branco!
O coque alto, olhos castanhos
e esguias mãos da Virgem Redentora!

Somente agora sinto, e guardo, e tranco
no peito esta saudade imorredoura,
como se ouvisse. ainda. a sua voz sonora:
- Lê! Estuda! Lê, meu filho!

E eu que jamais velara o meu Destino,
quanto sofro e me deploro
para cantar minha procela...

E nem sabia, que um dia,
eu sentiria,
tanta saudade dela!

Uma Trova de Bela Cruz/CE
Giselda de Medeiros Albuquerque

O teu adeus, mesmo em sonho,
me aniquila de tal sorte
que, estando viva, suponho
estar nos braços da morte!

Um Poema de São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú/CE
José Alcides Pinto
(1923 – 2008)

Exercício Rimário “8”

Faço o verso
ligeiro
na direção do ponteiro

do segundo
ao minuto
um verso muito curto.

Que você
possa ver
e seu vizinho ler.

Sem multiplicidade
maior
dificuldade.

Escrevendo
com jeito
anotando os defeitos.

Com o gume
da faca
o morto na maca.

Pois de morte
(absorto)
vivo e vivo morto.

E como não sou
(nem fui)
nem serei - se conclui

por acaso
 (ventura?)
minha desventura.

Um Cordel de Fortaleza/CE
Ticiana Sales

Cordel de cearense

Em um tempo de fartura
O sertão hoje é guia
O contraste da labuta
Ainda existe, é primazia.

Há quem acredite no discurso
Que o sul a ele prometeu
Ôh sertão não chore não
Nessa terra de meu Deus.

Toda seca se transforma
A gaivota um dia volta
Pra essa terra abençoada
De cantoria e gente que não falta.

O nordeste venceu a seca
Quem disse que no sul ela não chega
A rachadura não é seu fim
Triste de quem pensar assim.

Nordeste de gente trabalhadora
Intelectuais que não precisam de apresentação
José de Alencar e Patativa do Assaré
Nomes graúdos e cheios de boa fé.

Nordeste não é sinônimo de seca
No sertão, água também lá chega
A cheia atravessa o luar
Vindo dos céus e não encontra o mar.

Tomara que toda gente saiba
Que o nordeste não é calamidade
Aqui tem gente de muita coragem
Que sobrevive além da miragem.

Cearense de povo apaziguador
Nas veias, trazendo o humor
Um dia desses deram uma vaia pro sol
Tangeram a seca, buscaram orós!

Eu como boa cearense que sou
Demonstro meu profundo e louco amor
A essa terra que milagre faz
Ceará, nordeste, sertão nunca mais!


Agora que tu partiste
e a saudade está chegando,
desculpe o meu verso triste,
minha musa está chorando!...

Amarela é a cor mais bela
e é fácil de soletrar:
- é bastante unir com "Ela",
as letras do verbo "Amar"!...

Ante o medo que angustia,
talvez a grande mensagem,
fosse a que Deus nos diria ...
- Coragem, filho, coragem ...

Ao se pesar, a Constança,
que é gorda e não pesa pouco,
comenta, sobre a balança:
- Esse ponteiro está louco!...

Aos sonhos nunca se apegue,
que eles se vão de repente...
e sonho que se persegue
é o que mais foge da gente!...

As musas, não posso vê-las...
vivem num mundo distante...
mas posso além das estrelas
ouvi-las a todo instante

Bonança e paz sobre a terra
é tudo que peço a Deus,
para que as armas de guerra
virem peças de museus.

Buscando instantes felizes
pelos caminhos tristonhos,
foram tantos meus deslizes
que tropecei nos meus sonhos!...

Castigado desde cedo,
tanto apanhei do destino,
que nunca tendo um brinquedo,
nem lembro que fui menino.

Chegada bem mais feliz,
bem mais alegre, suponho,
é a de quem faz o que eu fiz:
- cheguei trazendo o meu sonho!...

Creio em Deus, unicamente
não ando rezando à-toa...
- tenho uma alma que sente
e um coração que perdoa!

Dando na alma embevecida,
laços de amor e amizade,
fui, na jangada da vida
um pescador de saudade!...

Dentro da noite inclemente
De frio intenso e garoa,
o agrado de um beijo quente
garante que a noite é boa!...

Dói a saudade em meu peito
e eu canto, não silencio...
Quanto mais pedras no leito
mais alto o canto do rio!

Dos ideais o maior
é viver, lutar, e, após,
deixar um mundo melhor
aos que vêm depois de nós.

