Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 351)


Uma Trova de Bandeirantes/PR
Neide Rocha Portugal

Tua cantiga de amor
adormece em tempos idos,
mas o vento, a meu favor,
vem soprá-la em meus ouvidos!

Uma Trova de Valença/RJ
Nabor Fernandes Pinheiro

Aquele que desejar
viver na paz do Senhor,
deve cumprir e aceitar
as normas do bom humor.

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Uma Amiga

Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que tem pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!

Uma Trova Humorística de Pouso Alegre/MG
Newton Meyer Azevedo

"Não sou empregado avulso"!
Adão pede a Deus arrego.
 "Sem essa de TÊJE EXPULSO,
e o seguro desemprego?"

Uma Trova de Santa Inês/BA
Narciso da Silva Nery

Em minha porta bem larga
nunca passou a ventura,
e passa a tristeza amarga
no friso da fechadura...

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Na Mão De Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Eu amava-te, ó menina,
se não fora um só senão:
seres pia de água benta
onde todos põem a mão.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Nelly Noemi Nicolosi

Juventud  olvidadiza,
luz fugaz, te vi al pasar.
Caminé, corrí de prisa.
Al fin comprendí tu andar.

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Noturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!

Trovadores que deixaram Saudades
Nelson da Lenita Fachinelli
Porto Alegre (1935 – 2006)

No abecedário da dor
aprendi o que ora gravo:
- esta vida, sem amor,
não vale nem um centavo.

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP
Nilton da Costa Teixeira

Neste abraço em que te aperto,
com a beatitude de um monge,
sinto meu amor tão perto...
minha esperança tão longe!

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Primeiros Conselhos do Outono

Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
- Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima solidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da ilusão!

Mais valera a tua alma visionaria,
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia,

(Sem ver uma só flor das mil, que amaste,)
Com ódio e raiva e dor - que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!

Uma Trova de Ribeirão Preto/SP
Nilton Manoel de Andrade Teixeira

Na caminhada, maduro,
ponho fogo na fornalha,
quero deixar ao futuro,
as lições de quem trabalha.

Um Haicai de Mairiporã/SP
Shinobu Saiki

Garoa brusca
une forte o casal
sob a sombrinha.

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Idílio

Quando nós vamos ambos, de mãos dadas,
Colher nos vales lírios e boninas,
E galgamos dum fôlego as colinas
Dos rocios da noite inda orvalhadas;

Ou, vendo o mar das ermas cumeadas
Contemplamos as nuvens vespertinas,
Que parecem fantásticas ruínas
Ao longo, no horizonte, amontoadas:

Quantas vezes, de súbito, emudeces!
Não sei que luz no teu olhar flutua;
Sinto tremer-te a mão e empalideces

O vento e o mar murmuram orações,
E a poesia das coisas se insinua
Lenta e amorosa em nossos corações.

Uma Trova de Santos/SP
Nilo Entholzer Ferreira

Na prova dos meus desejos,
só de um cálculo bem sei:
contei todos os teus beijos...
Só não sei quantos te dei...

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Sonho 

Sonhei - nem sempre o sonho é coisa vã -
Que um vento me levava arrebatado,
Através desse espaço constelado
Onde uma aurora eterna ri louçã...

As estrelas, que guardam a manhã,
Ao verem-me passar triste e calado,
Olhavam-me e diziam com cuidado:
Onde está, pobre amigo, a nossa irmã?

Mas eu baixava os olhos, receoso
Que traíssem as grandes mágoas minhas,
E passava furtivo e silencioso,

Nem ousava contar-lhes, às estrelas,
Contar às tuas puras irmãzinhas
Quanto és falsa, meu bem, e indigna delas!

Uma Trova de Recife/PE
Nicolino Limongi

Uma criança vadia
é um atestado bem triste
do quanto de hipocrisia
nas leis humanas existe...

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Consulta 

Chamei em volta do meu frio leito
As memórias melhores de outra idade,
Formas vagas, que às noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito...

E disse-lhes: No mundo imenso e estreito
Valia a pena, acaso, em ansiedade
Ter nascido? Dizei-mo com verdade,
Pobres memórias que eu ao seio estreito.

