Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 8 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 361)


Uma Trova de São Mateus do Sul/PR
Gerson Cesar Souza

Eu comparo o meu sonhar
com quem, na praia, anda ao léu,
colhendo estrelas-do-mar,
querendo as que estão no céu.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

A paixão não tem coerência,
chega ao nosso coração,
rápido e sem paciência,
parecendo um furacão!

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

EU SEI QUE VOU TE AMAR

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente, eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Prá te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida
Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Uma Trova Humorística do Rio de Janeiro/RJ
César Torraca

O Anedotário horroroso
que ele repete em torrente,
é do tempo em que o famoso
Mar Morto estava doente!

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
José Moreira Monteiro

Trilhando o caminho certo
numa paixão ressequida
você foi no meu deserto
o oásis da minha vida.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

A CARTA QUE NÃO FOI MANDADA

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Rouxinol canta de noite,
de manhã a cotovia;
todos cantam, só eu choro
toda a noite e todo o dia!

Uma Trova Hispânica do México
Rene B. Arriaga Del Castillo

Continuemos nuestra lucha
que tenemos la razón,
alejemos la desdicha
por medio de la expresión.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

BILHETE A BAUDELAIRE

Poeta, um pouco à tua maneira
É para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira

Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
No velha foto de Carjat

Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!

Trovadores que deixaram Saudades
João Freire Filho
Rio de Janeiro/RJ (1941 – 2012)

Quando um príncipe encantado
partiu contigo, risonho,
eu vi meu sonho levado
pelo encanto de outro sonho!...

Uma Trova de Natal/RN
Heder Rubens Silveira e Souza

É sinal de coerência
ser previsível, constante...
Mas viver é sapiência:
tudo muda a todo instante!

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

CANÇÃO DA ETERNA DESPEDIDA

A noite é linda
inda palpita no mar
a lua cheia a se esvair em luar.
Vem, ó minha amada
e fica linda e sem véu
como essa lua no céu.

Eu sou o mar.
Ó meu amor, diz que sim
E vem pousar o teu luar sobre mim
Vem que todo dia
cada noite tem um fim
só para nos separar.

Ai, minha amada
madrugada chegou
e a sua luz me diz que devo partir.
Mas meu coração
não compreende a razão
de me arrancarem de ti.

É tanta a mágoa
desta separação
que já meu corpo chora a falta do teu.
Que esses cantos meus
são como prantos de adeus
por me arrancarem de ti.

Uma Trova de Caxias do Sul/RS
Jussara C. Godinho

A coerência é um laço
de fita bem amarrada.
Ser coerente é dar o passo
seguindo na mesma estrada!

Um Haicai de Magé/RJ
André Luiz da Costa Figueiredo
(12 anos)

Marimbondo tonto
Despenca dentro do poço
Manhã de agosto.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

CANÇÃO DO AMOR DEMAIS

Quero chorar porque te amei demais
Quero morrer porque me deste a vida
Oh meu amor, será que nunca hei de ter paz
Será que tudo que há em mim
Só quer sentir saudade.

E já nem sei o que vai ser de mim
Tudo me diz que amar será meu fim
Que desespero traz o amor
Eu nem sabia o que era o amor
Agora sei porque não sou feliz.

Uma Trova de Saitama/Japão
Edweine Loureiro da Silva

Política e coerência
não podem juntas andar,
pois uma, por displicência,
pode a ambas derrubar.

Uma Haicai de Magé/RJ
Gabriel Dias da Silva
(13 anos)

Mosquito da dengue
Pica um e pica outro...
Febre com certeza.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

CANÇÃO PARA A AMIGA DORMINDO

Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede silêncio
Que não vá embora.

Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha.
Dorme e me procura
Na ausente paisagem...
Nela a minha imagem
Restará mais pura.

Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.
Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
Na minha poesia
De um sono sem fim…

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho

Aprenda bem a lição,  
desde bem cedo, menino,
pois na vida a Educação
é base do seu destino.

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Glosando José Feldman (Maringá-PR)

Mote...
Minha vida é qual navio
que navega pelo mar...
Ora contra um mar bravio,
ora mero devanear.

Glosa...
Minha vida é qual navio,
avião, trem, caminhão;
porém o meu desafio
é andar a pé... no chão!

Se você tem um transporte
que navega pelo mar...
digo que você tem sorte
se o dito nunca afundar!

