Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 253)




Uma Trova de Curitiba/PR
Maurício Norberto Friedrich

Num relógio, vendo a hora,
no outono de minha lida,
vejo que não há demora
no ocaso de minha vida!

Uma Trova de Tremembé/SP
Loris Turrini

Este manto que carregas,
como bandeira estendida,
é vitória das refregas
que enfrentaste nesta vida!

Uma Trova Humorística de Sete Lagoas/MG
Célia Guimarães Santana

O guri, a todo dia,
uma vidraça quebrava.
O seu pai empobrecia...
E o vidraceiro enricava!

Uma Trova da Argentina
Libia Beatriz Carciofetti

El cielo es una ventana
donde Dios suele mirar
a esta pobre raza humana
y aun así llegarla amar.

Um Poema de Maringá/PR
Antonio Mário Manicardi

Tormento da Noite

Quantas noites
eu passo acordado
com os olhos fechados
e o sono não vem!…
Nesta horas
que a tristeza invade
eu sinto saudade
do meu querido bem.

Tormento da noite
me deixa nervoso
meu ser amoroso
me maltrata assim!…
Se acaso adormeço
o sono é um lampejo
eu sinto que a vejo
bem junto de mim.

Estribilho:
Vem, vem querida
nestas noites tristonhas que eu passo
vem em sonho trazer-me guarida
vem em sonho dormir nos meus braços.

Eu falo com ela
nos sonhos que faço
aperto-a em meus braços
com tanta emoção
se acordo de novo
com tristeza a chamo
a mulher que amo
não esqueço não.

Uma Trova de Caxias do Sul/RS
Alice Brandão

Que saudade dos brinquedos
do meu tempo de criança,
tendo os risos e folguedos
como arautos da esperança..

Um Poema e uma Trova de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

Fruta da Semente

Não meças nela o trabalho,
pois colheita é contingente,
mas quanto, de orvalho a orvalho,
tu já plantaste… em “semente”…

De sol a sol, firmando as mãos no arado,
suor pingando, ao solo se entregava…
– Hoje, um trabalho rude e ultrapassado
do lavrador, que a terra cultivava.

Com grande afinco e sempre atarefado,
fazia os sulcos, com as mãos semeava
e, esperançoso a capinar, cansado,
o agricultor, temente a Deus, rezava…

Pedia chuva para aquela empreita,
o pensamento firme na colheita,
depois que via germinando o grão…

E desejava, então, ardentemente,
ver pão na mesa, fruto da semente,
que enverdecera todo aquele chão!

Trovadores que deixaram Saudades
Aparício Fernandes
Acari/RN (1934 – 1996) Rio de Janeiro/RJ

Pensando na tarde calma
logo me ocorre à lembrança
que a própria vida tem alma,
e a alma da vida é a esperança!

Um Poema de Guaraci/PR
Marco Aurélio Cremasco

Monólogo de um pé-vermelho

amanheci o céu na grama amarelecida
só para comê-lo com pão e margarida

já bem tarde, cansado de ser caçado por uma sombra,
rejeitei as sombras de ser ninguém para ser sol na face de alguém

meio urbano meio caipira tangi vinte liras
fora de moda, pois a moda não é violeta, é de viola

fiz-me assim para ser celestino longe do Nepal
caçar rimas e colher sons é uma preferência nacional

nesta noite, quando muitos brigam por sobremesa,
fico de tocaia no prazer de virar a mesa

esfomeado, aguardo a saci astronauta
para completá-la na perna que lhe falta

saciado, adormeço no seio de um riacho
para acordar numa cama de capim

e assim tudo será como sempre foi:
olhar de índio velho sorriso de Curumim

Uma Trova de Arapongas/PR
Maria Granzoto da Silva

A tristeza que me invade
e que nunca chega ao fim,
é fruto de uma saudade
que nasceu dentro de mim.

Um Haicai de São Vicente/SP
Giovanni Aviz da Costa

No jardim da casa
Entre azaleias floridas
Eu tiro uma foto.

