Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 316)

Neste número o poeta homenageado, dispensa apresentações.

Contudo a nossa trovadora homenageada, nos levará a um passeio turístico através de seus versos. A princípio por sua cidade, e depois pela região dela, que compreende várias outras cidades. Sinclair Pozza Casemiro, de Campo Mourão, trovadora, poetisa, escritora, pesquisadora, fez até o pós-doutorado (na USP), e foi diretora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão. Ao final de suas trovas um resuminho biográfico dela.



 Uma Trova de São Mateus do Sul/PR
Gerson César Souza

Não julgue alguém pela imagem,
pois muitos fazem de tudo
para esconder na “embalagem”
a falta de conteúdo.

Uma Trova de Maranguape/CE
Francisco José Moreira Lopes

O teu carinhoso abraço
alegra meu coração
e neste lindo compasso
canto uma bela canção.

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

O azulão e os tico-ticos

Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorjeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas voltas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"

Uma Trova Humorística de Bandeirantes/PR
Maria Lúcia Daloce

Lá no altar, um ébrio em pranto,
que por vingança rechaça:
- Ou tenho aumento, meu Santo,
ou corto... a sua cachaça!

Uma Trova de Santos/SP
Mercedes Lisbôa Sutilo

És o livro de poesias
de amor, a mim dedicadas!
Se me abraças, irradias
vida às frases arrojadas!

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Recorda-te de mim

Recorda-te de mim quando de tarde
Gloriosa a morrer na luz do dia
E nos seios da noite a serrania
Em candores de neve se ocultar
Recorda-te de mim nesse momento
As estrelas saudosas do penar.

Recorda-te de mim quando alta noite
Escutares um canto de tristeza
Descontando por toda a natureza
Nos formosos arpejos do luar
Recorda-te de mim quando acordares
E sentires no peito adolescente
Um espírito em mágoa florescente
Uma hora em teu peito a suspirar.

Recorda-te de mim quando no templo
Numa prece serena, doce e fina
Sob o altar florescido de Maria
Teus segredos à Virgem confiar
Recorda-te de mim nesse momento
Para que minha dor tenha um alento
E me deixe morrer com o pensamento
De que morro feliz só por te amar.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Todo homem que diz que sim
depois de ter dito "não";
primeiro fala o orgulho
depois fala o coração.

Uma Trova Hispânica da Venezuela
Hildebrando Rodriguez

La sonrisa es el camino
clareado y verdadero
para que siempre el destino
prodigue el amor sincero.

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Ai de mim!

Foi um sonho te querer com doido amor
Foi loucura penhorar-te o coração
Dá-me mesmo assim ferido esse penhor
Não te peço nem te imploro gratidão
Guardo dentro deste peito por te amar
Uma dor que sempre e sempre cresce mais
Nem a tua ingratidão me vem matar
Nem a tua ingratidão me abranda os ais.

Ai de mim! Ai de mim!
Por que matar-me assim?
Por que matar-me assim?

Este amor, ó este amor, me foi fatal
Nunca mais o meu sossego encontrarei
Tu, travessa, sorridente e jovial
Eu, em busca de minh’alma que te dei
Mas não posso te dizer por que razão
É mais doce o azedume desta dor
Serei teu e teu será meu coração
Não te posso, ó não, negar tão santo amor!

Trovadores que deixaram Saudades
Carlos Ribeiro Rocha
Ipupiara/BA [1923-2011] Salvador/BA

De mês a mês eu me espelho
mais idoso vou ficando
que se vá o corpo velho
e os versos fiquem brilhando(...)

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Os olhos dela

Eu sou capaz de confessar
Aos pés de Deus
Que eu nunca vi em mundo algum
Uns olhos como os teus
Eu não sei mesmo
Como os hei de comparar, não sei
Eu já tentei cantar
O teu divino olhar

Depois de tanto versejar
Debalde em vão
Depois de tanto apoquentar
A minha inspiração
Cheguei à triste conclusão
De que eu só sei sofrer
E o que teus olhos são
Não sei dizer

Deixa-te estar que quando eu morrer
Irei verter os prantos meus nos céus
Hei de contar em segredo a Deus
As travessuras desses olhos teus
Hei de mostrar ao Senhor Jesus
Ao Pai nos céus, apiedado
Meu coração crucificado
Nos braços teus de luz

Os olhos teus são lágrimas do amor
Os olhos teus são dois suspiros de uma flor
São dois soluços d´alma
São dois cupidos de poesia
Que sinfonia tem o teu olhar
Que até às vezes já nos faz chorar!
Ai, quem me dera me apagar assim
À luz do teu olhar!

