Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 286)

Garoa sobre o poeta: 
         O poeta deste número, foi um grande amigo meu, desde quando fiz as oficinas de literatura com ele na Casa Mário de Andrade, em São Paulo, até nossas reuniões literárias/musicais em nossas casas. Há muitos anos residia em Curitiba com o filho. Faleceu anteontem, 4 de novembro, aos 92 anos. Uma grande perda.
Chuviscão biográfico do Poeta:
                 ANDRÉ  CARNEIRO (André Granja Carneiro) nasceu em 08 de maio de 1922, em Atibaia/SP.
         Cineasta, criou e dirigiu filmes de pesquisa artística, premiados aqui e no exterior. Roteirista, foi premiado no Concurso Nacional para Roteiros, no Quarto Centenário de São Paulo. Seu filme Solidão representou o Brasil no Concurso Internacional para Filmes Artísticos, sendo premiado na Inglaterra em 1952,e exibido na França e Itália.
         Seu conto O Mudo foi transformado em filme de longa metragem, dirigido por Júlio Xavier da Silveira em produção da Embrafilme.
Atuou no cinema publicitário dirigindo curtas metragens e comerciais na televisão.
         Fotógrafo artístico, participou de vários salões nacionais e internacionais, tendo sido premiado no Brasil, Holanda e Itália.
         Pintor e escultor, inovou a arte expondo seus trabalhos aos quais denomina “pintura dinâmica”, técnica na qual se vale de líquidos químicos imiscíveis ou não que tomam várias formas em compartimentos transparentes justapostos.
         Também realizou exposições de “Poesia Colagem”, técnica com a qual criou capas de livros de vários autores.
         Jornalista, foi editor e criador do conceituado jornal literário TENTATIVA, 1949, apresentado por Oswald de Andrade, para o qual colaboraram, na época, os maiores escritores nacionais, como Sérgio Milliet, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Vinícius de Morais e outros.
         Como contista e romancista alcançou repercussão mundial. É o único escritor brasileiro de “science-fiction” traduzido na em diversos países. Considerado mestre internacional do gênero, foi destaque da importante editora norte-americana Putnam na antologia The Definitive Year’s Best Selection, de 1973, que editou os melhores contos de Ficção Científica do Mundo. Também tem seus contos publicados numa antologia universitária americana ao lado de nomes como Solzhenitsyn, Rafael Alberti, Gabriela Mistral, Anton Chekhov, Behold Brecht, Tagore, D.H. Lawrence, Jacques Prévert, Cisneiros, Huxley, etc.
         Seu romance Piscina Livre, 1980, traduzido na Suécia, alcançou sucesso critico. A.E. Van Vogt (USA) o comparou a Kafka e Albert Camus. Dinah Silveira de Queiroz o tratava por “nosso mestre da F.C.”, e Carlos Drummond de Andrade afirmou que, “em Piscina Livre, André exercita de maneira brilhante a originalidade de ficcionista”.
         Seu nome consta como verbete de enciclopédias nacionais e estrangeiras. É o único membro na América do Sul do Science Fiction & Fantasy Writers of América, entidade profissional de escritores americanos.
         Estreou na poesia com o livro Ângulo & Face, 1949, editado por Cassiano Ricardo, que afirmou: “seu poder de comunicação chega a ser contundente, fere mais do que a sensibilidade à flor da pele”. Esse primeiro livro, assim como os demais, sempre são recebidos com elogios de toda a crítica brasileira. José Geraldo Vieira destacou que “somente alguns dos seus poemas já bastariam para o inserir entre as melhores expressões do modernismo”. Otto Maria Carpeaux destaca “os versos comoventes de Ângulo e Face”.
         Ferreira Gullar lamenta que “a poesia sóbria e humana de André Carneiro passe despercebida do grande público: seus poemas são construídos arquiteturalmente, num equilíbrio de verbalismo e emoção”. “Uma continuidade modelar do Modernismo numa renovada e luminosa expressão”, escreveu Oswald de Andrade.
                   Ganhou inúmeros prêmios nacionais como o Machado de Assis, do Estado da Guanabara, Melhor Livro do Ano,da Câmara Municipal de São Paulo, Prêmio Alphonsus de Guimaraens, em 1966,da Academia Mineira de Letras,e o Prêmio Nacional Nestlé, 1988,com o livro Pássaros Florescem, ed.Scipione.
         André sempre trabalhou com a hipnose,publicou livros a respeito do tema e participou dos primeiros Congressos Internacionais de Parapsicologia apresentando trabalhos nesta área, sendo considerado autoridade no assunto.
         Críticos americanos, espanhóis e argentinos o classificam como o melhor autor de conto fantástico da América Latina. Ganhou vários prêmios com seus livros de poemas e prosa. Único membro da América do Sul do Science Fiction & Fantasy Writers of America.
         André Carneiro escreveu também ensaios sobre Literatura e Hipnose Clínica. Vendeu para a Espanha os direitos para um filme do seu conto “Escuridão”, publicado nos EUA em antologia ao lado de ganhadores do Nobel de Literatura.
Alguns Livros Publicados
Ângulo & Face – poesia – 1949
Diário da Nave Perdida – contos – 1963
Espaçopleno – poesia – 1963
O Homem que Adivinhava – contos – 1966
O Mundo Misterioso do Hipnotismo – ensaio – 1963
Introdução ao Estudo da Ficção Científica – ensaio –1967
Manual de Hipnose – ensaio – 1978
Piscina Livre – romance – 1980
Pássaros Florescem – poesia – 1988
Amorquia – romance – 1991
A Máquina de Hyerônimus – contos-1997.