Um Poema de Curitiba/PR
Greta Benitez

Anjo de emergência

Quando entrei em desespero
me deram um anjo arranjado às pressas
nascido da água da chuva
numa poça d'água no meio da rua.
O anjo tinha um ritmo alucinado
às vezes falava demais, depois ficava calado
e cantarolava um fado.
Em dias de chuva se vestia de luz azul
E quando o sol batia, se sentia melancólico
e colocava um casaco vermelho metálico
esperando se alegrar.
Cheio de problemas psicológicos
aceitava a ajuda de psicotrópicos de capricórnio
para enfrentar a noite americana.
Ele diz que é muito difícil
desempenhar bem o seu ofício
e se alimentar de fogos de artifício.
E que o tédio também bate
no seu coração mole de chocolate.
Mas continua aqui
Mas às vezes a convivência se torna complicada
quando ele traz a namorada
uma fada bêbada que deixa em polvorosa a minha casa.
Além de tudo, ele só toma água Perrier e chá de cereja francesa
e tenho que dormir de luz acesa
pois ele tem um medo danado do escuro.
Mas apesar de tudo está feliz
com as horas extras cuidando de mim
vai poder comprar o apartamento no East Village
que ele sempre quis.

Uma Trova de São Bernardo do Campo/SP
Patrícia Rocco

Quem se despede da vida
sem vontade de partir,
deixa escrito nesta ida,
tarefas para o porvir.

Uma Cantiga Infantil de Roda
De onde vem aquela menina

É uma fileira de crianças e uma defronte. Cantam as da roda:

De onde vem aquela menina
De tão longe assim, assim
Ao redor de nossa terra
Mangicão, dão, dão

Responde a menina:

Eu ando por aqui assim, assim
À procura de uma agulha
Que aqui perdi

A fileira:

Volta para casa
Vai dizer a teus pais, teus pais
Que uma agulha que se perde
Não se acha mais

A menina:

Eu já fui, já voltei
Já disse a meus pais, meus pais
Que uma agulha que se perde
Não se acha mais

(Fonte: Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953.)
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Nota:
A palavra “tão” é reforçada em seu sentido pela nota aguda. Termos aproximados para mangerão: manjerona (erva cheirosa de origem europeia; povo extinto que habitava a Amazônia); possível corruptela de manjericão – erva cheirosa brasileira. Segundo Veríssimo de Melo em Natal usa-se o termo “mangicão”.


Um Poema de Curitiba/PR
Hamilton Faria

O ser o voo

Nenhum ser é plenamente voo
se não sabe da magia da terra
ou totalmente luz
se o escurecer lhe cega
Todo horizonte é terrível
se o voo nega
                    o passo elementar

Logo sigo quase pássaro

Uma Aldravia de Pirapetinga/MG
Amélia Luz

Sou
teia
aranha
que
fio
acompanha...

Uma Trova de Belém/PA
Sarah Rodrigues

No contraste a dor sentida
dos que não tiveram sorte:
a morte buscando a vida,
e a vida esperando a morte.

Recordando Velhas Canções
Cinco horas da manhã
(samba/carnaval, 1943)

Ary Barroso

São cinco horas da manhã
O sol já vem raiando
Maria tá em casa me esperando
Eu vou-me embora
É hora do corpo descansar
Sou boêmio,
Mas não quero me acabar

Maria, minha boa companheira
Não dorme enquanto eu não chego
Sou boêmio
E Maria reconhece
Por isso não me aborrece
É hora
Vou-me embora

Um Haicai de Irati/PR
Elisson Thomas Svereda

Manhã de geada.
Estarão ainda vivas
As flores de ontem?

Uma Trova de Brusque/SC
Maria Luiza Walendowsky

O teu carinho constante
é música a me embalar,
encantando o meu instante
e me fazendo te amar!

