Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 344)


Uma Trova de Bandeirantes/PR
Istela Marina de Souza Gotelipe Lima

Não choro o tempo perdido
num caminho mal traçado:
o que já foi percorrido,
bem ou mal foi caminhado...

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Ialmar Pio Schneider

Um verso pobre, uma trova,
merecem sempre acolhida,
pois o sonho se renova
a cada instante da vida.

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

IGUAÇU 

Ó rio que nasceu onde nasci, ó rio
Calmo da minha infância, ora doce, ora má,
Belo estuário azul, espelhado e sombrio,
Quanto susto me deu, quanto prazer me dá!

Quantas vezes eu só, nestas manhãs de estio,
Ao vê-lo deslizar, pomposamente, lá,
Pálido não fiquei, tão majestoso vi-o,
Orgulho do Brasil, glória do Paraná!

Companheiro ideal! Durante toda a viagem,
Foi o espelho fiel a refletir a imagem,
Dos mantos e dos céus, discorrendo através

Da floresta, ora assim como um cão veadeiro,
A fugir, a fugir alegre e alvissareiro,
Ora deitado aqui quase a lamber-me os pés!

Uma Trova Humorística de São João do Meriti/RJ
Ivan Ribeiro da Conceição

Vai nascer. Meu Deus, compadre,
chame o médico, ligeiro!
- Não, - diz o pai - chame o padre:
nós vamos casar primeiro!

Uma Trova de Pacajus/CE
Ideusmar Faheina Chaves

Lembranças, sonho dourado,
que tenho constantemente,
pois inda guardo o passado
no cofre do meu presente.

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

PENA DE TALIÃO

"Um dia, andei contigo, ó pálida Glicera,
Num passeio ideal, entre árvores e fontes.
Tu tinhas na cabeça uma coroa d'hera,
E andávamos os dois, como uns Belerofontes...

Brilhava sobre nós uma infinita esfera.
Resplandecia o azul de um céu sem horizontes.
Tu tinhas o esquisito olor da primavera
E a graça e o frescor dos vales e dos montes...

Eu me vi tão feliz, minha volúpia d'ouro,
Correndo atrás de ti, do teu cabelo louro,
Nessa manhã de luz, sonoramente arfando,

Que até me pareceu, através do caminho,
Feito de luz e flor, de aromas e de arminho,
Que eu ia, porém, como um pássaro, avoando!"

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Amar e saber amar              
são dois pontos delicados:     
os que amam, são sem conta:
os que sabem, são contados.    

Uma Trova Hispânica do Estados Unidos
Isabel Zaragoza (Yasmina)

La sonrisa triste tienes
llena de melancolía,
por el amor que mantienes
pues se murió tu alegría.

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

SONETO DO SANGUE

Nada pode igualar o meu destino agora
Que o furor me feriu com um tirso de marfim,
Vede, não me contenho, o abutre me devora,
Com as suas mãos que são de nácar e jasmim...

Meu sangue flui, meu sangue ri, meu sangue chora,
E se derrama como o vinho dum festim.
Não há flauta que toque mais desoladora.
Ninguém o vê correr, mas ele não tem fim.

Possuísse, ao menos, eu, o dom de transformá-la
Numa folha, no aloés, no vento frio, do mar,
Ela que inda é mais fria e branca do que a opala...

Mas nada, nem sequer ao menos, eu, torcido
O tronco nu, o gesto doido, o pé no ar,
Hei de ver Salomé dançar como São Guido!

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Ieda Lage Passos Guaraná

A força de dois destinos
que se cruzam pela sorte,
qual dobre de velhos sinos,
canta a vida ou chora a morte!

Trovadores que deixaram Saudades
Ilza Montenegro
Queluz /SP (1912 – ????) Guaratinguetá/SP

Devemos o amor buscar
se a mocidade em nós arde.
Para quem fica a esperar,
ele sempre chega tarde!...

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

O BRIGUE

Num porto quase estranho, o mar de um morto aspecto,
Esse brigue veleiro, e de formas bizarras,
Flutua há muito sobre as ondas, inquieto,
À espera, apenas, que lhe afrouxem as amarras...

Na aparência, a apatia amortece-lhe o esforço;
Se uma brisa, porém, ao passar, o embalsama
Ei-lo em sonho, a partir, e, então, empina o dorso,
Bamboleia-se, mais gentil do que uma dama...

Dentro a maruja acorda ao mínimo ruído,
Deita velas ao mar, à gávea sonda, o ouvido
Alerta, o coração batendo, o olhar aceso...

