Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 278)

Garoa de Trovas
        Neste número, todas as trovas são de Santa Catarina.
Chuvisco da Poetisa
Gilka Machado
            Gilka da Costa de Melo Machado nasceu no Rio de Janeiro (RJ) no dia 12 de março de 1893. A mãe, Thereza Christina Moniz da Costa, era atriz de teatro e de rádio-teatro Além disso, sua família incluía poetas e músicos famosos. Casou-se com o poeta Rodolfo de Melo Machado em 1910. Teve dois filhos: Helio e Heros, que seria bailarina consagrada e pesquisadora das danças nativas brasileiras. O marido faleceu em 1923.
            Com 13 anos ganha concurso pelo jornal A imprensa, quando arrebata os 3 primeiros prêmios, com poemas assinados com seu próprio nome e com pseudônimos.
            Seu primeiro livro de poesia, “Cristais Partidos”, foi publicado em 1915. Em 1916 foi publicada sua conferência “A Revelação dos Perfumes", no Rio de Janeiro. Em 1917 publicou “Estados de Alma” e, em seguida, no ano de 1918, “Poesias, 1915/1917”, “Mulher Nua”, em 1922, “O Grande Amor”, “Meu Glorioso Pecado”, em 1928, e “Carne e Alma”, em 1931. Em 1932, foi publicada em Cochabamba, Bolívia, a antologia “Sonetos y Poemas de Gilka Machado”, com prefácio Antonio Capdeville. No ano seguinte, a escritora foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista "O Malho", do Rio de Janeiro. “Sublimação” foi publicada em 1938, “Meu Rosto” em 1947, “Velha Poesia” em 1968 e suas “Poesias Completas” editadas em 1978.
            Poderia ter sido a primeira mulher a fazer parte da Academia Brasileira de Letras quando, após mudança do estatuto que proibia o ingresso de mulheres, lhe teria sido possível candidatar-se, atendendo a convite que lhe foi dirigido por Jorge Amado e apoiado por outros acadêmicos. Mas recusou o convite.
            Em 1979, foi agraciada com o prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras. Nesse mesmo ano a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro prestou homenagem à mulher brasileira na pessoa da poeta. Escreveu versos, sendo simbolista, considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo.
            Faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 11 de dezembro de 1980.


Uma Trova de Itapema/SC
Clair Fernandes Malty
  
Quando as ondas desta vida
   ameaçam me tragar,
   a minha carga sofrida
  lanço nas águas do mar.

Uma Trova de Itajaí/SC
Alaércio José Lopes

Nesta casa, sem tramela,
tem um segredo guardado:
 -é na verdade uma cela,
 este meu crânio fechado.

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

Analogia

Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,
lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.

Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar...
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!...
que semelhança em ambos singular!...

Loucura pertinaz do meu anelo:
— emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
— pelo mal de perder-te querer tê-lo...

Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo!
quem me dera aquecer-te em meu verão!...

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Ari Santos de Campos

Vivo perdido e sozinho,
no mundo não descobri,
ao longo do meu caminho,
em qual curva me perdi...

Uma Trova de Itapema/SC
Alzira Dall’Agnol

Nestas ondas espumantes,
  onde pesquei meu sonhar,
 eu sou pescador de instantes,
 nos encantos que encontrar.

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

Olhos nuns olhos

De onde vêm, aonde vão teus olhos, criança,
tão cansados assim de caminhar?
dessa tua existência nova e mansa
como pode provir um tal pesar?

A alma de fantasia não se cansa!
nunca existiu tristeza nesse olhar;
é que a minha mortal desesperança
te olha e nos olhos teus vai se espelhar.

Com toda a vista em tua vista presa,
penso: uma dor tão dolorosa assim
só há na minha interna profundeza...

Não me olhes mais, formoso querubim!
que vejo nos teus olhos a tristeza
dos meus olhos olhando para mim.

Uma Trova Hispânica do Panamá
Dioselina Ivaldy de Sedas

Quisiera encontrar un hombre
cual plasmo en mi poesía,
que con detalles me asombre
amoroso cada día.

