Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 14 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 367)

Therezinha Dieguez Brisolla com a palavra
Meu querido amigo e irmão trovador, um dia você perdeu um grande amigo e fez do seu sonho uma missão: Vestiu-se de" Poeta do Amanhecer" e continou o sonho do seu amigo , que era também o seu.       
Esse sonho criou asas e ultrapassou os limites de sua casa, de sua cidade, do seu estado.
E nós recebemos, de presente uma "Chuva de Versos"que esperamos ansiosamente todas as manhãs!
Ela passou a ser nosso sonho também!!! É uma chuva mansa, carinhosa, que nos umedece a alma e que nos faz começar o dia achando que a vida vale a pena!
Obrigada pelas emoções e alegrias diárias, graças ao seu excelente trabalho!!!.
                
                       Faz um ano...Que alegria!
                       que uma "Chuvinha" nasceu,,,
                       Cresceu...e em seu dia-a dia,
                       quantas emoções nos deu!!!



Uma Trova em Homenagem à Chuva, de Ponta Grossa/PR
Sonia Maria Ditzel Martelo

Parabéns " Chuva de Versos"
que chega a nós todo dia:
um ano em brilhos diversos
a nos brindar com Poesia!...

Uma Trova de Catanduva/SP
Ógui Lourenço Mauri

Luzes, samba, fantasias;
Carnaval, festa, sorriso!
Pelo menos nos três dias,
extravasar é preciso!

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

UM RESTO DE SONHO
      
Outrora, nos meus livros de memória,
puxava  tantos sonhos de esperança...
Manhã que decantava a minha história
na pequena janela de criança.

Vivendo atormentada como o vento,
- que corre o mundo em busca de seu sonho,
eternizei a vida em sentimento
que nem foi verdadeiro, hoje suponho.

Não consigo esquecer as minhas mágoas
que giram e correm como as águas,
porém voltando sempre ao oceano.

Ao abrir  as cortinas do passado
vejo um resto de  sonho represado
que eu não pude colher em meu engano.

Uma Trova de Natal/RN
Heder Rubens Silveira e Souza

O vento exprime o seu choro
ao soprar notas ao léu...
E a chuva, leve, faz coro
tocando as canções do céu.

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

SE HOUVER AMANHà

Se houver  amanhã  eu vou me embriagar,
bebendo a caridade do servir.
Por que não fiz o meu irmão sorrir?
Por que a indiferença ao vê-lo chorar?

Sinto no peito meu grito explodir,
é minha essência que não quer calar
diante da dor, do choro, do pedir...

Assisto, acomodada, a dor alheia,
o mesmo sangue corre em minha veia...
Eu preciso viver a compaixão!

Amanhã vai brilhar a luz do amor,
vou retirar o espinho e plantar flor,
abrir as portas  do meu coração.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Com pena pego na pena,
com pena quero escrever;
caiu-me a pena no chão      
com pena de não te ver.    

Uma Trova Hispânica da Colômbia
Héctor José Corredor Cuervo

Si predicas y practicas
es real la coherencia
mas si dices y no aplicas
tan sólo es una incongruencia.

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

LEMBRANÇAS...
          

Descalça, sobre tantos pedregulhos,
madrugada da vida,  companheiros...
Trabalho infantil, meus dias primeiros
lixando pedras em tantos entulhos.

O tempo, sentinela da emoção,
parecia dormente em seus embrulhos...
As dores, amarradas, sem barulhos,
faziam suspirar meu coração.

Haverá de ficar sempre na mente
a lembrança infantil, remanescente,
que encharcou de saudade o meu viver.

Vou cruzando os sinais da minha tarde,
degustando a lembrança até morrer,
pois é  de prazer que o meu peito arde.

Trovadores que deixaram Saudades
Catulo da Paixão Cearense
São Luís/MA (1863 – 1946) Rio de Janeiro/RJ

Qualquer frase acerba e dura
que ela me atira, eu sorrio;
pois encerra tal doçura,
que parece um elogio!

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Gilson Faustino Maia

E fica triste a paisagem,
se a rede não mais balança.
É que alguém fez a “viagem”
e agora a rede descansa.

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

CORAÇÃO PARTIDO 

A saudade do meu sertão de outrora
faz o meu coração estremecer,
às vezes ele geme, outra vez chora,
já nem sei mais o que  devo fazer.

Eu já pensei mil vezes, ir embora,
pisar  minha terra  e de novo ver
a gangorra amarrada ao pé de amora
e mamãe me chamando pra comer...

Mas aqui tenho a minha outra metade,
meu coração partido tem vontade
de buscar meu pedaço de sertão.

Se eu pudesse faria acontecer
um milagre essa noite e  amanhecer
com a cidade  dentro do meu chão.

Uma Trova em Homenagem à Chuva, de Cantagalo/RJ
Ruth Farah Nacif Lutterback

Um ano inteiro a molhar
canteiros de lindos versos,
o Feldman nos faz lembrar
muitos poetas dispersos.

Um Haicai de Magé/RJ
Larissa Medeiros de Sousa
13 anos

Sol fraco de inverno
Clareia o amanhecer.
Caminho para escola.

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

QUANDO O AMOR FLORESCE

E quando o amor floresce em meu viver
o frescor das imagens estimulam,
desarmam armadilhas do querer,
 barreiras ficam leves e se anulam.

