Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 11 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 337)


 
Uma Trova de Londrina/PR
Geraldo Peixoto de Luna

Vejo triste, em minha face,
a cada dia que corre,
uma saudade que nasce,
uma esperança que morre.

Uma Trova sobre Esperança, de Porto Alegre/RS
Delcy Canalles

Esperança, este meu ego,
está sempre a te esperar!
Volta depressa, pois cego,
não sei se vai te encontrar!

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

SAUDADE IMENSA
                                        À Neusa

Que saudade, meu Deus, mas que saudade
Eu sinto de você minha querida.
Palmilhamos nossa estrada nos amando,
Éramos então vivendo enamorados
Como dois pombos enfrentando a vida.
Jamais pensando vivermos separados.
Mas você teve sua missão cumprida
E Deus veio buscar-lhe faz um ano.
E eu não pude lhe beijar na despedida,
Selei um beijo já em seu rosto inerte,
Molhando com lágrimas sua face linda.
Hoje não sinto seu calor humano,
Mas lhe sinto presente em toda a vida
E mesmo sem lhe ver é mais querida.

Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ
José Moreira Monteiro

Perguntaram-me: tens caspas
no teu couro cabeludo?
Eu respondi: não... e entre aspas
– Os piolhos comem tudo!

Uma Trova sobre Esperança, de Belo Horizonte/SP
Olympio Coutinho

Estrela que me seduz
és a imagem da esperança:
- brilhante, mas não traz luz;
tão linda, mas não se alcança.

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

MEU CORPO

Quase um século de vida aqui na terra
Tem o corpo que altivo me sustenta,
E a gene de ancestrais nele descerra
Em várias circunstâncias que ele enfrenta.

Exausto, algumas  vezes se declina,
Mas retorna para a luta cotidiana,
Porque aquilo que eu sou, lhe determina
Cumprir o que, do Alto então se emana.

E relembrando o tempo já vivido
Esse corpo se sente agradecido
Pela alma que dirige os passos seus.

Porque entende que o corpo necessita
De uma alma que o dirija e que reflita
Nos respeitos que devemos para Deus.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Quem tiver filhas no mundo      
não fale das malfadadas;                     
porque as filhas da desgraça
também nasceram honradas.

Uma Trova Hispânica do Panamá
Dioselina Ivaldy de Sedas

Juventud, dónde te encuentro?
Te fuiste sin darme cuenta.
Cuánto anhelo un reencuentro,
hoy que cumplo mis ochenta.

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

LAGRIMAS E RISOS

Você chorou quando aportou na terra,
E nós choramos de alegria imensa,
Por isso cremos que em teu peito encerra
Toda a pureza que o amor condensa.

 E foi grande a euforia que sentimos
Naquele lindo vinte e um de julho,
Que então choramos e então sorrimos
Num misto de alegria e de orgulho.

 Você é o fruto de um amor bendito.
O pranto e o riso assim se misturaram
Ao contemplar o teu perfil bonito.

 E hoje existe com mais intensidade
Aquele amor dos dias que passaram
Porque ele aumenta quanto avança a idade.

Trovadores que deixaram Saudades
Marina Bruna
Franca/SP (1935 – 2013) São Paulo/SP

Canta, Poeta! O teu canto,
de um sentimento profundo,
é o turíbulo de encanto
que vai incensar o mundo!

Uma Quadra Humorística de São Paulo/SP
Idel Becker
(1910 – 1994)

Vou deitar a despedida,
por hoje não canto mais;
já me dói o céu da boca
e o coração ainda mais.

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

SER MÃE

Quisera homenagear-te minha amada
Pelo fato de ser mãe de minha filha.
Porém  já foste por Deus homenageada
Ao conceder-te ser mãe, que maravilha!

Já quando planejou povoar a terra,
O Excelso Criador, a Sua semelhança
Criou o homem que no peito encerra
O sonho de ser pai de uma criança.

E criou a mulher com tal ternura
Para nela perpetuar a criatura,
No ventre santo porque é gerador.

Você querida gerou essa menina
Que já é mãe numa missão divina,
Ambas florindo meu jardim do amor.

