Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 370)



Uma Trova de Curitiba/PR
Paulo Walbach Prestes

Que saudade dos confetes,
serpentinas e pierrôs,
colombinas, marionetes,
das vovós e dos vovôs.

Uma Trova de São Paulo/SP
Roberto Tchepelentyky

A vida é “jangada ao vento”...
  Iço a vela, aperto o laço:
  No mar do meu pensamento,
  o vento... sou eu que faço!

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

CANÇÃO BÊBEDA

Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.

Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.

E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.

Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.

Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,

Bêbedo, bêbedo, bêbedo,

Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,

Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.

E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.


Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ
Elisabeth Souza Cruz

"O salvamento chegou!"
apita o guarda ligeiro...
E a donzela suspirou     
pelo "corpo" do bombeiro!

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
José Tavares de Lima

Pode o amor ser complicado...
Mas, seja lá como for,
adoro ser enredado
nos labirintos do amor...

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

O BECO

No beco escuro e noturno
Vem um gato rente ao muro.
Os passos são de gatuno.
Os olhos são de assassino.

Esgueirando-se, soturno,
Ele me fita no escuro.
Seus passos são de gatuno.
Seus olhos são de assassino.

Afasta-se, taciturno.
Espanta-o meu vulto obscuro.
Meus passos são de gatuno.
Meus olhos são de assassino.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Quem não nasceu pra sofrer
desafiar pode os fados,  
que os próprios deuses respeitam
os entes afortunados.

Uma Trova Hispânica da Argentina
José Héctor Rodríguez

La familia es la mejor
escuela de sentimientos,
la que brinda más amor
y supera desalientos.

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

HOMENAGEM A CAMÕES

Através de imitado sentimento,
Ao ler-te, quanta vez tenho sentido
Como é muito maior o amor vivido
Em ato não, mas só em pensamento.

Então invento o que amo e amo o que invento
Em coisas sem razão tão comovido
Que o ar me falta e o respiro comprimido
Não sei se dá, não sei se tira o alento.

Sabor de amor é esse alto respirar,
Essa angústia em suspiros mal dispersos.
Em amor, que importância tem o ar,

O ar, cheio de fantásticas ações!
Assim, aquele que imitar teus versos,
Primeiro imite o teu amor, Camões.

Trovadores que deixaram Saudades
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ (1924 – 2007)

A glória dos homens brilha
com fulgor de eternidade,
toda vez que uma Bastilha
tomba aos pés da Liberdade!

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Eliana Ruiz Jimenez

Acorda cedo o labor
da mãe que põe o café
na mesa do puro amor
e enlaça a família em fé.

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

O TEMPLO

O azul sem fim, a suave luz escura
Onde a vista se extingue, a curva porta
Do templo onde ressoa a mais absorta
Das músicas, a música da altura.

O azul que ao infinito nos transporta.
O céu angelical é uma pintura.
O azul que inspira uma existência pura,
Azul de luz que a sombra não recorta,

Que tem do sonho a diáfana textura,
Do incenso a transcendência espiritual.
Céu onde o olhar humano ainda procura

O antigo paraíso na lonjura.
Êxtase do silêncio vertical
No espaço, imaginária arquitetura.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
José Moreira Monteiro

O meu cabelo grisalho
que a marca do tempo fez
foram anos de trabalho
perseverança e honradez.

Um Haicai de Magé/RJ
Karymi Vianna Costa
13 anos

Estrela de inverno.
Distante sobre o céu
Sozinha na noite.



Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

CÉU E SONO

Antes que me desperte a madrugada
E eu sinta o vago espanto de quem nasce,
E a claridade me deslumbre a face,
A muda face a sonhos habituada,

Deixo-me estar, sombra desacordada,
Embora um torvo espírito me abrace
E por dentro de mim, noturno, passe
O sono, a obscura percepção do nada

Que tento decifrar com o olhar fito
Na negra página em que nada é escrito.
Divago, e os meus sentidos ultrapasso.