Os olhos teus
Quando nos querem castigar
Parecem dois astros de gelo
Que nos vêm gelar
Mas quando querem nos ferir
Direito o coração
Eu não te digo não
O que os teus olhos são

Pois quando o mundo quiser
De vez findar
Basta acendê-lo com um raio
Desse teu olhar
Que os olhos todos das mulheres
Que mais lindas são
Dos olhos teus
Não têm a irradiação

Um Haicai de Curitiba/PR
Vidal Idony Stockler

Nas vozes do vento
Há muito que meditar:
Concerto de rãs.

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Ao luar
A Agripino Grieco

Vê que amenidade,
que serenidade
tem a noite, em meio,
quando, em brando enleio,
vem lenir o seio
de algum trovador!
O luar albente
que do bardo a mente
no silêncio exalta,
chora a tua falta
rutilante estrela
de eteral candor!

Minha lira geme
no concerto estreme
que a Saudade inspira!
Vem ouvir a lira,
que, sem ti, delira
nesta solidão!
Vem ouvir meu canto
no fluir do pranto,
com que a dor rorejo!
Lancinante harpejo,
que das fibras tanjo
deste coração!
nosso amor fanado,
quando, eu, a teu lado,
mais que aventurado
por te amar vivi!
Quero a fronte tua
ver à luz da lua
resplandente e bela!
Descerra a janela
que eu durmo as noites,
só pensando em ti!

Dá-me um teu conforto,
que este afeto é morto
que me consagravas...
quando protestavas,
quando me juravas
eviterno amor!
Vem um só momento
dar ao pensamento
radiosa imagem
depois, na miragem,
deixa, eu tua ausência,
cruciar-me a dor!

De saudade o dardo
vem ferir do bardo
o coração silente!
Esta dor latente
só na campa algente
poderá findar!
Mas se ainda o peito
palpitar no leito
de eternal abrigo,
hei de só, contigo,
sob a lousa, em sono
funeral, sonhar.

Uma Trova de São Paulo/SP
Jaime Pina da Silveira

Se a razão e o coração
não têm a mesma medida,
o valor de uma paixão
se mede na despedida!

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Templo ideal

Olha estes céus, ó anjo, iluminados
De corações sofrentes e magoados
E o teu candor na tela cérula a brilhar
sob um trasflor de madrepérola
De versos consagrados
Com camafeus, opalas e turquesas
E as ametistas que tu exalas no falar
Com o éter da saudade, eterno marmor de sofrer
Um templo ideal eu vou te erguer.

A teus pés terás a hiperdúlia da poesia
Ave-Maria dos meus ais!
Consagração do pranto deste santo coração
Virgíneo escrinio da ilusão.

Ó, teus pés florei!
Com os meus extremos
Que são fluídos crisântemos
Deste amor com que te amei
Mandei a minha dor soluçar
Num resplendor de diademar.

Do coração de essências lacrimosas
Que eu marchetei de rimas dolorosas
Fiz um míssil espiritual que adiamantei
Filigranei com os alvos lírios
Destas lágrimas saudosas
O teu altar num pedestal de mágoas
Eu fiz das águas do Jordão do meu penar
Tens uma grinalda em tua fronte, constelei

Versos passionais
Meigas violetas, borboletas
Das ideias, orquídeas dos meus ais
Voai, saudosos, primorosos
Dulçorosos beija-flores
Dos tristores que eu lhe fiz dos amargores
Doces hóstias multicores
E um turíbulo da dores
Cujo incenso é a inspiração
Com amor e pura santidade
Guardo o culto da saudade
No meu coração.

