Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 366)

Uma Trova de Maringá/PR
Osvaldo Reis

Mil vezes eu curtiria
o samba de uma só nota...
O duro é ouvir, todo dia,
de um chato a mesma anedota!

Uma Trova de Santos/SP
Antonio Colavite Filho

Quero, por tudo e por nada,
esquecer-te a qualquer preço,
mas a distância danada
já sabe o meu endereço!

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

Saudades

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Uma Trova Humorística de São José dos Campos/SP
Amilton Maciel Monteiro

Quando moça era a “vassoura”,
por passar de mão em mão;
idosa, agora, é a “tesoura”:
corta a todos sem perdão!

Uma Trova de São Paulo/SP
Darly O. Barros

Sem vitupérios e afrontas,
poupa de ofensas teus lábios,
que, em muito acerto de contas,
vence o silêncio dos sábios!

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

Para meu coração

Para meu coração basta teu peito
para tua liberdade bastam minhas asas.
Desde minha boca chegará até o céu
o que estava dormindo sobre tua alma.

E em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o sereno às corolas.
Escavas o horizonte com tua ausência
Eternamente em fuga como a onda.

Eu disse que cantavas no vento
como os pinheiros e como os hastes.
Como eles és alta e taciturna.
e entristeces prontamente, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Te povoa ecos e vozes nostálgicas.
eu despertei e as vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam em tua alma.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Chamaste-me tua vida,
eu tua alma quero ser:
a vida acaba com a morte,
a alma não pode morrer.

Uma Trova Hispânica da Venezuela
Hildebrando Rodríguez

Si hablamos de coherencia,
tiene que haber engranaje
que coordine la vivencia
con lo que expresa el lenguaje.

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

Se eu morrer…

Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha força
que acordarás as fúrias do pálido e do frio,
de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis,
de sol a sol sonha através de tua boca cantante.
Não quero que tua risada ou teus passos hesitem.
Não quero que minha herança de alegria morra.
Não me chames. Estou ausente.
Vive em minha ausência como em uma casa.
A ausência é uma casa tão rápida
que dentro passarás pelas paredes
e pendurarás quadros no ar.
A ausência é uma casa tão transparente
que eu, morto, te verei, vivendo,
e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente.

Trovadores que deixaram Saudades
Vidal Idony Stockler
Castro/PR (1924 – 2014) Curitiba/PR

Sabiá de peito roxo,
passarinho cantador...
Seus gorjeios sem muxoxo
são melodias de amor!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Delcy Canalles

Tinha portas de poesia
e janelas de luar
essa morada que um dia
deixou meu amor entrar.

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

Amor Perdido

Eu fiz retroceder a muralha de sombra,
e caminhei além do desejo e do ato.
Oh carne, carne minha, mulher que amo e perdi,
a ti, nesta úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o esquecimento infindo te partiu como a um vaso.
Era a negra, era a negra soledade das ilhas,
e ali me receberam, mulher de amor, teus braços.
Era a sede, era a fome, e foste tu o fruto.
Era o luto, as ruínas, e tu foste o milagre
Ah mulher, não sei como tu pudeste conter-me
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo de ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, inda há fogo em tuas tumbas,
ardem ainda as uvas bicadas pelos pássaros.
Oh a boca mordida, oh os beijados membros,
oh os famintos dentes, oh os corpos trançados.
Oh, a cópula louca de esperança e esforço,
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e o trigo.
E a palavra apenas começada nos lábios.
Foi esse o meu destino: nele foi meu anseio
e caiu meu anseio, tudo em ti foi naufrágio!

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Elisabeth Souza Cruz

É tão forte a intensidade
das loucuras da paixão,
que no amor a insanidade
é o que eu chamo de razão.

Um Haicai de Magé/RJ
Clara Carolina Oliveira Pinheiro
12 anos

Luz da lua fria.
As sombras das bananeiras
Quase transparentes.

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

O Vento na Ilha

O vento é um cavalo
Ouça como ele corre
Pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como recorre ao mundo
para me levar para longe.

Me esconde em teus braços
por somente esta noite,
enquanto a chuva rompe
contra o mar e a terra
sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para me levar para longe.

Com tua frente a minha frente,
com tua boca em minha boca,
atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa me levar.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopando na sombra,
entretanto eu, emergido
debaixo teus grandes olhos,
por somente esta noite
descansarei, amor meu.

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Eliana Ruiz Jimenez

Quero um amor que me valha
e espero o tempo que for,
pois sou celeiro de palha
pronto a queimar por amor!

Um Haicai de Magé/RJ
Kássia Quézia Guimarães Aguiar
14 anos

Logo após a chuva,
O arco-íris desbotado
Aparece no céu.

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

Soneto de Amor

Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,

e desde então sou porque tu é,
e desde então é, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.

Uma Trova de Caicó/RN
Eva Yanni Garcia

Tua espera não me cansa,
e esta tua insensatez
não mata a minha esperança
de esperar tudo outra vez!