Sempre foi um desafio
para um navio... singrar;
Ora contra um mar bravio,
ora ao sabor de um bom mar!

Pra quem sai ao mar diria:
é bom, cuidados, tomar;
pois ora vem ventania,
ora, mero devanear.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

COMO DIZIA O POETA

Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não.

Um Haicai de Guapimirim/RJ
Tamires Carmencita Costa Pacheco
(13 anos)

No jardim as flores
enfeitam a tarde de sol.
Primavera traz cores.

Uma Trova de Santos/SP
Américo Degl’Ieposti

Vivendo a terceira idade,
pisando as folhas do outono,
eu bendigo esta saudade
que à noite me embala o sono.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

ESCÂNDALO DA ROSA

Oh rosa que raivosa
Assim carmesim
Quem te fez zelosa
O carme tão ruim?

Que anjo ou que pássaro
Roubou tua cor
Que ventos passaram
Sobre o teu pudor

Coisa milagrosa
De rosa de mate
De bom para mim

Rosa glamourosa?
Oh rosa que escarlate:
No mesmo jardim!

Recordando Velhas Canções
Tem bobo pra tudo
(samba, 1963)

Manoel Brigadeiro e João Correia da Silva

Quem não sabe tocar violão,
nem pistom, toca surdo,
Sempre agrada porque nesse mundo
tem bobo pra tudo .

Camelô na conversa
ele vende algodão por veludo,
Não tem bronca porque nesse mundo
tem bobo pra tudo.

A mulher que é bonita consegue o que quer,
não me iludo,
E concordo porque nesse mundo
tem bobo pra tudo.

Todo mal do sabido
é pensar que não é enganado,
Quantas vezes também
como bobo já fui apontado.

Tem alguém que é bobo de alguém,
apesar do estudo,
Está provado porque nesse mundo
tem bobo pra tudo....

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Fernando Cruz

A despedida mais triste,
a que mais fere, por certo,
é quando o amor inda existe
e quem se vai fica perto.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

A ROSA DE HIROSHIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Um Haicai de Guapimirim/RJ
Renan Ornilo da Silva
(12 anos)

Ao amanhecer,
nas flores do meu caminho
brilha o sol de verão.

Uma Trova de Jundiaí/SP
Cidoca da Silva Velho

De um simples convite a esmo,
escravo de ti me fiz,
e hoje esqueço de mim mesmo,
para fazer-te feliz.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980
LAMENTO OUVIDO NÃO SEI ONDE

Minha mãe, toma cuidado
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.

O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!

Hinos de Cidades Brasileiras
Itanhaém/SP

Num dia assim, como se fosse o maior,
Esta paisagem se pintava de azul,
Nas formas vivas, vistas lá do alto,
A natureza de Calixto em tons de amor.

Num dia assim, todo banhado de sol,
Martim Afonso ancorava as caravelas,
De paixão por estas serras, céu e mar, beleza e cor.

Itanhaém, gente da terra,
O som da pedra e do mar,
Tem novo canto, um Deus de encanto,
Anchieta a ensinar,
O que nasce de glória só tem
por destino iluminar,
Na raiz de teu povo, razão pra sonhar.

Itanhaém, ilha do tempo,
A foz do rio de abraço ao mar
Lição da vida querida,
Não param de chegar
Os teus filhos do leste,
Do norte, nordeste, de todo lugar,
O caminho da história, no berço do mar.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Octávio Venturelli

De tantos sonhos vividos,
alguns eu pude alcançar,
mas, mesmo os sonhos perdidos,
valeu a pena sonhar...

Um Haicai de Guapimirim/RJ
Amanda Pereira Fonseca
(17 anos)

Borboleta cinza
pousada sobre a janela...
Flores no canteiro.

Um Poema do Rio de Janeiro/RJ
Vinicius de Moraes
1913 – 1980

FEIJÃO À MINHA MODA

Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora - perdoe - tão tarde

(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho

E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte

Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho - e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo.

Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks

Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)

E - atenção! - segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se o caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de linguiça.

Enquanto ao lado, em fogo brando
Dismilinguindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso.

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? - tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) - e chega.

Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da linguiça na iguaria - e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
- Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...

Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta...- jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes

 
A cidade que conserva
o coreto do jardim,
seu patrimônio preserva
uma riqueza sem fim.

