Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 322)




Uma Trova de Ponta Grossa/PR
Anita Thomaz Folman

O Pinheiro mais parece
lá no fundo do sertão
um colono em triste prece
pedindo a Deus proteção.

Uma Trova de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Não te aflijas, inda que
o agora em dor se resuma.
O homem sensato entrevê
a luz na mais densa bruma.

Um Soneto de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

O Caminho

Dize a palavra que te encerre o sonho,
aquela que resuma o teu desejo;
evita aquela de pesar medonho,
aquela de lamento malfazejo.

Dize a palavra que te encerre o sonho
com a mesma intensidade do teu beijo!
Evita o murmurar insano, e põe o
teu pensamento a trabalhar, que vejo

que aquilo que dizemos é que é ouvido,
ainda que o façamos em segredo...
— Não há palavra sem repercussão!...

Na estrada em que o homem vai, tão comovido,
seja de sua pátria, ou do degredo,
antes, por ela, andou seu coração!

Uma Trova Humorística de Londrina/PR
Dirce Davenia Guayato

Diz um fantasma ao colega:
Hoje, a moda é dadivosa
lençol branco, como é brega,
chique mesmo é .. cor de rosa!

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Albertina Moreira Pedro

Do passado, ouço a cantiga
que recorda, ternamente,
que há sempre uma rua antiga
nos velhos sonhos da gente...

Um Soneto de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Soneto de aproximação

A vida, ao teu redor, vê com alegria;
nos jardins, conta as flores que se abriram;
esquece as murchas, já sem poesia,
e aquelas cujas pétalas caíram.

Retém, do lábio teu, tudo o que é bom,
e as linhas do sorriso do teu rosto;
não te deixes levar pelo desgosto,
nem digas nada em pesaroso tom.

Que saibas rir, malgrado o sofrimento;
não te incomode nunca a noite escura,
tampouco, por teu corpo, as cicatrizes...

Guarda que as nuvens as dissipa o vento,
e que a árvore que mais alcança altura
tem mais fundas, no chão, suas raízes.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Os males que me circundam
são como as ondas do mar:
atrás de uma vêm outras,   
sem nunca poder cessar.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Dora Yolanda Forletti

La sonrisa de tus ojos
es fragancia de mil flores
y transforma mis enojos
en arco iris de colores.

Um Poema de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Poeta é aquele que vê

          A Márcio Marinho Nogueira

Poeta é aquele que vê
o belo e o feio do mundo;
que capta, com suas antenas,
toda a essência das coisas
e em seus versos a traduz.
Poeta é aquele que sabe
colher com seus dedos longos,
pelas margens dos caminhos,
flores, e ninhos, e salmos.
Poeta é aquele a quem cabe
distribuir os seus dons
e, estando à sombra ou ao sol
de suas aspirações,
faz aos poucos uma história.
Poeta é aquele que crê
e proclama esta verdade:
só o amor tem fundamento;
o ódio, a cobiça, o ciúme
não têm, não, razão de ser.
Poeta é quem dá, afinal,
través daquilo que escreve,
das palavras de sua boca,
água a quem reclama sede,
pão a quem lhe diz ter fome,
o que cobrir ao que está nu,
e flores — a este, àquele —
flores a toda a gente,
indiscriminadamente,
mesmo a quem, ah! sobretudo
àquele que lhe atira pedras.

Trovadores que deixaram Saudades
Edgard Barcellos Cerqueira
Rio de Janeiro/GB (1913 – ????)

Cada vez que tento, em fuga,
mascarar o meu desgosto,
descubro mais uma ruga
a desmascarar meu rosto...