Se não houvesse o céu, não haveria
Sonho, nem sono sem a terra fria.
Tenho vontade de dormir no espaço...

Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Ari Santos de Campos

Vou partir mais uma vez:
não parei, desde menino,
dessa vida sou freguês,
mala e cuia é meu destino.

Uma Haicai de São José dos Pinhais/PR
Leopoldo Scherner

Melhor, minha dor.
Que não beijo, que não cheiro...
Inúteis as flores

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

AO TEMPO

Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Cláudio Derli Silveira

Eis a vida! Eis os caminhos...
Na missão de precursores,
o sábio evita os espinhos
e o tolo... pisa nas flores!...

Uma Glosa de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

Glosando Elisabeth Souza Cruz (Nova Friburgo/RJ)
CARNAVAL FANTASIA

Mote:
Meu carnaval mais risonho,
foi aquele em que eu vesti
as fantasias de um sonho
que até hoje eu não vivi…

Glosa:
Meu carnaval mais risonho,
cheio de felicidade,
eu lembro hoje entressonho,
numa forma de saudade.

Foi um tempo de alegria,
foi aquele em que eu vesti
a minha alma de poesia…
Disso, nunca me esqueci!

A todos, hoje eu proponho
viver muitas fantasias…
as fantasias de um sonho
não deixam as mãos vazias…

Quisera realizar
tudo aquilo que senti
e a grande emoção de amar
que até hoje eu não vivi…

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

O ESPECTRO

O canto não imita a realidade
Como as palavras. Fica sobrevoando,
E da boca feroz se libertando,
Como o vôo de um pássaro, se evade.

Desaparece sem deixar saudade,
Perde-se na existência, como quando
A água de uma carranca borbotando
Se irisa em trêmula diafaneidade.

Não quero o sentimento que da treva
Do ser traz qualquer coisa de aflitivo,
Que quer ser voz e a voz profunda eleva,

Despertando um espírito latente
Que estilhaça os cristais num vingativo
Riso de espectro lívido e estridente.

Um Haicai de Magé/RJ
Luiz Felipe Pereira da Silva
14 anos

Trovão de inverno.
Em noite muito escura
Parece gemer.

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Larissa Loretti

É disso que só preciso,
é meu desejo profundo:
o afago do teu sorriso
acarinhando meu mundo!

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

O AMOR DE AGORA

O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.

Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.

Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.

E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.

Recordando Velhas Canções
Mexericos da Candinha
(jovem guarda, 1965)

Roberto Carlos e Erasmo Carlos

  a Candinha vive a falar
  de mim em tudo
  diz que eu sou louco
  esquisito e cabeludo
  que eu não ligo pra nada   
  que eu dirijo em disparada

  acho que a Candinha  
  gosta mesmo é de falar
ela diz que eu sou maluco  
e que o hospício é o meu lugar

  mas a Candinha quer falar
  a Candinha quer fazer
da minha vida um inferno
  já está falando  
do modelo do meu terno
  e que a minha calça é justa   
que de ver ela se assusta
  e também a bota   
que ela acha extravagante
ela diz que eu falo gíria  
e que é preciso maneirar
  mas a Candinha quer falar

  a Candinha gosta   
de falar de toda gente
mas as garotas gostam   
de me ver bem diferente
  a Candinha fala    
mas no fundo me quer bem
  e eu não vou ligar
pra mexericos de ninguém

  mas a Candinha agora
está falando até demais
  porém ela no fundo  
sabe que eu sou bom rapaz
  e sabe bem que essa onda   
é uma coisa natural
  e eu digo que viver assim é que é legal

sei que um dia a Candinha  
vai comigo concordar
mas sei que ainda vai falar
  mas sei que ainda vai falar
  mas a Candinha quer falar

Uma Trova de Niterói/RJ
Adilson  Maia

Anoitece ... e sem alarde
  o sol que é dono da rua,
  atrasa o passo da tarde
  e afaga o rosto da lua!