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

No cavalo

Belo e heróico, agitando as veludosas crinas,
meu árdego animal, tens a sofreguidão
do infinito — o infinito haures pelas narinas —
e, sem asas obter, buscas fugir do chão.

Domino-te; entretanto, és tu que me dominas.
É um desejo que espera a humana direção
a tua alma, e, transpondo os valos e as campinas,
meu sentimento e o teu se compreendendo vão.

Amas o movimento, o perigo, as distâncias;
meigo, sentimental, tens arrojadas ânsias,
em tuas veias corre um férvido calor.

Quando em teu corpo forte o frágil corpo aprumo
eu me sinto disposta a lançar-me, sem rumo,
às conquistas da Glória e às conquistas do Amor!

Trovadores que deixaram Saudades
Miguel Russowsky
Santa Maria/RS (1923 – 2009) Joaçaba/SC

De tão otário, o Padilha,
nem de casa agora sai.
Foi pedir a mão da filha,
mas “levou” o pé do pai!

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

Felina
(à minha gata)

Minha animada boa de veludo,
minha serpente de frouxel, estranha,
com que interesse as volições te estudo!
com que amor minha vista te acompanha!

Tens muito de mulher, nesse teu mudo,
lírico ideal que a vida te emaranha,
pois meu ser interior vejo desnudo
se te investigo a mansuetude e a sanha.

Expões, a um tempo langorosa e arisca,
sutilezas à mão que te acarinha,
garras à mão que a te magoar se arrisca.

Guardas, ó tato corporificado!
a alta ternura e a cólera daninha
do meu amor que exige ser amado!

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Gledis Tissot

Com o mais lindo sorriso
e aquele olhar de ternura,
me levaste ao paraíso
quase cheguei à loucura.

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

Tristeza

O prazer nos embriaga, a dor nos alucina;
só tu és a verdade e és a razão, Tristeza!
— flor emotiva, rosa esplêndida e ferina,
noite da alma, fulgindo, em astros mil acesa.

Não te amedronta o mal, o bem te não fascina,
és o riso truncado e a lágrima represa;
posta entre o gozo e a dor — satânica e divina —
moves eternamente um pêndulo — a incerteza.

Etérea sedução das longas horas mortas,
horas de treva e luz; mistério do sol-posto;
mal que não sabes doer e bem que não confortas...

Trago dentro de mim, desde que me acompanhas,
um veneno de mel, um mortífero gosto,
um desgosto em que gosto alegrias estranhas.

Uma Trova de Rio Negrinho/SC
Mirian Lima dos Santos Weber

Se as abelhas caprichosas
soubessem segredos meus,
deixavam o mel das rosas
pelo mel dos lábios teus.

Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
Se tu visses o que eu vi

 Há inúmeras rimas começadas com “Se tu visses o que eu vi”, pois são quadras fáceis de criar. O objetivo é sempre divertir e fazer rir, pela imagem absurda que evocam.

Se tu visses o que eu vi
À vinda de Guimarães
Um barbeiro de joelhos
A fazer a barba aos cães

***
Se tu visses o que eu vi,
Havias de te admirar.
Uma cadela com pintos,
E uma galinha a ladrar.

***
Se tu visses o que eu vi,
Havias de te admirar.
Uma cobra a tirar água,
E um cavalo a dançar.

***
Se tu visses o que eu vi,
Havias de te admirar.
Uma abelha a grunhir,
E um porco a voar.

***
Se tu visses o que eu vi,
Fugias como eu fugi,
Uma cobra a tirar água,
E outra a regar o jardim.

***
Se tu visses o que eu vi,
Este caso de assombrar,
Um macaco sem orelhas
A servir de militar.


Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

Tristeza (II)

Tristeza no langor das lentas melodias,
no lirismo do mel que afaga o paladar,
nos perfumes sutis, nas carícias macias,
na espasmódica luz da hora crepuscular...

Tristeza universal, que de tudo me espias,
desde quando alonguei pela existência o olhar;
tristeza que apagaste as louras ardentias
das fortes emoções que eu sonhara expressar.

