Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 359)



Inscrições abertas para o I Concurso de Trovas de Itapema/SC – regulamento ao final deste número


Uma Trova de Paranavaí/PR
Dinair Leite

Meu mal foi ser iludida,
pelos teus beijos fingidos;
aprendi fingir… e a vida
mostra dois desiludidos.

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

Louco mendigo, em flagelo,
ora é príncipe, ora é rei;
a marquise é seu castelo
e a miséria é sua lei!

Um Poema de Santos/SP
Carolina Ramos

Vila dos Andradas

Nasci naquela vilazinha feia,
sem árvores nem flores nas calçadas.
Rua? Perdão! Errei se assim chamei-a,
era apenas a Vila dos Andradas.

Saí criança e não voltei. Lembrei-a,
saudosa das cirandas nas calçadas.
Foi lá, que eu aprendi que a lua cheia
era a Mansão dos Sonhos e das Fadas!

Não mais existe a minha velha Vila,
mas, pobre e triste, seu passado atesta
que nela havia luz que ainda cintila

a ultrapassar os sóbrios horizontes:
- Naquela Vila, plácida e modesta,
viveu, rimou o nosso Martins Fontes!

Uma Trova Humorística de Niterói/RJ
Antonio Carlos Teixeira Pinto

Diz o velhote à mocinha,
mal disfarçando o cansaço:
“Eu já te guardo todinha,
no fundo do marca-passo!”

Uma Trova de São Paulo/SP
Alba Christina Campos Netto

Se a vida parte e reparte
histórias que prometeu,
foste um capítulo à parte
que a saudade engrandeceu...

Um Poema de São Paulo/SP
Caco Pontes

Nu olhar

 A gente vê
gente
pelas ruas da cidade
A gente vai passando
e fica só olhando
gente
fora das janelas
peixes sem aquário
A gente vê
besta certeza
guardada nu olhar
a gente quer ir
antes que chegue
a hora
as vezes
e vê gente
que diz assim:
- aí bicho, isso daí não tá cum nada!
rabisca, amassa, chuta
e tenta outra vez
A gente vê
mas no fim da parada
não enxerga quase nada.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Venci! Cheguei a subir!
Nada! Ninguém me ajudou!
Mas comecei a cair,
toda gente me puxou!...

Uma Trova Hispânica do Panamá
Dioselina Ivaldy De Sedas

Con metralletas y guerras
¿Hombre te crees capaz?
pues con esta actitud cierras
la puerta para la paz.

Uma Trova e Poema de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla

Cidade Natal

Ao procurar as raízes,
tem o meu sonho tal ânsia,
que ao buscar dias felizes
volto à fazenda da infância.

Seu pai era jardineiro
e ele era um menino arteiro,
que só queria brincar.
Mas, quando a mãe o chamava,
as flores, logo abraçava
e o pai ele ia ajudar.

Cresceu… deixou a cidade.
Longe de tudo, a saudade,
quase que o fez regressar.
Mas, sabendo o que queria,
formou-se em agronomia
depois de muito estudar.

Já casado e com família,
passou anos em vigília
e por trabalhar assim,
formou dois filhos doutores
mas, nunca mais plantou flores
e nem cuidou de um jardim!

Ao perder a companheira,
sua ilusão derradeira,
já tendo bastante idade,
procurou suas raízes
lembrando os tempos felizes
lá, na pequena cidade.

Voltou à morada antiga,
ouviu a velha cantiga,
foi à igreja e ao botequim.
E, na praça da cidade,
onde dói mais a saudade,
plantou flores no jardim!

Trovadores que deixaram Saudades
Rodolpho Abbud
Nova Friburgo (1926 – 2013)

Se na Bondade te elevas
e a mão do bem te conduz,
nenhum príncipe das trevas
irá roubar tua luz!

Uma Trova de São Paulo/SP
Zaé Junior

Faço a ronda da saudade
e na praça, um velho bonde
traz de volta a mocidade
que ele deixou não sei onde!

Um Poema de Ribeirão Preto/SP
Elisa Alderani

Morte do Poeta

Tu, poeta, cantas a vida,
Aquela que nunca finda.
Sutil brisa no alvorecer,
Pelo arrebol do Eterno Sol
Que o mundo ilumina.

