Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 10 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 336)


Uma Trova de Curitiba/PR
Roza de Oliveira

Criançada mais acesa,
num redemoinho só,
do “louro” vem a surpresa:
com os netos, grita: “VÓ”…

Uma Trova de Santos/SP
Antônio Colavite Filho

No parque infantil da vida,
onde brincam mil crianças,
balança, Emília querida,
o Brasil em tuas tranças!

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

NUMA LÁPIDE

Qual se teu filho fora, eu me acabrunho
E, de mágoa, a falar-te mal me atrevo.
Aceita, entanto, o humilde testemunho
De quanto foste meu sagrado enlevo.

Fosse-me dado, de cinzel em punho,
Talhar o liso mármore em relevo,
E eu daria da pedra o eterno cunho
Às estrofes que em pranto e sangue escrevo:

Sei que não cabem nestes sons dispersos
O pranto em que esta angústia não se acalma,
E o sangue em que tais sons morrem imersos.

Não cabe dentro de votiva palma
Nem na estreiteza de mesquinhos versos
O infinito de dor que tenho na alma.

Uma Trova Humorística do Rio de Janeiro/RJ
Therezinha Zanoni Ferreira

Vendo a esperteza aumentar,
ser mais um tolo eu não quero.
Estou pensando em lançar
campanha do “otário zero”.

Uma Trova de Santos/SP
Edna Gallo

A criança embala sonhos
nessa infância alvissareira,
belos tempos tão risonhos
entre o estudo e a brincadeira.

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

GIRASSOL

Florir no descampado ou no úmido recanto
De alguma ruína, ou mesmo em áspero alcantil,
É um orgulho que tem o redourado helianto
Dês que da terra emerge a plúmula eretil.

Quando ele desabrocha entre os glastos e o acanto,
Entre os mil tinhorões e as passifloras mil,
Tem-se à conta de um sol, nascido por encanto
Ao topo senhorial do tormentoso hastil.

É de vê-lo medir a força e o valimento,
Do orgulho vegetal, do seu orgulho em prol,
Ante o rival senhor de terra e firmamento!

É de vê-lo, tenaz, de arrebol a arrebol,
Do grande astro seguindo o régio movimento,
O áureo disco volver para encarar o sol!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Quem tem amores não dorme,
nem de noite, nem de dia;
dá tantas voltas na cama,
como o peixe na água fria.

Uma Trova Hispânica da Colômbia
Héctor José Corredor Cuervo

Si quieres cambiar el mundo
y la paz es tu obsesión,
haz un cambio bien rotundo
en mente y en corazón.

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

O PLENIPOTENCIÁRIO DA FACÚNDIA
(a Oliveira Lima)

De carne mole e pele bambalhona,
Ante a própria figura se extasia.
Como oliveira — ele não dá azeitona,
Sendo lima — parece melancia.

Atravancando a porta que ambiciona,
Não deixa entrar nem entra. É uma mania!
Dão-lhe por isso a alcunha brincalhona
De paravento da diplomacia.

Não existe exemplar na atualidade
De corpo tal e de ambição tamanha,
Nem para a intriga igual habilidade.

Eis, em resumo, essa figura estranha:
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.

Trovadores que deixaram Saudades
Flávio Bellegarde Nunes
Taubaté/SP

Olhos lindos, amendoados,
de ternura sem igual,
são o mal dos meus pecados,
são remédios do meu mal!

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

SAI... AZAR!

Seis horas. Estação da Leopoldina.
Tomo o trem. Mal me abanco, uma velhota,
De setenta anos, fala, sopra, arrota,
Numa desenvoltura de menina.

Quero ler. A carcaça, de voz fina,
Tanto fala e me diz tanta lorota,
Que, na raiva, o jornal se me amarrota
E ainda o raio da velha me bolina.

Quero fugir. A peste me segura.
Por pouco mais me torno um assassino.
Sinto que passa um vento de loucura.

E julgo ver que, em meio ao desatino,
Eu era da polícia a atroz figura,
E a velha era a figura do Aurelino.

Uma Trova de Santos/SP
Maryland Faillace

Você por acaso ouviu
de árvores em extinção?
“A primeira é o pau-brasil,
começando a relação”!