Mas a nau continua oscilando, oscilando...
Ó quando eu poderei, também, partir, ó quando?
Eu que não sou da Terra e que à Terra estou preso?

Uma Trova de Socorro/SP
Ildefonso de Paula

Sendo tão linda, a dentista
fez uma escolha bem certa,
todo mundo que a avista
já fica de boca aberta...

Um Triverso de Boa Vista/RR
Eliakin Rufino

com um traço
o desenhista faz
o vôo do pássaro.


Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

VEIO 

Di-lo tanto fulgor maravilhoso, di-lo
Este clarim de sol rubro do meu anseio,
Este verde de mar, como um sono tranquilo,
Este límpido céu azul, como um gorjeio,

Alto, bem alto, assim, para que eu possa ouvi-lo,
Que ela, vencendo o mar, transpondo o serro, veio,
Todo cheirando, em flor, o perfumado seio,
Bela, sonora, ideal, como a Vênus de Milo...

Fosse vaidade ou amor, desespero ou ciúme,
Que a trouxeram aqui, como um leve perfume,
Ou fossem, ai! de mim! raivas e temporais,

Veio, mas com a graça e a própria luz do dia...
Ó prazer que me faz soluçar de alegria,
E respirar, e crer nos deuses imortais!

Uma Trova de Mar de Espanha/MG
Ilza Tostes

Nesta casa de sapê,
cobertinha de luar,
que pena não ter você
para comigo sonhar!

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

GRAÇAS TE RENDO...

Graças te rendo aqui, preciosa Senhora,
Que, num simples olhar de ternura, tiveste
O dom de me elevar, assim como o fizeste,
Entre os brasões do amor e as púrpuras d'aurora...

O dom de me fazer acreditar que veste
O humano coração, como acredito agora,
Não o lodo, porém, o linho; que se adora,
O linho que fulgura em pleno azul-celeste...

Sei que os votos que são trabalhados com arte
Hão de os deuses cumprir, ó luz maravilhosa:
— Sê, pois, bendita, sê bendita em toda parte!

Que onde fores pisar, que por onde tu fores:
A lama se transforme em pétalas de rosa,
As víboras em fruto, os espinhos em flores!

Uma Trova de Salesópolis/SP
Inocêncio Candelária

Desejo, às vezes, fazer
certas coisas que não devo.
Mas penso no meu dever
e a fazê-las não me atrevo...

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

AO CAIR DA TARDE

Agora nada mais. Tudo silêncio. Tudo,
Esses claros jardins com flores de giesta,
Esse parque real, esse palácio em festa,
Dormindo à sombra de um silêncio surdo e mudo...

Nem rosas, nem luar, nem damas... Não me iludo,
A mocidade aí vem, que ruge e que protesta,
Invasora brutal. E a nós que mais nos resta,
Senão ceder-lhe a espada e o manto de veludo?

Sim, que nos resta mais? Já não fulge e não arde
O sol! E no coril negro deste abandono,
Eu sinto o coração tremer como um covarde!

Para que mais viver, folhas tristes do outono?
Cerra-me os olhos, pois, Senhor. É muito tarde.
São horas de dormir o derradeiro sono.

Um Haicai de São Paulo/SP
Edson Kenji Iura

Operários somem
Ao longo da passarela
Envoltos na névoa.

Uma Trova de Senhor do Bonfim/BA
Isaú Almeida Lola

O coração tem razão
quando pensa que morrendo
fica em outro coração
e continua vivendo.

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

DE UM FAUNO

Acordaste mais cedo, em teu roupão de linho,
Nessa alegre manhã cor-de-rosada e fria.
Como foi belo o sol! o sol como floria!
Era uma só canção: o aroma, a luz, o ninho.

Esperavas teu noivo, oh! Ema! oh! cotovia!
E era tão forte o teu delicioso carinho
Que, ébrio contigo, tudo acordou, ébrio, um vinho
Espumava, a dourar, como os vinhos da Hungria.

Cega, no meio desse amplo esplendor sonoro,
Nada mais vias, cruel, senão teu sonho de ouro
Mais pomposo que um deus moço, numa equipagem...

Ao teu lado não viste um fauno, não me viste,
Ema! a sorrir, também, como uma nódoa triste,
Da Inveja — alteza real! — dissimulado pajem.