Eis o teu templo de aurorais fulgores
Que eu perfumei só com o ideal das flores
Arcanjos de ouro tendo às mãos ebúrneas liras
E a teu pés cantando em coro
Sobre um trono de safiras
Nos pedestais dos róseos alabastros
Verás dois astros: Tasso e Dante a soluçar!
Sobre o teu altar e debruçado em áurea cruz
Meu coração numa explosão de luz.

Uma Trova de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

O político, no pleito,
promete mundos e fundos;
só "papo", pois quando eleito,
"esquece" tudo em segundos!

Uma Lengalenga de Portugal
O Bento
 
 Lengalenga inerente aos jogos de “o mestre manda”, em que uns têm de seguir todo o que o mestre mandar fazer.
  
- Bento que bento é o frade!
- Frade!
- Na boca do forno!
- Forno!
- Cozinhando um bolo!
- Bolo!
- Fareis tudo o que o mestre mandar?
- Faremos todos!

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Tu passaste por este jardim

Tu passaste por este jardim!
Sinto aqui certo odor merencório
Desse branco e donoso jasmim
Num dilúvio de amoras pendeu
Os arcanjos choraram por mim
Sobre as folhas pendidas do galho
Que a luz de seus olhos brilhantes verteu.

Tu passaste, que de quando em quando
Vejo nas rosas no hastil lacrimado
Das corolas de todas as flores
As minhas angústias, abertas em flores
Neste ramo que ainda se agita
Uma roxa saudade palpita
E esse cravo, no ardor dos ciúmes
Derrama os perfumes num poema de amor.

De um suspiro deixaste o calor
Neste cálix de neve, estrelado
Neste branco e gentil monsenhor
Vê-se os íris de um beijo esmaltado
Tu deixaste num halo de dor
Nas violetas magoadas, sombrias
A tristeza das ave-marias
Que rezam teus lábios à luz do Senhor.

Vejo a imagem da minha ilusão
Nessa rosa prostrada no chão
Meus afetos descansas nos leitos
Destes lindos amores-perfeitos
Como chora o vernal jasmineiro
Que me lembra o candor de teu cheiro!
Este cravo sanguíneo é uma chaga
Que se alaga no rubor da cor.

As gentis magnólias em vão
Muito invejam teu rosto odoroso
Rosto que tem a conformação
De um suspiro adejando saudoso
E esses lírios têm a presunção
De imitar em seus níveos brancores
Esses dois ramalhetes de amores
Andores de flores num seio em botão.

Um Triverso de Londrina/PR
Domingos Pellegrini

Andar
é encontrar outro eu
em outro lugar

Uma Trova de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla

Ah, coração, toma jeito!...
Calma, em tuas investidas...
ou te enclausuro, em meu peito,
em um túnel... sem saídas.

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Um boêmio no céu

(O boêmio com temor à São Pedro)

Meu Pai, será um crime imperdoável
Perguntar-vos por onde vaga o Monstro,
O Judas, vendedor do Pai Divino?

Queres que eu seja franco?
Nem eu mesmo
Posso informar-te sobre o seu destino!

Através de seu cérebro bizarro
Que pensas desse tigre, dessa hiena?!

Eu lhe voto rancor, ódio profundo,
Mas lamento, Senhor, sua desgraça,
E desse vil herói chego a ter pena!
Senhor, ouso dizer, humildemente
Á vós que renegastes Jesus Cristo,
A vós, que o grande Mestre bendiz
que não existe coração perverso,
mas coração feliz ou infeliz.

Vós deveis ser a Judas muito grato,
Perdoar de coração esse bandido,
O maior dos maiores condenados,
Que ficam para sempre relembrados,

Esses homens fecais feitos de pús,
Pois se foi certo que vendeu a Cristo,
Também foi certo, que, ao beijar-lhe a face,
Lhe deu a glória universal da cruz!

Sem esse grande miserável... Judas,
Existiria Deus... mas não, Jesus.

Recordando Velhas Canções
Deusa do asfalto
(samba-canção, 1959)

Adelino Moreira

Um dia sonhei um porvir risonho
E coloquei o meu sonho
Num pedestal bem alto
Não devia e por isso me condeno
Sendo do morro e moreno
Amar a deusa do asfalto.

