Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 25 de novembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 293)

As trovas foram todas premiadas em Santos/2014, exceto a humorística.
 
 
Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez
 
No livro, cheio de graça,
que o Mestre, na sala edita,
cada criança que passa
é a sua página escrita!
 
Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Edmar Japiassú Maia
 
Nossa histórica rotina
de uma amor de horas devassas,
hoje é página em ruína
de um livro à mercê das traças.
 
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Olympio da Cruz S. Coutinho 
Universo
 
Eu quero me molhar, o corpo inteiro,
nesta ânsia de amor que me domina
beijar todo o seu corpo, o seu cabelo
olhar para os seus olhos de menina.
Deitar, em doce encanto, no seu colo,
vivendo a vida toda em um segundo
voltar a ser menino, sem receio,
e sentir que estamos sós no mundo.
Dormir, sonhar talvez, no seu abraço,
na cama, que é o nosso universo,
e sentir, ao acordar, que um poema
foi ali construído, verso a verso.
E sair, para onde não sabemos,
e sorrir, para quem pouco importa,
e viver esta vida que nós temos,
pois a vida é uma escancarada porta.
 
Uma Trova Humorística do Rio de Janeiro/RJ
Therezinha Zanoni Ferreira
 
Tem mania, a Conceição,
de dar "empurrões" na sorte.
Vende amor à prestação
e aceita vale-transporte.
 
Uma Trova de São Gonçalo/RJ
Marialice Araújo Velloso
 
Teu corpo... o livro perfeito,
guia de minha viagem,
roteiro em que eu me deleito
ao contemplar a paisagem.
 
Um Poema de Maringá/PR
Armando Bettinardi
 
Afinal
 
Falemos de nós,
Dos seus anseios
E dos meus anseios.
 
Vontade de ser feliz,
Necessidade de fazer
Alguém feliz.
 
Eu e você: dois desejos
Talvez iguais,
Duas vontades
 
Nada mais;
Quem sabe, seja assim
Até o fim, afinal.
 
Uma Trova Popular
Autor Anônimo
 
Os olhos de meu benzinho
são jóias que não se vendem,
são balas que me feriram,
são correntes que me prendem.
 
Uma Trova Hispânica do México
Ernestina Ramírez Escobar
 
Yo puedo llamarte amigo
a tí, mi hermano del alma
porque siempre estás conmigo
en la tormenta y la calma.
 
Um Poema de Maringá/PR
Florisbela Margonar Durante
 
Presente
 
Eu aceito você
como a ordem natural da vida;
como um rio imutável
cumpre o seu destino;
como a árvore fixa há séculos
vive o drama das pessoas,
mas continua impassível;
como a certeza de um dia
ensolarado ou chuvoso
pouco importa, pois
o dia é sempre presente,
e presente de Deus.
 
Trovadores que deixaram Saudades
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ (1924 – 2007)
 
O preguiçoso suplente
avisou à companhia:
- se morrer o presidente,
eu "morro" no mesmo dia.
 
Um Poema de Maringá/PR
Ivy Menon
 
O Poema
 
O Poema jorra pétalas brancas
Rosas brancas, pálidas de espanto
ao vento, asas arremessadas, livres
pelo ar.
 
O Poema surpreendente doçura
mistura mel e terra, fruta-do-conde
Laranja craveira, sorva gomo a gomo
 
O Poema brota morno, doido
aos borbotões as lágrimas de gozo
inundam as mãos, ávidas mãos.
 
Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Joaquim Carlos
 
Bem sabe o mar, companheiro
das noites de um pescador
que um bom livro é o timoneiro
do barco de um sonhador!!!
 
Um Haicai de São Paulo/SP
Nair Kuniy
 
Doces lembranças!
Geleia de goiaba
no sítio de vovó.
 
Um Poema de Catanduva/SP
Ógui Lourenço Mauri 
Mais uma vez, um ano novo!
Mais uma vez, novo ano se aproxima,
Num passar do tempo cíclico e rude.
De novo, um filme antigo que, amiúde,
Traz marotos votos de amor e estima.

Essa de "irmão" cumprimentar "irmão",
Mais sugere uma boçal etiqueta.
Joga-se a sinceridade à sarjeta,
Mascarando a confraternização.

De mãos dadas, vão comércio e modismo.
Aqui, há intenção do faturamento;
Lá, tem a troca de comportamento:
Sai fraternidade, entra consumismo.

Ano-Novo, antes tem Papai Noel!
Ele, que só vai às casas bonitas,
Ignora os pobres em suas visitas
E sabe esconder seu vesgo papel.

Com mais atenção voltada aos carentes...
Ah, se mudassem para sempre o esquema!
"Amor em todo o ano novo", de emblema;
Com Natal e Ano-Novo diferentes...
 
Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Olympio da Cruz S. Coutinho
 
O livro é qual luz do sol,
luz que a todos ilumina;
Na escuridão, um farol
que o claro caminho ensina.
 
Um Poema de Maringá/PR
Agenir Leonardo Victor
 
Corais de vozes
 
Vozes, inspiração, talentos.
Gingados, gestos e danças.
Tudo faz parte dos coralistas.
Cada música é uma apresentação
De riquezas e notas musicais.
Sons se misturam e são levados
Ao ar com intensa emoção.
A expressão singela dos ouvintes
Diz tudo e tudo mesmo…
Como é bom ouvir aos ventos
Canções que expressam sentimentos
Elevam nossa alma
Educam nosso jeito de ser.
É uma fonte musical que ajuda
E soma à nossa cultura.
Entre acenos e aplausos, mas…
Sufocados pelas mãos mágicas do maestro
Corais entoam
E encantam com suas belas canções.
 
Um Haicai de Curitiba/PR
Álvaro Posselt
 
Manhã de primavera —
O voo do avião trepida
na poça d'água
 
Uma Trova de Porto Alegre/RS
Milton Souza
 
Com textos, fotos ou mapas,
o bom livro é uma estrutura
onde o leitor, entre as capas,
mata a sede da cultura.
 
Recordando Velhas Canções
Se todos fossem iguais a você
(samba-canção, 1957)
 
Tom Jobim e Vinícius de Moraes
 
Vai tua vida, teu caminho é de paz e amor
A tua vida é uma linda canção de amor
Abre os teus braços e canta a última esperança
A esperança divina de amar em paz
Se todos fossem iguais   a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar, uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir
A beleza da amar como o sol,
como a flor, como a luz
Amar sem mentir, nem sofrer
Existiria verdade, verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você
 
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Carlos Lúcio Gontijo
 
Gonçalves Dias
 
O sabiá esvoaçante onde canta?
Aonde chega o alto-falante de seu canto?
Manto flamejante em forma de som
Que aos ouvidos somente encanta
Numa promessa de constante tempo bom
Sem a dor lacrimejante da solidão que espanta
Tornam-se afeitas as esperanças mais arredias
E vivo se nos apresenta o poeta Gonçalves Dias!
 
Um Haicai de Barra do Corda/MA
    Kissyan Castro
 
Libélula pousa –
a sombra lhe apanha
antes que voe.
 
Uma Trova de Niterói/RJ
Adilson Maia
 
É no livro que se alcança
a mais rica das escolhas,
pela futura esperança
que emana de suas folhas!
 
Um Poema de Itajaí/SC
Samuel da Costa
 
Segredar-te
 
Queria eu falar-te
Ao pé do ouvido!
Chega aqui...
Bem perto de mim!
 
Não hoje!
Nem agora!
Nem nunca
Pois o século se finda...
Introspecto!
E um novo se aproxima...
Algo novo vem por ai
Intrínseco!
Extrínseco!
Fugaz
Um mundo novo
 
Quero-te
Quero-te agora
Com todo o rigor!
De quem vai à guerra!...
Com toda a certeza
Que não de voltar mais.
 
Pois bem sei
Não haverá...
Um novo amanhã possível...
Não para nós dois!
Não tens futuro algum
Ao meu lado!
 
Pois o nosso século se finda...
Introspecto!
E um novo século inicia.
Intrínseco!
Extrínseco!
Fugaz
Amorfo
Um mundo novo
E artificial
 
Hinos de Cidades Brasileiras
Tremembé/SP
 
O belo por do sol da Mantiqueira
Manoel Costa Cabral se encantou
Da mata imaginou uma bandeira
E a nossa Tremembé ele fundou.
 
Ó Tremembé dos trapistas
Tua história nos conduz
A um passado de conquistas
Terra do Senhor Bom Jesus.
 
Teus campos se cobriram de dourado
Nas mãos que semearam arrozais
A ordem dos trapistas do passado
Semente que não morrerá jamais.
 
Ó Tremembé dos trapistas
Tua história nos conduz
A um passado de conquistas
Terra do Senhor Bom Jesus.
 
O nobre rio tens beijando aos pés
Murmurando feito mil madrigais
Em tributo a ti minha Tremembé
Passarinhos gorjeiam em corais.
 
Ó Tremembé dos trapistas
Tua história nos conduz
A um passado de conquistas
Terra do Senhor Bom Jesus.
 
Tuas igrejas de sinos tangentes
De sonoros chamamentos de paz
O labor com a fé de tua gente
Te engrandece e muito orgulho nos traz.
 
Ó Tremembé dos trapistas
Tua história nos conduz
A um passado de conquistas
Terra do Senhor Bom Jesus.
 
