Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 369)

Uma Trova de Curitiba/PR
Vânia Ennes

Brasil, samba e carnaval
e os foliões tomam conta
da festa descomunal,
quando a “escola”, enfim, desponta!!!

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
Alfredo de Castro

Quando encontrei desbotado
meu retrato de arlequim
no carnaval do passado,
senti saudades de mim !

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

O EMBRIÃO

Mãe! Por que não me deixas ver teu mundo?
Por que acabas assim com minha vida?
Por que será que estás tão decidida,
a praticar tal ato tão imundo!

Mãe! Eu não sou um ser nauseabundo!
Não sou uma doença contraída!
Faço parte de ti, fui concebida!
Sou vida no teu útero fecundo!

Não queiras destruir-me por favor!
Não transformes em ódio, aquele amor,
do momento da minha concepção!

Eu sei que não pensavas conceber…
Mas, por favor mãe, deixa-me nascer,
eu sou um ser humano em formação!

Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Marisa Rodrigues Fontalva

No carnaval o sujeito,
no samba, pisou na lata,
caiu e bateu de jeito
no traseiro da mulata!...

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

Nesta paixão sem igual,
de alegria verdadeira,
nossa vida é um Carnaval
sem direito à quarta-feira!

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

HERESIA

Talvez minha garganta revoltada.
Espinhosa ficasse, e enrouquecesse.
Ou para meu castigo enlouquecesse,
Por a manter tão muda, tão calada!

Quero falar, a voz sai embargada,
Como se algum mal eu lhe fizesse.
Eu juro que não fiz, e isso acontece.
Minhas cordas vocais fiquem paradas!

Eu preciso gritar minha revolta,
Engolir todo o mal que não tem volta,
E na glote se encontra aprisionado!

Eu quero ler a minha poesia.
Limpar do meu passado, a heresia,
Engolir as tristezas do meu fado!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Dizem que o pito alivia
as mágoas do coração;
eu pito, pito e repito
e as mágoas nunca se vão.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Libia Carciofetti

Con coherencia en la vida
se puede llegar muy lejos
y una confianza aguerrida
quita todos los complejos.

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

IGUALDADE

Indiferente ao credo à própria raça,
O ser humano nasce, modo igual.
A sua formação conceptual,
É dádiva de Deus, divina graça!

Não traz no nascimento uma mordaça.
Um sórdido ferrete, ou um sinal!
É apenas um ser, e tal e qual,
Igual a qualquer ser que nos enlaça!

O seu direito à vida, ao mundo, enfim!
Ao colo maternal, ao frenesim,
É ganho mal acaba de nascer!

E toda a dignidade adquirida,
Só deverá um dia ser perdida…
No dia em que seu corpo fenecer!

Trovadores que deixaram Saudades
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN (1951 – 2013) Natal/RN

O Carnaval irradia
prazeres aos foliões,
mas o melhor da folia
está em nossos corações!

Uma Trova de São Paulo/SP
Darly O. Barros

Veste o manto, ajeita a pluma,
põe a faixa de Rainha,
passa batom, se perfuma
e faz Carnaval… sozinha…


Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

MÚSICA DIVINA

É música divina o chilrear,
De uma ave que voa, solta ao vento!
É música divina, doce alento…
Se alguém nos diz baixinho: eu vou te amar!

É música divina o sussurrar,
Que o mar provoca em cada movimento.
Divina melodia, o açoitamento;
Que a onda nos difunde, ao se espraiar!

É música divina, quando o amor,
É cântico divino, sedutor;
Lembrando Pierrot e Columbina!

Até o próprio vento em noite escura,
Sibilando estridente na lonjura…
Nada mais é, que música divina!

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Elisabeth Souza Cruz

No desfile à fantasia,
de um carnaval de ilusão,
a saudade é a alegoria
que enfeita meu coração!

Um Haicai de Ilhéus/BA
Abel Silva Pereira

Procissão de luzes.
Vagalumes se destacam
no manto da noite.

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

O DILEMA

A concepção da vida, é um poema…
Que se compõe, sem nunca se escrever!
É um bailado a dois, que irá fazer,
Um musical de amor…um sonho…um tema!

Um tema transformado num dilema,
Que terão de enfrentar, de resolver!
Mais uma personagem vai haver,
Há que pôr no guião, mais uma cena!

Um corpo de mulher em movimento.
Um cântico de amor. Um nascimento.
Atores desempenhando um novo lema!

Vai ter mais um compasso, a melodia.
Vai ter mais uma estrofe, a poesia.
Mas tem final feliz, este dilema!

Uma Trova de Fortaleza/CE
Fernando Câncio

O morro grita o seu nome
num frenesi sem igual
e vai sambando com fome
a deusa do carnaval!