Uma Quadra Humorística de São Paulo/SP
Idel Becker
(1910 – 1994)

O amor é de estudante
não dura mais que uma hora:
toca o sino, vai pra aula,
vêm as férias, vai-se embora.

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

UM FEIO
(a Barbosa Lima)

Nada tem de ridícula a fealdade
Quando ela, em certas caras, se figura.
Quem vai rir da sinistra catadura
Com que o Barbosa Lima nos invade?

É uma cara abortiva. É, de verdade!
Se uma dama pejada o olhar lhe atura,
Ei-la já parturiente prematura,
Sem os encantos da maternidade.

Mas tem parentes a valer o cabra!
E para colocar qualquer parente,
Se não há vaga, faz com que ela se abra.

Tudo consegue por terror somente,
Pois que, mostrando a cara hostil, macabra,
Faz abortar o próprio Presidente!


Uma Quadra Popular, de Portugal
Maria de Lourdes Graça Cabrita

Já tenho sinal aberto
p´ra no céu poder entrar,
não sei qual o dia certo,
vou quando Deus me chamar.

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

UM NARIGUDO 

Homem sério, porém politiqueiro,
De inteligência mais ou menos clara,
É um edil, camarista ou camareiro,
De raro estofo e de feição bem rara.

Mais seco do que arenque de fumeiro,
Todo feito em lasquinhas de taquara,
Sacode em contorções o corpo inteiro
E tem puxos de filme pela cara.

Tem um nariz de cinco ou seis andares.
Se ele o entulhasse, num mister diverso,
De bicha, traques, fogos populares,

Faria uma fortuna, — é incontroverso, —
Pois, naquele nariz, turvem-se os ares!
Cabem todos os traques do universo!

Uma Trova de Arapongas/PR
André Ricardo Rogério

Na minha vida poética
busco em seus olhos verniz
uma inspiração profética
de algum dia ser feliz.

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

UM HOMÚNCULO 

Tão pequenino e trêfego parece,
Com seu passinho petulante e vivo,
A quem o olha, assim, com interesse,
Que é a quinta-essência do diminutivo.

Figura de leiloeiro de quermesse,
Meloso e parecendo inofensivo,
Tem de despeitos a mais farta messe,
E do orgulho é o humílimo cativo.

Não há talento que ele não degrade,
Não há ciência e saber que ele, à porfia,
Não ache aquém da sua majestade.

Dele um colega, há tempos, me dizia:
É o Hachette ilustrado da vaidade,
É o Larousse da megalomania!

Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro Ferreira

Traças nos armários,
destroem qualquer passado,
roendo o inútil.

Uma Trova de São Paulo/SP
Renata Paccola

A saudade dá o recado
quando, num golpe inclemente,
faz ouvir o “adeus” gravado
na caixa postal da gente...

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

PROSOPOPÉIA DA PEPA AO PUPO
(a Pepa Ruiz e Pupo de Morais, mercadores)

Parece peta. A Pepa aporta à praça
E pede ao Pupo que lhe passe o apito.
Pula do palco, pálida, perpassa
Por entre um porco, um pato e um periquito.

Após, papando, em pé, pudim com passa,
Depois de peixes, pombos e palmito,
Precipite, por entre a populaça,
Passa, picando a ponta de um palito.

Peças compostas por um poeta pulha,
Que a papalvos perplexos empulha,
Prestando apenas pra apanhar os paios,

Permuta a Pepa por pastéis, pamonha...
— Que a Pepa apupe o Pupo e à popa ponha
Papas, pipas, pepinos, papagaios! 

Recordando Velhas Canções
Ideias erradas
(samba, 1959)

Ribamar e Dolores Duran

Não faça ideias erradas de mim
Só porque eu quero você tanto assim
Eu gosto de você mas não esqueço
De tudo quanto valho e mereço.

Não pense que se você me deixar
A dor será capaz de me matar
De um verdadeiro amor não se aproveita
E não se faz senão aquilo que merece
Depois ele se vai, a gente aceita
A gente bebe, a gente chora, mas esquece.

Uma Trova de Cambuci/RJ
Celso Luiz Fernandes Chaves

De viver tenho prazer
no amor tenho muita sorte,
vivo para te querer
enquanto não vem a morte.

Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

UM MÚSICO BARBUDO 

Tem a doença do som e a fatuidade
De pensar que todo ele, fibra a fibra,
É o sonoro instrumento em que só se há de
Vibrar o canto em que o universo vibra.