São os pedaços do mar que borbulham,
ondas  entumecidas, ( que  agonia!)
com seus pulos gigantes, nos orgulham
e  desandam  em pura   poesia.

O poeta quando ama planta flores
de esperança no olhar e tira as dores,
caminha sobre os sonhos da ilusão...

Amores são assim – apaixonados –
Sintonizam em ondas – encantados –
Eu percebo que o céu beija meu chão!

Uma Trova em Homenagem à Chuva, de Bragança Paulista/SP
Cristina Cacossi

Eu sei que vais adorar
um presente milionário...
Queremos a ti enviar
nosso respeito diário...

Um Haicai de Magé/RJ
Vagner Silva Esmael
13 anos

Ao amanhecer
Muitas nuvens de inverno
Pairam pelo céu.

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

O AMOR

O amor furta pedaços do destino,
chega em horas de calma ou ventania,
vem encher nossa boca de poesia
tomado de alegria igual menino.

Bebe a própria luz, em cuja magia
transforma um céu  escuro e pequenino
no esplendor do Universo em harmonia,
badalando alegria, ao som de um sino.

Ah! O amor, feito fogo incandescente
a escorrer  pelo corpo e pela mente,
inunda a nossa vida de paixão!

Que importa se é somente pensamento,
se vem ou se vai como passa o vento,
se é verdade ou apenas ilusão?

Uma Trova pelo aniversário do Chuva, de Sorocaba/SP
Dorothy Jansson Moretti

“Chuva” faz aniversário,
e em meio a tão linda festa,
feliz em seu jogo diário,
Feldman linda bola encesta.

Uma Setilha pelo aniversário do Chuva, de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Ao completar um aninho
de vida molhando a gente,
o nosso "Chuva de Versos"
é quem nós dá o presente;
pois quem entra nessa "Chuva"
não carrega guarda-chuva:
"se molha"... mas sai contente!

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

CADÊNCIAS DA ESCURIDÃO

Soterrada, em porões da escuridão,
vejo as frestas se abrindo, em noite escura,
gotejando alguns pingos de ternura,
molhando  de esperança essa ilusão.

Aprisionada a lua tenta e fura,
fazendo, no céu negro, o seu rasgão,
implacável a noite  vem e mura
a trilha dessa luz que busco em vão.

É preciso buscar de novo a crença
e não deixar que a noite escura vença
as minhas incertezas e ansiedades...

Que esse meu pensar seja diferente,
que a escuridão não caia novamente
e eu possa ver a luz de outras verdades.

Uma Sextilha em Homenagem à Chuva, de São Paulo/SP
Humberto – Poeta

Ao Feldman só desejo,
já que a data dá-me ensejo,
de augurar-lhe um bom fadário...
Chuva de Versos (lembrando)
hoje está comemorando
seu primeiro aniversário!

Uma Trova de São José dos Campos/SP
Mifori

Toda escola fortalece
esclarece com coragem;
profissão nenhuma esquece,
quem lhe deu sua roupagem.

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

UM DIA DE SOL TRISTE

Preciso trabalhar as emoções,
discernir entre meu bem e meu mal,
se fica a desejar, minhas razões,
o sol logo se esconde, isso é normal.

Pobre sol, se entristece ao ver meu mundo
sendo tragado por um velho muro...
Deixando o sol brilhar, por um segundo,
eu já  resolvo o  meu jeito inseguro.

Vou viver  mais um dia de sol triste,
aponto o dedo para a lua, em riste,
e exijo a cobertura em noite escura.

Quero que depois do sol venha a lua,
 das amarras preciso ficar nua
e mergulhar bem fundo em aventura!

Recordando Velhas Canções
Diz que eu fui por aí
(samba, 1964)

Zé Keti e Hortênsio Rocha

Se alguém perguntar por mim 
Diz que fui por aí 
Levando um violão
Debaixo do braço 

Em qualquer esquina eu paro 
Em qualquer botequim eu entro 
E se houver motivo 
É mais um samba que eu faço 

Se quiserem saber
Se volto diga que sim 
Mas só depois que a saudade se afastar de mim 
Mas só depois que a saudade se afastar de mim 
 
Tenho um violão 
Pra me acompanhar 
Tenho muitos amigos 
Eu sou popular 
Tenho a madrugada 
Como companheira 

A saudade me dói 
Em meu peito me rói 
Eu estou na cidade 
Eu estou na favela 
Eu estou por aí 
Sempre pensando nela

Uma Trova em Homenagem à Chuva, de Porto Alegre/RS
Milton Souza

Essa Chuva tem valor,
traz poesia e emoção,
um ano chovendo amor
dentro do meu coração...
Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

PÁGINA VIRADA

Volto à página da vida, ao avesso
corro em pontos de medo, era gracejo
fuga dos próprios grilos, hoje eu vejo
impulso à própria sorte, reconheço.

Dei-me as cordas do tempo e solto as pontas
vai passar o aviso e eu só devaneios        

acordada, eu colhi os meus anseios
por mim mesma eu paguei as minhas contas.

Nessa visão eu vejo, os meus instantes
proliferando em tempos inconstantes
venturas de um engano que ora invento.

Se o poço tem molas, pula o barro
abrindo belas flores, que bizarro!
Fecho o livro, chegando ao meu intento.

Um Haicai de Magé/RJ
Letícia Maria Neves de Oliveira
13 anos

Luz da lua fria.
Ando pela praia e vejo
A sombra das árvores.

Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez

Numa sala pequenina,
se prestarmos atenção,
a própria Criança ensina
como ensinar a lição.

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

NO BALANÇO DA SAUDADE 

A saudade tem cheiro de gangorra
no quintal da criança que hoje acorda,
presa em apartamento igual masmorra.
Despertando, a saudade se transborda...

A gangorra era presa na paineira,
muito bem amarrada por meu pai,
com cordas de pear vaca leiteira.
A saudade que tenho não se esvai...

Faz tanto tempo que hoje nem recordo
se caí da gangorra, nela a bordo,
mas lembro de mamãe me prevenir.

Minha mãe, hoje tem bem mais perigo,
fico aqui, prisioneira em meu abrigo,
a saudade eu balanço pra dormir.

Hinos de Cidades Brasileiras
Guaranhuns/PE

Filhos da Terra, oh! gente,
Ergam a voz, brilhem as frontes,
cantando com a alma que sente
e que vai nas brisas dos montes.

Salve Garanhuns!
Os jardins, as palmeiras e alguns
pedaços do céu... mão divinas!
Salve as sete colina!

Nos anais, "Florescente e garbosa
Garanhuns", fostes sempre assim.
A elegância, a beleza da rosa,
as paisagens, estesias sem fim.

Os teus vales bravios outrora
esconderam fugitivos de cor...
A liberdade da Terra arvora
Estes homens de novo pendor.

E o lema "Ad Altiora Tendere"*
é o mais fervoroso ideal.
A bandeira, sagrada e serana,
e simôa da história fanal.

Tuas belezas - cidade das flores
e os ares - poema acolhedor...
Ai! Suspiros! Que vida, que amores
neste hino, que fulge esplendor!
_______
*Ad Altiora Tendere – tender para as alturas 

Uma Trova de Caxias do Sul/RS
Ivone Vebber

Só houve paz na minha lida
quando nenhum mal eu fiz,
a coerência na vida
foi fazer o que se diz.

Um Poema de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica de Oliveira

ALMA FEMININA
    
Sob um véu irônico da autossuficiência
trabalha um esforço contínuo de hábitos
para desarmar as armadilhas
da nossa vida emotiva.
Sentimentos raros, delicados...
Diante do real que nos golpeia,
um mísero instrumento
a tocar na complexidade da sinfonia do mundo.
A cada toque
uma ferida,
a cada ferida
um troféu.
Alma feminina,
parte inacabada,
lápis e papel na mão,
a sede, a fome de escrever
o seu complemento.
A contínua espera nos olhos da alma,
o medo.
Ou vira menino e brinca de ser gente grande
e perde a identidade
 e se banca.
Ou fica adulto
e brinca de ser menino
e fica entre o medo e a vergonha
e se perde
em devaneios.
Como se fazer mulher?
Não se fazendo,
sendo.
Em cada abraço
uma entrega,
em cada entrega
uma rendição.
Rendição,
poder,
alma feminina.

Chuvisco Biográfico da Poetisa por ela mesmo
Nascida em Santa Juliana/MG no dia 15 de julho, filha de Antonio Martins de Oliveira e Idalina Maria do Prado Oliveira.
“Sou Professora de História, divorciada e mãe de três filhos.  Moro em Santa Juliana (MG).
Sempre fui apaixonada pelas letras, seja na prosa ou na poesia, porém trovar é minha maior paixão!
Não escrevo profissionalmente, vou degustando esse prazer até que eu fique pronta...
O que me encanta na vida é a simplicidade , a espontaneidade, o amor pela verdade, pelas pessoas, pela natureza e sobretudo por Deus!...
Degustar versos me leva ao encontro de uma alegria prazerosa, repleta de paz e emoção: Uma verdadeira terapia! A poesia que me seduz é aquela que me provoca emoção, por menor que seja, e proporciona algum tipo de mudança, mesmo que momentânea.
Por tudo isso não tenho um gosto exclusivo. Para escrever opto, mais ou menos, pela métrica do cordel, embora nem sempre sigo à risca o esquema rítmico proposto no mesmo. Amo trovas e haikais. Também gosto de rabiscar a poesia livre. Raramente faço um soneto...Na verdade escrevo a emoção, seja ela em qualquer estilo. Resumindo: POESIA para mim é viver!!”.
Nasci e morei no sertão até meus 20 anos de idade, por isso sou feita de campo e de mato, de chão bruto e de terra molhada... Talhada em raízes profundas, desabrochei em flores do campo...
Sou como as chuvas tempestuosas...ou como o sereno da noite!...
Às vezes vento selvagem, outrora sou brisa...
Sou emoção...
...eu sou poesia!…”


A prata dos meus cabelos
é o tributo que ganhei
pelas horas de desvelos
que a meus filhos dediquei.

A vida é muito restrita,
sequer se aprende a viver.
Quando a gente se habilita,
já é tempo de morrer.

Doutora, artista ou atleta…
Pode a mulher ser a “tal”;
mas ela só se completa
no trabalho maternal.

É Natal na terra inteira,
é Natal no meu Brasil!
Cesse a guerra na trincheira!
Cale a boca do fuzil!

Estas palavras bonitas
que eu escrevo com fervor,
com fervor por mim são ditas:
Deus, Fé, Brasil, Paz e Amor!

Eu encontrei certo dia,
em horas de tempestade,
o meu sonho que morria
nos braços de uma saudade.