Um dia ela casou com alguém
Lá do asfalto também
E dizem que bem me quer
E eu triste boêmio da rua
Casei-me também com a lua
Que ainda é a minha mulher

É cantando  que carrego a minha cruz
Abraçado ao amigo violão
E a noite de luar já não tem luz
Quem me abraça é a negra solidão

É, é, é, eeé cantando que afasto do coração
Esta mágoa que ficou daquele amor
Se não fosse o amigo violão
Eu morria de saudade e de  dor.

Uma Trova de São Gonçalo/RJ
Gilvan Carneiro da Silva

Vivendo de um sonho morto
na solidão dos meus dias,
o meu coração é um porto
cheio de amarras vazias...

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Primeiro ato

São Pedro:
Que é isto?! Aqui? No céu?! Profanação!!

Boêmio:
Senhor! Não repareis! É uma surpresa!
Venho, apenas, cantar, festivamente,
em vosso aniversário uma canção!

São Pedro:
Mas na casa de Deus?!...E com um violão?!
Retire-se daqui!

Boêmio:
Senhor, perdão!
Que havia de trazer-vos em um dia
tão grande, tão bonito, como o vosso,
de tanto amor, tanta recordação?!
Eu vos chamo, Senhor, vossa atenção.
Este instrumento representa a música,
esta flor, que colhi no mato virgem,
representa a formosa natureza,
os versos do meu canto representam
a divina poesia, e essa trindade
não merece, Senhor, vosso desdém!

Pois Natureza, Música e Poesia
são as únicas coisas de sublime
que o mundo, de onde venho, em si contém.
Se eu venho tão somente com um violão,
é porque, desde que desencarnei,
desde hoje de manhã, desencarnado
vaguei por toda a terra, procurando
uns músicos, que, enfim, não encontrei,
para, enquanto fizésseis vossas preces,
como estáveis fazendo, agora mesmo,
oferecendo a Deus a vossa oblata,
entrássemos no Céu, com uma cantata,
com cavaquinhos, flautas e violões
acompanhando as vossas orações,
com uma bela e saudosa serenata.

Um Triverso do Rio de Janeiro/RJ
Millôr Fernandes
(Milton Viola Fernandes)
(1923 – 2012)

Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.

Uma Trova de Magé/RJ
Maria Madalena Ferreira

Se não tens muito, não faças
pouco do pouco que é teu,
que... esses “pouquinhos” são graças
que a vida te concedeu!

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Chico Beleza

Pulas areia da istrada,
Cum as perna já meia bamba,
Um dispotismo de gente
Vinha cantando num samba,
Fazendo grande berrêro!

Quem puxava a istruvunca
Era o Manué Cachacêro,
O mais grande dos violêro,
Que im todo sertão gimia!
E era ansim que ele cantava
E no canto ansim dizia:

"Diz os véiu de outras éra
que quando São João sintia
sôdade de Jesú Cristo
e de sua cumpanhia,
garrava logo na viola,
prá chorá sua sôdade
e a sua malincunía!

Entonce logo os apóstro,
Assombrando o istruvío,
Cada um seu pé de verso
Cantava no desafío

A Mãe de Cristo chorava
e as agua que derramava
da fonte do coração,
caia nas corda santa
da viola de São João!

Pru via disto é que o pinho,
instrumento sem rivá,
quando se põe-se chorando,
se põe-se a gente a chorá".

Foi aí, nesse festêro,
que vi o Chico Sambêro,
um sambadô sem sigundo,
mas porêm feio, tão feio,
que toda gente dizia
que foi o hôme mais feio
que Deus butou neste mundo!

Tinha cara de preguiça,
cabeça de mono véio,
e pescoço de aribú!
A boca, quando se ria,
taquarmente parecia
a boca de um cangurú!
Tinha as oreias de porco
e os dentes de caitetú!
Tinha barriga de sapo,
e o nariz, impipocado,
figurava um genipapo!