Vindo tenhas, talvez, para encher os meus dias,
das distâncias do céu, das distâncias do mar...
se magoas não sei, não sei se delicias.

Sei que de há muito morro a te sentir e amar,
sei que me vivo em ti, Tristeza, e as alegrias
hoje apenas me dão vontade de chorar.

Uma Trova de Caçador/SC
Mafalda Novello Goes

Saudade barco sem volta,
singrando os mares da vida.
Vem sozinho sem escolta,
deixando aberta a ferida.

Recordando Velhas Canções
Quem vem pra beira do mar
(toada, 1954)

Dorival Caymmi

Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar

Andei por andar, andei
E todo caminho deu no mar
Andei pelo mar, andei
Nas águas de Dona Janaína

A onda do mar leva
A onda do mar traz
Quem vem pra beira da praia, meu bem
Não volta nunca mais

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

Escutando-me

Nas horas de trevor, quando, erma, a Terra dorme,
dos longes de mim mesma, em súplicas, se eleva
uma voz que parece a de um ser multiforme,
que vem da minha treva e vai morrer na treva.

Esta múltipla voz, esta voz triste e enorme,
voz que minha não é por tão funda e longeva,
a vibrar, sem que o tempo a enfraqueça ou transforme,
os sentidos me exalta, amotina, subleva.

É a tumultuária voz de velhos mortos seres
renascidos em mim, voz de anteriores vozes,
de vidas que vivi nas penas mais atrozes!...

Quem poderá calar a multidão aflita
que, sempre, em minha calma e em meus silêncios grita:
Deus, Senhor, onde estão da existência os prazeres?!...

Um Haicai de São Paulo/SP
Mario Isao Otsuka

Sem coisa nenhuma
no comedouro de frutas –
Bem-te-vi me avisa.

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Tamara Kaufmann

Quando há segredo de amores,
  como envelopes lacrados,
  se abertos são como flores
 e eternos, quando fechados.

Hinos de Cidades Brasileiras
Itu/SP

I
Suba ao céus nosso brado de orgulho
Exaltando a cidade sem par
Que jamais se deixou igualar,
Pelo brio dos filhos que tem!
ESTRIBILHO

Teu início foi Utu-Guaçu,
Que Fernandes fundou para a glória
De tornar-se a cidade de Itu
- Fidelíssima, berço da História!
Quem tuas ruas percorre insensível?
Quem te vê, minha Itu sem igual,
E não vibra, ao sentir, invisível,
Renascer o Brasil colonial?

II
Glória a Itu, que enviou bandeirantes
Para a mata fechada explorar
E, afastando as fronteiras do mar,
O gigante Brasil desdobrou!

Suba ao céus nosso brado de orgulho
Exaltando a cidade sem par
Que jamais se deixou igualar,
Pelo brio dos filhos que tem!

III
Nos teus templos de tanto esplendor
O presente revive o passado!
Foi em ti que , de alerta num brado,
A República disse: "Presente"!

Suba ao céus nosso brado de orgulho
Exaltando a cidade sem par
Que jamais se deixou igualar,
Pelo brio dos filhos que tem!

IV
Mas não só do passado tu vives,
Minha Itu: teu progresso é brilhante!
Marcha em frente, com passo gigante
Para a glória de um grande amanhã!

Suba ao céus nosso brado de orgulho
Exaltando a cidade sem par
Que jamais se deixou igualar,
Pelo brio dos filhos que tem!

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

Miséria

Miséria — minha íntima riqueza,
neste viver lentíssimo e enfadonho!
imortal estatuária da beleza
dos versos dolorosos que componho!

Cedo, teu vulto, de lirial esguieza,
olhei, de minha mãe no olhar tristonho;
e nem supunha, àquele seio presa
que eras tu que aleitavas o meu sonho!...

Deste-me, em ouro que se não consome,
ao espírito quanto me extorquiste
ao corpo, ó pão ideal da minha fome!

Faças-me a alma robusta e a forma etérea,
amo-te assim minha opulência triste,
minha faustosa e imácula miséria!

Uma Trova de Florianópolis/SC
Moacyr Viggiano 

 O amor me foi traiçoeiro
quando eu buscava te amar.
  Sou tristonho timoneiro
  naufragado no teu mar.

