Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 29 de novembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 297)

Trovas premiadas nos Jogos Florais de Santos, exceto a humorística.




Uma Trova Premiada de Santos/SP
Maryland Faillace

Terminada a criação,
Deus olhou a terra nova
e ao homem deu permissão
de eterniza-la na trova!

Uma Trova Premiada de São Paulo/SP
Heron Patrício

Uma página é lacrada
no instante de alguém nascer
e nela há um mapa da estrada
que esse alguém vai percorrer.

Um Poema de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR (1816– 1918)

Um Homúnculo

Tão pequenino e trêfego parece,
Com seu passinho petulante e vivo,
A quem o olha, assim, com interesse,
Que é a quinta-essência do diminutivo.

Figura de leiloeiro de quermesse,
Meloso e parecendo inofensivo,
Tem de despeitos a mais farta messe,
E do orgulho é o humílimo cativo.

Não há talento que ele não degrade,
Não há ciência e saber que ele, à porfia,
Não ache aquém da sua majestade.

Dele um colega, há tempos, me dizia:
É o Hachette ilustrado da vaidade,
É o Larousse da megalomania!

Uma Trova Humorística de Pindamonhangaba/SP
João Paulo Ouverney

Que otário! Jamais saiu
de casa durante a vida,
porque sempre residiu
em um beco sem saída!

Uma Trova Premiada de São Paulo/SP
Roberto Tchepelentyky

O destino escreve a escolha
do amor de nós dois assim:
Páginas da mesma folha…
Tu… de costas para mim!…

Um Poema de Tarauacá/AC
J.G. de Araújo Jorge
(Jorge Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC 1914 – 1987 Rio de Janeiro/RJ

 Fracasso

Sem nada ter, vazio, sigo a carregar,
pesado, este cansaço...

Neste ponto do caminho, tenho que reconhecer
o meu fracasso:
que a Vida me perdoe...

Minha solidão cresceu entre dois trágicos amores:
um, cedo demais, que esfarinhei nos dedos,
outro, tarde demais, que me pisou...
e se foi…

Uma Trova Popular
Autor Anônimo
Ter amor é muito bom
quando há correspondência;
mas amar sem ser amado
faz perder a paciência.

Uma Trova Hispânica Premiada do Panamá
Adiyeé N. Castillo

Amiga, cantarte quiero
somos en afinidad
almas de un mismo jilguero
de dicha y felicidad!

Um Poema de Baía de Mogunça/MA
Raimundo Correia
(Raimundo da Mota Azevedo Correia)
1859 – 1911, Paris/França

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Trovadores que deixaram Saudades
Joubert de Araujo e Silva
Cachoeiro do Itapemirim/ES (1915 – 1993) Rio de Janeiro/RJ

O vento, pastor estranho,
tangendo as nuvens ao léu,
conduz seu alvo rebanho
pelas campinas do céu!

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Machado de Assis
(Joaquim Maria Machado de Assis)
(1839 – 1908)

Hino Patriótico

BRASILEIROS! haja um brado
Nesta terra do Brasil:
Antes a morte de honrado
Do que a vida infame e vil!

O leopardo aventureiro,
Garra curva, olhar feroz,
Busca o solo brasileiro,
Ruge e investe contra nós.

Brasileiros! haja um brado
Nesta terra do Brasil:
Antes a morte de honrado
Do que a vida infame e vil!

Quer estranho despotismo
Lançar-nos duro grilhão;
Será o sangue o batismo
Da nossa jovem nação.

Brasileiros! haja um brado
Nesta terra do Brasil:
Antes a morte de honrado
Do que a vida infame e vil!

Pela liberdade ufana,
Ufana pela honradez,
Esta terra americana.
Bretão, não te beija os pés.

Brasileiros! haja um brado
Nesta terra do Brasil:
Antes a morte de honrado
Do que a vida infame e vil!

Nação livre, é nossa glória
Rejeitar grilhão servil;
Pareça a nossa memória
Salva a honra do Brasil.

Brasileiros! haja um brado
esta terra do Brasil:
Antes a morte de honrado
Do que a vida infame e vil!

