Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 250)




Uma Trova de Curitiba/PR
Paulo Walbach Prestes

Natureza: chora e grita
pelo mal que o homem faz...
A ganância mata e excita
e o planeta clama paz!

Uma Trova de Caicó/RN
Prof. Garcia

A fumaça densa e forte,
já causou tanta desgraça,
que o poeta pintou a morte
do Sol, na própria fumaça!

Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ
Sérgio Bernardo

Vovó fez rir a torcida,
e a gincana quase "fura":
- Quando a maçã foi mordida,
levou junto a dentadura

Uma Trova de São Paulo/SP
Héron Patrício

A saudade é um passarinho
em teimosa migração...
vem do passado, e faz ninho
nos beirais do coração.

Um Poema de Florianópolis/SC
Ângela Moraes Souza

“Errei”

Errei.
Errei sim.
Meu grande erro
foi acreditar
mais em você
do que em mim.
Minhas verdades
eram tão duras.
Preferi crer
que as suas mentiras
eram puras.
Hoje, não erro mais.
Minhas verdades
são puras.
Suas mentiras,
só suas.

Uma Trova Hispânica  da Venezuela
Luís Alfredo Rivas Mazzei

Ventana con cara hermosa,
coqueta en la noche quieta
de ternura silenciosa
es la novia del poeta.

Um Poema de São Paulo/SP
Djalma Silveira

Como somos nós

Rompeu-se, então,
O véu de seda
Azul do céu
Que antes como
Nos guarnecia

Nos vimos, pois
Nus na terra
De modo que
Nos descobrimos
Comuns e primos

Depois de orarmos
Nos santuários
Nos entregamos
Sem mais sabermos
Quê, então, seríamos

Assim, morremos
Ao percebermos
Que não podíamos
Sem mais delongas
Sem velas santas
Nem outras tantas
Abstrações
Sobreviver

Saltando abismos
Caminhos íngremes
Vivendo os vermes
Dos intestinos
Não desistimos
Pois de existirmos
Sem compreender

Sem, pois, mais “ismos”
Sem mitos íntimos
Seguindo os ritmos
Nos divertíamos
E, simples, ríamos
De nós mesmos
Sem ter por quê

Trovadores que deixaram Saudades
Miguel Russowsky
Santa Maria/RS (1923 – 2009) Joaçaba/SC

Estrofes são caravelas
que singram os pensamentos.
Com as rimas, faço as velas,
com as sílabas, os ventos.

Um Poema de Belo Horizonte/MG
Glória Horta

Laços

Ele deve ser um pouco mais velho.
Ela, um pouco mais baixa.
Ele, um pouco mais rico.
Ela, um pouco menos inteligente.
Ela deve parecer um pouco mais feliz todos os dias
porque não trabalha.
Ele paga: manda
Ela acha feio a mulher pagar.
Ela quer um Homem  + forte
                                        + velho
                                        + alto
                                        + rico
                                        – burro     que pague para ela.

Ela pensa que pensa.
Ela pensa que quer.

Ela pensa que acha
que é bonita a submissão, a dependência, a coqueteria.
Mas ela não conhece outra forma.
Ela tem medo de crescer e ficar maior
do que pensa ser seu próprio tamanho.
Quando cresce não cabe em si
de culpa e dor.
Ela pensa que pensa que está tudo bem:
                                                 o alpiste vem na hora certa
                                                 bate sol de manhã na gaiola.

Ela pensa que pensam que...

Uma Trova de Cantagalo/RJ
Ruth Farah Nacif Lutterback

Ante às agruras da vida,
não se entregue facilmente:
Após a névoa temida,
o "sol" brilha novamente.

Um Haicai de Curitiba/PR
Mário Zamataro

Vento e movimento:
nada está parado agora…
Uma folha dança.

Um Poema de Rio Claro/SP
José Eduardo Seregato

O paraíso possível

Memórias em silêncio
ladeada de paisagens
onde esqueço o tempo

O aroma das flores inspira
o espírito a vigiar comigo...

