Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 3 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 329)


Uma Trova de Pinhais/PR
Ligia Christina de Menezes

Meu girassol pobrezinho
saudoso, não resistiu.
Morreu olhando o caminho
por onde meu bem partiu…

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
Eduardo A. O. Toledo

Feito uma estrela vadia
que brilha até na alvorada,
sou filho da boemia
e neto da madrugada!

Um Poema de Balneário Camboriú/SC
Eliana Ruiz Jimenez

AMPULHETA

Deixo a ampulheta
na horizontal
para que o tempo pare.
Ao abrir a porta
vai me encontrar
com o beijo pronto,
a carne no ponto
e duas taças de licor.
É assim que o momento perfeito
dura o tempo que for.

(poesia premiada no Concurso de Poemas no Ônibus e no Trem, de Porto Alegre/RS, 2014)

Uma Trova Humorística de Santos Dumont/MG
Mário Luiz Ribeiro

Vendo o moço correr tanto,
julguei ser um campeão,
mas, foi grande o meu espanto
quando ouvi: - Pega o ladrão!

Uma Trova de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla

Sozinho na madrugada,
cabelos brancos ao vento,
canta o boêmio... e a toada
é um triste e doce lamento!

Um Poema de Itajaí/SC
Anna Ribeiro

DESCORTINANDO AS ESTAÇÕES

Como a enxurrada que corre
em veios de correntezas;
Entre nós, o tempo já não diz nada
Diante um do outro... O invisível
Mas, pesam nos ombros as reviravoltas de outros tempos

Do Verão; Surpresas das chuvas e trovões
Da Primavera; As flores, borboletas e perfumes
Do Inverno; O hibernar do amor!
Do Outono; Agora pensamentos...Vive a alma em poemas

Na janela, observando as folhas rodopiarem ao vento,
Sopra de leve uma cortina de saudade!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Bateram, abri por dó;
era a desgraça que entrou.
Fez-lhe pena ver-me só
e nunca mais me deixou.

Uma Trova Hispânica de Porto Rico
Elena Guede Alonso

Tu sonrisa es el arte
de volver primavera
a mi otoño que parte
y a mi invierno que espera.

Um Poema de Ibirama/SC
Apolônia Gastaldi

O  VENTO

Um dia
bem à tardinha
bate  o  vento
a viração
e
varre  ligeiro
as  folhas  secas  do  chão

Olhei bem aquela cena
do terreiro limpo
e
então
lembrei todos  os  sonhos
que  eu  tinha
na  coração.

Se  você  tivesse  visto
com os olhos  da  alma
a dor
não teria  arrancado
de  mim
aquele  amor

Sonho  com o terreiro  limpo
depois de  uma viração.
Um  amor não mata  outro
o que  nos mata
é a  dor.

Trovadores que deixaram Saudades
Jorge Picanço Siqueira
Macaé/RJ, 1930 – Niterói/RJ, 2006

Todos dizem que saudade
é lembrança que se sente,
mas saudade, na verdade,
é saudade simplesmente.

Um Poema de Salete/SC
Alcides Buss

AFEITO À SORTE

Circunscrevem-me acasos
que me vêem.
Seu intento, sou.
E também seu logro.

Numa praia, à meia-noite,
o tempo no corpo
armazenado se apodera
dos processos sob a alma.

Renascer, renasço.
Mas a flâmula de afrontas
me submete à cicatriz
do caos, ao recorte
de martírios e recessos.

Movimento-me, imóvel.
O porto do meu corpo
está aberto. Ao não-ser
me nego, mesmo que
de tudo só me reste
quase nada.

Uma Trova de São Paulo/SP
Humberto Rodrigues Neto

Os meus dois olhos castanhos
são tristes, pobres, plebeus...
não têm encantos tamanhos
como esses que têm os teus!

Uma Quadra de São Paulo/SP
Idel Becker
(1910 – 1994)

Você diz que sabe muito,
há outros que sabem mais;
há outros que tiram pomba
do laço que você faz.

