Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 291)

Chuvisco Biográfico do poeta deste número:
         Afonso Schmidt (Afonso Frederico Schmidt) nasceu ao pé da Serra do Mar, em Cubatão, São Paulo, Brasil, em 29 de junho de 1890. Naquela época Cubatão era um distrito da cidade de Santos. De Cubatão, levado pelos pais, o menino foi morar em São Paulo. Foi num grupo escolar do Brás que Afonso Schmidt, lá pelos inícios de 1904, teve a primeira experiência nas letras. O menino ganhou de um colega uma pequena impressora, um trambolho com o qual, na verdade, não se entendeu. Nas férias, ao retornar para a casa dos avós, o menino trouxe a pequena tipografia e começou a compor o que poderia ter sido o primeiro periódico de Cubatão.
         Logo depois, de volta a São Paulo, juntamente com Oduvaldo Viana, publicou o semanário Zig-Zag. Não tinha ainda 16 anos. Já colaborava com jornais do interior de São Paulo. Por essa época, atraído pelas festas de posse do presidente Afonso Pena, decidiu viajar sozinho para o Rio de Janeiro, então capital da República.
         Seu primeiro livro "Lírios roxos" foi editado com dinheiro que sua mãe juntou e emprestou ao filho, que o vendeu de porta em porta. Em 1907, com 16 anos, parte para Lisboa e daí para Paris, onde consegue emprego numa editora que preparava um dicionário francês-português. Depois de um ano na Europa, retornou a Santos, dedicou-se ao jornalismo.
         Fundou um jornal a que chamou de Vésper. Publicou, em 1911, seu primeiro livro de poesia, Janelas Abertas (1911). Em 1913, retornou à Europa, desta vez estabeleceu-se em Milão, onde conseguiu em um jornal, emprego como correspondente em língua portuguesa. Viveu disso durante três meses.Retornou ao Brasil quando começava a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 1920, foi ao Rio de Janeiro para trabalhar num jornal de esquerda, A Voz do Povo.
         Em Santos foi redator da "Folha da Noite", do "Diário de Santos" e de "A Tribuna". Não quis participar da Semana de Arte Moderna de 1922, mas formou um outro grupo que já rompera com o academicismo, junto com Monteiro Lobato, seu amigo pessoal. Em 1924, em São Paulo, trabalhou na Folha da Noite e, em 1924, em O Estado de S.Paulo, onde permaneceu quase até os seus últimos dias. Foi nesse jornal que publicou em folhetim no suplemento literário alguns de seus principais romances: A Sombra de Júlio Frank, A Marcha e Zanzalá.
         Em 1950, a revista O Cruzeiro concedeu-lhe um prêmio pela obra Menino Felipe. Em 1963 recebeu o prêmio O Intelectual do Ano, troféu Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores. Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
         Faleceu em 3 de abril de 1964, na cidade de São Paulo, aos 73 anos,
         A Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo instituiu o Dia do Escritor Paulista em sua homenagem, comemorado anualmente no dia de seu aniversário. Hoje a cidade de Cubatão homenageia o autor anualmente com o evento cultural Semana Afonso Schmidt.
         Obras:
         Colônia Cecília – romance; A Marcha – romance; Zanzalá; O Menino Filipe (romance); A Primeira Viagem (autobiográfico); O Tesouro de Cananéia, (contos); A Vida de Paulo Eiró ; São Paulo de meus Amores (crônicas).;Mocidade (1921); Garoa (1932); Poesias (1934); Poesia (1945).
(Fonte: Instituto Histórico e Geográfico de Santos)


Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Fagundes Queiroz

Que este preceito se integre
ao meu simples dia a dia:
-Melhor do que estar alegre,
só mesmo dar alegria!

Uma Trova de Curitiba/PR
Ney Garcez

Na inocência de seus dias,
vendo as Copas do Cartola,
a criança, em tardes frias,
pés descalços... Chuta a bola!

Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

Cubatão

Minha terra não passa de uma estrada,
um bambual que rumoreja ao vento;
sol de fogo em areia prateada,
deslumbramento e mais deslumbramento.