No seu queixo que pesa mais de libra,
E de pêlos na escura densidade,
Pensa que o contraponto se equilibra
À harmonia da capilaridade.

Quando, às vezes, a crítica o abarba
Ele, acudindo ao exigente apelo,
Do ardor de um gênio musical se engarba.

De um filho de Isaú, a cara é o selo,
Pois nem o Padre Eterno tem mais barba,
Nem as onze mil virgens mais cabelo. 

Um Haicai de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946-2009)

Abre o camponês
sulcos de arado na terra.
Em seu rosto rugas.

Uma Trova de Parnamirim/RN
Luiz Cláudio Costa da Silva

A imponente arte conserva,
os traços e a singeleza
da bela deusa Minerva:
- musa da mãe natureza!


Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

UM CRÍTICO CÍTRICO 

É, sem tirar nem pôr, um grande jornalista.
Quando erra ou quer errar, erra com matemática.
Faz uma escaramuça e o jogo salta à vista
Mas não há quem resista à formidável tática.

Torce algebricamente a verdade e conquista
O aplauso até de quem tenha traquejo e prática.
Sei-o mesmo por mim que, apesar de trocista,
Nunca deixo de o ler (restrições à gramática).

Mas, em arte, Jesus! Nem se aproveita a cinza.
Como crítico é igual aos outros. Deixa o suco
E, fibra a fibra, toda a bagaceira espinza.

Todo o crítico é assim, mais ou menos, caduco.
Sendo em arte incapaz, na obra alheia é ranzinza.
— O crítico, em geral, é uma espécie de eunuco.

Hinos de Cidades Brasileiras
Nova Granada/SP

Sob as bênçãos de São Benedito,
do valente Francisco dos Santos,
veio a nós este solo bendito,
a quem vou dedicar o meu Canto.

No começo eras Vila Bela,
com orgulho lembra a gente tua;
outro nome surgiu nesta tela,
mas o amor de teus filhos continua!

Deus te salve, oh, Granada,
do "São João" ao "Pitangueiras",
para sempre, terra amada,
do "Matão" ao "Corredeira".

Teu passado é glorioso,
tua face é altaneira;
do teu povo laborioso
é a paz, "Cidade Hospitaleira"!

Brava gente chegada da Espanha
fez o nosso progresso aumentar
e, de força irmanada tamanha,
nossa Nova Granada aí está.

Teu passado foi feito de glórias,
teu presente à luta pertence,
teu futuro já tem uma história;
que alegria é morrer granadense!

Uma Trova de Natal/RN
Clarindo Batista Araújo

Negra cinza no chão pobre
que resultou da queimada,
é o triste manto que cobre
a Natureza enlutada!...


Um Soneto de Curitiba/PR
Emílio de Meneses
1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

ALCOOLISMO 

A leitura do tópico tremendo
À lembrança me trouxe uma anedota
Velha, tão velha quanto aquela bota
Que era toda o Larousse do remendo.

Certo alcoolista, um sábio artigo lendo
De um médico alemão de grande nota
Contra o álcool, diz em compulsão devota:
"Como ele prova quanto o vício é horrendo!"

E acrescenta: "A verdade em mim desperta!
Eu não quero pelo álcool cair morto,
Vou dizê-lo bem alto e de alma aberta!"

Tal leitura me traz tanto conforto,
Que vou beber saudando a descoberta
Três garrafas de bom vinho do Porto!...


A pandorga colorida,
recriando encantamentos,
toca a sonata da vida
na partitura dos ventos.

A saudade é luz de vela
iluminando o que eu sou:
descolorida aquarela
que uma renúncia pintou.

Cada rio poluído
é uma mensagem de morte,
onde o mundo sem sentido
vai selando a própria sorte!

Cada vez o dia-a-dia
faz os dias mais tristonhos,
quando a gente silencia
e sufoca os próprios sonhos…

Dos exílios, um existe,
que é pior pois não desterra,
mas faz do exilado um triste
vivendo na própria terra…

Eu confesso, estou cansada,
cansada deste brinquedo:
- ser espuma apaixonada
pela sombra de um rochedo...

Eu perdi meu coração
entre fantasmas e medos,
no exílio da solidão
de uma infância sem brinquedos..

