Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 355)



Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez

Todo dia é da Criança
e também do Professor:
um aprende com confiança
e outro ensina com amor.

Uma Trova de São Paulo/SP
Humberto Poeta

Lá fora ainda está chovendo
milhões de pingos dispersos,
tempo bom pra estarmos lendo
a nova Chuva de Versos.

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Como é Bom Ser Bom

Tu, que vês tudo pelo coração,
Que perdoas e esqueces facilmente,
E és, para todos, sempre complacente,
Bendito sejas, venturoso irmão.

Possuis a graça como inspiração
Amas, divides, dás, vives contente,
E a bondade que espalhas, não se sente,
Tão natural é a tua compaixão.

Como o pássaro tem maviosidade,
Tua voz, a cantar, no mesmo tom,
Alivia, consola e persuade.

E assim, tal qual a flor contém o dom.
De concentrar no aroma a suavidade,
Da mesma forma, tu nasceste bom.

Uma Trova Humorística do Rio de Janeiro/RJ
Gilson Faustino Maia

Terá de graça o velório”
e, se for homem, coroa.
Se for mulher, falatório:
Que pena, como era boa!

Uma Trova de Santos/SP
Ana Maria Guerrize Gouveia

Desperta-me a Paz de um grito:
quando os sonhos são diversos...
rebuscando no infinito,
o amor com Chuva de Versos!!!

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

São Francisco e o Rouxinol

Um rouxinol cantava. Alegremente,
quis São Francisco, no frutal sombrio,
acompanhar o pássaro contente,
e começa a cantar, ao desafio.

E cantavam os dois, junto à corrente
do Arno sonoro, do lendário rio.
Mas Sào Francisco, exausto, finalmente,
parou, tendo cantado horas a fio.

E o rouxinol lá prosseguiu cantando,
redobrando as constantes cantilenas,
os trilados festivos redobrando.

E o santo assim reflete, satisfeito,
que feito foi para escutar, apenas,
e o rouxinol para cantar foi feito.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Não me tentes com fortuna
para contigo casar:
eu prefiro mais que tenha
coração para me dar...

Uma Trova Hispânica do Estados Unidos
Carlos Eduardo Rodríguez Sánchez

Quien no viva en el hogar
donde tiene la familia
tendrá que, mucho ayunar
y mantener se en vigilia.

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Crepúsculo 

Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um languor de mística esperança
e de doçura triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
o coro vesperal das cigarras. E mansa,
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança,
entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. É quando,
da recôndita paz das horas esquecidas,
vão, ao luar da saudade, os sonhos acordando...

E, na torre do peito, em plácidas batidas,
melancolicamente o coração chorando,
plange o réquiem de amor das ilusões perdidas.

Trovadores que deixaram Saudades
Renato Batista Nunes
Vassouras/RJ (1883 – 1965) Rio de Janeiro/RJ

As dores e os desencantos
têm dois destinos diversos:
- ou se dissolvem nos prantos,
- ou se desfazem nos versos.

Uma Trova de Santos/SP
Carolina Ramos

A Europa, culta e sapiente,
à Trova estende hoje as mãos,
mas dela veio a semente
que agora nos torna irmãos!

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

O que se Escuta numa Velha Caixa de Música

Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.

Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser um prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.

Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Milton Sebastião Souza

Unindo muitos países,
a Europa dos nossos dias
faz sumir as cicatrizes
repartindo as alegrias...

Uma Haicai de São Paulo/SP
Alonso Alvarez

sol atrás da cortina
dizendo baixinho:
— já é dia

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Desarmonia 

Certas estrelas coloridas,
estrelas duplas são chamadas,
parecem estarem confundidas,
mas resplandecem afastadas.

Assim, na terra, as nossas vidas,
nas horas mais apaixonadas,
dão a ilusão de estar unidas,
e estão, de fato, separadas.

O amor e as forças planetárias,
trocando as luzes e os abraços,
tentam fundi-las e prendê-las.

E eternamente solitárias,
dentro do tempo e dos espaços,
vivem as almas e as estrelas.