A “muralha” mais temida
é o desprezo que se tem
desgastando a nossa vida
pelos caprichos de alguém.

A necessidade faz
do cidadão um artista.
Na “corda bamba” é capaz
de ser um equilibrista.

Ante às agruras da vida,
não se entregue facilmente.
Após batalha vencida,
o “sol” brilha novamente.

Ante o terror das queimadas
na floresta, com carinho,
as árvores abraçadas
tentam proteger os ninhos.

As lágrimas cristalinas
são fantasias matreiras,
rompendo espessas neblinas
de uma ilusão passageira.
 
Bem-te-vi, após cantares
de manhã no meu jardim,
vai alegrar outros ares,
mas não te esqueças de mim.

Casamento, na verdade,
se não for bom para os dois,
põe em risco a liberdade
e o mais triste vem depois.

Cidadania é saber
manter a honra constante,
ser sincero no dever
e servir ao semelhante.

Concedido por esmola
o perdão não traz fiança.
Dificilmente consola
tendo sabor de vingança...

Confirmando uma aliança
de sonho e realidade,
o Sol é o pai da Esperança
e a Lua, mãe da Saudade...

Desejando muitos anos
de existência bem vivida,
esquivo-me dos enganos
 surfando as “ondas” da vida...

Educação garantida
“vem do berço” _ o próprio lar
 (melhor escola da vida).
Não há quem possa negar…

É mais amigo quem fala
a dura e cruel verdade
do que um outro que se cala
por mera comodidade.

Espelhando-se no Mar,
que ardentemente a deseja,
a Lua apaga o luar
para que o Sol não a veja....

Euclides em “Os Sertões”,
mostrou a realidade:
- Canudos sob opressões
de fraterna crueldade...

Eu faço um pé de moleque,
de tão bom, não vejo igual.
Mas, por causa de um pileque,
troquei o açúcar por sal...

Fim de solo ressequido,
cai a chuva no sertão.
O caboclo agradecido
louva a Deus em oração.

Fraternidade  no lar
prova a presença do amor,
dando exemplo singular
de família de valor.

Havendo a chuva descido
fininha, qual branco véu,
o caboclo agradecido
rudes mãos eleva ao céu.

Idade não é velhice
a poesia  nos comprova
quando idosos, com meiguice,
fazem da vida uma trova.

Meu amor pelo Brasil
somente Deus o comprova.
Mostrá-lo? Nem de perfil,
pois não cabe numa trova…

Mulher de rara beleza
não deve, jamais, pintar-se,
pois obra da natureza
não necessita disfarce.

Na minha Escola de samba
o enredo, por tradição,
são trovas de gente bamba    
alegrando a multidão.

Não lhe dou o meu perdão
porque, mais que insensatez
é achar que ainda tem razão
depois do que você fez...

Não se deve macular
a inocência da criança
proibindo-a de sonhar
por maldade ou por vingança.

No enterro do Geraldão
joguei flores no defunto.
Dando um tropeço no chão,
por bem pouco não fui junto...

No velório do Tião,
por causa de uma topada,
caí dentro do caixão.
Só ele não deu risada...

Num arbítrio de questão,
é amigo de verdade
quem, de fato, dá razão
usando sinceridade.

O belo na juventude
traz orgulho, por costume.
Mas beleza sem virtude
é uma rosa sem perfume...

O galo foi defender
sua honra na cozinha:
depois de tanto cozer...
vira caldo de galinha?!!!

Oprimido na gaiola,
lamentando a escravidão,
o sabiá cantarola
para o algoz sem coração.

O uso dos celulares
tornou-se prioridade,
pois até em nossos lares
não há mais fraternidade.

O vento, por peraltice,
leva folhas pelo espaço.
Que bom se um dia o sentisse
levando as preces que faço…

Penetrando, lentamente,
na choupana esburacada,
banha a cabocla dolente
tênue raio da alvorada.

Portadora de elegância
e esmerada equilibrista,
a garça exibe arrogância
na tela do grande artista.

Quando o jovem tem, por norma,
ser um homem de valor,
seu próprio caráter forma
sendo um exímio escultor.

Quando povos e nações
consideram-se irmanados,
não há discriminações
- direitos são respeitados.

Quando um poeta falece,
junto à Lua vai ficar
mergulhado em doce prece,
eternamente a sonhar.

