Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 15 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 368)

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Fagundes Queiroz

Se o terreno vai sentindo
climas sempre tão diversos...
nosso tempo é sempre lindo,
com fértil "Chuva de Versos".

Uma Trova de São Paulo/SP
Selma Patti Spinelli

Vai jangada, segue, avança,
mesmo que o vento não deixe;
que o mar da vida é esperança
de cada um ter seu peixe!

Uma Dobradinha Poética de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

RESGATE
Sem te esquecer, este amor,
num desvario sem fim,
quer atrair teu calor
para bem junto de mim…

Ah! Deste amor quero espalhar mil rastros
reverdecidos, por todo este chão…
Irrefreável, tendo em mira os astros,
voarei confiante em pertinaz paixão!

Ah! Neste amor implantarei meus lastros,
ladeá-lo-ei com vigas da emoção;
da justa posse empilharei cadastros
onde discorro, dele, a apropriação…

Com perspicácia em mim prosseguirá,
a sua luz, no espaço espargirá,
no meu transcurso à celestial morada…

Habilidoso, irá juntando aos passos
ode infinita, que atrairá teus braços:
– tua serei… a eterna namorada!…

(O amor infindo tem pleno
alcance no além…)

Uma Trova Humorística de Pindamonhangaba/SP
José Valdez C. Moura

É machão! Que fortaleza!
Engrossa a voz e se zanga...
Mas, nos surtos de fraqueza,
fala fino e solta a franga !

Uma Trova de Fortaleza/CE
Francisco José Pessoa

Meu irmão adocicado*
quero me fazer presente,
pra agradecer o pingado
de versos que cai na gente.

*Obs: Adocicado porque ambos temos diabetes.

Uma Dobradinha Poética, de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

REMINISCÊNCIA
O joão-de-barro, a paineira,
e a casinha, ali construída…
Na infância, sobremaneira,
deram-me exemplo de vida!

''São Carlos"... Era o nome da fazenda,
com primaveras, pássaros, paineira...
O cafezal em flor, cena estupenda:
— recordação para uma vida inteira!

No terreirão, na grama em verde renda
- eu com dez anos –, quanta brincadeira!
Na casa simples, mesa com merenda;
dali se via o véu da cachoeira!...

Lembro o balanço no chorão... — Saudade!
Naquele pasto o gado em liberdade;
farto pomar, coqueiro carregado...

Apenas meses e eu nunca esqueci,
da infância a fase que passei ali:
— um tempo mágico do meu passado!

(Da infância podemos colher um aprendizado 
para toda a vida.)

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

O meu amor me disse ontem
que eu andava coradinha;
os anjos do Céu me levem
se esta cor não era minha!

Uma Trova Hispânica da Argentina
Catalina Margarita Mangione

Educar es lo primero,
porque sin educación,
el educando es carnero,
y la ignorancia es león.

Uma Trova de Recife/PE
Geraldo Lyra

Como simples jangadeiro,
  no mar das paixões da vida
  vou ficando sem roteiro,
  numa jangada perdida...

Uma Dobradinha Poética, de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

MURALHAS DA RAZÃO
Nas lágrimas derramadas,
transbordantes de emoção,
essas águas são chamadas
torrentes do coração!…

Às vezes nem sabemos como nasce
tamanha angústia vinda, de repente,
e ao deslizarem lágrimas na face,
nos surpreende a súbita vertente.

Encurralados diante deste impasse:
— ver descoberto o nosso ser carente!...
Dentro de nós, talvez, algo ultrapasse
o escrúpulo insalubre e prepotente.

Lágrimas brotam, soltas, sem disfarce,
e o coração consegue apoderar-se
de um sentimento sufocado em vão.

Mas quando o pranto silencia um grito
pronto a lançar seu eco no infinito,
não derrubou muralhas... da razão!

(Os motívos da razão sobrepõem-se
aos desejos do coração.)

Trovadores que deixaram Saudades
Antônio Tortato
Paranacity/PR

Como a sombra, o falso amigo
reza na mesma cartilha.
Ambos caminham contigo
somente enquanto o sol brilha.

Uma Trova de Guaxupé/MG
Antonio Claret Marques

A jangada é o meu sustento,
  e eu peço em minha oração:
  que no mar não falte o vento,
  na mesa não falte o pão.

Uma Dobradinha Poética, de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

A FORÇA DO AMOR SOFRIDO
Difícil de compreender
a força do amor sofrido,
mas bem fácil de entender
depois de tê-la sentido…

 A inquebrantável força de um amor
resiste ao tempo, à dor e à despedida;
ignora a culpa, esquece do amargor,
veemente, segue incólume na vida.

Atenta ao coração do sofredor,
leva a esperança e a calma comedida;
despreza a solidão e, sem pudor,
oferta-lhe a presença destemida.

Contudo, quando o amor, senil, cansar-se,
a força ativa, sem jamais quedar-se,
não deixará que prostre, entregue à sorte...

Honradamente i retroagir,
o amor fará no sonho submergir...
Trará a ilusão, que pode adiar morte!

(O amor sofrido sobrevive, porque
a sua força é companheira inseparável!)

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Joana D’arc da Veiga

Brilha o sol, depois de posto,
  se os dedos de uma criança,
  vão reacendendo o meu rosto
  com afagos de esperança.

Um Haicai de Magé/RJ
Allan Guimarães Casa Nova
14 anos

A sombra das casa
Compridas sobre a rua
Lua fria de inverno.

Uma Dobradinha Poética, de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

SE NADA GANHAS...
Não deves desanimar
ante uma escura jornada,
pois poderás vislumbrar
uma luz no fim da estrada!…

Se a trajetória é feita  de espera,
se recusaste a dor da despedida,
se o despontar do inverno te exaspera,
se a primavera não é mais florida...

Se o vendaval, cortante, ainda impera,
se a tempestade insiste, intrometida,
se sob teus pés abriu-se uma cratera,
se a solidão marcou a tua vida...