Um Poema de Itajaí/SC
Bento Nascimento
(1962-1993)

MEU MUNDO ÀS VEZES É TÃO PEQUENO

Meu mundo às vezes é tão pequeno,
que eu fico esbarrando em mim.
Muitas vezes é tão grande,
que não sei por onde devo estar.

Uma Trova de São Paulo/SP
Zaé Júnior

Se a lua é minha alma gêmea,
longe de ti, eu bendigo
esta saudade boêmia,
que passa as noites comigo!

Um Poema de Blumenau/SC
Dennis Radunz

METAPOESIA

I

    o fonema
fabula
    e se fia
na fábula

encadeia asas

II

    o poema
incende
    insula

    música
em miniatura

Uma Trova de Astolfo Dutra/MG
Cezar A. Defilippo

Na boemia, no abandono...
de tanta dor eu suspeito,
que até saudade sem dono
faz morada no meu peito!

Um Poema de Blumenau/SC
Fátima Venutti

RECADO

Entre os corpos,
Entre os astros,
Entre as estrelas...
Sob o mar,
Sob o azul,
Sob o luar...
Então, o amor.
Então, o nascer.
Então, o encontrar.
Eu estarei
eternamente
A te embalar
Em meus fictícios
Versos a voar...
Tua
Nua
A te esperar

Um Haicai de Cornélio Procópio/PR
Pâmela Cristina da Silva Souza
(8 anos)

Cheiro de pipoca
Vem da casa da vizinha:
Mamãe,faz pra mim?

Uma Trova de Santos Dumont/MG
Sebastião Torres de Lima

Amar... é felicidade!
É ternura... é bom demais!
- Quem tem amor de verdade,
renuncia a tudo mais!

Um Poema de Balneário Camboriú/SC
Pedro Du Bois

PALAVRAS

Ásperas
ditas como ordens
assustadas
macias
ditas como esperas
controladas
raivosas
ditas como verdades
escancaradas
melífluas
ditas como mentiras
dissimuladas
rezadas
ditas como saudades
santificadas
cantadas
ditas como músicas
silenciadas
caladas
ditas como lembranças
extremadas. 

Recordando Velhas Canções
Onde estarás
(bolero, 1961)

Evaldo Gouveia e Jair Amorim

Onde estarás?
Nesta hora, onde estarás
Em que coração
Qual o novo amor
Quem tu beijarás?

Pobre de mim
Sempre, sempre a me perguntar
Que carinhos tens?
Em que braços estás?
Quando voltarás?

Dizem aí
Que é inútil esperar
Que junto de ti
Alguém há de estar
Respondo que não
Sem mágoa ou rancor
Pois meu coração
Está onde estás, amor!

Dizem aí
Que é inútil esperar
Que junto de ti
Alguém há de estar
Respondo que não
Sem mágoa ou rancor
Pois meu coração
Está onde estás, amor !

Uma Trova de Santos Dumont/MG
Beatriz A. Netto

Renúncia, palavra dura,
no coração se debruça:
- por ódio, como tortura!
- por amor, como soluça!...

Um Poema de Joinvile/SC
Fernando José Karl

O JARDIM SUSPENSO

 Atirei pedra no sopro,
que fez da pedra uma ode.

Menos palavras, mais sopros,
porque o invisível é simples amor
coberto de flores na curva do vento.

Palavras são visíveis,
com elas posso ler o que passa
por dentro e por fora do jardim suspenso.

 Prefiro palavras a sopros,
porque de sopros o poço é cheio,
e não haveria sopros e poço sem palavras.

Um Haicai de Cornélio Procópio/PR
Tamyris Lorrana Marques Afonso
(8 anos)

Vejo da janela
Uma horta no quintal
E um quati ladrão!

Uma Trova de Natal/RN
Joamir Medeiros

A natureza agredida
por queimadas criminosas,
perde os encantos da vida,
perde a beleza das rosas!

Um Poema de Mafra/SC
Hugo Mund Junior

UM ÚNICO VERSO

Um único verso sustenta
o equilíbrio do pássaro,
celebra a queda da folha
ao chão, brilha no coração
ilícito. Um único verso
sangra o papel em branco.