Uma Haicai de São Paulo/SP
Alonso Alvarez

cada galho pro seu lado
mas na cor das flores
nenhum discorda

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

O MEU DIÁRIO

Peguei no meu diário envelhecido,
um velho confidente meu amigo!
Que eu fiz das suas folhas meu abrigo…
Meu fiel conselheiro enternecido!

No diário se encontra redigido:
O meu sentir. A dor que não mitigo,
que vive aboletada e não consigo,
retirar do meu peito tão sofrido!

Suas capas afago com amor!
Elimino alguns fungos de bolor,
que o tempo e a idade provocaram!

Há manchas; caracteres indefinidos!
São sinais indeléveis produzidos,
p’las lágrimas, que os olhos derramaram!

Uma Trova de Portugal
Maria Helena

Neste carnaval sem fim
do mundo que Deus nos deu,
fantasiei-me de mim
e ninguém me conheceu…

Uma Glosa de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

Glosando Nilson Matos

O PODER DO AMOR

Mote:

Dentre os poderes na terra
o do amor é bem mais forte,
somente o amor vence a morte
e pode acabar a guerra!

Glosa:

Dentre os poderes na terra
o que tem maior valor,
o que mais poder encerra
é com certeza, o do amor!

Dentre tantos sentimentos,
o do amor é bem mais forte,
pois abriga bons momentos
que indicam o nosso norte!

Pra que contarmos com a sorte,
se o amor é o nosso guia?
Somente o amor vence a morte
e nos traz muita alegria!

O amor é a chave da vida,
sua porta, não nos cerra...
Sua força é conhecida,
e pode acabar a guerra!

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

O PALCO DA VIDA

Peguei no meu viver, pus nos dois pratos…
Da balança que pesa a minha vida.
Ficou a balouçar, enlouquecida,
Perante a imensidão de tantos fatos!

Desesperei. Quis ver quais os relatos,
Que a deixaram assim, enfurecida!
Teria ela ficado ressentida…
P’lo turbilhão perverso, dos meus atos?

Eu fui mais um ator que desfilou!
Que fez o seu papel, representou!
Que foi palhaço. Herói. E foi guerreiro!

Se errei alguma vez no meu percurso.
Por certo não havia outro recurso,
Terão de condenar, o mundo inteiro!

Um Haicai de Magé/RJ
Kleiton Aragão Oliveira de Sousa
(13 anos)

Sol de inverno.
Aquece as manhãs da moça
Que sonha o amanhã.

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Renato Alves

Fiz da vida um Carnaval,
mas terminei num impasse:
- A máscara do irreal
grudou-se na minha face!

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

PLAGIADORES

Há poetas que sabem enganar.
Pois nasceram eternos fingidores!
E fingem serem grandes escritores,
Mas palavras de outros, vão buscar!

Já dissera Pessoa, a versejar:
Que chegava a fingir que suas dores,
Das quais ia sentindo seus horrores,
Eram dores, que fingia acreditar!

Por isso muita gente anda a fingir,
Que escreve nos poemas seu sentir,
E orgulhoso os lê, à descarada!

O seu fingir é forte, tem poder!
Que consegue a si próprio fazer crer,
Que não é poesia plagiada!

Recordando Velhas Canções
O trovador
(marcha-rancho, 1965)

Jair Amorim e Evaldo Gouveia

Sonhei que eu era um dia um trovador
Dos velhos tempos que não voltam mais 
Cantava assim a toda hora
As mais lindas modinhas
De meu tempo de outrora

Sinhá mocinha de olhar fugaz
Se encantava com meus versos de rapaz
Qual seresteiro ou menestrel do amor
A suspirar sob os balcões em flor
Na noite antiga do meu Rio
Pelas ruas do Rio
Eu passava a cantar novas trovas
Em provas de amor ao luar
E via então de um lampião de gás
Na janela a flor mais bela em tristes ais

Uma Trova de Sapucaia do Sul/RS
Neoly Vargas

Nos carnavais do passado,
dos arlequins, dos palhaços,
fui pierrô apaixonado,
que terminava em teus braços.

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

A MEIA LARANJA

Senti meu coração alvoroçado,
Bater desordenado no meu peito.
Impávido fiquei! Fiquei sem jeito!
Que raio o pôs assim em tal estado?

Olhei em meu redor, desconfiado.
Senti-me desolado, contrafeito!
Por não compreender, a causa efeito,
Que o pusera a bater descontrolado!

Tive depois, a estranha sensação.
Que me tinham aberto o coração,
E dentro dele, alguém se aboletava!

Aos poucos o meu ser se aquietou.
Pois percebeu, que o ser, que se alojou…
Era a meia laranja que faltava!

Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro Ferreira

No bico do pássaro,
se o sol leva a escuridão,
vagalume é inseto.

Uma Trova de Fortaleza/CE
Giselda Medeiros

É carnaval… e em meu peito
qual um sagaz folião,
brinca o meu sonho desfeito
nas alas da solidão…

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes
CANÇÃO NAVEGANTE

Compus uma canção, lancei ao mar!
Pedi-lhe humildemente que a levasse!
E em caso de procela a amparasse,
Para nenhuma estrofe se afundar!