Se o céu, acima, está sempre nublado,
se a terra, em volta, é o caos indesejado,
se o sofrimento veio a ti, desnudo...

Caminha firme, sem desesperança,
vai renovando em ti calma e confiança.
— Se o ganho é nada, teu querer é tudo!...

(O querer nos impulsiona a
alcançar o que almejamos)

Uma Trova de Saquarema/RJ
João Costa

O tempo que tudo apaga,
  promovendo o esquecimento,
  em vez de apagar afaga
  teu nome em meu pensamento.

Um Haicai de Magé/RJ
Francyne Carreiro Bello
13 anos

Lua fria de inverno.
A luz tênue espalha-se
Pelo gramado.

Uma Dobradinha Poética, de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

REENCONTRO
Na tua ausência formei
um rosário dos meus “ais”
e, hoje, que te reencontrei:
– Meu Deus, sofrer, nunca mais!

Antevendo o momento em que irei reencontrar-te,
repensando, feliz, quanto ainda te quero,
intento este preencher do meu tempo com arte,
vindo expor num soneto o amor puro e sincero.

A ansiedade me envolve e  sei que faz parte,
leva quase à loucura e quando eu desespero,
desse anseio sofrido, almejando o descarte,
ouço a voz da esperança e esta angústia, supero!

Com excelso desvelo eu desejo te olhar,
abraçar-te bem forte e, depois, mergulhar
na paixão que revela o que sinto por ti.

Hora e dia a apontar, terra e céu presenciando
o milagre da volta e eu prossigo rogando:
— teu amor para sempre... e esquecer que sofri!

(O reencontro é a vitória real
da esperança.)

Uma Trova de Magé/RJ
Maria Madalena Ferreira

Entre as lembranças que trago
a sete chaves, com gosto,
eu guardo o primeiro afago
  que tu fizeste em meu rosto!!!           

Uma Sextilha de Caicó/RN
Prof. Garcia

No momento da triste despedida
todo mundo que fica se apavora,
fica  alguém soluçando na calçada,
na janela, quem fica também chora;
é o instante mais triste desta vida
quando alguém diz adeus e vai embora!

Uma Trova de Bauru/SP
Ercy Maria Marques de Faria

A chuva é sempre bem-vinda
e, se é de versos, então,
deixa mais bonito ainda
o jardim do coração!

Uma Dobradinha Poética, de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

QUERO…
Constato ao alvorecer,
também ao clarão da lua:
mesmo depois de morrer
quero ser somente tua!

Quero sentir de novo as tuas mãos
a tatear meu corpo, docemente…
Quero apagar meus pensamentos vãos
para entregar-me a ti, confiantemente.

Quero pisar sem medo em quaisquer chãos,
seguir feliz na estrada à minha frente.
Quero a renúncia pronta dos meus nãos,
dar-te o meu sim, sonoro e ardentemente!

Porque quem ama sempre retrocede,
porém as consequências nunca mede,
quando a paixão reinflama o coração...

Por isso eu quero tudo o que quiseres,
ser a  mais tua dentre outras mulheres:
— aquela que te amou... sem restrição!

(Não há côncavo sem convexo…
e vice-versa.)

Um Haicai de Magé/RJ
Kethelen Renata O. Batista
14 anos

Em tarde de inverno
Nossa vida se transforma.
Noite juntinhos.

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho

Quando a vejo na calçada,
de passagem pela rua,
minha sombra inconformada
ainda vai atrás da sua.

Uma Dobradinha Poética, de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

FUGA
De mim mesma eu quis fugir,
deixar a vida desdita,
mas sem saber aonde ir
curvei-me à sorte prescrita…

Fugir de insípida vida
por não ver outra saída,
quantas vezes desejei...
Fugir da espera sofrida,
do desamor, da partida,
aos quais não me acostumei.

Fugir, mas fugir de tudo,
do sofrimento desnudo,
do amor que em mim acordei..
Fugir da infelicidade,
deixar atrás a saudade,
que, sem querer, preservei.

Fugir de alguém que não vem,
que embora seja o meu bem,
nem sabe o quanto eu o amei.
Fugir da desesperança,
apagar toda lembrança
que em minha mente gravei.

Fugir desta solidão,
da amarga desilusão,
dos segredos que guardei.
Fugir do tempo inclemente,
do meu destino incoerente,
mas para onde?!... Não sei.

(Ninguém consegue fugir de si mesmo, 
nem da própria sorte.)

Recordando Velhas Canções
Minha história de amor
(rock, 1964)

José Messias

Minha história de amor
Eu não posso nem contar
Se eu contar você vai rir
E eu sei que vou chorar

Minha história de amor
Eu não posso nem contar
Se eu contar você vai rir
E eu sei que vou chorar

Ela falava, que não me amava
Ela dizia, que não me queria
Eu penava, eu sofria
Eu chorava ela sorria
Mesmo assim eu insistia!....

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Sérgio Ferraz dos Santos

No mais claro português
com voz firme à revelia,
disseste adeus uma vez
e eu ouço  o adeus todo dia.

Uma Dobradinha Poética, de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

PÉS ANDARILHOS
O trem sua meta alcança,
girando as rodas nos trilhos…
Meu caminhar que, hoje, avança,
conta com pés andarilhos!

Não sei dizer, quanto em quilometragem,
nem quantas as estradas percorridas...
Posso afirmar: depois de longa viagem
meus pés estão dispostos a outras idas.

Sendo andarilhos, levam na bagagem
minhas vitórias — poucas — conseguidas;
também derrotas, e essa desvantagem
é que impulsiona para mais corridas!

“Tanta importância dada aos pés, no entanto,
parece injusta e traz calado espanto
a um corpo, quase todo" — alguém diria.

Lembro que, ao corpo, dão sustentação
e exalto, aqui, o poder: locomoção...
Porque sem pés, andar não poderia!...

(Ao iniciar uma longa caminhada, 
nunca se deve prescindir
de um ponto de apoio)

Um Haicai de Magé/RJ
Rafael Herbert Almeida dos Santos

Manhã nublada.
As nuvens cinzas de inverno
Caem na cidade.