Os braços era taliquá
dois braços sirigaitado
d′ um veio tamanduá!
Os óios - dois berimbau!
As pernas finas alembrava
as pernas d′ um pica pau!
O queixo de capivara
tinha um bigode pru riba,
que quase tapava a cara!
O cabelo surupinho
era, sem tirá nem pô,
cabelo de porco espinho!

Im conclusão, prá findá,
tinha os dedos de gambá,
os hombros redondo e chato
e os pé que nem pé de pato!

Inda mais prá cumpletá
aquela xeringamança
e feiúra de pagóde,
o hôme quando se ria,
era um cavalo rinchando,
e quando táva suando,
tinha um ôroma de bóde.

Apois bem. Esse raboeza,
que era prú todas as bocas
chamado: Chico Beleza;
esse horríve lobizome,
que era mais feio que a fome,
mais feio que o Demo inté
quando as pernas sacudia,
sambando nargum banzé
enfeitiçando as viola,
apaixonando as muié,
trazia tôda as cabôca,
cumo um capaxo, dibaxo,
das duas sóla do pé!

Hinos de Cidades Brasileiras
Óbidos/PA

Sentinela que guarda riqueza
deste vale imenso sem par;
podes bem ser chamada princesa,
das belezas do grande Rio-Mar.
Os teus filhos são bem brasileiros,
são valentes e sabem lutar.
E trabalham ao sol altaneiros,
sempre avante, não sabem parar!

Óbidos, és minha terra,
Óbidos, és meu torrão,
Óbidos, estás inteira,
dentro do meu coração.

Já tens glória passada que a história,
podes bem com justiça assentar;
não são gestos falazes que a vitória,
que soubeste tão bem conquistar.
És a filha do Rio Amazonas
e conheces o seu murmurar:
onde estás é a única zona,
por onde ele tem que passar !

Óbidos, és minha terra,
Óbidos, és meu torrão,
Óbidos, estás inteira,
dentro do meu coração.

Tuas noites são bem estreladas,
e o teu céu é mais puro azul.
E são claras as tuas madrugadas,
quando sopra o vento taful.
És rincão da terra brasileira,
na Amazônia és forte e viril,
vives sob a mesma bandeira,
que tremula em todo o Brasil!

Uma Trova de Pedro Leopoldo/MG
Wagner Marques Lopes

Ao reler os teus escritos
grafados com teu carinho,
superei dias aflitos,
jamais estive sozinho.

Um Poema de Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Luar do Sertão

Oh! Que saudades do luar da minha terra
Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão!
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão.

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão.
E a gente pega na viola que ponteia,
E a canção é a lua cheia a nos nascer no coração!

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Quando vermelha no sertão desponta a lua
Dentro d'alma onde flutua também rubra nasce a dor!
E a lua sobe e o sangue muda em claridade
E a nossa dor muda em saudade branca... assim... da mesma cor.

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Ai!... Quem me dera que eu morresse lá na serra,
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez!
Ser enterrado numa grota pequenina,
Onde à tarde, a sururina chora a sua viuvez!

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Diz uma trova, que o sertão todo conhece,
Que se, à noite, o céu floresce, nos encanta, e nos seduz,
É porque rouba dos sertões as flores belas,
Com que faz essas estrelas lá do seu jardim de luz!!

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Mas como é lindo ver, depois por entre o mato
Deslizar calmo, o regato, transparente como um véu,
No leito azul das suas águas, murmurando,
Ir por sua vez roubando as estrelas lá do céu!

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

A gente fria desta terra sem poesia
Não se importa com esta lua nem faz caso do luar!
Enquanto a onça, lá na verde capoeira,
Leva uma hora inteira, vendo a lua a meditar!

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Coisa mais bela neste mundo não existe
Do que ouvir um galo triste no sertão se faz luar.
Parece até que a alma da lua é que descanta,
Escondida na garganta desse galo a soluçar!

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Se Deus me ouvisse com amor e caridade,
Me faria esta vontade o ideal do coração.
Era que a morte a descantar me surpreendesse
E eu morresse numa noite de luar no meu sertão!!

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

E quando a lua surge em noites estreladas,
Nessas noites enluaradas, em divina aparição,
Deus faz cantar o coração da Natureza,
Para ver toda beleza do Luar do Maranhão.