Às estrelas pedi para a guiar,
Ao luar que o seu rumo iluminasse.
A Netuno roguei, que não deixasse,
De a um porto seguro a acompanhar!

Eu sei que alguém espera esta canção.
Terá seu peito arfando de emoção,
P’ra ouvir a melodia, e seu cantar!

Meus versos, um a um recolherá!
Seu peito generoso se abrirá,
Para nele a canção se aboletar!

Hinos de Cidades Brasileiras
São Tomé/RN

I
Entre terras serranas azuis
Um ar Olímpico o sopro vital
De mares Glaucos que embalsamam e conduzem
Em sesmaria a data do Pica-pau.

II
És banhada pelo Potengi amado
Que suas vertentes, fazem brotar
As produções que afluíram
A agricultura familiar.

III
Nesta terra bendita e fecunda
Suas riquezas podemos ressaltar
Entre todas, o algodão, ouro branco
E os minerais não deixemos de lembrar.

IV
Tu és boa terra hospitaleira
Em acolhimento não te podem igualar
Por isso hoje teus filhos jubilosos
Com alegria te querem saudar.

Refrão
São Tomé, terra de gente de fé
Não vejo, contudo creio
Nós teus filhos entre brados e aclamações
Aqui vimos abrigar-nos no teu seio.

Uma Trova de Fortaleza/CE
Francisco José Pessoa

Nos desfiles dessa vida
com humildade me toco:
Quanto mais larga a avenida
mais estreito fica o bloco.

Um Poema de Lisboa/Portugal
Alfredo Santos Mendes

AGRADECIMENTO

Eu agradeço a Deus tanta ventura,
que orna a minha vida, o meu caminho!
Não deixar que em meus pés, um só espinho,
os façam fraquejar pela tortura!

Enfeitar os meus dias, de ternura,
rechear minhas horas de carinho!
Nunca deixar, que ficasse sozinho,
em triste solidão, torpe amargura!

Obrigado meu Deus, pelos amigos,
que me abraçam, me livram dos perigos,
e que por Ti, estão ao meu dispor!

A todos que me dão tanta amizade,
eu desejo a maior felicidade,
muitas graças de Deus, e muito amor!

Chuvisco Biográfico do Poeta
      Alfredo Santos Mendes nasceu na cidade de Lisboa/Portugal, em 1933.
         Desde muito jovem se dedicou à leitura. Com tenra idade, e talvez em consequência dos seus hábitos de leitura, aonde predominava a poesia, ensaiou a composição das suas primeiras quadras, com as quais enfeitava os vasos de manjericos, que tradicionalmente, e quase como que por obrigação, tinha de estar presente no meio da minúscula folhagem verde, do célebre manjerico. (O tema das quadras era, continua a ser, o namorico e as fogueiras)        Tradição essa que ainda hoje se mantém, por ocasião das festas dos Santos Populares. Santo Antônio, São Pedro e São João.
         Ao longo de muitos anos foi escrevendo para a gaveta, como é habito dizer-se. Só em 1998, começou a colaborar com alguns jornais locais, que regularmente editavam os seu poemas, e posteriormente a concorrer em Jogos Florais.
         Em 1999, conseguiu suas três primeiras menções honrosas.
         Em janeiro de 2012, possua  6 primeiros prêmios. 4 segundos prêmios, 1 menção especial e 28 menções honrosas, repartidas pelas seguintes modalidades: Soneto, Glosa, Poesia Lírica, e Quadra.
         Não tem nenhum livro editado, nem pensa fazê-lo dado os seus elevados custos.

 
Abre-se o chão e recebe
as sementes do plantio
e fertilmente concebe
frutos no colo macio.

A correnteza da idade
é mutável, já se disse:
revolta na mocidade,
calma na infância e velhice.

A lembrança, na velhice,
sempre traz a mocidade,
que, qual sombra, com meiguice,
abraça a terceira idade...

A lua cheia é artista
que em sombras pinta uma tela
de beleza nunca vista
e só mostrada por ela.

A mocinha reclamou
mas o ceguinho, no baile,
passando a mão, explicou:
- A minha dança é em braile!!!

À noite, após a enxurrada
que o meu barquinho levou,
eu fico olhando, encantada,
o céu que Deus enfeitou...

Ante as portas, lado a lado,
a que está aberta nos tenta.
Porém, tenhamos cuidado:
nem sempre é o fácil que alenta!

A pipa que a nossa infância
faz ao mais alto chegar,
representa a nossa ânsia
de nossa vida elevar.

Após noite tenebrosa,
envolta em forte neblina,
chega ao porto a nau, garbosa,
que o sol nascente ilumina!