Mas elas perturbaram-se - coitadas!
E empalideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena...

E cada uma delas, lentamente,
Com um sorriso mórbido, pungente,
Me respondeu: - Não, não valia a pena!

Um Haicai de João Pessoa/PB
Saulo Mendonça

À tarde, no porto
Eles se amavam
E ficavam a ver navios.

Uma Trova de São Paulo/SP
Nide Fontana Becaccia

Juras de amor são promessas
que nem sempre são cumpridas.
- Garantias às avessas,
ou promissórias falidas.

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

O Palácio da Ventura 

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Recordando Velhas Canções
Parei na contramão
(rock, 1963)

Roberto Carlos e Erasmo Carlos

Vinha voando no meu carro quando vi pela frente
Na beira da calçada um broto displicente
Joguei o pisca-pisca a esquerda e entrei
A velocidade que eu vinha não sei
Pisei no freio obedecendo ao coração e parei, (parei)
Parei na contramão
O broto displicente nem sequer me olhou
Insisti na buzina, mas não funcionou
Segue o broto o seu caminho sem me ligar
Pensei por um momento que ela fosse parar
Arranquei a toda e sem querer avancei o sinal
O guarda apitou
O guarda muito vivo de longe me acenava
E pela cara dele eu vi que não gostava
Falei que foi o cupido quem me atrapalhou
Mas minha carteira pro xadrez levou
Acho que esse guarda nunca se apaixonou
Pois minha carteira o malvado levou
Quando me livrei do guarda, o broto não vi
Mas sei que algum dia ela vai voltar
E a buzina desta vez eu sei que vai funcionar, bi bi...

Uma Trova de Porto/Portugal
Noel de Arriaga

Casar? Casarmos os dois?
Não vejo qual o proveito.
Só faríamos depois
o mesmo que temos feito...

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Transcedentalismo 

Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...

Não é no vasto Mundo - por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade -
Que a alma sacia o seu desejo intenso...

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!

Um Haicai de Cotia/SP
Saint-Clair Cavenaghi

gotejar sem chuva
no jardim oculto
brumas de abril.

Uma Trova de Viçosa/CE
Raimundo Estevão Pereira
(Nordestino Filho)

Muitas vezes tem a vida,
a nossa vida sem graça,
a ventura resumida
num curto instante que passa...

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891 

Lacrimae Rerum

Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!

Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?

Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas...

É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas...

Hinos de Cidades Brasileiras
Angicos/RN

Salve Angicos cidade pioneira
Cujos nomes de heróis se proclamou
O teu solo regado com o sangue
Dos teus filhos que aqui os procriou.

Angicanos predestinados (bis)
Coração e alma varonil
Conquistaste a glória
Cantarás vitória
Sempre de pé pelo Brasil.

Angicanos soldados centro norte
Artilheiros cidade cidadãos
Para nós o teu nome
É uma bandeira
A bandeira da nossa redenção
Deus bem quis que marcada tu ficastes
Grandes nomes ilustres no Brasil
Caminhai e cantai com alegria
Aos teus filhos que aqui te consagrou
Juventude forte e varonil.

Angicanos predestinados (bis)
Coração e alma varonil
Conquistaste a glória
Cantarás vitória
Sempre de pé pelo Brasil.

Agricultores, operários e doutores
Batalharam com coragem e amor
Nós que queremos neste dia exaltar
Todos eles que lutaram com fervor.

Angicanos predestinados (bis)
Coração e alma varonil
Conquistaste a glória
Cantarás vitória
Sempre de pé pelo Brasil.

Uma Trova de Niterói/RJ
Nereu Humberto Frickman

Vence, do tempo que passa,
a mais saudosa distância,
aquele que alegre abraça
um velho amigo de infância.

Um Poema de Ponta Delgada/Portugal
Antero de Quental
1842 – 1891

A um Poeta
(surge et ambula)

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Glosando Héron Patrício (SP)

Mote
Sai do bar - e já sem prumo -
tropeçando, cuca em brasa,
pergunta, todo sem-rumo:
- "Onde mora a minha casa?"

