Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 331)



Uma Trova de Maringá/PR
A. A. de Assis

Como eram belos os ninhos
outrora chamados lares!
Hoje há tocas de sozinhos,
escravos dos celulares...

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Célio Grünewald

Vale mais, na vida impura,
para as crianças de agora,
um minuto de ternura,
que os conselhos de uma hora!

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

ESPERANÇA

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

Uma Trova Humorística de Atibaia/SP
José Augusto Rittes

Um amigo biologista,
perito em meio-ambiente,
inclui sogra em sua lista,
como fator poluente!

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Padre Newton Pimenta

Sol das almas: tarde linda;
trás os montes, o sol desce...
mais um dia que se finda
na ternura de uma prece!

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

A UM POETA MOÇO

Desanimado, entregas-te, sem norte,
Sem relutância, à vida; e aceitas dessa
Torrente que te arrasta — a só promessa
De ir lentamente desaguar na morte.

Que pode haver, em suma, que te impeça
De seguir o teu rumo contra a sorte?
Sonha! e a sonhar, e assim armado e forte,
Vida e mágoas, incólume, atravessa.

Ouve: da minha extinta mocidade
Eu, que já vou fitando céus desertos,
Trouxe a consolação, trouxe a saudade,

Trouxe a certeza, enfim, (se há sonhos certos)
De ter vivido em plena claridade
Dos sonhos que sonhei de olhos abertos.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

A árvore do amor se planta
no centro do coração;
só a pode derrubar
o golpe da ingratidão.

Uma Trova Hispânica do Chile
Gladys Bravo Contreras

Para decirnos te amo
nos fuimos creando idiomas
el universo en un ramo
de sonrisas y palomas

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

SONETO DA MUDANÇA 

Não me culpeis a mim de amar-vos tanto
Mas a vós mesma, e à vossa formosura:
Que, se vos aborrece, me tortura
Ver-me cativo assim do vosso encanto.

Enfadai-vos. Parece-vos que, em quanto
Meu amor se lastima, vos censura:
Mas sendo vós comigo áspera e dura
Que eu por mim brade aos céus não causa espanto.

Se me quereis diverso do que agora
Eu sou, mudai; mudai vós mesma, pois
Ido o rigor que em vosso peito mora,

A mudança será para nós dois:
E então podereis ver, minha senhora,
Que eu sou quem sou por serdes vós quem sois.

Trovadores que deixaram Saudades
João Freire Filho
Rio de Janeiro/RJ (1941 – 2012)

Distante do olhar das ruas,
num sonho que me enternece,
em nosso céu brilham luas
que só nosso amor conhece!…

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

SONETO DA DEFENSIVA 

Enganei-me supondo que, de altiva,
Desdenhosa, tu vias sem receio
Desabrochar de um simples galanteio
A agreste flor desta paixão tão viva.

Era segredo teu? Adivinhei-o;
Hoje sei tudo: alerta, em defensiva,
O coração que eu tento e se me esquiva
Treme, treme de susto no teu seio.

Errou quem disse que as paixões são cegas;
Vêem... Deixam-se ver... Debalde insistes;
Que mais defendes, se tu'alma entregas?

Bem vejo (vejo-o nos teus olhos tristes)
Que tu, negando o amor que em vão me negas,
Mais a ti mesma do que a mim resistes. 

Uma Trova de Natal/RN
José Lucas de Barros

Queimada!... A terra ferida
clama por um povo forte
que faça brotar a vida
onde o fogo impôs a morte!

Uma Quadra Humorística de São Paulo/SP
Idel Becker
(1910 – 1994)

Tanto limão, tanta lima,
tanta silva, tanta amora,
tanta menina bonita...
Meu pai sem ter uma nora!

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

UMA IMPRESSÃO DE D. JUAN

Gastei no amor vinte anos — os melhores,
Da minha vida pródiga: esbanjei-os
Sem remorso nem pena, em galanteios,
Colhendo beijos, desfolhando flores.

