Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 2 de novembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 281)

  
Uma Trova de Irati/PR
Mafalda de Sotti Lopes

Toda semente que eu planto
nos sulcos da minha dor,
germina regada em pranto,
mas, desabrocha em amor!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo 

Amigo, não volte nunca
aos teus amores passados,
os mortos por mais queridos
devem ficar enterrados.

Uma Trova de Santos/SP
Carolina Ramos

A água vale mais do que ouro,
pois este, por mais que  valha,
menos vale que um tesouro
que,  se falta...morte espalha!

Um poema  de Vila Velha/ES
Aparecido Raimundo de Souza

Chuva e Saudade

Cai a chuva… é triste o dia…
A manhã é cinzenta e baça…
E eu mudo vejo a chuva fria,
A correr de leve na vidraça…

E a chuva cai… cai e não passa…
Nem sequer a chuva estia…
Para que um pouco se desfaça,
A saudade de quem eu tanto queria!…

Qual essa vidraça, está meu rosto…
E meus olhos não querem desanuviar…
É por demais sofrido o meu desgosto…

Aumenta a chuva e com ela a minha dor…
Soluço qual criança perdida, sem cessar,
Na incerteza de ao menos rever-te amor!…

Uma Trova Humorística de Belo Horizonte/MG
Maria Dolores Paixão Lopes

No momento derradeiro,
em sua prece final,
pede a Deus, o trambiqueiro,
um paraíso fiscal!

Uma Trova de João Pessoa/PB
Cida Vilhena

Saudade da luz solar...
Hoje o mundo esfumaçado
pela pressa de gerar,
só vê o sol desenhado.

Um Poema de Brasília/DF
Pedro César Batista

Candeeiro do tempo

Olhos cerrados não veem a manhã
Sustentam-se na escuridão do medo e do passado
Bocas enganam ouvidos
Alegram fantasmas que submergem em mentes
Bailam em cantos iludidos com o brilho das luzes
Voos arrastam almas em frágeis desejos supérfluos
Ouvidos se animam ao tilintar de 30 moedas
Falam em suas crenças
Cantam desilusões e dores
Nada creem no amor e em Iris brilhantes
Acham que todos os olhares são cinzentos
Todos os abraços falsos
A manhã se suicida com medo do dia
Prefere a escuridão da solidão do poder
Desiste de receber a luz das flores e dos pássaros
O dia se vai
Nem noite vem
Deixa-se inebriar no tempo de dor
Onde estou que ainda sonho
Preciso acordar e voar ao infinito
Retirar as folhas que abafam meu canto
Pássaros não alimentam mais sonhos
A dor de quem não sonha
Passos sobrevoa oceanos
Desejam ser brilho nessa escuridão

Uma Trova Hispânica da Argentina
Daniel S Nicolosi Carrara

Poesía que desvelas,
una trova apareció,
entre bellas acuarelas
una en mi pecho pintó!

Um Poema de Recife/PE
João Cabral de Melo Neto
(1920 – 1999) Rio de Janeiro/RJ+

A viagem

Quem é alguém que caminha
Toda a manhã com tristeza
Dentro de minhas roupas, perdido
Além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
Como se levassem nos bolsos
Doces geografias, pensamentos
De além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
Vem morrer no longe horizonte
Do meu quarto, onde esse alguém
É vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
Coisas em voz que não ouço.
- Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

Trovadores que deixaram Saudades
Francisco Neves Macedo
Natal/RN (1948 – 2012)

Garrancho, graveto, espinho,
feito de amor, que eu suponho,
vai aquecer nosso ninho
para “chocar” nosso sonho.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Arnoldo Pimentel Filho

Anjo de vidro

Sou um anjo de vidro
Papel rasgado
Caído ao lado
Do armário quebrado
Sou vida sem linha para seguir
Peça abandonada
Pela sucata
Do carro usado em frangalho
Sou um anjo decadente
Sem poder mostrar os dentes
Sem ser sobrevivente
Sem modos aparentes
Sou vida sem anjo
Tronco de árvore caída na brisa
Que respingou na calçada
Que deflorou meus dias de beleza

Uma Trova de São Paulo/SP
Cipriano Ferreira Gomes

No descompasso da sorte
de uma tela poluída,
sobre a paisagem da morte
a Esperança pinta a Vida.

