Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 349)


Uma Trova de Maringá/PR
Dari Pereira

Longe, longe, na campina,
na hora em que a noite desce,
o céu, fechando a cortina,
reza conosco uma prece...

Uma Trova de Amarante/PI
Antonio Francisco da Costa e Silva
1885 – 1950

Opala de escrínio etérico,
fulgura o disco lunar...
É a lua um espelho esférico
onde a alma se vai mirar...

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

AMO

Amo com toda a força do meu ser.
Amo a beleza, a arte, uma canção.
Amo o eterno desejo de vencer.
Amo os versos que vêm do coração.

Amo as flores, é grande meu querer.
Amo essa amarga e triste solidão.
Amo os sonhos que estou sempre a tecer.
Amo o infinito em sua imensidão.

Amo também a morte, dura e fria.
Amo na morte, toda a ausência e dor.
Amo meu mundo em meio à fantasia.

Amo a tristeza, e mais, amo a alegria.
Amo a vida e esse mundo encantador.
Amo o amor, amo a paz, amo a poesia.

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Darly O. Barros

Era um chá, virou corrida,
só de velhinha beata,
mas, com tendência homicida,
pra cima de uma barata!

Uma Trova de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica

A noite caminha torta,
sem estrelas, sem luar...
Mesmo assim eu abro a porta,
querendo te ver chegar.

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

PEDIDO 

Peço aos irmãos, aos filhos e aos amigos,
que, quando a morte venha me levar,
não coloquem meu corpo nos abrigos
cimentados, gelados e sem ar!

E nem me ponham em belos jazigos!
Nesses lugares, eu não quero estar!
Tristeza e solidão são os perigos.
Minha alma quer seguir a navegar!

Por isso eu peço a quem me queira bem,
leve meu corpo longe ... até o mar!
Onde haja céu! Onde vente também!

Nesse lugar azul só de beleza,
lancem ao mar o que de mim restar,
quero ser parte dessa natureza!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Coração que a dois ama,
e que a dois quer agradar,
não ande enganando os outros,
veja com quem quer ficar.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Dora Yolanda Forletti

La sonrisa de tus ojos
es fragancia de mil flores
y transforma mis enojos
en arco iris de colores.

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

MEU COMPUTADOR TEM CORAÇÃO!

Sim, sou a favor da tecnologia,
pois ela traz, em si, muita emoção,
não é somente uma máquina fria...
O meu computador tem coração!!!

Ele me traz mensagens de alegria
que dão, a mim, grande satisfação,
termina a solidão e a nostalgia,
verdadeiro Dom Juan, de sedução!

Muitas horas felizes eu passei,
num doce navegar imaterial
que trouxe inspiração a estes meus versos!

Verdadeiros amigos encontrei,
e esse bonito amor virtual-real,
que uniu, então, os nossos universos!

Trovadores que deixaram Saudades
Djalma Andrade
Congonhas do Campo/MG (1894 – 1977)

Quando penso em ti, eu penso
tão alto, com tal tormento,
que chego a temer que os outros
escutem meu pensamento.

Uma Trova de Santos/SP
David de Araújo

Voltaste... E o sorriso leve
cuja lembrança prolongo,
foi qual uma frase breve
quebrando um silêncio longo...

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

EMOÇÕES

Chega a noite sozinha e tão escura,
e ao se encontrar com minha solidão,
renasce, de repente, uma ternura,
que envolve por completo o coração!

E num sentir bem doce e sem censura,
traz o calor de uma forte paixão,
na tepidez de uma amizade pura,
qual mecanismo de sublimação!

E a solidão e a noite se abraçando,
vão, passados amores, recordando
nesses instantes de divagações!

Mesclando, assim, tristeza e alegria,
nasce do pranto e riso, uma poesia,
que as musas intitulam: emoções!

Uma Trova de Joinville/SC
David José Passerino

Felicidade, afinal,
eu creio que nem existes...
- Não passas de um ideal
no desespero dos tristes...

Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Eolo Yberê Libera

Você se parece
com este galho de acácias
repleto de sóis.