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Deus lá no céu, ouvindo um dia, essa harmonia,
A canção do meu sertão, do meu sertão primaveril,
Disse aos arcanjos que era o Hino da Poesia,
E também a Ave-Maria da grandeza do Brasil.

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Pois só nas noites do sertão de lua plena,
Quando a lua é uma açucena, é uma flor primaveril,
É que o Poeta, descantando a noite inteira,
Vê, na Lua Brasileira, toda a alma do Brasil.

Não há, oh gente, oh! não,
Luar como esse do sertão!

Trovadora Destaque  



Campo Mourão Turístico

AEROPORTO
Pelos céus de todo Brasil
e aqui marcando compasso
muita gente já partiu:
– Um adeus e um forte abraço!

ANEL VIÁRIO
Arco íris de concreto
torna mais fácil partir
levando o corpo e o afeto
pra onde o sonho quer ir.

ANTIGA RODOVIÁRIA
Antiga Rodoviária
de tantas idas e vindas
à minha’lma solitária
é que, silente, tu brindas?

BANDEIRA E GEMBRÉ
Dizem que em Campo Mourão
dois índios eram rivais.
Um se tornou capitão
o outro se foi, nunca mais…

BIBLIOTECA PÚBLICA
Este destino é a viagem,
deste prédio monumento
ontem, em terra, ancoragem,
hoje, em livre pensamento.

CAPITÃO ÍNDIO BANDEIRA E A AVENIDA
Entre a patente e a bandeira
empenhou a própria vida.
A voz, de sagas, herdeira
vai muito além da Avenida.

CATEDRAL SÃO JOSÉ
A Catedral São José
foi em plena Praça erguida
é marco de amor e fé
desta cidade querida!

Padroeiro São José
que deu nome à Catedral
conduz o seu povo à fé
e a mui sublime fanal.

CEFET
CEFET, universidade
Que orgulha de coração
Esta grandiosa cidade
Chamada Campo Mourão.

ESTAÇÃO DA LUZ
Estação da Luz – vigia,
de partidas e de amores,
tão intensos, já, um dia,
cuida: se ouvem os clamores!

ESTAÇÃO ECOLÓGICA DO CERRADO
Este é o Cerrado que ostenta
riquezas que não têm preço
nele o passado apresenta
do futuro , um seu começo.

FECILCAM
Faculdade portentosa
do saber a guardiã
és rebelde flor mimosa
e a mais nobre anfitriã.

GRUTA DA SANTA CRUZ
De pedra em pedra se fez
a Gruta da Santa Cruz,
misto de dor e altivez,
por promessas a Jesus

IGREJINHA DOS CAROLLO
Igrejinha dos Carollo,
que bom é nela chegar,
buscando paz e consolo
de distante caminhar!

MERCADO MUNICIPAL
Mercado Municipal
para o povão, Mercadão
foi peça fundamental
hoje é só recordação.

MUSEU DEOLINDO PEREIRA
O ontem tem guarda segura
no presente que prepara
a nossa vida futura
para uma rica seara.

PARQUE DE EXPOSIÇÃO
No Parque de Exposição
o povo faz sua festa
de ano em ano há a emoção,
ao sonho e encanto se presta.

PARQUE DO LAGO
Bem vindo ao Parque do Lago
e viva nele a beleza
que esbanja com tanto afago
a nossa mãe natureza.

PARQUE LAGO AZUL
“Parque Lago Azul” se veste
de mui ricas fauna e flora
entre as águas e o celeste
luzir da cândida aurora!

RIO 119
Corre o Cento e Dezenove
banha os sonhos, a memória
e a indiferença demove
ao se tornar viva a história.

SANTUÁRIO DE APARECIDA
Santuário de Aparecida,
aqui eu vim adorar
a Santa da minha vida
e muitas graças buscar.

TEATRO MUNICIPAL
Teatro Municipal
de dançarinas, artistas,
de sonhos, rico cristal
do povo, joias benquistas!

TRECHO DE PEABIRU
Marco do velho Caminho
por Peabiru conhecido
resiste ao tempo e sozinho
mostra o laurel esquecido.