Uma Trova de Saitama/Japão
Edweine Loureiro

Quem defende o preconceito,
responda-me, por favor:
sendo Deus pintor perfeito,
despreza acaso uma cor?

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Beijos Mortos

Amemos a mulher que não ilude,
e que, ao saber que a temos enganado,
perdoa, por amor e por virtude,
pelo respeito ao menos ao passado.

Muitas vezes, na minha juventude,
evocando o romance de um noivado,
sinto que amei, outrora, quanto pude,
porém mais deveria ter amado.

Choro. O remorso os nervos me sacode.
e, ao relembrar o mal que então fazia,
meu desespero, inconsolado, explode.

E a causa desta horrível agonia,
é ter amado, quanto amar se pode,
sem ter amado, quanto amar devia.

Uma Trova de Bauru/SP
Eulinda Barreto Fernandes

O adeus assina a sentença...
e eu vejo, em meu padecer,
quando a tua indiferença
vira a página... sem ler!

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Longus 

É de manhã, no outono. À luz, o orvalho
doira os mirtais de trêmulas capelas.
e, sobre o solo, recobrindo o atalho,
há milhares de folhas amarelas...

A Filetas, ao pé de amplo carvalho,
ouvem as narrações e pastorelas,
um rapaz, ainda ingênuo e sem trabalho,
e a mais linda de todas as donzelas...

É a narrativa do florir dos prados,
que o mais doce dos velhos barbilongos
conta ao casal de jovens namorados...

Silêncio... Ouvi-lhe o beijo dos ditongos,
os silábicos sons, que musicados,
cantam na amável pastoral de Longus...

Um Haicai de São Paulo/SP
Douglas Eden Brotto

dissolve-se a névoa
no sovacão da montanha...
dormitam cavalos

Uma Trova de Bauru/SP
Ercy Maria Marques de Faria

Renúncia é uma ponte estreita,
onde das extremidades,
pode-se ouvir sempre à espreita,
chorando duas saudades...

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Ser Paulista

Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
É ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.

Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.

Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa - o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.

Ser paulista em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!

Recordando Velhas Canções
Foi assim
(samba-canção, 1963)

Lupicínio Rodrigues

Foi assim,  
eu tinha alguém que comigo morava
Mas tinha um defeito que brigava 
Embora com razão,
ou sem razão
Encontrei um dia uma pessoa diferente
Que me tratava carinhosamente 
Dizendo resolver minha questão
Mas    
não foi assim, 
Troquei essa pessoa que eu morava
Por essa criatura que eu julgava
Pudesse compreender todo meu eu
Mas no fim fiquei na mesma coisa em que estava
Porque a criatura que eu sonhava 
Não fez aquilo que me prometeu
Não sei se é meu destino, não sei se meu azar
Mas tenho que viver brigando

Todos no mundo encontram seu par
Porque só eu vivo trocando 
Se deixo alguém por falta e carinho
Por brigas e outras coisas mais
Quem aparece no meu caminho tem os defeitos iguais

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Georgina Ramalho

Que bela nossa existência
a correr, pipa empinando...
A nossa alma é, na essência,
uma criança brincando.

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Soneto 

Antes de conhecer-te, eu já te amava.
Porque sempre te amei a vida inteira:
Eras a irmã, a noiva, a companheira,
A alma gêmea da minha que eu sonhava.

Com o coração, à noite, ardendo em lava
Em meus versos vivias, de maneira
Que te contemplo a imagem verdadeira
E acho a mesma que outrora contemplava.

Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
Transfigurada nos anseios da Arte.

Mas, se te quero assim, por que motivo
Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura,
Mais que loucura, um crime desejar-te?

Um Haicai de São Paulo/SP
Edson Kenji Iura

No cimento quente,
A ilusão de um oásis:
Vaso de samambaias

Uma Trova de Barbacena/MG
José Kalil Salles

Amor é brasa vibrante
no peito dos sonhadores,
dos poetas, dos amantes
e também dos trovadores.

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Beijos no Ar

No silêncio da noite, alta e deserta,
inebriante, férvido sintoma,
uma fragrância feminina assoma
e tentadoramente me desperta.