A praça enfeita a cidade,
é o seu cartão de visita;
representa, na verdade,
seu coração, que palpita.

Apreciando a natureza,
- belo por-do-sol no mar -
um casal, vendo a beleza,
mais amor vai externar.

A queimada, tão nociva,
para a terra é uma agressão;
vai-se a floresta nativa,
fica só desolação…

Às vezes a caridade,
que a paz e a esperança aspira,
põe no lugar da verdade
uma piedosa mentira...

Buscando a Felicidade
ao longo dos dias meus,
sigo a seta da Verdade,
que indica o reino de Deus!

Céu e mata refletindo
nas águas claras de um rio,
a nós estão exibindo
um meio-ambiente sadio!

Com amor sempre presente
e a força da educação,
livraremos o carente
dos grilhões da exploração!

Com um grito de alegria
e uma passagem na mão,
o retirante anuncia
que já chove no sertão!

Com versos a se espalharem,
eu subo morros, ao léu,
para meus sonhos se alçarem
até as nuvens do céu!

Crianças são como flores
que enfeitam na Primavera.
São buquês de várias cores
que a natureza libera.

Devagar, mas com prazer,
o homem, sem ficar a esmo,
usa o cinzel do Saber,
vai modelando a si mesmo.

Doce sorriso, olhar terno,
minha sogra, tão querida,
ocupa um lugar materno
nas trilhas de minha vida.

Do coreto “ela” saiu
sob apupos e sem jeito
pois a peruca caiu
e a “cantora”... era o prefeito!

Em festa branca e amarela,
embelezando o jardim,
margaridas, numa tela,
abrem-se todas pra mim!

Em frente ao computador
a namorada moderna
manda beijos ao amor
e com mensagens alterna.

Estas fotos que estou vendo
me remetem ao passado:
é uma viagem, percorrendo
o que me foi muito amado...

Fugindo pela janela,
o “Don Juan” quis “dar no pé”.
- Um fantasma! gritou ela.
E o marido: - Agora é!

Guaratinguetá, querida,
és deste Vale a rainha!
E eu carrego em minha vida
o orgulho de seres minha!

Hoje é diferente o lar:
não compartilha e encolheu,...
Pois quem manda é o celular
e até o Lulu tem o seu!!!

Junto à bola, uma criança,
na pobreza do sertão,
sonha e acalenta a esperança
de um dia ser campeão...

Meia noite...ou meio dia?
O meu relógio quebrei.
E, na minha nostalgia,
se é dia ou noite...não sei...

Nos jardins, bela e vaidosa,
enfeita-se a natureza:
recende a aroma de rosa
e põe brincos-de-princesa!

No sonho do trovador,
há sempre um mar e uma lua,
que o inspiram a compor
a mais bela trova sua !

O bruxulear de uma chama
de vela, gasta e mortiça,
lembra o excluído que clama
por respeito e por justiça!

Planta nas leiras da lida
as sementes dos teus dons,
e terás, por toda a vida,
fartura de frutos bons!

Presente é como migalha
que mal se nota cair,
pois é um fio de navalha
entre o passado e o porvir...

Quando a montanha escalar,
buscando sucesso e glória,
deixe a humildade levar
a bandeira da vitória!

Quando eu lembro e se avantaja
minha vida de criança,
só a saudade viaja
nos trens da minha lembrança...

Quando o outono bate às portas
de um cansado coração,
sonhos viram folhas mortas
sarabandeando no chão...

São as mãos do mundo inteiro
que, numa união fraternal,
formam sustento altaneiro
para a paz universal!

Tudo acabou em quimera
na tarde chuvosa e fria
e a grande perda me espera
dentro da casa vazia...

Velha ponte de madeira
ligando a roça à cidade,
foi a passagem primeira
do meu sonho à realidade.

Zumbindo sobre as corolas,
de delicada beleza,
os insetos são violas
na orquestra da Natureza!