Tu, poeta, cantas a morte,
Arte despojada,
Estrutura informe, inacabada.
Vazia, sem réplica.
Da cor do mistério da terra muda.

Tu, poeta, falas de vida e de morte.
Um dia vive de alegria,
Noutro chora de tristeza.
Num só abraço
de braços sem força.

Tu, poeta, viverás para sempre…
Teus versos o vento jamais levará.
Cinzelados despontam De inúteis devaneios
Pela desconhecida morte
Inspirados!

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Heloísa Zanconato Pinto

Orçada em peso e medida,
em valor e qualidade,
tem, por certo, a despedida,
preço igual ao da saudade!

Um Haicai de Paranapiacaba/SP
Fanny Luiza Dupré
(1911-1996)

Saudosa de ti
caminho só pela rua.
É noite de estio.

Um Poema de São Paulo/SP
Humberto – Poeta

Flagelo

Do passado não deixes que a lembrança
te ponha o peito em pranto a flagelar
para a noite da dor não apagar
o antigo sol dos tempos de bonança.

Procura um outro amor pela esperança
de novas alegrias desfrutar,
pois diz velho provérbio popular
que aquele que algo espera sempre alcança.

Limpa da mente aquele antigo rosto
que agora só te traz mágoa e desgosto
e afasta da tua vida esse flagelo!

Varre, pois, da tua alma o sofrimento,
apaga da lembrança esse tormento
e exuma dela esse já morto anelo!

Uma Trova de Porto/Portugal
Emilia Peñalba A. Esteves

A nobreza se adivinha
num reinado singular,
quando a mulher é rainha
de um modesto e simples lar!...

Um Poema de Itanhaém/SP
Filemon F. Martins

O Andarilho

“Não me fale de amor”, alguém me disse,
“o amor morreu, já não existe mais”.
E eu retruquei que aquilo era tolice,
– será pecado alguém amar demais?

Ficou parado ali, talvez me ouvisse
que o amor perdoa e espera, sem jamais
querer em troca o favo da meiguice
que perpetua a vida entre os casais.

O tempo foi passando e pela rua
eu vi aquele vulto olhando a lua
perambulando como um peregrino.

E percebi, então, que aquele rosto
marcado pela dor, pelo desgosto,
nunca teve um Amor em seu destino!

Uma Trova de São Paulo/SP
Maria Helena Calazans Duarte

Lições de amor a teu lado,
convite que eu quis ganhar,
e o destino desalmado
entregou noutro lugar.

Um Poema de Sorocaba/SP
Dorothy Jansson Moretti

Sob as cinzas

… as saudades queimam mais do que brasas…
Silveira Bueno

Como supostas brasas apagadas,
que ao sopro de um vadio e inquieto vento,
livre das cinzas, não mais abafadas,
revivescessem, retomando alento,

certas recordações em nosso peito,
de há muito adormecidas e caladas,
revolvem-se, de súbito, no leito,
despertando agressivas e agitadas.

E essas lembranças todas revividas
que imaginavamos já recolhidas
ao abrigo silente do passado,

vêm ralar nosso peito de amargura,
e as saudades, em dúlcida tortura,
queimam mais que o carvão reativado.

Um Haicai de Botucatu/SP
Francisco Moura Campos

O trenzinho frágil
– num esforço secular –
vai subindo a serra.

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
José Messias Braz

Um triste adeus... e depois
de nossas mãos separadas,
vejo o sonho de nós dois
e a saudade... de mãos dadas

Um Poema de Catanduva/SP
Ógui Lourenço Mauri

Um Vazio

Um vazio põe além do horizonte
Um querer que à distância se lança,
Pois a ânsia que o barco desponte
Jacta o falso sabor da esperança.

Eu bem sei, não mudou a janela,
Mas o barco de longe não vem.
A saudade é bem mais do que "aquela"
E a vontade do beijo também!

É verdade que após as tormentas
O mar calmo se faz tão presente,
Como é certo que as nuvens cinzentas
Põem o Sol a brilhar novamente.

Por aqui, vejo a chuva caindo;
Logo mais, chega a luz desde o leste,
A mostrar todo o azul do céu lindo,
Um desenho de Deus, inconteste!

Pensamento vai longe, de vez!
Traz, enfim, esse barco; reitero!
Penso até que meu porto, talvez,
Não comporte o navio que eu espero.