Se alguém lhe fizer um mal,
mesmo sem justa razão,
pessoalmente ou virtual,
abrace-o, de coração...

Se na vida tudo passa,
da diferença me esgueiro.
Não importa a cor ou raça
quando o amor é verdadeiro.

“Sorrir é o melhor remédio”
- é receita garantida.
Não respire o próprio tédio;
abra a cortina da vida!

Surgindo meiga, serena
e por muitos esperada,
tão formosa, a Lua Plena
em serenata é cantada.

Tive um trabalho danado
com a vaca, hoje cedinho:
não deu leite empacotado
nem quis sentar no banquinho...

Uma praça sem coreto,
mesmo pintada em painel,
é não ter rima em soneto
ou a pedra num anel.

Chuveirão (e bota chuveirão, é uma tempestade mesmo) Biográfico do Poeta
·                   1913, Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes nasceu em 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro. Filho de Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, este, sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes.
·                   1917, Vinicius e sua irmã Lygia entram para a escola primária
·                   1920, é batizado na maçonaria, por disposição de seu avô materno, cerimônia que lhe causaria grande impressão.
·                   1922, aos nove anos de idade vai, com a irmã Lygia ao cartório no centro do Rio, e altera seu nome para Vinicius de Moraes.
·                   1924 inicia o Curso Secundário.
         Começa a cantar no coro do colégio, durante a missa de domingo.
        Liga-se de grande amizade a seus colegas Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, este, sobrinho de Raul Pompéia, com os quais escreve o "épico" escolar, em dez cantos, de inspiração camoniana: os acadêmicos.
·                   1927, conhece e torna-se amigos dos irmãos Paulo e Haroldo Tapajoz, com os quais começa a compor. Com eles, e alguns colegas do Colégio Santo Inácio, forma um pequeno conjunto musical que atua em festinhas, em casa de famílias conhecidas.
·                   1928, compõe, com os irmãos Tapajoz, "Loura ou morena" e "Canção da noite", que têm grande sucesso popular.
·                   1930, entra para a faculdade de Direito. Defende tese sobre a vinda de d. João VI para o Brasil para ingressar no "Centro Acadêmico de Estudos Jurídicos e Sociais" (CAJU), onde se liga de amizade a Otávio de Faria, San Thiago Dantas, Thiers Martins Moreira, Antônio Galloti, Gilson Amado, Hélio Viana, Américo Jacobina Lacombe, Chermont de Miranda, Almir de Andrade e Plínio Doyle.
·                   1931, entra para o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR).
·                   1933, forma-se em Direito e termina o Curso de Oficial de Reserva.
        Estimulado por Otávio de Faria, publica seu primeiro livro, O caminho para a distância, na Schmidt Editora.
·                   1935, publica Forma e exegese, com o qual ganha o prêmio Felipe d’Oliveira.
·                   1936, publica, em separata, o poema "Ariana, a mulher".
        Substitui Prudente de Morais Neto, como representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica.
        Conhece Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dos quais se torna amigo.
·                   1938, publica novos poemas e é agraciado com a primeira bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford (Magdalen College), para onde parte em agosto do mesmo ano. Funciona como assistente do programa brasileiro da BBC.
        Conhece, em casa de Augusto Frederico Schmidt, o poeta e músico Jayme Ovalle, de quem se torna um dos maiores amigos.
·                   1939, casa-se por procuração com Beatriz Azevedo de Mello. Regressa da Inglaterra em fins do mesmo ano, devido à eclosão da II Grande Guerra. Em Lisboa encontra seu amigo Oswald de Andrade com quem viaja para o Brasil.
·                   1940, nasce sua primeira filha, Susana. Passa longa temporada em São Paulo, onde se liga de amizade com Mário de Andrade.
·                   1941, começa a fazer jornalismo em A Manhã, como crítico cinematográfico e a colaborar no Suplemento Literário ao lado de Rineiro Couto, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Afonso Arinos de Melo Franco, sob a orientação de Múcio Leão e Cassiano Ricardo.
·                   1942, inicia seu debate sobre cinema silencioso e cinema sonoro, a favor do primeiro, com Ribeiro Couto, e em seguida com a maioria dos escritores brasileiros mais em voga, e do qual participam Orson Welles e madame Falconetti.
        Nasce seu filho Pedro.
        A convite do então prefeito Juscelino Kubitschek, chefia uma caravana de escritores brasileiros a Belo Horizonte, onde se liga de amizade com Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos.
        Inicia, com seus amigos Rubem Braga e Moacyr Werneck de Castro, a roda literária do Café Vermelhinho, à qual se misturam a maioria dos jovens arquitetos e artistas plásticos da época, como Oscar Niemeyer, Carlos Leão, Afonso Reidy, Jorge Moreira, José Reis, Alfredo Ceschiatti, Santa Rosa, Pancetti, Augusto Rodrigues, Djanira, Bruno Giorgi.
