Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 7 de outubro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 257)






 Uma Trova de Maringá/PR
Nilsa A. de Melo

Os livros da minha infância
guardo-os todos na memória.
Deles não tomei distância,
são partes de minha história.

Uma Trova de Mariana/MG
Gabriel Bicalho

Sigo altaneiro, no embate,
e, se o flagelo me alcança,
sinto que a vida me bate,
mas, nunca perco a esperança!

Uma Trova Humorística de São João de Meriti/RJ
Cleber Roberto de de Oliveira 

Fiquei surpreso!... Foi chato,
com gente no "reservado",
ter de correr para o mato
e ler num galho: "OCUPADO"!

Uma Trova de Natal/RN
Joamir Medeiros

O imortal desaparece
desta vida transitória,
mas seu verso permanece
nas letras vivas da história!

Um Poema de Recife/PR
Amanda Mirella Simplício da Silva

Amores clareados

Calam os passos clareados
Pelo sol já desvendados
Proibido amor a vento.
Pele e corpo se conhecem
Mente e alma se padecem
Vai o amor, fica o lamento.

E os teus olhos clareados
Raros olhos revoltados
De fulgor e de tormento.
Sentem o fogo rotineiro
E com ele passageiro
Proibido amor a vento.

Clareada é tua chama
Que renasce e te proclama
Meio a tanto sofrimento.
Foge à luz a vil navalha
Com seu corte, incendiária.
Que retalha esse momento.

Alma clara, clareada.
Sombra sã que faz-se amada
Na certeza do contento.
Esperança em olhos claros
Para ti já não mais raros
Proibido amor a vento.

Uma Trova Hispânica da Espanha
Carmen Patino Fernández

A la luz de esos tus ojos
Que brillan como dos soles
Cuando de amor están rojos
Brillan más que los faroles.

Um Poema de São Luís/MA
Antônio Fernando Sodré Júnior

Declaração

Declaro para todos os fins que te amo
absoluta e incontrolavelmente
pois o Amor, sempre menino
de toda razão é livre...

Confesso, contudo, não quis te amar
não quis unir meu sorriso ao teu
prender no toque das mãos nuas
o tempo que paira lento
no ar quando te vejo...

Não quis a dor da ausência
o peso das lágrimas tristes
a corroer a superfície do desejo
dessa ardente vontade
de te querer mais que tudo...

Perdoe-me a ironia dos primeiros versos
é que cada lembrança traz a memória tua
viva em todos meus pensamentos...

Amo-te no instante das coisas infinitas
daquelas que têm moldura de nuvem
que se desfazem e voltam
à mesma forma de antes
etéreas e intocáveis...

Declaro para todos os fins que te amo...

Trovadores que deixaram Saudades
Ademar Macedo
Santa do Matos/RN 1951 - 2013, Natal/RN+

Construí dentro de mim,
com minh’alma enternecida,
um teatro onde, por fim,
pude encenar minha vida!…

Um Poema de Castanhal/PA
Edilene de Sousa Araújo

Ponto celeste

Você é
Meu porto seguro,
Meu grito de terra à vista,
Resgate nas horas imprevistas
Minha nau de chegada
Nunca de partida.
Você é
Meu alicerce de concreto,
Meu caminho sempre reto
Meu oásis no deserto.
Você é
Meu sim,
Meu não,
Meu Leste-Oeste,
Meu norte-sul,
Meu ponto celeste.

Uma Trova de São Paulo/SP
Edna Valente Ferracini

Como é bom café quentinho
com broinhas de fubá.
Fogão de lenha, um ranchinho
e a paz que a roça me dá!

Um Haicai de Campinas/SP
Guilherme de Almeida
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Hora de Ter Saudade

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)

Um Poema de Manaus/AM
Elinaldo Venceslau da Costa Junior

Gelo em chamas

Por que meus olhos marejam
A cada vez que penso em ti?
E o mundo, preto em branco
Vai colhendo, num tom brando
As belas flores do jardim

Tens ideia do quanto isso é bom pra mim?

Me perguntas, ocasionalmente:
Mas o que foi que eu te fiz?
E eu não sei, verdadeiramente...
Só sei que tu me fazes feliz!