Um Haicai de São Paulo/SP
Lucas Henrique Silva Matos
(12 anos)

Noite enevoada
Um cantinho da lua cheia
Prestes a sumir.

Um Poema do Recife/PE
Joaquim Cardozo
(1897 – 1978) Olinda/PE+

O Relógio

Quem é que sobe as escadas
Batendo o liso degrau?
Marcando o surdo compasso
Com uma perna de pau?

Quem é que tosse baixinho
Na penumbra da ante-sala?
Por que resmunga sozinho?
Por que não cospe e não fala?

Por que dois vermes sombrios
Passando na face morta?
E o mesmo sopro contínuo
Na frincha daquela porta?

Da velha parede triste
No musgo roçar macio:
São horas leves e tenras
Nascendo do solo frio.

Um punhal feriu o espaço…
E o alvo sangue a gotejar;
Deste sangue os meus cabelos
Pela vida hão de sangrar.

Todos os grilos calaram
Só o silêncio assobia;
Parece que o tempo passa
Com sua capa vazia.

O tempo enfim cristaliza
Em dimensão natural;
Mas há demônios que arpejam
Na aresta do seu cristal.
No tempo pulverizado
Há cinza também da morte:
Estão serrando no escuro
As tábuas da minha sorte.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

O Trovador, com seu sonho,
e sua grande emoção,
desenhou um Sol risonho
na preta poluição!!!

Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
Pardal pardo, porque palras?

(Trava-línguas para dizer em voz alta)

Pardal pardo, porque palras?
Palro sempre e palrarei
Porque sou pardal pardo
Palrados de El-rei


Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Olavo Bilac
(Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac)
(1865 – 1918)

Plutão

Negro, com os olhos em brasa,
Bom, fiel e brincalhão,
Era a alegria da casa
O corajoso Plutão.

Fortíssimo, ágil no salto,
Era o terror dos caminhos,
e duas vezes mais alto
Do que seu dono Carlinhos.

Jamais à casa chegara
Nem a sombra de um ladrão;
Pois fazia medo a cara
Do destemido Plutão.

Dormia durante o dia,
Mas, quando a noite chegava,
Junto à porta se estendia,
Montando guarda ficava.

Porém Carlinhos, rolando
Com ele ás tontas no chão,
Nunca saía chorando
Mordido pelo Plutão…

Plutão velava-lhe o sono,
Seguia-o quando acordado
O seu pequenino dono
Era todo o seu cuidado.

Um dia caiu doente
Carlinhos… Junto ao colchão
Vivia constantemente
Triste e abatido, o Plutão.

Vieram muitos doutores,
Em vão. Toda a casa aflita,
Era uma casa de dores,
Era uma casa maldita.

Morreu Carlinhos… A um canto,
Gania e ladrava o cão;
E tinha os olhos em pranto,
Como um homem, o Plutão.

Depois, seguiu o menino,
Segui-o calado e sério;
Quis ter o mesmo destino:
Não saiu do cemitério.

Foram um dia à procura
dele. E, esticado no chão,
Junto de uma sepultura,
Acharam morto o Plutão.

Um Haicai de  Xambrê/PR
José Lucas Souza da Silva
(14 anos)

Vejo da janela
Passarinhos encolhidos
Manhã de inverno.

Uma Trova de Natal/RN
José Lucas de Barros

O homem, com seu desmando,
põe em risco a própria raça
e ninguém sabe até quando
vamos respirar fumaça!

