Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 292)

As trovas abaixo, exceto a humorística e hispânica, foram premiadas em Santos/2014.
Biografia da poetisa destaque, ao final.
 

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Fagundes Queiroz

Três livros: A história é linda
e, enquanto ela se estrutura,
“Futuro” é inédito, ainda,
mas Deus já fez a leitura.

Uma Trova de São Gonçalo/RJ
Gilvan Carneiro da Silva

São utopias sonhadas...
mas sonho abraços de irmãos
que invés de armas empunhadas
carreguem livros nas mãos!

Um Poema de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN+

A minha avó

Minh'alma vai cantar, alma sagrada!
Raio de sol dos meus primeiros dias...
Gota de luz nas regiões sombrias
De minha vida triste e amargurada.

Minh'alma vai cantar, velhinha amada!
Rio onde correm minhas alegrias...
Anjo bendito que me refugias
Nas tuas asas contra a sina irada!

Minh'alma vai cantar... Transforma o seio
N'um cofre santo de carícias cheio,
Para este livro todo o meu tesouro...

Eu quero vê-lo, em desejada calma,
No rico santuário de tu'alma...
— Hóstia guardada num cibório de ouro!

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Maria Helena Calazans Duarte

"Mas que preguiça'' e, no escuro,
o pau-d'água, chave à mão,
espera, encostado ao muro,
que ali passe o seu portão!

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Clenir Neves Ribeiro

No livro o que mais importa
é o conteúdo profundo...
É ele a chave da porta
que abre a porta do mundo!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Amor com amor se paga:
nunca vi coisa tão justa;       
paga-me contigo mesmo          
saberás quanto te custa.  

Uma Trova Hispânica dos Estados Unidos
Cristina Olivera Chávez

La voz de mi corazón,
se oye en el universo,
porque lleva en su razón,
¡ trova, poesía y verso!

Um Poema de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN+

Estrada a fora

Ela passou por mim toda de preto,
Pela mão conduzindo uma criança...
E eu cuidei ver ali uma Esperança
E uma saudade em pálido dueto.

Pois, quando a perda de um sagrado afeto
De lastimar esta mulher não cansa,
Numa alegria descuidosa e mansa,
Passa a criança, o beija-flor inquieto.

Também na vida o gozo e a desventura
Caminham sempre unidos, de mãos dadas,
E o berço, às vezes, leva à sepultura...

No coração — um horto de martírios!
Brotam sem fim as ilusões douradas,
Como nas campanhas desabrocham lírios.

Trovadores que deixaram Saudades
Waldemar Dinis Alves Pequeno
Piraí/RJ, 1892 – 1988, Belo Horizonte/MG

Quem me dera, solitário,
habitar naquele morro,
apenas com meu canário,
meu cavalo e meu cachorro.

Um Poema de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN+

Num leque

Na gaze loura deste leque adeja
Não sei que aroma místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado

Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.

E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,

Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Ailton Rodrigues

Adoro ler um bom livro,
porque é fonte de saber...
E, por amor, não me livro
do livro que adoro ler!

Um Haicai do Espírito Santo
Maria José Menezes

Menina brejeira:
Cabelos soltos ao vento,
Pés livres no chão.

Um Poema de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN+

Mistério
(à memória do pequeno Alberto)

Sei que tu'alma carinhosa e mansa
Voou, sorrindo, para o Azul celeste;
Sei que teu corpo virginal descansa
Aqui da terra n'um cantinho agreste

Tudo isto sei: mas tu não me disseste
Se lá no Céu, na pátria da Esperança,
Ou aqui no mundo, à sombra do cipreste,
Deixaste o coração, loura criança!

Desceu acaso com o corpo à terra
Ele tão puro e que só luz encerra?
Não creio nisso e ninguém crê de certo...

Enquanto, eu cismo que, num vale ameno,
Talvez o seio de um jasmim pequeno
Sirva de berço ao coração de Alberto.