O chafariz em forma de carranca,
confidente das moças do arrabalde,
despeja a sua gargalhada branca
no bojo de latão de um velho balde,

Nas portas, parasitas cor de sangue,
um mastro esguio em cada casinhola;
gente tostada que desfolha o mangue,
crianças pálidas que vêm da escola.

Ao fundo, a Serra. Pinceladas frouxas,
de ouro e tristeza, em fundo azul. Aquelas
manchas que são jacatirões — as roxas,
e aleluias — as manchas amarelas.

A minha terra, quando a vejo, escampa,
cheia de sol e de visões amigas,
lembra-me o cromo que enfeitava a tampa
de uma caixa de goma, das antigas…

Uma Trova Humorística de Natal/RN
José Lucas de Barros

Esta mania disforme
tem o velho Antônio Lira:
só não mente quando dorme,
mas, quando sonha, é mentira.

Uma Trova de São Gonçalo/RJ
Gilvan Carneiro da Silva

Abro a cortina do sonho
e num gesto de quem vela,
me deito a seu lado e ponho
meus sonhos nos sonhos dela.

Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

Os Pequenos Varredores

Pela escura avenida arborizada,
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...

Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.

De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.

Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.

Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.

E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa…

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Um suspiro de repente,
um certo mudar de cor,
são infalíveis sinais
de quem sofre o mal de amor.

Uma Trova Hispânica da Venezuela
Ángela Desirée Palacios Bravo

Bella gloria es tu sonrisa,
es mi motivo de amor
tan suave como la brisa,
ternura que da calor.

Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

Simpatia

Numa tarde longa e mansa,
os dois pela estrada vão:
o cão estima a criança,
e a criança estima o cão.

Que delicada aliança
dos seres da criação:
uma risonha criança,
um robustíssimo cão.

Deus percebeu a lembrança
e sorriu lá na amplidão:
ele gosta da criança,
que trata bem o seu cão.

Por isso, na tarde mansa,
os dois felizes lá vão:
a delicada criança
e o robustíssimo cão.

Trovadores que deixaram Saudades
João Ney Rodrigues Damasceno
Curitiba/PR, 1924 – 2005, Rio de Janeiro/RJ

Ciúme é como pimenta,
tem que se saber dosar:
- sendo pouco, condimenta,
muito, pode até matar!


Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

Caras sujas

Ao longo destas avenidas,
Recordação de velhas lendas,
Cantam as chácaras floridas
Com suas líricas vivendas.

Lá dentro, há risos, jogos, danças,
Crastinas, módulas fanfarras,
Um pandemônio de crianças,
Um zagarreio de cigarras.

Fora, penduram-se na grade
Os pobres, como gafanhotos;
Têm dos outros a mesma idade,

Mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
Na cara suja dos garotos.

Uma Trova da Austrália
Clenir Neves Ribeiro

Pergunto sem protestar
já quase sendo enforcado:
O que é pior, se casar
ou morrer acorrentado?

Um Haicai de Magé/RJ
Glauciene Placides de Sá

A esperança do amanhecer
Um caminho livre
Menos poluição.

Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

Os vagabundos

Perdidos pela estepe enegrecida e rasa,
Nessa planície igual que a distância arredonda,
Que o inverno enregela e que o verão abrasa,
Dos vagabundos passa a maltrapilha ronda.

As miragens do céu são como pétrea onda...
E o vento forasteiro essa visão arrasa,
Quebrando torreões de arquitetura hedionda,
Catedrais de marfim e florestas de brasa!

Eles passam cantando uma canção dolente,
E vão deixando atrás, por sobre a terra ardente,
Dos seus inchados pés os passageiros rastros...

E quando a noite desce aos desertos medonhos,
Deitam-se sobre a terra e sonham lindos sonhos<
Na solidão da estepe e na mudez dos astros!

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Ailton Rodrigues

Eu me rendo, baixo o tom,
te abraço e logo me apego...
tranco a porta, ligo o som,
fecho a cortina e me entrego!

Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

O Poema da Casa Que Não Existe

Onde a cidade acaba em chácaras quietas
e a campina se alarga em sulcados caminhos
achei a solidão amiga dos poetas
numa casa que é ninho, entre todos os ninhos.