        Frequenta, nessa época, as domingueiras em casa de Aníbal Machado. Conhece e se torna amigo da escritora Argentina Maria Rosa Oliver, através da qual conhece Gabriela Mistral.
        Faz uma extensa viagem ao Nordeste do Brasil acompanhando o escritor americano Waldo Frank, a qual muda radicalmente sua visão política, tornando-se um antifacista convicto.
        Na estada em Recife, conhece o poeta João Cabral de Melo Neto, de quem se tornaria, depois, grande amigo.
·                   1943, publica suas Cinco elegias, em edição mandada fazer por Manuel Bandeira, Aníbal Machado e Otávio de Faria. Ingressa, por concurso, na carreira diplomática.
·                   1944, dirige o Suplemento Literário de O Jornal, onde lança, entre outros, Oscar Niemeyer, Pedro Nava, Marcelo Garcia, Francisco de Sá Pires, Carlos Leão e Lúcio Rangel, em colunas assinadas, e publica desenhos de artistas plásticos até então pouco conhecidos, como Carlos Scliar, Athos Bulcão, Alfredo Ceschiatti, Eros (Martim) Gonçalves, Arpad Czenes e Maria Helena Vieira da Silva.
·                   1945, colabora em vários jornais e revistas, como articulista e crítico de cinema.
        Faz amizade com o poeta Pablo Neruda.
·                   1946, parte para Los Angeles, como vice-cônsul, em seu primeiro posto diplomático. Ali permanece por cinco anos sem voltar ao Brasil. Publica em edição de luxo, ilustrada por Carlos Leão, seu livro, Poemas, sonetos e baladas.
·                   1947, em Los Angeles, estuda cinema com Orson Welles e Gregg Toland.
        Lança, com Alex Viany, a revista Film.
·                   1950, viagem ao México para visitar seu amigo Pablo Neruda, gravemente enfermo. Ali conhece o pintor David Siqueiros e reencontra seu grande amigo, o pintor Di Cavalcanti.
        Morre seu pai.
·                   1951, casa-se pela segunda vez com Lila Maria Esquerdo e Bôscoli.
        Começa a colaborar no jornal Última Hora, a convite de Samuel Wainer, como cronista diário e posteriormente crítico de cinema.
1952
        Visita, fotografa e filma, com seus primos, Humberto e José Francheschi, as cidades mineiras que compõe o roteiro do Aleijadinho, com vistas à realização de um filme sobre a vida do escultor que lhe foi encomendado pelo diretor Alberto Cavalcanti.
        É nomeado delegado junto ao festival de Punta Del Leste, fazendo paralelamente sua cobertura para o Última Hora.
        Parte logo depois para a Europa, encarregado de estudar a organização dos festivais de cinema de Cannes, Berlim, Locarno e Veneza, no sentido da realização dos Festival de Cinema de São Paulo, dentro das comemorações do IV Centenário da cidade. Em Paris, conhece seu tradutor francês, Jean Georges Rueff, com quem trabalha, em Estrasburgo, na tradução de suas Cinco elegias.
·                   1953, nasce sua filha Georgiana.
        Colabora no tablóide semanário Flan, de Última Hora, sob direção de Joel Silveira.
        Liga-se de amizade com o poeta cubano Nicolás Guillén.
        Compõe seu primeiro samba, música e letra, "Quando tú passas por mim".
        Faz crônicas diárias para o jornal A Vanguarda, a convite de Joel Silveira.
        Parte para Paris como segundo secretário de Embaixada.
·                   1954, sai a primeira edição de sua Antologia Poética.
        A revista Anhembi publica sua peça Orfeu da Conceição, premiada no concurso de teatro do IV Centenário do Estado de São Paulo.
·                   1955, compõe em Paris uma série de canções de câmara com o maestro Cláudio Santoro.
        Começa a trabalhar para o produtor Sasha Gordine, no roteiro do filme Orfeu Negro.
·                   1956, nasce sua terceira filha, Luciana.
        Colabora no quinzenário Para Todos a convite de seu amigo Jorge amado, em cujo primeiro número publica o poema "O operário em construção".
        Paralelamente aos trabalhos da produção do filme Orfeu Negro, tem o ensejo de encenar sua peça Orfeu da Conceição, no Teatro Municipal, que aparece também em edição comemorativa de luxo, ilustrada por Carlos Scliar. Convida Antônio Carlos Jobim para fazer a música do espetáculo, iniciando com ele a parceria que, logo depois, com a inclusão do cantor e violonista João Gilberto, daria início ao movimento de renovação da música popular brasileira que se convencionou chamar de bossa nova.
·                   1957, é transferido da Embaixada em Paris para a Delegação do Brasil junto à UNESCO. No fim do ano é removido para Montevidéu, regressando, em trânsito, ao Brasil.
        Publica a primeira edição de seu Livro de Sonetos, em edição de Livros de Portugal.
·                   1958, Casa-se com Maria Lúcia Proença.
        Sai o LP Canção do Amor Demais, de músicas suas com Antônio Carlos Jobim, cantadas por Elizete Cardoso. No disco ouve-se, pela primeira vez, a batida da bossa novas, no violão de João Gilberto, que acompanha a cantora em algumas faixas, entre as quais o samba "Chega de Saudade", considerado o marco inicial do movimento.
·                   1959, sai o Lp Por Toda Minha Vida, de canções suas com Jobim, pela cantora Lenita Bruno.