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

NOITE TRISTE

Como disse o Poeta, eu poderia,
nesta noite imensa, de tristeza,
fazer um verso triste, sem magia,
sem métrica, sem rima, sem beleza!

Faz-se tão grande, a noite, que angustia
com esta solidão, e esta incerteza,
e eu procuro refúgio na poesia,
querendo embriagar-me de pureza!

Sinto bater mais forte, o coração,
aquecendo meu sangue, antes gelado,
numa tão breve e suave inspiração.

Vejo voltar, a mim, o sonho amado,
inundando minha alma de afeição,
transmutando esta noite em emoção!

Uma Trova de Campos dos Goytacazes/RJ
Denancy Melo Anomal

Dia a dia, mês a mês,
num desespero profundo,
eu aguardo a minha vez
de ser feliz neste mundo...

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

AZUL
Caminho à beira-mar, e embevecida,
a tanto azul, me sinto misturar;
este é o meu sonho, que a sonhar, convida,
é o paraíso em que eu quero ficar!

..Luz do horizonte, ao longe refletida,
mesclando o azul do céu e o azul do mar,
que fazem parte, já, da minha vida
vem, meu caminho, agora, iluminar!

Sem nunca ter sofrido um desengano,
nasce, esse amor, assim, tão soberano,
beijando o minuano do meu Sul!

O amor que surge, em mim, é mais que humano!
Por ser filha do céu e do oceano,
o meu nome, só pode ser azul!

Uma Trova de Fortaleza/CE
Deusdedit Rocha

A Saudade quando aperta
não quer saber de que lado,
porém uma coisa é certa:
alguém fica machucado.

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

DESPEDIDA

O mais duro de todos os momentos,
que magoa tão forte o coração,
é quando o pranto escorre com emoção
cheio de dor, cheio de desalentos!

A despedida é mais que uma agressão,
que chega destruindo os sentimentos,
numa tempestade de fortes ventos,
como se fosse o adeus, uma explosão!

Roubando, assim, toda a felicidade,
sinto no peito, essa cruel verdade:
As despedidas são violações!

Dizer adeus é algo que angustia,
como um mar negro, pleno de agonia,
onde se afogam tantas emoções!

Um Haicai de São Paulo/SP
Eunice Arruda

À beira do lago
aliso o brilho da lua
com as mãos molhadas

Uma Trova de Campos dos Goytacazes/RJ
Diamantino Ferreira

Para nos meter o malho,
como se fosse inimigo,
Deus inventou o trabalho,
deu-nos sogra por castigo!

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

OLHAR DE POETA

Sei que o olhar do Poeta é fascinante,
tem o brilho do Sol, tem seu calor;
possui uma alegria cativante,
em verdade, é um imenso mar de amor!

Esse olhar tem um “quê”, de embriagante,
tem perfume, beleza e tem frescor,
parece com o olhar quente de amante,
que, em momentos, se faz conquistador!

Nasce o poema no seu coração,
aflora livre no seu pensamento,
em ondas e mais ondas de emoção!

Pelas estradas todas do Universo
o Poeta verseja o sentimento
poetizando tudo com seu verso!

Recordando Velhas Canções
Samba em prelúdio
(samba, 1963)

Baden Powell e Vinícius de Moraes

Eu sem você não tenho porque
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar
E eu sem você sou só desamor
Um barco sem mar, um campo sem flor
Tristeza que vai, tristeza que vem
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém
Ai que saudade, que vontade de ver renascer nossa vida
Volta querida, os teus braços precisam dos meus
Meus abraços precisam dos teus
Estou tão sozinho,
tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Djalda Winter Santos

Deprimida, com saudade,
por saber que foste embora,
só me restou a vontade
de eu mesma jogar-me fora...

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

MEU MAR, MEU PARAÍSO...

Águas azuis, areia, praia, mar
e um lindo sol, surgindo no infinito,
que docemente as águas vem dourar,
deixam meu paraíso, mais bonito!

Feliz, eu lanço ao mar, em meu sonhar,
um barco de esperanças, quase um mito,
e, então, consigo vê-lo navegar,
num pranto de emoção, e alegre, o fito!