Entrou-me, em ondas, a janela aberta,
como se se quebrara uma redoma,
da qual fugira o delirante aroma,
que o mistério do amor assim me oferta.

De que dama-da-noite ou jasmineiro,
de que magnólia em flor, em fevereiro,
se exala esse cálido desejo?

Ela sonha comigo: esse perfume
vem da sua saudade, que presume,
embora em sonho, ter-me dado um beijo!

Hinos de Cidades Brasileiras
Carauari/AM

Carauari, és brasileira
terra de minhas razões
que teus filhos altaneiros
sejam sempre soberanos
no progresso e na união

O teu sacado sereno
caprichos do rio Juruá
criação da natureza
em momentos singular

No verão tuas vazantes
que se mostram prazenteiras
desafiam tuas barrancas
com promessas alvissareiras

Carauari, rio Juruá
terra boa para se cantar
a nossa voz no meio da floresta
em nossa volta a natureza em festa

Carauari, no Amazonas
és beco de tradições
para tantos que te amam
nordestinos os teus filhos
tem raízes no teu chão

Batata vinda do céu
teu nativo te chamou
com sua sabedoria
o teu solo abençoou
Carauari, és brasileira
terra de minhas razões
que teus filhos altaneiros
sejam sempre soberanos
no progresso e na união

O teu sacado sereno
caprichos do rio Juruá
criação da natureza
em momentos singular

no verão tuas vazantes
que se mostram prazenteiras
desafiam tuas barrancas
com promessas alvissareiras

Carauari, rio Juruá
terra boa para se cantar
a nossa voz no meio da floresta
em nossa volta a natureza em festa

Carauari, no Amazonas
és beco de tradições
para tantos que te amam
nordestinos os teus filhos
tem raízes no teu chão

Batata vinda do céu
teu nativo te chamou
com sua sabedoria
o teu solo abençoou

Enquanto tuas terras firmes
envolvem na vastidão
vestígios de ouro negro
o tesouro desta nação (2x)

Uma Trova de Curitiba/PR
Janske Niemann

Minha tristeza é tão linda
(não dói e não me angustia).
Uma tristeza bem-vinda
quando se torna Poesia!

Um Poema de Santos/SP
Martins Fontes
1884 – 1937

Minha Mãe

Beijo-te a mão, que sobre mim se espalma
Para me abençoar e proteger,
Teu puro amor o coração me acalma;
Provo a doçura do teu bem-querer.

Porque a mão te beijei, a minha palma
Olho, analiso, linha a linha, a ver
Se em mim descubro um traço de tua alma,
Se existe em mim a graça do teu ser.

E o M, gravado sobre a mão aberta,
Pela sua clareza, me desperta
Um grato enlevo, que jamais senti:

Quer dizer - Mãe! este M tão perfeito,
E, com certeza, em minha mão foi feito
Para, quando eu for bom, pensar em ti.

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Glosando Alberto Paco (Maringá-PR)

Mote:
Promoveu grande arruaça
o marido da vizinha
ao vê-la abraçada a um "praça"
lá no banco da pracinha!

Glosa:
Promoveu grande arruaça
lá no boteco da esquina,
onde tomava cachaça,
ao saber da sua sina!

Lhe falou, ao pé do ouvido,
o marido da vizinha,
que na praça era sabido
que a mulher era "galinha"!

Ao ouvir essa desgraça
foi à praça, de repente...
ao vê-la abraçada a um "praça"
disse: antes fosse um "tenente"!

Depois de ver a trapaça
do "praça" com a "galinha",
o coitado sentou praça
lá no banco da pracinha!
A deturpação dos fatos
é tão comum entre a gente,
que a corrente de boatos
passou a ser voz corrente!

Anote e depois confira,
visando seu próprio bem:
meia-verdade é mentira,
verdade-e-meia também!

Ao despedir-me de ti,
sujeito a carências novas,
compenso a paz que eu perdi,
buscando alento nas trovas!

Ao homem muito ciumento
há um dilema que aperreia:
ou esquece o casamento,
ou casa com mulher feia!