Recordando Velhas Canções
O menino da porteira
(cururu, 1955)

Teddy Vieira e Luizinho

Toda vez que eu viajava
                      E
Pela estrada de Ouro Fino
De longe eu avistava
A figura de um menino
Que corria abrir a porteira
Depois vinha me pedindo
Toque o berrante seu moço
Que é pra eu ficar ouvindo

Quando a boiada passava
E a poeira ia baixando
Eu jogava uma moeda
Ele saia pulando
Obrigado boiadeiro
Que Deus vá lhe acompanhando
Pra aquele sertão afora

Meu berrante ia tocando
No caminho desta vida
Muito espinho eu encontrei
Mas nenhum caso mais fundo
Do que isso que eu passei

Na minha viagem de volta
Qualquer coisa eu cismei
Vendo a porteira fechada
O menino não avistei
Apeei do meu cavalo
Num ranchinho à beira chão
Vi uma mulher chorando
Quis saber qual a razão

Boiadeiro veio tarde
Veja a cruz no estradão
Quem matou o meu filhinho
Foi um boi sem coração
Lá pra banda de Ouro Fino
Levando gado selvagem
Quando passo na porteira
Até vejo a sua imagem
O seu rangido tão triste
Mais parece uma mensagem
Daquele rosto trigueiro
desejando-me boa viagem

A cruzinha do estradão
Do meu pensamento não sai
Eu já fiz um juramento
Que não esqueço jamais
Nem que o meu gado estoure
Que eu precise ir atrás
Nesse pedaço de chão
Berrante eu não toco mais

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Ivan Junqueira

Dom Quixote

Vai a passo Dom Quixote
em seu magro Rocinante.
Sancho Pança o segue a trote
pela Mancha calcinante.

Tudo é pedra, arbusto seco,
erva má, ermas masetas.
Não se escuta nem o eco
do vento a ranger nas gretas.

O que buscam o fidalgo
e o seu álacre escudeiro?
Peripécias, duelos, algo
que lhes recorde o cordeiro

quando abriu os sete selos
e fez soar as trombetas?
Buscam o quê? O que fê-los
ir tão longe em suas bestas?

Pois esse Alonso Quijano,
ao deixar a sua aldeia,
só buscava – áspero engano –
exumar o que, na teia

de suas tontas leituras,
eram duendes, hierofantes,
castelos, leões, armaduras,
Dulcinéias, nigromantes

e uma Espanha onde a justiça,
há tanto um tíbio sol posto,
fosse um bem que só na liça
pudesse ser recomposto.

Mas do triste cavaleiro
era tanto o desatino
que na cuia de um barbeiro
vira o elmo de Mambrino,

nas ovelhas ao relento,
uma tropa de meliantes,
e nos moinhos de vento,
uns desgrenhados gigantes.

Dom Quixote nunca via
o que aos seus pares narrava,
pois que só lia e mais lia,
e ao ler é que se encantava.

E assim do texto as imagens
saltavam – bruscas centelhas –
no amarelo das paisagens,
no ocre encardido das telhas.

Foi quando então, claro e fundo,
percebeu que o que ia vendo
nada tinha com o mundo
sobre o qual andara lendo.

Ilusão e realidade,
heroísmo e covardia,
sensualismo e castidade,
prosa pedestre e poesia

– eis os polos do conflito
que somente se harmoniza
no humor de um cáustico dito
que nos fustiga e eletriza.

E o que redime o manchego
não é tanto aquilo que ama,
e sim o dom de si mesmo
no amor que doa a uma dama,

sem nenhuma recompensa
que não seja a do fracasso
ou da estrita indiferença
de quem sequer viu-lhe um traço.

De fala mansa e discreta,
que ao calar é que se escuta,
seu percurso é a linha reta
entre o que tomba e o que luta.

Vai a passo Dom Quixote,
ya el pie en el estribo.
A morte agora é seu mote.
Vai a sós. Vai só consigo.

Um Haicai de São Vicente/SP
Isabella Cavalcante Barreto
(11 anos)

Gatos do vizinho
Meu cachorro curioso
Orelhas em pé.

Uma Trova de Curitiba/PR
Mário Zamataro

Era uma vez uma praça,
era uma vez uma lira,
e depois veio a fumaça,
um louco e um sol de mentira.

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso
(Bernardo Sá Barreto Pimentel Trancoso)

Voar

Antes que Thor, Mercúrio e mais distantes
Deuses do povo grego, antigamente -
Que nem Dédalo e Ícaro -, em rasantes,
Voassem, triunfantes, entre a gente.

Antes que Santos desse voos brilhantes,
E dois irmãos roubassem-lhe a patente
Do primeiro avião… Antes, bem antes,
Voava um coração, de tão contente.

