Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 335)



Foto: José Feldman
Uma Trova de Palmeira/PR
Heitor Stockler de França

Pensar em ti como eu penso
e muito tenho pensado,
diz, a rir, o meu bom senso,
que é o meu divino pecado.

Uma Teia de Trovas sobre Abandono, de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Júnior

Tentei vários caminhos para ser feliz. O Abandono seguiu-me a pé. Tomei um ônibus, um novo rumo, mas, cruel, o Abandono foi ágil: estava em cada um que me esperava.
Ao clarão da tarde quente,
te abandono e tenho medo:
quando chove só na gente,
nasce a lágrima em segredo.

O segredo do abandono
se revela ao sol mais pleno:
és verão, e sou outono,
neste inverno nada ameno.

Ao tomar de um violão,
tomo o bonde da esperança;
no abandono da estação,
estaciono em mim criança.

Uma casa de escritores
junto ao "rio guaçuano"
foi a causa dos amores
que cobri de desengano.
No divã da inconsciência,
entre Freud e o próprio eu,
peço a Deus a paciência
que o Abandono já comeu.

Meu amigo mais querido,
Baden Powell de ilusão,
fez-se em algo conhecido:
abandono e eterno não.

No sertão de minha vida,
vivo feito o Riobaldo:
só "veredas" dão guarida
para o rio do Olivaldo.

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

MOMENTO 

Minha amada tão longe! Com franqueza:
eu penso sempre em me mudar daqui.
Pôr na sacola o pão que está na mesa,
sair vagabundando por aí.

A luz do quarto ficará acesa.
(Foi neste quarto que eu me conheci...)
Deixarei um bilhete sobre a mesa,
dizendo a minha mãe por que parti.

Ah! ir cantando pelo mundo afora,
como um boêmio amigo das cantigas,
alma febril que a música alivia!

Se perguntarem, digam: "Ainda agora
saiu buscando terras mais amigas,
mas é possível que ele volte um dia."

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Humberto – Poeta

Higiene bucal, bem vês,
não é pra tua mente oca,
pois desmaiam cinco ou seis
cada vez que abres a boca!

Uma Trova de Bragança Paulista/SP
Lóla Prata

Entre os dois, o amor é forte,
com risos que exigem palmas;
não é acaso nem sorte,
é uma identidade de almas!!!

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

ONDE ESTÁS...

Onde estás já não sei. Senti bem perto
teu corpo desejado e sempre esquivo.
O amor é um sonho tanto mais incerto
quanto se faça latejante e vivo.

Procuro em mim a estrela e nada vejo.
Quando foi que a perdi? Não me lamento.
Mas o desejo, a febre do desejo,
uiva no vento e se desfaz no vento...

Tudo é saudade em mim. Se estendo os braços,
não colho o teu silêncio. E estás distante...
Mas como em mim não sonhas, como insistes

em superar insônias e cansaços
e colocar no coração amante
coisas da infância, muito embora tristes!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Quem inventou a partida        
não sabia o que era amar;     
quem parte, parte sem vida, 
quem fica, fica a chorar.

Uma Trova Hispânica do Chile
Rosana Jacqueline Vera Vidal

Lucero  del alto cielo
imprégname tu gran paz,
mis alas emprendan vuelo
vuelo de  estrella fugaz.

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

SONETO DA MORTE

Entre pilares podres e pilastras
fendidas, te revi subitamente;
eras a mesma sombra em que te alastras,
feita carícias de uma face ausente.

Eras, e me afligias. Tormentosa,
vi-te crescer nos muros desabados.
Cruel, cruel; contudo, mais saudosa,
mais sensível que os céus e os descampados.

Bolor, pátina espessa, calmaria,
vi-te a sofrer no fundo da cidade
como um grande soluço percutindo

sobre os olhos, as mãos e a boca fria.
E de repente um grito de saudade.
Depois a chuva, sem cessar, caindo.

Trovadores que deixaram Saudades
Magdalena Léa Barbosa Correia
Rio de Janeiro/RJ (1913 – 2001)

Ele partiu... Hoje, quando
as portas da sala eu abro,
vejo mil velas chorando
nos braços do candelabro.

