Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 333)


Obs: O autor da quadra acima nasceu em 1896 e faleceu em 1910 

Uma Trova de Bandeirantes/PR
Maria Lúcia Daloce Castanho

À velha, o doutor confessa:
- Um susto ser-lhe-á fatal!
E o genro mais que depressa,
põe fantasmas... no quintal !

Uma Trova de São José dos Campos/SP
Mifori

Que se evite poluir
a bela seiva do amor;
deixando a vida fluir
num mar que muda de cor.

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Quero 

Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ
Sérgio Bernardo

Vovó se afoga .. e, no cais,
com vovô tentando a cura,
o boca a boca foi mais
dentadura a dentadura.

Uma Trova de Campos/RJ
Diamantino Ferreira

Depois desse desperdício,
o que esse povo há de ver:
- vai chegar o sacrifício,
nem água para beber...

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

O Anjo

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Pousava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
e o meu ser liberto enfim florisse,
e um perfeito silêncio me embalasse.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Fui no livro do destino
minha sorte procurar,
corri folhas encontrei:
eu nasci para te amar.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Justina Cabral

Cuando te acercas a mí
soy poesía de amor.
Si quieres dime que si…
¡Te hago poemas en flor!

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Cantar 

Tão longo caminho
E todas as portas
Tão longo o caminho
Sua sombra errante
Sob o sol a pino
A água de exílio
Por estradas brancas
Quanto passo andado
País ocupado
Num quarto fechado.

As portas se fecham
Fecham-se janelas
Os gestos se escondem
Ninguém lhe responde
Solidão vindima
E não querem vê-lo
Encontra silêncio
Que em sombra tornados
Naquela cidade.

Quanto passo andado
Encontrou fechadas
Como vai sozinho
Desenha as paredes
Sob as luas verdes
É brilhante e fria
Ou por negras ruas
Por amor da terra
Onde o medo impera.

Os olhos se fecham
As bocas se calam
Quando ele pergunta
Só insultos colhe
O rosto lhe viram
Seu longo combate
Silêncio daqueles
Em monstros se tornam
Tão poucos os homens.

Trovadores que deixaram Saudades
Lilinha Fernandes
Maria das Dores Fernandes Ribeiro da Silva
Rio de Janeiro (1891 – 1981)

Embora em própria defesa,
é réu quem vidas destrói.
Mas na guerra, que tristeza!
quem mata se chama herói.

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Cantata de paz

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietnam
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.

Uma Trova de Belém/PA
Antônio Juraci Siqueira

Viva agora sem revolta,
o amor e o bem não dispense
que o ontem nunca mais volta
e o amanhã a Deus pertence.

Um Haicai de Pedro Leopoldo/MG
Wagner Marques Lopes

O mês é de agosto.
Ao sol, pipa sem cerol:
brinquedo bem posto.

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Foi no mar que aprendi

Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim o sucedido
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos de espuma.

Por isso nos museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia.

Uma Trova de Orós/CE
Francisco Marcone de Lima

Há uma revolta contida
na mágoa que me consome.
Para alguns muita comida,
quando tantos passam fome!

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Jardim perdido

Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.

A verdura das arvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.

Uma Trova de Senhor do Bonfim/BA
Austregésilo Miranda Alves

Veja o mundo unindo os laços
num grande abraço de amor,
que, apesar da cor dos braços,
os abraços não têm cor!...

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Bebido o luar

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Um Haicai de São Paulo
Guilherme de Almeida
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Interior

Havia uma rosa
no vaso. Veio do ocaso
a hora silenciosa.

Uma Trova de São Paulo/SP
Cipriano Ferreira Gomes

No descompasso da sorte
de uma tela poluída,
sobre a paisagem da morte
a Esperança pinta a Vida.

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Musa 

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos
Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente.