Um Poema de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Procura

Se a Deus queres achar, não é preciso
que balbucies triste uma oração;
apenas que te afastes do tumulto,
em busca de silêncio e de harmonia.
Vai ao encontro de ti mesmo, vai!
A natureza, do Criador reduto,
está ao teu redor, basta que vejas,
que tenhas olhos para o que é perfeito.
Vai ao encontro de ti mesmo, em paz,
os pés descalços sobre a grama verde,
cabelo ao vento, a face à sombra densa
das árvores frondosas do jardim.
Não é preciso que tu digas nada
(mais vale teu silêncio interior!),
antes escuta os sons da natureza:
o pássaro que pousa no seu ninho;
a frágil folha seca que se deixa
arrastar pelo vento que murmura;
gotículas de chuva que não vem,
fremir de asas de insetos pequeninos,
e abelhas brancas a voarem no ar...
Não é preciso que tu digas nada,
antes escuta a voz da natureza,
que é a voz de Deus a te dizer baixinho,
a te dizer, quase que segredando,
que não habita os templos suntuosos;
trono não tem, nem chega a ser um rei;
vive a teu lado, e tu nem te dás conta;
que te conduz no escuro e te protege;
que a mão te põe no ombro, e não percebes;
que está na flor que se abre e te sorri,
mas que arrancas à haste e atiras fora.

Uma Trova de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla

É a rua da minha infância!
Revejo a casa... ouço o trem...
E cismo, em sonho e à distância,
que ela envelheceu... também!

Uma Quadra Popular, de Portugal
Fernando Máximo

Melhorar nossa atitude,
de forma quotidiana,
é cumprir na plenitude
a razão da vida humana.

Um Soneto de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Tema antigo

Há teu perfume aqui, há tua imagem
entrando pela porta, alegre e doce,
e enchendo-me de luz, como se fosse
o sol das almas, sobre a paisagem.

Quem me dera, entretanto, aqui chegasses
de fato, ó meu amor, e — bela e calma —
me dissesses aquilo com que a alma
então tu me encherias, mais as faces,

dessa alegria própria de alguns poucos,
tão natural e boa, que eu invejo...
Ah! por que é que sonho eu? não me contento

com teus imaginários passos loucos,
com o teu vulto, próximo de um beijo,
mas que desfaz, de súbito, o vento?...

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

Para mudar a visão
de quem não muda as retinas,
Deus, em sábia decisão,
encheu as ruas de esquinas!

Um Soneto de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

A chegada do amor

Cabisbaixo, entre as flores me encontrava,
tão várias, com que os campos, langorosa,
adorna a primavera. Ah, se apagava
de meus olhos a chama esperançosa!

— “Que sentido, meu Deus! — me interrogava —
há nesta vida fútil, dolorosa,
em que as pessoas mandam-me à fava
quando lhes falo da alma mais chorosa?”

Sentia-me pequeno, e dissolvido
estava no fel de minha pequenez...
Foi quando um vulto claro apareceu

e de novo criança então me fez,
e tudo aquilo que havia perdido,
em lágrimas e amor, me devolveu.

Uma Trova de São Paulo/SP
Maria Helena Calazans M. Duarte

Sem brinquedo, a sós na rua,
pede a criança, baixinho:
"Senhor Deus, me empresta a lua
para brincar um pouquinho".

Um Soneto de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Curso d’água

Serve ao amigo, e mesmo ao inimigo,
e a Deus é que estarás servindo então;
dedica-te ao amor, de coração,
de maneira que estejas bem contigo!

No rosto abre um sorriso, dando abrigo
ao semelhante, e canta uma canção
cujos versos despertem a emoção —
canção da tua vida, meu amigo!

Não te exasperes nunca, sê paciente;
e constante, e honesto, e sê fiel
a tudo o que o espírito procura.

Seja a tua existência, sob o céu,
qual curso d’água fresca e transparente,
matando a sede a toda a criatura…

Um Triverso de Curitiba/PR
Lucas Henrique da Silva
(10 anos)

Esquento as mãos
Na janela do meu quarto
Sol de inverno.