Vibra meu coração descompassado,
a boiar nesse mar só de alegria,
onde todo o ruim, foi afastado!

Esse mar, ora azul, ora dourado
serviu de inspiração a esta poesia
e em seus versos ficou eternizado!

Um Haicai de Paranapiacaba/SP
Fanny Luiza Dupré
(1911-1996)

Lágrimas da noite
orvalham a sepultura
na manhã dos mortos.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Dirce Montechiari

E nessa quase saudade
da vida que é fonte e foz,
cresce forte a dignidade
do amor que reina entre nós!

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

TEMPO E SOLIDÃO

Com o tempo avançando devagar
vemos crescendo sempre a solidão,
mesmo assim, temos que continuar
e vivermos somente de ilusão!

Todos que amamos, não vão mais chegar,
alagamos o nosso coração
com lágrimas choradas e a chorar
na saudade cheinha de emoção!

O tempo chega, assim, sempre inclemente,
sem lógica, sem juízo, inconsequente
em nossa vida. Inútil, sem vaidade!

E a juventude, antes, envolvente
se despede, sorrindo, então, da gente
e a nós só resta a triste realidade!

Hinos de Cidades Brasileiras
Paulo Frontin/PR

Uma serra chamada Esperança
Fez da mata uma oferta de paz
E acolheu este povo de longe
Que chegou sem olhar para trás
Com o tronco viçoso do pinho
Altaneiro sobre os cereais
Foi subindo uma prece a Sant'Ana
Pela força de um braço capaz.

Estribilho:
Lá no alto a bandeira se inflama
Alcançando o horizonte sem fim
De um herói exaltando a fama
É a cidade de Paulo Frontin.

O Iguaçu que divide fronteiras
Também une num mesmo ideal
As visões de um engenheiro valente
Com a fonte que verte cristal
O perfil ondulante borbulha
A riqueza latente no chão
Garantindo progresso e fartura
Ao que saiba dar seu coração.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Delcy Rodrigues Canalles

Fiz estranha pescaria
na ilha dos meus Desejos,
pois com anzóis de poesia
pesquei milhares de beijos!

Um Soneto de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

ENTARDECER
A paz do entardecer...Fascinação...
Com mil beijos de cor sobre o universo!
Eu sinto, bem no fundo, o coração
querer cantar essa beleza em verso.

Fazendo, dessa paz, sublimação,
inundando-se no belo, submerso,
vivendo, assim, total transmutação,
esquecendo que o mundo é tão perverso.

Vai sonhando mil sonhos coloridos,
cantando mil canções, só de alegria,
e esquece a solidão dos tempos idos.

Realizando assim sua utopia,
de posse, então, de sétimos sentidos,
contempla o pôr-do-sol em poesia!

Uma Trova e Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

A espreguiçadeira fala
para a rede: - Que injustiça!
- Ninguém mais em ti se embala,
e em mim, ninguém se espreguiça!
Nemésio Prata - CE

Glosando Dorothy Jansson Moretti 
Mote
A cadeira sem balanço,
a rede em triste orfandade...
Uma se rende ao descanso,
a outra embala a saudade.

Glosa
A cadeira sem balanço
com sua perna partida,
já não pode dar remanso
a quem lhe pede guarida!

Hoje, presa aos armadores,
a rede em triste orfandade,
cumpre sua pena, em dores;
numa cadeia sem grade!

A cigarra, no bem manso,
a formiga, na migalha...
Uma se rende ao descanso,
a outra, duro, trabalha.

A mocinha, no frescor,
a velhota, já de idade...
Uma a procura do amor,
a outra embala a saudade.