Recordando Velhas Canções
Poema do olhar
(samba-canção, 1962)

Evaldo Gouveia e Jair Amorim

Em teu olhar busquei perdão
Busquei sorriso e luz
Achei meu sol
Vivi meu céu
Meu céu em teu olhar

Olhando a ti
Eu me perdi pelos caminhos
Quem me chamar
Vai me encontrar nos teus olhinhos

Em teu olhar, estranho olhar
Meu sonho um dia se acabou
Nos olhos teus
Existe amor, existe adeus

Uma Trova de Bom Jardim/PE
Israel Fonseca

Recordo e a dor que me invade
não fere, não desagrada.
-é que de certo a saudade
é a lembrança estilizada...

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

VENCIDOS 

Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infetos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!

Um Haicai de São Paulo/SP
Débora Novaes de Castro

na ribalta
uns restos de luar
dançarinos solitários

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP
Ivan Augusto de Andrade Teixeira

Agora, no firmamento,
numa eterna primavera,
entre as liras do momento,
vivo à luz de uma quimera.

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

D. JUAN

Sensível, como quem podia ser, apenas
Mais vão do que uma sombra um gesto perpassou,
E logo desse herói, revoltas as melenas,
Brilhava o estranho olhar, que tanto ambicionou...

Era uma confusão. Pálidas e morenas,
Cada qual, cada qual, como Deus a formou,
Não foi uma, nem dez, porém foram centenas
As mulheres por quem D. Juan desesperou...

Todas, todas que viu, ele mordeu de beijos,
Enraiveceu de amor, poluiu de desejos,
Tomado de furor, doido d'embriaguez...

Um delírio! Porém, D. Juan era um artista
E portanto cruel, nervoso, pessimista,
E de resto, o infeliz nunca se satisfez!

Hinos de Cidades Brasileiras
Salto do Lontra/PR

Foi chegando o Bandeirante
Seu semelhante a irradiar
A esperança d'alma nobre
Na grandeza do lugar

Mais que a terra tão selvagem
Foi valente o sonhador
Fez brotar da terra bruta
O feijão, a paz e o amor.

(Refrão)
Salto do Lontra és coração do sudoeste
A Senhora Aparecida é quem vigia seu andar
Pelos caminhos da bonança que fizeste
Salto do Lontra és esperança, és Paraná (bis)

O Iguaçu vai junto ao Lontra
Procurando enriquecer
As colinas montanhosas
Onde o sol te viu nascer

De Caxias foi a Salto
Onde a beleza foi morar
No coração do sudoeste
Fiz meu canto, fiz meu lar.

Uma Trova de Vassouras/RJ
Irene Lopes Guimarães

Me ceguem, me façam mudo,
me roubem todo o Universo,
me tirem, me roubem tudo
mas não me roubem meu verso!...

Um Soneto do Paraná
Emiliano Perneta
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

GATA 

Da brancura da pele e no gesto macio,
A carícia tu tens e a moleza de gata:
O teu andar sutil é doce como a pata
Desse animal pisando um tapete sombrio...

Tens uma morbidez lânguida de sonata.
Teu sorriso é polido, é fino e é muito frio...
Se as tuas mãos acaso eu beijo e acaricio,
Sinto uma sensação esquisita, que mata.

Quando eu tomo esse teu cabelo ondeado e louro,
E o cheiro, e palpo o teu corpo branco e felino,
Como te torces, pois, minha serpente de ouro!

O teu corpo se enrola em meu corpo amoroso,
E o teu beijo me aquece e vibra como um hino,
Animal de voz rouca e gesto silencioso!

Uma Setilha de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Pediu: - grave em minha tumba, 
"Aqui Jaz Um Cavalheiro"!
Porém sua catacumba
já devia o embusteiro.
O coveiro, inconformado,
pôs na tumba do finado: 
"Aqui Jaz Um Caloteiro"!


Anunciou: "É um assalto!"
com voz grossa, de machão,
sem tirar o salto alto,
...e aquele gesto de mão!…

Contam meus olhos vermelhos
que sofro, à tua passagem...
São teus olhos dois espelhos
que recusam minha imagem!...

Dona Cocota, que é "crente",
fica toda enfezadinha
se o seu velho diz, fremente:
- Vem cá, minha "cocotinha"!

Do tempo que passa, queixa-se
o velhinho, que é um espeto,
mas ouviu a ordem: "Mexa-se"...
e desmontou o esqueleto!

Eu te perdoo, confesso,
pelas recusas constantes:
É com "nãos" que eu sempre meço
a estrada azul dos amantes…

Hoje que a vaca Mimosa
'pula a cerca" e "esconde o leite",
o touro, perdendo a prosa,
instaurou um "Chifregate'…

Meu peito é casa vazia,
onde a incerteza, covarde,
bane a esperança do dia
achando sempre que é tarde...