Peregrinando Pela Região Da COMCAM
COMCAM =Comunidade dos Municípios da Região de Campo Mourão


COMCAM
Coração do Paraná,
do Ivaí ao Piquiri,
há canções, e “causos” há,
que lembram gês, guarani.

PEREGRINAÇÕES
COMCAM da Rota da Fé,
Caminhos de Peabiru,
Terra Sem Mal, São Tomé,
Quão bela canção és tu!

JOÃO MARIA D’AGOSTINI
O beato João Maria
diz que esteve na região
atendendo ao que sofria,
trazendo consolação.

CAVALGADAS NA COMCAM
Relembrando pioneiros
no chão de tuas estradas
te fazem, os cavaleiros,
a região das cavalgadas.

GASTRONOMIA
Na COMCAM, gastronomia
tempera os bons corações
trazendo paz e alegria
juntando em festa as nações.

CAMINHOS DE PEABIRU*
Como rendadas toalhas,
fez-se o nosso Peabiru,
tecido de extensas malhas,
do Paraguai ao Peru.

POLÊMICAS
Aonde vai o Peabiru?
E quem foi que o construiu?
Mesmo não fosse ao Peru,
na COMCAM ele existiu!

TERRA SEM MAL**
Em migração permanente,
tendo o Sol como fanal,
o guarani segue em frente,
buscando a Terra Sem Mal.

ALTAMIRA DO PARANÁ
Altamira da COMCAM,
tens beleza singular.
Dos teus rios és guardiã
e orgulho do Paraná.

ARARUNA
Bela Araruna, nascida
na moldura do Caminho.
Por Peabiru conhecida,
tem de nós todo o carinho.

BARBOSA FERRAZ
Barbosa em seu chão guardou
tesouro em pedra e sinais,
que o Peabiru registrou
para não perder jamais.

BOURBÔNIA
Bourbônia, palco da história
do índio, branco e tropeiro.
Nas trilhas da sua glória
peregrinou-se primeiro.

CAMPINA DA LAGOA
Campina, orgulhosa, ostenta
pesquisas da arqueologia,
provando, já nos setenta,
que o Peabiru existia!

CAMPO MOURÃO
Camorão, Campo Mourão,
filha e mãe tão orquestradas.
Bela COMCAM em ação,
fez-se história nas estradas.

CORUMBATAÍ DO SUL
Corumbataí do Sul
tem no seu alvorecer,
além do céu muito azul,
trilhas de índios para ver.

ENGENHEIRO BELTRÃO
Em Engenheiro Beltrão
há ruínas escondidas,
pois uma nobre Missão
em seu chão ficou perdida.

FAROL
No Farol inda há quem conte
que o beato João Maria
batizou a Água da Fonte
e fez muita profecia.

FÊNIX
Fênix chamou-se um dia
Vila Rica, em plena glória.
Da Missão que ali existia
guarda viva hoje a memória.

GOIOERÊ
Goioerê, muitos povos
já trilharam o teu chão
deixando aos teus filhos novos
mui valiosa lição.

ITARARÉ
A convite de Altoé,
o arqueólogo foi a campo.
descobriu que o Itararé
do Peabiru fez seu canto.

JANIÓPOLIS
Foi Janiópolis caminho
e palco de tanta saga.
Hoje é o rico e alegre ninho
de um povo que a paz afaga.

JURANDA
Oh, Juranda, Jurandah,
no teu nome, tão sonoro,
sempre a graça se achará,
qual um pássaro canoro.

LUIZIANA
Luiziana das cachoeiras,
dos caminhos sempre em flor,
das muitas sagas pioneiras
de que herdaste o teu vigor.

MAMBORÊ
Mamborê tem seus segredos,
misteriosos sinais.
São curiosos enredos
herdados dos ancestrais.

MOREIRA SALES
Moreira és jovem agora
mas tens tão rico passado
muitas nações já outrora
nos teus campos têm lavrado.

NOVA CANTU
Teu rio, Nova Cantu,
teu tambo, a vila espanhola,
índio, Missão, Peabiru,
tudo em ti é pura escola.