         Faleceu anteontem, em Curitiba, aos 92 anos de idade de problemas cardio-respiratórios decorrentes de Alzeihmer avançado. Foi cremado sem qualquer cerimônia, como sempre quis, avesso às pompas funerárias e aos convencionalismos em geral. Suas cinzas serão colocadas ao pé de algumas árvores, as quais sempre protegeu, como um verdadeiro ecologista antes dessa palavra se tornar conhecida.
Mais sobre ele em meu blog:


Uma Trova de Curitiba/PR
Glycínia de França Borges

Explode no firmamento
um sol de raro esplendor,
espargindo pelo vento,
eflúvios de eterno amor!

Uma Trova de São Paulo/SP
J.B. Xavier

Tu vieste qual guarida
dando sentido ao meu passo,
E passaste em minha vida
qual nuvem, sem deixar traço

Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

Arqueologia

0 agora é estrela cadente
na subterrânea memória.
Com pincéis delicados
limpo restos à procura da história.
Homem de Piltdown, quero avós primatas.
Arqueólogo amador,
em elos antigos
acrescento asas.
No retrato falta
a ruga deste instante,
o verso vive atrás
sua melhor face.
0 imediato relâmpago submerge em cinzas cinzentas.
A mão com a caneta reinventa no branco do caderno.
Faíscas atrás da testa são
fósseis do amanhã,
neurônios incendeiam
as melhores sinapses
e o poema desaparece
nas placas tectônicas
das bibliotecas.

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Maria Helena Calazans Machado Duarte

Em trambiques pela rua
não consegue mais lembrar
se a mulher é mesmo sua
ou se acabou de trocar.

Uma Trova de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Júnior

Duma lápide sombria,
entre um cravo e sua rosa,
um poeta, em poesia,
volta à vida, todo "prosa"...
 
Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

Eu escapo

Não tenho gravata,
o último bigode raspei em primeiro de abril
de sessenta e quatro.
Darcy menina, inventora da mini-saia
ficou com as crianças, eu fugi
na subversiva perua Volkswagem.
Tenho pudor de ser poeta,
prefiro escritor, cineasta, hipnotizador emérito,
palavras nem explicam
a economia doméstica,
amordaçam lágrimas ditas femininas,
derramadas pelo sexo másculo.
Há sempre um atrás nos versos
a libertar rostos, mostrar pegadas viscosas
em direção ao seu quarto.
Minhas balas nunca explodiram,
a navalhada espanhola é barbeador elétrico.
Tento ser eclético, abarcar o continente.
Fui Navajo no Arizona,
joguei poker em cartas marcadas,
dou nó em pespontos,
lavo louça sem nenhum interesse.
De onde surgem estas formigas minúsculas?
Deus displicente, esmago-as sem pena,
almas sem micróbios e baratas são desprezíveis.
Do satélite, só avisto a muralha da China
e a floresta amazônica em chamas.
Meu carro tem pontos de ferrugem,
o aço se transforma em marrons abstratos,
alguns botões da camisa fecham ao contrário,
marca feminina do contraste.
Sigo cego o rumo coletivo deste ônibus.
Passam cenhos cerrados,
proíbem beijar de língua nas bibliotecas,
trocar roupas nos alpendres,
casar filhas com negros,
gargalhar no tribunal togado.
A morte vai batendo de porta em porta,
vendendo bilhetes irrecusáveis
aos guardiães da sociedade.
Eu me escondo no banheiro,
disfarço lendo histórias em quadrinhos
e escapo.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Fabiana Piceda

Tu sonrisa es el diamante,
que siempre quiero mirar.
Yo sueño con su brillante
manera de cautivar.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Aqui tens meu coração
e a chave para o abrir;
não tenho mais que te dar
nem tu o que me pedir!

Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

Florestas queimadas

0 correto é sinuoso.
Atravessar o asfalto de olhos fechados
economiza tardias agonias sem alvo.
Cada palavra gritada
tem dicionário diverso.
Letras deslizam pelos olhos,
o som o dente mastiga,
a vogal mordida perfura o tímpano,
o ‘não’ salta dos lábios
como um rato assassino.
Há um jeito de perfumar sentenças,
mostrar o mel de virgens letras obscenas.
Como os caninos das serpentes,
há letras molhadas
com o ácido corrosivo
do olhar sem brilho.
Calada, sei quando ela
pensa em nuvens macias
ou estrangula insetos
com os pés em curva.
Faço versos com verbetes alheios.
Arrisco confundir
finjo com pretendo,
loucura com a doçura
do momento em segredo,
o espelho no teto e a porta fechada.
Alienígenas sem lábios, canetas e livros
transmitem o que pensam.
Nossas palavras ditas ou escritas
são ininteligíveis fora deste uni
verso de primatas solitários,
sem dinossauros nas
florestas queimadas.

Trovadores que deixaram Saudades
Newton Meyer Azevedo
Pouso Alegre/MG (1936 – 2006)

Senador, dono de empresa,
alto escalão da justiça,
declara: "é a maior surpresa!
- Tenho conta na Suíça?l

Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

As reticências

Anseio manobrar a língua
dos fatos sólidos
e a outra,
do sentimento abstrato,
explosiva no ódio até
a úmida ternura do beijo.
Palavras com cores diversas,
cinzas e vermelhos
marcando sangue na página.
Haverá um teclado
medindo a tensão de cada dedo,
a mágica apaga versos frouxos,
letras borboletas voam
e pregam mensagens
no teto dos amores fugidios.
Tenho só um dicionário roto,
dedos hesitantes e o
sorriso do humor necessário.
Meu diário é suposto,
foto desfocada da
vida em movimento.
Tento transmitir
apelo, medo, desejo,
nas palavras alinhadas,
tímidos soldados
antes da luta.
É raro saber o gosto alheio
pelo abstrato alimento.
Depois de algumas linhas,
o fim vale como vírgula
para o futuro ignoto
das reticências.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
José Moreira Monteiro

Eu vejo em tudo a beleza
vejo Deus a todo instante
ora olhando a natureza
ora olhando o teu semblante.

Um Haicai de Mogi das Cruzes/SP
Lucia H. M. Gonçalves

Somente a metade
de uma goiaba no pé.
Satisfeito – o pássaro.

Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

Ontem sobre ontem

Buzino para a pomba gorda
na rua empoeirada.
Cães não se conformam
com as rodas estranhas.
Reclinada no banco
você se queixa de algo,
talvez a salada murcha
ou minha ânsia de pontualidade,
ou dos franceses vindos para o lanche.
Engulo a estrada,
quase ultrapasso o caminhão fantasma,
mas não enfrento a mão errada
na curva rodovia dos atos.
Abro o portão eletrônico,
o carro arrefece a ânsia cega
e descansa as válvulas de aço.
Seus átomos, prótons e neutrons
sustentam sua matéria sem veias e nervos.
Escadas, fechos e travesseiros
também são feitos com a fórmula
da minha carne primata, de peixe e vertebrado.
0 cenário eu construo,
não importa se gestos são
pensamentos na matéria cinzenta.
Circulo e falo, cada palavra é signo,
sugere algo abstrato ou sólido aparente,
provoca atos da carne ansiosa.
Somos os documentos nas gavetas,
arquivos, fitas magnéticas.
Diante do inquisidor
inventamos as respostas.
Se o espelho devolve outro rosto,
a chave não abre a porta,
o desespero enlouquece com a perda do ontem.
Aqui, agora, duram milionésimos de segundo.
0 calendário imobiliza o passado.
Até o futuro do sonho acordado
mora na memória.
Sinto a batida da veia com o dedo,
o sangue já fugiu do braço,
o beijo caiu no abismo,
o orgasmo é clarão do incêndio,
corre o espermatozóide,
abraça o óvulo, inventa olhos e pernas,
salta para a mãe apertado nos braços,
cresce a cada instante, talvez escreva versos,
rugas, cabelos brancos,
ontem sobre ontem a humanidade inteira.

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Ari Santos de Campos

Areias soltas no chão,
rolam prá lá e prá cá...
Eu sou apenas um grão
que só vive a Deus dará.

Velhas Lengalengas e Rimas do Arco-da-Velha Portuguesas
A Pipa

 Pipa roxa
 Pipa coxa
 Foi ao mar
E se afundou.
Veio o peixe
Lá do fundo
E na Pipa se empinou.

OUTRA PIPA

Debaixo daquela pipa
Está uma pita
Pinga a pipa
Pia a pipa
Pia a pita
Pinga a pipa


Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

Quântica realidade

Na pequena morte
ressuscito o mundo estranho
da minha cabeça.
Sou o mandarim no sonho da borboleta.
Vivo a irrealidade dos fatos
sem a memória acordada.
Neste próximo milênio
faço 15 bilhões de anos.
Ainda tenho na ponta do dedo
um átomo girando do big-bang.
A cobra,
desesperada
com a falta dos braços,
abraça Eva com o corpo inteiro.
Os avós peixes não se lembram
quando saíram da água.
Não há mais opostos:
real e imaginário,
passado e futuro,
vida e morte.
As palavras caíram
no lago global do esquecimento,
a quântica relatividade dança conosco
no espaço curvo deste planeta redondo.

Um Haicai de Curitiba/PR
Álvaro Posselt

A rua vazia —
Ressoa na escuridão
o cri cri do grilo

Uma Trova de Americana/SP
Geraldo Trombin

Tem noivo que acha que aliança
prende mais do que corrente:
não resolve pajelança
nem usar qualquer solvente!

Recordando Velhas Canções
Escuta
(samba/canção, 1955)

Ivon Curi

Escuta,
Vamos fazer um contrato
Enxuga o pranto barato
Que te entristece o olhar.

Escuta,
O nosso amor é um fracasso
Já me domina o cansaço
De brincar de te amar.

Teus olhos olham a esmo
Te falta coragem de me encarar
Quem trai se trai a si mesmo
No riso, no abraço, num beijo, no olhar.

Escuta,
Quando fechares a porta
Não chores, cala, suporta
Não penses mais em voltar.

Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

Intervalos 

Há intervalo entre pulmão cheio e ar expulso.
Há intervalo quando pisco,
o mundo desaparece e renasce
em centésimo de segundo.
No relógio, repito itinerários,
volto na mesma cama mas não sou o mesmo.
Fabrico dez milhões de células diárias,
cada centímetro quadrado de minha carne
já não é aquela na sua carne.
Grãos de areia mudam a praia,
enquanto durmo, folhas novas
crescem com o vento da madrugada,
corações batendo pintam novos cenários.
Há um intervalo depois do orgasmo.
Paro nesta linha e penso,
de ato em ato, sou mais feito de intervalos
do que fatos na cotidiana engrenagem.
Nem parar o pensamento consigo.
faço versos como um cego,
apalpando abaixo da pele,
você nua, a dobrar roupas na cadeira,
enquanto o planeta (seio azul de água),
gira desesperado no cósmico intervalo
de um deus inexplicável.