Recordando Velhas Canções
O barquinho
(samba bossa, 1961)

Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli

Dia de luz festa de sol
E o barquinho a navegar
No macio azul do mar, 
tudo é verão o amor se faz
Num barquinho pelo mar
Que desliza sem parar
  Sem intenção nossa canção vai saindo
Deste mar e o sol
Beija o barco e luz, dias tão azuis

Volta do mar, desmaia o sol
E o barquinho a deslizar
e a vontade de cantar,
céu tão azul, ilhas do sul
E o barquinho coração,
deslizando na canção,
tudo isso faz, tudo isso traz
Uma calma de verão e então

O barquinho vai, a tardinha cai
O barquinho vai...
A tardinha cai o barquinho vai

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Delcy Canalles

Meio Ambiente agredido...
Fauna e Flora dizimadas...
E o mundo chora sentido
a tristeza das queimadas!

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

No deserto

Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea.

Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilônia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive.

Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo.

Por isso te debelo, te combato, te domino
E o freio te corta, a espora te fere, a rédea te retém.

Para poder soltar-se livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo. 

Um Haicai do Espírito Santo
Humberto Del Maestro

Três dias de chuva:
No terreno alagadiço
Concerto de rãs.

Uma Trova de São Paulo/SP
Humberto – Poeta

Que bom acordar cedinho,
 antes do nascer do sol,
 e ver-me em ti enroladinho,
 qual se fosse um caracol!

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Porque 

Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada podridão
Porque os outros se calam mas tu não

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.

Hinos de Cidades Brasileiras
Crato/CE

Flor da terra do sol
Ó berço esplêndido
Dos guerreiros da "Tribo Cariri"
Sou teu filho e ao teu calor
Cresci, amei, sonhei, vivi

Ao sopé da serra, entre canaviais
Quem já te viu, ó não te esquece mais !

Para te exaltar, ó flor do Brasil
Hei de te cantar, meu Crato gentil
Ó coração do Ceará
Comigo a nação te cantará !

No teu céu linda brilha estrela fúlgida
Que há cem anos norteia o teu porvir
Crato amado, idolatrado
Teu destino hás de seguir

Grande e forte como nosso verde mar
Bendita sejas, ó terra de Alencar !

Uma Trova de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica

Tuas cartas eu rasguei,
recortei em mil pedaços,
cada bilhete eu colei
desenhando os teus abraços.

Um Poema de Portugal
Sophia de Mello Breyner Andressen
Lisboa (1919 – 2004) Porto

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Glosando Carolina Ramos (Santos/SP)

Mote: 
Sofredor desde menino
e tendo o sonho por meta
quis saber qual seu destino
diz-lhe o cigano: - Poeta!

Glosa: 
Sofredor desde menino
neste mundo deletério,
sem instrução, sem ensino,
seu destino era um mistério.

Pelo mundo peregrino
e tendo o sonho por meta
o menino, em desatino,
pensou até ser profeta.

Nesta procura o menino,
quase louco, pobrezinho,
quis saber qual seu destino
consultando um adivinho!

Vejo uma luz reluzir
no teu futuro de esteta,
e posso te garantir,
diz-lhe o cigano: - Poeta!


Sobre a Canção “O Barquinho”
         Namorada de Ronaldo Bôscoli, Nara Leão sempre o acompanhava nas excursões ao mar de Cabo Frio, que ele fazia com o par Menescal, um aficionado da caça submarina. Foi naquele ambiente praieiro que nasceu “O Barquinho”, um samba paisagístico que levou para o mar a bossa nova do amor, do sorriso e da flor.
         Na vida real “O Barquinho” era o Thiago III, uma traineira com motor a gasolina e capacidade para dez passageiros, que Menescal alugava para transportar sua turma aos locais de pescaria. Dirigia o Thiago III o barqueiro Ceci, um tipo meio bronco que jamais acreditou serem seus passageiros “artistas de rádio”.
         Rapidamente, “O Barquinho” deslizou para os primeiros lugares das paradas musicais, ganhando várias gravações como a de Maysa, mais apreciada até do que a de seu lançador, João Gilberto. Aliás, nessa gravação do João — informa Ruy Castro no livro Chega de saudade — o tecladista Walter Wanderley quase foi à loucura, por não conseguir reproduzir no órgão um ronco de navio, no exato timbre que o cantor insistia em lhe transmitir... com a voz. Finalmente, no arremate do disco, o maestro Tom Jobim conseguiu colocar nos trombones o tal ronco imaginado e desejado pelo João. (http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/05/o-barquinho.html)

A trova dá mais um passo
e do tango é mensageira...
Onde há verso abrindo espaço
não existe mais fronteira.