Sobre a Canção “Samba em Prelúdio”
         No final de 62, talvez considerando esgotado o ciclo bossa nova, ao lado de Tom Jobim, Vinícius de Moraes saiu de circulação, trancando-se em seu apartamento no Parque Guinle, para compor com o novo parceiro Baden Powell. Então, durante quase três meses, tempo em que consumiram vinte caixas de uísque, os dois fizeram 25 canções, o que deu uma media de 0,8 caixa por canção. Dessa produção obsessiva resultaram os famosos afro-sambas e mais algumas composições fundamentais, como “Samba em Prelúdio”, cuja letra pertence à vertente mais romântica da obra de Vinicius.
         Composto em forma contrapontística sobre um tema de Villa-Lobos (o prelúdio/introdução da “Bachianas n° 4”), “Samba em Prelúdio” é classificado pelos autores como uma homenagem ao mestre. Seu sucesso imediato, puxado pela gravação de Geraldo Vandré e Ana Lúcia, na ocasião jovens iniciantes que o poeta procurava ajudar, seria confirmado por outras gravações como a do próprio Vinícius com Odete Lara. (Fonte: A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34)

A casa ainda é aquela...
ainda é o mesmo portão...
na sala, a mesma aquarela
junto à mesma solidão!

Ao velho diz o brotinho:
"Quero fugir com você”.
Indaga o pobre velhinho:
"Fugir? Mas .. Fugir pra quê?"

Bates a porta ao chegar
e essa agressão não me importa.
- Eu prefiro acreditar
que o vento é que bate a porta.

Com ciúme, enfurecida,
deu nele tanta pancada,
que a amizade colorida
anda um pouco desbotada...

Com uma telefonista
casou-se um pobre coitado.
Agora, por mais que insista,
só dá “ramal ocupado”...

Da infância e de seus folguedos,
relembro instantes diletos,
quando sou, entre brinquedos,
brinquedo na mão dos netos!

De esperanças luminosas
vê se enfeita a tua mágoa:
- em meio às plagas rochosas
quase sempre há um veio d'água.

Deixei restos de carinho
sob insensatos protestos
e agora, triste e sozinho,
ando em busca desses restos ...

Depois que me abandonaste,
só te desejo um castigo:
que a insônia que me deixaste,
passe uma noite contigo!

Eis-me, de novo, defronte
das malhas de tua rede,
a beber da mesma fonte
que não matou minha sede...

Este amor traz-me ventura
num conflito que alucina:
Faz com que eu, mulher madura,
tenha sonhos de menina...

Fiz uma trova tão linda
para a flor que ele me deu...
Eu conservo a flor ainda
mas a trova ele esqueceu...

Foram risadas de estrondo
quando o pobre Waldemar
quis envelope redondo
para a "Carta Circular"...

Janela fechando e abrindo,
batendo a todo momento,
parece estar aplaudindo
a dança infernal do vento!

Mais triste que um céu cinzento,
mais cruel que a própria dor,
é aquele amor de momento,
sem mais momentos de amor!

Meu coração chora a perda
de momentos sedutores,
por ter sido um zero à esquerda
na soma de teus amores.

Muitos, fugindo aos fracassos,
têm, nas ingênuas conquistas,
o destino dos palhaços
imitando trapezistas...

Na humildade do meu ninho,
com teu amor que me enleia,
meu jantar de pão e vinho
tem ares de Santa Ceia!

Na liberdade pensando,
exulto com alegria,
vendo um pássaro cantando
e uma gaiola vazia.

Na minha doce ilusão,
ser uma trova eu queria,
aquela que tua mão
sem tremer assinaria.

Não há maior desengano
ferindo nosso saber,
do que ouvir um ser humano
revelar: “Eu não sei ler”.

Não há nada que esmoreça
o brasileiro animado:
- tá levando na cabeça
mas, polegar levantado!...

Na igreja, menina arteira,
- não é coisa que se enquadre -
mas... quase que vira freira,
ao saber quem era o padre...

Na paixão em que me abraso
tanto sol tem minha estrada,
que eu não troco o meu ocaso
pela mais linda alvorada!

Na prece tenho as respostas
da fé que perdura em mim:
tal como a cruz, não tem costas!
Tal como Deus, não tem fim!

Nos teus olhos rasos d’água,
sem ser pintor, eu pintei
uma aquarela de mágoa
com as mágoas que te dei.

Num capricho alucinado,
em vindoura encarnação,
eu quero ser o pecado,
se tu fores meu perdão!