A saudade é uma corrente!
Só agora percebi,
livre de ti, finalmente,
e, afinal, mais preso a ti!...

Casamento de verdade,
pouca gente ainda procura:
querem ter a propriedade
sem pagar pela escritura!

Como trabalha o rapaz!
    Mas não invejo esse estilo:
   - na cama, tudo o que faz
    é só tirar um cochilo…

Da chuva não corro mais!
Não pago esse mico, ó gente:
correr dos pingos de trás
pra me molhar nos da frente?

Deixaste a casa vazia,
mas há um retrato na sala;
e é dessa fotografia
que o teu silêncio me fala!

Deus construiu, no horizonte,
onde ninguém pode ver,
uma belíssima ponte
que a gente cruza... ao morrer.

Dúvida é sempre clareza!
E aqui vai a explicação:
- quem duvida tem certeza
de que está em confusão!

Essa azul coloração
das araras a voar
coloriu meu coração
e não sei como apagar!...

Há um piano na cabana
que espera, de tampo aberto,
expor, à perícia humana,
seu recital encoberto!

Meu consolo, na tristeza,
quando, no peito, a agasalho,
é o pranto da natureza,
nas gotas tristes do orvalho.

Minha máscara de austero,
que eu usei com tanto gosto,
sabe o quanto eu não a quero,
mas passou a ser meu rosto!

Namorar em rua clara?
Nunca fiz essa loucura!
Quem tem vergonha na cara
só namora em rua escura.

Numa euforia tremenda,
além de qualquer limite,
ouvi o riso da agenda
ao registrar teu convite!

Nunca consigo a proeza
de uma bola no buraco!
Será defeito da mesa
ou defeito do meu taco?

O comilão não se esquenta
na fila pra ver seu peso:
ou diz que a balança aumenta,
ou fica atrás de um obeso...

O meu prêmio, ao fim do dia,
é um sorriso na janela
de onde os lábios da alegria
beijam os meus, antes dela!

Quando vovó faz faxina,
vovô teme o seu capricho,
pois ela tudo examina:
Não tem uso? Vai pro lixo!

Quem entra ali pra jogar
ingressa um tanto cabreiro...
Há uma placa no lugar:
“Buraco? Só a dinheiro!”

Se, aos gritos, me manifesto,
  já perdi a discussão,
  pois quem grita num protesto
  já mostra não ter razão!

Se há barragens no percurso,
aprende a lição do rio
que, em paz, retoma o seu curso
após saudável desvio!

Só agora eu percebi
a ganância do coveiro:
tem buraco por aí
que é uma mina de dinheiro!

Sobre as águas refletidos,
nuvens...matas...céu de anil...
tudo evoca aos meus sentidos
a bandeira do Brasil!

Sou velho metido a moço
e ainda levo à loucura!
Se me diz: 'morda o pescoço!",
cravo nela a dentadura!

Surpreso por teu aceno,
com timidez e apetite,
eu, tolo, me achei pequeno
para aceitar teu convite!

Traz a injustiça a discórdia,
mas a justiça me assusta:
À luz da misericórdia,
nunca vi justiça justa!
Olympio S. Coutinho (Histórias da trova) Capítulo II – (3a. Parte) Meus Irmãos, os Trovadores 

        O JG enviou sua resposta através de um artigo publicado na seção “No Mundo da Poesia”, página literária de “O Jornal Feminino”, com o título “Um Trovador Mineiro”, que começava assim:
        “Minas é a grande ilha do arquipélago da poesia brasileira. Terra de poetas e trovadores. Desde a primeira Escola de Poesia, com Gonzaga, Alvarenga, Cláudio Manoel da Costa, até os modernistas autênticos, como esse grande Drummond, alto e de ferro, mas musicado de águas como uma montanha de Itabira. Começo com estes palavras para falar de um trovador que desponta: Olympio da Cruz Simões Coutinho, de Ubá... Quanto às trovas que me mandou, posso lhe dizer que são boas, que deve continuar a escrever, pois possui as qualidades inatas de um trovador...” E, citando uma de minhas trovas enviadas,
Eu sempre que vou roubar
as galinhas dos vizinhos
fico com pena dos órfãos:
trago também os pintinhos