Um Haicai de Rebouças/PR
Elivelton Luiz Bolek
14 anos

Férias de verão
Lambaris bem torradinhos
De um dia de pesca.

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

Cavalo dos Sonhos

Desnecessário, me olhando nos espelhos,
com um gosto de semanas, de biógrafos, de papeis
arranco do meu coração o capitão inferno,
estabeleço clausulas indiferentemente tristes.
Vago de um ponto a outro, absorvo ilusões,
converso com os alfaiates nos seus ninhos:
eles, freqüentemente, com voz fatal e fria
cantam e os males espantam.

Um Haicai de Irati/PR
Tamaiale Aksenen
13 anos

Férias de verão
Dormir até mais tarde
Ui! Galo chato.

Uma Trova de São Paulo/SP
J. B. Xavier

Um sorriso, uma indulgência,
um gesto ingênuo de adeus...
Por onde houver inocência
há um pedacinho de Deus...

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

O Menino Perdido

Lenta infância de onde
como de um pasto comprido
cresce o duro pistilo,
a madeira do homem.
Quem fui? O que fui? O que fomos?
Não há resposta. Passamos.
Não fomos. Éramos. Outros pés,
outras mãos, outros olhos.
Tudo foi mudando folha por folha,
na árvore. E em ti? Mudou a tua pele,
o teu cabelo, a tua memória. Aquele que não foste.
Aquele foi um menino que passou correndo
atrás de um rio, de uma bicicleta,
e com o movimento
foi-se a tua vida com aquele minuto.
A falsa identidade seguiu os teus passos.
Dia a dia as horas se amarraram,
mas tu já não foste, veio o outro,
o outro tu, e o outro até que foste,
até que te arrancaste
do próprio passageiro,
do trem, dos vagões da vida,
da substituição, do caminhante.
A máscara do menino foi mudando,
emagreceu a sua condição enfermiça,
aquietou-se o seu volúvel poderio:
o esqueleto se manteve firme,
a construção do osso se manteve,
o sorriso,
o passo, o gesto voador, o eco
daquele menino nu
que saiu de um relâmpago,
mas foi o crescimento como um traje!
Era outro o homem e o levou emprestado.
Assim aconteceu comigo.
De silvestre
cheguei a cidade, a gás, a rostos cruéis
que mediram a minha luz e a minha estatura,
cheguei a mulheres que em mim se procuraram
como se a mim tivessem perdido,
e assim foi sucedendo
o homem impuro,
filho do filho puro,
até que nada foi como tinha sido,
e de repente apareceu no meu rosto
um rosto de estrangeiro
e era também eu mesmo:
era eu que crescia,
era tu que crescias,
era tudo,
e mudamos
e nunca mais soubemos quem éramos,
e às vezes recordamos
aquele que viveu em nós
e lhe pedimos algo, talvez que se recorde de nós,
que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos
com a sua língua,
mas das horas consumidas
aquele nos olha e não nos reconhece.

Recordando Velhas Canções
Matriz ou filial
(samba-canção, 1964)

Lúcio Cardim

Quem sou eu    
pra ter direitos exclusivos sobre ela
se eu não posso sustentar os sonhos dela
se nada tenho e cada um vale o que tem

Quem sou eu    
pra sufocar a solidão da sua boca
que hoje diz que é matriz e quase louca
quando brigamos diz que é a filial

Afinal    
se amar demais passou a ser o meu defeito
é bem possível que eu não tenha mais direito
de ser matriz por ter somente amor pra dar

Afinal 
o que ela pensa em conseguir me desprezando
se sua sina sempre é voltar chorando
arrependida me pedindo pra ficar

Uma Trova de Angra dos Reis/RJ
Jesse Nascimento

Nossos puros sentimentos
são comparados, na vida,
a afinados instrumentos
numa orquestra bem regida.

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Um Haicai de Curiúva/PR
Mario Weslen Santos
12 anos

Férias na casa da vó
Do teto do meu quarto
Só cai pó...pó...pó ..

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Sônia Sobreira

As gotas caem ao léu
sem ninguém poder detê-las.
Será chuva lá do céu,
ou são lágrimas de estrelas?

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Hinos de Cidades Brasileiras
Sobradinho/BA

Dos reclames do progresso,
à fundação da usina
quanto sonho convergia!
No cráton do São Francisco
Fez-se, pras águas, um aprisco:
Sobradinho assim nascia!

Sobre o espelho do lago
o gavião, a planar,
é testemunha ocular
da base de tua história;
tal qual as tuas xerófilas
enfrentando as intempéries,
os teus homens e mulheres
celebram cada vitória!

Pode vir sem cerimônia,
porque Sobradinho está
com seus braços sempre abertos
a quem vem lhe visitar!

Na depressão sertaneja,
onde te ergues, altaneira,
és amostra do milagre
da pura fé brasileira;
no cenário nordestino
vais cumprindo teu destino
de cidade alvissareira!