Uma Trova sobre Esperança, de Petrópolis/RJ
Gilson Faustino Maia

Tendo um passado tristonho,
desde os tempos de criança,
mostro o meu rosto risonho,
movido pela esperança.

Um Haicai de Lençóis/BA
Afrânio Peixoto
Júlio Afrânio Peixoto
(1876 - 1947) Rio de Janeiro RJ

ANCH'IO...

Na poça de lama
Como no divino céu,
Também passa a lua.

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

QUEM DIRIA

Quem diria, meu Deus, oh quem diria
Que chegássemos a idade que chegamos
Ouvindo o eco do SIM que aquele dia
Há cinquenta anos nervosos pronunciamos.

Éramos dois, então, que se amavam
Há quanto tempo não sei eu, você ignora
Se nossas almas já antes se cruzavam
Ou se talvez o nosso amor nasceu agora.

O que eu sei, querida, é que esse amor é grande
Que junto a ti eu vivo onde quer que eu ande
Seja na terra, no mar ou nos espaços.

Meio século faz que juntos palmilhamos
Vivendo o mesmo amor que na paixão juramos.
Entre brigas de amor, beijos e abraços.

Uma Trova de Itanhaém/SP
Filemon F. Martins

Segue uma estrada florida
quem, na verdade, tiver
a glória de ter na vida,
um coração de Mulher!

Hildemar Cardoso Moreira

SOLUÇOS
(ao Dr Francisco Cordeiro,  por ocasião da morte de sua mãe)

 Qual pirilampo, gigantesco e rubro,
Nascia o sol, trigésimo de outubro,
Na rendilhada curva do oriente,
Quando Contenda é sacudida em cheio,

Pois vê partir, fugindo de seu seio,
Quem fora mãe de sua pobre gente.
Hoje Contenda em lágrimas desfeita,
Flores de amor em sua tumba deita…

Gemem os pobres…soluça a mocidade,
Pois foi chamada aos paramos Divinos,
Aquela que amando aos pequeninos,
Viveu de fé, de amor e caridade.

Também o poeta que sorrir devia,
Ante o vulto glacial da morte fria,
Pois crê que a vida vai além da cova,
Chora nos versos a saudade imensa,
Embora saiba por sublime crença
Que a morte é o berço de uma vida nova.

Mas é que embora por diversos meios
A morte, nos seus frígidos enleios,
Vidas preciosas vá sulcando, apenas,
Alma que justa, sacrossanta e boa,
Como Don’Ana para o alto voa,
E dos Anjos chegam as mansões serenas.

Uma Trova de São Paulo/SP
Zaé Júnior

Se a lua é minha alma gêmea,
longe de ti, eu bendigo
esta saudade boêmia,
que passa as noites comigo!

Um Acróstico de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

ACRÓSTICO A UM GRADUANDO
Ao Antônio Eugênio Pavloski

A escalada do progresso é sempre dura,
N ão progride nesta vida quem não luta
T odos têm necessidade da cultura:
O saber, valor garante na labuta.
N ão é apenas o diploma conquistado,
I sso que consegue o jovem estudante,
O mais importante, é sim, o aprendizado,

E aprender e saber nunca é bastante.
U m degrau tu venceu galhardamente,
G anhaste uma batalha heroicamente,
E muitas venceste nos dias teus.
N ão descure porém o analfabeto,
I rmane-se ao inculto, dê-lhe afeto:
O amor é a nave que nos leva a Deus.

Uma Trova de Santos/SP
Carolina Ramos

Insone, nas madrugadas,
meu boêmio coração
afoga as mágoas caladas
na taça da solidão...

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

NOSSA PROMESSA DE AMOR

Já quando jovem Deus brindou-me a vida
Com a beleza de mulher prendada
Que então por Ele foi-me concedida
Ante a promessa de ser sempre amada.

 Entrelaçamos, por isso, nossas almas
Num “SIM” que então dissemos comovidos,
Para vivermos horas tensas e horas calmas
Deixando o amor guiar nossos sentidos.

 E esse amor que é inconcusso e ardente
Sessenta anos vem norteando a gente
Tal como um raio de luminosidade.

 Os anos passam, e nós envelhecemos
Mas  a promessa sempre manteremos
Se é eterna a vida,  pela eternidade.