Por que teus beijos me marcam como cicatriz?

Em mente grito sem parar
E no teu carro, eu me calo
Pois só quero aproveitar
Ao teu lado, cada embalo

Seria isso ilusão ou início de paixão latente?

Quisera eu, sinceramente
Em grandes versos, te adorar
Só que me vêm estes singelos
Mas acredite, são tão sinceros
Quanto o ar que foge de mim...
Ao te olhar.

Uma Trova de Maranguape/CE
Moreira Lopes

Acalento tanto sonho
dos meus tempos de criança
que me conservo risonho
e repleto de esperança.

Uma Cantiga Infantil de Roda
Bom barquinho

É uma fila de meninas, uma atrás da outra, com as mãos nos ombros da seguinte. A certa distância, ficam duas outras, formando um arco com os braços. Estas duas crianças representam o céu e o inferno, mas estes nomes são substituídos por duas frutas convencionadas, como por exemplo, maçã e pera.

As crianças da fila cantam:

Bom barquinho
Bom barquinho
Deixarás passar
Carregados de filhinhos
Para ajudar a criar

Cantam este versinho até chegar perto das duas meninas que formam o arco. Aí, param. A criança da frente vem de mãos dadas com uma maior ou mais velha, que representa a mãe. Esta última canta:

Eu peço, meu bom barquinho
Licença para passar
Qu'eu tenho muitos filhinhos
Não posso mais demorar

As duas meninas que formam o arco, respondem, cantando:

Passarás, passarás
Que algum deles há de ficar
Se não for o da frente
Há de ser o de detrás

Aqui passam todas sob o arco, ficando presa sempre a última. Perguntam a ela se quer maçã ou pera e, conforme a resposta, irá para trás da menina que representa a fruta mencionada, que será inferno ou céu. E assim por diante, até ficar no arco a última criança, que é a mãe.

Então, as que estão no inferno (só depois de passar a última pelo arco é que se diz qual a fruta que representa inferno ou céu), começam a fazer caretas para as que estão no céu. A menina do céu que achar graça nas caretas, passa imediatamente para o inferno. Finalmente, as que estão no inferno formam alas e as do céu marcam carreira e passam pelo meio delas em toda velocidade. Nesta ocasião, as do inferno metem a mão nas que estão passando. Terminado o batismo de tapas, entre gritos e até choros, volta-se ao começo

Veríssimo de Melo. Rondas infantis brasileiras. São Paulo: Departamento de Cultura, 1953. 

Três Poetrix, num mix, de Belo Horizonte/MG
Clevane Pessoa

(I) Pezinhos

Pés de fada
passos no ar:
asas de luz.

(II) Toques

Pés nas mãos:
pesos de cetim
pele a pele.

(III) Seda

Pés de bebê:
quintessência
da seda...

Uma Trova de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla

Sem ódio... sem armamento...
sem heróis, que a guerra faz,
será, o mundo, um monumento
erguido em nome da PAZ!

Um Poema de Rio Branco/AC
Eritânia Brunoro

Amor

Sou como a brisa que sopra ao ouvido
Sou como arco-íris depois de chuva
Sou um lunático destemido

Um aventureiro talvez perdido

Sou como a sombra que bate à porta

Sou aquele que ainda se importa

Sou todo o universo
Seu exterior e suas lembranças
Sou seu martírio, sou sua criança
Sou enfermo, sou o curandeiro

Das feridas, dos desmazelos

Sou uma lágrima caída de face
Sou uma ponta de liberdade
Sou o que faz teu coração bater mais forte
Sou aquele que te provoca o corte
Que parte teu coração, às vezes
Sou a saudade desmedida

Um laço que nunca se desfaz

Sou a fonte da tua vida

Sou você, sou eu, sou o nunca mais.

Recordando Velhas Canções
A Mulher que Ficou na Taça
(valsa, 1934)

Francisco Alves e Orestes Barbosa

Fugindo da nostalgia
Vou procurar alegria
Na ilusão dos cabarés
Sinto beijos no meu rosto
E bebo por meu desgosto
Relembrando o que tu és

E quando bebendo espio
Uma taça que esvazio
Vejo uma visão qualquer
Não distingo bem o vulto
Mas deve ser do meu culto
O vulto dessa mulher...