Hinos de Cidades Brasileiras
Barra do Piraí/RJ

Em dez de março de noventa,
Um sonho fez-se realidade.
Sem a menor visão sangrenta,
Surgiu a tua liberdade.

E tu, outrora tripartida,
Rompeste em marcha triunfante.
E nesta luta pela vida
Foste um exemplo edificante.

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!

Entre colinas verdejantes,
Ricas, tão ricas de beleza,
Com teus dois rios coleantes,
És um primor da natureza.

Terra feliz, feliz e calma,
Sob este céu sempre de anil,
Tu és a cidade que tem alma,
Ó meu pedaço do Brasil!

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!

Ó terra minha, berço amado!
Ó meu torrão bem brasileiro!
Cheio de glória no passado
E de futuro alvissareiro!

À luz da tua própria história,
O teu caminho percorrido
É rumo certo para a glória
Deste Brasil estremecido!

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!

Uma Trova de Natal/RN
José Lucas de Barros

Viram cinza os verdes braços
de árvores tão bem formadas
e a terra morre aos pedaços
por onde vão as queimadas!

Um Poema de Florianópólis/SC
Juvêncio Martins Costa
(1850 — 1882)

SONHO (II)

 Tranquilo o coração adormecera
Na doce languidez de um beijo ardente. . .
Entre sonhos de flor beijara a crença
A perfumar minh'alma incandescente.

 E amei a vida, respirei das auras
O tépido frescor, banhando a fronte
Da formosa mulher, por quem meu peito
Estremece de amor, tão puro, insonte.

 E amei o sonho desfolhando risos,
Alma prenúncio d'alma encantamento;
E minh'alma jaze o imersa em gozo,
N'uma luta febril com o pensamento.

 E a sonhar vi a imagem predileta
Por entre sombras de uma luz fulgente;
Nus os seios tremendo de volúpia,
E no lábio a brincar beijo inocente.

 E a voz tremente balbucia um termo, —
Repassado de aromas e ambrósias,
Termo tão doce como sons de harpa
Desprendendo ignotas harmonias.

 Esse termo exprimira a majestade
De um profundo sentir, d'alma arrancado:
Amor em cujos elos se enlaçara
O coração do vate apaixonado.

 Termo tão doce a revelar carinhos,
Desprendido de lábios sedutores;
Termo a deslumbrar meu lindo sonho,
Ventura a reviver n'um céu de amores!

 Ouvi a frase rebentar dos lábios:
Eu sou o teu amor, amo-te tanto!
Não sei o que senti: em doce arroubo
Contemplei a mulher, celeste encanto!

 Era um anjo: sobre a nívea espádua
Vi roçar seu cabelo brandamente. . .
Nos seus olhos o brilho que cintila
Fogo de amor que queima e não se sente!

 Ai! cedo se turvou a crença d'alma,
Breve se transformou o encantamento. . .
Acordei-me do sonho e não vi nada.
E sinto arder em febre o pensamento!

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Uma glosa "traiçoeira"!

Mote:
Minha vida vai sem rumo
buscando um sonho encantado,
em seus braços me consumo...
sou mais um pobre enganado!
(José Feldman – Maringá/PR)

Glosa:
Minha vida vai sem rumo
pelo mar da solidão
depois que perdi o prumo
norte do seu coração!

Náufrago, na maresia,
buscando um sonho encantado,
sonhei que você, um dia,
voltaria pro meu lado!

E neste sonho sem prumo
dizia pra minha amada:
em seus braços me consumo...
foi só um sonho e mais nada!

Neste sonho eu percebi
outro "sujeito" ao seu lado,
finalmente eu entendi:
sou mais um pobre enganado!

   
Amanhece em nosso amor...
Olho a "folhinha", e, disposto,
posso afirmar, com fervor:
- HOJE é domingo em teu rosto!

Aos solavancos da vida,
perdido em tortos caminhos,
guardo n’ alma entristecida
o sorriso dos sozinhos!

As rugas são, com certeza,
se grande for o desgosto,
as estradas que a tristeza
vai abrindo em cada rosto!