A vida passa depressa
pois quer a morte alcançar,
mas aquele amor, sem pressa,
não deixa a vida passar.

Carecas fazem apelo
no restaurante chinês:
“Outros fios de cabelo,
pois um só não dá pra três”.

De saudades revirado,
ante as gavetas que tinhas,
eu sinto não ter guardado
tuas roupas junto às minhas.

De volta ao lar e à tristeza,
carrega o pobre peão,
não mais o pão para a mesa,
mas carta de demissão .

Do celular se lembrou
o general, com seus medos...
Se a guerra já começou,
vou enviar meus torpedos!

Erros... brigas...Mala feita...
Devolvo as chaves e... adeus!
Dobro a esquina e, já refeita,
volto aos braços que são meus!

Esqueço as pedras, cascalhos...
Penso no encontro e me enfeito.
O riacho rompe atalhos,
para descansar no leito.

Foi depois de se banhar
e cuidar do desalinho
que o mar resolveu usar
o seu terno azul-marinho.

Mesmo que dentre as bandeiras
a do Brasil seja a minha,
eu não vislumbro as fronteiras
deste povo que caminha.

Na insistência do carinho
de um amor que é quase incerto,
vou traçando o meu caminho
nas areias de um deserto.

Na moldura da janela,
o busto que me fascina
toda manhã se revela
entre as dobras da cortina!

Nossa Euterpe, numa praça,
comemora  o aniversário
com aplauso a banda passa
pelo sesquicentenário.

Nosso amor é tão intenso
e a confiança entre nós
fala tanto que o bom senso   
deixa o ciúme sem voz.

Olho a montanha e o gigante
medo se mostra em bravura,
mas a nuvem retirante
leva o meu medo de altura.

O vulto mais preservado
e embriagado de lógica
é o que ficou hospedado
numa Reserva Alcoológica!

Quando deixas os teus laços
e velas na encruzilhada,
retornas para os meus braços
muito mais enfeitiçada.

Quando no céu surge a imagem
não basta haver escritor,
para dar voz à mensagem
Deus criou o trovador.

Represados, nossos rios,
vão buscando a liberdade
nos postes de luz e fios
que cruzam toda cidade.

Se o anoitecer no deserto
nos impedir de rompê-lo,
alguma estrela, por certo,
ouvirá o nosso apelo.

Sigo a rua acorrentado,
carente, sozinho, a esmo...
Por capricho, condenado
à solidão... de mim mesmo!...

Trabalha em banco privado
da praça e, quando há sol quente,
ele suspira cansado
se fatura outra cliente.