Um Soneto do Rio de Janeiro/RJ
Gilka Machado 
Gilka da Costa de Melo Machado
(1893-1980)

Reflexões

Homem! um dia para mim partiste,
colhendo-me no horror da plenitude
de uma penúria em que eu medrava, triste,
qual flor de neve em meio a erma palude.

Desde então, com prazer, sempre, seguiste
os desfolhos da minha juventude;
e o tempo faz que para mim se enriste
melhor teu trato cada vez mais rude.

Se fiel a ti o corpo meu persiste,
a alma idealiza o amor, sonha-o, se ilude...
guardes-me, embora, de perfídia em riste!

À pertinácia do teu trato rude,
o amor se fez minha virtude triste
e meu pecado cheio de virtude!

A cruz que às costas tu levas
pesa mais que a minha cruz:
é que eu ponho luz nas trevas
e tu, pões trevas na luz.

Ama, sê bom, e terás
horas tranquilas e calmas...
O amor é um sol que desfaz
a neblina que há nas almas!...

Ante as sandálias furadas
que entre cascalhos gastei,
não culpo o chão das estradas,
mas os maus passos que dei.

Ao candidatar-se a Alice,
a modelo, o secretário
deu-lhe uma tanguinha e disse:
- Preencha este formulário...

Ao entrar no quarto, exclama
o marido abrindo a goela:
"- vem ver, mulher, meu pijama
fugindo pela janela"

Ao pôr-lhe a esmola no prato
pergunto ao surdo, baixinho:
- És mesmo surdo de fato?
E ele: – Surdinho, surdinho!

A verdade nunca escondas,
planta, na vida, só o Bem.
O mar, que faz tantas ondas,
não faz onda com ninguém!

Cadeia educa, seu moço,
muda até nosso destino:
fui preso, falando grosso,
fui solto, falando fino!...

Cruzei o mar ao teu lado
como se minha tu fosses.
- Agora, do mar salgado,
só tenho lembranças doces.

Diz a esposa, ar desolado,
ao ver viajar o marido:
-- se estiver muito ocupado,
escreva um cheque, querido!

Ela é tudo em minha vida!
Seu nome... seu nome... Bem,
quem ama mulher proibida
não diz o nome a ninguém!

"Ela voltará, descansa",
a esperança me dizia...
E eu não via que a esperança
por piedade me mentia...

Em conflitos e bonanças
nossos destinos se traçam:
nós somos duas crianças
que brigam depois se abraçam!

Em Sete Lagoas, riu,
mas riu tanto o Zé Gamboa,
que de repente, surgiu,
a seus pés outra lagoa!...

Eu conheci a tristeza
ao ver, nas praias do norte,
o mar a uns dar riqueza
e dar a outros a morte!

É uma loura de lascar
minha secretária Elisa!
Só não sabe trabalhar...
mas eu pergunto: e precisa???

Fui à praia, onde brinquei
tantas vezes, no passado...
Ao regressar, reparei
que o mar ficou mais salgado!…

Hoje, na mansão mais alta
do Céu, sem falta de nada,
o artista lamenta a falta
que tem feito à garotada!...

Homens, olhai para o mar,
olhai com olhos de ver
e já podeis calcular
como é que Deus há-de-ser!…

Lentamente cai a tarde...
E o medo da solidão
vai fazendo com que eu guarde
as tardes no coração.

Louvo os heróis e heroínas
que cruzam o mar da vida
por entre espessas neblinas
e encontram, sempre, saída!

Mesmo eu não sabendo nada
Digo aos crentes e aos ateus:
a eternidade é a estrada
com o tamanho de Deus!

Meu destino é navegar,
e sou feliz nessa lida:
- Antes perder-me no mar,
do que perder-me na vida!

Minhas mãos cheias de amor,
plantam amor pelas ruas...
E mais não plantam, Senhor,
porque só me deste duas!...

Não tive, por ambição,
o mundo bom que eu queria,
e Deus deu-me um coração
onde esse mundo cabia!