O calor da mocidade
e os riscos da meninice
deixam brasas de saudade
sob as cinzas da velhice.

O pecado nos perdeu
e eu paguei logo depois.
Por que o castigo é só meu,
se a culpa foi de nós dois?

Os dilemas venceremos
com firmeza em nossos passos:
- remador que perde os remos
faz remos dos próprios braços...

Que idade tens? E eu, risonho,
respondo, sem me abalar:
- Eu tenho a idade que o sonho
permite um sonho sonhar!

Se acaso, um dia, escutares
na tua porta um lamento,
é o pranto dos meus pesares
gemendo na voz do vento.

Se em vez do bem que fizeste,
todo mal me houvesses dado,
- pela filha que me deste,
estarias perdoado!

Só hoje, de alma cansada,
sei minhas preces de cor:
é no fim da caminhada
que a gente reza melhor!

Só mesmo como piada
"pão dormido" não engorda,
pois na primeira dentada
é claro que o pão acorda!

Sou tímida, na verdade,
e você já percebeu .
Porém ... beije-me à vontade
porque a tímida sou eu...

Tão carinhosa ela é,
que, num amor desmedido,
chega a fazer cafuné
na peruca do marido.

Tua ausência, na verdade,
não traduz nenhum castigo:
vou me abraçando à saudade
até me encontrar contigo.

Tu partes com tal freqüência
que, embora em meio às promessas,
persiste um sabor de ausência
toda vez que tu regressas.

Vai, coração, vai teimoso,
vai por aí a bater
por um outro mentiroso,
que finge por ti bater.

Vens... não vens... e nessa espera,
o meu pranto vai deixando,
no mal que me desespera,
o bem de estar te esperando!

Vi, na magia de um bumbo,
enquanto ele ressoava,
os soldadinhos de chumbo
de um quartel que eu comandava...

Chuvisco Biográfico da Poetisa
         Gislaine Canales nasceu em Herval/RS, em 20 de abril de 1938. Fixou residência em Porto Alegre/RS.
         Bacharel em Pedagogia e Licenciada em Didática.
         Poetisa, Trovadora, Glosadora.
         Sócia Benemérita da UBT/União Brasileira de Trovadores, Cônsul de Poetas Do Mundo no Balneário Camboriú - SC.
         Membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú - SC cadeira 29,
         Acadêmica Fundadora da AVLLB - Academia Virtual de Letras Luso - Brasileira – cadeira N º 006
         Patronesse da AVSPE Academia Virtual Sala de Poetas e Escritores
         Sócia Correspondente da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte - ATRN.
         Membro benemérito do Centro Cultural, Literário e Artístico da Gazeta de Felgueras / Portugal e The International Academy of Letters of England.
          Troféu Destaque 2008 na UBT São Paulo.
         Recebeu o título de Embaixadora da Trova em nível Internacional do Sr. Ronaldo Dunlop, Embaixador do Brasil na Rep. Dominicana e Claudio Garibaldy Martínez Segura .
         Pertence a várias Instituições Literárias do Brasil e Exterior.
         Participa de várias Antologias Poéticas e dois Dicionários de Poetas.
         Livros Virtuais: “Glosas Virtuais de Trovas” (36 Volumes) com Glosas de Trovas de inúmeros Trovadores do Brasil e Exterior e “Glosando Lourivaldo Perez Baçan” e “Glosando Delcy Canalles” e “Glosando Joamir Medeiros” e “Glosando Adelmar Tavares” e “Glosando A A de Assis”e “Glosando Rodolpho Abbud”, e  Glosas de todas as Trovas Classificadas nos I , II e III Jogos Florais de Balneário Camboriú/SC.( 2004-2006-2008), Glosas de Trovas dos Acadêmicos da AVLLB. No Livro “Glosas Virtuais de Trovas XXXIV”, ultrapassou o número de 2.000 Glosas
          Edita uma revista mensal, virtual, sobre Trovas há muitos anos: a Trovamar.
         Possui trovas classificadas em inúmeros concursos.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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