Uma Trova de Natal/RN
José Lucas de Barros

Enquanto a mente divaga,
  vou na jangada a sonhar,
  mas nenhum sonho naufraga
  nas tempestades do mar.

Uma Dobradinha Poética de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

Destino Traçado
O tempo, que foi traçando
os caminhos teus e meus
viu o amor ressuscitando:
– predestinação de Deus!…

Enamorados, lado a lado, um dia,
nós dois felizes, pelo amor ligados…
Passou-se o tempo e veio a nostalgia
quando a distância pôs-nos separados.

Mas no destino escrito, todavia,
pudemos ler depois, quase assustados,
que uma saudade nunca se esvazia
sem que os anseios sejam debelados.

E, assim, tal qual ovelha que, ferida,
tem no pastor a mão compadecida,
ou passarinho procurando a flor…

Qual negra noite em busca do luar,
águas fluviais, unidas pelo mar:
somos nós dois… vencidos pelo amor!

(As borrachas do tempo e da distância
não conseguem apagar
as marcas indeléveis do amor)

Hinos de Cidades Brasileiras
Bodocó/PE

No sopé dessa serra planalto
Bodocó se afirmou e cresceu
E é hoje o destaque mais alto
No cenário erudito e plebeu

Já contando alguns anos de vida
Desde que por lei se emancipou
É a nossa cidade querida
A quem rendemos nosso louvor

A cidade sempre adolescente
Com orgulho costuma mostrar
Sua juventude inteligente
Que estuda e quer prosperar

O seu povo é muito ordeiro
Pois aqui só se pensa em crescer
E o exemplo há de ser pioneiro
Do progresso e do bom conviver

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Lourdes Regina F.Gutbrod

Quando, ardoroso, me afagas,
  sem leme e sem direção,
  sou barco à mercê das vagas,
  no intenso mar da paixão!

Uma Dobradinha Poética de Bandeirantes/PR
Lucília Alzira Trindade Decarli

SEU RETRATO
Com seu retrato eu falava,
queixando-me de um desgosto
e a lágrima, que brotava
foi descendo no seu rosto…

Você se foi e além desta saudade,
a solidão me impôs mais um castigo…
Sem ter você eu vi que, na verdade,
nem um retrato seu tinha comigo.

Passado o tempo, nova realidade,
minha lembrança exposta ao desabrigo,
pois a aparência da adiantada idade
não corresponde ao jovem rosto, antigo.

Conscientizada de inegável fato,
num livro eu vi seu quase atual retrato,
fui logo ampliá-lo para mais vantagem…

E analisei o seu semblante, nele,
mas percebi que não preciso dele:
– gravada em mim já estava a mesma imagem!…

(O tempo imprime as suas marcas em nós,
mas não altera o que nos identifica)
_____________
Chuvisco Biográfico da Poetisa

         Lucília Alzira Trindade Decarli, nasceu  em Bandeirantes, em 1939. Casada com Mauro Carlo Decarlí. Mãe de 3 filhos.
         Cursou até o 3o. grau completo e possui registros no M.E.C, em Ciências, Matemática (1° grau) e Biologia (2° grau).
         Trabalhou durante 32 anos em colégios estaduais e 2 anos em escola particular, tendo exercido o cargo de Professora e as funções de Secretária, Supervisora da Merenda Escolar e Diretora. Aposentou-se em 1991.
         É um dos membros fundadores da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes (ALCAB). Ocupa a cadeira de número 04, desde abril de 2005, e o seu patrono é Luiz OtáviO.
         Membro efetivo da União Brasileira de Trovadores (UBT)/ Seção Bandeirantes – PR, desde a fundação e instalação em 1995, onde sempre atuou         como diretora de Cultura.
         Escreve contos, poesias crônicas, trovas e haicaís.
         Seus  trabalhos premiados estão publicados em Antologias e livros         de JOGOS FLORAIS de diversas cidades do Brasil e Argentina.
         Em 2006 publicou um livro intitulado “Matizes", composto de trovas, haicais, sonetos, poemas e acrósticos.
         Em 2008, o livro “Inquietude”, com trovas, sonetos e poemas, livro este de onde foi extraído os poemas e trovas acima.


Bilhetes de amor... saudade
que a lembrança hoje cultua
onde a tal felicidade
era o carteiro da rua!...

Cansado, frágil, tristonho,
quando a fé lhe pede um preço,
o escritor faz de um bom sonho
outro livro, outro começo…

Com máscara da ilusão
minha altivez nem percebe
quando a porta da emoção
ergue a tranca e te recebe.

De minissaia, a coroa
tenta a sorte... lá na praça.
De longe alguém diz: - É boa...
Mas de perto... assusta a caça.

Depois de tantos verões,
talento pouco me importa.
No jardim das ilusões
já sou como folha morta.

Deriva meu corpo, enquanto
contra os reveses reluto.
Hoje o tempo usa meu pranto
para cobrar seu tributo.

Desato o nó da lembrança
e um facho de luz sem fim
me traz de volta a criança
que o tempo levou de mim!

Diz o velho, em maus trejeitos:
- Como o carnaval é ingrato:
com produtos tão perfeitos,
a distância nega o prato!

Entre cristais, vinhos nobres,
com saudade, hoje lamento
do campo as canecas pobres
mas tão ricas de alimento!

Ergo o cristal, já vencida,
mas a razão me renega,
quando a emoção, iludida,
bebe o vinho e a ti me entrega!

Escrevo, reluto... E assim
da tristeza eu vou fugindo.
O escritor que habita em mim
me ensina a sofrer sorrindo.

Este espinho que me atira
aos braços da dor sem fim,
é o fruto desta mentira
que você plantou em mim.

Faço versos da incerteza,
com talento a dor suplanto.
É bem mais leve a tristeza
dissimulada em meu canto.