Hinos de Cidades Brasileiras
Maceió/AL

Letra por Carlos Moliterno
Melodia por Edilberto Trigueiros

És, Maceió, altiva e majestosa
Feliz nascente entre a lagoa e o mar
Ao lado da capela milagrosa
De um velho engenho pobre e secular

Pelo trabalho e pelo esforço ingente
Como a bravura de teus filhos nobres
E debaixo de um sol glorioso e quente
Veio a riqueza dessas terras pobres

A tua glória promana
Desses teus filhos audazes
Cujo alto valor se imana
Aos dos heróis mais capazes

Maceió, terra adorada!
Ó terra bela e altaneira!
Tua história é proclamada
Pela nação brasileira

Tu tens paisagens, Maceió, famosas
Teu sol é quente e teu luar é claro
São tuas praias belas e formosas
De um tom de prata, deslumbrante e raro

E desse alvorecer das madrugadas
De Ponta Verde às curvas do Pontal
Os coqueiros e as velas das jangadas
Dão-lhe um vigor de tela natural

A tua glória promana
Desses teus filhos audazes
Cujo alto valor se imana
Aos dos heróis mais capazes

Maceió, terra adorada!
Ó terra bela e altaneira!
Tua história é proclamada
Pela nação brasileira

Um Poema de Londrina/PR
Nelson Capucho

Gramágica

o que o sujeito
enriquece
não é o adjetivo
(só parece)

de palavras
vivi um bocado
pra chegar
ao predicado

juntando letras
(no céu branco
estrelas pretas)
desprezo o jugo
de bancos e caretas

às vezes me perguntam:
e o tempo futuro, poeta?
seguro a barra e respondo:
quando vier, conjugo

Uma Trova de Caicó/RN
Prof. Garcia

Revendo entulhos e tacos,
na tapera dos meus sonhos,
chorei por ver tantos cacos
dos meus dias mais risonhos!

Um Poema de Curitiba/PR
Adélia Maria Woellner

Rebeldia

Para não repetir
o modelo
que me apresentaram,
escrevi roteiro contrário.
Fixação insana,
não ser igual.
Desperdício e cansaço.

Acordei.
Soltei balaios
de rebeldias e sofrimentos.

Moldes vazios,
insinuo passos que são só meus
e jeito próprio de andar,
para escrever
outro enredo,
nova história...

Um Poetrix de Salvador/BA
Goulart Gomes

A$$alariado

vende a vida inteira
pelo pão de cada dia
a liberdade boia, fria




Ah! estou muito mudado.
Bem diferente me vejo.
Já pequei por atacado
e agora, peco a varejo. 

A mulher manda, pedindo.
Ovelha fera de brava,
a si mesmo até, mentindo,
diz que não passa de escrava.

A mulher não é de graça.
Abusa pra ver! Depois,
não te queixes, que ela passa
o carro à frente dos bois.

Ante a manhã, não me engano
– falo para meu contento –
Deus é poeta parnasiano
de incomparável talento.

Ao lhe contar meu segredo,
mesmo só pela metade,
o nosso amor de brinquedo
virou amor de verdade.

A sua mão estendida,
apertei de olhos em pranto.
Nunca adeus de despedida
dei a alguém que doesse tanto.

A tarde em flor se anuncia.
Silêncio. Paz. Hora santa!
Despedindo-se do dia
sabiá saudoso – canta.

Bem contra a minha vontade,
vento da recordação,
pões o moinho da saudade
a moer meu coração.

Botão-de-rosa vermelho
que do jardim fulge a um canto!
Diante de ti, eu me ajoelho
embriagado de encanto.

Conversas rindo e brincando
e, em tua voz, eu descubro
os passarinhos cantando
nas madrugadas de outubro.

Ela se foi. Falo franco:
chorei lágrimas de dor,
tantas que meu lenço branco
nunca mais voltou à cor.

Ela voltou. Da saudade
cessou a dor que eu sentia.
Chorei de felicidade,
quase morri de alegria!

É pelo amor que me atrevo
a tudo. Sem covardia
faço mesmo o que não devo
e até mais do que devia.

Esperança: meu encanto!
Neste nosso mundo louco,
por que me prometes tanto,
e, depois, me dás tão pouco?...

Esta manhã deslumbrante
é doce beijo de amor
que Deus dá, do céu distante,
na face da terra em flor.

Eu conheço como poucos,
este mundo também, meu.
é mesmo, mais dos loucos,
se não for, louco sou eu.

Exibindo tua graça,
sorri e canta, menina,
que a vida é sonho que passa,
pois – mal começa – termina.

Juro que em Deus acredito
até mesmo, assim – sem crer.
Em tudo que acho bonito,
nunca me canso de  O ver.

Fã da flor, feliz, festejo
esta rosa e me convém
apanhá-la, dar-lhe um beijo
e levá-la pra meu bem.