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
Roberto Resende Vilela

Quem contempla a imensidão,
no silêncio de um deserto
sempre chega à conclusão:
- O infinito é um Livro Aberto!

Um Poema de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN+

Caminho do sertão
(a meu irmão João Câncio)

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço
Vê-la através da mata. Nos caminhos
A sombra desce; e, sem achar descanso,
Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

É noite já. Como em feliz remanso,
Dormem as aves nos pequenos ninhos...
Vamos mais devagar... de manso e manso,
Para não assustar os passarinhos.

Brilham estrelas. Todo o céu parece
Rezar de joelhos a chorosa prece
Que a noite ensina ao desespero e à dor...

Ao longe, a Lua vem dourando a treva...
Turíbulo imenso para Deus eleva
O incenso agreste da jurema em flor.

Um Haicai de Curitiba/PR
Álvaro Posselt

Faz eco na rua  
grito dos quero-queros 
sob o nevoeiro 

Uma Trova de Natal/RN
José Lucas de Barros

Nada mais belo, decerto,
no cenário da esperança,
que a imagem de um livro aberto
sob o olhar de uma criança!

Recordando Velhas Canções
Conceição
(samba-canção, 1956)

Jair Amorim e Dunga

Conceição
Eu me lembro muito bem
Vivia no morro a sonhar
Com coisas que o morro não tem
Foi então
Que lá em cima apareceu
Alguém que lhe disse a sorrir
Que, descendo à cidade, ela iria subir

Se subiu
Ninguém sabe, ninguém viu
Pois hoje o seu nome mudou
E estranhos caminhos pisou
Só eu sei
Que tentando a subida, desceu
E agora daria um milhão
Para ser outra vez
Conceição

Um Poema de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN+

À memória de uma ave

Quando morre uma criança,
Diz-se que o pálido anjinho
Voou como uma esperança,
Foi para o Céu direitinho.

Mas nossa mente se cansa
A voar de ninho em ninho,
Interrogando a lembrança,
Quando morre um passarinho.

Só eu, se alguém diz que a vida
De uma avezinha querida
Se extingue como um clarão,

Ponho-me a rir, pois, divina,
Ouço cantar, em surdina,
Tu'alma em meu coração.

Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Alexander Pasqual

roupa da valsa 
pendurada no varal — 
seca de inverno 

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Eliana Ruiz Jimenez

Nas grandes tramas de amor,
o livro é ponte, em verdade,
que liga o autor ao leitor
em doce cumplicidade.

Um Poema de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN+

Página triste

Há muita dor por este mundo afora,
Muita lágrima à toa derramada;
Muito pranto de mãe angustiada
Que vem saudar o despontar da aurora!

Alma inocente só de amor cercada
A criancinha a soluçar descora,
Talvez no berço onde o menino chora
Também, ó Dor, tu queiras, desolada,

Erguer um trono, procurar guarida...
Foge do berço! não magoes a vida
Desta ave implume, lirial botão...

Queres um ninho, um carinhoso abrigo?
Pois bem! procura-o neste seio amigo,
Dentro em minh'alma, aqui no coração!

Hinos de Cidades Brasileiras
Macaíba/RN

Foi nas margens do Rio Jundiaí
Onde o sonho de um povo começou
E nas sombras de uma palmeira
Que Fabrício seu nome elegeu
Foi na luta de gente que ama
Sua terra, seu povo, seu porto torrão;

Em batalhas e lutas ferozes
A aurora de grandes vitórias
No cultivo do chão da esperança
No horizonte queremos chegar
E agora queremos saudar
A uma terra que luta
Mas glórias terá;
Refrão
Eu te saúdo, óh Macaíba
Eu te saúdo, antiga Coité
Esperança é uma semente
Que nasce, que brota
Neste lugar;

É uma terra de gente de glórias
De Severo e o Pax seu balão
Defensores da nossa cultura
Aliados da educação
São poetas, são homens da Lei
Que viveram sonhando
Buscando ideais;

As riquezas do povo potiguar
Pelas águas do nosso rio passou
Pelas mãos desse povo valente
Que tirou o sustento do chão
E tão valioso ouro branco
De nossos engenhos da cana tirou;
Refrão
Eu te saúdo, óh Macaíba
Eu te saúdo, antiga Coité
Esperança é uma semente
Que nasce, que brota
Neste lugar.

