Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 347)



Uma Trova de Ponta Grossa/PR
Manuel Maria Ramirez y Anguita

Muito pouco significa
a amizade morna e muda.
Aquele que te critica
é sempre quem mais te ajuda.

Uma Trova de Pau dos Ferros/RN
Manoel Cavalcante

A brisa bateu na porta
naquela noite abatida...
Trouxe uma esperança morta
pra minha face sem vida...

Um Poema de São Paulo/SP
Adélia Victória Ferreira

A TROVA

Quatro versos, apenas, quatro versos!
Sete sílabas, cada. Belas rimas
revezadas. Os temas, os diversos
tesouros de uma língua: Eis obras primas!

Pelos confins deste Brasil, dispersos,
trovadores, versados nas esgrimas
que essa arte exige, em cisma sempre imersos,
apresentam fartíssimas vindimas!

Conhecendo a ciência da poesia,
modelando os versos à perfeição,
quanta beleza o Trovador desfia!

E quando ele se apura e se renova,
lá de cima sorri, com emoção,
Luiz Otávio – o Príncipe da Trova!

Uma Trova Humorística de Juiz de Fora/MG
Mauro Macedo Coimbra

Dorme no beco e afinal
diz o ébrio, sem conforto:
-Eu também sou imortal,
não tenho onde cair morto"!

Uma Trova de Magé/RJ
Maria Madalena Ferreira

Chega ao fim a serenata...
E a Lua, mesmo cansada,
recolhe as taças de prata
das mesas da madrugada!

Um Poema de São Paulo/SP
Wilson de Oliveira Jasa

Amada Minha

Em teu corpo sensual tens o perfume,
Da mais sensível flor, rosa de amor;
Mas mesmo nos meus braços tens queixume,
Querendo para ti bem mais calor.

Voas em sonhos pra mim, qual vaga-lume,
Iluminando a noite com fulgor;
És minha doce amada com teu lume,
Que é meu nome em momento abrasador.

Inspiradora musa da poesia,
Que transporta meu ser na fantasia,
Fazendo-me viver o amor-paixão.

És tu, amada minha e companheira,
Minha mulher, e a amiga verdadeira,
Quem aquece minh’alma e coração.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

À noite quando me deito
eu rezo à Virgem  Maria,
para sonhar toda  a noite
com quem penso todo o dia.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Mirta Lílian Cordido

Cambio mis ojos gastados
por unos ojos sinceros
que al ver hacia mis costados
alumbren como luceros

Um Poema de São Paulo/SP
Analice Feitosa de Lima

Parece Tatuagem

Meu ser se incorporou à vida tua
de um modo tão incrível, tão seguro,
que eu tenho de deixar, mas continua
em ti minha esperança de futuro.

O meu apego tanto te cultua,
que o expresso em versos, rabiscando o muro.
E uma saudade ao meu redor flutua
enquanto no vazio eu te procuro.

Deixaste em meu viver enorme brecha
que sangra a todo instante e não se fecha,
porque a lembrança ao teu encontro vai.

Eu tento te esquecer mas não tem jeito.
E a tua imagem sufocando o peito,
parece tatuagem que não sai...

Trovadores que deixaram Saudades
Manuel José Lamas
Remoães/Portugal (1909 – 1973) Rio de Janeiro/RJ

Não vou além do que faço,
nem vou além do que digo.
Meu mundo está num abraço,
quando me abraço contigo...

Um Poema de São Paulo/SP
André Masini

PINCELADAS CONTRA O CÉU

 Não preciso de santos.
Não preciso de mortos, contrastando
na uniformidade cromática do céu.
Não preciso de amores especiais que já não tenha,
para o diálogo,
nestes minutos breves, de que você dispõe.

Não penso precisar de testemunhas,
avalizando estes sinais tão velhos
esfumados, respeitáveis,
convertidos à paixão humana
pelo próprio tempo.

Não sei de avaliações que reconheça sempre,
não posso crer em religiões teóricas
e espero não precisar de outras desculpas,
porque não as tenho.   

Não procurei propor molduras convincentes;
nunca aprendi na escola,
a arte de fazer bem feito sempre
para atirar na mesa, a forma,
como gostaria.