Entre imaginações ele subia;
Em passos, saltos, vôos, em quedas rasas,
Voando sobre o céu de tantas casas

Que, vindo o super-homem, logo via:
Seu dom do voo nem era primazia;
O amor já conferia aos homens asas.

Hinos de Cidades Brasileiras
Tiradentes/MG

No passado foste grande, foste altiva
Te cobriste de riquezas e de glórias.
Ficaste de maneira decisiva
Gravada para sempre em nossa história
Aqui junto da Serra permanente.
Foi que o sonho de um herói floriu um dia.
Sonhou a nossa Pátria independente
A liberdade ainda mesmo que tardia.

Tiradentes, ouro antigo na Igreja Matriz
Água pura em chafariz
Oficinas de arte de prata,
Gente nova buscando ideais
Casarões coloniais, velhos sonhos que a Serra retrata.
Tiradentes, Tiradentes.

Agora que o passado é uma lembrança
Tu vives teu presente com bravura.
Seu povo com fé e segurança
De um futuro bem maior vai à procura
Guardando com valor as tradições
De arte, de grandeza e de heroísmo.
Mostrando para as novas gerações
Exemplo de trabalho e de civismo.

Uma Trova de Bragança Paulista/SP
Marina Valente

Quando as nuvens da tristeza
toldarem sua alegria,
pinte um sol com sutileza:
viva a sua alegoria!

Um Poema de São Borja/RS
Apparicio Silva Rillo

Mãe Velha

Cabelo era preto.
Que liso era o rosto!
Teu corpo era flor.

Cabelo era preto.
mas hoje, Mãe Velha,
cabelo branquinho,
geada e agosto
que não levantou.

Que liso era o rosto!

Agora, Mãe Velha,
rosto enrugadinho
parece co’as frutas
que o tempo secou.

Teu corpo era flor.
Mas hoje, Mãe Velha,
da flor, que ficou?
Só haste pendida
que a vida deixou.

A cor do cabelo
passou pro vestido.

O arado do pranto
no liso do corpo
que fundou que arou!

A haste pendida
curvada pra terra,
e a terra reclama
o que falta da flor.

- Papai foi pra guerra!
dizia o piá.
Mãe Velha era moça
no tempo que foi.

Mas veio a notícia:
- Teu homem morreu,
de lenço encarnado
e de lança na mão.

E os homens passavam
nos magros cavalos,
com barbas de mato,
com palas rasgados,
com pena da moça,
com raiva da guerra,
que mata um gaúcho
pra erguer um herói.

Mãe Velha – era moça -
chorou muito choro
no seu avental!
Abriu o oratório
da sala do rancho,
rezou padre-nosso
por alma do homem
que a guerra levara
de lenço encarnado
e de lança na mão.

E a Virgem Maria,
seu Filho nos braços,
olhava mãe moça
Mãe Velha ficar.
E a vida espiava
Mãe Velha viver:

- madrugada na mangueira,
leite branco na caneca,
chaleira chia na chapa,
costume faz chimarrão.
Gamela, farinha branca,
forno aceso, sova pão,
charque magro na panela,
canjica, soca pilão,
manjericão na janela,
vassoura roda no chão…

E a vida cobrava
tostão por tostão.
Mãe Velha, mais velha,
pagava pro tempo
a usura do dia.
Um sol que sumia
era mais um dobrão.

Piá se fez homem.
Mãe Velha com medo da revolução
Um dia, por fim,
piá foi s’embora
seguindo um clarim.
Mesminho que o pai:
de lenço encarnado
e de lança na mão.

Guria cresceu.
Sobrou no vestido
da chita floreada
que a mãe lhe cozeu.
Depois… se perdeu.

Mãe Velha chorando
o que a vida lhe fez,
no velho oratório
já reza por três.

A noite tem fala
na boca da noite,
a vida é mudinha,
nem boca não tem.

Por isso que a vida
ninguém não entende,
Mãe Velha, ninguém.
A vida, Mãe Velha,
que é mãe e mulher.