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

SONETO DO SILÊNCIO

Fantástico silêncio! Nele existe
um clarão momentâneo: e tudo dorme.
Ai! que a noite irreal, cega e disforme,
ainda o faz mais pungente e amargo e triste!

Fantástico silêncio moribundo
aos meus olhos aceso como velas
que iluminassem becos e vielas
pelas cidades pálidas do mundo...

Lá o vejo pender, fruto caído,
lá o vejo soprar contra muralhas
e recobrir — silêncio envelhecido —

o que a noite ocultou, e está perdido...
Lá o vejo oscilar nas cordoalhas
de algum veleiro desaparecido.

Uma Trova de Caicó/RN
Eva Yanni

Num clima de liberdade,
o casal celebra a vida,
brindando a terceira idade
sem pensar na despedida!

Uma Quadra Humorística de São Paulo/SP
Idel Becker
(1910 – 1994)

Todo sujeito sensato
sabe a verdade de cor:
A mulher bela, de fato,
sem fato fica melhor.

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

OS CAVALOS DE FOGO

A luz dissolve as pedras. E os cavalos
de fogo se projetam contra o vento.
Lá se vão eles, potros de ar sangrento,
por entre os sóis que intentam sufocá-los.

Lá se vão eles, potros de ar cinzento,
como se a própria luz incendiária
lhes desse uma aparência imaginária
de cor, de som, de céu em movimento.

E então o céu me envolve. Eis que me arrasta
o seu raro esplendor, o trepidante
fremir de intenso azul. No alto me espera

uma forma incorpórea, a visão casta
do que fascina e queda agonizante...
— Campo do amor chamando a primavera. 

Uma Trova de Jacarepaguá/RJ
Antonio Cabral Filho

Eu e você, nossos sonhos,
nos divertindo na praia,
felizes e tão risonhos,
correndo, livres, sem raia.

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

ELEGIA PARA MÁRIO DE ANDRADE

Era doce viver, se a madrugada
paulistana molhava as rosas, os milhões
de rosas paulistanas... A arraiada
afugentando pasmos... Mas, pinhões!

Que não seria desta vida airada,
destes sítios de dor, destes sertões!
Havia o mundo, a face ensangüentada
do mundo... uivando, uivando nos salões.

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mário dizia, o coração batendo
de amor, de um forte amor insaciado.

Mário de humanidade se alimenta.
Mário é milhões de corações sofrendo.
E um dia o corpo... um sonho inanimado.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Dilva Moraes

Olhares insinuantes
que o cupido  registrou,
flecharam  os dois amantes
que a vida não separou!

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

RAINER MARIA RILKE 

Por detrás das palavras permanece
o indizível... No verbo silenciado
o canto, e é no canto iluminado
arde o maravilhoso, resplandece

que o espírito entrevê (quase) o inefável...
Ah no canto existir! Canto-experiência,
não sentimento; o canto, eis a existência!
E eis que o canto se eleva e no insondável

(pura contradição) resplende a rosa...
E quando a noite invade uma cidade,
a solidão do homem, amarga e forte,

com os rios passa... A criatura, ansiosa,
um bem suplica a oculta divindade:
— Morrer, Senhor, de nossa própria morte!

Uma Haicai de São Paulo/SP
Alonso Alvarez

amor de verão
pipa rompeu a linha
fugiu com o vento

Uma Quadra Popular, de Portugal
Deodato Pires

Quer tenha ou não tenha sorte
na vida que Deus lhe deu,
não pode fugir à morte
todo aquele que nasceu.

Uma Trova de Americana/SP
Geraldo Trombin

Você e eu naquela dança,
sonho, verdade? Dilema!
Não, não é o que a vista alcança.
Pena, é coisa de cinema!