 Das infinitas coisas que seria possível
no espaço azul e aberto,
por trás destes sinais vermelhos,
não sei nem quero.

Não me posso permitir ainda,
a extravagância de um coral,
marcando o contraponto,
mas não, me sinto só, falando.

 Não preciso saber mais do que sei,
para sentir a urgência.
Não aceito os favores da magia,
não gosto, por costume antigo
dos sonhos achadiços,
nestas noites todas,
depois da confusão.

 Não creio na matemática dos fatos,
não participo
das melodias melosas com que esbarro,
como todo o mundo.

Riscos cruzando riscos, como uma estrutura
delimitam este espaço interno, nosso.
No bojo destes traços enredados
contra o azul do céu
proponho, para ambos,
um abrigo.

Uma Trova de Palmares/PE
Manoel Monteiro

Pobre não sou, que a pobreza
não pertence ao trovador:
fazer trovas é riqueza
dada por Nosso Senhor!

Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Yeda Prates Bernis

Lavadeiras de beira-rio.
Nas águas, boiando,
cores e cantos.

Um Poema de São Paulo/SP
Fernando Paixão

ALEIJADINHO

Na pausa do cinzel e das ferramentas
declinas perguntas à pedra.
Teus profetas elegem o ar
conhecem o volteio dos dias
pisam
o pergaminho das parábolas.
Doze vezes a pedra humanizada
respira
o silêncio das colinas.
Tuas mãos em descanso emocionam
o tempo fixado.

Uma Trova de Espírito Santo do Pinhal/SP
Manoel Dias Rosa

Buscando ler teu desgosto
na fonte que olhas chorando,
sob a imagem do teu rosto
vi duas pombas voando...

Um Poema de Casa Branca/SP
Sólon Borges dos Reis

CONTRÁRIOS

 Alguém terá que ser o último,
para que sejas o primeiro.

E só serás proclamado o vencedor,
quando abaixo de ti houver vencidos.

Mas, o amor é mais generoso que a vitória.
Porque não se alimenta da derrota.
Nem está condicionado.
Absoluto, independe do contraste.
Só o amor prescinde dos contrários.

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Marilda Ladeira

Na vida que a gente leva
Deus é fator de esperança
que muda em luz nossa treva
e a servidão em bonança!

Um Poema de Balneário Camboriú/SC
Pedro Du Bois

ESCUTAR

Escuto o barulho dos tambores
no som dos homens trabalhando
escuto o silêncio reservado do poeta
no alarido das crianças
escuto o sentimento extravasado
no discurso do profeta
escuto o anoitecer no cão que late
ao pássaro no voo indelével
escuto o raspar da pedra sobre a pedra
ao escutar você e não escuto nada

Um Haicai de Niterói/RJ
Yara Shimada Brotto

Ruflar de asas?
Pipa presa lá no alto...
Pobre criança...

Uma Trova de Pindamonhangaba/SP
Maurício Cavalheiro

Os carinhos com que pagas
os carinhos que te dou,
suturam todas as chagas
que a tua ausência criou!

Um Poema de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Junior

Todo o amor que não me tinhas
Todo o amor que não me tinhas
se escondeu num violão,
violando as "musiquinhas"
que se encontram sem refrão.

Todo o amor que não me tinhas
se espalhou do coração,
violento como as linhas
que me cortam toda a mão.

Todo o amor que não me tinhas
se encantou com a solidão,
solidário com as coisinhas
que se guardam no porão.

Todo o amor que não me tinhas
nunca teve compaixão
e fez pouco das florinhas
que deixei em sua mão.

Todo o amor que não me tinhas
sempre teve condição
de ver tudo que eu lhe tinha,
mas foi cego, coração.
Recordando Velhas Canções
A mesma rosa amarela
(samba, 1962)

Capiba e Carlos Pena Filho

Você tem quase tudo dela
O mesmo perfume
A mesma cor, a mesma rosa amarela
Só não tem o meu amor

Mas nestes dias de carnaval
Para mim você vai ser ela
O mesmo perfume, a mesma cor
A mesma rosa amarela

Mas não sei o que será
Quando chegar a lembrança dela
E de você apenas restar
A mesma rosa amarela
A mesma rosa amarela

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Messody Ramiro Benoliel

A saudade é bandoleira,
sem hoje, sem amanhã,
travosa qual a cidreira
rosada qual a romã !