Podes vir, nação guerreira;
Nesta suprema aflição,
Cada peito é uma trincheira,
Cada bravo um Scipião.

Brasileiros! haja um brado
Nesta terra do Brasil:
Antes a morte de honrado
Do que a vida infame e vil!

Uma Trova Premiada de São José dos Campos/SP
Glória Tabet Marson

Folhas e folhas rasgadas,
escritas com tanto ardor,
hoje “páginas viradas”
do que foi um grande amor!…

Uma Setilha de Natal/RN
José Lucas de Barros
Natal/RN (1934)

Fico muito contente quando soa
o baião da viola nordestina
num alpendre singelo e acolhedor,
quando a noite inspirada descortina
sobre o cume das serras do sertão,
e era mais carregado de emoção
na brandura da luz da lamparina.

Um Poema de Juiz de Fora/MG
José A. Jacob
(José Antonio de Souza Jacob)

Desesperança 

Eu conservo comigo, desde criança,
E trago no meu rosto sorridente,
A crença conformada da confiança
Que carrego na vida para frente.

Meu pai deu-me um sorriso por herança,
E eu fui, como o bom filho obediente,
Seguindo ruas, conhecendo gente,
Cheio de ingenuidade e de esperança!

Deixei abraços, saudações e avisos,
E em vez de deparar rostos serenos
Só encontrei olhares indecisos.

Não recebi de volta os meus sorrisos,
E nem os meus abraços: nem ao menos
Alguém retribuiu os meus acenos...

Uma Trova Premiada de Santos/SP
Edna Gallo

Mensageira tão formosa
é a trova em rimas de amor,
que leva o aroma da rosa
de um coração trovador!

Um Poema de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla

Lar… doce lar…

Volto à casa, que “era minha”,
risco a calçada e, feliz,
vou pular amarelinha
mas, o pranto apaga o giz!

Hoje, saudosa, eu volto ao lar antigo
e escancarando a porta semiaberta,
procuro em vão… vasculho o doce abrigo…
Nem pai… nem mãe… a casa está deserta!

E volto ao lar, que dividi contigo…
– Vaivém dos filhos, pela porta aberta…
– Visita alegre de um ou de outro amigo…
E, hoje, é a saudade que o meu peito aperta.

Mas, por deixar pegadas nos caminhos,
não fiquei só!… Cercada de carinhos,
eu sou feliz!… Se volta o sonho louco

do teu amor, acalmo o coração
pois, ao sentir que chega a solidão,
no amor dos filhos eu te encontro um pouco.

Um Haicai de Curitiba/PR
Mário Zamataro
(Mário Augusto Jaceguay Zamataro)

Chove em minha rua.
Passarinho toma banho,
lá no fio de luz.

Uma Trova Premiada de São Paulo/SP
J. B. Xavier

Quando na página eu vi
minha vida em agonias,
foi que afinal percebi:
ambas estavam vazias…

Um poema de Fortaleza/CE
Francisco José Pessoa

No falado paraíso
Onde nasceu a manhã
Onde a primeira maçã
Tirou do homem o juízo
Extraído o dente ciso
Com o velho boticão
Da boca do velho Adão
Fato que não se malogra
Mas Adão foi sorteado
E por Deus presenteado
Pois nunca teve uma sogra!

Recordando Velhas Canções
Saudade da Bahia
(samba, 1957)

Dorival Caymmi

Ai ai que saudade eu tenho da Bahia
Ai se eu escutasse o que mamãe dizia
“Bem não vá deixar a sua mãe aflita
A gente faz o que o coração dita
Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão”

Ai se eu escutasse hoje eu não sofria
Ai essa saudade dentro do meu peito
Ai se ter saudade e ter algum defeito
Eu pelo menos mereço o direito
De ter alguém com que eu possa me confessar

Ponha-se no meu lugar e veja como sofre
Um homem infeliz ----que teve que desabafar
Dizendo a todo mundo o que ninguém diz
Vejam que situação
E vejam como sofre um pobre coração
Pobre de quem acredita
Na glória e no dinheiro para ser feliz

Uma Trova Premiada de Ribeirão Preto/SP
Elisa Alderani

Na página amarelada
de um álbum, quase esquecido,
tem a lembrança velada…
de tanto tempo perdido.