Foste um sonho em meu passado,
e o meu erro mais tristonho
foi deixar de ter lutado
para arrancar-te do sonho…

Há nos chás de caridade
muito fausto e ostentação,
e nas ruas da cidade,
crianças sem proteção.

Há sempre um circo vazio
e um vazio de esperança,
no coração triste e frio
de quem nunca foi criança…

Leva contigo, menino,
este amor dos teus brinquedos,
onde és "rei" e o teu destino
é vencer todos os medos…

Mãe preta, meu doce encanto,
que saudade sinto agora,
da tua voz no acalanto
que mandava o medo embora!

Meu palhacinho de pano,
quantas vezes te surrei!
Hoje a vida e o desengano
dão-me as surras que eu te dei!

Meus ideais em pedaços,
pela vida, destruídos,
foram tristonhos palhaços
de sorrisos não sorridos.

Meus sonhos foram ingratos
e sou, de tudo o que resta,
Cinderela sem sapatos,
sem fantasia, sem festa…

Minha infância recomponho
nos passos de meu filhinho,
que, refazendo o meu sonho,
também refaz meu caminho!…

Na solidão do meu peito,
velho jardim sem amor,
 a saudade tem um jeito
de renúncia que deu flor…

No infinito o sol flutua
qual rubro barco pirata,
tentando roubar da lua
a sua carga de prata!

Nos barquinhos de papel
fui "marinheiro-esperança";
hoje, corsário infiel,
roubo os barcos da lembrança…

Nossas ruas de criança
a tão longe nos levavam,
que nem o infinito alcança
o infinito que alcançavam...

Numa estranha semelhança
com a caixa de Pandora,
vivo apenas de Esperança,
porque o Sonho foi embora.

Olho o mundo... me envergonho
e me tortura dizê-lo:
- hoje a liberdade é um sonho
transformado em pesadelo…

O mensageiro fiel
dos sonhos da meninada
é um barquinho de papel
correndo junto à calçada…

O meu amor sobrevive
nesta saudade sentida:
o "quase nada' que eu tive
foi "quase tudo" na vida!

O que sobra do meu dia,
mal cabe num prato raso:
migalhas de fantasia
que me alimentam no ocaso!

Papai Noel, não entendo
o teu serviço postal:
tantas cartas se perdendo!...
Tantos pobres sem Natal!...

Pelos caminhos, cansada,
minha esperança perdida,
encontra a porta fechada
no fim da Rua da Vida…

Por ser poeta acredito
em dias menos sombrios...
Meu sonho quase infinito
cabe em meus bolsos vazios.

Por todo lado cercada
de gente que nem me vê,
eu sou a sombra do nada
que me restou de você.

Quando a luz que enche os espaços
espanta a noite do adeus,
vejo a sombra dos meus passos
seguindo a sombra dos teus…

Quando às vezes abro a porta
que a renúncia traz fechada,
tua ausência se recorta
na silhueta do nada...

Retratando o que hoje somos,
vejo agora que restou
do quase dois que nós fomos
o quase nada que eu sou.

Saudade, circo às escuras,
onde um palhaço, a ilusão,
faz trejeitos e mesuras
para o nada e a solidão…

Se a vida foi mal vivida,
ao chegar ao fim da estrada
quem foi um 'quase" na vida
é, na morte, um "quase nada"!

Separadas as metades,
a realidade provou
que somos as “inverdades”
que uma esperança inventou...

Sobre a mesa, a lamparina.
No bercinho, uma criança.
E a luz suave ilumina
a mensagem de esperança!

Tão pertinho do infinito
mas, prisioneira do morro,
a favela é quase um grito,
que pede ao mundo: - Socorro!

Vão desfilando os Farrapos
ante o Pacificador;
por fora, as roupas em trapos,
por dentro, inteiro, o valor!