Lembrança da mocidade,
de um som de lira em seresta...
Ah! como fere a saudade
quando lembrança é o que resta…

Levada  por fantasia
de um desejo inconsciente,
eu beijo na cama fria
as formas de um corpo ausente!

Mesmo ante o furor medonho
  de um mar que raivoso freme,
  solto a jangada de um sonho
  e o sonho conduz meu leme!

- Meu filho, veja onde está
o seu querido paizão!...
- Ah! Mamãe, não sejas má,
da outra vez levei "sabão"!

Meu salário é duvidoso
qual moça de minissaia.
De longe, acena maldoso,
mas, na mão, foge da raia!

Minha jangada à distância,
(velha tábua na enxurrada)
remada por mãos da infância
foi bem mais do que jangada!

Na fonte antiga da praça,
que em lembranças recomponho,
a minha ilusão te abraça,
movida por este sonho!…

No céu a espalhar magia
com frases mudas, a lua
nas pautas da noite fria
faz versos à minha rua…

Nos limites da demência
entre o delírio e a razão
eu beijo um rosto que a ausência
desenha na solidão!

Nosso amor meio sem jeito
mas, talentoso e insistente,
vai vencendo o preconceito
que a idade lança entre a gente.

No vazio do meu peito,
meu destino de escritor
vai preenchendo, a seu jeito,
velhas lacunas de amor…

Perfumada e porte nobre,
na incerteza que a consome,
testou com sabão de pobre
e da rival soube o nome.

Pondero... Mas, atrevida,
minha ilusão enche a taça
desta fonte proibida
que à razão condena e embaça!

Quando a lua me abre as frestas
das lembranças que são tuas,
de uma lira ouço as serestas
feitas à luz de outras luas!...

Quando esta lua indiscreta
me traz lembranças sem fim,
eu choro o velho poeta
que morreu dentro de mim.

Relembrando os sons dispersos
das liras da mocidade,
meu sonho acompanha os versos
nas cordas desta saudade!...

Ribeirão, cidade nobre,
mas de alma humilde e serena,
és mãe do rico e do pobre,
da pele clara e morena!

Ribeirão é terra quente
de clima e de coração.
Qualquer raça, aqui se sente
bem mais gente, mais irmão!

Rondando marco após marco,
a minha sorte à deriva,
a ventura é sempre o barco
que do meu porto se esquiva.

Sem dinheiro, a pobre Aninha
se refaz em volta e meia:
depois de rodar bolsinha,
tem sempre a panela cheia!

Sem lamentar, eu suponho,
ao ver um sonho à deriva:
- mais importante que um sonho
é eu sentir que estou viva!

Se o verão tudo arrefece,
talento é inovar quimera;
onde um novo sonho cresce,
sempre existe primavera.

Sobras desta trajetória,
os espinhos do desgosto
vão escrevendo outra história
sobre as linhas do meu rosto!

Talentoso no passado
mas depois um tanto frio...
e desse amor mal cuidado
restou-me um lar tão vazio!

Tiro a máscara... - ouço aflita
de um mar de farsas sem fim
um outro Eu que ainda grita
por vida, dentro de mim!

Usou truques à vontade,
tentando a sorte a coroa...
Mas alguém diz: - "Nessa idade,
só gasta cartucho à toa!”

Vencendo marco após marco,
alcancei um mar deserto
onde à deriva, meu barco
já não tem mais rumo certo.
______________________
         Rita Marciano Mourão é filha de Ernesto Marciano Ferreira e Irinéia Terra Ferreira, ( falecidos), nasceu na cidade de Piumhi-MG, em 1934.
         Ao terminar a quarta série do ensino fundamental, impossibilitada de continuar os estudos como era seu desejo, voltou à fazenda do pai e passou a alfabetizar as crianças daquela região onde não havia nenhuma escola oficial.
         Mais tarde casou-se com Aurélio Mourão. Teve 7 filhos.
         Aos cinquenta anos de idade, com os filhos crescidos e profissionalmente encaminhados, voltou aos bancos de uma escola. Fez o supletivo da quinta a oitava séries e o magistério. Trabalhou durante dezesseis anos no Colégio Metodista de Ribeirão Preto onde lançou catorze Antologias poéticas com trabalhos dos alunos do ensino fundamental.
         Frequentou durante treze anos o Grupo Flamboyant, grupo que muito contribuiu para seu desenvolvimento na literatura.
         Tem participação ativa na vida literária de Ribeirão Preto, cidade em que mora desde 1970.
         Possui vários certificados em premiações, incluindo primeiros lugares, medalhas de honra ao mérito, conquistados em concursos, nacional, estadual e municipal conforme segue a ordem:.
         Em setembro de 1997, recebeu o Livro de Prata da Prefeitura de Ribeirão Preto pelo desempenho literário nos anos anteriores.
         Em setembro de 1997 autografou seu primeiro livro de poemas, “Chama e Mormaço; no ano 2000 lançou outros dois, Um jeito de (re) viver e meu Sertão meu Brasil.
         Em 2010 autografou “ENTRE PEDRAS, GIRASSÓIS E POESIA o livro vencedor do concurso Grande Empresas na Literatura.
         Tomou posse na Academia  Ribeirãopretana de Letras em 2000.
         Rita é membro da União Brasileira de Escritores, União Brasileira de Trovadores e Casa do Poeta e Escritor de Ribeirão Preto.
(Fonte: UBE – União Brasileira dos Escritores)

Boi Garantido
Nação Kaxinauá

Um grande cataclismo abalou o mundo
Os andes despertaram do sono profundo
O céu desabou sobre a terra dos kaxinauá

Trovões e relâmpagos estremeceram a floresta
O paraiso kaxinauá foi exterminado
A natureza enfurecida destruiu a vida
O céu virou terra ea terra virou céu