Um Poema de Barroso/MG
Renato Suttana


 Que gastes lá teu ouro, teu minuto,
teu grama de progresso, teu punhado
de futuro – antevisto, calculado,
todo pejado de valor e fruto;

 que lá queiras chegar, de olho impoluto,
como quem leva a urgência de um recado,
insone, mas cumprindo algum mandado,
por força do insondável, do absoluto;

 que lá passes um dia, um mês, um ano
(quem sabe a vida inteira), convencido
de que encontraste a pista, o portulano,

 e de que lá não entras por abuso
e não és, sem estirpe e sem partido,
mais que um indesejável, um intruso.

Um Haicai de Magé/RJ
Benedita Azevedo

Calçada da escola –
As flores do ipê-roxo
na mão das crianças.

Um Poema de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Júnior

Dois mil e quatorze sonhos
(A saideira)

Dois mil e quatorze sonhos,
tinha eu pra lhe contar;
mas os dias mais risonhos
se dispersam pelo ar...

Dois mil e quatorze sonhos,
porque, sim, é bom sonhar!...
Mas os dias mais tristonhos
querem sempre nos marcar.

Entre a Copa e as Eleições,
cada um se viu na crista
de um sem fim de furacões!...

No cantinho das canções,
eu me faço a vã revista
deste ano em meus porões.
 
Uma Trova Premiada de Caçapava/SP
Élbea Priscila de Sousa e Silva

Bem escrito… mas sem chance
de sucesso, é voz geral:
ao nosso morno romance
falta a página final!

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Cecília Meireles
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
1901 – 1964

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida !
 Perdição da vida minha !
 Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
 no secreto calendário
 que um astrólogo arbitrário
 inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso !

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua ...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua ...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu ...

Hinos de Cidades Brasileiras
Amajari/RR

No extremo norte do Brasil
Surge opulenta
Terra querida Amajari
És o primeiro imponente e altaneiro
Força, Varonil, nunca se viu; Vila Brasil,

Os teus heróis e ancestrais que escreveram
As páginas da tua história,
Algo vistoso o que lhe é peculiar

Cheio de lutas e vitórias.
e na vanguarda tu deves ir
preeminente és Amajari

Amajari, rio Parimé
Ereu, Santa Rosa, Tiporém
Tuas palmeiras; proteção.
Aos aborígenes, irmãos.
Teu campo é um referencial da pecuária
Minérios e beleza têm,
No Paiva, Tepequém

A tua fauna abriga o tamanduá
Tua flora, pau-rainha e variedades,
Em Maraça para a posteridade.
Na sinfonia dos teus pássaros que lindo ouvir!
O belo canto do bem-te-vi,
Tens em teu nome a conjugação do verbo amar
Quem te vê, te ama e não esqueceu de ti.
Amajari

Uma Trova Premiada de Santos/SP
Ana Maria Guerrize Gouveia

Sendo a trova um doce encanto,
eu tornei-me um trovador
e em quatro versos eu canto...
os sonhos vivos do amor!

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso
(Bernardo Sá Barreto Pimentel Trancoso)
(1976)

Micro-Sentidos

Eu queria ser bem pequenininho,
Prás curvas do teu corpo atravessar;
Grutas, vales secretos decifrar;
Escalar as montanhas, com jeitinho.

Tão logo me cansar, ir rumo ao ninho;
Num carinho, por tua boca entrar,
Buscando o coração; quando alcançar,
Me alojar dentro dele, de mansinho.

Lá, só não sei se vou ter condição
De aguentar teu calor, sem derreter;
De aceitar outro ser: mãe, pai, irmão.

Pequeno, ao ver tão grande amor nascer
Que, por maior que seja o coração,
Nem no meu, nem no teu, não vai caber.

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Mote:
o meu verso tem o cheiro
da poeira do sertão!
Manoel Dantas (RN)

Glosa:

A luta do sertanejo
meu Deus, como ela é puxada;
ao cabo da sua enxada
passa o tempo no manejo
da terra. Ao ver um lampejo
põe em Deus sua esperança
que chova, com abastança,
pra molhar o seu torrão;
não passou de uma ilusão;
está seco o seu regueiro,
o meu verso tem o cheiro
da poeira do sertão!

