Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 1 de novembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 280)

Chuvisco Biográfico do Poeta deste número: 
         Francisco Miguel de Moura, também conhecido como Chico Miguel, nasceu em Jenipapeiro, em 1933, no sertão do Piauí. Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí e pós-graduado na Universidade Federal da Bahia, onde morou por alguns anos. Aposentado, trabalhou no Banco do Brasil. Radialista, professor de língua e literatura. Reside em Teresina/PI.
         Colabora em diversos jornais e revistas de seu estado e Portugal.
         Sócio efetivo da União Brasileira dos Escritores, Academia Piauiense de Letras, e membro-correspondente da Academia Mineira de Letras e da Academia Catarinense de Letras. Por diversos mandatos participou ativamente do Conselho Estadual de Cultura.
         Algumas obras:
Poesias: 1966 - Areias; Pedra em Sobressalto, 1972; Universo das Águas, 1979; Sonetos da Paixão, 1988; Poesia in Completa, 1998 (comemorando os 30 anos de tensa comunhão com a palavra, no dizer da Profª Nelly Novaes Coelho); Sonetos Escolhidos, 2003.
Prosa:  Os Estigmas (1984); Laços de Poder (1991); Ternura (1993); D. Xicote (2005)
Contos: Eu e meu Amigo Charles Brown (1986), Por que Petrônio não Ganhou o Céu (1999) e Rebelião das Almas, 2001.
         A obra de Francisco Miguel de Moura recebeu manifestação da crítica, vinda de escritores de todo o país, inclusive críticos literários como Fábio Lucas, Nelly Novaes Coelho, Rejane Machado, cujo material está sendo reunido em dois volumes: Um Canto de Amor à Terra e ao Homem e Fortuna Crítica. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Miguel_de_Moura)  

Dorothy é de Sorocaba/SP

Uma Trova de União da Vitória/PR
Hely Marés de Souza

Aquelas nuvens revoltas
sob o imenso firmamento,
parecem ovelhas soltas
voando a favor do vento.

Uma Trova de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Hoje, a grande bailarina
"flutua" por sobre o palco;
ontem, quando ainda menina,
nem sonhava "voar" tão alto!

Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

Querenças

Quero ter a vaidade dos caminhos:
dão passagem mas pouco dão abrigo.
Quero ter o orgulho do tufão,
Quero ter a tristeza do jazigo.

Quero sentir da tarde a lassidão
e a solidão da noite no deserto,
das pobrezinhas flores – o perfume,
como as nuvens – ficar no céu aberto.

Quero ter emoções de amor secreto,
sentir como se sente uma paixão,
pra cantar glórias e chorar amores.

Quero viver do ideal concreto,
quero arrancar de mim o coração,
incapaz de conter todas as dores.

Uma Trova Humorística de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

A mulher quer sempre mais
e o Pires acha uma afronta
dizer que é sopa demais
para um só “pires” dar conta!

Uma Trova de São Paulo/SP
Sérgio Ferreira da Silva

A idade impõe seus percalços
e a humildade os ameniza;
quem anda de pés descalços
respeita a terra em que pisa!

Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

Sensual Alice

Foi na queda da minha meninice,
desaguando na minha juventude,
que me veio à cabeça esta virtude
de te gravar no coração, Alice.

Tu brincavas na areia, ondas salgadas
vinham quebrar-se nos teus pés sem pejo.
Aproveitar meu prematuro ensejo
seria um céu. Perdi nossas pegadas.

Sonho as curvas da praia, as curvas tuas
como o seio nascente que guardavas…
De tantas coisas desejei só duas.

Na noite, as mãos levíssimas de sondas…
E entre séria e risonha te afastavas,
levada docemente pelas ondas. 

Uma Trova Hispânica da Venezuela
Hildebrando Rodriguez 

Y para que siempre estés
engalanando mi vida,
que tu sonrisa me des,
te pido mujer querida.

Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

O que é a saudade

Impossível saber o que é a saudade…
Uma palavra? A cor de uma tristeza?
Ou uma felicidade sem certeza
que em nós se instala como eternidade?

O que passou, passou, não é verdade?
Ou nos ficou do tempo a chama acesa?
Saudade, um não-sei-quê que traz leveza?
Ou apenas enganos, leviandade?