Recordando Velhas Canções
Solidão
(samba-canção, 1961)

Adelino Moreira

Não, não quero mais o seu amor
Chega de amar, chega de dor
E de esperar em vão

Quando desperto
E vejo o leito vazio
Eu sinto frio no coração

Não, não quero mais ficar sozinha
Já Estou cansada de esperar
Acalentando a promessa
De que um dia
Você vem para ficar

Quem não tem direito ao amor
Não deve amar
Para não sofrer
Para não chorar

Veja meus Deus
A triste sorte minha
Na solidão do quarto
Eu beijo o seu retrato
E vou dormir sozinha

Uma Trova de Belém/PA
Antônio Juraci Siqueira

Mata a revolta em teu peito,
não a deixes florescer:
rio com pedras no leito
não pode alegre correr!...

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

RITA DE CASSIA

Rica de fé, de amor e de meiguice,
Imensurável cabedal de inteligência,
Talento não lhe falta para a luta.
Assim é essa mulher chamada RITA.

Delicada no trato ao semelhante,
Elevado penhor de responsabilidade,
Cativante porém para com todos.
Assim é essa mulher chamada RITA

Sempre alegre, sempre a mesma, sempre boa,
Sem nunca esmorecer, sempre otimista.
Imenso é nosso afã de homenagear
A essa mulher, a essa amiga tão querida

Um Haicai de São Paulo/SP
Bernard Waldman

Os esbugalhados
olhos giram, buscam sol.
Girassóis no campo.

Uma Trova de Rio Novo/MG
Eugênia Maria Rodrigues

Uma ternura me invade
e não fujo, embora tente,
dos retalhos de saudade,
nos remendos do presente...

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

VIEMOS…DE ONDE???

Viemos talvez, de outras esferas
Localizadas em algum lugar
Do imenso universo.
Aqui chegamos, uns antes outros depois.
Fomos nos encontrando, nos aproximando,
Nos conhecendo, nos  distanciando,
Alguns partindo nos deixando saudosos,
Outros chegando nos deixando alegres.
E em cada trecho de nossa caminhada,
Fomos encontrando obstáculos
Que as vezes nos pareceram intransponíveis,
Mas sempre encontramos almas boas
Que nos incentivaram e nos ajudaram a transpor.
E com essa ajuda viemos subindo montanhas,
Descendo ladeiras íngremes,
Fazendo picadas em capoeirões, abrindo caminhos,
Descansando por vezes na relva macia,
E vezes deitados em  tépidos leitos.
E nesses momentos de pura magia
De Deus nos lembrando, fazendo oração,
A fé rebuscando ou pedindo perdão.
Pois todos nós fomos por Ele criados
E todos amados por sermos Seus filhos.

Porém de repente o destino nos chama
Para outras paragens e vamos partir.
Partir com a certeza de nos encontrarmos,
De nos abraçarmos e 
de juntos trilharmos a nossa jornada
É isso que eu peço que Deus nos conceda
De juntos trilharmos a mesma vereda.
Os mesmos caminhos que levam ao PAI.

Hinos de Cidades Brasileiras
Contenda/PR

Letra: Hildemar Cardoso Moreira e José Cardos Pereira.

Descendente de audaz imigrante
Que aportou neste lindo rincão,
Nasce a gente altaneira e gigante
Bandeirantes do agreste sertão.
Hoje os filhos da raça pioneira
Trabalhando com força e ardor,
Honram as cores da nossa bandeira
No trabalho, na fé e no amor.

Estribilho: 
Foste vila em setembro
E  cidade em novembro
E teu povo sempre ordeiro
Fez de ti grande celeiro,
Trabalhando sem parar,
Nunca deixa de cantar
Contenda amada, Contenda amada,
Terra por Deus abençoada.

Nestes campos e nestas serras,
Onde a vida feliz se refaz
Veio o filho de outras terras
Encontrar o abrigo e a paz.
E a benção de São João teu padroeiro,
Fez brotar as riquezas do chão.
És orgulho do povo brasileiro
Ó Contenda, querido torrão.

Uma Trova de São Paulo/SP
Campos Sales

Nosso amor foi tão verdade,
que mesmo tendo acabado,
há uma ponte de saudade,
ligando o nosso passado!