Chuvisco Biográfico da Poetisa
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu a 6 de Novembro de 1919 no Porto. filha de Maria Amélia de Mello Breyner e de João Henrique Andresen, origem dinamarquesa pelo lado paterno. A mãe, Maria Amélia de Mello Breyner, era filha do Tomás de Mello Breyner, conde de Mafra, médico e amigo do rei D. Carlos. Maria Amélia é também neta do conde Henrique de Burnay, um dos homens mais ricos do seu tempo.
         Criada na velha aristocracia portuguesa, educada nos valores tradicionais da moral cristã, foi dirigente de movimentos universitários católicos quando frequentava Filologia Clássica na Universidade de Lisboa (1936-1939) que nunca chegou a concluir. Colaborou na revista Cadernos de Poesia, onde fez amizades com autores influentes e reconhecidos: Ruy Cinatti e Jorge de Sena. Veio a tornar-se uma das figuras mais representativas de uma atitude política liberal, apoiando o movimento monárquico e denunciando o regime salazarista e os seus seguidores. Ficou célebre como canção de intervenção dos Católicos Progressistas a sua "Cantata da Paz", também conhecida e chamada pelo seu refrão: "Vemos, Ouvimos e Lemos. Não podemos ignorar!"
         Casou-se, em 1946, com o jornalista, político e advogado Francisco Sousa Tavares e foi mãe de cinco filhos. Os filhos motivaram-na a escrever contos infantis.
         Em 1964 recebeu o Grande Prêmio de Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores pelo seu livro Livro sexto. Já depois da Revolução de 25 de Abril, foi eleita para a Assembleia Constituinte, em 1975, pelo círculo do Porto numa lista do Partido Socialista, enquanto o seu marido navegava rumo ao Partido Social Democrata.
         Distinguiu-se também como contista (Contos Exemplares) e autora de livros infantis (A Menina do Mar, O Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, etc.).
         Foi também tradutora de Dante Alighieri e de Shakespeare e membro da Academia das Ciências de Lisboa.
         Além do Prêmio Camões, foi agraciada com um Doutoramento Honoris Causa em 1998 pela Universidade de Aveiro e também foi distinguida com o Prémio Rainha Sofia, em 2003.
         Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu, aos 84 anos, no dia 2 de Julho de 2004, em Lisboa, no Hospital da Cruz Vermelha.
         Em 20 de Fevereiro de 2014, a Assembleia da República decidiu homenagear por unanimidade a poetisa com honras de Panteão.
         Desde 2005, no Oceanário de Lisboa, os seus poemas com ligação forte ao Mar foram colocados para leitura permanente nas zonas de descanso da exposição, permitindo aos visitantes absorverem a força da sua escrita enquanto estão imersos numa visão de fundo do mar.