Ó Tremembé dos trapistas
Tua história nos conduz
A um passado de conquistas
Terra do Senhor Bom Jesus.
A um passado de conquistas
Terra do Senhor Bom Jesus.
 
Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Wanda de Paula Mourthé
 
No silêncio do meu quarto,
com um deleite profundo,
lendo bons livros, eu parto,
aos infinitos do mundo!
 
Um Poema de Uberlândia/MG
Raquel Ordones
 
Abro a janela do meu peito
E ajeito para os lados a cortina azul de minh’alma
Abro a janela do meu peito como se fosse manhã
Raios de mim brilham um fulgor que bate palma
E de dentro para fora um cheiro e gosto de maçã.

E o mundo me olha, pois abri a minha profundeza
Percebe que os meus cabelos são felizes ao vento
Que os meus olhos apesar de lágrimas tem leveza
E nos meus braços o abraço de confiança é alento.

E abro a janela do meu peito, quero estar exposta
Quero que todos vejam o que possuo na essência
Esse amor tão grande que nutre minha existência.

Abrir a janela do peito, me abrir é essa a proposta
É que tudo o que eu sinto e não digo, fica perdido
– Te gosto todo tanto; dito: não perderá o sentido.
 
Uma Glosa de Fortaleza/CE
Francisco José Pessoa
 
Mote:
O meu verso tem o cheiro
Da poeira do sertão.
(Manoel Dantas)
 
Glosa:
 
Nasce o sol, outra manhã
Se espreguiça, é novo dia
E a morte, má, se anuncia
No canto da acauã
Ave de agouro, malsã,
Que canta nossa desgraça
Sobrevoando a carcaça
Do boi que ontem era são
Hoje inerte jaz no chão
No pé do seco imbuzeiro
O meu verso tem o cheiro
Da poeira do sertão.
 
Sobre a canção “Se todos fossem iguais a você”
         Em meados de 56, Vinícius de Moraes estava com a peça "Orfeu da Conceição" pronta, faltando somente conseguir um compositor para musicá-la e, se possível, orquestrá-la. Achava Vinicius que o nome ideal para a tarefa seria o de Vadico (Osvaldo Gogliano), parceiro de Noel Rosa que, convidado não aceitou.
         Atendendo, então, a uma sugestão do crítico musical Lúcio Rangel, o poeta convidou Antônio Carlos Jobim, na época um jovem compositor e arranjador ainda pouco conhecido.
         Começava assim a parceria Tom/Vinicius, uma das mais importantes da música brasileira, juntando o talento de um grande músico ao de um poeta consagrado e que deu como primeiro fruto "Se Todos Fossem Iguais a Você". Romântica, requintada, até com uma certa tendência para o monumental, "Se Todos Fossem Iguais a Você" é a melhor composição do repertório criado para a peça. Lançada por Roberto Paiva no final de 56 chegaria ao sucesso no ano seguinte, quando recebeu várias outras gravações.
 
Trovador Destaque
 
A chuva cessou há pouco,
mas o frio continua...
Grita o vento como um louco
por entre os becos da rua.
 
Acordo, olho o céu e vejo
que a manhã imaculada
traz os perfumes de um beijo
que roubou da madrugada.
 
A minha casa é pequena,
e embora tal restrição,
nela reside serena
minha doce inspiração.
 
Amo a minha biblioteca,
doce nave da ilusão,
pois nela sigo até Meca
ou molho os pés no Jordão.
 
Ando em busca da centelha
do teu beijo de esplendor
e da papoula vermelha
que escondes com teu pudor.
 
Ao longe, de madrugada,
por sobre o mar terno e lindo,
a pequenina jangada
parece a lua dormindo.
 
As nossas línguas macias,
em carícias muito loucas,
parecem duas enguias
disputando em nossas bocas.
 
A tarde se abrasa em cores
e lentamente desmaia.
O céu, pintado de flores,
lembra uma enorme lacraia.
 
A tarde triste adormece.
Estrelas piscam em cruz...
Ao longe, a lua parece
delgada foice de luz.
 
 A trova é um poema grácil,
que surge de um mundo etéreo:
- Para quem sabe é bem fácil.
- Pra quem não sabe é um mistério.
 
Brilha o céu como turquesa
e o nascente é de romã…
Nunca vi tanta beleza
surgindo assim, na manhã.
 
Chego a pensar que sou forte,
vendo a velhice chegar,
pois mesmo perto da morte
consigo ainda sonhar.
 
Cresci buscando esperança,
nada achei e foi fatal.
E quantas deixei, criança,
brincando no meu quintal.
 
De noite durmo e desperto...
E, nesse doce vaivém,
a infância chega tão perto
que escuto apitos do trem.
 
De tudo quanto me assiste,
neste mundo miserando,
nada me fala mais triste
do que a velhice chegando.
 