Com a experiência do novo
destituo o tédio

Não, não sou só mais um
a assumir o monólogo
do previsível e da lógica...

Sou o ator principal
da minha existência
e faço do meu céu
o paraíso possível

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Alves da Silva

As fábricas, num delito,
soltam nuvens de carvão
e o homem busca o infinito,
repintando o sol em vão...

Uma Cantiga Infantil de Roda
Castanha ligeira

É uma roda de meninas, com uma no meio.
Cantam todas, enquanto passam de mão em mão, sem que veja a do centro, uma castanha:

Castanha ligeira
Que vem do Pará
No meio da roda
Ninguém te achará
Roda, castanha
E torna a rodar
No meio da roda
Ninguém te achará

Enquanto cantam, a menina do meio vai procurando a castanha nas mãos das amiguinhas, até achá-la.
A que for encontrada com a castanha, passa então a ficar sozinha na roda, na vez seguinte.

Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo, Departamento de Cultura, 1953

Um Poema de Niterói/RJ
Maria Helena Latini

Disciplina

Disciplina,
fio de prumo:
Duro percurso
de repetir
repetir
na paciência
de relojoeiro
com ajustes
suor
rigor
certeiro olhar
alvo e dardo
na busca constante
da precisão,
ponto exato.

Uma Aldravia de Curvelo/MG
Afonso Guerra-Baião

o
rio
dorme
a
vida
corre

Uma Trova de Fortaleza/CE
Francisco José Pessoa

Dos artigos que componho
nas minhas noites sozinhas,
fazes parte do meu sonho
abraçada às entrelinhas.

Recordando Velhas Canções
Saudades de Itapoã
(canção, 1948)

Dorival Caymmi

Coqueiro de Itapoã, coqueiro
Areia de Itapoã, areia
Morena de Itapoã, morena
Saudade de Itapoã me deixa

Oh vento que faz cantiga nas folhas
No alto dos coqueirais
Oh vento que ondula as águas
Eu nunca tive saudade igual
Me traga boas notícias daquela terra toda manhã
E joga uma flor no colo de uma morena de Itapoã

Coqueiro de Itapoã, coqueiro
Areia de Itapoã, areia
Morena de Itapoã, morena
Saudade de Itapoã me deixa
Me deixa, me deixa...

Um Haicai de São Paulo/SP
Edson Kenji Iura

Primavera

Chuva de primavera —
O casal na correria
rindo sem parar.

Uma Trova de Bauru/SP
João Batista Xavier

Meu barco à deriva assume
ao abraço do arrebol
na fuga do teu ciúme
que fingiu ser meu farol!

Hinos de Cidades Brasileiras
Goiânia/GO

Letra: João Luciano Curado Fleury
Melodia: Anatole Ramos        

Vinde ver a cidade pungente
Que plantaram em pleno sertão
Vinde ver este trono gigante

Construída com esforços de heróis,
É um hino ao trabalho e à cultura
E seu brilho qual luz de mil sóis
Se projeta na vida futura.

Capital de Goiás foi eleita
Desde o berço em que um dia nasceu;
Pela gente goiana foi feita
Com um povo adotado cresceu.

Estribilho

Vinde ver a Goiânia de agora
A cumprir seu glorioso destino,
Brasileiros e gente de fora,
E cante, vós também, o seu hino.

Um Poema de São Paulo/SP
Renata Pallottini

A mãe

Meu filho está na sarjeta
Alguém matou o meu filho
Tinha poucos anos e
Poucas culpas, o meu filho

Era drogado e  vencido
O meu filho; e era  moço
Igual aos  outros, meu filho  
Era carne, pele e osso.

Ninguém me disse por que
Alguém matou o meu filho.
Acho que a alguém molestou
Acho que alguém o marcou
Para morrer, meu menino.