Glosa

Sai do bar - e já sem prumo -
com sua cabeça "feita",
diz o Saraiva, sem rumo:
- Eita calçadinha estreita!

Caminhando em ziguezague
tropeçando, cuca em brasa,
o Saraiva, e não é blague,
perdeu o rumo de casa!

E neste seu desarrumo,
o Saraiva, já abatido,
pergunta, todo sem-rumo:
será que eu estou perdido?

A mulher, cheia de raiva
respondeu: - Na cova rasa! -
ao perguntar-lhe o Saraiva:
- "Onde mora a minha casa?"

Sobre a canção “Parei na contramão”
A dupla Roberto e Erasmo Carlos tratou de criar o seu próprio repertório. Assim, apesar do êxito inicial de Roberto ter sido uma versão de “Splish Splash” (Bobby Darin e Jean Murray, versão de Erasmo Carlos), logo aconteceria, incluído no mesmo elepê, “Parei na Contramão”, um dos primeiros grandes sucessos de autoria brasileira na área do rock.
         Como a maior parte do repertório americano no gênero, os três acordes fundamentais dos blues — tônica, subdominante e dominante — constituem a base de sua melodia, enquanto a letra explora um símbolo de status da juventude, o automóvel. O espírito de rebeldia e o impulso dançante do jovem estão presentes nesta gravação, marcada pela guitarra, contrabaixo e a voz anasalada do ídolo da mocidade brasileira nos anos seguintes, Roberto Carlos (Fonte: A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 3) 


A existência – uma jornada...
E eu vejo, desde menino,
mais graça ao longo da estrada
que no lugar de destino…

Agora vivemos sós...
e dói, de modo incomum,
saber que o abismo entre nós
não teve motivo algum!

A apatia afasta mais
que os longes quilometrados,
pondo abismo entre casais
às vezes de braços dados!...

As nossas almas, amigo,
eram tão gêmeas, que, ao fim
da convivência contigo
senti saudades de mim!...

A utopia, em minha mente,
traduz-se desta maneira:
– Um lugar inexistente
que existirá, caso eu queira!...

Curvem-se todos os sábios
ante o saber infinito
que a mãe derrama dos lábios,
mesmo sem nada ter dito!

Dai-me perdão para o amor
contrário ao Vosso preceito.
Sei tantas coisas, Senhor,
menos amar de outro jeito!

“Darás à luz” – Anuncia
alguém do Eterno oriundo.
Plena de Graça, Maria
diz “Sim!” e transforma o mundo!

É do passado a lição,
mas com valor no presente:
- Só pode ter corpo são
quem tem saúde na mente.

“Eis o homem!”, diz Pilatos.   
E a turbamulta sem luz,
no mais insano dos atos,
responde aos gritos: “À cruz!”

Em Friburgo, qual Moisés,
julguei que Deus me dizia:
- "Tira as sandálias dos pés,
que estás no chão da poesia!"

Encontrei, como num sonho,
este amor forte e sem fim:
- a ponte na qual transponho
abismos dentro de mim...

É pequena, mas se expande
pondo em trovas mil louvores;
Jambeiro - cidade grande
no mapa dos trovadores!

É triste ver alguém cheio
deste vazio medonho:
- ter feito apenas rodeio
em torno de um grande sonho!

Eu amo... e, de tal maneira
o amor em mim se enclausura,
que sempre estou na fronteira
entre a razão e a loucura!...

"Eu volto!" - Falsa promessa
que ela ainda crê verdadeira,
pois, da varanda, não cessa
de contemplar a porteira...

Feliz Natal, com certeza,
promoverás, meu irmão,
se o pão que sobra na mesa
chegar às mesas sem pão.

Ficou mais lento o meu passo?
Caminharei, mesmo assim!
Só temeria o cansaço
se me cansasse de mim..

Mãos calosas... Entretanto,
cingem de amor o filhinho...
Roseira não perde o encanto,
apenas por ter espinho!…

Nasceu do acaso este amor...
cresceu...e, agora, acredito,
é bem capaz de transpor
as fronteiras do infinito!…

No rodeio do existir,
peço a Deus, a todo instante,
que eu não caia e, se cair,
com mais força me levante.