Já tive muita esperança,
mil sonhos acalentei!
Hoje, vivo da lembrança
desses sonhos que sonhei.

Joga o destino comigo
um jogo sem lealdade,
pois não é meu inimigo
e me trata com maldade.

Me ceguem, me façam mudo,
me roubem todo o Universo,
me tirem, me roubem tudo
mas não me roubem meu verso!...

Meu destino caprichoso,
mas pobre de inspirações,
fez-me um livro volumoso
de velhas desilusões.

Mil caminhos percorridos,
mil retalhos já deixei
dos sonhos desvanecidos
nas renúncias que abracei...

Minha casinha tão pobre
serve de abrigo a esperanças:
– Dinheiro embora não sobre,
sobram risos de crianças!

Na mortalha não há bolso,
nem há cofre no caixão:
– Se você é ambicioso,
contenha sua ambição.

Não coleciono por gosto,
nem é por obrigação,
mas somente de desgosto
é que eu faço coleção!

Não deves viver a esmo,
procura, pois, viver certo.
– Pior perder-se em si mesmo
que perder-se num deserto.

Não há dinheiro que pague
sinceridade e afeição.
E não há tempo que apague
a dor de uma ingratidão.

Nascesse o fruto maduro,
fosse doce a água do mar,
mesmo assim eu asseguro:
iria alguém reclamar.

No meu jeito de viver,
e no meu modo de agir,
evito sempre dizer
o que não desejo ouvir!...

Por uma estrada comprida
um carro segue gemendo...
Triste ironia da vida!
Os bois é que vão sofrendo...

Quando a pessoa é vulgar,
deixa logo perceber:
Não faz mais que copiar
o que não consegue ser.

Quando gritou “Terra à vista!”
Cabral já havia sonhado
ser o primeiro turista
desse Brasil encantado.

"Quem duvida perde a vida"
é um ditado popular.
A vida sempre é perdida
para quem não sabe amar...

Quem me dera a liberdade
das folhas soltas ao vento
do coqueiro da saudade
que habita meu pensamento!

Se tu não podes ser flor,
não queiras ser um espinho:
segue semeando amor
ao longo do teu caminho.
__________________________
Irene Lopes Guimarães nasceu na Vila Andrade Pinto, município de Vassouras, no Rio de Janeiro. Filha de Manoel de Oliveira Lopes e Sebastiana Maria Rodrigues. Casou-se com Waldir da Silva Guimarães, com quem teve 5 filhos.
         Mudou-se para a cidade de Três Rios em 1941, onde se tornou professora municipal.
         Participou de inúmero concursos literários, tendo sido premiada várias vezes, inclusive em Angola.
         Incentivadora de movimentos culturais  em Três Rios, participando ativamente dos concursos literários promovidos pelo SESC de sua cidade, além de colaborar em jornais e revistas do município e de outras localidades.                      
         Foi Delegada da União Brasileira dos Trovadores em Três Rios.
          Possui o livro de poesia “Suave inspiração”. 

Boi Caprichoso
Boitatá

Composição: Ronaldo Barbosa 

Um brilho no rio
Em noite escura
É fogo fátuo

Gênio protetor dos campos
E das águas
Cobra grande
Boiaçú
Boiúna, boiúna
Sucurijú
A fera que surge do nada