Térrea, branquinha, com portadas muito largas,
desse azul português das antiquadas vilas
e uma decoração de laranjas amargas
que perfumam da tarde as aragens tranquilas.

Ergue-se no pendor suave da colina,
escondida por trás dos eucaliptos calmos;
tem jardim, tem pomar, tem horta pequenina,
solar de Liliput que a gente mede aos palmos ...

Neste ponto, a ilusão, a miragem, se some;
olho para você, eu triste, você triste.
Enganei uma boba! O bairro não tem nome,
a estrada não tem sombra, a casa não existe!

Um Haicai de Macaé/RJ
Alessandro P. Silva

Quem ama cuida
o gasto pra se cuidar é
menor que reparar.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Edmar Japiassú Maia

Hora a hora a nossa imagem
o  tempo ao mundo escancara...
Somos peças da engrenagem
de um relógio que não para!

Recordando Velhas Canções
Vermelho Vinte e Sete  
(tango, 1956)

Herivelto Martins e David Nasser

“Jogo no pano... jogo... feito! Vermelho 27!”

Esse homem que hoje passa maltrapilho
Fracassado no seu traje furta-cor
Um dia já foi homem, teve amigos
Teve amores, mas nunca teve amor
Soberano da roleta e da campista
Foi sua majestade o jogador!

Vermelho vinte e sete
Seu dinheiro mil mulheres conquistou
Vermelho vinte e sete
Seu dinheiro tanta gente alimentou
Um rio de champanhe sorrindo derramou
E sua mocidade em fichas transformou

“Jogo no pano...jogo...feito! ... Vermelho 27!”

Vermelho vinte e sete
Quando a sorte caprichosa o abandonou
Vermelho vinte e sete
Cada amigo num estranho se tornou
Os ossos do banquete aos cães ele atirou
A vida honra tudo
Num lance ele arriscou...

“Jogo...jogo...feito! Preto 17!”

Deu preto dezessete
Nem um cão entre os amigos encontrou!

Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

Loucura verde

Nas longas noites em que eu me enveneno,
cigarro a espiralar sobre cigarro,
traz-me a saudade o teu perfil bizarro,
que eu não sei mais se é louro ou se é moreno.

Não é bem um perfil, mas um pequeno
alvoroço de névoas, um desgarro
de linhas onde, surpreendido, esbarro
com o teu olhar a me sorrir, sereno...

Depois teu vulto se dilui aos poucos,
mas teus olhos heris, como os dos loucos,
ficam parados, mortos, ante os meus.

— Verdes, curvos cristais, por onde eu vejo
monstros verdes passando num cortejo,
sob um sol verde como os olhos teus.

Um Haicai de Duque de Caxias/RJ
Kátia Araújo Hilário

flor ardor
a volúpia intensa
rói a natureza

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
Roberto Resende Vilela

Alegria verdadeira,
neste mundo de ilusão,
é sonhar a vida inteira...
sem tirar os pés do chão.

Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

A beleza

Neste crisol do coração, Beleza
Que iluminas a nossa noite escura,
És a Bondade — que se fez Grandeza
E a Dor sofrida — que se fez Doçura.

És a muda expressão da Natureza;
Beijo no amor, sorriso na candura,
Prece na morte, pranto na tristeza
E, para os poetas, mística tortura.

Ninféia azul no pântano estagnado,
Flores brotando na aridez das lousas,
Ou mistério no páramo estrelado,

Em tudo o que nos cerca, tu repousas,
Porque a Beleza é Deus manifestado,
A nos sorrir pela expressão das cousas.

Hinos de Cidades Brasileiras
Cubatão/SP

Longos séculos emoldurada
de palmas tão brasileiras,
ao som das cachoeiras
prelúdio desta canção.

Eis o Nove de Abril,
rompe em canto viril,
a mostrar a todo Brasil
o valor de Cubatão.

Salve, Salve, Rainha das Serras,
Bem amada Cubatão
em tua história, encerras
paz, amor e tradição
em tua história encerras
paz, amor e tradição.