Sobre a Canção “O Menino da Porteira”
         Um dos maiores compositores da música caipira, Teddy Vieira teria em "O Menino da Porteira" o seu primeiro grande sucesso. Cantada em como manda a tradição do gênero, a composição foi gravada por Luisinho (Luís Raimundo) em dupla com Limeira (Ivo Raimundo), acompanhados por viola caipira de cinco cordas dobradas, violão e o som de um berrante de chifre de boi.
         A letra conta a história de um boiadeiro que sempre presenteava com uma moeda um menino que lhe abria a porteira para dar passagem ao gado e sempre queria ouvir o berrante. Tempos depois o menino é morto por um boi e o boiadeiro nunca mais volta a tocar o berrante.
         Em 1973, "O Menino da Porteira" ressurgiu em gravações de Tião e Pardinho e do ex-cantor da Jovem Guarda Sérgio Reis. O sucesso foi tão grande que Sérgio decidiu utilizar o poema como enredo que solidificou sua carreira de cantor sertanejo. (Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/05/o-menino-da-porteira.html)  
  

A glória, após a partida,
não nos traz paz nem conforto:    
quero ser mortal... com vida!
E não imortal... e morto!

As outras brincam de roda…
E a olhar a brincadeira
a menina se acomoda
sobre as rodas da cadeira…

Ciúmes - já disse alguém -
vivem no fundo da gente.
Ninguém diz que tem, mas tem;
ninguém quer sentir, mas sente.

É a nossa vida, em resumo,
uma estrada em que se passa,
da qual só se traça o rumo...
O limite, é Deus quem traça.

Embora eu lute e me agite
nesse afã, pelo pão-nosso...
eu sei que existe um limite
entre o que eu quero e o que eu posso...

Em meu brinquedo, entretido,
a brincar de esconde-esconde,
eu fui ficando escondido
não sei de quem, nem sei onde.

Eu e a vida estamos quites
pois, se de modo severo,
a vida me impõe limites,
eu, quase sempre os supero...

Fogosa, a "gata", no leito,     
já fez tudo o que sabia...
E o velho, "do mesmo jeito",
comenta: "Que teimosia!'...

Há de ter sonhos pequenos
todo aquele que acredite
que, nos limites terrenos,
a vida tem seu limite.

Jurei não te procurar...
jurei, mas quebrei a jura...                  
quem ama pode jurar
não procurar, mas... procura.

Meu coração, tem cuidado.
No amor, não te precipites
pois, o amor é ilimitado
mas tu tens os teus limites...

Na calma insossa da praça
o ancião mede a distância
que vai dos dias que passa
aos dias da sua infância.

Não me queixo se, de dores,          
minha vida hoje é repleta,
pois sofrer plantando flores
é destino de poeta...

Não somos dois, - asseguro -
somos metades... E assim,
ao procurar-te, eu procuro
outra metade de mim...

Nessa procura incessante,
sem ter achado o que eu quis,
achei, na vida, o bastante
para achar que sou feliz!...

Nos domínios de Afrodite
ninguém fica ileso a nada...
Pois, neles não há limite
que algum amor não invada...

O carrilhão, com sonoras
e compassadas batidas,
marca o limite das horas...
Marca o limite das vidas...

Para não ter frustrações
de insucessos e fracassos,
eu limito as ambições
ao limite dos meus passos...

Por mais que estude e medite
sobre os mistérios do Além,
verá que existe um limite
que ninguém passa... Ninguém!

Por mais que julguem bisonhos
teus sonhos, nunca os evites
e nem limites teus sonhos...
que os sonhos não têm limites.

Quando os meus sonhos, escassos,
se despedaçam, tristonho,
eu vou juntando os pedaços
e deles faço outro sonho…

Se partires, algum dia,
não me acenes e nem chores...
Que cada aceno faria
minhas tristezas maiores…

Talvez porque eu cante tanto
o mesmo amor, há quem diga
que essas cantigas que eu canto
são sempre a mesma cantiga...

Tem calma, velhice, aguarda!       
Não venhas me ver ainda!...
Que não receies ser tarda,
porque nem tarda és bem vinda...

Um beijo de despedida...
Depois o aceno... E depois,
nós dois, o resto da vida,
com saudades de nós dois…

Vejo enfim, com desencanto,
que tive sonhos de rei...
Fui à procura de tanto!...
E foi tão pouco que achei!

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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