Está no corpo inteiro ou está na alma?
E se está, por que não nos traz a calma?
Por que nos mata assim, tão devagar?

Saudade, o teu passado é tão presente,
és uma dor que chega de repente
e que parece nunca vai passar.

Trovadores que deixaram Saudades
Durval Mendonça
Rio de Janeiro/RJ (1906 – 2001)

A praia é cama estendida,
onde o mar e a lua cheia...
- Cala-te, boca atrevida,
não fales da vida alheia!

Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

O tempo existe

Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.

Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!

Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.

Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.

Uma Trova de São José dos Campos/SP
Adamo Pasquarelli

Quisera (e como quisera)
dar-te um abraço infinito
envolto na primavera
das letras do teu escrito.

Um Haicai de Irati/PR
Sabrina Milaine Srutkowski
(8 anos)

Férias na fazenda
Bolo de milho da vó
Um pedaço, dois, três ..

Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

O tempo sempre vai

O tempo sempre vai, tempo não volta,
pois do futuro faz sua grande meta.
Caminha sem volteios como atleta,
não anda devagar nem sob escolta.

Veja o tempo da moça, ou do poeta:
Precisa sempre da cabeça solta…
Mas se em dado momento se revolta,
não volta atrás, na linha se completa.

Se o tempo humano desse para trás
seria um desmantelo em tudo mais,
a matéria em fumaça tornar-se-ia.

E, loucos, os filósofos e os poetas
trocariam as curvas pelas retas,
e nesse passo o mundo acabaria.

Uma Trova de Campos dos Goytacazes/RJ
Agostinho Rodrigues

A mensagem carinhosa
de um abraço sedutor
é como dar uma rosa
como símbolo do amor.

Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
João Coelho

Pega, pega João Coelho
Com o seu barrete vermelho,
A sua espada de cortiça
Para matar a carriça.

A carriça deu um berro
Que se ouviu no castelo,
Toda a gente se assustou
Só a velha ficou.

A velha achou um rato
Que escondeu no sapato.
Foi levá-lo a S. Vicente
Para comer com pão quente.


Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

Amada minha 1
   
De longe, nos amamos loucamente.
Foram meses e anos, muitos dias
E  noites que a paixão, por outras vias,
Correndo desandava, impertinente.

Quis o teu seio túmido, vibrante
Tateado por minhas mãos macias.
Tanto andamos: caminhos tortos, vias,
Até que finalmente...  E foi brilhante,

Numa tarde de sol, lá na pracinha,
Ao temor que, por forte, eu já não tinha,
Beijei teus lábios, coração opresso.

Bebi teus olhos quentes com meus olhos
E afastamos as pedras, os escolhos,
Virando nossas vidas pelo avesso.

Um Haicai de Cornélio Procópio/PR
Andressa Oliveira Barbosa da Fonseca
(8 anos)

Areia nas mãos
Castelo pronto na praia.
Mar leva embora.

Uma Trova de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica

Tuas cartas eu rasguei,
recortei em mil pedaços,
cada bilhete eu colei
desenhando os teus abraços.

Recordando Velhas Canções
Saudosa maloca
(samba, 1955)

Adoniran Barbosa

Se o sinhõ não tá lembrado
Dá licença de contá
Que aqui onde agora está
Esse edifício arto
Era uma casa véia
Um palacete assobradado
Foi aqui seu moço,que eu
Mato Grosso e o Joca
Construímos nossa maloca

Mais um dia
Nóis nem pode se alembrá
Veio os homes com as ferramentas
O dono mandô derruba
Peguemo todas nossas coisas
E fumos pro meio da rua
Preciá a demolição
Que tristeza que nois sentia
Cada tábua que caía
Duia no coração
Mato grosso quis gritá
Mas em cima eu falei
Os home tá coa razão
Nois arranjá outro lugá

Só se conformemos
Quando o Jocá falou
Deus dá o frio conforme o cobertô
E hoje nois pega a páia nas gramas do jardim
E pra esquecê nois cantemos assim

(refrão 3x)

Saudosa Maloca, maloca querida
Di de donde nóis passemos os dias feliz da nossa vida

Joque as casca pra lá...
Jogue as casca pra lá...

Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

A falta do espírito

Outrora eu tive angústias tão exasperantes
Como não crer em Deus, não querer o futuro.
Hoje, disto curado, inda mal me seguro,
Sem ter nem encontrar certezas fascinantes.

E em vão feridas saram num velho viajante
De todo resolvido a construir sua obra
Sem voltar-se ao espírito, uma nova dobra
Pra expulsar o veneno solto a cada instante.

Perante a humanidade igual a mim, sem fé,
Menti ser diferente  e me fazendo até
Acreditar que bem mostrava novo exemplo.

Hoje, o saber humano, eu sei, feito de lama,
No proscrito me atira onde está minha cama
Porque fiz da matéria a base do  meu Templo.

Um Haicai de Irati/PR
Murilo Ferreira de Miranda
(9 anos)

Férias de verão
Logo cedinho
O futebol e os amigos.

Uma Trova de Mangualde/Portugal
Elisabete Aguiar

O teu amor me conforta,
teus braços sabem a mel,
mesmo tendo - que me importa?
- frágil corpo de papel.

Hinos de Cidades Brasileiras
Sete Lagoas/MG

Sete Lagoas,
Cidade de belezas mil!
Sete Lagoas,
Culta sonhadora e gentil!
Terra bendita,
De progresso e tradição!
Sete Lagoas Centenária,
És dona do meu coração!

Em tua serra
Está a cruz do Redentor!
E Santa Helena
Te protege com amor!
Sete Lagoas,
De poema e canção!
Terra dos lagos encantados,
Tu és o sorriso do sertão!

Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

A tristeza

Todo mundo algum dia esteve triste,
com vergonha de ser, de se mostrar,
sem  querer aceitar, quando resiste,
o “eu”, o outro, o céu, a terra e o ar.

Por ter doenças difíceis de curar,
só pensando um futuro aterrador,
se o mal, de qualquer forma, foi o amor
que lhe faltou... Por quê? Não soube amar.

Também sofri por isto e, sem receio.
Com risos que não tenho – meus inventos –
vou castigando o monstro-orgulho feio.

E aprendi a lavrar meus sentimentos,
guardando o cabedal dos pensamentos
num cofre de saúde e de amor cheio. 

Uma Trova de Maranguape/CE
Francisco José Moreira Lopes

O teu carinhoso abraço
alegra meu coração
e neste lindo compasso
canto uma bela canção.

Um Poema de Teresina/PI
Francisco Miguel de Moura

Como saber

Sou como a natureza: Não me deixo
transformar porque apenas alguém quis;
não julgo nem condeno,  mediatriz,
penso de mão na testa e não me queixo.

Penso e resolvo o que me diz respeito,
por dentro e não por fora, que é ilusão.
De que vale pintar “sim” sobre “não”?
de que vale mostrar o que é desfeito?

Previno-me de enganos aonde for...
Mas como vou saber se sou cativo
da razão? se nasci só para o amor?

Como  é que vou saber da minha sorte,
se me perco no mundo em que cultivo
razão e sentimento, e vida, e  morte?

Uma Sextilha de Caicó/RN
Prof. Garcia

Fui buscar nos  antigos pergaminhos
e nas cinzas dos velhos alfarrábios,
toda a história da musa que me inspira
e a doçura que brota dos seus lábios;
pois preciso da fonte onde vicejam
os mais lindos cordéis das mãos dos sábios.
Sobre a canção “Saudosa Maloca”
        O cunho descritivo e a reprodução perfeita dos linguajares caipira e paulistano italianado, próprios dos ambientes em que viveu Adoniran Barbosa, são as características básicas do estilo que o tornou o compositor mais popular da cidade de São Paulo. Sem dúvida, essas características já aparecem em seu primeiro sucesso nacional, o samba "Saudosa Maloca", que narra o episódio da demolição de uma "casa véia", refúgio de um grupo de desvalidos, para a construção de um "arto" edifício.
        Espontâneo, espirituoso, personagem ele mesmo de alguns de seus sambas, Adoniran (que foi grande comediante de rádio, destacando-se como o personagem Charutinho, no programa "História das Malocas") é um dos melhores intérpretes de sua obra, só igualado, talvez, pelos Demônios da Garoa, que popularizaram "Saudosa Maloca". Aliás, esta composição já havia sido gravada por Adoniran, com o título de "Saudade da Maloca", quando o pessoal do conjunto a conheceu nos sets de filmagem de "O Cangaceiro". Na ocasião, Adoniran fazia uma ponta no filme, enquanto os Demônios formavam o coro dos cangaceiros. (Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/05/saudosa-maloca.html)  

  

Ah, mãos tão frágeis, parecem
Pedir arrimo e guarida...
E entretanto, se quisessem
Guiariam minha vida...