terminava assim: “Continue, meu caro Olympio, como trovador.... Mas, cuidado com a Polícia”.
        Esta trova rodou muito por aí e, ao longo do tempo, cheguei a vê-la como anônima em almanaques e, mais tarde, fiquei sabendo que um trovador de Pindamonhangaba, quando mais moço, anotava trovas em um caderno e, entre elas, havia anotado a tal “trova dos pintinhos” sem saber de quem era. Ficou sabendo somente em 2008, quando passei a ter contato virtual com ele através do seu site e quando, aliás, voltei a participar dos concursos e dos jogos, depois de mais quase 50 anos longe do movimento.                     Recentemente, quis incluí-la em uma antologia editada pela UBT BH, mas foi brecada... Daí, dei-lhe o formato atualmente exigido, mas não gostei:

Eu sempre que vou roubar
as galinhas dos vizinhos,
para órfãos não deixar,
trago, também, os pintinhos.

        O A. A. de Assis a conhecia e sabia de quem era, pois fomos meio contemporâneos ali por volta de 1960/61/62.
        Em 1961, ganhei um prêmio em um concurso de trovas promovido pelo Rotary Clube de Vila Isabel, no Rio, cujo tema era “rosa”. A trova vencedora foi:

“Enganou-se o passarinho,
voando de flor em flor,
pensando que fossem rosas
os teus lábios, meu amor!”.

        Fui lá, levando meus pais, pois o orgulho era grande. Aproveitei a viagem para procurar trovadores com os quais mantinha correspondência. Estive também na redação do “O Jornal” para conhecer a Elza Marzullo e também o Symaco da Costa, que já me havia escrito. O Symaco era um tipo popular, bastante crítico em relação, principalmente, ao grande número de “trovadores” que surgiam devido à divulgação do movimento e que escreviam coisas assim:

“Se eu me chamasse Maria,
que sorTE EU TEria, enfim,
tanta gente escreveria
muitas trovas para mim”.

        Mais tarde, em artigo publicado, afirmou: “Veja o enfim; foi enfiado ali a martelo”.
        a mesma oportunidade, procurei o Aparício Fernandes no banco onde ele trabalhava para conhecê-lo pessoalmente. Ele havia divulgado uma de minhas trovas no programa da Rádio Globo sobre o trovismo. O Aparício convidou-me então para ir a uma reunião em uma casa da Tijuca, onde os trovadores de então se encontravam nas tardes/noites das quintas-feiras, um happy hour trovadoresco.                  Fui lá: não me lembro de quem era a casa, mas me lembro, ainda que vagamente, da presença do Luiz Otávio, do JG, do Aparício e outros que a memória não guardou. O Luiz Otávio, o JG e o Aparício já conheciam algumas trovas minhas e já haviam escrito, incentivando-me. Entre as trovas, havia a seguinte, que havia sido elogiada:

“Quisera ser qual o pássaro
que no laranjal faz ninhos;
constrói a felicidade
dentro de um monte de espinhos”.

        Da original que eu havia produzido, houvera duas correções, a primeira feita pelo Symaco da Costa, quando o visitei na redação do O Jornal: qual no lugar de como no primeiro verso; a segunda, feita naquela reunião: que no laranjal faz ninhos... originalmente era “que nos laranjais faz ninhos”. Mas a briga boa foi da turma tentando colocar rima dupla na bichinha... tentaram, tentaram e acabaram dizendo mais ou menos o seguinte: "Deixa como está; é boa assim mesmo!"