Uma Trova de Angra dos Reis/RJ
Maria Helena Uruhahy Campos Fonseca

Eu juro, falo a verdade,
em noite morna, altaneira,
eu me escondo da saudade
no livro de cabeceira.

Um Poema de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN+

Pobre flor!

Deu-ma um dia uma antiga companheira
Do tempinho feliz de adolescente;
E os meus lábios roçaram docemente
Pelas folhas da nívea feiticeira.

Como se apaga uma ilusão primeira,
Um sonho estremecido e resplendente,
Eu beijei-lhe a corola, rescendente
Inda mais que a da flor da laranjeira.

E como amava o seu formoso brilho!
Tinha-lhe quase essa afeição sagrada
Da jovem mãe ao seu primeiro filho.

Dei-lhe no seio uma pousada franca...
Mas, ai! depressa ela murchou, coitada!
Doce e mísera flor, cheirosa e branca!

Sobre a Canção “Conceição”
A personagem "Conceição" era uma jovem que "Vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem". Então, "Lá em cima apareceu alguém que lhe disse a sorrir, que descendo à cidade ela iria subir". Resultado. Conceição desceu o morro, mudou de nome, trilhou caminhos estranhos e agora "Daria um milhão para ser outra vez Conceição".

Desenvolvendo de forma pitoresca ("Se subiu / ninguém sabe, ninguém viu") um tema que já havia inspirado outras canções, o letrista Jair Amorim e o melodista Dunga (Valdemar de Abreu) criariam um retumbante sucesso, o maior de 1956. Uma parte desse sucesso deve ser creditada ao cantor Cauby Peixoto, então no auge da fama, que tornou "Conceição" a peça mais característica de seu estilo.




Acumulando jornadas,
hoje sigo as fantasias
que vestem de madrugadas
as minhas noites vazias!…

A droga é falsa ilusão
no torneio dos fracassos...
Tira a vergonha, a razão,
e arrasta a vida aos pedaços.

A empregada de hoje em dia
quando vai para o fogão,
cozinha em banho-maria
as cantadas do patrão!!!

Ante um transe tão profundo,
o próprio Deus, de mãos postas,
pede perdão para um mundo
de mensagens sem respostas.

Apagada a mocidade,
no carvão encontro meios
de, entre as cinzas da saudade,
acender meus devaneios!

A saudade hoje tem pressa…
Sobe ao céu, a Deus, a Marte…
De joelhos faz promessa,
meu amor, para buscar-te.

Busco a harmonia dos mares
que a tempestade aniquila
com lucidez de luares
na consciência tranquila!...

Dorme demais… não tem pique
para dar carinho a Tônia.
Ela vai fazer trambique
para o cara ter insônia!!!

Em teus braços me abandono...
O teu amor é guarida
e folha verde de outono
no verão da minha vida.

Enquanto vibra o universo,
o mar-poeta se enleia
pelo acalanto de um verso
que o sol escreve na areia.

Esqueço… não desespero
porque sei quanto doeu
o pranto amargo e sincero
que sua culpa verteu.

Findam noites estreladas,
no renascer da harmonia:
o sol com Deus de mãos dadas
abrem as portas do dia.

Foi no trem que a moça disse
com seus “ares” de tolinha:
– Se tentar uma tolice,
eu não chego ao fim da linha!!!

Imortal sempre serei
na saudade e nos afetos
dos filhos que ao mundo dei
e na vida dos meus netos.

Meu laçarote de fita
que o tempo fez em retalhos
prende uma infância infinita
nos meus cabelos grisalhos.