Dos jogos o mais nocivo,
até hoje, em meu caminho,
tem sido o rebolativo
da mulher do meu vizinho!

Enquanto o Zé Liberato
sai em busca da gatinha,
pela janela entra um gato
que janta a sua sardinha!

Era uma vez uma dona
que andava a pé, sem ninguém;
e tanto pediu carona,
que ganhou carro também! ...

Esta saudade infinita
do amor que a gente viveu,
é a mensagem mais bonita
que o meu passado viveu!...

Feito de essência divina
e fluidos de eternidade,
um grande amor não termina,
mas se transforma em saudade!

Feliz é quem, pela vida,
envelhecendo sem fugas,
alegre e de fronte erguida,
zomba do espelho e das rugas.

Já diz o velho ditado,
que lenha verde e viúva,
com paciência e cuidado
pegam fogo até na chuva!...

Mensagem que se recebe
e nos enche de quimeras,
é aquela em que se percebe
que as palavras são sinceras

Meu sonho em mágoa desfeito,
tão grande fez meu desgosto,
que não cabendo em meu peito
se fez pranto no meu rosto!...

Minha irmã conta as topadas,
que já deu pelos caminhos,
pelas pedras arrancadas...
- E eu conto, pelos sobrinhos!...

- Na carta que ela me fez,
nas reticências sem fim,
a incerteza de um "talvez"
dá-me esperanças de um "sim"...

Na farmácia, ao ver o busto
da balconista, hesitante,
em vez de xarope, o Augusto
pediu mesmo foi calmante!...

Na linha desta saudade,
que é tua e também é minha,
nós somos nós de verdade
nas duas pontas da linha!

Na luta contra a cobiça,
mantendo na alma a esperança,
meu desejo de justiça
é maior que o de vingança!

Não busques falso tesouro
se bens duráveis garimpas...
Nem sempre as mãos que têm ouro
e pedras raras, são limpas...

Não condeno o revoltado
que defende seu direito...
– revolta de injustiçado,
merece todo respeito!

Não preciso, mãe, no templo,
rezar tanto de joelhos...
- Minha luz é o teu exemplo,
minha prece os teus conselhos!...

Na tua ausência, ao meu lado
em cima da nossa mesa,
o candelabro apagado
mantém a saudade acesa.

Na tumba da falecida,
o esposo ciumento, à porta,
murmura: - Volta, querida.
E ela responde: - Nem morta!

Nem ouro, nem pedra rara,
nada que vem do garimpo,
vale um fio de água clara
no leito de um rio limpo...

No momento doce e breve
que a inspiração nos invade,
dos versos que a gente escreve,
a musa escreve metade!...

Num armário sem conforto,
do qual não guardo saudade,
guardado, me fiz de morto,
pra não morrer de verdade...

O meu cansaço é tamanho,
que, na mesma caminhada,
eu quase não acompanho
minha sombra na calçada!

Partiste, chorando tanto,
no teu rumo oposto ao meu,
que, solidário ao teu pranto,
o céu fechou-se... e choveu...

Partiste, cigana errante,
e de uma noite em teu leito,
restou-me um sonho distante
e esta saudade em meu peito!...

Peço a Deus que o tempo corra,
e corra a nosso favor,
para que este amor não morra
antes que eu morra de amor!…

- Pelas ruas da lembrança,
nas cirandas das calçadas,
saudade, sonho e esperança,
brincam juntos de mãos dadas!

Pelos motivo da guerra
e pela falta de pão,
não culpo quem fez a terra,
mas quem fez a divisão.

Quando a lei se faz omissa
e a impunidade se solta,
do silêncio da justiça
surgem gritos de revolta...

Quando a noiva viu a cama
que a esperava pra dormir,
mandou sustar o proclama
e desistiu do faquir!...

Quando a vida se complica
nas horas de solidão,
amigo é aquele que fica
depois que os outros se vão.

Quando a voz de um pai ressoa
e a de um filho abaixa o tom,
conselho é semente boa,
plantada em terreno bom!

Quando instantes de carinho,
trazem saudades depois,
lembrança é viver sozinho
de um sonho vivido a dois.

Quando não vens, na ansiedade
desses momentos perversos,
vem a musa da saudade
pôr mais saudade em meus versos.

- Quando o amor se faz lembrança
e a solidão nos invade,
ou se vive de esperança
ou se morre de saudade...

Quem não aprende em menino,
tem que aprender na velhice,
que ter pai pobre é destino,
mas sogro pobre é burrice!…

Sambando quase pelada,
no 'No bloco do vai sem medo",
Paulete foi mais cantada
que o refrão do samba enredo..