continua… 

Chuvisco Biográfico do Poeta
José Martins Fontes, o "Zezinho Fontes", nasceu em Santos/SP, a 23 de junho de 1884, filho de Isabel Martins Fontes e do Dr. Silvério Martins Fontes.                      
         Frequentou os principais colégios de seu tempo, entre eles o Colégio Nogueira da Gama em Jacareí . Em sua vida de estudante em Santos, teve como professor Tarquínio da Silva, ao qual prestou homenagem posteriormente. Mais tarde vai para o Rio de Janeiro, onde estuda no Colégio Alfredo Gomes.
         Aos oito anos de idade, Martins Fontes publicou seus primeiros versos num jornalzinho denominado "A Metralha" dando os primeiros sinais do grande poeta que iria ser durante sua vida, do qual foram publicados 9 números aos domingos e cujo cabeçalho em três cores era feito por seu avô, o coronel Francisco Martins dos Santos.
         Com dezesseis anos, ele lê uma ode de sua autoria na inauguração do monumento comemorativo ao quarto centenário do Descobrimento do Brasil, levantado próximo à biquinha em São Vicente.
         Em 1906, defendeu tese de doutorado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, tornando-se médico sanitarista, tendo convivido com poetas como Olavo Bilac, Coelho Neto, Emílio de Meneses e outros .
         Depois de formado foi médico da Comissão das Obras do Alto Acre, interno da Santa Casa do Rio de Janeiro, auxiliar de Oswaldo Cruz na profilaxia urbana, médico da Santa Casa de Misericórdia de Santos, médico da Beneficência Portuguesa de Santos, inspetor sanitário em Santos e Diretor do Serviço Sanitário. Médico da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio, da Companhia Segurança Industrial, da Companhia Brasil, da Repartição de Saneamento e da Casa de Saúde de Santos.
         Durante a epidemia de gripe de 1918 tornou-se um dos beneméritos da cidade, desdobrando-se para socorrer os bairros do Macuco e Campo Grande e estendendo sua ação para a localidade de Iguape .
         Como médico, notabilizou-se como conferencista e foi tisiologista da Santa Casa de Misericórdia de Santos e destacado humanista, lutou junto com Oswaldo Cruz em defesa sanitária da cidade de Santos. Em seu consultório particular tratava de pessoas sem poder aquisitivo, não cobrando as consultas.
         Fundou com Olavo Bilac uma agência publicitária para serviços de propaganda dos produtos brasileiros na Europa e em outros países .
         Em 1924 tornou-se correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.       Quando Júlio Prestes, governador do Estado de São Paulo e candidato à presidência da República, partiu em viagem para percorrer os países da Europa e EUA, Martins Fontes foi convidado para acompanhá-lo como médico. Devido ao seu trabalho como conferencista conheceu o Brasil de norte a sul, e ainda a Argentina, o Uruguai, os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, a Espanha, a Itália e Portugal.
         Colaborou literariamente com os jornais A Gazeta e o Diário Popular em São Paulo, e para o Diário de Santos e o Cidade de Santos, além de inúmeros periódicos do Rio de Janeiro e outras cidades.
         Sua obra literária é bastante volumosa, chegando atualmente a cinquenta e nove títulos publicados, em poesia e prosa. Editadas em Portugal, sob coordenação de seu biógrafo oficial, Rui Calisto.
         Foi titular da Academia das Ciências de Lisboa e, ao longo de sua vida, recebeu os títulos de comendador da Ordem de São Tiago da Espada, Cavaleiro da Espanha, Par da Inglaterra entre outras distinções.
         É patrono da cadeira n.° 26 da Academia Paulista de Letras.
         Morreu em Santos, a 25 de junho de 1937

Algumas de suas Obras
"O Lezado" (1908); "Chicouuu" (versos, 1917); "Granada" (poema, 1899); "A gripe em Iguape" (1920); "A transformação das classes parasitárias em classes produtivas" (estudo social, 1920); "Boêmia Galante" (versos, 1920); "Arlequinada" (fantasia, 1922); "As cidades eternas" (versos, 1923); "Rosicler" (versos, 1923); "Marabá" (versos, 1923); "Prometeu" (versos, 1924); "Pastoral" (versos, 1925); "Partida para Citera" (teatro, 1925); "Volúpia" (versos, 1925); "Vulcão" (1926); "O céu verde" (versos, 1926); "A fada Bombom" (versos, 1927); "Escarlate" (versos, 1928); "O Colar Partido" (prosa, 1927); "A flauta encantada" (poesias, 1931); "Paulistânia" (poesias épicas, 1934); "Terras da Fantasia' (prosa, 1933)

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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