Um Poema de Contenda/PR
Hildemar Cardoso Moreira

SAUDAÇÃO A LAPA

No local da pousada do tropeiro,
Ao nobre povo de Registro Velho,
Uma alma embebida no evangelho
Houve por bem doar a sesmaria,
Onde em louvor ao Santo padroeiro
Fosse imponente Igreja levantada,
Pra que a crença Cristã fosse pregada
Ao povo da nascente Freguesia.

Exulta feliz a populaça.
A obra aos poucos se agiganta,
Edifica-se Igreja sacrossanta
Donde se avista imensa cercania,
E o paredão de pedra que por graça,
De uma simples montanha de granito
Transforma-se em lugar santo e bendito,
Por, de abrigo servir a “João Maria”.

E a Vila que do Príncipe foi um dia
Vai se alastrando pelo campo afora,
E o povo humano que sorri e que chora
Vê o lugarejo se tornar cidade.
Mas eis que a pátria extingue a monarquia:
A República que nasce titubeia,
E a rebelião que no sul desencadeia
Avança sem temor… deter quem há de?

Cabe a Lapa, bondosa e hospitaleira,
Dizer o “PARE !” a turba revoltosa,
Que armada, treinada e numerosa
O ideal de glórias também sente.
E o sangue da família brasileira
Ali se derramou de lado a lado,
Ensanguentando  o solo imaculado,
E encheu de glória aquela brava gente.

Mas eis que os filhos dos heróis da guerra
Não se deitaram nos colchões da glória,
E novos fatos que nos fala a história,
Te faz presente pelo meu Brasil.
É que os rebentos dessa heróica terra,
Igual aos ancestrais pela bravura,
Engrandecem a pátria na cultura,
Discípulos talvez de “Abigail”.

Quisera o bardo pra cantar tua glória,
Beber no cântaro da sabedoria,
Para verter em divinal poesia,
Toda beleza de um bonito canto.
Mas Deus me engasta na fiel memória,
Que por inculta há de faltar beleza,
Os pobres versos que na sua rudeza,
Hão de dizer do meu amor no entanto.

Sim, eu te amo LAPA, e te saúdo,
Não pela guerra que te fez gloriosa,
Mas por ser a terra mãe bondosa
Que viu nascer e viu crescer meus pais.
Não pode o poeta que não teve estudo
Fazer-te um poema de grandiosidade;
Mas, pode dizer-te com saudade
Que não te esquece e esquecerá jamais.

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Glosando Jeanete De Cnop (Maringá/PR)

Mote:
Numa espera doce e mansa,
qual zelosa tecelã
bordo rendas de esperança
pra enfeitar nosso amanhã!

Glosa:
Numa espera doce e mansa,
tecendo a minha saudade,
cada segundo que avança
parece uma eternidade!

Nos bilros, busco consolo;
qual zelosa tecelã
vou tecendo, no rebolo,
minhas rendas com afã!

Na almofada da lembrança
com seu tear multicor
bordo rendas de esperança
esperando o meu amor!

De rendeira, fiz a trama,
minha espera não foi vã,
hoje a peça cobre a cama
pra enfeitar nosso amanhã!


"Adeus!" - Tu disseste, rindo.
"Não voltes!" - disse eu, depois.
- Dois covardes se agredindo;
morrendo de amor, os dois!...

A funerária vivia
com o movimento bem fraco...
E como ninguém morria,
a firma foi pro buraco!

Ah, por favor, não me peças
promessas, que me pões tonto...
- Quem ama não faz promessas,
entrega-se todo... e pronto!

A noite é de apoteose
pois, no horizonte, o luar
alveja a linha que cose,
ponto a ponto... céu e mar!

Ao voltar antes da hora,
acha a mulher se benzendo...
nem percebe que, lá fora,
seu pijama sai correndo!

A praia estava lotada,
ao surgir a confusão.
Gritaram: “Mulher pelada!”
— E foi aquele arrastão…

A primavera da vida
vi morrer, ardendo em ânsia,
naquela calça comprida
que encurtou a minha infância!

A vigília me tem dado
muita dor... Fazer o quê?!
Passo as noites acordado,
esperando por você!