Um Poema de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

CEMITÉRIO DE PESCADORES (I)

Este é um cemitério de pescadores.
Onde ficaram as grandes redes? E as varas de pesca? E as pobres jangadas?
De malha deveriam ser as suas flores,
os singelos ornatos... E as negras, desoladas

cruzes, da madeira dos barcos... Os rústicos pastores
do mar, os rudes irmãos das madrugadas,
deitaram-se no chão, esqueceram os amores
e os pânicos, as alegrias insuspeitadas

que o mar oculta... Este vento que geme, este vento
não uivará para embalá-los? De mãos atadas, de ouvidos
tapados, que lembrarão? Cercam-nos as eternas paredes

do silêncio, mas eles deverão estar, neste momento,
em outro mar, procurando os cardumes perdidos,
e armando, à luz de outro sol, as suas velhas redes…

Recordando Velhas Canções
Amor em paz
(samba bossa, 1961)

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Eu amei
E amei ai de mim, muito mais
Do que devia amar

E chorei
Ao sentir que eu iria sofrer
E me desesperar

Foi então
Que da minha infinita tristeza
Aconteceu você
encontrei
Em você a razão de viver
E de amar em paz
   E não sofrer mais
Nunca mais

Porque o amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz
O amor é a coisa mais triste
Quando se desfaz.

Uma Trova de São José dos Campos/SP
Nadir Giovanelli

A dança mostra o talento,
dos parceiros a bailar;
corpo e pés em movimento,
dois corações a sonhar.

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

SONETO DOS QUARENT'ANOS

Não me ficou da vida mágoa alguma
de que possa lembrar aos quarent'anos
senão esses cansados desenganos
que o mar que trouxe leva como espuma.

Foram-se os anos, mas que são os anos?
Chama que em sombra esfaz-se, apenas bruma.
As horas que eu vivi, de uma em uma,
deixaram sonhos e deixaram danos.

Muita morte passou n'alma ferida:
meu pai e meus irmãos, mortos amados.
Mas pela minha vida passou vida,

passou amor também, passou carinho.
E pelos dias claros ou magoados
não fui feliz e nem sofri sozinho.

Um Haicai de Lençóis/BA
Afrânio Peixoto
Júlio Afrânio Peixoto
(1876 - 1947) Rio de Janeiro RJ

COMPARAÇÃO

Um aeroplano
Em busca de combustível...
Oh! é um mosquito.

Uma Trova de Campos dos Goytacazes/RJ
Neiva de Souza Fernandes

A dança faz bem à gente
e nos traz grande emoção.
- Quem dança exercita a mente
e alimenta o coração!

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

QUANDO EU DISSER ADEUS...

Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao menos na fadiga

da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um "até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.

Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a tua voz me possa convencer

de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irás, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.

Hinos de Cidades Brasileiras
Santa Inês/MA

Outrora no vale do Pindaré
Antes das vilas e dos canaviais
Predominava o Índio Amanajé
Em meios às sombras dos babaçuais.

Logrou após, o lugar mais projeção
Pela pesca, lavoura e pecuária
E pelo exemplo de dona Inez Galvão
Entre outras mestras extraordinárias.

Brava gente, terra amada!
Lar de paz hospitaleiro
Ó Santa Inês, prestigiada
Neste solo brasileiro.

Sua cultura é tradicional
Do bumba-boi ao folguedo junino
E do terreiro ao brio do carnaval
Da vaquejada a festa do divino.

Hoje, esbelta e tão modelar cidade,
Com o eixo rodoviário ativo
E a ferrovia dando prosperidade
Com o comércio a esse povo altivo.

Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez

Machucando a natureza,
sem pensar numa enxaqueca,
paga, o homem, na represa,
a imprudência pela seca.

Um Soneto de Mariana/MG
Alphonsus de Guimaraens Filho
(1918 – 2008)

SONETO DO LÍVIDO NAVIO

Em teu bojo de sangue, noite escura,
em teu veloz e lívido navio,
eis-me a escorrer no ar. Não sei, colhi-o
(indisfarçada, ríspida amargura)

colhi-o na invisível colgadura
bolorenta de morte, no sombrio
pouso aflitivo de onde sopra um frio
inaugural... e súbito depura

solidões torturadas de saudade
e as remotas planícies ensopadas
de chuva eterna, angústia, desalento...

(Ficar ali, à beira da cidade
povoada de faces assombradas,
ferido, machucado pelo vento!)