Quentes olhares de olhos tentadores,
Suspiros de paixão, arfar de seios,
Conheci-os, buscaram-me, gozei-os...
Li, folha a folha, o livro dos amores.

Quanta lembrança de mulher amada!
Quanta ternura de alma carinhosa!
Sim, tanto amor que me passou na vida!

E nada sei do amor... Não, não sei nada,
E cada rosto de mulher formosa
Dá-me a impressão de folha inda não lida.

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Mário Peixoto

Pobreza pode ser fria
e a fome pode ser dura,
mas, às vezes, a harmonia
vale mais do que a fartura.

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

CORRIDA DE AMOR

Quando partiste, em pranto, descorada
A face, o lábio trêmulo... confesso:
Arrebatou-me um verdadeiro acesso
De raivosa paixão desatinada.

Ia-se nos teus olhos, minha amada,
A luz dos meus; e então, como um possesso,
Quis arrojar-me atrás do trem expresso
E seguir-te correndo pela estrada...

"Nem há dificuldade que não vença
Tão forte amor!" pensei. Ah! como pensa
Errado o vão querer das almas ternas!

Com denodo, atirei-me sobre a linha...
Mas, ao fim de uns três passos, vi que tinha
Para tão grande amor, bem curtas pernas...

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Luiz Carlos Abritta

Vendo a ponte de madeira,
em forma de tobogã,
eu vou descendo a ladeira,
mas só penso no amanhã !

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

VELHO TEMA I

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

Uma Quadra Popular, de Portugal
Deodato Pires

Quer tenha ou não tenha sorte
na vida que Deus lhe deu,
não pode fugir à morte
todo aquele que nasceu.

Uma Trova de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Descendo esta escadaria,
onde ela vai me levar?
Se eu soubesse eu desceria;
como não sei, vou ficar!

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

INTEIRAMENTE LOUCO

Senhora minha, pois que tão senhora
Sois, e tão pouco minha, eu bem entendo
Que sorrindo negais quanto, gemendo,
Amor com os olhos rasos d'água implora.

Meu coração, coitado, não ignora
Que num sonho bem vão todo o dispendo
E é sem destino que assim vai correndo
Cansadamente pela vida afora.

Dizeis do meu amor que é coisa absurda,
E ele, teimando, faz ouvido mouco;
Nem há razão que o desvaneça ou aturda.

Não o escutais? Nem ele a vós tampouco.
Que, se sois surda, inteiramente surda,
Amor é louco, inteiramente louco.

Recordando Velhas Canções
Insensatez
(samba bossa, 1961)

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o meu amor
Um amor tão delicado

Ah! Porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah! Meu coração quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai meu coração, usa a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade

Vai meu coração
Pede perdão, perdão apaixonado
Vai porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado

Uma Trova de Portugal
Emília Peñalba de Almeida Esteves

Uma rosa perfumada,
numa jarra recolhida,
é como vida passada,
que existiu, mas não é Vida.

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

VELHO TEMA (II)

Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.

Quero que meu amor se te apresente
— Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: — risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece: eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.

Uma Trova de São Paulo/SP
Silvana S. Caúmo

Pra chegar onde cheguei,
foi bem longa a caminhada,
muitos tombos eu levei,
mas, por Deus fui compensada.

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

VELHO TEMA (III)

Belas, airosas, pálidas, altivas,
Como tu mesma, outras mulheres vejo:
São rainhas, e segue-as num cortejo
Extensa multidão de almas cativas.

Têm a alvura do mármore; lascivas
Formas; os lábios feitos para o beijo;
E indiferente e desdenhoso as vejo
Belas, airosas, pálidas, altivas...

Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
Mesmo às que são mais puras e mais belas,
Um detalhe sutil, um quase nada:

Falta-lhes a paixão que em mim te exalta,
E entre os encantos de que brilham, falta
O vago encanto da mulher amada.