Uma Trova de Maringá/PR
A. A. de Assis

A vida é um túnel estreito
que à eternidade conduz.
- Só o amor nos dá o direito
ao desembarque na Luz.

Um Soneto de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Improviso

Não como a estrela, na manhã serena,
à flor de um lago, quase a se esconder,
o modo peculiar de me envolver
com o riso à flor da boca, tão pequena!

Nem como a ave do céu, que, junto ao ninho,
chama contente pelo companheiro,
em cujo peito o amor é mais fagueiro,
e é calmo, p’ra que haja algum espinho.

É várzea em flor, à noite, escondida,
emanando um perfume sem igual
à minha mal-aventurada vida...

(Quem dera fosse o seu olhar, quem dera!
a pino o sol, sobre esse mesmo val,
numa confirmação da primavera!)

Recordando Velhas Canções
A felicidade
(samba, 1959)

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Tristeza não tem fim 
Felicidade sim
Tristeza não tem fim 
Felicidade sim

A   felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho pra fazer
A fantasia de rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta feira

A   felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila 
Depois de leve oscila
E cai com uma lágrima de amor

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite passando, passando
Em busca da madrugada

Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor
Tristeza não tem  fim

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho

Quando me sinto estressado,
fugindo da realidade,
vou do presente ao passado
pelo túnel da saudade.

Um Haicai de Mogi das Cruzes/SP
João Vittor Pinheiro Madaleno
(10 anos)

Da minha janela...
Uma noite de outono
sem ninguém na rua.

Uma Trova de São Gonçalo/RJ
Marilda Mendonça Pinheiro

Das veredas da fazenda
a primavera agradece
às flores caindo em renda,
bordando o chão que amanhece!

Um Soneto de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Em dias de um abril

Andar contente, em dias de um abril,
pelas campinas verdes recendendo;
olhar-lhes as flores e as ir colhendo,
debaixo deste claro céu de anil...

Beber da água fresca de um cantil;
provar frutos silvestres, revivendo
a infância mágica; e ir percorrendo
caminhos que se perdem, pueril.

Descansar de um arbusto à sombra amena;
sentir no vento o cheiro da açucena;
e assim ficar, despreocupado, em paz —

enquanto brilha, arde o sol, a pino,
e alegre canta o riacho cristalino
à sombra destas matas tropicais!

Hinos de Cidades Brasileiras
Barra Mansa/RJ

Vivo seja teu nome esculpido
No granito das rochas sem par,
E por todos co'amor repetido,
Com preces diante do altar !
Cada lábio o murmure e um hino
Ele seja e o suave penhor
Dum afeto tão grande e divino,
Tão sublime e mais puro que o amor !

Barra Mansa ! Barra Mansa !
Glória a ti ! Hosana mil !
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil !

Tua glória, fulgindo brilhante,
Com mais vivo fulgor e mais luz,
Repercute no vale distante,
Vai além desses céus mais azuis !
Vai além desses montes e fala
Da existência de um povo a lutar,
Do teu povo feliz, que se iguala
aos titãs no feroz batalhar !

Barra Mansa ! Barra Mansa !
Glória a ti ! Hosana mil !
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil !

O teu nome também nos recorda
Um murmúrio suave, um perdão,
Um carinho que terno transborda
De teus filhos no teu coração !
Ele lembra também a meiguice,
À beleza, a grandeza moral
Das mulheres que tens, a ledice
À pureza sem par de Vestal !

Barra Mansa ! Barra Mansa !
Glória a ti ! Hosana mil !
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil !

Do criador, já a mão justiceira
Teu destino no tempo traçou...
Barra Mansa, serás a primeira
Pelos bens que o Senhor te doou !
Cada etapa vencida em peleja
Traga sempre uma glória melhor,
Uma glória mais santa e que seja,
Entre todo o triunfo o maior !

Barra Mansa ! Barra Mansa !
Glória a ti ! Hosana mil !
Lembras suave esperança
Num recanto do Brasil !