            Angélica Maria Villela Rebello Santos nasceu em Guaratinguetá em 1935, Filha dos professores José do Amaral Rebello e Maria Conceição Villela Santos do Amaral Rebello, Angélica.
         Professora, como os pais, formou-se em 1953, e, em 1954 começou a lecionar. Sua primeira escola foi em Jambeiro.
         Chegou a Taubaté em 1962, para lecionar num Grupo Escolar.
         De 1973 a 1976 fez o curso de Pedagogia na Unitau
         Aposentou-se como Diretora de Escola. 
         Foi casada com o médico-legista Dr. Egberto Eloy Santos, falecido em 1990.
         Em 1984, já aposentada, foi convidada para a função de Coordenadora de Educação Moral e Cívica e de Saúde.
         Deu-se muito bem com a trova e até hoje pertence a esse movimento, sendo Presidente da Seção.
         Alguns anos depois, conheceu o haicai, que também pratica e o haicu, composição japonesa que deu origem ao haicai.
         Faz parte da organização do haicuista Manoel Fernandes Menendez, de São Paulo, capital, já tendo tido vários de seus haicus escolhidos como destaques do mês.
         Em 1998, foi convidada pelo professor Aldo de Aguiar a participar de reuniões dirigidas por ele, com o objetivo de fundar em Taubaté uma Academia de Letras. Participou de todas e, em 1999, quando da criação da Academia
Taubateana de Letras, foi convidada a integrar a Diretoria Provisória, composta por sete membros, ocup ando o cargo de 2ª Secretária.
         Em 1999 tomou posse como membro efetivo da Academia, onde já ocupou os cargos de secretária e de tesoureira. Atualmente faz parte do Conselho Editorial da Academia e é a responsável pela edição do boletim “O Experimental”.
         Angélica é membro do Clube dos Escritores Piracicaba, (categoria prêmio maior Troféu “Coruja”), e Membro Correspondente das Academias: Pindamonhangabense de Letras (Cadeira 04C) e Cachoeirense de Letras (de Cachoeiro de Itapemirim-ES). Membro titular da Academia Brasileira de Estudos e Pesquisa s Literárias (RJ) – Cadeira Cecília Meireles. É membro correspondente da Academia Norte Riograndense de Trovas, de Natal (RN).
         Participa de diversas coletâneas e tem recebido vários prêmios em concursos de trovas, haicais, contos, crônicas, sonetos, no Brasil, Argentina e Portugal.
         É portadora do troféu “Ordem do Dragão Dourado”, da real Academia de Porto Alegre-RS - Confraria dos Poetas.
         Em 2011, ingressou como membro do Clube dos 21 Irmãos Amigos, em Taubaté.
         É membro do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), de Lorena. Colabora com o jornal O Jambeirense, da cidade de Jambeiro, enviando textos mensais para a coluna Movimento Vicentino.
         Livros editados:  1. “Contos, Trovas e Outros Versos”; 2. Memórias Póstumas de um Médico Legista” (em homenagem a seu falecido marido); 3. “Estudo Genealógico das Famílias do Major  Villela/Januária Reis Villela; Rangel; Santos Souza, Monteiro/Marcondes do Amaral  (  ramo materno e ramo paterno de sua família); 4. “ São David dos Pilões”- romance, que recebeu o Prêmio Cultural “Eugênia Sereno” , oferecido pelo Instituto de Estudos Valeparaibanos ( IEV ), de Lorena-SP; 5. “ Lembranças de minha terra- Guaratinguetá –Ruas de Minha Memória”.
Fonte: Câmara de Taubaté

Claudia Ferreira de Paula Borges*
Tem(po)esia – o tempo na poesia lírica moderna

RESUMO: Este trabalho se propõe a uma análise expositivo-interpretativa do tempo na poesia lírica, suscitada pelo texto O instante metafísico e o instante poético, de Bachelard, no qual o autor teoriza sobre a verticalidade do tempo na poesia, ou seja, sobre como o tempo se instaura no poético.  Objetiva-se a identificação da expressão do tempo na poesia lírica, em poemas de Carlos Drummond de Andrade. Dentre as categorias psicológicas do tempo na poesia lírica, destacar-se-á, neste presente artigo, o papel da memória, capaz de abolir a noção de causalidade temporal física e de instaurar uma ordem de eventos dinâmica, “atemporal”.

1.    Introdução   

Tão fascinante e não menos desafiadora, a questão do tempo na vida humana sempre suscitou teorias filosóficas, científicas e literárias.
Tentando compreender esse elemento essencial na ocorrência da vida e na sua própria existência, o homem tem formulado questionamentos incontáveis, os quais reduzem o tempo a conclusões racionais (Filosofia e Ciência) ou, então, entrega-se ao poder temporal, cantando-o em verso e prosa (Literatura).
O presente trabalho não se presta a abordar o tempo em seus aspectos científicos, mas em sua dimensão literária, valendo-se, em alguns pontos, de algumas reflexões filosóficas. Assim, convém esclarecer, num breve levantamento, quais teorias filosóficas sobre o tempo o fundamentam.
Dentre as inúmeras e diversificadas abordagens filosóficas sobre o tempo, destaca-se a de Santo Agostinho, revista por Paul Ricouer, bem como a de Gaston Bachelard, pelas implicações/aplicações para com/no texto literário em especial que ambas apresentam.
Da teoria agostiniana, ressalta-se a questão do tríplice presente (presente do passado, presente do presente, presente do futuro) e a importância da memória. De Bachelard, os princípios básicos da verticalidade do tempo poético e da duração.
Aparecem, também, no transcorrer da exposição dessas fundamentações teórico-filosóficas, citações do pensamento heideggeriano e do bergsoniano, enquanto complementação ou aval das teorias que nortearam e sustentaram esta pesquisa.
A problemática do tempo, porém, encontra ressonância e aplicação imensas na Literatura, uma vez que o existir de uma obra literária – especialmente a poesia -, pelas razões próprias de sua natureza ficcional, tem como matéria-prima o tempo. Meyerhoff, Castagnino e Bosi foram os autores empregados na elucidação do tratamento do tempo na literatura, especialmente na poesia lírica, em sua relação com o “eu” e o mundo da natureza.
Mediada pelo discurso, a poesia “invoca, evoca, provoca” o Tempo, em suas múltiplas e simultâneas ocorrências: “Na poesia, cumpre-se o presente sem margens do tempo, tal como o sentia Santo Agostinho [...]” (BOSI, 1983).
E é através dela que o homem procura amenizar toda angústia existencial que lhe causa a premência do tempo físico, cronológico, objetivo. Sentindo a ação inexorável do tempo, o homem-poeta procura fugir ao curso do inevitável encontro com sua desagregação física (a morte) e transcende o tempo em busca do Tempo.