Do ventre morno da índia Kaxinauá
Brotou a vida pro mundo repovoar
Ciecié-etê, chora maré, chora maré
Povo Kaxinauá, filhos prediletos do pai do trovão
Nação Kaxinauá, Gente caranguejo
As tochas de fogo iluminam o terreiro
Guerreiros reverenciam o "Totem caranguejo"
A pintura de cumacaá protege o kaxinauá
Da Fúria e da maldição de Maiuá
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Boi-Bumbá Garantido
         Associação Folclórica Boi-Bumbá Garantido, conhecida como Boi Garantido é um dos dois bois folclóricos que competem anualmente no Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas. (o outro está no número de ontem)
         O nome Garantido surgiu do próprio criador, Lindolfo Monteverde, que em suas toadas sempre lembrava aos torcedores do rival que seu bumbá sempre saía inteiro dos confrontos de ruas que, na época, eram rotineiros. Dizia Lindolfo que, nas “brigas” com os "contrários", a cabeça de seu boi nunca quebrava ou ficava avariada, “isso era garantido”.
         Desde a sua criação, o Garantido se apresenta com um coração na testa, e suas cores, vermelha e branca, foram adotadas pela torcida. A cor do coração na testa do boi costumava ser preta até meados dos anos 80, quando Dona Maria Ângela Faria, até hoje conhecida como madrinha do Boi, deu a ideia deste ser pintado de vermelho. Ideia que foi prontamente executada pelo artista Jair Mendes.
         Em sua história, lhe foram atribuídos vários adjetivos carinhosos, como: “Boi da Promessa”, “Boi do Coração”, “Brinquedo de São João”, “Boi do Povão” e outros. O mais popular é “Brinquedo de São João”, de autoria de Lindolfo Monteverde para homenagear o santo a quem se apegou para curar a doença que o ameaçava quando servia o exército. Os dirigentes preservam até os dias atuais este lema como forma de reconhecimento a Lindolfo, o fundador do boi.
         Quanto ao Garantido, é consenso que teria sido fundado por Lindolfo Monteverde. Em 13 de Junho de 19203 Monteverde, aos 18 anos de idade, decidiu criar seu próprio Boizinho de Curuatá - um chamado boi-mirim, que até hoje é muito comum no Norte e Nordeste do Brasil. Devido a uma grave doença, fez uma promessa a São João Batista: se ficasse curado, iria realizar anualmente uma ladainha e uma festa de Boi em sua homenagem. Lindolfo foi atendido em seu pedido e cumpriu sua promessa. Contam os mais antigos que a apresentação começou com a ladainha e depois houve distribuição de Aluá, bolo de macaxeira, tacacá e, no final, muito forró. A partir de então, todos os anos os torcedores do Boi se reúnem na noite de 24 de junho para rezar a ladainha e festejar São João Batista e, em seguida, saem pelas ruas da cidade, dançando em frente às casas que tiverem fogueiras acesas.
         Há versões de vários historiadores que afirmam que o contrário surgiu de uma dissensão do Boi Galante, por volta de 1925 ou 1929.4 Defensores da tese contrária, por sua vez, dizem que "Touro Galante" seria apenas um apelido do Caprichoso à época.
         Quanto a data de fundação do Garantido, durante muitos anos, seus integrantes defenderam que o boi teria sido criado em 24 de junho de 1913. Atualmente, é reconhecida como sua fundação junho de 1920.
         A Família Faria foi a principal colaboradora do Boi Garantido em uma época que os bois ainda não recebiam apoio financeiro, seja de empresas privadas ou governos, e eram rotulados como uma festa popular para pessoas de classe baixa. Com o suporte da loja ‘Jotapê’, de José Pedro Faria, seus filhos Zezinho e Paulinho Faria comandaram o Boi por cerca de duas décadas - mais especificamente dos últimos anos de Lindolfo á frente do Garantido, no início da década de 70, até a chegada de investimento externo, nos 90.
         A gestão dos Faria é considerada, até hoje, a "Era de Ouro" do Garantido, sendo essa a época mais vitoriosa do Boi quando também foi conquistado o único pentacampeonato da história do Festival Folclórico até hoje, de 1980 a 1984, e o primeiro título disputado no Bumbódromo, em 1988. A matriarca da família, Dona Maria Ângela Faria, é conhecida como Madrinha do Boi e é homenageada todos os anos durante a festa da Alvorada do Boi com os brincantes passando em frente à sua casa.

Festas Folclóricas

Alvorada do Boi
         É uma festa que acontece na madrugada do dia primeiro de maio. Lindolfo criou esta festa para marcar o início dos ensaios do Boi. Na noite de 30 de abril, os foliões se reúnem no curral para cantar e dançar. Na madrugada, o Boi Garantido reúne-se à batucada em frente do curral e sai em passeata pelas ruas da cidade, passando tradicionalmente pela casa de dona Maria Ângela Faria, até chegar à Catedral de Parintins. A festa continua mesmo após o alvorecer, daí a origem do nome. Nos últimos anos o sucesso da Alvorada se tornou tão grande que já vêm sendo organizadas várias excursões de turistas para Parintins a fim de participarem da festa.

Santo Antônio
         É outra passeata do Boi que acontece no dia 12 de junho, véspera de Santo Antônio. Repete um costume do Bumba-meu-Boi do Maranhão de festejar Santo Antônio na véspera, começando com uma ladainha. A reza da ladainha é feita no curral da Baixa do São José, na casa da família Monteverde. É posta uma mesa enfeitada com flores e velas com a imagem do Santo. Termina a ladainha, acontece outra passeata no mesmo estilo da Alvorada, com o Boi e a batucada à frente, e os foliões atrás. Nas casas que possuem fogueiras, o Boi pára e entrega uma rosa à dona da casa. De acordo com o historiador Sérgio Ivan Braga,3 nos dias 12 e 13 de junho, Lindolfo arrecadava dinheiro dos simpatizantes para a festa principal, que é a festa de São João Batista.