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Milton Souza

Se um pai se entrega à bebida,
ao filho desencaminha.
O mau exemplo é na vida
pior do que erva daninha.

Um Poema de Volta Redonda/RJ
Antônio Oliveira Pena

Noite no campo

Eis o luar pelas quebradas fora,
prateando o ermo, a solidão, a noite.
Gelado passa o vento pelo rosto
daqueles que se vão pelos caminhos.
E aqueles cujo sono chega tarde,
nas janelas, debruçam-se absortos,
talvez vendo o luar pelas quebradas,
prateando o ermo, a noite, a solidão.
Há pouco rindo sob o olhar materno,
sonha agora a criança um sonho doce,
cheio de anjos a brincar de roda,
vestes colegiais, num pátio azul.
Qual se orvalhasse os sonhos a tristeza —
a tristeza da noite — noite adentro,
deixa-se a alma levar, deixa-se lânguida
levar, perdida em pensamentos, longe...
Pia à beira da estrada uma coruja,
e a escutamos quase por acaso.
Gelada corre a aragem devagar;
recende a murta no jardim da casa.
Perfume e nostalgia emanam flores;
escondem folhas verdes o alvo ninho.
E as impressões nos vêm como segredos,
e as sensações nos vêm num acalanto.
A noite, amiga minha, é sugestiva,
tal como é mansa a voz com que me falas,
tal como é branco o branco do teu busto,
como são vagos nossos sonhos tristes.

Sobre a canção “A Felicidade”
         Feita para o filme de Marcel Camus “Orfeu do Carnaval”, “A Felicidade” consagrou internacionalmente Agostinho dos Santos, a voz de Orfeu (cantando) no filme. Lamentando o caráter passageiro da felicidade (“Tristeza não tem fim / felicidade sim”), sua letra ostenta alguns dos mais belos versos da música popular brasileira: “A felicidade é como a gota / de orvalho numa pétala de flor / brilha tranqüila / depois de leve oscila / e cai como uma lágrima de amor...”.
         E como o poema, a melodia é também de alta qualidade. Estimulada pela expectativa de sucesso do filme — que afinal aconteceu, com a premiação da Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em Hollywood —, nossa indústria do disco lançou em 1959 nada menos do que 25 gravações de “A Felicidade” (uma a mais do que “Eu Sei que Vou te Amar”), incluindo-se nessa leva inicial de intérpretes Maysa, Sylvia Telles, João Gilberto, Agostinho dos Santos (que a gravaria cinco vezes em sua carreira), além de instrumentistas como José Menezes, Chiquinho do Acordeom e Moacir Silva.
         Detalhe pitoresco é que “A Felicidade” foi praticamente composta numa sucessão de telefonemas, com Jobim no Rio de Janeiro e Vinicius em Montevidéu, onde servia na embaixada brasileira.(http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/05/felicidade_23.html)

Chuvisco Biográfico do Poeta
         Antônio Oliveira Pena, nasceu em Santa Rita de Jacutinga, MG, em 1966. Naturalizou-se em Barra Mansa/RJ.
         Professor e poeta, estreia em 1999, com Poemas - Poesia da juventude e Esboço, reeditado em 2004 acrescido dos livros: O ritmo da palavra, Vertigem e Nau submersa, este último posteriormente ampliado.
         Em 2010, com o patrocínio da Secretaria de Cultura de Volta Redonda, publica O invólucro da noite - toda a poesia até então, a que se somam, ainda, o livro que empresta o nome ao volume e o opúsculo Recado.
         Também em 2010, o Grêmio Barra-mansense de Letras edita Frêmito - também poesia, seguido de Haicais, épica & sonetos, em parceria com José Fleming e Menulfo Nery Bezerra.
         Criado pelo poeta, o blog http://poetaantoniopena.blogspot.com resume o fazer poético desse autor.
         Mora atualmente em Volta Redonda/RJ.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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