Despontando para o mundo
se espargindo em poesia,
és orgulho da Bahia.
Sobradinho,doce lar,
até mesmo o "Velho Chico"
modificando seu traço,
descansa no teu regaço,
antes de seguir p'ro mar!

Quem parte de Sobradinho
mesmo que pela vontade,
não demora, está voltando,
ferido pela saudade!

Entre tuas cordilheiras
recheados de cristais
surgem inscrições rupestres
com indivisíveis sinais;
no teu solo as avoantes
as musas itinerantes
vêm construir seus pombais!

Pelas asas dos alísios
teus mistérios, tuas lendas,
ficaram para as calendas,
como Moquim nem sonhava...
ó Juacema! o Opara
refugou ante barreira,
refreando a corredeira
onde você se banhava!
Do refluxo de teus filhos,
Sobradinho, vem teus brios
pelas águas generosas
desse caudaloso rio!...

Uma Trova de Curitiba/PR
Maurício Norberto Friedrich

Nosso amor foi tão ranzinza
que explodiu como um vulcão,
deixando, somente, a cinza
no meu pobre coração.

Um Poema do Chile
Pablo Neruda
Parral/Chile (1904 – 1973) Santiago/Chile

Ode ao Gato

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça vôo.
O gato,
só o gato apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite .

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gato, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.

Sobre a canção “Matriz e Filial”
         É comum atribuir-se a Lupicínio Rodrigues a autoria de “Matriz ou Filial” um autêntico samba-canção “dor de cotovelo”. Como se não bastasse a linha melódica abolerada sempre associada ao clima de “inferninho”, e o tratamento dramático do tema paixão / rivalidade / arrependimento, a composição ainda seria, não por acaso, lançada por Jamelão, o intérprete maior de Lupicínio.
         Entretanto o autor desses versos é o santista Lúcio Cardim, personagem da noite, como Lupi, e que integrou em sua época um restrito grupo de compositores paulistas reconhecidos e gravados em outros estados.
         As reflexões e tiradas surpreendentes do ambiente de bas fond, dominantes na obra de Cardim, podem ser apreciadas em “Matriz ou Filial”, que ele chegou a gravar, juntamente com outras composições de sua autoria, num elepê (o único em toda a sua carreira) intitulado Obra-prima, em 1978.
Fonte: Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo. v.2. Editora 34.

 
As auras dos trovadores
que partem, pode-se vê-las,
no viço eterno das flores
e no brilho das estrelas!

As ondas, filhas das águas,
do mar revolto e profundo,
na praia choram as mágoas,
as mágoas de todo o mundo.

A saudade é uma andorinha,
é ave de arribação,
que se chega, bem mansinha,
e pousa no coração!

A sorte é fada menina,
tem caprichos de donzela:
quando a vejo, vira a esquina,
corro atrás, onde está ela?!

A verdade, deusa nua,
duas faces sempre tem;
e cada homem cultua
a face que lhe convém!

Brilham em mística magia
estrelas no Céu, além:
são lágrimas de Maria,
por mães que choram também!

Caridade é um dom que encerra
sementes puras do bem,
que frutificam na terra
mas só se colhem no além.

Das minhas mágoas doridas
fiz um feixe, dei ao mar:
mas elas retornam vivas
nas ondas a soluçar…

De que vale eu ficar mudo
e o amor no peito ocultar,
se os meus olhos dizem tudo
quando encontram teu olhar.

Do meu amor pedes provas
mas joias só posso dar,
se buriladas em trovas
como as contas de um colar!

Do pobre andejo no mundo
se fala mal - dá na vista:
– mas se é rico e vagabundo
dizem todos que é turista!

Felicidade, querida,
eu a busquei, tudo em vão!
É gota d’água perdida
no mar azul da ilusão…

Gaivotas, ninfas serenas,
e bailando eu sempre as vi:
levando ao céu suas penas,
as minhas deixando aqui.

Já rimei tantas quadrinhas
mas nenhuma em teu louvor:
como posso, em quatro linhas,
resumir tão grande amor?

Magias quisera tê-las
e, com amor e desvelos,
polvilharia de estrelas
a noite dos teus cabelos!

Neste mundo quanta gente
lembra o carvalho, olhe bem!
Sempre altivo e imponente,
sem frutos dar a ninguém.

Noite… e no corcel dos sonhos
eu galopo, a toda a brida,
nos campos verdes, risonhos,
da minha infância perdida.

Os ciúmes, os cuidados,
a saudade – quanta dor!
São como juros cobrados
pelo capital do amor…

Ó sombria solidão!
Ó soledade sofrida!
No sofrer sem solução
de solitude sentida!

Quando a noite se avizinha,
dor, saudade - quem dá jeito?
Cada estrela é uma tachinha
martirizando o meu peito!

Quando de longe, à tardinha,
tange o sino da capela,
só, no peito, em ladainha,
meu amor reza por ela.