São João
         É a festa de cumprimento da promessa. É semelhante à festa de Santo Antônio, porém ocorre no dia 24 de junho, o mesmo dia dedicado ao santo pela Igreja Católica. Também ocorre a ladainha no curral da Baixa do São José e a passeata até a Catedral, com o Boi parando em frente às casas com fogueiras. A mesa é enfeitada com quatro velas e rosas vermelhas e brancas. A imagem de São João Batista adulto é colocada no centro da mesa, com suas fitas vermelhas e verdes, e no fundo é colocado o quadro da Sagrada Família. Após a morte de Lindolfo, seu filho, João Batista Monteverde passou a ser o anfitrião da cerimônia.

Matança do Boi
         Realizada anualmente todo o dia 17 de julho, pela família Monteverde, a festa da morte do boi marca o fim oficial das festividades do boi Garantido no ano corrente. A festa se inicia com a tradicional ladainha realizada no Curral da Baixa do São José, após ela os brincantes do boi saem as ruas para encenar a "morte do boi", em alusão ao Auto do Boi. Também são cantadas toadas atuais e antigas do Garantido. Durante muitos anos, a festa da Morte do Boi atraía milhares de torcedores do Boi Garantido para as ruas de Parintins, entretanto nos últimos anos, em virtude do pouco apoio dado pela direção do bumbá, a festa perdeu espaço e quase foi extinta. Atualmente sua realização se deve ao esforço dos familiares de Lindolfo Monteverde, criador do Boi Garantido.
Fonte: wikipedia


Alba Krishna Topan Feldman*
Variação Linguística e Preconceito na Música Regional

RESUMO
A música é uma das expressões mais puras da cultura de um povo ou região. Ela carrega consigo a oralidade e o modo de pensar e sentir da comunidade à qual representa. Os diferentes modos de expressão, porém, são alvo de maior ou menor preconceito linguístico.. Três grupos de música foram analisados no presente artigo: sertaneja/ caipira, gaúcha e nordestina, que são, na verdade, grandes grupos de diversos ritmos diferenciados. Muitas das letras de música estudadas apresentaram uma tentativa de equiparação à variante-padrão, mostrando uma tentativa, por parte dos músicos em ser aceitos por outras comunidades dentro do Brasil.

INTRODUÇÃO
Uma das formas mais puras da manifestação da cultura e do modo de pensar e agir de um povo está presente em suas diversas manifestações expressivas, sejam elas orais ou escritas, corporais ou verbais. Entre as últimas, a música e sua contraparte, a dança, são elementos distintivos entre as diversas comunidades culturais e linguísticas. Estudiosos e antropólogos catalogaram no Brasil pelo menos 500 tipos diferentes de músicas e danças folclóricas, cuja grande maioria permanece na obscuridade. O presente artigo visa discutir a presença de variações linguísticas e preconceito linguístico na música regional a partir dos próprios autores, , enfocando as letras de três grupos de músicas regionais conhecidas para além de sua fronteira geográfica: a música gauchesca, a música nordestina e a música caipira (do interior de São Paulo e Minas Gerais). E, em seguida, haverá a discussão de excertos de letras de algumas músicas significativas, transpostas para o registro fonográfico, para que se verifique a presença ou não do falar regional, seja pelas diferenças fonéticas, expressões ou diferenças lexicais.

O PRECONCEITO LINGUÍSTICO
O preconceito linguístico surge da ideia errônea de que existe apenas um tipo de língua correta: aquela língua dicionarizada e gramaticalizada. A ideia de propriedade ou impropriedade da língua utiliza-se do padrão linguístico literário como parâmetro. Assim, todos os outros modos de expressão oral são considerados erro.
Segundo BAGNO (1998), o problema do preconceito linguístico não está no que se fala, mas em quem fala o quê. O preconceito linguístico é decorrente, dessa forma, de um preconceito social. Forma-se, então, o preconceito linguagem contra a fala de determinadas classes sociais consideradas “incultas”, e também contra a fala característica de determinadas regiões. Como lembra o autor, basta observar-se como os nordestinos são retratados nas novelas de televisão: de forma jocosa, considerado “um tipo grotesco, rústico, atrasado, criado, para provocar o riso, o escárnio e o deboche nos demais personagens e no espectador” (2003, p. 44).
CALVET (2002) afirma que a história está repleta de provérbios e fórmulas pré-fabricadas que expressam os preconceitos de cada época contra as línguas. Porém, tais estereótipos não se referem apenas a línguas diferentes, mas também a variantes geográficas das línguas, freqüentemente classificadas pelo senso comum ao longo de uma escala de valores. Desse modo, a divisão das formas linguísticas em línguas, dialetos e patoás é considerada de maneira pejorativa como isomorfa a divisões sociais que por sua vez também se fundam num ponto de vista pejorativo.

A MÚSICA CAIPIRA
Surgindo como descendente da viola medieval portuguesa, com toques do amor pela natureza cultivado pelos índios, a viola é parte da vida do caboclo desde séculos.
O estigma do termo caipira traz consigo um tom pejorativo, como afirma a própria Inezita Barroso (apud NEPOMUCENO, 1999), professora de folclore de diversas universidades paulistas e um verdadeiro monumento da música raiz do Brasil. Ela afirma que “O termo caipira passou a ser pejorativo, sinônimo de brega, mal vestido, idiota, velho, quando é ser completamente o contrário. Caipira é aquele que se conserva ligado à terra, à cultura original”.
Da obra pesquisada, porém, percebe-se que os autores cuidam bastante para não se utilizarem de seus falares regionais. Exemplo disso pode ser visto em Jararaca e Ratinho, seja de seu nativo nordestino, ou seu caipira paulista adotado. Nem mesmo em suas famosas marchinhas, como “Mamãe eu quero”, da autoria de Jararaca, nota-se a presença de falar regional.
Alvarenga e Ranchinho, embora tenham também uma grande veia humorística, mostram seu falar caipira, principalmente nas músicas consideradas sérias, mostrando a personalidade naturalmente saudosa do caipira, descendente do português emotivo e saudoso por natureza, do negro com banzo e também do índio a quem foi negada sua própria terra.