Eu o pari, como sempre
soem parir as mulheres;
com dor e com esperança
como nascem as crianças.

Alguém o ensinou a usar
Isso que usam os malditos.

Dinheiro sempre; dinheiro.
Dinheiro e o gozo da vida
Muita  festa e muito ruído
E um amor mal resolvido.
Não sei dizer mais do que isso.
Não sei dizer. Está dito.

Uma Trova de Bragança Paulista/SP
Lola Prata

Vendo a saudade deitada
no sofá de minha sala,
levanto e saio, calada,
com medo de despertá-la...

Um Poema de Belo Horizonte/MG
Tânia Montandon

Saudades do esquecido

Oh tempo que passou...
Se já existisse o videocassete
Para imagens que o ser gravou
Dentro de si no canal sete

Oh tempo que passou...
Quantas infinitas vezes
Perco porque não rebobinou
As dos lindos cavalos monteses?

Oh tempo que chegou...
Como é triste e avarento
Só tragédias e desalento

Oh tempo que chegou...
Passa por sobre o filme
O anjo que ali voou

Trovador Destaque


A droga foi seu arpéu,
sem destino, destroçado,
vagueia na rua, ao léu,
até quando for "levado"!

Antes do quebrar da barra,
ao canto do caboré,
sussurrando, ela me agarra,
dizendo: hora do café!

Ao relento, relegado,
negado pelo destino;
hoje vive escravizado,
coitado; que desatino!

Ao ver a imagem singela
do barco, tranquilo, ao mar,
lembrei-me: não há procela
que Deus não possa acalmar!

Chorando, segue o andarilho
solitário, a sua dor;
de deixar pra trás um filho,
fruto de um fugaz amor!

Com talento e sutileza
no salão, "a media luz",
o casal mostra a leveza
do belo tango andaluz!

Coração, enquanto bate,
é vida, amor e paixão;
mas depois que ele se abate,
é vela, choro e caixão!

Correndo, desesperado,
de mala e chapéu na mão,
o passageiro, coitado,
perdeu o trem... e a razão!

Deixe a Natureza em paz,
rapaz, tenha mais juízo; 
pois isso que você faz
demonstra falta de siso!

Descendo esta escadaria
Onde ela vai me levar?
Se eu soubesse eu desceria;
Como não sei, vou ficar!

Despertando, reparei
a "louça" já preparada
em nossa cama, e tomei
o "Café" da madrugada!

De toda trova legenda
que já fiz na minha vida
esta veio de encomenda,
pois não dei nem a partida!

De tudo que eu aprendi
pra chegar a ser “doutor”,
se, bem, eu o compreendi:
devo muito ao Professor!

Deus me livre, por um dia
me faltar um Livro à mão;
de tristeza eu morreria,
em pungente solidão!

Deus, o Poeta dos Poetas,
é TROVADOR; e em poesias
manda-nos netos e netas
para encher-nos de alegrias!

Dizem, com propriedade,
que a saudade é inexplicável;
explica-se: na verdade,
o senti-la é indecifrável!

Dois minutos, Cinderela;
está chegando o momento!
Não vá cair na esparrela
de esquecer o encantamento!

É noite, e a brisa do sono
sopra, mansa e sorrateira;
em seus braços me abandono,
enroscado, a noite inteira!

Entre lágrimas e risos,
respostas às emoções,
liberamos sentimentos
represos nos corações!

Férias! Ah, sim, bem eu sei,
que és bem merecedora;
mas, cá, não esquecerei
de ti, grande trovadora!

Homem, mau, vil e perverso;
toda vez que tu desmatas,
mesmo em nome do progresso,
é a ti mesmo que tu matas!

Já não suportamos mais
ver os nossos pequeninos,
nas mãos destes marginais:
traficantes-assassinos!

Lancei minha rede ao mar
e pesquei bela sereia
que comigo foi deitar
noutra rede, em plena areia!

Maranguape a tua glória
são teus filhos de valor;
foi Capistrano, na História,
e Chico Anísio, no Humor!