Sereno que cai, sereno,
polindo as pedras do chão:
pranto gotejando ameno
dos astros em solidão.


Chuveirão Biográfico do Poeta
         Pablo Neruda(1904-1973) é o pseudônimo usado por Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto, nasceu em Parral/Chile, em 12 de julho de 1904. Filho de José del Carmen Reyes Morales, operário ferroviário, e dona Rosa Basoalto Opazo, professora primária, morta quando Neruda tinha um mês de vida.
         Em 1906 o pai se tranferiu para Temuco, onde se casou com Trinidad Candia Marverde, a quem o poeta menciona em diversos textos, como "Confesso que vivi" e "Memorial de Ilha Negra", como o nome de Mamadre.
         Estudou no Liceu de Homens dessa cidade, e ali publicou seus primeiros poemas no periódico regional "A Manhã".
         Em 1919 obteve o terceiro lugar nos Jogos Florais de Maule com o poema Noturno Ideal.
         Aos 16 anos, adotou o pseudônimo de Pablo Neruda (inspirado no escritor checo Jan Neruda), que utilizaria durante toda a vida, tornando-se seu nome legal, após ação de modificação do nome civil.
         Estudou para converter-se em professor de francês, sem chegar a lograr êxito.
         Em 1921 radicou-se em Santiago e estudou pedagogia em francês na Universidade do Chile, obtendo o primeiro prêmio da festa da primavera com o poema "A Canção de Festa", publicado posteriormente na revista Juventude.
         Em 1923 publica Crespusculário, que é reconhecido por escritores como Alone, Raul Silva Castro e Pedro Prado.
         No ano seguinte aparece pela Editorial Nascimento seus "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada", no que ainda se nota uma influência do modernismo. Posteriormente se manifesta um propósito de renovação formal de intenção vanguardista em três breves livros publicados em 1936: O habitante e sua esperança; Anéis (em colaboração com Tomás Lagos) e Tentativa do homem infinito.
         Nomeado em 1927 cônsul-geral do Chile em Rangum (hoje Yangon), na Birmânia (atual Myanmar), durante os cinco anos seguintes Neruda representou seu país em diversos pontos do Sudeste Asiático.
         Nesse período casou-se com Maria Haagenar e escreveu uma de suas obras principais, Residencia en la tierra (1933), em que emprega imagens e recursos próprios do surrealismo dentro de uma perspectiva original. O tom do livro é de profundo pessimismo em torno dos temas do tempo, da ruína, da desintegração e da morte, e exprime a visão de um mundo caótico.
         Em suas múltiplas viagens conhece em Buenos Aires a Federico Garcia Lorca e em Barcelo a Rafael Alberti.
         Em 1935, Manuel Altolaguirre entrega a Neruda a direção da revista "Cavalo verde para a poesia" na qual é companheiro dos poetas da geração de 27. Nesse mesmo ano aparece a edição madrilenha de "Residência na terra".
         Uniu-se então, em seu segundo casamento, a Delia del Carril. A guerra civil espanhola, que lhe inspirou a obra España en el corazón (1937), determinou uma mudança profunda na atitude do poeta, que aderiu ao marxismo e decidiu consagrar sua obra e sua vida à defesa dos ideais políticos e sociais inspirados pelo comunismo. Em 1936, Neruda foi destituído do cargo consular.
         Em 1938 regressou ao Chile e, após novo período no México como embaixador, em 1945 foi eleito senador pelo Partido Comunista. Três anos depois, porém, o governo pôs o partido na ilegalidade.
         Eleito senador em 1945, permaneceu exilado em Paris de 1948 a 1952. Obteve o Prêmio Nacional de Literatura.
         Em 1950 publica "Canto Geral", em que sua poesia adota intenção social, ética e política.
         Quando, em 1952, o governo chileno restabeleceu as liberdades políticas, Neruda regressou ao país com sua terceira mulher, Matilde Urrutia, e fixou residência em Isla Negra, no Pacífico.
         Em 1952 publicou «Os Versos do Capitão» e em 1954 «As uvas e o vento» e «Odes Elementares».
         Em 1953 constrói sua casa em Santiago apelidada "La Chascona" para se encontrar clandestinamente com sua amante Matilde, a quem havia dedicado a obra «Os Versos do Capitão».
         Sua poesia adquiriu uma grande diversidade e, se nas Odas elementales (1954) cantava a vida cotidiana, em Cien sonetos de amor (1959) e em Memorial de Isla Negra (1964) evocava o amor e a nostalgia do passado em imagens expressivas, enquanto em La espada encendida (1970; A espada incendiada) o autor reafirmava seu compromisso com a ideologia político-social.
         A casa foi uma de suas três casas no Chile, as outras estão em Isla Negra e Valparaíso. "La Chascona" é um museu com objetos de Neruda e pode ser visitada, em Santiago. Recebeu o Prêmio Lênin da Paz.
         Em 1958 apareceu Estravagario com uma nova mudança em sua poesia.
         Em 1965 lhe foi outorgado o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, Grã-Bretanha.
         Em outubro de 1971 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.
         Durante as eleições presidenciais do Chile, Neruda abriu mão de sua candidatura para que Salvador Allende vencesse, pois ambos eram marxistas e acreditavam numa América Latina mais justa que, a seu ver, poderia ocorrer com o socialismo.
         Morreu em Santiago em 23 de setembro de 1973, de câncer na próstata. Postumamente foram publicadas suas memórias em 1974, com o título "Confesso que vivi" .