“Canta, canta, sabiá, que a tristeza e a sodade tão me fazendo chorá (...)
tenho uma viola que nas noite de luá, quando pego a pontiá, chora até os passarin’”.
(Violeiro triste)

Pode-se se notar traços claros do falar caipira na retirada do fonema /r/ do final dos verbos no infinitivo (pontiá) e dos substantivos (luá) , assim como na supressão do plural redundante (os passarin’, nas noite de luá).
Na parte humorística falada de Alvarenga e Ranchinho, pode-se notar o uso exagerado e proposital da fala caipira, como o uso do som /r/ glotalizado, considerado característico desse tipo de fala. Em “O romance de uma caveira”, há uma conversa inicial onde a fala caipira é reproduzida, mas ocorre principalmente com o intuito de iniciar a peça musical com efeito humorístico, uma vez que essa é a natureza da música. Uma parte é reproduzida abaixo:

“- Ô cumpadi, fala uma coisa sentimentar, aí. Bem sentimentar.
- Bem sentimentar? seR ou não seR, eis a questão.
- Ô, que coisa bunita, tem mais?
- Tem: tubiR or not tubiR.
- Óia, cumpadi, isso é seu é?
- Não, cumpadi! Isso aqui é do Chico Espirra, num é?

Embora tenha sido vista a presença de diversos pontos da oralidade própria do interior da região Sudoeste, o que mais chamou a atenção nessa pesquisa foi o fato de que um número muito maior de músicas foi pesquisado, para que se pudesse obter amostras da fala específica do local, sem que se encontrasse um resultado positivo de amostra. Marcas de fonética regional são mais fáceis de se encontrar. No entanto, a quantidade de termos próprios da região foi praticamente nulo. Até mesmo no excerto de conversa acima foi citado um assunto que não seria usual a um sertanejo considerado típico (Shakespeare, mesmo com uma pronúncia deliberadamente errada). As razões para essa referência podem ser muitas, inclusive mostrar o conhecimento que possuíam.

A MÚSICA SULISTA/ GAUCHESCA
No Rio Grande do Sul, o tema da regionalização possui inexorável destaque, especialmente pela constituição histórico-cultural da identidade gaúcha. “O Estado, por suas peculiaridades histórico-culturais, é um caso sui generis de regionalismo, como uma experiência separacionista, inclusive.” (OLIVEN, 1988). 
A música gauchesca tem sido mantida viva pelo esforço de grande parte da população, formando grupos de dança e formando os CTGs, Centro de Tradição Gaúcha. O grupo “Os Serranos” tem mais de 30 anos de existência e admiradores cativos e é bem conhecido na região e em outras partes do Brasil.

“Encilho no parapeito, mas não ato nem maneio.”
“Sou bagual que não se entrega, assim no mais”.
“Água quente de erva buena para matear em silêncio.” (veterano – Leopoldo Rassier e Os Serranos)

Nota-se, perfeitamente, um número maior de diferenças lexicais, formada por expressões regionais (bagual, matear), além de uma amostra das línguas em contato pela presença da fronteira (buena) presentes no falar gaúcho.
Segue outra letra que faz parte do folclore gaúcho recolhido de MEYER (1959) em seu Cancioneiro Gaúcho.

Chimarrita diz que tem
Três cavalos tubianos;
Mentira, tudo mentira,
Nem garras, pingos, nem panos!
Aragana e caborteira,
A Chimarrita mentiu;
Não censure a dor alheia
Quem nunca dores sentiu.
Tironeada da sorte,
A Chimarrita rodou;
Logo veio a crua morte
E as garras lhe botou.

Há quem creia que o nome na verdade é uma modificação de “china” e “Rita”, nome de mulher. Nesse excerto há riqueza de variantes lexicais (tironeada, tubianos, aragana, entre muitos outros exemplos).

Nas fontes locais, de pesquisa indireta, a primeira referência à Chimarrita é a de Coruja em "Coleção de Vocábulos e Frases usados na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul" (v. Rev. do Inst. Geogr. Bras., 1852, tomo XV, pág. 223). Coruja então consigna "chimarrita", o que poderá valer como prova da procedência açoriana da nossa dança e canção popular. Também em Beaurepaire-Rohan (Dicionário dos Vocábulos Brasileiros, 1889) se lê "chamarrita", copiada certamente a averbação de Coruja. (Meyer, 1959. Disponível: http://www.paginadogaucho.com.br/musi/canc.htm . 2002.)

Todas as músicas de origem gaúcha pesquisadas apresentaram diferenças tanto fonética quanto lexical da variante padrão. É provável que isso se deva, como foi citado, ao forte regionalismo existente no local, além de um menor preconceito com relação à fala gaúcha. Apesar disso, o gaúcho também é motivo de piadas e de comentários maldosos simplesmente por sua procedência, e sua fala também é ridicularizada, muitas vezes.

A MÚSICA NORDESTINA
Luiz Gonzaga foi o grande responsável pelo sucesso da música nordestina, como o xaxado, o chamego, o forró e o baião no restante do país.
Da sua música, o que pode ser observado, é também um cuidado muito grande com a pronúncia. Não dá nenhuma mostra da parte oral, entre uma música e outra, ou entre um refrão e outro. A preocupação em falar o / r/ paulista é visível. Apenas em uma frase ou outra, no interlúdio ou em um ponto sem compromisso, deixa transparecer a fala regional, como a música em que reproduz o falar dos tropeiros:
“Tu nunca vissi muié dama?” (Missa do Vaqueiro – Interlúdio)
BAGNO (2003) mostra que nada há de engraçado ou ridículo na fala nordestina, mostrando que a pronúncia palatalizada do ti (quando o som parece-se com tch, como na palavra tcheco) é comum no sudeste. Porém, quando um nordestino fala “oitchiu”, torna-se engraçado ou ridículo ao homem do sul do país.
A letra que segue traz bem mais palavras próprias da pronúncia nordestina:

FORRÓ DE MANÉ VITO
(Luiz Gonzaga e Zé Dantas) - RCA Victor. 08.06.68.