Com a cachaça proibida,
é xadrez toda semana:
— Como não larga a bebida,
dá  um jeito e “vai em cana”.

Com mulher sempre se alterna
minha sorte, eis a questão
- Quando uma me passa a perna,
outra me deixa na mão!

Como te amei! Fui covarde
em não seguir os teus passos:
quando tentei, muito tarde,
eras manhã noutros braços!...

Covardia é tu dizeres
que minha dor é fingida,
e eu ser, de todos os seres,
quem mais apanha na vida!

De certa caça ele guarda
saudosa recordação,
pois, hoje, a sua espingarda
aponta só para o chão!

Eu como demais, não minto;
e que sede! Bebo bem...
Na verdade, sou faminto
e “sedentário” também.

Eu não consigo, alvorada,
de forma alguma entendê-la:
a cada flor despertada,
ter de morrer uma estrela.

Eu te amo! E ainda perguntas
se há jura em minhas respostas...
Não vês que as nossas mãos juntas
valem mais do que mãos postas?

Eu trouxe tanta saudade,
tanta saudade deixei,
que há um dilema de verdade:
será que eu vim, ou fiquei ?!

É vigarista atuante,
faz do xadrez o seu lar;
é réu “primário”, garante,
só  fez o Grupo Escolar…

Faltou-me talvez coragem,
e, por medo de chorar,
não abri sua mensagem.
- E ela queria voltar...

Fibra, amor, eu tive um dia:
foi triste a separação...
- Apertei-te a mão vazia
e enchi de adeus minha mão!

"Isso é hora de chegar?!
E molhado!..." - ela reclama.
"por que não dormiu no bar?"
"Vim pegar o meu pijama".

Já temendo um desengano,
fui ver meu circo de outrora:
saí por baixo do pano
e vim chorar aqui fora!

Minha mãe não teve escola,
sempre a lutar, noite e dia,
mas a vida lhe deu cola
de toda a sabedoria!

Minha vigília, querida,
não é por falta de sono,
é o preço que impõe a vida
pelas noites de abandono.

Não sei, covardia ou não,
se alguém faria o que fiz:
- Abrir mão da tua mão,
para que fosses feliz!...

No corpo-a-corpo com a vida,
em combates desiguais,
e mesmo de alma ferida,
não me acovardo jamais!

No meu prédio, o rebuliço
ganha maior consistência,
quando a entrada de serviço
é saída de emergência !

Nossas letras iniciais,
no centro do coração,
também são restos mortais
de um carcomido portão!

Nosso amor é um retrocesso,
pelo orgulho que nos cega:
- eu desejo... mas não peço;
ela quer... mas não se entrega.

Nosso amor já não importa,
pois fizeste a covardia
de fechar a tua porta
a quem os braços te abria!

Num ato de covardia,
ela, de mim já bem farta,
beijou-me, enquanto partia,
e mandou-me o adeus por carta!

Num enterro de segunda
houve tanta confusão
que uma parte da Raimunda
foi por fora do caixão...

O abandono era patente,
no abraço da solidão:
- duas voltas de corrente
num velho e tosco portão...

Olho o portão .. vejo as horas
nem sei há quanto te espero,
ansioso - porque demoras,
sofrendo - porque te quero!

Passou na cadeia um mês...
E, com saudades da cela,
veste-se, hoje, de escocês
e pôs grade na janela.

Ponho fora os meus cansaços,
a vigília a me nutrir,
pois, quando a tenho em meus braços,
como é que eu posso dormir?!

Por mais que seja insensata
minha forma de viver,
bendigo a dor que me mata,
mas deixa o verso nascer...

Pudesse, mãe, a lembrança
recompor o antigo lar...
Eu -- voltar a ser criança;
você... somente voltar!

Quando é bem forte a topada,
quem puder que fique mudo...
- É melhor não falar nada
que dizer... aquilo tudo!

Quando em cismas eu mergulho,
dando um balanço na dor,
ponho na conta do orgulho
minha falência no amor!

Queria vencer na vida,
só faltava um "empurrão"
que veio... em plena Avenida,
na frente de um rabecão!

Ruínas, teias de aranha,
o silêncio do quintal...
Se esta dor não me acompanha,
o abandono era total...