Um Poema de Uberlândia/MG
Raquel Ordones

QUERIA SER SEU LIVRO DE CABECEIRA

Sabe aquele livro que você tem o maior cuidado?
E que volta e meia você o relé, e põe-se a refletir?
Aquele que por nada e para ninguém é prestado?
Aquele que você toca por ultimo antes de dormir?

Sabe aquele livro no qual você viaja e lê entrelinha?
Aquele que faz você preso, incondicional liberdade?
Aquele que invade sua mente e seu coração aninha?
Aquele com o qual você desabafa; é maior amizade?

Sabe esse livro que é seu preferido, até tira a poeira?
Esse que tem uma história que leva você às viagens?
Esse que alivia seu estresse e lhe enche de bagagens?

Então, queria muito de ser esse seu livro de cabeceira.
Esse; precisamente esse que está sempre ao seu lado.
Que carrega você desse mundo para outro encantado.

Um Haicai do Rio de Janeiro/RJ
Urhacy Faustino

Os meus sentimentos
- como origami em arame -
sempre em movimentos

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Milton Sebastião de Souza

Meus sonhos não são modelos;
alguns me fazem chorar...
Mas não tenho pesadelos:
pesadelo é não sonhar!...

Um Poema de Itajaí/SC
Samuel da Costa

Algumas mudanças, nenhuma mudança

Eu não deveria estar aqui!
Mas estou!
De pé diante de ti
Com o olhar indignado!
Mudo & Calado!
Sem nada para te dizer...

Eu não devia estar aqui!
Deveria estar por lá fora!
A gritar por liberdade.
Da minha gente
Do meu povo.

Deveria estar na rua
Em qualquer lugar
E em todos os lugares.
Mas não estou
Estou diante de ti
Mudo calado
Sem nada para te dizer.

Hinos de Cidades Brasileiras
Indiaroba/SE

Era começo do século XVIII
Catecúmenos vieram aqui se instalar
Em incursão entre os bravos silvícolas
Para a antiga "Feira da Ilha" habitar

Sobre as águas do rio que nos banha
Os imigrantes conseguiram aqui chegar
E entre os quais vieram ilustres jesuítas
Com a missão de evangelizar.

Abençoada seja Indiaroba
Recanto amado, hospitaleiro e sacrossanto
Iluminada seja Indiaroba
com a luz do Divino Espírito Santo

Disputaram os dois fortes caciques
capitães-mor: José de Oliveira Campos
e Manoel Francisco da Cruz e Lima
pela posse da Vila do Espírito Santo.

Se seria de Sergipe ou da Bahia,
foi decidido através Decreto-Lei
sendo, pois, a divisa o Rio Real da Praia
Ganhou a posse Sergipe Del-Rei!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Múcio Scévola Lopes Teixeira

Ante o chão amplo e fecundo
que nos guarda o teto e o pão,
qualquer queixa contra o mundo
é simples ingratidão.

Um Poema de Fortaleza/CE
Francisco José Pessoa

Nasce o sol, outra manhã
Se espreguiça, é novo dia
E a morte, má, se anuncia
No canto da acauã
Ave de agouro, malsã,
Que canta nossa desgraça
Sobrevoando a carcaça
Do boi que ontem era são
Hoje inerte jaz no chão
No pé do seco imbuzeiro
O meu verso tem o cheiro
Da poeira do sertão.

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Glosando A. A. de Assis (PR)

Mote
Chamaste meu pai de otário?
Repete-o, se és homem... vem!
- Chamei não, pelo contrário...
Mas que ele tem cara, tem!

Glosa

Chamaste meu pai de otário?
Pois saiba..., mexeu comigo!
Puxe logo o seu "rosário"
pois vou furar teu umbigo!

Cabra, não fale besteira!
Repete-o, se és homem... vem!
Pois comigo é na peixeira;
não dou sopa pra ninguém!

- Se eu chamei teu pai de otário?
- Isto é pergunta que faça?
- Chamei não, pelo contrário...
acho-o até um "boa praça"!

Eu juro, por Cristo, o Rei,
e por São José, também,
que, nem na "mente" eu falei..
Mas que ele tem cara, tem!