Sobre a Canção Amor em Paz
         Composto em 1960, numa viagem de trem entre o Rio e São Paulo, “O Amor em Paz” destinava-se ao lançamento de um programa de televisão de Agostinho dos Santos. Mas o público ignorou a versão de Agostinho e, em seguida, a da cantora Marisa Gata Mansa, só tomando conhecimento da canção um ano depois, quando João Gilberto a gravou em seu terceiro elepê.
         Realizada em setembro de 61, esta gravação tem um soberbo arranjo de Tom Jobim e a sua irretocável participação ao piano. Pode-se dizer que ela transmite toda a força da composição, uma das mais pungentes da parceria Tom e Vinícius — a velha história do amor perdido, sofrido, lamentado e a expectativa de paz que renasce com a descoberta de um novo amor, arrematando-se o poema com a romântica reflexão: “O amor é a coisa mais triste quando se desfaz.”
         A mesma nota tônica inicial (“Eu”, no verso “Eu amei”) é harmonizada com um acorde menor no primeiro compasso e um maior no segundo, prosseguindo esse jogo ao longo dos 16 compassos de A1 e A2, mais os oito de B e da coda, esta com um final bachiano passando do acorde de tônica menor para o de tônica maior. Essas alternâncias harmônicas acompanham, em perfeita integração com a letra, as situações de tristeza pelo amor perdido e de alegria pelo reencontrado.
         É uma brilhante criação no mais sedutor aspecto que caracteriza a música de Antônio Carlos Jobim, a composição harmônica. Recebeu no exterior, o título de “Once I Loved”, várias gravações de cantores (Perry Trio, Sinatra, Ella Fitzgerald) e jazzistas importantes (Milt Jackson, McCoy Tyner, Wes Montgomery). (Fonte: http://cifrantiga3.blogspot.com.br/2006/07/amor-em-paz.html)  

A festa estava prontinha,
mas tudo às vezes malogra;
pra surpresa da noivinha,
o noivo fugiu com a sogra!

"A luz purifica o escuro":
revela a casta Tereza;
e quando o "momento" é impuro,
faz tudo de luz acesa.

A minha infância distante
se reflete no meu filho,
por isso, no meu semblante,
o entardecer tem mais brilho.

A moça chora num brado
e o padre diz, em voz lenta:
- Pra lavar tanto pecado,
só um tanque de água benta!

Anoitece... a paz perdura
no aconchego do galpão;
galopa solta a ternura
em volta do chimarrão.

Ante a indecisa galinha,
diz o galo, convincente:
- Não troca o velho, joinha,
por um frango incompetente.

Brinquedos da minha infância
que foram meu universo,
hoje, rompendo distância,
são saudades do meu verso.

- Chega de versos, de prosa,
diz a garota ao noivinho,
pois tem coisa mais gostosa
pra se fazer no escurinho!

Chuta, menina, com jeito,
teu jogo é alegre... peralta.
Depois, apara no peito
porque peito não te falta!

Depois do vento ferino,
que me arrancou dos teus braços,
o barco do meu destino
navega roto... em pedaços…

Do teu palco iluminado,
ris de mim, sem ter ideia,
do quanto eu sofro calado
na penumbra da plateia.

Dulcifico meu sorriso,
louca euforia me invade,
quando chegas, sem aviso,
rompendo o nó da saudade.

Ela diz em tom brejeiro:
- Cumpro bem o meu papel.
Quero o amor do marinheiro
e o soldo do coronel.

Enfrento o vento malvado,
molhado de chuva e frio,
pois para estar ao teu lado
venço qualquer desafio.

Entre dúvidas e medos,
que a distância ocasionou,
fechada, dança em meus dedos
a carta que hoje chegou.

Esquece esta vida andeja,
vem tomar um chimarrão,
é cedo, a manhã boceja,
na longa esteira do chão!

Esqueço lei, preconceito,
e algum tabu superado,
só para ter o direito
de amanhecer ao teu lado.

Esqueço os dias tristonhos,
vou à luta, sem tardança;
ao porto azul dos meus sonhos
regressa a nau da esperança.

Esta saudade que é tua
dança no meu pensamento,
como a chuva lá na rua
sob a regência do vento.

Este sol fraco, inconstante,
trará luzes de outros sóis,
para amanhã, mais radiante,
te acordar nos meus lençóis.

Eu acredito e confesso
que a mais cruel das partidas
é a partida sem regresso,
para o rumo de outras vidas.