2.    O Tem(po)ético: categorias psicológicas do tempo na poesia lírica

Por que desafiar o tempo em sua compreensão e/ou apreensão? “Como detê-lo, se fluido, se implacável, se tirano; se especular sobre o tempo “é uma ruminação inconclusiva?”” (RICOEUR, 1995).
Nem tentativa de definição, nem de especulação, nem de apreensão por abordagem científica... Simplesmente deflagrar o poder do Tempo na vida do ser humano, enquanto instante que ultrapassa os limites temporais socialmente impostos ou cientificamente esquadrinhados, transportando o ser para além de sua finitude e libertando-o das correntes da sucessividade. O poder temporal da palavra poética. Indiferente às especulações decorrentes de se medir o tempo, ou mesmo de defini-lo quanto à sua natureza, a poesia lírica – excelência do “eu” – o executa, vivencia, subverte, resgata, instaura e transcende. O instante poético – instante metafísico – efetiva o que a ciência reconhece: a imponderabilidade do tempo.
Indissociável do conceito do “eu”, o tempo identifica-se com o próprio ser, visto que este somente existe inserido numa “sucessão de momentos e mudanças temporais”. Toda experiência humana está associada a um índice do tempo, o que torna o homem um ser essencialmente temporal. É assim que compreender o que é o tempo, é compreender o que é o homem. Não o tempo em suas materializações físicas, “público, objetivo”, “definido em termos da ‘estrutura objetiva da relação de tempo’ na natureza”. Mas o tempo “buscado somente dentro do contexto do mundo da experiência ou dentro do contexto de uma vida humana como a soma total dessas experiências” (MEYERHOFF, 1976).
Interessa para a Literatura como o tempo entra na tessitura das vidas humanas, sendo, pois, segundo Meyerhoff (1976): “privado, pessoal, subjetivo, ou, como se diz freqüentemente, psicológico. Esses termos significam estarmos pensando sobre o tempo experimentado direta e imediatamente”.
Ainda dentro dessa linha de pensamento, Bergson (apud MEYERHOFF, 1976) defende o tratamento literário do tempo enquanto “dado imediato da consciência” e/ou elemento constitutivo da vida e das ações humanas... E não dentro da visão científica, que elimina o caráter da duração temporal.
Dessa forma, a literatura, especialmente a poesia lírica, além de refletir a consciência da precária natureza do tempo (enquanto aspecto temático) é, em si mesma, a própria realização temporal (no plano estrutural, lingüístico); bem como efetua o rompimento com o tempo objetivo, sucessivo, ao transcender os conceitos de passado-presente-futuro e ao instaurar a verticalidade temporal (BACHELARD, 1985), o instante poético – metafísico – ambivalente e simultâneo.
A escorrer pelas ampulhetas e clepsidras, a ecoar e a escoar em sinos ou badalos, a “matematizar-se” nos ponteiros de um relógio, o tempo exerce sua tirania; no entanto, na alma humana, é pulsar. É fusão: é o resgate do ontem, na memória indelével; é a antecipação do amanhã, no expectar de um desejo; é, ainda, a união dessas duas instâncias, criando o hoje, instante pontual. Instante esse que é transição, é passagem, pois o futuro e o passado é que são. Mas, “se o futuro e o passado existem, quero saber onde estão”, afirma Santo Agostinho, em suas Confissões – Canto XI (1964).
Na alma. Sim, na alma humana situam-se as coisas narradas e preditas.
Ricoeur, numa leitura agostiniana, esclarece em Tempo e Narrativa – Tomo I (1995) a noção de distentio animi (distensão da alma), em que o tempo é pensado enquanto medida do movimento da alma humana. O presente, em sua multiplicidade (do passado que não é mais; do futuro que ainda não é; do presente que não tem extensão em si mesmo), caracteriza-se não somente pelo tempo que passa, mas, sobretudo, pelo que permanece.
Evidencia-se a tese do “tríplice presente”, associado à distensão do espírito. Dessa maneira, estão presentes na alma (e não “alhures”) os três tempos: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro – a memória, a intuição direta e a espera.
Meyerhoff (1976), sobre Agostinho, esclarece:

O que acontece, acontece ‘agora’, argumentou ele; é sempre uma experiência, idéia ou coisa que está ‘presente’. Entretanto, podemos construir uma série temporal significativa explicando o passado e o, futuro em termos de memória e de expectativa. Por ‘passado’ queremos dizer então a presente expectativa da memória de uma coisa passada; por ‘futuro’, a presente expectativa ou antecipação de uma coisa futura.