        O filme Orfeu negro ganha a Palme d’Or do Festival de Cannes e o Oscar, de Hollywood, como melhor filme estrangeiro do ano.                  
Aparece o seu livro Novos poemas II.
·                   1960, sai a segunda edição de sua Antologia Poética, pela Editora de Autor; a edição popular da peça Orfeu da Conceição, pela livraria São José e Recette de Femme et autres poèmes, tradução de Jean-Georges Rueff, em edição Seghers, na coleção Autour du Monde.
·                   1961, começa a compor com Carlos Lira e Pixinguinha.
·                   1962, começa a compor com Baden Powell, dando inicio à série de afro-sambas, entre os quais, "Berimbau" e "Canto de Ossanha".
        Compõe, com música de Carlos Lyra, as canções de sua comédia-musicada Pobre menina rica.
        Em agosto, faz seu primeiros how, de larga repercussão, com Antônio Carlos Jobim e João Gilberto, na boate Au Bom Gourmet, que daria início aos chamados pocket-shows, e onde foram lançados pela primeira vez grandes sucessos internacionais como "Garota de Ipanema" e o "Samba da bênção" . Show com Carlos Lyra, na mesma boate, para apresentar Pobre menina rica e onde é lançada a cantora Nara Leão.
        Compõe com Ari Barroso as últimas canções do grande compositor popular, entre as quais "Rancho das namoradas".                               
Aparece a primeira edição de Para viver um grande amor, pela Editora do Autor, livro de crônicas e poemas. Grava, como cantor, seu disco com a atriz e cantora Odete Lara.
·                   1963, Começa a compor com Edu Lobo. Casa-se com Nelita Abreu Rocha e parte em posto para Paris, na delegação do Brasil junto a UNESCO.
·                   1964, regressa de Paris e colabora com crônicas semanais para a revista Fatos e Fotos, assinando paralelamente crônicas sobre música popular para o Diário Carioca.
        Começa a compor com Francis Hime.
        Faz show de grande sucesso com o compositor e cantor Dorival Caymmi, na boate Zum-Zum, onde lança o Quarteto em Cy. Do show é feito um LP.
·                   1965, sai Cordélia e o peregrino, em edição do Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura.
        Ganha o primeiro e o segundo lugares do I Festival de Música Popular de São Paulo, da TV Record, em canções de parceria com Edu Lobo e Baden Powell.
        Parte para Paris e St. Maxime para escrever o roteiro do filme Arrastão, indispondo-se, subsequentemente, com seu diretor, e retirando suas músicas do filme.
        De Paris voa para Los Angeles a fim de encontrar-se com seu parceiro Antônio Carlos Jobim.
        Começa a trabalhar com o diretor Leon Hirszman, do Cinema Novo, no roteiro do filme Garota de Ipanema.
·                   1966, são feitos documentários sobre o poeta pelas televisões americana, alemã, italiana e francesa, sendo que os dois últimos realizados pelos diretores Gianni Amico e Pierre Kast.
        Aparece seu livro de crônicas Para uma menina com uma flor pela Editora do Autor.
        Seu "Samba da bênção", de parceria com Baden Powell, é incluída, em versão de compositor e ator Pierre Barouh, no filme Un homme… une femme, vencedor do Festival de Cannes do mesmo ano.
·                   1967, aparecem, pela Editora Sabiá, a 6ª edição de sua Antologia poética e a 2ª do seu Livro de sonetos (aumentada).
        Estréia do filme Garota de Ipanema.
·                   1968, falece sua mãe no dia 25 de fevereiro.
        Aparece a primeira edição de sua Obra poética, pela Companhia José Aguilar Editora. Poemas traduzidos para o italiano por Ungaretti.
·                   1969, é exonerado do Itamaraty.
        Casa-se com Cristina Gurjão.
·                   1970, casa-se com a atriz baiana Gesse Gessy.
        Nasce Maria, sua quarta filha.
        Início da parceria com Toquinho.
·                   1971, muda-se para a Bahia.
·                   1972, viagem à Itália com Toquinho onde gravam o LP Per vivere un grande amore.
·                   1973, publica "A Pablo Neruda".
·                   1974, trabalha no roteiro, não concretizado, do filme Polichinelo.
·                   1975, excursiona pela Europa. Grava, com Toquinho, dois discos na Itália.
·                   1976, escreve as letras de "Deus lhe pague", em parceria com Edu Lobo.
        Casa-se com Marta Rodrihues Santamaria.
·                   1977, grava um LP em Paris, com Toquinho. Show com Tom, Toquinho e Miúcha, no Canecão.
·                   1978, excursiona pela Europa com Toquinho.
        Casa-se com Gilda de Queirós Mattoso, que conhecera em Paris.
·                   1979, Voltando de viagem à Europa, sofre um derrame cerebral no avião. Perdem-se, na ocasião, os originais de Roteiro lírico e sentimental da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
        Participa de leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva.
·                   1980, é operado a 17 de abril, para a instalação de um dreno cerebral. Morre, na manhã de 9 de julho, de edema pulmonar, em sua casa, na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher. Extraviam-se os originais de seu livro O dever e o haver.