Hinos de Cidades Brasileiras
Manacapuru/AM

Salve, Manacapuru
Taba altiva do rio Solimões,
Salve, Manacapuru
Tu plasmaste nossos corações
Salve, Manacapuru
Terra fértil de um povo viril,
Os teus filhos se orgulham de ti,
E engrandecem a todo o Brasil

Eme a má, ene a na, tens maná
Ce a cá, manacá tens tu
Pê u pu, erre uru, formado está
O teu nome Manacapuru

Salve, Manacapuru
Tens nas águas piscosas, fartura,
Salve, Manacapuru
Teus rebanhos a carne assegura
Salve, Manacapuru
Tens, minério, castanha e madeira
A instrução de moral e civismo
De há muito é a tua Bandeira.

Uma Trova de São Paulo/SP
Débora Novaes de Castro

Despedida, triste fado,
os pulsares meus e teus;
um olhar apaixonado,
nada mais, somente adeus.

Um Soneto de Santos/SP
Vicente de Carvalho
(1866 – 1924)

VELHO TEMA (IV)

Eu não espero o bem que mais desejo:
Sou condenado, e disso convencido;
Vossas palavras, com que sou punido,
São penas e verdades de sobejo.

O que dizeis é mal muito sabido,
Pois nem se esconde nem procura ensejo,
E anda à vista naquilo que mais vejo:
Em vosso olhar, severo ou distraído.

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
Ao meu amor desamparado e triste
Toda a esperança de alcançar-vos nego.

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;
Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
Põe-se a sonhar o bem que não existe.

Uma Sextilha de São Simão/SP
Thalma Tavares

Que o meu canto converta todo pranto
na mais viva certeza de bonança
no semblante do irmão desesperado
e nos olhos ansiosos da criança.
De outro modo meu canto faz-se estéril,
sem os sons que dão vida e esperança.

Sobre a canção “Insensatez”
         “Insensatez” é uma composição chopiniana, aparentada com o “Prelúdio n°4, em mi menor, opus 28”, na melodia e na harmonia. A influência de Chopin, também presente na obra de Ernesto Nazareth, jamais foi negada por Jobim que ainda a admitia em seu “Retrato em Branco e Preto” e no samba “Apelo”, que chamava de “aquele samba do Baden”.
         Esta canção foi lançada por João Gilberto no seu terceiro elepê, que completa a vital trilogia estabelecedora dos padrões característicos da bossa nova. Aliás, das 62 composições lançadas por Tom Jobim nesse período de intensa produtividade (1957 a 1961), apenas três (“Desafinado”, “Corcovado” e “Insensatez”) tiveram sua primeira gravação por João Gilberto.
         “Insensatez” é basicamente formada por uma frase de oito compassos no modo menor, usada com extremo bom gosto em quatro sequências que baixam em três tons inteiros, com a quarta permanecendo na tonalidade da terceira. Esses 32 compassos são repetidos em função da letra, dirigida ao coração do poeta, a princípio recriminando-o por fazer chorar de dor o seu amor, um amor tão delicado”, depois exortando-o a pedir perdão, “porque quem não pede perdão não é nunca perdoado”.
         A qualidade da canção proporcionou-lhe uma extensa discografia, que vai de Elis, e Sylvia Telles a estrangeiras como Peggy Lee, Nancy Wilson, Morgana King (na versão em inglês intitulada “How Insensitive”), isso sem falar dos interpretes da obra de Jobim (Sinatra, Ella Fitzgerald) e até dos não atuais como Nelson Gonçalves, além de inúmeros músicos de jazz (http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/06/insensatez.html).  


A "certeza" é só vaidade
de uma dúvida enganada;
o saber não tem idade,
nem tem certeza de nada!...

As dúvidas e a maldade
se ocultam por trás da face;
-- ai, da pobre humanidade
se o nosso rosto falasse!...

A Verdade mais me ofusca
que propriamente me inspira;
é o farol da eterna busca
neste mundo de mentira.

Café com leite na cama,
um friozinho gostoso,
e o calor de quem se ama...
--Que inverno maravilhoso!

Castro Alves, tua mão,
mais que a Princesa Izabel,
aboliu a escravidão
com teus canhões - de papel!...