Meu namorado querido!
Nosso amor tão lindo e puro
será por Deus aquecido
nos caminhos do futuro!…

Milagre da terra ardente
no estorricado sertão:
brota do trigo a semente
para a mesa ter mais pão.

Não revido esta invernia
da minha alma anoitecida.
Tenho uma estrela vadia
me aquecendo o céu da vida.

… Não ventava, nem chovia.
Tudo silêncio, asseguro…
Somente a rede gemia
naquele quartinho escuro!!!

Nosso grisalho carinho
é bênção que Deus nos deu:
és presença em meu caminho,
eu sou presença no teu!

Ouço a minha alma cantando
a mais doce melodia:
Sei que Deus está ninando
minha infante fantasia!…

Para que contar invernos?
Do tempo vivo à mercê.
Quero que sejam eternos
meus momentos com você.

Pelo exemplo de Jesus,
Padre Anchieta é o retrato
do milagre de uma cruz
que salvou o mundo ingrato.

Pelos caminhos do céu,
vai, balão iluminado!
mas volta como um troféu
à terra, sempre apagado.

Preciso de uma pedra só:
mas que seja bem bonita
e se avolume do pó
de uma esperança infinita!…

Procurando coisa alguma,
meu sonho sempre se alteia…
Faz com pilastras de espuma,
os meus castelos de areia!…

Procuro a paz dos caminhos
com verdes encruzilhadas
onde encontre frágeis ninhos
protegidos nas ramadas!…

Que o tempo – guri travesso
fugindo a cada segundo,
não esqueça do endereço
do amor que lidera o mundo.

Rezar é belo, criança,
não há mistérios na prece...
Deus dá o pão da esperança
enquanto o trigo não cresce!

Se a noite chega cansada
de caminhar sempre ao léu,
Deus dá vinhos de alvorada
na taça rubra do céu.

Seja palácio ou favela
a educação sempre traz
a esperança que revela
um mundo pleno de paz.

Ser Gente é ter semelhança
com Deus em sua virtude:
Inocência de criança
amor em cada atitude.

Tanta falta de capricho!
Outra vez está de  porre?
– Fui ao bar matar o bicho…
Mas o danado não morre!!!

Teu beijo – doce quentão
é vício que não supero.
Me embriaga de emoção…
Quanto mais bebo, mais quero!…

Tudo é mentira, patroa!
É fofoca desta gente…
O patrão diz que sou boa
porque faço prato quente!!!

Vejo auroras encantadas
no peito do trovador:
Quatro versos de mãos dadas
numa ciranda de amor!…
___________
 