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

DIVAGAÇÃO

Penso, para esquecer... Apenas vivo
Aquilo que me passa pela mente
E se vai desdobrando interiormente
Em forma de soneto pensativo.

Invento — não existe — algum motivo.
Como quem escrevendo à amada ausente
Imagina maior o amor que sente,
— Oh, tudo o que há no amor de descritivo —

Como o que ama de longe, assim pareço.
E ao me lembrar de tudo quanto esqueço,
(O vôo da ave é uma existência à-toa?)

Escrevo a minha vida que se esfuma
Na distância... — Ah, bem sei que habito numa
Bola que rola e piso um chão que voa...

Um Haicai de Niterói/RJ
Luís Antônio Pimentel

Pesado de cana
rangem os carros de boi
moendo as estradas...

Uma Trova de Pau de Ferros/RN
Manoel Cavalcante de Castro

Fracassei ...! E a gente aprende
que por um mar traiçoeiro,
o destino não depende
só das mãos do jangadeiro...

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

BILHETE DE SUICIDA

Sentir aceso dentro da cabeça
Um pensamento quase que divino,
Como raio de luz frágil e fino
Que num cárcere escuro resplandeça.

Seguir-lhe o rastro branco em noite espessa,
Ter de uma inútil glória o vão destino,
Ser de si mesmo vítima e assassino,
Tentar o máximo, ainda que enlouqueça.

Provar palavras de sabor impuro
Que a boca morde e cospe porque é suja
A água que bebe e o pão que come é duro,

E deixar sobre a página da vida
Um verso — essa terrível garatuja
Que parece um bilhete de suicida.

Hinos de Cidades Brasileiras
São Bento/MA

ão Bento meu doce berço de amor
São Bento minha vida te darei
No meu peito estarás onde for
Longe de ti saudades moverei

Tuas aves povoam minha alma
A esperança é o teu verde a tua luz
Tua terra é teu pão que me alimenta
O teu campo com flores me seduz

O saber é o ouro do teu povo
E a glória o futuro da cidade
Construíste com trabalho tua honra
Ilumina-te o sol da "Liberdade".

Uma Trova de Maringá/PR
Alberto Paco

Lembranças da minha infância,
lembranças da mocidade.
Hoje só resta a distância
ligada pela saudade.

Um Poema do Rio de Janeiro
Dante Milano
Rio de Janeiro/RJ (1899 -1991) Petrópolis/RJ

COISAS VERDADEIRAS

Na treva mais gelada, na brancura
Mais cega e morta, a vida ainda transluz.
Até de dentro de uma sepultura
Brota um soluço trêmulo de luz,

A luz que sua, a luz que desfigura
As pétalas pendidas nos pauis,
A espuma nos penhascos, fria e pura,
As chamas em seus ápices azuis.

Desalentos, angústias e canseiras
Tornam maior, mais tenebroso o olhar
Que lembra o olhar dos mortos: só olheiras.

São existências que se dão inteiras
E sofrem, como o vento, como o mar,
Como todas as coisas verdadeiras.