Feito de fugas e medo,
de regressos e partidas,
nosso amor, mesmo em segredo,
dá mais vida às nossas vidas.

Foi preciso muito brio,
quase a coragem faltou,
para enfrentar o vazio
que a tua ausência deixou.

Há sempre um rastro de luz
protegendo a caminhada
de quem abriga e conduz
a infância desamparada.

Hoje, no ocaso da vida,
tem sabor de eternidade
esta ternura incontida
que floriu na mocidade.

Meu chimarrão, tu retratas
meu pampa com perfeição:
por dentro, o verde das matas,
por fora, a cor do meu chão

Minha alma se fortalece,
levo melhor minha cruz,
quando através de uma prece
acho o caminho da luz.

“Minuano”, teus intentos
comprovam, em forte estampa,
que és o corsário dos ventos
na imensidão do meu pampa.

Na bomba, o beijo deixado,
na entrega, o tremor da mão,
e o meu amor, tão guardado
se traiu no chimarrão!

Na lareira um fogo brando
e, entre doses de licor,
nossos corpos desenhando
todas as formas de amor.

Não há lei irrevogável,
se amparada na razão;
toda sentença é mutável,
se a luz rasga a escuridão.

Não precisa o trovador
ir à lua, ver estrelas,
na noite, em rimas de amor,
ele é capaz de entendê-las.

Nesta noite rosicler
a lua, tão feminina,
tem o charme da mulher
e a pureza da menina.

O barco da minha infância
cruzou mares... velejou...
chorou saudades... distância...
mas nunca mais regressou.

O destino arma ciladas
que só coragem e a fé,
conseguirão, se irmanadas,
manter-nos vivos, de pé.

Outrora, a paz benfazeja,
noites de amor sob a lua,
hoje, na noite viceja
o crime, solto, na rua.

Peço ao sol, em oração,
e à lua, em seu branco véu,
que não falte um chimarrão
na grande estância do céu!

Por tantos textos errados,
somos hoje, sem favor,
dois atores fracassados
no grande palco do amor.

Quando a paixão se agiganta,
tão feiticeira e felina,
cala-se a voz na garganta
e só o prazer nos domina.

Quando em serena cadência,
na dança que o amor requer,
desnudo sem resistência
meus anseios de mulher.

Quando minha alma mentiu,
ao jurar que te esqueceu,
o meu orgulho aplaudiu
a grande atriz que fui eu.

Quanto tempo posto fora,
numa procura sem jeito,
sem ver as luzes da aurora,
porque era noite em meu peito.

- Que fazias no escurinho,
junto àquele rapagão?
- Não penses mal, papaizinho,
fazia meditação!

Quero o torpor, a leveza,
que o licor me propicia,
para acalmar a tristeza
da minha vida vazia.

Regressa... tudo te espera...
os teus discos, teu licor,
e uma doce primavera
desfeita em beijos de amor.

Roda, criança querida,
teu carrinho... teu pião...
Enquanto a roda da vida
não levar tua ilusão…

São brinquedos fulgurantes,
que brilham soltos...ao léu...
as estrelas cintilantes
que a lua joga no céu.

Se a Lei Divina se encerra
na paz, no amor, no perdão,
por que rolam pela terra
crianças que não têm pão?

Se é feitiço ou se é magia,
não sei, nem quero saber,
só sei que virou mania
este amor que é o meu viver.

Sem coragem, dividida,
entre a paixão e a razão,
minha alma é folha caída,
num vendaval de emoção.

Sem guerrilha... sem debate...
rola o manto da cobiça,
quando a espada do combate
verga-se à Lei da Justiça!

Sem temor e sem ressábios
hoje enfrento o mar fremente,
para no cais dos teus lábios
aportar meu beijo ardente.

Se queres manter-te em pé,
ter mais luz em tua andança,
acende o incenso da fé
no castiçal da esperança.

Se sofro não perco a calma,
a fé meus passos conduz;
a força que guardo na alma
se renova e acende a luz.

Se te esqueceste do texto,
se foste péssimo ator,
não busques nenhum pretexto
para os teus erros no amor.