Nos meus braços estarias,
se tu não fosses, querida,
a maior das utopias
que acalentei nesta vida!

No Vosso martírio, eu pude
ver quatro quedas, Jesus,
quando um velho, sem saúde,
caiu na fila do SUS!...

O amor que escolhi um dia
expõe-me à língua do povo?
Dane-se o povo! Eu faria
a mesma escolha, de novo!

O que eu mais quero na vida
é a paz reinando na Terra,
mas não a paz confundida
com mera ausência de guerra...

Por mais que sofra, eu espero
ouvir somente a verdade;
é melhor o “não” sincero
do que o “sim” da falsidade.

Quando, amigo, nos teus ombros
deitei o rosto tristonho,
tu me ergueste dos escombros
que a vida fez do meu sonho!

São tantas encruzilhadas!...
 Por isso eu me perco assim,
ao trafegar nas estradas
que existem...dentro de mim!...

Se tu te julgas montanha,
convém que então te assinales
pela bondade tamanha
de dar proteção aos vales.

Se o nosso amor é pecado,
esconda-o lá nos refolhos...
e só me mande recado
pelas meninas... dos olhos!

Sou quase feliz, querida.
Aceita ser minha e faze
que seja, então, destruída
a tal barreira do... quase!

Venceste alguém... e sorris
numa explosão de prazeres...
Serás, porém, mais feliz
quando a ti mesmo venceres...

Olympio S. Coutinho (Histórias da trova) Parte I

O texto abaixo tem uma única pretensão: a de levar ao conhecimento dos interessados episódios envolvendo a trova em minha vida e parte do trabalho de trovadores pioneiros de sua maior divulgação no Brasil, a partir, principalmente, do final da década de 50 e início dos anos 60, do qual fui testemunha. Sou personagem, mas espero que a pretensão deste texto seja apreendida e compreendida, pois consciente sou de que Deus privou-me do sentimento de exagerada vaidade.

Capítulo I - Doce pássaro da juventude

Comecei a fazer trovas muito cedo, inspirado em uma trova apresentada em sala de aula de Português e atribuída a Alexandre Dumas:

“São as rosas que florescem,
são os espinhos que picam,
mas são as rosas que caem,
são os espinhos que ficam”.

Era em Ubá, em 1958, e foi colocada no quadro negro pelo professor Francisco De Fillipo visando nos exercitar em análise sintática. A trova chamou minha atenção e resolvi tentar fazê-las. Não foi muito difícil: eu tinha 18 anos, andava apaixonado e estávamos na entrada dos que, mais tarde, seriam chamados “os anos dourados”: a ânsia pela liberdade e a gostosa sensação que ela proporciona estavam soltas no mundo – e também no Brasil. Comprei, sem qualquer referência, alguns livros de trovas, rabiscava algumas em um diário que mantinha (e que tenho até hoje - uma delícia para ler agora!) e elas foram saindo.

Ubá, no início dos anos 60, os anos dourados, era uma cidade pequena, quase todos se conheciam e o que um e outro faziam todos ficavam rapidamente sabendo. Aconteceu comigo, que fiquei conhecido como poeta e trovador. Escrevia trovas nos jornais locais: Folha do Povo e Cidade de Ubá, e, certa vez, recebi um encargo de um amigo de então e amigo até hoje, Honório Joaquim Carneiro. Nascera sua filha Helena e ele me pediu uma trova em sua homenagem. Fiz:

"Eu vi a vida nascendo
em meio aos meus desencantos;
foi quando, filha, nasceste:
Helena dos meus encantos".