Na mata o machado bate
forte pra tirar "madeira";
e assim o "homem" abate,
uma a uma, a mata inteira!

Na mão o toco de giz,
na outra, o apagador;
na assistência o aprendiz,
no tablado o Professor!

Não "curta" a sua velhice
dando voz ao seu lamento;
deixe dessa "caduquice"
seu "velhote" rabugento!

Não queiras por teu amigo
quem não pode ser provado
no dar água, pão e abrigo,
para alguém necessitado!

Na solidão do meu eu,
fugindo da realidade,
meu pensamento varreu
da mente toda verdade!

No céu, as nuvens, e as flores,
no campo; um quadro sem par.
É Deus tingindo de cores
a Primavera a chegar!

Nos bailes não dava trela,
e a todos dizia não;
mas no fim foi a donzela
quem "dançou": ficou na mão!

Nos braços do seu amor,
loucamente apaixonada,
ela sente o seu calor
mesmo sob a chuvarada!

O ato de ler praticado
com prazer, pelo leitor;
no final, seu resultado,
assemelha-se ao do amor!

O bailarino, indeciso,
na chuva, dá mil volteios;
e o lampião diz, bem preciso:
homem, deixe de rodeios!

O envelhecer é sublime
presente a nós concedido
por Deus; o que bem exprime:
Dele, ninguém é esquecido!

Olhando com bem clareza
pras marcas do seu herdeiro,
já não tem tanta certeza
de ser o pai verdadeiro!

Olho azul, branco e lourinho
o filho do "Zé Negão"
lembrava mais o vizinho;
coitado, tinha razão!

Os dois silentes, colados,
corações a palpitar;
olhares apaixonados...
já pensou no que vai dar?

Para cuidar da saúde
com desvelo e competência
busco Médico amiúde,
amigo, de preferência!

Passei horas meditando,
pensando no que dizer;
terminei nada compondo,
sem nada para escrever!

Perdido na multidão
das ruas, sem ter alguém
que ao menos lhe estenda a mão;
não passa de um "Zé Ninguém"!

Pintor, por que teimas ver
o teu sol onde ele não
pode mais aparecer,
vítima da poluição?

Por aqui passava um rio
caudaloso e pleno em vida;
hoje mal se vê um fio
d'água suja e poluída!

Quando chove no sertão
o sertanejo se apega
ao santo de devoção,
esperando pela sega!

Quem ama a literatura,
e a ela se entrega, tem
prazer não só na leitura,
mas, no produzir, também!

Quem busca noiva, é preciso
que tome muito cuidado;
procure uma de bom siso,
pra não terminar "ornado"!

Quem corta, na natureza,
árvores sem precisão,
destrói-a e deixa-a indefesa;
é um ser sem coração!

Selva: bela e exuberante;
cria, de rara beleza,
de Deus que, naquele instante,
nominou-a... Natureza!

Sem um "pingo" de pudor
o mar fita a lua, arfante,
clamando: vem meu amor,
quero te ter por amante!

Ser Poeta neste mundo
é cultivar nele o Amor;
sentimento mais fecundo
na vida do TROVADOR!

Se tu estás velho, também,
mais perto de Deus tu estás;
tem tu, pois, por grande bem
ser velho, e bem viverás!

Se você anda amargado,
tristonho, ou com grande dor,
procure ser "medicado"
por um Doutor TROVADOR!

Se você sofre de tédio
só tem um jeito: tomar
TROVADOR, santo remédio;
e seu tédio vai passar!

- Solta-me! Clama o navio
ao cais que o faz prisioneiro;
- deixa-me sair vadio
pelo mar... que é meu parceiro!

Tem coisas que não se explica
na vida de um TROVADOR;
uma: é quanto ele mais fica
só, mais cultiva o Amor!

Tem Poeta nesta terra
que seus versos dão prazer
de lê-los, pois ele encerra
numa Trova o seu dizer!