PEABIRU
A Peabiru coube a glória
de o seu nome registrar
o fato vivo da história
do Caminho milenar.

IV CENTENÁRIO
Barro branco, Gato Preto
hoje Quarto Centenário
eu canto neste poemeto
teu passado legendário.

QUINTA DO SOL
Quinta do Sol tem encantos,
verde e pujante visão.
Terra de paz, onde há tantos
motivos para a emoção.

RANCHO ALEGRE
O rancho de tantos causos
alegres, sempre bravios
desperta muitos aplausos
e afasta os dias sombrios.

RONCADOR
Nas trilhas de Roncador
João Maria fez história,
nos “causos” do sofredor
e em coletiva memória.

TERRA BOA
Terra Boa, gente boa
escreveu nos seus anais
tanta história que povoa
velhos tempos coloniais.

UBIRATÃ
Ubiratã, você traz
entre as suas tradições,
a vocação para a paz
vinda de antigas nações.

Para quem quiser saber o que é Caminho do Peabiru e Terra Sem Mal, como os textos são muito longos, indico os links abaixo do meu blog:

         Sinclair Pozza Casemiro é graduada em Letras Anglo Portuguesa pela Universidade Estadual de Maringá [UEM] (1976), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (1995), doutorado em Letras, Área de Filologia e Lingüistica Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (2001) e pós-doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo [USP].
         Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM – NECAPECAM, com sede em Campo Mourão, pesquisadora pelo CNPq da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM. Foi diretora e vice-diretora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, FECILCAM.

Chuvisco Biográfico do Poeta Homenageado
Catulo da Paixão Cearense (São Luís do Maranhão, 8 de outubro de 1863 — Rio de Janeiro, 10 de maio de 1946) foi um poeta, músico e compositor brasileiro. A data de nascimento foi por muito tempo considerada dia 31 de janeiro de 1866, pois a data original foi modificada para que Catulo pudesse ser nomeado ao serviço público.
         Filho de Amâncio José Paixão Cearense (natural do Ceará) e Maria Celestina Braga (natural do Maranhão).
         Mudou-se para o Rio em 1880, aos 17 anos, com a família. Trabalhou como relojoeiro.
         Dispunha de uma fortaleza física, que o ajudou no cais do porto, onde trabalhou como estivador.
         No Colégio Teles de Meneses, estudou português, matemática e francês. Chegou a traduzir poetas internacionais famosos. Através destes relacionamentos boêmios, aprendeu a tocar violão e flauta.
         Fundou um colégio no bairro da Piedade, passando a lecionar línguas.
         Em 1885, morou na residência do senador do Império Silveira Martins, onde teve a incumbência de lecionar o português aos filhos.
         Conheceu vários chorões da época, como Anacleto de Medeiros e Viriato Figueira da Silva, quando se iniciou na música. Integrado nos meios boêmios da cidade, associou-se ao livreiro Pedro da Silva Quaresma, proprietário da Livraria do Povo, que passou a editar em folhetos de cordel o repertório de modismos da época.
         Compilou letras de modinhas, lundus e cançonetas da época, e as publicou através da Livraria do Povo. Publicou também obras suas, tais como: O cantor fluminense, Lira dos salões, Novos cantares, Lira brasileira, Canções da madrugada, Trovas e canções e Choros ao violão.
         Conhecido como "vate sertanejo", deixou 15 livros de poemas, dentre eles Meu sertão (1918), Sertão em flor (1919), Poemas bravios (1921), Mata iluminada, Aos pescadores (1923), Meu Brasil (1928), Um boêmio no céu, Alma do sertão (1928) e Poemas escolhidos (1944).
         Vivia despreocupado, pois era boêmio, e morreu na pobreza.
         Em algumas composições teve a colaboração de alguns parceiros: Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Francisco Braga e outros.
         Suas mais famosas composições são Luar do Sertão (em parceria com João Pernambuco), de 1914, que na opinião de Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, e a letra para Flor amorosa, que havia sido composta por Joaquim Calado em 1867. Também é o responsável pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade carioca e pela reforma da "modinha".

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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