É frio, a noite descansa;
o espaço é vasto e medonho.
De repente, a lua mansa
surge nos braços de um sonho.
 
É noite calma de lua.
Os ventos, em rodopios,
são violinos na rua
tocando valsas nos fios.
 
Escondes mito e bonança
na aparente timidez.
Tens a graça e a temperança
de um gatinho siamês.
 
Essa mancha exígua e preta,
no seu colo alvo e desnudo,
lembra frágil borboleta
toda feita de veludo.
 
Fico olhando o teu aprumo.
És linda e jovem demais...
E eu sou um barco sem rumo,
sem mais direito ao teu cais.
 
Inefável labareda,
a borboleta a voar
parece um lenço de seda
que um anjo esqueceu no ar.
 
Meditando em meu cansaço
não me entristeço nem rio...
os troféus do meu fracasso
valorizam meu vazio.
 
Menino ainda acredito,
olhando o céu com minúcia,
que as estrelas do infinito
sejam mimos de pelúcia.
 
Meus versos feitos de sedas,
do mais puro tom lilás,
lembram calmas alamedas
em tardes cheias de paz.
 
Minha porta, que era arguta,
de repente ensandeceu.
Qualquer toque que ela escuta,
julga logo ser o seu.
 
Na doce tarde de outono,
ruflam brisas em farol.
As nuvens louras, sem dono,
lembram novelos de sol.
 
Na estrada que compartilho,
meu coração, aos pedaços,
lembra a mãe que já sem filho
nina a solidão nos braços.
 
Nasci na vida tristonho
e vou por ela tão sério,
que é por isso que o meu sonho
tem as marcas de um cautério.
 
Noite linda.  O céu aberto
faz-se de suave emoção.
A lua chegou tão perto
que eu quase a peguei na mão.
 
Numa batalha renhida,
vou lutar até o fim,
pois quero sair da vida
muito melhor do que vim.
 
O arquiteto faz o traço,
seu trabalho é no nanquim.
Eu vivo as trovas que faço,
que elas são partes de mim.
 
O dia já nasce lindo.
Passam ventos frios, nus.
A manhã acorda rindo
num escândalo de luz.
 
Olhos brandos, mãos que espargem
sorrisos como troféu...
Pelo que os filhos lhe fazem
as mães merecem o céu.
 
O menino que era sonho
de alma da cor do marfim,
não sei mais onde é que o ponho,
depois que cresceu em mim.
 
O tempo amassou meu rosto.
Não doeu, foi devagar...
Mas as mágoas e o desgosto
como é que custam passar.
 
Pai querido, não morreste,
que a morte nos lembra um fim
e tudo aquilo em que creste
anda a viver dentro em mim.
 
Passa o vento num arrulho.
A noite é fria lá fora.
Como é gostoso o barulho
da chuva caindo agora.
 
Pelas manhãs de bonança,
junto à brisa que flutua,
borboletas são crianças,
brincando alegres na rua.
 
Penso ainda ser menino,
correndo à toa na rua,
empinando, sem destino,
a branca raia da lua.
 
Pressinto estar de partida
e o mistério me seduz.
Se fecho os olhos na vida
acordo em mimos de luz.
 
Que bom ficarmos juntinhos,
distantes de um novo adeus,
pois vejo nos seus olhinhos
todo o carinho de Deus.
 
Quero as minhas tardes feitas
de luzes em algazarras;
cheias de cores perfeitas,
com festivais de cigarras.
 
Saudade é dor muito estranha,
toca no peito tão fundo
que sinto que a minha entranha
abriga as dores do mundo.
 
Saudoso comprei passagem
de retorno à minha infância.
Mas como seguir viagem
se eu nem sei mais a distância?
 
Tem encanto, tem magia
minha pequena janela,
que ao abri-la a cada dia
eu vejo a vida mais bela.
 
Trabalho, sofro, padeço
carregando a minha cruz,
para ver se pago o preço
desta roupagem de luz.
 
Tudo se foi da lembrança...
E do nosso antigo enredo
nem mais a marca da aliança
se acha gravada em meu dedo.
 
Um doce aroma flutua
nesta noite de ateneu
e há tanta paz pela rua
que eu penso que o céu desceu.
 
Um gesto só, um arranjo,
um traço apenas de acuro
e acabarás sendo o anjo
que em minhas preces procuro.
 
Um remorso me espezinha
se ponho, com aflição,
no seu corpo de andorinha
meus olhos de gavião.
 
Veio Deus. Do caos agreste,
ergueu o espaço sem fim.
Porém tu bem mais fizeste
do nada que havia em mim.
 
Vitória: – um colar de ilhas!
Cantar-te, com que talento?!
Já bastam as maravilhas
que escuto na voz do vento.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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