Tem quem só quer receber
para si o que é melhor,
porém ao aparecer
chance pra dar: dá o pior!

Toda noite o seresteiro
aguardava a madrugada
para declarar, faceiro,
seu amor à sua amada!

Todo livro deve ter
"título" bem eficaz...
pois não é que o meu vai ser:
Leia-me... (se for capaz).

Triste sina a da criança
deste meu Brasil gigante;
vive “presa” na esperança
de escapar do traficante!

Uma folha de caderno,
um lápis, e a inspiração,
bastam ao trovador terno
pra lhe abrir o coração!

Vendo a imensidão do mar
pensei cá, com meus botões:
se esta turbina falhar
tem "janta" pros tubarões!

Vindo de tão longe, não
se deu conta que chegara
ao seu velho e antigo chão,
que há muito tempo deixara!

Voa, canário indeciso,
o que esperas; afinal
seres liberto é preciso,
mesmo pensando irreal!

Três Trovas sem Pé nem Cabeça

Sem barulho, corta o céu
por entre as nuvens, um trem,
levando pro beleléu
a lua, e o sol também!

Era noite e a lua cheia,
viu chegar a madrugada,
trazendo o sol, em candeia,
deixando-lhe "encandeada"!

Não deixe a coisa ficar
do jeito que já não dê
pra você, um jeito dar,
no sujeito que é você!

Teia de Trovas sobre o Limão

No meio do laranjal
que plantei lá no sertão
deu-se um fato especial:
só foi colhido limão!

Recebendo este recado
do presidente Alencar
vou tomar maior cuidado
quando limão for provar!

Trovando e tirando as provas
deste fato memorável;
provei, brincando com trovas,
de que o limão é saudável!

Ao tomar a limonada
vá bebendo devagar
sorvendo cada golada
pro seu gosto apreciar!

Pode até não ser remédio
mas não dê cavaco não;
agora, ao chegar o tédio
o remédio é... com limão!

Cabe a cada cidadão
interpretar os pontinhos
desde que o "velho" limão
não falte nos pingadinhos!

Se você não é chegado
a quaisquer pingas, então:
esqueça logo o pingado
e chupe, puro, o limão!

Quem muito chupa limão,
dizem alguns entendidos,
melhora a "disposição":
aceito seus desmentidos!

Fazendo Versos, em Gotas (25)

Como Escrever um Limerique (Parte 2, final)

* Os versos podem começar com duas, uma ou ocasionalmente nenhuma sílaba átona. Alguns preferem continuar o ritmo de uma linha para a próxima, especialmente quando uma frase continua na linha seguinte, mas isso não é essencial.

*     Escolha o fim do seu primeiro verso, geralmente um lugar. Por exemplo, São “Pau”lo. Note que a primeira sílaba de Paulo é tônica, resultando em uma sílaba curta no fim do verso. Outro exemplo: Bau”ru”. Note que a segunda sílaba de Bauru é tônica.

*     Pense em diversas palavras que rimem com o fim do primeiro verso. Deixe a história e a graça do seu limerique se originarem das rimas que pensar. Desse modo você vai parecer engraçado, espirituoso e esperto. Exemplo 1: Como a sílaba tônica de Paulo é a primeira, você terá que rimar a palavra toda. Algumas palavras que vêm à mente: alto, falo, calo, calvo, fidalgo. Exemplo 2: Em Bauru a sílaba tônica é a segunda, então você só precisa encontrar uma rima para ela. Algumas palavras que vêm à mente: Canguru, azul, jaburu, baiacu. Anote sua própria lista.

*     Faça associações com as palavras rimadas. Exemplo 1: Com palavras como alto, calvo e fidalgo você pode fazer um limerique sobre um senhor e suas qualidades. Exemplo 2: Com a combinação azul, baiacu e jaburu, você pode pensar em um limerique sobre animais coloridos. Vá pela lista que criou e invente pequenas histórias sobre o que pode ter acontecido e como suas ideias podem estar relacionadas.