Nada adianta tua escusa!
Cada não é novo ensejo:
- Vou, de recusa em recusa,
escalando o teu desejo!

Na minha sina vadia,
onde do tedio estou farto,
tu regressas cada dia,
entre as sombras do meu quarto.

Não meça nunca o tormento
pelo clamor mais pungente:
- Meu bem... o pior lamento
morre no leito... Silente!

Não peças perdão agora,
nem me fites de olhar triste:
- Regressa quem foi embora...
Tu, daqui, nunca partiste...

Nas nossas vidas amantes
a minha história se lê,
dividida toda em antes
ou em depois de você!

Na vida se descortina
o mais sublime mister:
- Num momento... ainda menina,
noutro momento... a mulher!

Nesta eterna sinfonia
de amanhãs, o grande mal
é esperar, a cada dia,
o som do acorde final!...

No leito de amor tão farto,
mesmo o dia mais cinzento
põe luzes dentro do quarto,
brilhando em cada momento.

Nosso amor, tal qual a prece
que a paz emana e irradia,
espalha um ar de quermesse
nas tardes de qualquer dia!

O amanhã não tem direito
de truncar nossos caminhos...
como pode o amor perfeito
medrar por entre os espinhos?...

O sonho talvez fugisse
da Humanidade descrente,
se um "depois" não existisse
na vida de tanta gente!

Outro cigarro... e a fumaça
dançando em meu devaneio,
lembra a mágoa que não passa,
lembra você... que não veio!

Palmilhando os descaminhos,
eu me cansei na viagem:
Mendigo de mil carinhos,
mil recusas na bagagem...

Teu desdém, naquele adeus,
fez-me este ser que padece,
tão infeliz, que até Deus
recusou a minha prece!

Toda mulher se concentre
nesta glória desmedida...
de ter no altar do seu ventre
o amanhã de nova vida!

Vida que sempre ensinais,
deusa potente que sois,
fazei que o meu "nunca mais"
tenha o sabor de um "depois"!

Volto à casa que é tão tua,
buscando amor em teus braços,
e até as pedras da rua
já reconhecem meus passos!

Chuvisco Biográfico do Poeta
Emiliano David Perneta, nasceu em um sítio de Pinhais/PR, na zona rural de Curitiba, em 1866.
         Considerado o maior poeta paranaense em seu tempo, começou influenciado pelo parnasianismo. Foi abolicionista, tendo feito palestras em defesa dos ideais libertários. Publicou artigos políticos e literários, assim como passou a incentivar, em Curitiba, a leitura de Baudelaire.
         Publicou seus primeiros poemas em O Dilúculo, de Curitiba, em 1883.
         Mudou-se para São Paulo em 1885, onde fundou a Folha Literária, com Afonso de Carvalho, Carvalho Mourão e Edmundo Lins, em 1888. No mesmo ano publicou "Músicas", de versos parnasianos, e o panfleto "Carta à Condessa D'Eu". Foi também diretor da Vida Semanária, com Olavo Bilac, e colaborador do Diário Popular e Gazeta de São Paulo.
         Republicano, no dia 15 de novembro de 1889 formou-se em direito pela Faculdade do Largo de São Francisco , e como orador da turma fez um discurso inflamado em defesa da República, sem saber que a mesma havia sido proclamada horas antes no Rio de Janeiro.
         Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1890. Lá, colaborou com vários periódicos e, em 1891, foi secretário da Folha Popular, na qual foram publicadas as manifestações inicias do movimento simbolista, assinados pelos poetas B. Lopes, Cruz e Sousa e Oscar Rosas.
         Após residir, por um curto período, em Minas Gerais, voltou ao Paraná em 1896, fixando-se então definitivamente em Curitiba, passando a exercer aí o jornalismo, a advocacia e o magistério. Criou a revista simbolista Victrix em 1902.
         Em agosto de 1911 foi aclamado “príncipe dos poetas paranaenses” em uma festa no Passeio Público3 . Em 1913 publicou o libreto Papilio Innocentia, para a ópera do compositor suíço Léo Kessler, baseado no romance Inocência do Visconde de Taunay.
         Sua obra poética mais importante inclui Ilusão (1911), Pena de Talião (1914) e Setembro (1934)(póstumo).
         Em 19 de dezembro de 1912, participou da fundação do Centro de Letras do Paraná4 , sendo seu presidente de 1913 a 1918.
         Faleceu no dia 19 de janeiro de 1921 na pensão de Oto Kröhne, em Curitiba.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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