Sempre que a vida me nega
segurança nos meus passos,
minha esperança me pega
e me carrega nos braços!

Sendo orador de alta escala,
é tão profundo e erudito,
que a gente, quando ele fala,
só entende o... "tenho dito".

Se o telefone falasse
o que nele a gente fala,
duvido que alguém deixasse
o telefone na sala!...

Somente um bem acontece
quando a gente cai doente:
doente é que se conhece
quem é amigo da gente.

Sou de onde o vento trabalha,
lá onde a brisa fagueira
embala de leve a palha,
beijando a carnaubeira! ...

Teimei no amor... e errei tanto
na teimosia de amar,
que eu mesmo não sei mais quanto
errei tentando acertar!...

Teu olhar... a voz macia...
tuas promessas de amor...
- são notas de fantasia
na pauta da minha dor.

Vencendo o tempo e a distância,
mensagens da mocidade,
sempre nos trazem da infância,
saudade ... muita saudade...

Volátil, discreta e doce,
no instante certo, presente,
a musa é como se fosse
o anjo-da-guarda da gente…

Fazendo Versos, em Gotas (16)

Como Escrever uma Sestina – Parte 2
por MGóes, Chrystian Sales

*  Dê uma olhada em exemplos de sestinas escritas por outras pessoas. Isso lhe ajudará a ter uma ideia de como elas são escritas e como elas podem soar.

*  Escolha 6 palavras. Geralmente é uma boa ideia incluir pelo menos um verbo. Existem várias maneiras de decidir que palavras você quer, por exemplo, você poderia escolher 6 palavras aleatórias. No entanto, muitas vezes é útil criar uma lista de palavra:

*  Faça uma lista de 100 (ou mais) palavras. Inclua todos os tipos: verbos, substantivos, adjetivos, etc. Você pode usar palavras comuns, porém muitas vezes é mais divertido incluir também palavras mais exóticas ou desafiantes (como lugares ou adjetivos incomuns).

*  Anote-as separadamente em pedaços de papel. Coloque um elástico ao redor deles, ou deixe-os juntos em algum lugar onde você não possa perdê-los.

*  Você pode expandir sua lista ao longo do tempo para incluir mais e mais palavras. Dessa forma, você terá uma grande variedade para escolher e os seus poemas ficarão mais diversificados.

*  Identifique cada palavra com uma letra (A, B, C, D, E ou F). Às vezes, a ordem faz uma enorme diferença no resultado final do seu poema.

*  Escreva a primeira estrofe. Muitas vezes você pode ter uma ideia do poema na primeira estrofe. Às vezes, pode parecer muito aleatório e estranho, mas tente continuar a escrevê-lo de qualquer maneira. Você sempre pode revisá-lo mais tarde.

*  Continue a escrever o poema, certificando-se de seguir o padrão de linha.

*  Seja criativo(a) com a finalização de cada linha. Por exemplo, elas nem sempre precisam ser frases completas - a última palavra poderia fluir para a próxima linha.

*  Edite seu poema como achar melhor - às vezes, ele pode não soar muito bem ou não fazer sentido.

*  Pratique escrevendo mais sestinas. A única maneira de realmente dominar essa forma de poesia é escrever várias sestinas.

*  Use diversas palavras em sua sestina para criar uma poesia ainda mais rica. Mesmo que isso possa ser mais desafiador, no final, é muito mais divertido e soa muito bem quando lida em voz alta. Você pode usar algumas palavras comuns, mas também utilizar algumas incomuns - de que maneira o seu poema será emocionante e dinâmico.

*  A parte mais importante de uma sestina é o padrão de linha. Se você não seguir o padrão, você não estará escrevendo uma sestina!

*  Sestinas não são concebidas como poesia com rima, porque o ritmo e padrão faz com que seja difícil manter uma rima constante. Você pode tentar rimar, se quiser, contudo, concentrar-se mais em imagens pode dar um melhor resultado.

*  Tente combinar palavras que normalmente não se relacionam. Por exemplo, você poderia usar estas 6 palavras: Cante, viagem, borboleta, veludo, infinito e vermelho. Enquanto elas podem parecer não se relacionarem e difíceis de usar, a diversidade permite uma maior criatividade e expressão.

*  Tente incluir cores em suas palavras. Ter pelo menos uma cor pode fazer toda uma diferença, dando aos leitores uma impressão visual tornando a sestina mais interessante.


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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