Se era uma fuga a viagem,
fui mais covarde na hora:
- a saudade, na bagagem,
não deixou que eu fosse embora!

Se tu jamais foste minha,
se nunca fui teu também,
posso ir só, que irás sozinha...
Ninguém perde o que não tem!

Seu adeus, naquela hora,
revelou-a para mim:
- quem quer de fato ir embora
não bate o portão assim!...

Tinha no olhar tanto brilho,
tal força nos firmes passos,
que não carregava um filho:
- levava o mundo em seus braços!...

Toda a minha teimosia
em me calar, foi em vão,
porque, na Delegacia,
me deram voz... de prisão

Topada feia! Pois é...
não tive colher de chá:
- o dedão veio no pé,
mas a unha... ficou lá!

Trouxe-me a brisa, bem mansa,
uma canção de embalar...
Com ela veio a criança
que a saudade foi buscar!

Chuvisco Biográfico do poeta, por ele mesmo
         Eu nasci nas primeiras décadas do século vinte, em uma casa de madeira  coberta de taboinhas localizada na Colônia Cachoeira –Município de São Mateus do sul onde naquele tempo não existia a energia elétrica por isso a nossa iluminação era feita a base de candeeiro ou lampião a querosene.
            Eu fui o nono da prole de Hildebrando Cardoso Moreira e de Maria da Conceição Weinhardt Moreira, meus pais eram pobres de bens materiais mas muito ricos de talento e de espiritualidade, e eram poetas meus velhos queridos por isso nas horas de lazer  ou nos ensinavam os preceitos Cristãos ou declamavam poesias maravilhosas.
            Eu e meus irmãos ouvíamos  admirados papai declamando poesias de Castro Alves ,com aquele ênfase que nos deslumbrava: “Talhado para grandezas,/P’ra crescer, criar, subir,/O novo mundo nos músculo /Sente a seiva do porvir.” ou mamãe nos deliciando com belíssimas declamações de poesias com conteúdo cristão ou que continham alguma forma de conselho, como: “A cidade ali está, com seus enganos,/ Seus cortejos de vícios e traições,/ Seus ricos templos, seus bazares amplos,/Seus vastos passos, seus bordéis salões. A cidade alí está, sobre seus tetos/ Pairam dos arsenais  o fumo espesso,/ Rolam na rua, da vaidade, os coches,/Ri-se o crime a sombra do progresso.” e eu procurava imitá-los e fui me apaixonando pelas poesias e fui me tornando um versejador  e declamador, por isso os amigos me apelidaram de poeta e eu fui gostando desse apelido, fui acreditando que de fato eu era poeta e passei a escrever minhas sextilhas, meus sonetos meus acrósticos  e minhas trovas.

PARA VOCÊS QUE ESCREVO

Será que eu posso me julgar poeta?
Será que isso que eu escrevo ainda é poesia?
Ou  será  que já está ultrapassada?
Mas poesia não fica ultrapassada,
Ela foi e é sempre poesia,
Ela se infiltra em todas as gerações,
Ela é como a música: –imortal,
Extingue-se as rimas, a métrica, as formas,
Mas permanece a sonoridade.
Assim pensando vou rabiscando meus aranzéis
Na sublime ilusão de que são belos.
Mas não é para mim que os escrevo
É para vocês que escrevo minha poesia,
Com a humildade daqueles que sabem
Que a musa ou inspiração é uma dádiva de Deus,
Escrevo porque penso que meus versos são lindos,
Porque para mim eles são realmente bonitos,
É assim que eu os sinto, é assim  que eu os vejo,
É assim que eu penso que vocês estão vendo,
Porque sei que vocês também são poetas
E  o poeta não lê só com os olhos,
mas com a alma.
Se julgarem ultrapassados os meus versos,
Se os julgarem desprovidos de verbosidade,
Se os julgarem rudes pelo caipirismo,
Eu confesso humildemente:
         EU SOU POETA
Amo a poesia como amo a vida,
Amo a poesia que não morre nunca
Como amo a vida que transcende a morte.
_____________
         Hildemar Cardoso Moreira é autor do livro “Contenda, sua história e sua gente!”

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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