         Em 1994 um filme chamado Il Postino (também conhecido como O Carteiro e O Poeta) conta sua história numa ilha na Itália com sua terceira mulher Matilde. No filme Neruda torna-se amigo de um carteiro que lhe pede para ensinar a escrever versos (para poder conquistar uma bonita moça do povoado).
         De uma forma geral, pode-se dizer que a poesia de Pablo Neruda tem quatro vertentes. A primeira refere-se aos seus poemas de amor, como em "Veinte Poemas de Amor y una Cancion Desesperada". A Segunda vertente é representada pela poesia voltada para a solidão e a depressão, como em "Residencia en la Tierra". A poesia épica, política, como por exemplo, em "Canto General" representa a terceira vertente e a poesia do dia a dia, como em "Odas Elementales", a Quarta.
         No livro Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, Neruda canta o amor, a ausência da mulher amada, e cultua uma tristeza que chega ao desespero. Os versos são, muitas vezes, herméticos, e as comparações extravagantes guardam poucos pontos de contato com a realidade.
         Em Tentativa do homem infinito, de 1925, uma densa atmosfera de angústia dá vida ao caos verbal: a sintaxe e a ortografia são absolutamente livres - e as imagens, em certos trechos, incompreensíveis. Mais tarde, na obra Residência na terra, a angústia assume proporções trágicas, e Neruda fala sobre a morte, a ruína, a desintegração do mundo.
         A visão dos horrores da Guerra Civil Espanhola fará com que a preocupação social, acompanhada do engajamento político-partidário, influencie sua poesia. Assim, no livro Espanha no coração o poeta colocará seu talento a serviço do comunismo, e sua missão será conseguir adeptos, denunciar, converter.
         Neruda será, portanto, cada vez menos lírico e cada vez mais épico. Os versos se transformam, perdem todo o hermetismo e tornam-se simples, pois o poeta deseja ser lido pelos operários. O ponto culminante dessa nova poética pode ser encontrado em Canto geral.
         Canto Geral é, portanto, a resposta poética de Neruda à traição de Videla e às injustiças históricas da América Latina, obra na qual ele transforma seu verso em arma de combate, denunciando os crimes do imperialismo americano e fazendo uma revisão histórica dos séculos de dominação estrangeira e, também, das lutas de resistência.
         A obra completa de Pablo Neruda reúne mais de 40 livros, escritos entre 1923 e 1973.

Maria de Lourdes Bacicheti Gonçalves *
Poesia infantil: uma linguagem lúdica

Poesia infantil: definindo caminhos

Quando a questão é literatura infantil, não se pode desconsiderar o longo caminho percorrido pelo gênero até a sua emancipação e consolidação enquanto arte. Desde a sua origem, a literatura infantil, entendida como todas as formas de literatura destinadas às crianças, esteve ligada à educação, com a finalidade de transmitir valores burgueses para serem incorporados como instrumento de ensinamento educacional, a serviço da ideologia dominante, limitada, portanto, à área pedagógica.
O comprometimento com a pedagogia fez com que, durante décadas, a literatura infantil fosse considerada um gênero à parte, vivendo à sombra da grande literatura, o que levou a posições divergentes quanto à sua natureza. Literatura infantil passou a ser vista como um gênero menor ou pueril, ou seja, ligado a divertimento, a passatempo ou a ensinamento. Essa questão afetou a recepção da poesia destinada ao público infantil, levando-a à marginalização. A ruptura com a poética tradicional revitalizou os textos poéticos voltados para a criança, fazendo com que a produção para esse público adquirisse status de arte.
A poesia infantil só conseguiu consolidar-se enquanto arte há algumas décadas, quando seus produtores passaram a lhe conferir um novo tratamento, desvencilhando-se da pedagogia de valores tradicionais, o que a inseriu na poética da modernidade, fazendo-a ombrear-se à poesia não-infantil.
Muitos professores, embora conscientes do valor da leitura, continuam rejeitando a leitura de poesia na sala de aula, sob a alegação de que as crianças não gostam desse gênero literário. Esse conceito equivocado, decorrente, talvez, da ligação que a poesia manteve com a pedagogia ou, ainda, do desconhecimento das especificidades do texto poético, de seu caráter polissêmico e de como deve ser introduzido e explorado no ambiente escolar, acabou contribuindo para a rejeição da poesia na escola, que tem priorizado outros tipos de textos para a leitura. Na sociedade, observa-se semelhante rejeição, o que pressupõe que o fato se deve ao tratamento dado ao texto poético no ambiente escolar, já que as formas de letramento escolar acabam por se constituir em modelo para o letramento social.
O afastamento da criança em relação à poesia é problemático, pois o mundo infantil, tal como o mundo poético, é permeado de imagens, fantasia e sensibilidade. Privar o aluno de ter contato com essa linguagem lúdica e sonora significa reduzir as possibilidades de criação e crescimento da criança, uma vez que é um tipo de texto imprescindível para sua formação. Escolhas inadequadas, fragmentação de textos, tratamento impróprio do texto literário e adaptações equivocadas da poesia na escola afastaram as crianças dessa forma de arte, e a compreensão da poesia como veículo pedagógico, em que prevalece a perspectiva do adulto, eliminou as suas potencialidades como forma de conhecimento, pois, conforme Bordini afirma:

[...] na poesia, o aprendizado possível se produz pela própria estrutura do poema, que seduz e estimula o leitor fisicamente pelos ritmos e efeitos acústicos e intelectual e afetivamente pelas representações ou vivências que suscita (BORDINI, 1989. p. 63).

Apesar das mudanças provocadas pelos avanços tecnológicos na forma de acesso à cultura que colocaram ao alcance das crianças a televisão, a internet, enfim, um universo virtual que lhes oferece novas formas de criação e leitura, a ligação da criança com a poesia ainda continua forte. Embora, muitas vezes, a própria escola promova a ruptura criança/poesia pelo modo como tem promovido o estudo, a leitura e a prática de trabalho com o texto poético; ele precisa fazer parte dos conteúdos escolares, e o professor precisa conhecer a produção atual e as especificidades desses textos voltados para o público mirim e o que deve ser valorizado nessas produções.
Este artigo tem como objetivo discutir a natureza da poesia infantil e suas especificidades, visando contribuir para uma maior compreensão dos aspectos mais relevantes que devem ser observados com relação à escolha dos textos poéticos direcionados à infância.

Poesia infantil: brincando com a linguagem

A poesia é um dos meios mais expressivos de comunicação e de inovação da linguagem. É no texto literário que o prazer e a gratuidade se manifestam com mais freqüência ao leitor. Com sua linguagem condensada e emotiva, a poesia toca os pequenos sensivelmente, uma vez que estes têm uma forma particular e diferente do adulto de ver e sentir o mundo, já que também se encontram num processo de construção de seu mundo interior, tal como o poeta ao tecer sua obra. Utilizando-se, sobretudo, de imagens e símbolos, suprimindo elementos de ligação e tudo que não contribui para sua significação, o texto poético concorre para maior afinidade do receptor com a emoção do poeta (PONDÉ, 1983).
Na poesia, em geral, não há limites para os assuntos ou temas literários, mas quando se trata da poesia para a infância há, muitas vezes, restrições em relação a essa questão. Mesmo que isso precise ser considerado em razão das imposições sociais e maturação da criança, é necessário que as adaptações levem em conta seus receptores.
Zappone (2005) ressalta que aspectos como o vocabulário e as construções sintáticas devem estar em consonância com o público a que se destinam. Devem-se evitar determinados infantilismos, uso freqüente de diminutivos, construções sintáticas repetitivas, bem como poemas longos ou o uso de figuras de linguagem complexas. Outra questão a ser observada é que os textos destinados às crianças recorrem, ainda, ao recurso da ilustração que tem, hoje, um papel fundamental nos textos infantis, facilitando às crianças seu contato com o livro. Na poesia para criança, merecem também atenção o tipo de letra, o papel, o projeto gráfico, o formato, uma vez que tudo isso concorre para a atribuição de sentido ao texto.
Todos os elementos estruturais aliados aos elementos poéticos, lúdicos e mágicos presentes nessas manifestações fazem emergir na criança a sensibilidade, a criatividade, a fantasia e a emoção. Por isso, desenvolver no pequeno leitor a competência para apreciar a linguagem poética, como um modo particular de ver, sentir e perceber o mundo, é fundamental na escola. Mas como fazer isso?
O trabalho com a poesia deve ser realizado a partir da ampliação da capacidade da criança sentir os elementos que na poesia são capazes de transmitir emoção. Em vista disso, um ponto que não pode ser negligenciado, quando se trata de poesia para crianças, é que a qualidade estética deve prevalecer.

A poesia para crianças, assim como a prosa, tem que ser antes de tudo, muito boa! De primeiríssima qualidade!!! Bela, movente, cutucante, nova, surpreendente, bem escrita... Mexendo com a emoção, com as sensações, com os poros, mostrando algo de especial ou que passaria despercebido, invertendo a forma usual de a gente se aproximar de alguém ou de alguma coisa... Prazerosa, triste, sofrente, se for a intenção do autor... Prazerosa, gostosa, lúdica, brincante, se for a intenção do autor... (ABRAMOVICH, 1989, p. 67).