Em sua coluna na Folha do Povo Honório publicou a trova com uma exagerado título: "A Trova do Século". De outra vez, ao ser cobrado por alguns conhecidos que pediam, ironicamente: “Ô, poeta, faz uma quadrinha aí!”, afastei-me, mas voltei logo e declamei:

“Deus me livre dos amigos,
eu peço aos Céus de mãos postas,
depois que vi que os “amigos”
falam de mim pelas costas”.

continua… 

Chuvisco Biográfico do Poeta
         Antero Tarquínio de Quental nasceu na cidade de Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, Açores/Portugal, em 18  de abril de 1842.
         Começa seus estudos pelo francês, em 1847. Em agosto de 1852 vai com sua mãe para Lisboa, matriculando-se no Colégio do Pórtico.
         Em 1856 inscreve-se como aluno interno no Colégio de São Bento, em Coimbra.
         Escreve os primeiros versos que lhe são conhecidos numa carta enviada a seu irmão André.
         Em 1858, após algum tempo de estudo em Lisboa, com a ajuda de seu tio Filipe de Quental, conclui os estudos preparatórios para o ingresso na Universidade de Coimbra, onde se matricula em Direito.
         Em abril é condenado pelo Conselho de Decanos a oito dias de prisão por, com outros estudantes, ter tomado parte num ato praxístico. Manifesta ali suas primeiras idéias socialistas. Fundou em Coimbra a Sociedade do Raio, que pretendia renovar o país pela literatura.
         Em 1861, publicou seus primeiros sonetos. Quatro anos depois, as Odes Modernas, influenciadas pelo socialismo experimental de Proudhon, enaltecendo a revolução. Nesse mesmo ano iniciou a Questão Coimbra, em que Antero e outros poetas foram atacados por Antônio Feliciano de Castilho, por instigarem a revolução intelectual. Como resposta, Antero publicou os opúsculos Bom Senso e Bom Gosto, carta ao Exmo. Sr. Antônio Feliciano de Castilho, e A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais.
         Ainda em 1866 foi viver em Lisboa, onde experimentou a vida de operário, trabalhando como tipógrafo, profissão que exerceu também em Paris, entre janeiro e fevereiro de 1867.
         Em 1868 regressou a Lisboa, onde formou o Cenáculo, de que fizeram parte, entre outros, Eça de Queirós, Abílio de Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão.
         Foi um dos fundadores do Partido Socialista Português.
         Em 1869, fundou o jornal A República, com Oliveira Martins, e em 1872, juntamente com José Fontana, passou a editar a revista O Pensamento Social.
         Em 1873 herdou uma quantia considerável de dinheiro, o que lhe permitiu viver dos rendimentos dessa fortuna.
         Em 1874, com tuberculose, descansou por um ano, mas em 1875, fez a reedição das Odes Modernas.
         Em 1879 mudou-se para o Porto, e em 1886 publicou aquela que é considerada pelos críticos como sua melhor obra poética, Sonetos Completos, com características autobiográficas e simbolistas.
         Em 1880, adotou as duas filhas do seu amigo, Germano Meireles, que falecera em 1877.
         Em Setembro de 1881 foi, por razões de saúde, e a conselho do seu médico, viver em Vila do Conde, onde fixou residência até Maio de 1891, com pequenos intervalos nos Açores e em Lisboa. O período em Vila do Conde foi considerado pelo poeta o melhor período da sua vida.
         Em 1886 foram publicados os Sonetos Completos, coligidos e prefaciados por Oliveira Martins. Entre março e outubro de 1887, permaneceu nos Açores, voltando depois a Vila do Conde.
         Devido à sua estadia em Vila do Conde, foi criada nesta cidade, em 1995, o "Centro de Estudos Anterianos".
         Em 1890, devido à reação nacional contra o ultimato inglês, de 11 de janeiro, aceitou presidir à Liga Patriótica do Norte, mas a existência da Liga foi efêmera. Quando regressou a Lisboa, em maio de 1891, instalou-se em casa da irmã, Ana de Quental.
         Portador de Distúrbio Bipolar, nesse momento o seu estado de depressão era permanente.
         Após um mês, em junho de 1891, regressou a Ponta Delgada, suicidando-se no dia 11 de setembro de 1891, com dois tiros na boca, disparados num banco de jardim de um convento, no Campo de São Francisco Xavier.
         Os seus restos mortais encontram-se sepultados no Cemitério de São Joaquim, em Ponta Delgada.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to