Quanto mais ponho bebida
Mais a sombra colorida
Aparece em meu olhar
Aumentando o sofrimento
No cristal em que, sedento
Quero a paixão sufocar

E no anseio da desgraça
Encho mais a minha taça
Para afogar a visão
Quanto mais bebida eu ponho
Mais cresce a mulher no sonho
Na taça, e no coração.

Um Poema de Itapipoca/CE
Mamede Gilford de Meneses

Só para mim

Os tempos bons se foram
Levaram consigo a bonança,
Mas os que ficaram...
Guardam em si a criança.

Pra ser sincero ainda me lembro
De algumas das modinhas
Que nas noites de setembro
Cantávamos nas pracinhas.

Dentre elas destaco com louvor
Hino ao amor e Dó ré mi;
Interpretadas com ternura e esplendor
Pelo saudoso Altemar... só para mim!

Ah, meu bem se eu podesse
Trasladava o passado ao presente
Com o cenário que padece
No ventre coronário da gente.

A não sofrer jamais
Ponho o final neste fado,
E agradeço por demais
Os que estão sempre a meu lado.

Uma Trova de Goiás
Antonio Geraldo Ramos Jubé

Felicidade constante
na vida, consiste bem
em a gente achar bastante
o pouquinho que se tem.

Hinos de Cidades Brasileiras
Joinville/SC

Tu és a glória dos teus fundadores,
És monumento aos teus colonizadores,
Oh! Joinville Cidade dos Príncipes,
Oh! Joinville Cidade das Flores.

Às margens do Rio Cachoeira,
Um dia o audaz pioneiro,
Plantou do trabalho a bandeira
E se deu, corpo e alma, ao torrão brasileiro.

Depois foram lutas e penas,
Mas nunca o herói fraquejou,
Com sangue, suor e com lágrimas
Do seu próprio corpo teu solo irrigou.

Tu és a glória dos teus fundadores,
És monumento aos teus colonizadores,
Oh! Joinville Cidade dos Príncipes,
Oh! Joinville Cidade das Flores.

E se hoje o bravo imigrante,
Que tua semente plantou,
Com a força e o vigor de um gigante
Nas mãos com que, em preces, ao céu suplicou,

Te visse radiosa e pujante,
Nascida na mata hostil,
A imagem da Pátria distante
Veria, grandiosa, exaltando o Brasil!

Um Poema de Curitiba/PR
Isaías Barbosa

Miragem

Ela bateu na porta do meu céu
Como um anjo eu abri
Deu-me um beijo gosto de mel
E um paraíso eu descobri.

Abraçou-me com tanta força
Chamou-me de meu bem
Sumiram as palavras da minha boca
E as ideias para o além.

Afagou-me com tanta malícia
Deixou marcas dos seus dedos
Resquícios de carícias
Façanhas do desejo.

Como num passe de mágica
Passamos da sala para o quarto
Ela virou uma fada
E mostrou o corpo farto.

Tão linda tão charmosa.
Que logo me seduziu
Uma visão tão gostosa
Que aos poucos sumiu

E como uma miragem
A minha musa foi embora
Numa eterna viagem
Para voltar nos sonhos d’outrora.

Uma Trova de Petrópolis/RJ
Gilson Faustino Maia

Tendo um passado tristonho,
desde os tempos de criança,
mostro o meu rosto risonho,
movido pela esperança.

Um Poema de Pratápolis/MG
José Vicente Neto

Ausente de ti

Estar ausente de ti
é navegar em brisa
é ouvir tua voz em cada silêncio
é sentir teu perfume em cada flor
é me procurar no espelho
e só ver-te.

Estar ausente de ti
é prolongar a dor
é paralisar o tempo
é me alucinar
na loucura da lucidezde amar-te.

Estar ausente de ti
é me sentir oco de amor
é ver um deserto
e uma miragem de ti
é procurar em tua foto
o calor de teus lábios.

Estar ausente de ti
é estar presente de mim
é sentir o que tu és
e não sentir o que sou
é ver que tu me completas
e não me ver completo.

Estar ausente de ti
é prolongar o inextensível.