Seu chute ninguém olvida,
atleta bom e sarado,
por isso a “gata” o convida
pra jogar no seu gramado…

Tem tanta preguiça, tanta,
e modos tão indolentes,
que quando almoça, não janta,
pra não dar trabalho aos dentes.

Tentei fugir de mansinho,
devagar romper os laços;
desisti, qualquer caminho
sempre me leva aos teus braços.

Teus cílios, negra cortina,
escondem dos olhos meus,
toda a magia divina
que dança nos olhos teus.

Tu és, amor, a alegria,
o meu vinho, o meu licor,
ao raiar de um novo dia,
abrindo as portas do amor.

Voltei feliz para vê-la.
Frustração. Não me quis mais.
Somente os olhos da estrela
me viram chorar no cais.

Chuvisco Biográfico do Poeta 
         Afonso Henriques de Guimarães Filho, conhecido literariamente como Alphonsus de Guimaraens Filho, nasceu em Mariana a 3 de Junho de 1918.
         Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em 1940.
         No mesmo ano foi publicado seu primeiro livro de poesia, Lume de Estrelas, pelo qual recebeu o Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras.
         Na época, trabalhava na Rádio Inconfidência, serviço de Rádio-Difusão do Estado.
         Em 1941, em Belo Horizonte/MG, reingressa no jornalismo no jornal católico O Diário.
         Em 1943, casamento com Hymirene de Souza Papi, com quem teve três filhos.
         Em 1946 publicou Poesias; e também a Antologia da Poesia Mineira - Fase Modernista; seguiram-se A Cidade do Sul (1948), Poemas Reunidos, 1935/1960 (1960), Antologia Poética (1963).
Em 1951, Prêmio Manuel Bandeira, pelo livro O Irmão, concedido pelo Jornal de Letras
         Em 1953, Prêmio de Poesia Cidade de Belo Horizonte, pelo livro O Mito e o Criador, concedido pela Prefeitura
         1955/1974, foi organizador de antologias de poetas como Antologia da Poesia Mineira - Fase Modernista, Antero de Quental, Alphonsus de Guimaraens, Augusto Frederico Schmidt e Gonçalves Dias
         Em 1962 foi eleito membro da Academia Marianense de Letras.
         Exerceu várias funções públicas, aposentando-se como subprocurador geral do Tribunal de Contas da União em 1972.
         Em 1974, conquistou o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, pelo livro Absurda Fábula (1973), concedido pelo Pen Clube do Brasil.
         Em 1976, um decreto denominando Lume de Estrelas uma rua no bairro do Méier, no Rio de Janeiro.
         Em 1985, ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Nó (1984).
         A obra de Alphonsus de Guimaraens Filho é situada pela crítica como integrante da terceira geração do Modernismo.
         O poeta morreu em decorrência de uma Pneumonia e de complicações referentes ao Mal de Parkinson no Rio de Janeiro, em 28 de Agosto de 2008.
         Sua poesia tem um alto envolvimento místico, com imagens entremeadas de luz e inquietação, e experiências metafísicas.
         Considerado pela crítica um dos melhores poetas da literatura brasileira,
os versos de Guimaraens Filho impressionam mesmo o mais habituado leitor do gênero e revelam que o poeta herdou o dom de seu pai. "O filho de Alphonsus de Guimaraens poderia ser outra coisa senão habitante da poesia? Das vozes mais puras que já se escutaram em verso no Brasil", disse Carlos Drummond de Andrade.
         Não é qualquer poeta que mereceu de Manuel Bandeira um soneto a si dedicado com tamanho carinho e reconhecimento. O filho do simbolista capitaliza esta proeza:

A ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO
[Manuel Bandeira]

Scorn not the sonnet, disse o inglês. Ouviste
O conselho do poeta e um dia, quando
Mais o espinho pungiu da ausência triste,
O primeiro soneto abriu cantando.

Musa do verso livre, hoje ela insiste
Na imortal forma, da paterna herdando.
Todos em louvor dessa que ora assiste
Em teu lar, dois destinos misturando.

No molde exíguo, onde infinita a mágoa
Humana vem caber, como o universo
A refletir-se numa gota d'água,

Disseste o mal da ausência. E ais e saudades
E vigílias e castas soledades
Choram lágrimas novas no teu verso.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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