Por isso, não deve ser escrita especialmente para crianças, evitando-se, assim, o risco de menorização de idéias que não conseguem sustentar-se convincentemente ou, ainda, o uso de fórmulas verbais, adjetivos, repetições e diminutivos que a torna estranha e falsa ao mundo infantil, quando não regada de ensinamentos que impedem a revelação do mundo prazeroso e mágico da linguagem ou, igualmente, a perda de sua capacidade significativa à medida que seus leitores avancem no processo de sua formação.
Ao discutir sobre a poesia brasileira para a infância, Arroyo mostra que os nossos grandes poetas, “que não escreveram especialmente para as crianças, dão-nos peças muito bem feitas e com profundo traço de simplicidade, o que permite trânsito livre para a compreensão da infância e adolescência”. (ARROYO, 1990, p. 222) Por aí, é possível perceber que não deve haver uma inspiração “para crianças” e outra “para adultos”, conforme aponta Cunha (1991, p.119). Para a pesquisadora, é preciso buscar entre os grandes poetas brasileiros aqueles que “maior ressonância encontram no espírito infantil”.
Essa questão é fundamental, uma vez que a assimetria entre autor-adulto e leitor-criança pode levar a uma compreensão imprópria do processo de adaptação do texto literário para a infância, já que a inclinação adulta de promover bons costumes e ensinar noções elementares por meio da linguagem lúdica ou a de tornar mais acessível à representação do mundo para o intelecto da criança em formação, “a partir da infantilização do discurso e da redução do plano semântico a esquemas, ataca o efeito poético pela raiz, desvalorizando a poesia infantil como possibilidade de arte literária” (BORDINI, 1989, p. 56).
A função da poesia e, naturalmente, da arte literária em geral, não é promover o domínio lingüístico, mas, por meio da linguagem, possibilitar ao receptor um distanciamento crítico da realidade que ela lhe expõe à consciência. Por isso, a poesia tem uma importante função no desenvolvimento da personalidade infantil, uma vez que ela permite a comunicação da criança com a realidade, possibilita a investigação do real, ampliando o entendimento e a experiência de mundo através da palavra. Mas, para isso, a sua linguagem, os seus temas precisam estar em harmonia com a vivência infantil para que possa cumprir sua função simbólica e só conseguirá cumpri-la, se tiver valor literário, se criar novas linguagens, se respeitar o mundo infantil que tem uma coerência peculiar.
O professor, ao trabalhar a poesia na escola ou ao indicá-la para leitura, precisa ter o cuidado de buscar aquela que possa tocar a alma infantil, que exigiu uma elaboração mais cuidadosa. Precisa construir uma prática pedagógica que contribua para que a criança possa perceber as especificidades do texto, apreender sua linguagem e dar sentido a ele. Lajolo (1993: 50, grifos da autora) ressalta que as atividades de leitura de um texto literário “têm sempre de ser centradas no significado mais amplo do texto, significado que não se confunde com o que o texto diz, mas reside no modo como o texto diz o que diz”. Isso significa que as atividades devem contribuir para que os alunos analisem, acima de tudo, aqueles aspectos imprescindíveis para o significado geral do texto.
A criança é exigente e sabe identificar o que tem valor. Assim, ao selecionar poesias, é necessário verificar aquelas que saibam valorizar a linguagem, em que a relação entre as palavras, a sonoridade, as imagens, o humor, a forma dos versos sejam organizados de modo especial. Os sons e as imagens constituem o corpo da poesia. O ritmo deverá ser fortemente determinado. É justamente a partir desses elementos que se deve introduzir a criança nesse campo surpreendente, para que possa senti-los, já que são aspectos básicos que falam mais espontaneamente aos seus sentidos e à sua emoção. “Poesia, mesmo destinada a crianças, é arte que mostra o homem ao homem, em todas as suas possibilidades” (Ibidem, p. 66). Para expor essa arte, a linguagem deve ser simples, mas bem trabalhada, combinando, na medida certa, os sons, as palavras, as imagens, os sentimentos e as idéias.
Nos últimos tempos, têm surgido excelentes poetas que souberam entrar no íntimo da criança, através do trabalho empreendido na exploração da palavra e de seus sentidos, dos sentimentos, das sensações e na marcação do ritmo e da rima. A esses recursos conseguiram aliar a melodia, outro aspecto fundamental da poesia, oriundo da sua forma mais primitiva: a música. A fusão da palavra e da canção transformou-se em terra fecunda para o florescimento de outras criações, apaixonantes e estimulantes para a criança.
Da mesma forma, muitos poetas foram buscar nas canções de roda, de ninar, nas parlendas, nas advinhas, nas brincadeiras de roda, a fonte de inspiração para suas produções e, dessa forma, inovaram sua linguagem, trazendo graça e provocando surpresa.
Assim como faz a música, o jogo lúdico produzido a partir das rimas e do ritmo, na poesia, precisa dar prazer. A criança tem de perceber que está diante de uma organização especial da linguagem. Averbuck (1993) enfatiza que os poemas infantis devem permitir que as crianças brinquem com sua sonoridade, aliterações, repetições de fonemas, rimas, mesmo sem ter domínio do seu significado. O texto poético faz trocadilho, joga com as palavras, ordena-as de maneira harmoniosa e injeta mistério em cada uma delas, de tal modo que cada imagem passa a encerrar a solução de um enigma. As rimas, pobres ou ricas, precisam estar adequadamente empregadas no poema. Seu uso vai depender do efeito que o poeta quer alcançar, uma vez que este está intimamente ligado à harmonia dos sons das palavras. O ritmo, por sua vez, dá cadência e musicalidade ao texto e o efeito que provoca vai depender exclusivamente do modo como o poema é composto. No entanto, é preciso ter clareza que rima e ritmo não constituem o todo da poesia.