Um Soneto de Stratford-upon-Avon/Grã-Bretanha
William Shakespeare
(1564 – 1616)

Soneto 14

Não faço meus julgamentos pelas estrelas;
Embora conheça bem a astronomia,
Mas não para adivinhar o azar ou a sorte,
As pragas, as privações, ou as mudanças de estação;

Nem posso adivinhar o futuro próximo,
Dando a cada um a sua tormenta,
Ou dizer aos príncipes se tudo passará,
Predizendo o que apenas os céus podem trazer:

Porém, retiro a minha sabedoria de teus olhos,
E (eternas estrelas) neles entendo a sua arte,
Pois, juntos, vencerão a verdade e a beleza,
Se de teu próprio ser verteres o teu alento;

Senão, isto, eu prenunciaria:
Em ti toda a verdade e beleza findam.

Uma Poesia de Cordel de Assaré/CE
Patativa do Assaré
(Antonio Gonçalves da Silva)
Assaré/CE (1909 – 2002)

O Alco e a Gasolina

Neste mundo de pecado
 Ninguém qué vivê sozinho
 Quem viaja acompanhado
 Incurta mais o caminho
 Tudo que no mundo existe
 Se achando sozinho e triste,
 O alco vivia só
 Sem ninguém lhe querê bem
 E a gasolina também
 Vivia no caritó.

 O alco tanto sofreu
 Sua dura e triste sina
 Até que um dia ofreceu
 Seu amô a gasolina
 Perguntou se ela queria
 Ele em sua companhia,
 Pois andava aperriado
 Era grande o padecê
 Não podia mais vivê
 Sem companhêra ao seu lado.

 Disse ela: dou-lhe a resposta
 Mas fazendo uma proposta
 Sei que de mim você gosta
 E eu não lhe acho tão feio
 Porém eu sou moça fina,
 Sou a prenda gasolina
 Bem recatada, granfina
 E gosto muito de asseio.

 Se você não é nogento
 É grande o contentamento
 E tarvez meu sofrimento
 Da solidão eu arranque,
 Nós não vamo nem casá
 Do jeito que o mundo tá
 Nós dois vamo é se juntá
 E morá dentro do tanque.

 Se quisé me acompanhá
 No tanque vamo morá
 E os apusento zelá
 Com carinho e com amô,
 Porém lhe dou um conseio
 Não vá fazê papé feio
 Quero limpeza e asseio
 Dentro do carboradô.

 Se o meu amô armeja
 E andá comigo deseja,
 É necessaro que seja
 Limpo, zeladô e esperto,
 Precisa se controlá,
 Veja que eu sou minerá
 E você é vegetá,
 Será que isto vai dá certo?

 Disse o alco: meu benzinho
 Eu não quero é tá sozinho
 Pra gozá do teu carinho
 Todo sacrifiço faço,
 Na nossa nova aliança
 Disponha de confiança
 Com a minha substança
 Eu subo até no espaço.

 Quero é sê feliz agora
 Morá onde você mora
 Andá pelo mundo afora
 E a minha vida gozá,
 Entre nós não há desorde
 Basta que você concorde
 Nós se junta com as orde
 Da senhora Petrobá.

 Tudo o alco prometia.
 Queria por que queriá
 Na Petrobá neste dia
 Houve uma festa danada
 A Petrobá ordenou
 Um ao outro se entregou
 E o querozene chorou
 Vendo a parenta amigada.

 Porém depois de algum dia
 Começou grande narquia,
 O que o alco prometia
 Sem sentimento negou,
 Fez uma ação traiçoêra
 Com a sua companhêra
 Fazendo a maió sugêra
 Dentro do carboradô.

 Fez o alco uma ruína
 Prometeu a gasolina
 Que seguia a diciprina
 Mas não quis lhe obedecê
 Como o cabra embriagado
 Descuidado e deslêxado
 Dêxava tudo melado,
 Agúia, bóia e giclê.

 A gasolina falava
 E a ele aconceiava,
 Mas o alco não ligava,
 Inxia o saco a zomba
 Lhe respondendo, eu não ligo,
 Se achá que vivê comigo
 Tá sendo grande castigo
 Se quêxe da Petrobá.