Recordando Velhas Canções
Ela é carioca
(samba bossa, 1963)

Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Ela é carioca, ela é carioca
Basta o jeitinho dela andar
E ninguém tem carinho assim para dar
Eu vejo na cor dos seus olhos
As noites do Rio ao luar
Vejo a mesma luz, vejo o mesmo céu
vejo o mesmo mar

Ela é meu amor, só me vê a mim
A mim que vivi para encontrar
Na luz do seu olhar, a paz que sonhei

Só sei que eu sou louco por ela
E pra mim ela é linda demais
E além do mais, ela é carioca
ela é carioca

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Hedda de M. Carvalho

Em mim a mágoa não vive
dos fracassos naturais
pois na vida, o que não tive,
foi porque sonhei demais!

Um Poema de Itararé/SP
Silas Corrêa Leite

Família

minha mãe fritava polenta
e convidava a aurora para o banquete

Clarice tinha tranças bonitas
e uma voz de santa

Sueli era uma janela fechada
esperando um príncipe encantado

Erzita era a "irmãe" mais velha
guardiã dos sonhos de nós todos

Paulo e eu brigávamos muito
e tínhamos o destino da luta

(Célio sequer existia ainda
para ser nosso referencial futuro)

Depois meu pai vendeu a casa
Morreu/ virou saudade e nos deixou Célio Ely
de herança

E minha mãe com sua voz de clarinete
ainda alonga orações por nossos sonhos.

Um Haicai de Salvador/BA
Gustavo Felicissimo

algo mais perfeito?
as folhas mortas no campo
fecundam a terra

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Maria Nascimento S. Carvalho

Partiste... e na despedida,
no teu ar de quem conspira,
vi quanto perdi de vida
com um sonho de mentira...

Um Poema de São Paulo/SP
J. B. Xavier

O Livro que não leste

De quais ignotos mundos transcendeste,
Para perder-te assim em meu passado?
E ao te perder perdi meu sonho amado...
A quais ignaros mundos pertenceste?

Por que à ignávia lassidão cedeste?
E por que teu amor tens abrandado
Se por ti eu teria abandonado
De novo toda a vida que me deste?

Em quais ignóbeis mundos te perdeste
Vagando assim ao léu desencantado,
Que ao ferir-me sequer te apercebeste?

Eu sou a sinfonia que fizeste,
E o amor que te dedico, abnegado
É o livro da tua vida, que não leste!

Hinos de Cidades Brasileiras
Cascavel/PR

Cascavel cidade hospitaleira
Tu és fonte rica de labor
Do quadrante oeste és a primeira
Te amamos com todo o fervor

Tua história é bela e fascinante
Que o passado nos faz sempre reviver
Feitos heróicos de um grande bandeirante
Que criou-te e feliz te fez crescer

Tua beleza imponente tem vida
És a sombra que acolhe o forasteiro
Ganhas bênçãos pelas mãos da Aparecida
Portas abertas a todo brasileiro

No horizonte d’oeste estrela fulgurante
Tua gente tão nobre de amor varonil
És crescente progresso a todo instante
És o mais lindo pedacinho do Brasil.

Uma Trova de Maranguape/CE
Francisco J. M. Lopes

O teu carinhoso abraço
alegra meu coração
e neste lindo compasso
canto uma bela canção.

Um Poema de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Junior

O segredo de um tesouro
“Um bom amigo, que nos aponta os erros
e as imperfeições e reprova o mal, deve ser
respeitado como se nos tivesse revelado
o segredo de um oculto tesouro.”
(Sidarta Gautama - BUDA)

O segredo de um tesouro
não está no que se tem,
mas no que nos vale ouro:
ser a luz irmã de alguém.

Toda luz é mais que o louro
das vitórias de um 'ninguém',
um senhor que tira o couro
dos irmãos e o seu também.

Vem cansado e sem abrigo
este irmão aqui presente,
sem a luz que mais persigo...

Um tesouro é um bom amigo,
um irmão que o faz contente,
bem cantante, vento ao trigo!…

 
Aquilo que fui um dia,
perdura no que hoje sou,
mas a vida, que ironia,
por ser longa, deformou...