Corre no corpo o arrepio
O sangue nas veias fica frio
Um fogo que água não apaga

Um facho de luz ilumina a escuridão
Seus olhos de fogo encandeiam

Tapando os furos
Singrando os rios

A dona da noite
A boca da noite
A dona da noite
Vai chegar

Boitatá, boitatá
Fogo no ar, fogo no ar
Cobra de fogo
Boiaçú
Boiúna flutua

Boitatá, boitatá
Fogo no ar, fogo no ar
Cobra de fogo
Boiaçú
Boiúna flutua
____
Boi Caprichoso 
         O Boi Caprichoso, associação folclórica  pertencente ao Festival Folclórico de Parintins, Amazonas, representado pela cor azul, é uma das duas agremiações que competem anualmente no Festival. (a outra é o Boi Garantido)
         O Boi-Bumbá Caprichoso tem sua história atrelada a uma família. A professora e folclorista parintinense Odinéia Andrade afirma que o bumbá foi fundado em 1913 pelos irmãos Raimundo Cid, Pedro Cid e Félix Cid.
         Os três teriam migrado do município de Crato, no Ceará, passando pelos estados do Maranhão e Pará, até chegarem à ilha, onde fizeram uma promessa a São João Batista para obterem prosperidade na novo município.
         Isso foi motivado pelas influências recebidas pelos Cid durante a trajetória até a ilha, quando puderam conhecer vários folguedos juninos por onde passaram. Duas manifestações folclóricas chamaram a atenção: o Bumba-Meu-Boi, maranhense, e a Marujada paraense.
         Andrade (2006) afirma que o Boi Caprichoso assimilou elementos desses dois folguedos, uma vez que o bumbá adotou como cores oficiais o azul e o branco, usadas nos trajes dos marujos, e denominou seu grupo de batuqueiros, responsáveis pelo ritmo na apresentação do boi de Marujada de Guerra.
         Até o final dos anos 80 as toadas eram músicas cujas letras exaltavam o boi e demais personagens como Pai Francisco, a Sinhazinha, dentre outros, além de exaltarem a cultura cabocla parintinense.
         No início dos anos 90, a temática indígena, já introduzida com sucesso no Boi Bumbá pelo Boi Caprichoso, ganhou mais força, principalmente com o advento dos rituais indígenas, que se tornaram o ponto alto do Festival. O Boi Caprichoso foi o que melhor utilizou a temática, alcançando grande destaque graças ao sucesso que crítica e público concederam a toadas indígenas como Fibras de Arumã, Unankiê, e Kananciuê.
         Com o sucesso de tais toadas, O público da capital, Manaus, que gostava timidamente do ritmo, passou a abraçar a toada e a adotou como símbolo da cultura amazonense.
         No ano seguinte, o grupo Canto da Mata, composto por Maílzon Mendes, Alceo Ancelmo e Neil Armstrong, iniciou um outro estilo de toada que também tomaria conta do grande público de Manaus e de Parintins, a Toada Comercial.
         Em 1995, com o uso dos teclados - que tinham sido usados pela primeira vez de maneira tímida em 1994 - o grupo compôs a toada Canto da Mata, que foi um grande sucesso nas rádios e ajudou o Boi Caprichoso a vencer o Festival.
         Em 1997, compuseram uma toada que se tornou fenômeno no Amazonas: Ritmo Quente, grande sucesso nos ensaios do boi e também em eventos turísticos da Capital Manaus, como o Boi Manaus e o Carnaboi, até os dias de hoje.
         Em 1989, o jovem Arlindo Júnior assumiu o posto de Levantador de Toadas, iniciando um trabalho de evolução da galera. Até então, as galeras se limitavam a balançar bandeiras, mas durante os primeiros anos da década Arlindo fez a galera executar diversas coreografias novas com as mãos. A partir de 1996, iniciaram os chamados Medleys, mistura de vários arranjos durante os quais a galera executava coreografias com os braços que causavam grande impacto na arena. De 94 a 2000, foram 7 vitórias seguidas no item galera. Arlindo costumava dizer: "Nossas bandeiras são os nossos braços".
         Em 1994 o Boi Bumbá Caprichoso, deu um espetáculo inesquecível com belíssimas alegorias, tudo culminando num momento mágico: o ritual indígena. Naquele ano foram encenados os rituais Unankiê, Fibras de Arumã e Urequeí.
         Em 1995 foram outros três grandes rituais: Lagarta de Fogo, Templo de Monan e o inesquecível ritual Kananciuê, que mostrava um Urubú-Rei lutando com o pajé, Valdir Santana. Durante esse ritual, a Marujada parou e pela primeira vez houve texto em uma apresentação de ritual: o pajé perguntava "onde está a luz" e o urubu-rei respondia "eu não sei". No momento em que o urubu foi derrotado, um espetáculo pirotécnico saiu de dentro da alegoria representando a libertação da luz, para delírio e êxtase da galera.

Festival Folclórico de Parintins
         Festival Folclórico de Parintins é uma festa popular realizada anualmente no último fim de semana de junho na cidade de Parintins, Amazonas.
         O festival é uma apresentação a céu aberto de diversas associações folclóricas, sendo o ponto mais importante do evento atualmente é a disputa entre dois bois folclóricos, o Boi Garantido, de cor vermelha, e o Boi Caprichoso, de cor azul. A apresentação ocorre no Bumbódromo.1 O Festival de Parintins se tornou um dos maiores divulgadores da cultura local. Durante as três noites de apresentação, os dois bois exploram as temáticas regionais como lendas, rituais indígenas e costumes dos ribeirinhos através de alegorias e encenações.
         Componentes do festival
         O festival possui um total de 22 quesitos, sendo que a maioria não possui ordem pré-determinada de apresentação. As exceções são os três primeiros (apresentador, levantador de toadas e batucadas), além do último (encenação).
         Os quesitos são: apresentador; levantador de toadas; batucada; ritual; porta-estandarte; amo do boi; sinhazinha da fazenda; rainha do folclore; cunhã poranga; boi bumbá (evolução); toada (letra e música); pajé; tribos masculinas; tribos femininas; tuxaua luxo; tuxaua originalidade; figuras típicas regionais; alegorias; lenda amazônica; vaqueirada; galera; coreografia, organização/animação/conjunto folclórico.

Música
         A música, que acompanha durante todo o tempo, é a toada1 , acompanhada por um grupo de mais de 400 ritmistas.
         Os dois Bois dançam e cantam por um período de duas horas e meia, com ordem de entrada na arena alternada em cada dia. As letras das canções resgatam o passado de mitos e lendas da floresta amazônica. Muitas das toadas incluem também sons da floresta e canto de pássaros.

Ritual
         O ritual dos Bumbás mostra a lenda de Pai Francisco e Mãe Catirina que conseguem, com a ajuda do Pajé, fazer reviver o boi do patrão.
         Marca o centro do espetáculo, conduzindo o tema com sua voz. Precisa ter afinação, dicção, timbre e técnica de canto.

Levantador de toadas
         Após o apresentador, o elemento seguinte é o levantador de toadas, que precede à batucada. Todas as músicas que fazem a trilha sonora das apresentações são interpretadas pelo levantador de toadas. Trata-se de uma figura importante, já que a técnica, a força e a beleza de sua interpretação não só valem pontos como ajudam a trazer à tona a emoção dos brincantes.