Características da obra

         Da sua infância e juventude, a autora recorda sobretudo a importância das casas, lembrança que terá grande impacto na sua obra, ao descrever as casas e os objetos dentro delas, dos quais se lembra. Explica isso do seguinte modo: "Tenho muita memória visual e lembro-me sempre das casas, quarto por quarto, móvel por móvel e lembro-me de muitas casas que desapareceram da minha vida (…). Eu tento «representar», quer dizer, "voltar a tornar presentes» as coisas de que gostei e é isso o que se passa com as casas: quero que a memória delas não vá à deriva, não se perca".
         Está presente em Sophia também uma ideia da poesia como valor transformador fundamental. A sua produção corresponde a ciclos específicos, com a culminação da atividade da escrita durante a noite: "não consigo escrever de manhã, (…) preciso daquela concentração especial que se vai criando pela noite fora.". A vivência noturna da autora é sublinhada em vários poemas ("Noite", "O luar", "O jardim e a noite", "Noite de Abril", "Ó noite").                       
Aceitava a noção de poeta inspirado, afirmava que a sua poesia lhe acontecia, como a Fernando Pessoa: “Fernando Pessoa dizia: «Aconteceu-me um poema». A minha maneira de escrever fundamental é muito próxima deste «acontecer». (…) Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava mesmo que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como que um elemento do natural, que estavam suspensos imanentes (…). É difícil descrever o fazer de um poema. Há sempre uma parte que não consigo distinguir, uma parte que se passa na zona onde eu não vejo."
         "Havia em minha casa uma criada, chamada Laura, de quem eu gostava muito. Era uma mulher jovem, loira, muito bonita. A Laura ensinou-me a "Nau Catrineta" porque havia um primo meu mais velho a quem tinham feito aprender um poema para dizer no Natal e ela não quis que eu ficasse atrás… Fui um fenómeno, a recitar a "Nau Catrineta", toda. Mas há mais encontros, encontros fundamentais com a poesia: a recitação da "Magnífica", nas noites de trovoada, por exemplo. Quando éramos um pouco mais velhos, tínhamos uma governanta que nessas noites queimava alecrim, acendia uma vela e rezava. Era um ambiente misto de religião e magia… E de certa forma nessas noites de temporal nasceram muitas coisas. Inclusivamente, uma certa preocupação social e humana ou a minha primeira consciência da dureza da vida dos outros, porque essa governanta dizia: «Agora andam os pescadores no mar, vamos rezar para que eles cheguem a terra» (…)." 
         O contato com a Natureza marcou profundamente a sua obra. Era para a autora um exemplo de liberdade, beleza, perfeição e de mistério e é largamente citada da sua obra, quer citada pelas alusões à terra (árvores, pássaros, o luar), quer pelas referências ao mar (praia, conchas, ondas).
         O Mar é um dos conceitos-chave na criação literária de 'Sophia de Mello Breyner Andresen. O efeito literário da inspiração no Mar pode se observar em vários poemas, como, por exemplo, "Homens à beira-mar" ou "Mulheres à beira-mar". A autora comenta isso do seguinte modo:
         "Esses poemas têm a ver com as manhãs da Granja, com as manhãs da praia. E também com um quadro de Picasso. Há um quadro de Picasso chamado Mulheres à beira-mar. Ninguém dirá que a pintura do Picasso e a poesia de Lorca tenham tido uma enorme influência na minha poesia, sobretudo na época do Coral… E uma das influências do Picasso em mim foi levar-me a deslocar as imagens."
         Outros exemplos em que claramente se percebe o motivo do mar são: "Mar" em Poesia, 1944; "Inicial" em Dual, 1972; "Praia" em No Tempo dividido; "Praia" em Coral, 1950; "Açores" em O Nome das Coisas, 1977. Neles exprime-se a obsessão do mar, da sua beleza, da sua serenidade e dos seus mitos. O Mar surge aqui como símbolo da dinâmica da vida. Tudo vem dele e tudo a ele regressa. É o espaço da vida, das transformações e da morte.
         A cidade constitui outro motivo frequentemente repetido na obra de SMB ("Cidade" em Livro Sexto, 1962; "Há Cidades Acesas", Poesia, 1944; "Cidade" em Livro Sexto, 1962; "Fúrias", Ilhas, 1989). A cidade é aqui um espaço negativo. Representa o mundo frio, artificial, hostil e desumanizado, o contrário da natureza e da segurança.
         Outro tópico acentuado com frequência na obra de Sophia é o tempo: o dividido e o absoluto que se opõem. O primeiro é o tempo da solidão, medo e mentira, enquanto o tempo absoluto é eterno, une a vida e é o tempo dos valores morais ("Este é o Tempo", Mar Novo, 1958; "O Tempo Dividido", No Tempo Dividido, 1954).
         Sophia era admiradora da literatura clássica. Nos seus poemas aparecem frequentemente palavras de grafia antiga (Eurydice, Delphos, Amphora). O culto pela arte e tradição próprias da civilização grega são lhe próximos e transparecem pela sua obra ("O Rei de Ítaca", "Os Gregos", Dual, 1972; "Exílio", O Nome das Coisas, 1977; "Soneto de Eurydice", No Tempo Dividido, "Crepúsculo dos Deuses", Geografia; "Ressurgiremos", Livro Sexto, 1962).
         Além dos aspectos temáticos referidos acima, vários autores sublinham a enorme influência de Fernando Pessoa na obra de 'Sophia. O que os dois autores têm em comum é: a influência de Platão, o apelo ao infinito, a memória de infância, o sebastianismo e o messianismo, o tom formal que evoca Álvaro de Campos. A figura de Pessoa encontra-se evocada múltiplas vezes nos poemas de Sophia ("Homenagem a Ricardo Reis", Dual, 1972; "Cíclades (evocando Fernando Pessoa)", O Nome das Coisas, 1977).
         Quanto ao estilo de linguagem, podemos constatar que tem um estilo característico, cujas marcas mais evidentes são: o valor hierático da palavra, a expressão rigorosa, o apelo à visão clarificadora, riqueza de símbolos e alegorias, sinestesias e ritmo evocador de uma dimensão ritual. Nota-se uma "transparência da palavra na sua relação da linguagem com as coisas, a luminosidade de um mundo onde intelecto e ritmo se harmonizam na forma melódica, perfeita".

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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