Feito cego sem ter guia,
sem que soubesse meu santo,
perdi-me na pradaria
florida de teu encanto.

Juro, amor, que não me iludo
ao dizer que tu és, sim,
o sal e o doce de tudo
neste mundo, para mim.

Meu galo músico canta
cantiga de saudação
à aurora – bonita santa
no altar azul da amplidão.

Muitos casais são palhaços
que fazem rir os presentes,
indo de beijos e abraços,
a coices, unhas e dentes.

Na casa de um capixaba
se a gente chega sem pressa,
a pressa logo se acaba
quando a conversa começa.

Não me consolem. Que o pranto
cristalino e superior
cumpra seu trabalho santo
de aliviar a minha dor.

Nêga-fulô de magia,
com a candeia da lua,
risonha, a noite alumia
os namorados na rua.

O homem sem a mulher,
sem cabeça é corpo. Moço,
sozinho, o que ele fizer,
vira um angu de caroço.

Ouvir-te, que coisa grata!
Falas e a gente se encanta.
Terás um sino de prata
na catedral da garganta?

Pela mão do Onipotente
generoso protegida,
na magia da semente
se oculta, dormindo, a vida!

Por te querer, com certeza,
culpa não tenho, menina.
Culpa tem tua beleza
que me escraviza e fascina.

Prezo, estimo, considero
o amor a mais não poder,
mas amor sem ser sincero
é bem melhor não se ter.

Quando namoro uma rosa
ou vejo mulher bonita,
uma paixão tormentosa,
inteiramente, me agita.

Quando viro pensador
e me perco descuidado,
no universo de uma flor,
me sinto maravilhado.

Quem ama, de si faz trigo.
Luta e vence; em Deus – confia;
sem medo enfrenta o perigo
e sofre com alegria.

Que manhã! Das mais formosas…
O céu na infância do dia,
parece que chove rosas,
chovendo luz e harmonia.

Quem diz adeus e ao partir
fica em saudade e lembrança,
devia mesmo não ir
sem nos levar na mudança.

Risonha, a Aurora se agita.
Róseos tons a luz lhe empresta.
Parece moça bonita
chegando alegre da festa.

Santo remédio é o pranto.
Tem o divino condão
de abrandar o desencanto
e as dores do coração.

Se meu coração te apoia
em tudo mesmo, querida,
é porque tu és a joia
que melhor me enfeita a vida.

Senhor Deus, devo saber
o meu destino cumprir.
Que eu faça por merecer,
para ganhar sem pedir.

Sou onda que vai, tangida,
da escura profundidade
do mar inquieto da vida
à praia da eternidade...

Tudo passa tão depressa:
sonho, amor, felicidade
e mal se acaba, começa
o tempo em flor da saudade.

Usa e abusa de agrado
a seu querido a mulher.
Vai chovendo no molhado
e alcança tudo o que quer.

Vai silencioso, em segredo,
o tempo, sem descansar,
cuidando do seu brinquedo
de fazer e desmanchar...

Vivo a vida em sonho imerso.
Tenho amor à fantasia.
Sou operário do verso
e lavrador da poesia.

Vivo vivendo de sonho,
quando te vejo sorrindo.
Sonho acordado e suponho
que estou sonhando – dormindo.

Vou te vigiar, não sou bobo,
o bom-senso me aconselha.
Quem melhor guarda do lobo
se não eu a minha ovelha?

Fazendo Versos, em Gotas (26) 

DEZ DICAS PARA UM BOM POETRIX
artigo por Goulart Gomes

1. EVITE AS ORAÇÕES COORDENADAS.

Um poetrix não é uma frase fatiada em três partes. Vamos tomar um exemplo:

TELEFONEMA

passei a noite em casa
esperando que ela ligasse
mas ela não ligou

Isso não é um poetrix, é a primeira oração de um texto! Está simplesmente horrível! Mas, notemos como ele poderia ficar bem melhor, se a ideia fosse expressada de outra forma:

TELEFONEMA

noite em branco
telefone mudo
até o amanhecer

2. EXPLORE O PODER DO TÍTULO.

Uma das grandes vantagens do poetrix é a existência do título, o que não há no haicai. Por vezes, ele pode ganhar uma característica de “verbete”, sendo definido pela estrofe. Suprimam o título e observem diferença que faz:

SEMÁFORO

pensei ser outra lua
olho verde contra o céu
fugaz, no meio da rua

Outro trunfo é que o título não entra na contagem de sílabas. Assim, alternativas criativas podem ser formuladas. Num exercício “exagerado” desta possibilidade, uso como exemplo:

ESTUDO SOCIOANTROPOLÓGICO DE UM COMUM CIDADÃO LATINOAMERICANO DE CLASSE SOCIAL DESFAVORECIDA, À LUZ DA NOVA ORDEM MUNDIAL, IMPACTADA PELA GEOPOLÍTICA DO PETRÓLEO, NUM ENFOQUE MÍSTICO-TRANSCENDENTAL, CORROBORADO PELOS IDEAIS FREUDIANOS-LENINISTAS, SEM ASPIRAÇÕES EPICURISTAS

nasceu
cresceu
desencarnou

3. MINIMALIZE.

Corte tudo o que está sobrando. Escrever um poetrix é lapidar um diamante. Nenhum texto fica pronto “de primeira”. É preciso, sempre, trabalhá-lo. Literatura é 10% inspiração e 90% transpiração. Com o poetrix, apesar de pequeno, não é diferente. Exemplo:

ANTES:

DRAGÃO

com a cabeça no ar
e com os pés no chão
é um homem? não, um dragão

DEPOIS:

DRAGÃO

cabeça no ar
e pés no chão
homem? dragão

4. PESQUISE.

Enriqueça o seu texto com informações pertinentes. Vejam este poetrix:

XENOGLOSSIA

na Planície de Sine-Ar
decifrar tua língua
em minha Torre de Babel

Após ter a ideia, fui à Bíblia obter mais informações sobre a Torre de Babel. Lá descobri que ela foi supostamente erguida na planície de Sinear. Em latim, “sine” quer dizer sem. A informação caiu perfeitamente: a língua, a torre, alguém “sem ar”... Uma pequena informação pode fazer uma grande diferença.

5. NÃO CONFUNDA POETRIX COM HAI-KAI.

Para isso, é importante conhecer, também, os fundamentos do haicai (ver texto que disponibilizei sobre o assunto em www.prefacio.net). Para começar: se o tema do seu poetrix é a Natureza, desconfie. Pode ser que nasça um haicai, e não um poetrix.

6. UTILIZE FIGURAS DE LINGUAGEM.

Em todas as formas poéticas, o uso de figuras de linguagem, metáforas, tropos e imagens enriquecem bastante o texto. Por vezes, é necessário “substantivá-lo”.

QUANDO A MARÉ ENCHER

Verdi no azul do mar
tocar do forró no piano
pra Netuno e Yemanjá

7. ACABE COM AS CONJUNÇÕES ADVERSATIVAS:

Mas, Contudo, Porém, Todavia, Não Obstante, Entretanto, No entanto, geralmente não servem para nada em um poetrix, assim como a conjunção explicativa Pois.

8. NÃO FORCE RIMAS.

Poetrix não é soneto. Às vezes pode-se dispensar completamente uma rima, utilizando-se bem o ritmo, a sonoridade e a riqueza semântica das palavras.

9. POETRIX NÃO É PROVÉRBIO.

Muito menos, frase de para-choque de caminhão. Evite coisas como (blargh!):

ARROCHA

mulher e parafuso:
comigo
é no aperto

(Só um texto explicativo, mesmo, para me fazer criar uma “coisa destas”! Que sacrifícios a gente não faz pela Literatura!)

10. O NÃO-DITO FALA MAIS QUE O DITO.

Não pense que seu leitor é burro. Não dê tudo “mastigado”. Faça com que seu texto “dialogue” com o leitor, permita que ele faça sua própria “viagem” nas palavras:

ÁCIDO

a água furou a pedra
moinhos de amsterdã
a manhã será mais bela

HOLOKAWSTO

há o que não houve
retalhos de nylon
cogumelo atônito

E, para finalizar, não esqueça: O POETRIX é um poema composto de título e uma estrofe de três versos (terceto) com um máximo de trinta sílabas métricas.

Fonte:


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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