Cearense, no Japão,
dorme em plena segurança,
estende a rede no chão...
- Lá é o prédio que balança!

Com remendos de mentira,
bigodinho de carvão...
Menino rico é caipira
... só nas noites de São João!

Deixei cair meu salário;
chega um fiscal e me autua;
mas, não por ser perdulário,
- por jogar LIXO na rua!...

Demônio, mas, também anjo,
- que os próprios sonhos conduz,
é o homem feliz arranjo,
- misto de barro e de luz.

É Deus que forja o destino,
distribuindo talento.
O poeta é só um menino
soltando letras ao vento...

É tanto o amor que me invade
quando em seus braços estou,
que cada instante é saudade
do instante que já passou!

“Homem que é homem, não chora!”
– obedeci, sem defesas.
Pergunto: o que faço agora
com tantas lágrimas presas?!

Igual minha mãe fazia,
eu nunca mais comerei!
- Um pão – de amor e alegria,
para o banquete – de um "rei"...

Lutando pelo que amo
por tantas águas passei,
que, prudente, não proclamo
que "dessa não beberei"...

"Morreu como um passarinho"...
E a mulher nem ficou triste,
mas, segredou ao vizinho:
"envenenei seu alpiste"…

Na epopeia de Cabral
eu bendigo a calmaria,
que, do imenso Litoral,
fê-lo aportar na Bahia.

Não me fascina a verdade,
ao grau de tirar-me o sono;
acervo da humanidade,
a verdade – não tem dono.

No Ano Novo passado
tanto juraste, meu bem,
que espero tudo, ao teu lado,
– no Ano Novo que vem!…

"O amor é uma loteria"...
mas, conservo esse cacoete:
por crendice - ou teimosia,
eu sempre compro o bilhete...

O barrigudo se intriga
e explica o que aconteceu:
- Não vê que não é barriga?
Foi o peito que desceu!

"O cigarro, meu amigo,
vai te matar, pense nisso".
"Não, doutor, não tem perigo,
eu fumo ele antes disso!"

O gordo abade rezava:
"E dai-nos o pão. Amém!"
"Mas, Senhor, - acrescentava -
passa manteiga também!"

O jogo do amor se inspira
na mais doce falsidade:
- no dizer - quando é mentira;
- no calar - quando é verdade...

- O que é "UAI"? – Num confronto,
pergunta o menino ao pai.
E o pai responde de pronto:
- "UAI" é uai, uai!

Pouco importa o tempo corra,
ganhe a distância e se vá!...
Que importa o poeta morra,
- no seu verso – viverá!

Quando o poeta escrevia,
a rima era tão perfeita,
que a mão direta sentia
ciúmes da mão direita!

Quando partir, Deus permita
que eu siga boiando à toa,
dentro da paz infinita,
no berço de uma canoa!

Quantas vidas não daria,
com denodo e com empenho,
pela simples garantia
de preservar a que eu tenho!…

Que escândalo, criatura,
olha o biquini da Neide!
- É biquini? - Que loucura!
Pensei que fosse um bandaid!

Saudade é uma flor mimosa,
que lembra dias felizes.
Mas, ao contrário da rosa,
tem espinho – nas raízes...

Sentir calor é normal
neste clima brasileiro;
mas, foi num trem da Central
que eu vi que o calor - tem cheiro...

Se o aço frio da espada
é o penhor da paz na Terra,
essa "paz" não vale nada,
é só "ausência da guerra"!

Teria o bem eficácia,
no mundo de tantas falhas,
se os bons tivessem a audácia
e a coragem dos canalhas!...

Tira a roupa e, quase nua,
diz ao marido, emburrada:
- Pareço ainda perua?
- Parece sim - depenada!

Vendo a peruca de perto,
dizia o índio ao caubói:
- careca ser branco esperto,
fez escalpo que não dói.

Verão assim – credo em cruz!
foi tanto calor na cuca,
que uma porca "deu à luz",
três leitões – à pururuca!