Chuvisco Biográfico do Poeta
Emílio Nunes Correia de Meneses nasceu em Curitiba, Paraná, em 4 de julho de 1866. Era filho de Emílio Nunes Correia de Meneses e de Maria Emília Correia de Meneses, único homem dentre oito irmãs. Seu pai também era um poeta. Faz seus estudos iniciais com João Batista Brandão Proença, e depois no Instituto Paranaense. Sem ser de família abastada, trabalha na farmácia de um cunhado e, ainda com dezoito anos, muda-se para o Rio de Janeiro,, influenciado pelo movimento simbolista e levado por Rocha Pombo. deixando em Curitiba a marca de uma conduta já destoante ao formalismo vigente: nas roupas, no falar e nos costumes.
         Era um boêmio desregrado, que vivia na calaçaria dos cafés e botequins e se tornou célebre por sua maledicência.
         Na capital do país encontrou solo fértil para destilar sua fértil imaginação, satírica como poucos. A amizade com intelectuais, entretanto, fez com que tivesse seu nome afastado do grupo inicial que fundara a Academia. Torna-se jornalista e, por intercessão do escritor Nestor Vítor, trabalhou com o Comendador Coruja, afamado educador. Em 1888 casou-se com uma de suas filhas, Maria Carlota Coruja, com quem teria no ano seguinte seu filho, Plauto Sebastião.
         Mas Emílio não estava fadado para a vida doméstica: neste mesmo ano separa-se da esposa, mantendo um romance com Rafaelina de Barros.
         Autor de versos mordazes, eivados de críticas das quais não escapavam os políticos da época, mestre dos sonetos, Emílio de Meneses é portador de uma tradição - iniciada com o Brasil, em Gregório de Matos.
         Obteve uma nomeação para Curitiba, como funcionário do Recenseamento federal. Finda a comissão, regressou ao Rio. Era a época do Encilhamento, e poucos resistiam à sedução de ganhar dinheiro fácil. Emílio arranjou algum capital, fez especulações na bolsa e em pouco tempo estava rico. Possuía carros de luxo e fez-se colecionador de objetos de arte. Mas os tempos eram de crise, e Emílio de novo empobreceu. Não muda, entretanto, seus hábitos. Continua o mesmo boêmio de sempre, a povoar os jornais da época com suas percucientes anedotas.
    "Os que conheceram Emílio de Menezes ainda estão a vê-lo, com aquela bigodeira a Vercingectorix e aquele amplo chapéu, ora brandindo o bengalão retorcido, a expedir raios sobre a iniquidade dos pigmeus que o irritavam; ora sufocado num riso apopléctico de intenso gozo mental, rematando uma sátira com que, destro, arrasava a empáfia dos potentados e a impertinência dos presunçosos; ora bonacheirão, carinhoso, entalando uma fatia de pão-de-ló na boca de um de seus fiéis cães de raça; ora ainda transfigurado, olímpico, dizendo, com inspiração extraterrena, 'Os Três Olhares de Maria' ou o 'Ibiseus Mutabilis'. (...)" - Mendes Fradique, no Prefácio de "Mortalha - Os deuses em ceroulas".
         Ao fundar-se a Academia Brasileira de Letras, em 1897, ele teria sido também um dos fundadores, mas havia preconceitos contra a sua maneira boêmia de viver.
         Apesar de preterido pelo silogeu nacional, Emílio veio finalmente a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras em 15 de agosto de 1914, Ele veio a ocupar a cadeira de número 20, cujo patrono é Joaquim Manuel de Macedo, e na qual jamais veio a tomar assento, falecendo no Rio de Janeiro em 6 de junho de 1918.
         Emílio compôs um discurso de posse, continha trechos arguidos, pela Mesa da Academia, de “aberrantes das praxes acadêmicas”. A Mesa não permitiu a leitura do discurso e o sujeitou a algumas emendas. Emílio protelou o quanto pôde aceitar essas emendas, e quando faleceu, quatro anos depois de ter sido eleito, ainda não havia tomado posse de sua cadeira.

Obras 
Emílio escrevia não apenas com o próprio nome: diversos pseudônimos foram por ele utilizados, tais como Neófito, Gaston d’Argy, Gabriel de Anúncio, Cyrano & Cia., Emílio Pronto da Silva. Na sua obra reunida, contabiliza-se 232 composições poéticas, predominando o soneto como principal forma de expressão.

Trabalhos publicados
    Marcha fúnebre - sonetos - 1892
    Poemas da morte -1901
    Dies irae - A tragédia de Aquidabã - 1906
    Poesias - 1909
    Últimas rimas - 1917
    Mortalha - Os deuses em ceroulas - reunião de artigos, org. Mendes Fradique - 1924
    Obras reunidas - 1980

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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