A vida tem devaneios
e, também, contradição:
- dá banquete aos teus anseios,
e, à minha fome... nem pão!

Buscando novas auroras,
no meu viver sem ninguém,
me embala a dança das horas
pelo amanhã que não vem.

Carnaval!... Tantas folias...
Pagodes doidos de insano!
Cai a máscara três dias
da face que a usou um ano!...

Chove tanto... e, nas dolências
do temporal que angustia,
lágrimas são reticências
na face triste do dia!...

Cultura tem minha nega,
que foi à estação de trem,
para ver a que horas chega
o noturno de Chopin...

Da História, no largo trilho,
deixando impressos meus passos,
exulto por ser teu filho
e te ergo, Barra, em meus braços!

Da mocidade esquecendo,
na velhice que já flui,
sem querer eu vou querendo
dizer adeus ao que fui...

Deus fez Eva num segundo,
mas teve um choque, parou!
O seu barro vagabundo
era tão mau, que rachou!

Durante as longas esperas
de reabrir-se o mosteiro,
a teimosia das heras
já cobre um mural inteiro.

É nosso amor, nos desníveis
da tristeza e da paixão,
clone de angústias terríveis
entre minha alma e o perdão!

Envolvido em meus lençóis,
ouço a chuva sobre as hortas
solfejando si bemóis
na clave das horas mortas!

Evolando-se da infância,
a juventude é fumaça,
tão fugaz, como fragrância
de um bom perfume que passa!…

Há minutos, em família,
que, quando a gente está triste,
fazem pensar que a vigília
nem sabe que o sono existe…

Lágrima falsa e arrogância
matando amores inteiros
vão alargando a distância
entre os nossos travesseiros!

Meu sonho bom, tu me bastas,
mas, perto do amargo fim,
se por acaso te afastas,
morre um pedaço de mim!

Mudei de rua e, iludido,
jurei não voltar aqui...
Retorno, agora, vencido.
Eu choro... e a rua sorri!

Na estrada sem estações
onde jamais há demoras
minutos são os vagões
do “trem-sem-volta” das horas!...

Neste silêncio, a desoras,
em noite escura, sem fim,
sinto prenúncios de auroras
se acaso estás junto a mim…

No seu viver temerário,
que a nenhum lugar conduz,
quem passa por um calvário
leva vestígios da Cruz!...

Pobre amor! Buscas-me a porta
depois de um duro labéu...
Hoje, és luz da estrela morta
que um dia ardeu no meu céu!

Pobre menino vadio,
triste pária pequenino,
és um grande desafio,
sem infância... sem destino…

Qual vaqueiro de esperanças
apóio, com emoção,
a manada de lembranças
nos pastos do coração!

Quando amanhã regressares,
transformarás, com calor,
no mais ditoso dos lares
o nosso ninho de amor!

Sei que todo salafrário,
que deixa o credor às tontas,
detesta sempre o rosário,
que é feito, também, de "contas"

Sempre o “primeiro” do mundo
quero ser em tua vida...
E nunca ser teu “segundo”,
nem um segundo, querida!

Sempre só e abandonado,
nos teus momentos de ausência,
eu sou segundo parado
no mostrador da existência…

Sofredor sempre se esquiva
de mostrar a dor por fora:
- Quando a lágrima é furtiva,
maior é a dor de quem chora!

Tão juntos e tão sozinhos...
que importa o que vem depois?!
Abriu-se, em nossos caminhos,
fundo abismo para dois…

Ternura - rede branquinha,
uma varanda... nós dois...
e um mini-deus se avizinha,
para sermos três, depois!

Traí no amor… e, depois,
nenhum de nós teve vez…
e o perdão, que era de dois,
foi dividido por três!

Vai findar-se a mocidade!
Com ela, os sonhos se vão...
Fico noivo da Saudade
e viúvo da Ilusão!

Velhas cartas... meu degredo...
com pranto as pude escrever.
Há, no seu bojo, um segredo
que o mundo não vai saber!...

Voltei... A rua, em verdade,
em quase nada mudou...
Mas tinha, agora, a saudade
que em cada esquina brotou!

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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