Cais do porto lembra Santos,
a cidade onde nasci,
mas os salgados recantos
se encontram vivos aqui...

Calço as sandálias do sonho
e caminho solta ao vento
enquanto versos componho
em total deslumbramento.

Com quem estará a chave
que solta meu coração?
Venha esse alguém e o destrave
com amor em transfusão.

Cuidado, Terra, essas mãos
que parecem sustentá-la
com pulsos fortes e sãos,
conseguirão preservá-la?

Duvido que esse barquinho
de papel fraco, a boiar,
escape do torvelinho
de onde está a navegar.

Em todo e qualquer momento
eu quisera ser capaz
de, mesmo no sofrimento,
ter atitude de paz!

Enquanto o poeta ensaia
mil versos sobre a maré,
ondas se exibem na praia
com seu molhado balé.

Falhando nos compromissos
de amor que entre nós juramos,
quebramos elos maciços
e novos rumos traçamos...

Meu desabafo é criar
versos sensíveis e belos,
mesmo tendo que chorar
a quebra de meus castelos.

Minha coleção de fotos
é celeiro de lembranças;
conduz-me a tempos remotos
de venturas e esperanças.

Movendo as graças fluidas
pelo amor de quem nos cria,
cento e oito mil batidas
teu coração dá por dia.

Na mata, o rio se espreme
entre o verde... (que beleza!),
desenhando a letra M
no livro da natureza.

No teu ombro acomodada,
eu navego vida afora;
vou sem medo, encorajada,
e bem mais jovem que outrora...

O filme curta-metragem
que o crepúsculo descerra,
mostra a brasileira imagem
pairando entre o céu e a terra!

Parado, ele aguarda o apito
para empurrar a esperança;
no peito prepara um grito
de gol!!!!... de feliz criança...

Pintemos, bem coloridas,
linhas de sol (emergência)
nas nuvens tão poluídas
que cobrem nossa existência.

Quando entendo o personagem
que me cativa na história,
faço íntima abordagem
em relação ilusória.

Quem nas letras se revela,
quem canta o bem existente,
quem a vida, em rimas sela,
é POETA, é diferente !

Eu quero o amor bem pertinho,
ao alcance de meus braços;
não no virtual quadrinho,
tão longe dos meus espaços...

Sendo a "morte certa", incerta
quanto ao dia e quanto à hora,
coerência é manter-se alerta
e pronto pra ir embora...

Suplico ao anjo da guarda
do menino equilibrista,
que o salve e dê retaguarda
pra não ser mais trapezista!

Tendo ancestral nordestino
que sofria seca brava,
não quero o mesmo destino
no sudeste, mas... se agrava...

Uau, que foto mais linda,
enluarada de azul
na bela tarde que finda
aqui nas terras do sul...

Um guri corre na grama,
flagrante de um bom momento,
sentindo que a vida o ama,
pelos carinhos do vento.

Vendo a saudade deitada
no sofá de minha sala,
levanto e saio, calada,
com medo de despertá-la...

Olympio S. Coutinho (Histórias da trova) Capítulo IV – A trova social pede passagem 

         Filosofia e lirismo; às vezes, também humorismo. Em todos os concursos de trovas que se realizam por todo o Brasil são assim definidas as modalidades. Mas, por que não a trova social?
         Nada contra a filosofia e o lirismo, muito menos o humorismo. Afinal, neste mundo cada vez mais materialista, precisamos mesmo filosofar, cultivar o romantismo -antes que acabe - e rir. No entanto, nós, os irmãos trovadores, somos um imenso contingente de pessoas que poderiam, usando a força da trova, participar de forma mais atuante na denúncia de fatos e comportamentos que em nada contribuem para a formação de uma sociedade mais justa e mais humana.
         Se consultarmos a história, vamos verificar que, ao longo dos séculos, os poetas e os trovadores tiveram grande influência nos acontecimentos, usando seus versos para denunciar mitos e incompreensões, abusos de poder e injustiças, muitas vezes usando o forte argumento da ironia.

Quebre-se o cetro do Papa,
faça-se dele uma cruz;
que a púrpura sirva ao povo
pra cobrir os ombros nus.