Nascemos irmãos comuns...
Mas, a ambição e os engodos
puseram nas mãos de alguns
o mundo que era de todos!

Nosso amor, em desacerto,
e de mágoas tão coberto,
hoje não tem mais conserto
nem acerto que dê certo!...

Nós somos dois infelizes
por divergências banais...
O amor, só ganha raízes
se houver desejos iguais...

Noutros tempos, mar sombrio,
tive dias tão risonhos,
que se estivesses vazio
podia encher-te de sonhos!…

O careca Zé Ribeiro,
tão distraído é da cuca
que chega a ir ao barbeiro
para cortar ... a peruca!

Olho o mar... As ondas crescem,
crescem, tombando em seguida.
As ondas do mar parecem
um vivo espelho da vida!…

Ó mar, que inspiras poesia,
só invejei tua cor
até conhecer, um dia,
os olhos do meu amor!

Ondas do mar, fragorosas,
na minha angústia incontida,
acho bem mais perigosas
as ondas do mar da vida!

O pé esquerdo do infeliz,
de chulé parece feito...
Culpada é a mãe, que lhe diz:
me lave esse pé direito!…

O que é um "Clone", professor?
pergunta o aluno educado.
E o mestre, com bom humor:
- É um gêmeo falsificado!

Os que devastam as matas
por prazer de devastar,
vão chorar quando as Cascatas
não puderem mais chorar! ...

"Ou casamento ou cadeia!...
E o pau-d'agua, sedutor,
ao ver aquela baleia
gritou: "- Cadeia, doutor!"

Pode o homem ser tacanho,
pode ser grande e perfeito,
que o seu mundo é do tamanho
do mundo que tem no peito.

Por crer em Deus e querer
voltar ao céu de onde vim,
eu comecei a fazer
outro céu dentro de mim!

Por mais que o mar se lamente,
o seu choro não deploro:
- O mar chora, mas não sente,
eu, por sentir, é que choro!

Por oito lustros inteiros,
nossos acertos, Maria,
foram como o dos ponteiros
de um relógio, ao meio-dia...

Quando vou veranear
na praia, de brotos cheia,
não vejo as ondas do mar
com tantas ondas na areia…

Quanto pão, quanto agasalho,
ao suor estou devendo!
Sangue branco do trabalho
em minha pele escorrendo!...

Quer falando mal ou bem,
no telefone, a Rosinha
mostra que a língua que tem
é mais comprida que a linha...

Que sentido desigual
nesta vida as ondas têm:
- As nossas, fazendo o mal,
- as do mar, fazendo o bem...

Se és poeta e pretendes vê-Ias,
em busca de inspiração,
procura-as entre as estrelas,
Musas não pisam no chão!...

Se Musa não envelhece,
esta graça a Deus bendigo:
a que me inspira e me aquece
vive e envelhece comigo!...

Sendo a vida vela acesa
dos ventos maus te acautela,
que o destino, de surpresa,
apaga a chama da vela.

Se o mundo encheste de glória,
por quem é que choras, mar?
- Tu és um herói na história
e é feio um herói chorar!

Seria a vida mais doce,
para os meus sonhos sem fim,
se o mundo, em que eu giro, fosse
o mundo que gira em mim.

Se vês em mim algum brilho,
também podes ser assim
pois foi a escola, meu filho
que fez um homem de mim.

Sobre a terra seca, um dia,
Deus o homem concebeu.
Mas ao ver-lhe a alma fria,
Deus chorou... e o mar nasceu.

Sofreu vexame a Dondoca
na liderança de goela,
quando outra entrou na fofoca
e falou mais do que ela!...

Sonho de alma prevenida,
pois sei que, o sonho é quimera,
e em cada esquina da vida
uma surpresa me espera.

Tenho, em Brasília, um vizinho
que lembra os bebês saudáveis.
Só dorme em redes de linho
e usa "fraudes" descartáveis!...

Velha rua esburacada,
 o nosso sonho foi falso:
- tu nunca foste calçada
e eu continuo descalço...

- Vencendo fragas ingratas,
desde a montanha a cantar ...
É que a água das Cascatas
também tem sonhos de mar! ...

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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