Chuveirão Biográfico da poetisa deste número
        Auta de Souza nasceu em Macaíba/RN, 12 de setembro de 1876 e faleceu em Natal/RN, 7 de fevereiro de 1901
         Ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por tuberculose, e no ano seguinte perdeu também o pai, pela mesma doença. Sua mãe morreu aos 27 anos e seu pai aos 38 anos.
         Durante a infância, foi criada por sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, conhecida como Dindinha, em uma chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. Sua avó, embora analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação aos netos. Aos onze anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vincentinas francesas, e onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura (inclusive muita literatura religiosa), Música e Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon.
         Quando tinha doze anos, vivenciou nova tragédia: a morte acidental de seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Sousa, causada pela explosão de um candeeiro. Mais tarde, aos catorze anos, recebeu o diagnóstico de tuberculose, e teve que interromper seus estudos no colégio religioso, mas deu prosseguimento à sua formação intelectual como autodidata.
         Continuou participando da União Pia das Filhas de Maria, à qual se uniu na escola. Foi professora de catecismo em Macaíba e escreveu versos religiosos. Jackson Figueiredo (1914) a considera uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas brasileiras.
         Começou a escrever aos dezesseis anos, apesar da doença. Frequentava o Club do Biscoito, associação de amigos que promovia reuniões dançantes onde os convidados recitavam poemas de vários autores, como Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, Junqueira Freire e os potiguares Lourival Açucena, Areias Bajão e Segundo Wanderley.
         Por volta de 1895, Auta conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público de sua cidade natal, com quem namorou durante um ano e de quem foi obrigada a se separar pelos irmãos, que preocupavam-se com seu estado de saúde. Pouco depois da separação, ele também morreria vítima da tuberculose. Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à tuberculose. A poetisa, então, encerrou seu primeiro livro de manuscritos, intitulado Dhálias, que mais tarde seria publicado sob o título de Horto.
         Auta de Souza veio a falecer em 7 de fevereiro de 1901, em Natal, em decorrência da tuberculose. Foi sepultada no cemitério do Alecrim, em Natal, mas em 1904 seus restos mortais foram transportados para o jazigo da família, na parede da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba, sua cidade natal.
         Em 1936, a Academia Norte-Riograndense de Letras dedicou-lhe a poltrona XX, como reconhecimento à sua obra.
         Em 1951, foi feita uma lápide, tendo como epitáfio versos extraídos de seu poema Ao Pé do Túmulo:
         Em 12 de setembro de 2008, durante as comemorações do nascimento da poetisa em sua cidade natal, foi lançado o documentário "Noite Auta, Céu Risonho", escrito e dirigido por Ana Laudelina Ferreira Gomes, professora e pesquisadora da UFRN, e produzido pela TV Universitária, em parceria com o Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-Riograndenses.
         Aos dezoito anos, passou a colaborar com a revista Oásis, e aos vinte escrevia para A República, jornal de maior circulação e que lhe deu visibilidade para a imprensa de outras regiões. Seus poemas foram publicados no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro. No ano seguinte, passaria a escrever assiduamente para o prestigiado jornal A Tribuna, de Natal, e seus versos eram publicados junto aos de vários escritores famosos do Nordeste. Entre 1899 e 1900, assinou seus poemas com os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum à época.
         Também foi publicada nos jornais A Gazetinha, de Recife, e no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte, onde era a única mulher entre os colaboradores.
         Venceu a resistência dos círculos literários masculinos e escrevia profissionalmente em uma sociedade em que este ofício era quase que exclusividade dos homens, já que a crítica ignorava as mulheres escritoras. Sua poesia passou a circular nas rodas literárias de todo o país, despertando grande interesse. Tornou-se a poetisa norte-rio-grandense mais conhecida fora do estado.
         Em 1900, publicou seu único livro, Horto, de significativa repercussão e cujo prefácio foi escrito por Olavo Bilac, o poeta brasileiro mais célebre daquela época.
         Catorze de seus poemas foram musicados por artistas regionais, como Abdon Álvares Trigueiro, Cirilo Lopes, Eduardo Medeiros, Heronides de França e Cirineu Joaquim de Vasconcelos, embora sem registro em partitura. Apenas dois de seus poemas têm registro fonográfico (Rezando e Caminho do Sertão). Os demais foram transmitidos apenas pela tradição oral, em modinhas cantadas na escola e em festividades.
         O poeta paulistano Mário de Andrade, em sua obra Um Turista Aprendiz, cita esses poemas musicados, que ouvira em sua viagem a Natal, na década de vinte:
         Em 2008, a Federação Espírita Brasileira listou treze instituições espíritas (centros, núcleos, recantos, sociedades, fraternidades e uma fundação) em oito estados brasileiros que adotavam o nome da poetisa potiguar. Em 3 de março de 1953, foi criada em São Paulo, Por Nympho de Paulo Corrêa a Campanha de Fraternidade, que mais tarde se tornou Campanha de Fraternidade Auta de Souza, que acontece em centenas de centros espíritas em todo o pais e no exterior.
         O espiritismo se atencionou muito à vida de Auta de Sousa. Chico Xavier, por exemplo, escreveu Auta de Souza, com sonetos, atribuídos ao espírito da poetisa, no processo chamado psicografia. Ele também publicou Parnaso de Além-Túmulo (1932), reunindo uma variedade de poesias que, segundo os kardecistas, são de autoria de poetas já mortos, como Auta.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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