         É de Castro Alves, um poeta que fez da força de seus versos instrumento de ataque aos exploradores e de defesa dos humilhados e ofendidos. E, apesar de ter morrido muito novo, entrou na história como o poeta dos escravos.
         Ensejou-me discorrer sobre este assunto o tema do XXIX Concurso Nacional/Estadual de Trovas, de Natal, a violência (contra o ser humano). Foi trabalhando na feitura de trovas para este concurso que percebi como nós, trovadores, poderíamos influir - repito, com a força da trova - na denúncia de fatos que atingem de forma negativa a humanidade e, assim, mostrarmos que não estamos apenas filosofando ou sendo líricos (muito menos apenas humoristas), mas que estamos verdadeiramente engajados na defesa de condições mais dignas para os brasileiros e para o ser humano. E que temos o compromisso de contribuir na construção de um mundo melhor para se viver.
         Consulto o site falandodetrova.com.br e vejo que os XXI Jogos Florais de Ribeirão Preto de 2008 tiveram como tema a inclusão, ensejando trovas sociais, como as duas abaixo, de Terezinha Dieguez Brisolla:

Tenham todos terra e teto,
sem preconceito ou fronteira,
e que haja amor, não decreto,
para a inclusão verdadeira!

Meu Deus, que eu não seja omissa
na luta pela inclusão,
pois quem clama por justiça
é Teu filho... e é meu irmão.

         E ainda, de Francisco Neves de Macedo:

É urgentíssima a inclusão
dos deserdados da vida,
dai-lhe a terra e a certidão,
identidade e guarida.

         Para ilustrar minha posição e nunca para discutir o mérito da premiação, cito uma das trovas com as quais concorri:

Ampla inclusão social
ocorrerá certamente
quando for bem natural
tratar todos como gente.

         Já nos XXVI Jogos Florais de Taubaté/2008 (tema: Brasil), acredito que os trovadores perderam uma excelente oportunidade de se manifestar socialmente contra muitos fatos e comportamentos que se repetem no cotidiano do povo brasileiro. Não que as trovas vencedoras não fossem belas, mas, na sua grande maioria, exaltavam um Brasil que, infelizmente, ainda não existe, como bem traduziu A.A. de Assis, menção especial nos citados Jogos, com esta trova, uma das poucas de não exaltação:

Sonho um Brasil justo e honrado
e limpo de coração,
um Brasil qual foi sonhado
e amado por São Galvão.

         E, ainda entre as exceções, esta, de Terezinha Dieguez Brisolla:

Se quem trabalha reclama,
desperta, Brasil, que é hora
de valorizar quem te ama
e renegar quem te explora!

         Ainda para fixar minha posição e, repito, não para discutir méritos da premiação, cito trovas com as quais concorri:

Ante tanta aberração
num Brasil fora dos trilhos
pergunto ao meu coração:
- O que eu ensino aos meus filhos?

Ante tanta espoliação,
causada pelo estrangeiro,
pergunto ao meu coração:
- É o meu Brasil brasileiro?

O povo em miséria extrema,
a nação em retrocesso,
o Brasil desmente o lema:
não tem ordem, nem progresso.

         Para finalizar este breve arrazoado, sugiro temas que poderiam ensejar a produção de belas trovas de cunho social: educação, saúde, segurança, justiça, humanidade, liberdade, pobreza, miséria, fome, maldade, humilhação, preconceito, segregação, racismo, autoritarismo, ética, honestidade (desonestidade), intolerância, guerra e outros mais. 

I CONCURSO DE TROVAS DE ITAPEMA –SC
Até 31-05-2015 ( carimbo do correio)

Temas:
a)- Âmbito Nacional/Internacional :
MARÉ (L/F)

Novo Trovador :
MARÉ (L/F)

Obs.: Considera-se Novo Trovador, o concorrente que ainda não obteve 3 classificações em concurso nacional de Trovas . Digitar abaixo da Trova: NOVO TROVADOR .

b) – Âmbito Estadual (Trovadores de Santa Catarina):
ONDA (L/F)

Obs.: Sistema de envelopes.

Máximo de 2 Trovas. Valem cognatos.
Usar Luiz Otávio como remetente.

Enviar para:
I Concurso de Trovas de Itapema
A/C.: Eliana Ruiz Jimenez
Rua 137 nº 173 sala 3
88220-000 - Itapema/SC

Blog da UBT Itapema:

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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