Ah, trova com quem me enleio...
- Tens um gingado qualquer
Que lembra esse bamboleio
Do corpo de uma mulher...
Amor que sofro, que almejo,
mata-me logo de vez!
Longe que estejas, te vejo,
Ao teu lado, nem me vês...

Antes verdade isto fosse:
dizer que não penso em ti...
Mas basta ver-te, e acabou-se!
Me esqueço que te esqueci.
Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
- quem calcula a dura prova
por que o poeta passou ?

Aos meus ciúmes doentios
Tu me disseste ainda nua:
- De olhos abertos sou dele!
De olhos fechados, sou tua!
A poesia que desejo
tiro de mim como aquela
cantiga do realejo
se alguém roda a manivela…

A saudade é este vazio
que a vida, ao partir, deixou;
rio seco, que foi rio,
porque a água já secou...
A saudade, intimamente,
devagarzinho nos rói;
é uma emoção diferente,
como uma dor que não dói.
A saudade me atormenta
e pesa como uma cruz,
- é como a sombra que aumenta
quanto mais se afasta da luz...
Assim tão só, como eu fico,
tão sem ti, neste amargor,
quem dirá que eu já fui rico,
milionário de amor?!

Às vezes não acredito:
- como há de findar assim
o nosso amor infinito ,
se o infinito não tem fim?
A todos prende e cativa,
E não se rende a qualquer...
- É pequena, mas esquiva...
... Não fosse a trova, mulher...

A Vida - ansiosa escalada
sobre a paisagem do mundo
Tanto esforço para nada
se há sempre abismo no fundo!

A vida passa e a saudade
passa a ser a vida ausente,
- é uma vaga claridade
de um clarão de antigamente...
A vida - uma onda que avança
e volta - vai-vem do mar...
Quando vai, quanta esperança!
Quanta amargura, ao voltar!
Cão de guarda, ameaçador,
a rosnar, furioso e cego
eis afinal, meu amor,
este ciúme que carrego...
Como o quadro na moldura,
como a rosa no botão,
como Deus na criatura,
- estás no meu coração.
- "Crê na vida!" - eis o conselho
da Esperança, ante a desgraça...
A face fria do espelho,
de calor ainda se embaça...
Definir a eternidade
é fácil, já a defini:
é o instante de saudade
e eu vivo longe de ti.
Delicados diademas
Trabalhadas obras-primas...
...Tuas mão sãos dois poemas
Rimando, em vermelhas rimas…

De mãos dadas com as lembranças
Com o mar, com a noite, com a lua
Faço versos, como as crianças
Fazem ciranda na rua...

Deslumbrada, com certeza,
a tua própria camisa,
ao descobrir-te a beleza,
para um momento indecisa...
Dosado, o ciúme é tempero
que à afeição da mais sabor...
Mas se chega ao exagero
é o pior veneno do amor...
E como que por encanto
Minha dor se vai embora
Pois estas trovas que eu canto
São feitas... como quem chora...
E eis a suprema ironia
Ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia,
Mas, com quem? - com teu marido...
Este amor nunca se apaga:
é chama que me incendeia,
é espuma a florir na vaga,
é vaga a brincar na areia.
Eu faço versos assim
Como quem respira ou canta,
A poesia nasce em mim
Como do chão nasce a planta...
Longe o amor, quem pode amar?
Tudo é inquietude, aflição...
A saudade é falta de ar
asfixiando o coração...
Louco de amor, te busquei,
e ao te encontrar, percebi
que não fui eu que te achei;
eu, sim, é que te perdi.
"Matar saudades", querida
é uma expressão, simplesmente,
pois, em verdade, na vida,
saudade é que mata a gente
Mentiste? Foste mesquinha?
Que importa se já não cremos?
Importa é que foste minha
que eu fui teu, e que vivemos!