Eu sou fio duma famia
Qui num gosta de fuá.
Se ninguém buli comigo.
Mandei pará o fole
Mas o cabra não é mole
Quis partir pra me pegá
Puxei do meu punhá
Soprei no candieiro
Butei tudo no terreiro
Fiz o samba se acabá.

Percebe-se que a palavra samba é usada com o mesmo sentido de Forró, uma diferença lexical que buscava aproximar os dois tipos de música, provavelmente pelo próprio prestígio que o samba tem. Quanto às palavras, o uso da fonologia nordestina está presente (butei, candieiro, famia). Também há expressões regionais bem marcadas: cabra, no sentido de homem; fole, no sentido de sanfona; fuá).

CONCLUSÕES
Pode-se afirmar que, dentro das variantes linguísticas, existem as mais e as menos privilegiadas. A variante padrão, considerada como norma e parâmetro para os falantes daquela língua, goza de respeito incondicional e todas as regalias de uma lei. O tratamento recebido pelas variantes não-padrão tem uma série de fatores que influenciam, como a importância social, histórica e econômica de uma região, ou sua proximidade com a norma-padrão. Pelo estudo feito, com 10 músicas de cada uma das origens, foi verificado que apenas uma percentagem pequena das músicas de origem caipira/ sertaneja conseguiram manter os termos e a fonética naturais do povo que a canta originalmente no momento da gravação. Isso nos sugere que os considerados “caipiras”, como todo o peso do termo, optam por tentar omitir suas diferenças fonéticas e evitar termos próprios da região. Eles procuram imitar a norma-padrão ou, pelo menos, cometer os ditos “erros” considerados aceitáveis (como a fala paulista urbana, por exemplo). Esse procedimento, de certa forma, tenta livrá-los do preconceito linguístico, apesar de outros itens dentro do próprio estilo musical ainda causarem preconceito. O mesmo pode ser dito, em um número mais significativo ainda, sobre música nordestina.
Quanto à música gauchesca estudada, ela mostra bem mais liberdade em utilizar-se de termos de cunho regional na sua oralidade. Tal atitude demonstra que os autores e músicas de origem sulista que publicam sua música não têm tanta vergonha de seu modo de falar. Esse fato ocorre tanto na natureza lexical, mostrando um número bem grande de regionalismos, assim como na natureza fonética, onde eles mantém o canto natural do falar gaúcho.
As músicas aqui estudadas têm um alcance nacional, uma vez que o material para pesquisa foi coletado bem distante de sua terra natal, e serviu como um alerta para que haja maior pesquisa na área, antes que as comunidades não consigam mais transmitir através de sua música a riqueza de sua linguagem, caindo em uma padronização de linguagem nacional que, na verdade, não pode ser atingida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MADEIRA, Marcio Mattos A. A evolução do baião. (projeto do CNPq). 1999. Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará. Disponível em http://www.geocities.com/baiaooaiab.geo/bibliografia.htm. Acessado em 22 de novembro de 2003.
MEYER, Augusto. Cancioneiro Gaúcho. 2002 Porto Alegre: Globo, 1959. Disponível: http://www.paginadogaucho.com.br/musi/canc.htm. 2002. Acessado em 25 de novembro de 2003.
MONTERREY, Fernando. Evolução histórica do forró. 2002. Disponível: http://www.cheirodeforro.hpg.ig.com.br/html/evolucao.html . Acesso em 22 de novembro de 2003.
NEPOMUCENO, Rosa. Música Caipira – da roça ao rodeio. Coleção todos os cantos.São Paulo: Ed. 34, 1999.
OLIVEN, Ruben George. A fabricação do gaúcho. In HINERASKY, Daniela Aline. A Cidade está Substituindo o Pampa?: Um estudo sobre a identidade cultural gaúcha na dramaturgia regional. Porto Alegre: UFRGS, 2002.
http://www.geocities.com/baiaooaiab.geo/bibliografia.htm . Acesso em 25 de novembro de 2003.
http://www.rsplural.hpg.ig.com.br/danca_musica.htm . Acesso em 25 de novembro de 2003.
http://www.sompantaneiro.hpg.ig.com.br/ritmos.html . Acesso em 25 de novembro de 2003.

CDS E LONG PLAYS
GONZAGA, Luís. Missa do Vaqueiro. Gravado ao vivo no Parque Nacional dos Vaqueiros, na cidade de Serrita. São Paulo, Discos AMC ltda , 1989.
__________. Biografia encartada no LP A grande música de Luiz Gonzaga. São Paulo: Discos AMC ltda. . S.d.
JARARACA & RATINHO. Jararaca e Ratinho. Acervo Cultural Funarte/ Instituto Cultural Itaú. Biografia encartada por Jairo Severiano São Paulo, 2000.
OS SERRANOS. Veterano. In Festival dos Festivais Nativistas. São Paulo: BMG, 1988
RANCHINHO in BOLDRIN, Rolando. 20 preferidas. RGE. Barueri, s.d.

SUGESTÕES DE LEITURA:
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico. O que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.
CALVET, Louis-Jean, Sociolinguística: uma introdução crítica. (Tradução Marcos Marcionilo). São Paulo: Parábola, 2002.

Fonte:
V Simpósio da APADEC/II Mostra Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão. Maringá: Universidade Estadual de Maringá (UEM), 2004.
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* Alba Krishna Topan Feldman, é natural de Ubiratã/PR. Possui graduação em Letras Inglês/Português pela Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (1992) e mestrado em Letras - Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá (2006). Doutorado de Letras na UNESP, de São José do Rio Preto (2010), e complementação na Louisville University (2009), nos Estados Unidos. Atualmente é docente e coordenadora do curso de Secretariado Executivo Trilingue, da Universidade Estadual de Maringá (PR). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, atuando principalmente nos seguintes temas: pós-colonialismo, lendas, escrita de autoria feminina, multiculturalismo. Casada com José Feldman, fixaram residência em Maringá/PR.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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