 

A fantasia é um brinquedo
para instantes enfadonhos:
nos porões - varrendo o medo,
na torre - embalando os sonhos...

Ao sofrer uma agressão
a terra não choraminga
nem esboça reação,
mas... cedo ou tarde, se vinga…

Circo de lona... de estacas,
pobre, no mundo a vagar...
E nessas bases tão fracas
o riso escolheu morar...

Com a lembrança marcada
por sofrimentos de outrora,
igual à pomba assustada
eu fujo aos sonhos de agora.

Esperança é a caminhante
que, ora animada, ora triste,
vai, teimosa, mais adiante,
quando a Certeza desiste.

Lago imóvel, preguiçoso,
que se espera repousante,
o sempre é um sonho enganoso
que só na perda é constante.

Meu olhar é um girassol,
avidamente a buscar
entre a aurora e o arrebol
o astro-rei do teu olhar!

Minha vizinha é tão feia
que, aparecendo à janela,
o furacão a rodeia
com medo de tocar nela!

Na pinga e de pito aceso,
pega a bela, o Serafim,
que no outro dia vai preso
nos braços de... um manequim,..

Na sala, a rica exibida
mostra o vaso e a amiga exclama:
- Mas... esse vaso, querida,
se usava... embaixo da cama!…

No amor não raro acontece
estranha feitiçaria:
quando a vontade aparece
desaparece a energia…

No entrechocar das espadas,
que a ambição maneja a fundo,
como esperar alvoradas,
se a luz é expulsa do mundo?...

No mistério de seus planos
vai, o futuro inclemente,
burilando os desenganos
que irá nos dar de presente!

0 grande, na trajetória
que palmilha passo a passo,
recebe em silêncio a glória
como recebe o fracasso.

O pato, à pata, zangado:
- Qualquer um pode notá-lo!
Aumentas teu rebolado
quando passas pelo galo!

O Sábio avança e recua
sobre um mistério esquisito,
onde um termo continua
termo sem termo.. Infinito!…

O sol, filetando o olhar,
pelo arvoredo introduz
agulhas para bordar
bailados de sombra e luz.

Para a saudade que anela
voltar à ventura morta,
o passado abre a janela,
mas nunca destranca a porta...

Pelos gênios fascinado,
me indago, com inquietude,
se a inveja será pecado;
se o que se inveja é... virtude..

Por nosso irmão não se conta
quem apenas nos exalta
e, sim, quem também aponta,
censurando a nossa falta.

“Pra que rouge?” – indaga a Tita,
à mãe vaidosa que o aplica.
“Pra que eu fique mais bonita!”
E a filha: “Por que não fica?...”

Quando, mãe, o tempo ingrato
em bruma a lembrança envolve,
bendigo o velho retrato
que teu rosto me devolve!

Quem só conhece negrume
por onde os passos conduz,
no piscar de um vagalume
pode aprender o que é luz.

- Raio de bicho malandro! -
o astronauta geme e sua
e a pulga, em seu escafandro,
vai de carona pra lua…

Recorre ao bom-senso e ordena
teu viver, pelo vivido.
O que o passado condena
não deve ser repetido.

Se era às crianças que um vulto
no escuro punha assustadas,
hoje o temor é do adulto
que anda à noite nas calçadas…

Sem o amor, que é fantasia,
a vida, que é realidade,
transporta mala vazia
no rumo da eternidade.

Se os meus juízes confundo
com falsa argumentação,
recebo o perdão do mundo,
mas não meu próprio perdão.

- Se te vais, por gentileza,
deixa a porta sem trancar!
Não me roubes a certeza
de que logo irás voltar!

Silencioso, palmo a palmo,
irreversível, tirano,
o tempo devora, calmo,
todo e qualquer sonho humano...

Sol e sombra na floresta
e uma brisa, erguendo a mão,
rege os compassos da festa
de sombra e luz, pelo chão.

Torna um sonho em realidade
e verás, com ironia,
que, por mais que ele te agrade,
foi mais bela a fantasia.

Vivo a sonhar: Quem me dera
que eu, no amor sempre frustrado,
em vez de ficar à espera,
um dia fosse o esperado.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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