Vovó, mamãe é perua?
Pergunta, triste, o netinho.
- Que pergunta boba a sua,
não é não, meu peruzinho!...

Chuvisco Biográfico do Poeta
Vicente Augusto de Carvalho nasceu em Santos/SP, a 5 de abril de 1866. Filho do major Higino José Botelho de Carvalho e de Augusta Carolina Bueno, descendente de Amador Bueno, o Aclamado.
         Formou-se em 8 de novembro de 1886, com 20 anos de idade, da Faculdade de Direito de São Paulo, no curso de Ciências Jurídicas e Sociais (sendo que para matricular-se teve de obter licença especial da Assembleia Geral do Império, por não ter a idade mínima para cursar a cátedra de direito).
         Republicano combativo, cursava ainda o 4o ano quando foi eleito membro do Diretório Republicano de Santos.
         Em 1885 publicou seu primeiro livro Ardentias.
         Em 1887, era delegado a Congresso Republicano, reunido em São Paulo.      
         Quando deputado, foi membro da comissão de redação da Constituição do Estado de São Paulo e secretário de Interior, tendo abandonado a política logo após.
         Em 1888, publicou Relicário (1888).
         Casou-se em 1888 com Ermelinda Ferreira de Mesquita (Biloca), em Santos, com quem teve quinze filhos.
         Em 1889, fundou o Diário da Manhã, em Santos e, em 1905, O Jornal.
         Em 1892, na organização do primeiro governo constitucional do Estado, foi escolhido para a Secretaria do Interior. Por ocasião do golpe de estado de Deodoro, abandonou o cargo que vinha exercendo.
         Mudou-se, então, para Franca, município do interior paulista, e tornou-se fazendeiro.
         Em 1901, regressou a Santos, dedicando-se à advocacia.
                   Transferiu-se em 1907 para São Paulo, tendo sido nomeado juiz de direito no ano seguinte e, a partir de 1914, ministro do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.
         Como jornalista, colaborou em vários jornais, como O Estado de São Paulo e A Tribuna.
         Serviu como redator das revistas Ideia e República. Tendo publicado verso, estreou na prosa numa polêmica com o poeta Dias da Rocha.
         Quando voltou a Santos, fervia o movimento abolicionista.
         Em 1902 publicou o Rosa, rosa de amor.
         A obra que marcou sua carreira poética, Poemas e Canções, foi primeiro publicada em 1908 com prefácio de seu amigo Euclides da Cunha. Teve dezessete edições.
         Foi o segundo ocupante da cadeira 29, que tem por patrono Martins Pena. Eleito em 1 de maio de 1909, na sucessão de Artur de Azevedo.
         No período de 1914 a 1920 foi Ministro do Tribunal de Justiça do Estado, em Santos.
         Em 1924 publicou Luizinha, comédia em dois atos.
         Poeta lírico, ligou-se desde o início ao grupo de jovens poetas de tendência parnasiana. Foi grande artista do verso, da fase criadora do Parnasianismo. Da sua produção poética ele próprio destacou poemas que são de extrema beleza, como: "Palavras ao mar", "Cantigas praianas", "A ternura do mar", "Fugindo ao cativeiro", "Rosa, rosa de amor", "Velho tema", "O pequenino morto".
         Faleceu em Santos, a 22 de abril de 1924

Curiosidade
         Os jardins da orla de Santos se devem em parte a Vicente de Carvalho. Em 1921 escreveu, junto a Américo Martins dos Santos e Benedito Montenegro, uma Carta Aberta ao Presidente da República contra apropriações ilegais das áreas em frente à praia.
         Muitos de seus poemas foram traduzidos para o italiano por Giusepina Stefani.

Obras
    Ardentias 1885 ; Relicário 1888 ; Rosa, rosa de amor 1902 ; Poemas e canções 1908; Versos da mocidade 1909; Verso e prosa, incluindo o conto "Selvagem" 1909; Páginas soltas 1911; A voz dos sinos 1916; Luisinha, contos 1924

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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