Essa teoria filosófica agostiniana baseia-se inteiramente na experiência momentânea do tempo, combinada com as categorias psicológicas da memória e da espera. Ao recordar, deixando fluir a memória, tem o ser uma imagem do que passou: a impressão deixada pelos acontecimentos e que permanece fixa no espírito. Analogamente à memória, situa-se a espera, pois consiste numa imagem que já existe no sentido de que precede o evento que ainda não é; mas essa imagem não é uma impressão deixada pelas coisas passadas, mas um ‘sinal’ e uma ‘causa’ das coisas futuras que assim são antecipadas, pré-percebidas, anunciadas, preditas, proclamadas antecipadamente (RICOEUR, 1995).

2.1 A Memória: Identi(dade/ficação) do eu?

Segundo Bachelard (1985), o “instante poético é essencialmente uma relação harmônica entre dois contrários”. Não se trata, simplesmente, de se explorarem antíteses sucessivas; para que ocorra a “fratura” estética (a estesia, nas palavras de Greimas), “é preciso que as antíteses se contraiam em ambivalência. Surge então o instante poético...” (BACHELARD, 1985). Vivenciam-se, num único instante, os dois termos antitéticos. Quebra-se o conceito físico de causalidade temporal (eficiente, a desdobrar-se na vida e nas coisas), o qual pressupõe a ocorrência do precedente e o resultante, do anterior e do posterior – próprio da horizontalidade – e dá-se a reversibilidade do sentimento, pois nenhum dos termos é a causa do outro. Vertical, pois. Irrompe do texto, bruscamente, uma impressão diferente da esperada, em sua “exata desconexão”: eis a causalidade poética.
Detendo-se um pouco nessa questão da causalidade, convém diferenciar a noção de causalidade (ordem) no tempo objetivo da causalidade no tempo poético, subjetivo.Enquanto aquela se estabelece a partir do princípio de “anterioridade” (o que deixou marcas) e de “posteridade” (o que ainda não deixou marcas), sendo, pois, unidirecional (avançando numa só direção, uniforme, serial), esta, através da memória, exibe uma “ordem” de eventos “dinâmica, não uniforme”.
Na memória, segundo Meyerhoff (1976):

as coisas lembradas são fundidas e confundidas com as coisas temidas e com aquelas que se tem esperança de que aconteçam. Desejos e fantasias podem não só ser lembrados como fatos, como também os fatos lembrados são constantemente modificados, reinterpretados e revividos à luz das exigências presentes, temores passados e esperanças futuras.

E nessa linha de pensamento, Bachelard (1985) inclusive elabora a tese da localização prévia, segundo a qual os “acontecimentos ansiosamente esperados se fixam na memória”, adquirindo um sentido novo na vida do ser. “A espera fabrica localizações temporais para receber as recordações”. Assim: “só nos recordamos de algo, portanto, ao proceder a escolhas, ao decantar a vida turva, ao recortar fatos da corrente da vida para neles colocar razões” (BACHELARD, 1985).
Verifique-se, por exemplo, em Ar (DRUMMOND, 1992):

Nesta boca da noite,
cheira o tempo a alecrim.
Muito mais trescalava
o incorpóreo jardim.

Nesta cova da noite,
sabe o gesto de alfazema.
O que antes inebriava
era a rosa do poema.

Neste abismo da noite,
erra a sorte em lavanda.
Um perfume se amava,
colante, na varanda.

A narina presente
colhe o aroma passado.
Continuamente vibra
o tempo, embalsamado.