Amo do Boi
         O Amo do Boi, com seu jeito caboclo, exalta a originalidade e a tradição do nosso folclore, fazendo soar o berrante e tirando o verso em grande estilo. É a chamada do Boi, que vem para bailar.

Sinhazinha da Fazenda
         É a filha do dono da fazenda. Precisa ter graça, desenvoltura, simplicidade, alegria, saudando o boi e do público.

Figuras Típicas Regionais e Lendas Amazônicas
         Fazem aflorar os sentimentos de amor e paixão. Alegorias gigantes se movimentam. Coreografias e fantasias originais, com luz teatral e fogos, dão um brilho especial ao espetáculo. Ficção que retrata e ilustra a cultura e o folclore de um povo. Imaginação, envolvimento e encenação são importantes neste item.

Porta Estandarte
         Representa o símbolo do Boi em movimento. Ela deverá ter garra, desenvoltura, elegância, alegria, sincronia de movimentos entre o bailado e o estandarte.

Cunhã Poranga
         Representa a moça bonita, uma sacerdotisa, guerreira e guardiã. Expressa a força através da beleza. Deve possuir desenvoltura e incorporar a personagem.

Rainha do Folclore
         Representa a expressão do poder, pela manifestação popular. Deve possuir graça, movimentos com desenvoltura, incorporação, indumentária.

Boi Bumbá Evolução
         É o símbolo da manifestação popular. Motivo e razão de ser do festival. Deve ter geometria idêntica, leveza, alegria, evolução, encenação, coreografia e movimentos de um boi real. O ser que comanda estes movimentos é chamado de tripa do boi, e é o mesmo que confecciona o mesmo.

Tribos Indígenas
         Apresentação de um agrupamento nativo da Amazônia. Considera-se: sincronia de movimentos, fidelidade às raízes, cores, expressões cênicas, formas de dançar e movimentos originais.

Ritual
         No apogeu da apresentação, acontece o Ritual, uma dramatização teatral comovente, culminando sempre com a mágica e misteriosa intervenção do Pajé, o poderoso curandeiro e temido feiticeiro, que faz a dança da pajelança. Foi o último dos quesitos atuais a ser criado, tendo sido instituído em 1995.

Torcida
         A torcida dá um show à parte. Enquanto um Boi se apresenta, sua galera participa com todo entusiasmo. Seu desempenho também é julgado. Do outro lado, a galera do contrário (adversário) não se manifesta, ficando no mais absoluto silêncio. Um torcedor jamais fala o nome do outro Boi, e usa apenas a palavra "contrário" quando quer se referir ao opositor. São proibidas vaias, palmas, gritos ou qualquer outra demonstração de expressão quando o "contrário" se apresenta.

Jurados
         Os jurados, em número de seis, são sorteados na véspera do Festival e todos vêm de estados que façam parte de outras regiões do país, que não a Região Norte. Requisito é ser estudioso da arte, da cultura e do folclore brasileiro. Também não podem ser originários dos mesmos estados dos jurados do ano anterior.

Fontes:
Wikipedia e Portal Amazonia 

Clarice Braatz Schmidt
Tempo e Memória na Lírica de Adélia Maria Woellner

         A poeta curitibana Adélia Maria Woellner inicia sua produção poética no ano de 1963, com a obra Balada do amor que se foi, sendo que mantém uma produção constante. Sua ultima obra, Luzes no espelho, publicada em 2002, é uma mescla de autobiografia e poesia. Adélia Maria faz parte de entidades lítero-culturais do Brasil e do exterior, como, por exemplo, a Academia Paranaense de Letras e a “The International Academy of Letters of England (Grafton Road, London, England) e ao Centro Cultural, Literário e Artístico da Gazeta de Felgueiras (Felgueiras, Portugal). Além das publicações em português, a poeta tem algumas de suas obras publicadas também em alemão, espanhol, francês e italiano. Neste artigo, objetivamos investigar o tema da memória e do tempo na lírica da Adélia Maria Woellner. A opção pelas obras dessa escritora paranaense justifica-se pela importância da mesma no quadro mais amplo da literatura do Estado, sendo que, no entanto, a obra da poeta é praticamente desconhecida os meios acadêmicos. A obra de Adélia Maria apresenta linguagem elaborada e alto grau de concentração verbal, sendo que sua lírica revela um fazer poético voltado para a natureza, para as questões metafísicas, sendo que é marcado pelo olhar atento do poeta para o tempo e para as manifestações vitais. O fazer poético de Woellner é caracterizado, ainda, pela busca da síntese poética, sendo frequente a utilização de formas como tercetos e quartetos na elaboração dos poemas. O estudo sobre tempo e memória ocorre com o propósito de desenvolver um trabalho tendo em vista resgatar, analisar e apresentar a obra de Adélia Maria Woellner.
         Um dos aspectos que podem ser observados na poesia da curitibana Adélia Maria Woellner é a constante reflexão acerca do eu interior. Woellner contempla o ser humano de forma muito realista, sendo que muitas vezes, na busca de explicações, transcende os limites terrenos e temporais. Uma das formas que Woellner utiliza para compreender-se e buscar a si mesma é mediante a recordação do passado.
         Rosana Rodrigues da Silva, ao analisar a obra Viagem, de Cecília Meireles, afirma que a recordação de tempos passados, além de ser uma das formas utilizadas pelo poeta para compreender-se a si próprio, é uma forma que possibilita a compreensão do momento presente. No dizer da autora, “o sujeito busca na memória a integração de suas outras formas de vidas para alcançar a unidade desejada” (1997, p. 160), ou seja, por meio da recordação o indivíduo conseguiria manter um equilíbrio entre o que foi e o que é. Salienta, ainda, que, “o olhar do poeta sente e capta a carência de um instante, apresentando o poema como lugar onde se pode compensá-la” (1997, p. 80).
         Para Giacomo Leopardi (apud Bosi, 1977), o poeta teria o poder de absorver imagens e recorrências do mundo de hoje, tirando, ainda, do passado e da memória o direito à existência. Já no dizer de Alfredo Bosi, “o agora refaz o passado e convive com ele” (1977, p. 13).
         No poema “Modificação”, de Adélia Maria Woellner, constata-se:

O ontem passou,
mas o eco do ontem
ressoa fundo,
lâmina afiada
rasgando carnes,
com dores de parto.
O hoje está aqui,
arranhado pelo eco,
que ainda machuca,
fere,
maltrata.
O amanhã ainda será.
Que o eco se apague
no peito já tão dilacerado.
Que, nos ferimento,
nos espaços das ruturas,
se aninhem
outros sons.
(Avesso meu, 1990, p. 51)

         Neste poema nota-se uma visão de que o passado sempre ecoará no presente. O eu lírico sente-se inconformado com esta necessidade de conviver com o passado. Este deseja que no lugar dos sons do passado “se aninhem/ outros sons”, ou seja, o eu lírico rejeita a influência do passado no seu presente. No entanto, apesar desta rejeição, o passado surge como motivo do poema.
         No poema “Aceitação”, observam-se as reflexões do sujeito lírico acerca do tempo:

Cansei de usar
força
e recursos,
na tentativa inútil
de alterar
as coisas,
fora de seu tempo.
Manipulei minha ansiedade
e fui buscar
consolo
no regaço do tempo.
(1990, p. 09)

         Nos primeiros versos, o eu lírico afirma que, cansado de lutar contra o tempo, buscou consolo no “colo” do próprio tempo. Ao invés de rejeitar o tempo, o eu lírico refugia-se nele. Assim, não podendo detê-lo, nem apagá-lo, o eu lírico alia-se ao tempo.
         No poema “Indagação”, por sua vez, o eu lírico declara:

Vida:
jogo de xadrez.

Deverei aceitar,
resignada,
o limitado espaço
que me foi reservado
nesse tabuleiro?
(1990, p. 43)

         O questionamento do eu lírico acerca de sua condição diante do tempo novamente fica evidente. Enquanto no poema “Aceitação” o eu lírico sente-se impotente diante do tempo, neste poema ele pergunta se realmente deve aceitar resignadamente o que a vida lhe tem proposto e esperar pelas jogadas que o tempo determinará. A vida é metaforicamente representada por um tabuleiro de xadrez, o que podemos verificar nos dois primeiros versos do poema. No jogo de xadrez as peças não movimentam-se por vontade própria, mas apenas por vontade alheia e com regras preestabelecida. A duração da partida de xadrez pode, por analogia, ser comparada ao tempo que se escoa. Cada peça movimentada irá refletir no restante do jogo que está por vir, da mesma forma que cada ato passado se refletirá na vida futura. Logo, a grande indagação a que se refere o titulo do poema, é justamente se o indivíduo deve ou não agir resignadamente diante do fato de que o passado traça o futuro.
         O poema “Conquista” pode ser considerado como uma resposta ao poema “Indagação”:

Joguei o laço,
ajustei o nó;
apertei o espaço
e segurei o tempo.

Onde e quando
agora não existem.

Basto-me eu só,
na insistência
em viver…
(Infinito em mim, 1997, p. 27)

         Neste poema, o eu lírico não contenta-se com o pequeno espaço que lhe reservaram no tabuleiro de xadrez que é a vida. Não resigna-se diante do tempo. Não permite que este subjugue-o. Antes, joga-lhe um laço, aperta o nó deste laço e prende o tempo. Esta ação anula tanto passado quanto presente, dando liberdade ao eu lírico, o qual basta-se a si próprio. Os três últimos versos deixam claro que, o ponto fundamental para esta anulação do tempo é a vontade, a ânsia que o eu lírico tem de viver.
         Em “Retorno II”, percebe-se uma oposição ao poema “Modificação”:

Caminho no tempo
e repercorro meus próprios passos.
Percebo que fiz
e desfiz
tantos laços,
em meio a lágrimas
e abraços.
Revivo alegrias,
dores e cansaços…

Não importa;
é a caminhada inevitável
para o próprio encontro.
É a andança
no rumo da certeza
de abrir porões
e redescobrir,
em cada renovada manhã,
o conhecido sabor primitivo
de pitangas, guabirobas e romãs…
(1997, p. 88)

         No poema “Retorno II”, é percorrendo o tempo, o passado que o eu lírico pode reencontrar-se. Em meio a alegrias e tristezas foi possível, graças à inevitável caminhada, desfazer laços, abrir porões e reviver alegrias e assim redescobrir o melhor da vida. Desta forma, o tempo e as lembranças, mesmo que dolorosas, deixam de ser adversárias do eu lírico para tornarem-se suas aliadas. Enquanto no poema “Modificação” o eu lírico apresenta uma angústia muito grande em relação às lembranças, neste poema, apresenta-se uma sensação de conforto frente a rememoração do passado. Esta rememoração traz ao eu lírico a redescoberta de sua essência mais primitiva. O eu lírico considera esta experiência de rememoração fundamental para sua própria redescoberta, conforme ocorre nos três primeiros versos da segunda estrofe do poema.
         Também no poema “Revelação II”, o tempo pode ser visto como aliado:

Atenta aos encantos
do jardim das magias,
abandonei-me no tempo,
diluí-me no espaço.
Fiz-me roseira,
só para compreender
que os espinhos no caule
são escada
para alcançar a flor.
(1997, p. 90)

         Da mesma forma que no poema “Retorno II” a dor era vista como uma forma de auto-descoberta, também no presente texto os momentos dolorosos são encarados como uma forma de se atingir o auto-conhecimento, bem como o crescimento e amadurecimento. O eu lírico, ao abandonar-se no tempo, descobre que os momentos difíceis nada mais foram que uma escada para sua realização. Assim, fica evidente a visão de que o passado influência no presente e futuro.
         Para Giambattista Vico, as formas das coisas, que a fantasia muda, separa e compõe estariam vinculados à experiência social e o seu órgão originador seria a memória. No princípio o pensamento fantástico fingiu os mitos, os quais estão intimamente ligados à imagem. Vico observa que a força que modela as imagens é “tanto uma fantasia que produz mitos […] quanto a prática do poeta […]. E uma e outra lidam com experiências retidas pela memória, que aparece como a faculdade poética de base” (apud BOSI, 1977, p. 200).
         Já na visão de Maurice Halbwachs, o presente não só é influenciado pelo passado do próprio indivíduo, como também pelo passado de todo o grupo social de que faz parte, bem como pelo passado dos antepassados deste indivíduo. Halbwachs afirma que, “acontece freqüentemente que a dosagem de nossas opiniões, a complexidade de nossos sentimentos e de nossas preferências não são mais que a expressão dos acasos que nos colocaram em relação com grupos diversos ou opostos, e que a parte que representamos em cada modo de ver está determinada pela intensidade desigual das influências que estes têm, separadamente, exercido sobre nós” (1990, p. 47).
         Por sua vez, Ecléa Bosi, em Memória e sociedade, chama a atenção para o fato de que nossa memória é composta tanto por fatos que vivenciamos, quanto por fatos que aconteceram muito antes de nascermos. O interessante é que nossos antecessores passam, por assim dizer, uma certa bagagem de memória para nós. Todos estes fatos, sejam vivenciados ou não pelo indivíduo, ajudarão a escrever sua história de vida. Conforme observa Ecléa Bosi, “a criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização. Sem estas haveria apenas uma competência abstrata para lidar com os dados do passado, mas não a memória” (1994, p. 73).
         Mais distante que esta memória passada ao indivíduo por seus antecessores mais próximos, como pais e avos, podemos observar ainda uma memória inscrita em um período ainda mais longínquo da existência humana. É a memória atávica. Esta memória constitui-se de elementos que fazem parte da essência do ser humano, mas que, no entanto, não conseguimos precisar quando inseriu-se no modo de ser do homem. Adélia Maria Woellner consegue expressar com perfeição o que representa esta memória atávica em seu poema “Memória atávica”:

Em algum lugar
deste infinito mistério
- que é meu ser -,
a emoção primitiva
brilha
e reflete
a memória de todas as eras.
(1997, p. 63)

         No texto, a poeta descreve o que vem a ser a memória atávica. Esta é a “memória de todas as eras”, ou seja, os resquícios do que existe de mais primitivo na humanidade, e que esconde-se “Em algum lugar/ deste infinito mistério” que é cada ser humano.
         A poesia Woellneriana apresenta indagações acerca da essência do homem, bem como dá mostras da busca insistente do ser humano em se auto-conhecer. Da mesma forma, Adélia Maria trava uma busca incessante em descobrir a essência das mais variadas coisas. Os poemas acima apresentados são provas desta observação atenta da poeta no que se refere a temas diversos, como tempo e memória, por exemplo.
         No dizer de Rosana Rodrigues da Silva, “a poesia, enquanto fenômeno do imaginário, deve ser compreendida, em seu dinamismo, como uma linguagem reveladora, expressão de um mundo psíquico, na contemplação de outro universo” ( 1997, p. 14). Esta “contemplação de outro universo” está sempre clara na obra Woellneriana, quer seja este universo transcendental, quer seja apenas a instigante essência humana, bem como simples imagens cotidianas. Conforme Bosi, “a poesia recompõe cada vez mais arduamente o universo mágico que os novos tempos renegam” (1977, p. 150). Adélia Maria consegue apresentar de forma encantadora, em cada um de seus poemas, suas descobertas acerca de seus mais variados objetos de observação.

REFERÊNCIAS:
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix, 1977.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das letras, 1994.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1990.
SILVA, Rosana Rodrigues da. A contemplação em “Viagem”: o estudo do olhar na poesia de Cecília Meireles. 1997. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1997.
WOELLNER, Adélia Maria. Avesso meu. Joinville, SC: Ipê, 1990.
WOELLNER, Adélia Maria. Infinito em mim. Curitiba: Ed. da autora, 1997.

Fonte:
II Jornada Científica da Unioeste. Campus de Toledo/PR. Junho de 2003. CD Rom.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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