 E assim ele permanece
 No carro a tudo aborrece,
 Se a gasolina padece
 O chofé também se atrasa
 Hoje o alco veve assim
 Do jeito do cabra ruim
 Que bebe no butiquim
 E vai vomitá na casa.



A conduzir o ceguinho
andava tranquilamente.
Ignora, o rapazinho
quanto vale, como é gente!

A gíria já é um fato
que nós temos que aceitar:
o bonito é um barato
e curtir, apreciar…

Ainda tenho esperança
se torne realidade
ver nosso mundo-criança
atingir maioridade.

A programação assumo
da vida que desejei,
hoje arrumo e desarrumo
este rumo que tomei.

Capricórnio, em que nasci,
deu-me esta teimosia:
Não creio em mal que não vi,
creio no bem, todavia.

Com fervor bem verdadeiro
eu rogo hoje ao Senhor
que o meu povo, o brasileiro,
ensine ao mundo o amor!

Com “meu” caracol brincava,
num mundo de fantasia;
quantas vezes invejava
a concha em que se escondia!

Como o poeta julguei
poder estrelas contar
mas, sem querer, misturei
com elas o teu olhar…

Como último carinho,
quisera sentir na face
o calor de um raiozinho
de sol, que assim, me afagasse…

Corremos, com esperança,
atrás da felicidade.
No final da nossa andança,
restam cansaço e saudade…

Cultivo uma aspiração
neste caro mundo meu:
Que ao parar meu coração
eu fiquei a ouvir o teu…

Deixe embora, em minha andança
de ver, ouvir, caminhar,
se me restar a esperança
continuarei a sonhar!

Dispensando-lhe carinho
damos-lhe alguma esperança:
lembremo-nos que o velhinho
já foi, um dia, criança…

Disseram-me que “a esperança
é a última a morrer”.
Às vezes, em nossa andança,
ela nem chega a nascer!

Durante o mês de dezembro,
quando o Natal se aproxima,
todos os dias relembro
o meu tempo de menina…

Ela não é tua filha
mas dá-lhe alguma atenção;
a criança maltrapilha
é filha de teu irmão!

Gostaria que a esperança
retornasse à minha vida
para ser, como em criança,
na boneca prometida…

Muita gente, nesta vida,
desejaria voltar
ao seu ponto de partida
e novo rumo tomar…

Nós não temos, na cidade,
luar como o do sertão,
mas dá-nos felicidade
a pequenina fração…

Numa oração muito minha
eu peço, a todo momento,
poupe Deus minha mãezinha
de ter qualquer sofrimento.

O luar, meu aliado,
o quarto dele invadiu
levando-lhe meu recado…
Mas dormia, nem sentiu!

O sol se esvai, no horizonte,
oferecendo ao olhar
uma inesgotável fonte
para o nosso versejar.

Passei minha vida inteira
num rumo só, trabalhar.
Parece que foi asneira,
porque eu gosto é de rimar!

Peço a Deus, com esperança,
num fervoroso rogado,
note-se em toda criança
um sorriso ensolarado!

Pedimos com devoção,
tudo que nos dá prazer
e esquecemos, na oração,
de, no entanto, agradecer!

Pelo sol vivo ansiando!
Quando chove ou anoitece
quisera estar habitando
o país em que aparece.

Pleno dia, plena estrada,
quero o sol apreciar
mas à noite, extasiada,
que não me falte o luar!

Por quem não tem agasalho
por quem num leito padece…
Acredito que mais valho
se os incluo em minha prece.

Preces feitas, decoradas,
repetidas todo tempo
não valem as inventadas
na hora do sofrimento.

Procurando no Universo
algo como o teu olhar
para rimar o meu verso,
eu encontrei o luar!

“Quem espera sempre alcança”.
Crê no provérbio com fé
e aguarda, na tua andança,
sapato para o teu pé…

Queremos todos: Você,
ele, o judeu, o batista
ter razão. Como se vê,
questão de ponto de vista…

Quero estrelas, o luar,
o sol, as flores, o vento,
as águas verdes do mar
que são meu deslumbramento!