Sobre a canção “Saudade da Bahia"
Nasceu numa tarde calorenta do verão de 1947. "Eu estava sozinho num bar perto de minha casa no Leblon, o Bar Bíbi, chateado com a agitação da cidade, quando me ocorreu a idéia", recorda Dorival Caymmi. "Era uma idéia tão melancólica - logo eu que sou otimista - que resolvi guardar a canção para mim, mostrando-a apenas a alguns amigos mais íntimos."
Daí se passaram dez anos até o dia em que Aloísio de Oliveira, um desses amigos, convenceu o compositor a gravar "Saudade da Bahia". Diretor artístico da Odeon na ocasião, Aloísio estava ansioso para faturar na esteira do sucesso de "Maracangalha" e, como Caymmi não tinha composições novas, sugeriu: "E por que não aquela que fala de saudades da Bahia?" Assim, programada às pressas, "Saudade da Bahia" foi gravada, batendo recordes de vendagem, o que lhe proporcionou um prêmio especial de uma cadeia de lojas de São Paulo.




A lágrima, na verdade,
por seu poder infinito,
traduz com fidelidade
o que não pode ser dito…

Após longa caminhada
de perigos e cansaços,
encontrei doce pousada
na maciez dos teus braços.

Com primoroso carinho,
usando formosa teia,
as nuvens fazem caminho
por onde a lua passeia.

Depois de muitas andanças,
e tanta ilusão perdida,
vejo lindas esperanças
orvalhando minha vida.

Desgosto grande, profundo,
que me entristece e consome,
é o de saber que, no mundo,
crianças morrem de fome.

Em branda calma e sozinho,
sou bem feliz em mirar
a aurora vir de mansinho
colorindo o imenso mar…

Escuto o acalanto antigo
com tão pura nitidez,
que às vezes penso comigo:
estou na infância outra vez!

Eu afirmo, não suponho,
e essa certeza me anima:
- Toda beleza de um sonho
pode caber numa rima!

Eu me sinto satisfeito
quando, em horas sossegadas,
vejo no cais do meu peito
as saudades ancoradas.

Mágoas... E para esquecê-las,
assim sempre faço e fiz:
olho, ansioso, as estrelas,
sou novamente feliz!

Minha cidade é tão linda!
Não há de certo outra igual.
-- Ostenta beleza infinda
no próprio nome: NATAL!

No esplendor da lua cheia,
vejo, no meu delirar,
a saudade que passeia
no verde dorso do mar!

No pôr-do-sol comovente,
que de tristeza me invade,
rezo, enternecidamente,
uma oração de saudade.

Nos percalços desta vida,
quando a maldade nos corta,
é graça bem recebida
se alguém nos abre uma porta.

O Ano Novo sempre faz
renovar nossa vontade,
de ver a bendita Paz
reinando na humanidade.

O meu peito é velho cais,
onde o barco da saudade
descarrega sempre mais
lembranças da mocidade.

Onda de espuma enfeitada,
que nos encanta e deleita,
vem de longe e tão cansada,
que sobre a areia se deita...

Os males do mundo encaro,
e pela vida me arrisco,
tendo sempre o forte amparo
na oração de São Francisco.

O tempo, com seu poder,
tudo altera sem clemência,
mas não me faz esquecer
os sonhos da adolescência.

Pessoas, casos, andanças,
lances de vários matizes...
é garimpando lembranças
que tenho as horas felizes.

Quando o vaqueiro valente
se encontra longe de casa,
no seu aboio plangente
toda a saudade extravasa.

Quem atinge longa idade
cumpre cruel penitência:
-levar a cruz da saudade
até o fim da existência.

Se, às vezes, alguma treva
a minha estrada domina,
a Trova surge e me enleva,
e tudo então se ilumina.

Sinto-me bem satisfeito,
quando, em horas sossegadas,
vejo no cais do meu peito
as saudades ancoradas.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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