*     Escolha uma história que te atraia, e decida quem é a pessoa que você introduz no primeiro verso. O que é importante sobre ela? Você vai se concentrar na profissão ou status social dela, ou na idade, saúde ou fase da vida? Exemplo 1: Para o limerique de São Paulo, você pode escolher a palavra “idoso.” Exemplo 2: Para o limerique de Bauru, você pode escolher “animais”.

*     Escreva o primeiro verso de acordo com a métrica. Exemplo 1: A sílaba tônica de idoso é a segunda. Em São Paulo, a sílaba do meio é a tônica. Isso significa que precisamos de mais três sílabas, e a do meio deve ser tônica. Então temos: “Um homem idoso de São Paulo.” Exemplo 2: Animais é formado por duas sílabas curtas e uma longa. Combinado com Bauru, isso nos deixa com quatro sílabas restantes. Você pode resolver isso, por exemplo, assim: Animais no fogão em Bauru.

*     Escolha uma situação ou ação com a qual começar o limerique. Esse é o início da sua história ou piada. Use uma das rimas da lista. Exemplo 1: “Um homem idoso de São Paulo, era bom, mas um tanto calvo.” Exemplo 2: “Animais no calor de Bauru, era um cachorro e um baiacu.” Note como a rima no verso 2 parece se adequar com o assunto do verso 1, quando na verdade é o contrário.

*     Pense em uma reviravolta para sua história, tendo em mente as rimas do terceiro e quarto verso, mas salve a piada para o último verso. Exemplo 1: Algumas partes da história podem ficar avacalhadas, já que limeriques muitas vezes beiram o obsceno. Por exemplo, você pode fazer os hormônios do herói se descontrolarem (sem deixar muito explícito). Que tal: “Ele sempre sonhava, que uma moça amava ”? Exemplo 2: Pensando em baiacu e jaburu, você pode ter percebido como animal é uma palavra com muitas rimas.

*     Volte para a sua lista de rimas e encontre uma boa para encerrar a história com uma boa piada. Essa é a parte mais difícil. Não desanime se os seus primeiros limeriques não são engraçados o bastante. Lembre-se primeiramente de que é tudo uma questão de gosto e em segundo lugar: tudo precisa de prática. Exemplo 1: “Um homem idoso de São Paulo, era bom, mas um tanto calvo. Ele sempre sonhava, que uma moça amava, mas ele caiu do cavalo.” Exemplo 2: “Animais no calor de Bauru, era um cachorro e um baiacu.” “Foram cozidos, quase comidos, mas tinham sabor de jaburu.”

*     Passe por todo o alfabeto para achar rimas. Isso vai te ajudar a lembrar rapidamente de um grande número de rimas. Por exemplo, pegue a palavra “Wiki” e troque o W por todas as letras do alfabeto. Quando você tiver passado mentalmente por todas as 26 letras, você terá: dique, fique, pique, tique. Também há dicionários de rima que podem ajudar.

*     Tente começar a primeira linha com “Era uma vez um ____ de ____”. Assim fica mais fácil.

*     Escolha animais, plantas ou pessoas como tópicos no começo. Não comece com nada abstrato demais.

*     Se você estiver sem saber como continuar, tente dar uma olhada em alguns limeriques que outras pessoas escreveram. Os limeriques de cada escritor tem sua atmosfera especial. Você nunca sabe qual deles pode quebrar seu bloqueio de escritor.

*     Bata palmas quando ler seus limeriques em voz alta. Isso vai te ajudar com a métrica do poema, e a verificar se está com o ritmo certo.

*     Leia alguns limeriques de Sousândrade.

*     Poemas de amor são difíceis de escrever. Limeriques são piadas, não poemas de amor.

*     Quando você tiver dominado o básico, experimente rima interna, aliteração ou assonância para deixar seu poema ainda mais especial.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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