Recebeste a tua herança
porém, não cruzes os braços;
é bom que da tua andança
possa deixar alguns traços.

Se percebes que essa estrada
causou-te decepção,
faz uma pausa e, calada,
ruma em outra direção.

Se quisermos um limão
bravo, galego ou de cheiro,
há que escolher, de antemão,
o tipo de limoeiro…

Se tu queres te inspirar
em algo muito pungente,
procura mentalizar
uma criança doente.

Vou te ensinar, com carinho,
lição que já sei de cor:
Quase em silêncio, baixinho,
é que se ama melhor.

Fazendo Versos, em Gotas (29)

O Soneto Inglês ou Shakespeariano (Parte 3)
artigo por Alexandre Tambelli

4ª REGRA (TEMÁTICA ou ASSUNTO)

O Soneto Inglês realizado por Shakespeare tem uma temática mais ampla do que existiu nos Sonetos realizados por Petrarca, este, apenas, cantou a Musa com sua temática amorosa. Shakespeare incorporou na sua poética, além da temática amorosa (predominante), outros assuntos como: os males humanos, a política, falou abertamente de sexo sem restrições, etc. Lembremos: o poeta Inglês nasceu 3 Séculos na frente de Petrarca.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: no Soneto, além do conteúdo, alguns elementos a mais são necessários: o ritmo e a cadência, a clareza das idéias, a escolha vocabular precisa, a comunicabilidade poeta/leitor - ele na sua Clássica forma, tem um vocabulário do cotidiano, busca construir um todo harmônico através de belas imagens e surpreender com um desfecho especial.

Shakespeare, também, não fugiu destas preocupações.

5ª REGRA (TÍTULO DO SONETO)

O Soneto Inglês ou Shakespeariano, valendo-se da observação dos poemas de seu autor principal, aparece sem título. Apenas, numerado na sequência I, II, III, etc. em algarismos romanos. Portanto, não existe necessidade de título.

ESQUEMA BÁSICO DE CONSTRUÇÃO DO SONETO INGLÊS OU SHAKESPEARIANO:

A  mão`    12 PRIMEIROS VERSOS ( DESENVOLVIMENTO DO POEMA)
B  bola   `
A  são       `
B  cola         `
C  asseio        `
D  cidade          `       6 PARES DE RIMAS (CRUZADAS)
C passeio           ´
D  invade        ´     Utiliza-se o metro Decassílabo com 5 pés
E  estudo      ´             formando o Pentâmetro Jâmbico:
F  mar        ´    U – U – U – U – U –  (U sílaba fraca; – sílaba forte)
E  mudo   ´                             alternadamente
F cantar´______________________________________________
   G sete           DÍSTICO - “Couplet” para os Ingleses (CONCLUSÃO)
   G confete     1 PAR DE RIMAS NO DÍSTICO FINAL ( EMPARELHADAS)

TENTATIVA DE REALIZAÇÃO DO SONETO INGLÊS OU SHAKESPEARIANO

SONETO INGLÊS I
               À Carla

No sonho escuto a voz: - amor, saudade...
Num sopro venta ao pé do meu ouvido
Lembrança antiga n´alma, n´outra idade
Palpável - gozo pleno nunca olvido.
Voz meiga, amada, amiga, em mim, cativa
Chamando: - venha aqui, meu bem-amado...
Voz límpida, alva, leve, livre e altiva
Clamando: - venha aqui, amar-me, amado...
Voz fina, frágil, franca, fiel e fluida
Dizendo: - venha aqui, amor, comigo...
No sonho escuto a voz: - eu sou a vida...
Penetro a voz e, então, no amor me abrigo.
    O dia vem, me acorda, estou risonho
    Mas penso: - amor... por que acordei do sonho?
(Alexandre Tambelli, para Carla, São Paulo, 31 de Janeiro de 2010 - 10: 58h.)

Vou escandir um verso (dividi-lo em silabas poéticas) para ilustração do PENTÂMETRO JÂMBICO:

No/  SO/ nho es/ CU/  to a/  VOZ/ : - eu/  SOU/  a/   VI/ da...
1º   2º      3º     4º    5º       6º     7º       8º    9º   10º
U     -       U       -     U         -      U         -     U     -

continua…

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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