Um Haicai de Bandeirantes/PR
Neide Rocha Portugal

Cavalo obedece –
os garotos carroceiros
apanham goiabas.

Uma Trova de Paranavaí/PR
Renato Benvindo Frata

Meu choro mostra meus ais
escondidos de você
e torço pra que jamais
venha saber o porquê.

Hinos de Cidades Brasileiras
Resende/RJ

1.
Resendenses, entoemos um hino
Que fulgure qual mundo que sois,
A esta terra, que é um berço divino
De poetas, de artistas, de heróis!

Estribilho:
Eia, pois, fervorosos saudemos
De Resende, a Cidade gentil
Onde o berço,entre flores tivemos
Sob um céu todo azul, todo anil!

2.
Chovam bençãos de luz sobre o dia
Em que o seu Centenário ela faz!
Que nos enche de doce alegria,
Que ventura tão doce nos traz!

3.
De outro século o sol majestoso
Surge agora imponente "brandão"
Deste "Vale", dourado, amoroso,
Toda nova e aromal floração!

4.
O Itatiaia, emergindo das brumas,
Ei-lo, o século novo a saudar!
E o Paraíba o seu manto de espumas,
Vai contente e cantante a arrastar.

5.
Que este dia, da Pátria, na história
Fulja sempre com mago esplendor!
E que viva na nossa memória,
Todo luz, todo paz, todo amor!

Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

antigamente e hoje

Toca-se um botão,
nasce a tartaruga
exata, cibernética.

 Euforia vai à fonte
de meprobamato.
Propaganda subliminar,
põe-se gravata
de polietileno,
dentes na clorofila.

Agora é fácil,
a morte vem
da estratosfera
nas estrelas a jato.

O medo criou asas,
alçou voo,
cobriu o sol.

O cogumelo derrama
a sombra radiante
 sobre o mar.

Peixes morrem calados.

 Homens resolvem
explosões,
inocentei
e secretas.

Uma Trova de Pelotas/RS
Vilma Mello Cavalheiro

Somos artistas, palhaços,
atores da mesma dança,
que exorcizamos fracassos
no trapézio da esperança.

Um Poema de Atibaia/SP
André Carneiro
1922 – 2014 , Curitiba/PR

sonho oceano

 Caminharei com anfíbios
em busca do oceano
livres caminhos
portas abertas.

Buscarei corais,
plantas, cabelos
em dança lenta,
cavalos-marinhos.

Na cidade submersa
futuro é liquido,
palavras flutuam
entre búzios e liquens.

No céu, nuvens são
cascos de navios.
Tuas pernas ágeis,
braços de ternura,
fazem um leito
de esponja.

Sonho netuno, sereias,
afogar de esperança
no mundo diverso,
esquecer este plano
amor
de oxigênio terreno.

Trovadora Destaque



A centelha do ciúme
transformou-se em fogaréu.
Queimou-me o peito... E seu lume
pôs o inferno onde era o céu!

A lei da vida nos diz
que, entre o instinto e a prudência,
é sempre o melhor juiz,
nossa própria consciência!

A ofensa mais dolorida,
que à humilhação se compara,
é quando a mão estendida
leva uma "porta na cara"!

Ao ler o verso perfeito
que algum poeta escreveu,
brota-me o ousado direito
de achar que a Musa fui eu!!

Após o parto, o marido
vendo o nariz da criança,
saiu buscando, ofendido,
um turco na vizinhança!

A saudade me garante,
já que a tristeza persiste,
que eu devo, de agora em diante,
me acostumar a ser triste!

A tristeza mais pungente...
aquela que ninguém vê,
é a que dói dentro da gente
e a gente sabe por quê!

Ciúme - diz o ditado
é o tempero do amor.
Mas, se não for bem dosado
toma indigesto o sabor!

Dando, à solidão, guarida,
na amplidão de seus portais,
as noites de minha vida
ficaram longas demais!!!