Poesia é arte, é a beleza descoberta em alguma coisa ou em nós: é um sentido especial que o mundo adquire de repente; é uma forma peculiar de atenção que, com simplicidade e verdade, vai até a raiz das coisas para revelá-las de uma nova maneira (COELHO, 1982, p.154).

Assim, dentro das possibilidades de exploração da poesia, é necessário, ainda, desvendar as imagens do poema, contribuindo para que as crianças conheçam a potencialidade dessa linguagem, de forma a despertar sua imaginação e levando-as a mergulhar na fantasia, bem como busquem equivalências de sentidos e novas formas de dizer e de se fazer ouvir. Para isso, é importante dar voz à criança para que ela possa refletir, fazer associações, relações entre a vida, as idéias e os fatos que o texto apresenta e, assim, possa dar significado ao texto e ampliar sua visão da realidade. Tudo isso num clima de liberdade que só o texto poético pode proporcionar. É nesse clima que as principais características da poesia - a ambigüidade, a subjetividade - devem ser discutidas.
Outro ponto que não pode ser desconsiderado na escritura do poema é o arranjo da palavra no espaço do papel. Nesse momento, o poeta aproxima-se do artista plástico, pintando com as palavras a compreensão de seu significado. É na junção das palavras, na ausência destas, na sua disposição sobre o espaço vazio que o poema vai criando forma. Todo esse trabalho criativo só é possível porque a poesia possibilita desvendar toda magia da língua, por meio do jogo lúdico, proporcionando conhecimento e prazer.

Considerações finais

Este artigo constitui apenas uma breve discussão das questões que o professor deve observar quando for fazer a escolha do texto poético para trabalhar com a criança. A análise criteriosa dos textos, buscando aqueles que melhor falem ao mundo infantil, é fundamental. A poesia infantil tem sua especificidade e para compreendê-la é preciso analisar sua estrutura, sua organização para a compreensão e o efeito geral da obra. Um ponto que não pode ser negligenciado é que o professor precisa levar a criança a conviver com a poesia, mas, para isso, precisa ele mesmo conhecer a produção, passar pela experiência de ler, sentir, discutir, refletir sobre ela, até mesmo produzir, uma vez que só assim estará preparado para mediar essa experiência tão relevante para criança.
A linguagem poética é um jogo de “desconstrução e reconstrução”. É necessário, portanto, criar condições para que o desmonte do texto traga novas possibilidades de criação para a criança. Descobri-las é realizar essa criação, através do percurso realizado pelo autor. Trabalhar a poesia é oferecer ao público infantil um universo mágico e riquíssimo de experiências e relações que só a linguagem poética permite.

Referências

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura Infantil. São Paulo: Scipione, 1989, p. 65-95.
ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1990, p. 217-223.
AVERBUCK, Ligia Morrone. A poesia e a escola. In: ZILBERMAN, Regina. Leitura em crise na escola. 11. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993, P. 63-83. 
BORDINI, M. da G. Poesia e consciência lingüística na infância. In: SMOLKA, A. L. B. et all. Leitura e desenvolvimento da linguagem. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1989, p. 53-68.
COELHO, Nelly Novaes. A literatura infantil: história, teoria, análise: das origens orientais ao Brasil de hoje. 2. ed. São Paulo: Quíron/Global, 1982.
CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura infantil teoria & prática. 11. ed. São Paulo, Ática, 1991.
LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 1993.
PONDÉ, Maria F. Poesia para crianças: a mágica da eterna infância. In: KHÉDE, Sônia Salomão (Org.). Literatura infanto-juveni l – um gênero polêmico. Rio de Janeiro: Vozes, 1983, p. 95-102.
ZAPPONE, Mirian H. Y. A leitura de poesia na escola. In: MENEGASSI, Renilson José (Org.). Leitura e ensino. Maringá: EDUEM, 2005.

* Graduada em Letras Anglo-Portuguesas e Mestre pela Universidade Estadual de Maringá. Área de Concentração: Estudos Literários. Professora de Comunicação oral e escrita e Língua portuguesa da Faculdade Metropolitana de Maringá.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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