Minha maior alegria
minha glória humilde e nua
é ver a minha poesia
fazer ciranda na rua...

Misto de pranto e alegria,
sol e chuva, sonho e dor,
a saudade é o sol num dia
de chuva, no nosso amor...
Na despedida - com pressa -
escrever me prometeste.
Esqueceste da promessa,
ou apenas me esqueceste?
Nesse jardim de surpresas,
que foi o amor que me deste,
as violetas são tristezas,
minha saudade, um cipreste.
No peito dos marinheiros
nasceu , cresceu, emigrou...
Mas nos porões dos "negreiros"
foi que a saudade... chorou!

No teu olhar há dois sóis,
na tua alma, um mal-me-quer,
e há duas luas redondas
no teu corpo de mulher...
(Ó Amor, como desandas!)
Ontem, ciúmes... mil espreitas...
Hoje, nem sei onde andas,
Nem em que cama te deitas...

O tal ditado é um conselho,
não te mostres desolado:
- "há sempre um chinelo velho
para um pé doente e cansado..."
Ó vento, que em ti resumes
tudo quanto a vida tem:
- tu, que trazes perfumes,
levantas poeira também...

Partiu com sonhos de glória!
Ficou com a dor e a tristeza!
Eis afinal toda a história
da saudade portuguesa!
Perigoso, onipotente,
verdadeiro ditador...
o ciúme é um cego, doente,
ou um doente, cego de amor?
Persistente e fina dor,
sombra da felicidade,
ânsia e gemido de amor,
lembrança e espera... Saudade.
Podes ter outro Senhor,
até mais rico que um Rei,
mas nunca mais outro amor
há de te dar quando dei.
Poesia, flor de mistério
que brota do coração
e abre as pétalas de etéreo
no céu da imaginação.

Por certo a pior solidão
É aquela que a gente sente
Sem ninguém no coração...
No meio de muita gente...
Por certo que me comovo,
nem glória existe maior :
ouvir um poeta o seu povo
dizer seus versos de cor !

Por ironia maior,
sorriste do meu desgosto,
e sepultaste este amor
nas covinhas de teu rosto...
Praias longe, em solidão
fora de todas as rotas,
tal como o meu coração
como o sonho... das gaivotas...

Quando estás longe, querida,
na minha angústia sem fim,
saudade é o nome da vida
que morre dentro de mim...
"Quem canta os males espanta"
Disto, afinal, tenho prova,
pois meu sofrer hoje canta
e se desfaz numa trova.

- "Quem espera desespera...."
- "Quem espera, sempre alcança..."
Ah, meu amor, quem me dera
esperar tendo esperança!
Resta um consolo: pensar
no amor que juntos colhemos...
Nem Deus pode tirar
os instantes que vivemos!
Rosas tolas, tão vaidosas,
que em belas hastes vicejam...
Vem, amor, olha estas rosas,
quero que as rosas te vejam...
Saudade é fidelidade,
e eis como a imagem se explica:
partem o amor, a amizade,
todos partem... ela fica.

Saudade, - estranha ilusão,
que a solidão recompensa,
presença no coração
maior que a própria presença...
Sempre fiel, e verdadeira
vigia da nossa dor,
ó saudade, companheira
dos solitários do amor...
Se a coisa dada, algum dia,
de nós não fosse tirada,
ainda assim, gente haveria
que nunca daria nada.
Tudo é trova: a flor, a onda,
A nuvem que passa ao léu
E a lua, trova redonda
Que a noite canta no céu!
Tu tão moça, eu tão vivido.
Tantos anos de permeio.
Bem poderias ter sido
o grande amor que não veio...
Velhos mastros, verticais
como certos pensamentos,
vossas bandeiras de paz
são almas soltas aos ventos.

Vida amarga! E na amargura
da vida, eu pensei, querida:
- quem dera a tua doçura
para adoçar minha vida!
Vi teu retrato, - revivo
um velho amor que foi meu...
A saudade é um negativo
de foto que se perdeu...
Vivo a vida cada dia,
vida comum, sem engodos,
por isto a minha poesia
reflete a vida de todos.
 _________________
Na trova do J.G. "A Saudade me atormenta", o 4o. verso está com 8 sílabas . 

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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