É meio a meio, eu garanto,
a culpa de meus pecados,
pois só deixei de ser santo
quando aceitei seus agrados!

Eu não sou Mago, nem Santo,
mas na magia do amor
hei de quebrar teu encanto;
fazer-te escrava... e, eu, Senhor!

Feito a chama de uma vela
que se esvai no alvorecer,
qualquer poder se esfacela
ante o Supremo Poder! ...
Gente existe em que o entalho
de um visual elegante
apenas lustra o cascalho
mas não o torna um brilhante!

Magoei afetos, trilhando
rumos, os mais incorretos...
E agora pago, penando
nas garras dos desafetos!

"Meu bem - indaga o marido -
o que é brega...que eu não sei?"
“É aquela saia, querido,
que me deste e eu nunca usei!”

Não busque ocultar os traços
do amor, com farsa nenhuma...
Se me prefere em seus braços,
tire o disfarce... e me assuma!

Na solidão que, hoje resta,
em meio à casa vazia,
eu bebo as sobras da festa
que nós tivemos um dia!

Na vida, faço e desfaço
duras laçadas sem medo,
porque no ajuste do laço
é Deus quem me empresta o dedo!

No ardor com que me devora,
esse amor, sinto, afinal,
que se foi delírio outrora...
hoje, é loucura total!!!...

Nosso conflito, suponho,
deu-se em razão de um defeito:
coração, é que o teu sonho
era maior que o meu peito!

O afeto mais eloquente
que a vida nos pode dar
é o que expressa a mãe da gente,
numa canção de ninar!

O ciumento: - Não, senhora,
nada de roupa moderna!
Quer pôr barriga de fora?
Ponha a barriga da perna!

O Destino se afigura
aquela torre elevada
que oferta o gozo da altura
pelo suplício da escada!…

O nosso amor clandestino,
vivendo à mercê da sorte,
viaja pelo Destino
sem carimbar passaporte!...

O solitário modera
seus passos no viajar.
Quem não tem ninguém à espera,
não tem pressa de chegar!...

Padece a Nação inteira
e explodem forças armadas,
quando a Sorte põe, arteira,
o poder em mãos erradas! ...

Para inseri-la entre as flores,
Deus, empunhando a paleta,
pintou um mundo de cores
nas asas da borboleta!...

Parece que um anjo arruma,
no céu, a luz das estrelas:
de dia, apaga uma a uma...
E à noite, torna a acendê-las!

Porque, sempre, nas vitórias,
logrei o apoio de alguém,
eu reparto as minhas glórias
com meus amigos também!

Qual seria o saldo bruto
da nossa conta corrente,
se Deus cobrasse tributo
pelas fraquezas da gente?!

Quando ao amor te recusas,
a inspiração não acordas...
Porque poetas sem musas
lembram violas sem cordas!

Quando a sorte traiçoeira
cresta o fogo da ilusão,
volto a ser a Borralheira
entre as cinzas do fogão!

Quando, formal, eu te abraço,
tu nem percebes, suponho,
o quanto eu sinto que enlaço
a forma viva de um sonho!

Se ao romance eu me refiro,
a moçada de hoje em dia
me responde que suspiro
se encontra... em Confeitaria!

Seja cobrado... ou de graça,
num paradoxo profundo,
por melhor que algo se faça,
não se agrada a todo mundo!

Sendo esquelético, feio,
ao cemitério não vai,
pelo devido receio
de que se entra... não sai!

- Se um dia eu virar defunto,
vou ser na rede, enterrado.
- Que melhor caixão, pergunto,
pra quem viveu "pendurado"?...

Sol a pino, castigando...
Terra seca do sertão!
E o nordestino chorando...
Só seu pranto molha o chão!

Tu és a chuva voltando
após os meses de estio...
E eu, o rio te esperando
naquele leito vazio!

Unem-se povos irmãos
num gesto nobre e fecundo,
cuja corrente de mãos
faz-se o suporte do Mundo!

Vai à luta enquanto é cedo
que amanhã já será tarde
e, da semente do medo,
terá nascido um covarde!

Vendo chegar a saudade
que a tua ausência me trouxe,
mesmo não sendo verdade,
gravei na porta: MUDOU-SE!

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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