        O biógrafo de Vinicius, José Castello, autor do livro "Vinicius de Moraes: o Poeta da Paixão - uma biografia" nos diz que o poeta foi um homem que viveu para se ultrapassar e para se desmentir. Para se entregar totalmente e fugir, depois, em definitivo. Para jogar, enfim, com as ilusões e com a credulidade, por saber que a vida nada mais é que uma forma encarnada de ficção. Foi, antes de tudo, um apaixonado — e a paixão, sabemos desde os gregos, é o terreno do indomável. Daí porque fazer sua biografia era obra ingrata.
        Dele disse Carlos Drummond de Andrade: "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural". "Eu queria ter sido Vinicius de Moraes".
        Otto Lara Resende assim o definiu: "Manuel Bandeira viveu e morreu com as raízes enterradas no Recife. João Cabral continua ligado à cana-de-açúcar. Drummond nunca deixou de ser mineiro. Vinicius é um poeta em paz com a sua cidade, o Rio. É o único poeta carioca". Mas ele dizia nada mais ser que "um labirinto em busca de uma saída".
        O que torna Vinicius um grande poeta é a percepção do lado obscuro do homem. E a coragem de enfrentá-lo. Parte, desde o princípio, dos temas fundamentais: o mistério, a paixão e a morte. Quando deixa a poesia em segundo plano para se tornar show-man da MPB, para viver nove casamentos, para atravessar a vida viajando, Vinicius está exercendo, mais que nunca, o poder que Drummond descreve, sem conseguir dissimular sua imensa inveja: "Foi o único de nós que teve a vida de poeta".
        Inconstante no amor (seus biógrafos dizem que teve, oficialmente, 09 mulheres), um dia foi questionado pelo parceiro Tom Jobim: "Afinal, poetinha, quantas vezes você vai se casar?".
        Num improviso de sabedoria, Vinicius respondeu: "Quantas forem necessárias."

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to