Ó magia de condão de fadas,
a bela região dominas
o ouro negro refinas
és fontes de força e luz.

E Anchieta, ao passar
a Caminho do Mar,
Sempre quis te abençoar
com o sinal da Santa Cruz.

Uma Trova de São Gonçalo/RJ
Antonio Carlos Rodrigues

Para que tanta igualdade
nesta partilha de amor ?
Fique com tudo: A saudade,
esta tristeza e esta dor.

Um Poema de Cubatão/SP
Afonso Schmidt
(Afonso Frederico Schmidt)
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP+

Rosas loucas

A rosa louca é a rosa mais singela
de todas as rosas, mas é bela
porque nasce nas cercas, nos caminhos
e conta menos flores do que espinhos.

A rosa louca é a rosa mais plebéia
dentre todas as rosas, traz à ideia
a moçoila do bairro, tão bonita
com vestidos de cor, feitos de chita.

A rosa louca é a rosa que se olha
sem tirar do pé, porque desfolha;
ela pede perdão de não ter graça;

desponta, desabrocha, encanta... e passa.
Estas rosas são breves e são poucas,
como o riso feliz em nossas bocas…


A saudade não me abala
nem tristeza me corrói.
O desprezo é que avassala,
e meu coração destrói.

Ausência, palavra amarga,
saudade não sei de quem;
tristeza que não se apaga,
nesse amor que vai-e-vem.

Com a língua portuguesa
vou trovando com ardor.
Nossa Pátria, que beleza,
Deus nos deu com muito amor!

Dentro de meu pensamento
uma ilusão pé fincou:
- Amar-te por um momento,
sonhar que ninguém te amou.

Eu tenho em mim  a saudade
de um coração bem sofrido
que não sabe o que é vaidade
e nunca foi compreendido.

Foi com Deus no pensamento
que vi nosso amor nascer.
Senti, naquele momento,
o motivo de viver.

Mágoas? Tenho-as em constante,
ao longo de minha vida,
desde aquele triste instante
que foste embora… querida!

Nem sempre a briga é conflito,
quando o bom senso a conduz;
certas pedras, em atrito,
soltam centelhas de luz!

O beijo que tu me deste,
teve jeito de oração,
pois com ele tu vieste
dar-me a força do perdão!

O desprezo que me dás,
negando amor e carinho,
é maldade, não se faz,
com quem vive tão sozinho!

Ódio, traição, covardia,
é triste ter que dizer:
É a parte do dia a dia
dos covardes no poder…

Oh! saudade matadeira,
traz de volta, por favor,
a minha paz verdadeira,
dada por Nosso Senhor!

Olhando o mar eu versejo,
fazendo mais esta trova:
Nas águas verdes te vejo
e o mar feliz, se renova.

Os passos que foram dados,
no furor de minha vida,
foram todos reciclados
de uma vivência perdida.

Quando apertado em teus braços,
sinto enorme calafrio,
pois eu tenho teus abraços
mas num abraço vazio...

Quando partires, querida,
não leves meu coração.
Leva apenas a ferida,
deixa só minha ilusão!

Quando temos esperança
o sol é mais radiante,
e até no olhar da criança
a paz se mostra constante.

Quem disse que o pensamento
não é leve como a luz,
não teve em nenhum momento
as graças do bom Jesus.

Quem no futuro não crer,
na vida, na paz, no amor,
não tem esperança em ter
a paz de Nosso Senhor!

Quem perde seu tempo em vão
com coisa pequena e fútil,
já bem sabe, de antemão,
que nada fará de útil.

Só quando existe esperança,
na vida de um sofredor,
é que ele vê na criança,
o quanto é belo o amor!

Sou poeta trovador,
na trova sou bem capaz:
Faço trovas com amor
que muito me satisfaz.

Tenho meu passo cansado,
de caminhar pela vida,
neste mundo já abalado
e de vida mal vivida.

Tens a doçura do mel,
a claridade da Lua.
És uma estrela do céu
vivendo na minha rua.

Valeu, Mestre, eu vos proclamo,
no reino dos sabedores,
um  amigo que muito amo,
– professor dos professores!
 

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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