Nesse poema, o poeta valeu-se das experiências retidas pela memória e até mesmo “sentidas” no passado e as incorporou à realidade presente, pressupondo a perenidade do momento passado, quando afirma que o tempo continua a vibrar, “embalsamado”. O emprego de formas verbais no Presente do Indicativo (“cheira”, “sabe”, “erra”, “colhe”, sempre no 2º verso de cada estrofe), associadas aos pronomes demonstrativos com função temporal (“Nesta”, “Nesta”, “Neste”), indica o tempo “presente” da enunciação, mas recupera o passado, quer seja pela própria questão aspectual do verbo (a significar “fato habitual, costumeiro”, portanto repetitivo e constante), quer pelo emprego das formas verbais no Pretérito Imperfeito do Indicativo, nos versos 3 e 4 da primeira, segunda e terceira estrofes. Porém, na quarta e última estrofe, o verbo empregado no Presente (“vibra”), em conjunção com o advérbio “Continuamente”, mostram que a ação/sensação perdura, inacabada no hoje. Assim sendo, há um movimento do presente para o passado, na própria distribuição dos versos dentro do poema.
Eventos passados, presentes e futuros se fundem, dinamicamente, e se associam uns aos outros, em uma aparente “desordem” (se comparada à seqüência lógico-objetiva temporal): a chamada interpenetração dinâmica.
Em função dessa “desordem” (ainda que aparente), sugere-se, “erroneamente”, a ausência de um princípio de causalidade na memória; fato improcedente, pois a ordenação da memória difere dos eventos da natureza (cujo quadro de referência é histórico e objetivo), já que possui sua própria ordenação, seu próprio princípio causal: a ordem peculiar da vida interior do ser.
Não há, portanto, somente a seriação, a ordenação sucessiva de fatos, mas a associação e fusão de eventos e fatos presentes, passados e futuros. E tal associação deve ser significativa para a relação entre o tempo e o eu.
Mas, e a representação desse fenômeno na poesia lírica? Como ocorre a notação literária desse fenômeno? Através de uma “lógica de imagens”, de acordo com Meyerhoff (1976).
Interessante notar, também, a propriedade do título do poema (Ar), visto que sugere a “desmaterialidade” (“incorpóreo jardim”) de elementos desfeitos pela ação do tempo, os quais, no entanto, são “resgatados” pelo “ar”, através de uma “memória olfativa” (SANT’ANNA, 1992), que efetua a passagem do “cheiro significativo” do ontem para a percepção do mesmo no agora (concreto: “a narina presente”). Pelo “ar” da memória, os aromas reconstituem sensações/sentimentos outrora experimentados.
Imperioso, então, o emprego de símbolos de “desordem” que rompam a ordem e a progressão estritamente “lógicas” dos eventos, às quais o homem se acostumou pelo senso comum ou pela ciência. Na verdade, o mundo interior da experiência e da memória exibe uma estrutura que é causalmente determinada mais, segundo Meyerhoff (1976), por “associações significativas” para o ser, do que por conexões causais objetivas no mundo exterior. Essa estrutura exige um “simbolismo ou imagística”, a fim de que se expressem eventos na experiência humana, carregados de valores ou desvalores.
Por exemplo, nesse poema drummondiano, a própria simbologia da palavra “noite”, enquanto oposição a “luz” ou momento em que a “luz – solar, no caso - se apaga”: apaga-se a visão do concreto, do materialmente presente; e, associada à leitura metafórica de “boca, cova, abismo” como gradativos “vãos” ou “entradas”, permite que o eu-lírico alcance o passado ou que este lhe chegue até o hoje.
Eis por que “paira no ar” do poema supracitado uma série de elementos que remetem à “densidade” subjetiva do eu-lírico; à medida que a “noite” caminha, adensando-se (“boca da noite”, “cova da noite”, “abismo da noite”) no hoje, retornam os símbolos e imagens do ontem, redivivos. De tão significativos para o ser, “embalsamam-se”, paralisando o tempo e fazendo-o vibrar. A ponto de possibilitar que a “narina presente” colha “o aroma passado”. Passado somente em sua ocorrência; mas pleno de significação e ainda presente na alma do poeta.

3. Referências bibliográficas
 AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Edameris, 1964.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1992.
BACHELARD, Gaston. A dialética da duração. São Paulo: Ática, 1988.
______. O direito de sonhar. São Paulo: Difel, 1985.
CASTAGNINO, Raúl H. Tempo e expressão literária. Tradução de Luiz Aparecido Caruso. São Paulo: Mestre Jou, 1970.
MEYERHOFF, Hans. O tempo na literatura. São Paulo: Mc-Graw Hill do Brasil, 1976.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa: tomo I. São Paulo: Papirus, 1995.
______. Tempo e narrativa: tomo II. São Paulo: Papirus, 1995.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Drummond: o gauche no tempo.  Rio de Janeiro: Record, 1992.

Fonte:
Literatura : caminhos e descaminhos em perspectiva / organizadores Enivalda Nunes Freitas e Souza, Eduardo José Tollendal, Luiz Carlos Travaglia. - Uberlândia, EDUFU, 2006. CD-Rom
______________
*Cláudia Ferreira de Paula Borges possui graduação em Licenciatura Em Letras Português Inglês pela Universidade de Uberaba (1988) , especialização em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade de Franca (2000) e mestrado em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2005) . Atualmente é professor titular da Escola Viva e Professor - Ensino Médio do Centro Educacional de Orlândia. Tem experiência na área de Educação , com ênfase em Literatura. Atuando principalmente nos seguintes temas: Tempo, Poesia,

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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