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Dante Milano nasceu no Rio de Janeiro/RJ em 16 de junho de 1899, filho do maestro Nicolino Milano e de Corina Milano, e faleceu em Petrópolis/RJ, a 15 de abril de 1991.
Embora Milano não tenha tido educação formal, não pode cursar o Ginásio (equivalente hoje ao “segundo grau”).
Aos 14 anos foi trabalhar como assistente de revisão no Jornal da Manhã e no Jornal do Comércio.
Aos 17 consegue emprego de revisor na Gazeta de Notícias, e conhece Pinto de Souza que lhe apresenta à literatura portuguesa, em especial à poesia de Camões, a quem ele homenageia em sua obra.
O seu irmão Atílio Milano foi também poeta. Trabalhou como conferente de textos na Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro) a partir de 1913. Foi também funcionário do Juizado de Menores, no Ministério da Justiça.
Publicou seu primeiro poema, "Lágrima Negra", em 1920, na revista carioca Selecta. Na época trabalhava como empregado na contabilidade da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro.
Nos anos de 1930 foi colaborador do suplemento "Autores e Livros", de "A Manhã" e do "Boletim de Ariel".
Em 1935 organizou a "Antologia dos Poetas Modernos", primeira antologia de poetas dessa fase.
Casa-se com Alda em 1947.
Seu primeiro livro, "Poesias", foi publicado em 1948, e recebeu o Prêmio Felipe d'Oliveira de melhor livro de poesia do ano.
Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, lançando, em 1953, "Três Cantos do Inferno", de Dante Alighieri.
Em 1979 foi publicado seu livro "Poesia e Prosa".
Publicou em 1988 "Poemas Traduzidos de Baudelaire e Mallarmé". No mesmo ano recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras.
Milano é considerado um dos poetas representativos da terceira geração do Modernismo, mas como disse o crítico Davi Arrigucci Júnior, “sua poesia é imune a cacoetes modernistas”. Segundo o poeta Ivan Junqueira que organizou uma coletânea de seus melhores poemas, “Dante Milano foi um marginal das correntes predominantes no seu tempo e embora fosse egresso do Modernismo de 1922, ele era na verdade anterior ao movimento modernista, e embora o apoiasse à distância, jamais se filiou ao movimento.
É conhecida convivência com Aníbal Machado, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Celso Antonio, Di Cavalcanti, Jaime Ovalle, Manuel Bandeira, Odilo Costa Filho, Olegário Mariano, Paulo Mendes Campos, Portinari, Ribeiro Couto, Sérgio Buarque e Villa-Lobos.
"Em 1948, depois do surgimento da 'Geração de 45', o ambiente era favorável à aceitação da poesia comedida, intemporal, ontológica de Dante Milano, e por isso mesmo o livro encontrou repercussão crítica e acolhimento entre todas as gerações modernistas, das mais velhas às mais novas. Não demonstrando influências em seus versos, a não ser eventual comunidade de pensamento ou situação com Manuel Bandeira; revelando por vezes senso plástico, como escultor que é; autor de poesia tecnicamente bem acabada e como que apta a resistir às investidas do tempo; sensual, de um sensualismo cinza e até meio cubista, às vezes; pessimista ou desencantado, Dante Milano, apesar da estréia tardia, é um dos poetas representativos de sua geração."
Ramos, Péricles Eugênio da Silva [1967]. Dante Milano. In: ___. Poesia moderna: antologia. p. 374.

    "Trata-se essencialmente de um poeta antilírico. A palavra lirismo é equívoca e exige uma conceituação pessoal. André Gide afirmava que sem religião não poderia haver lirismo. Preferia eu dizer que sem o jogo-do-faz-de-conta, sem o sentimento ilusório de que a vida tem um sentido, não pode haver lirismo. Dante Milano é o poeta antipoético, o poeta do desespero. Também este, o desespero, pode ser lírico, mas não o desespero seco, sem lágrimas como um soluço. Em todos os poemas deste livro, encontramos o mesmo timbre árido: em vez de sonho, o pesadelo; em vez da fantasia, a angústia; em vez de amor, um arremedo de posse bruta. O próprio poeta se espantou há muitos anos, quando lhe disse, com admiração, que a sua poesia me parecia sinistra. Releio agora os poemas, procuro cuidadosamente uma fresta lírica, um respiradouro, e chego à antiga conclusão: esta poesia é sinistra, nua, desértica."
Campos, Paulo Mendes [29 jan. 1972]. O antilirismo de um grande poeta brasileiro. In: Milano, Dante. Poesia e prosa. p.345-346.
Considerado por Drummond "um poeta de extraordinária qualidade", Dante Milano é quase clandestino na literatura brasileira. Poucos o conhecem, pouco se escreve sobre ele. Mas, de certo modo, ele quis assim. Avesso ao "rumor de falsa glória", ele afirma que "só o silêncio é musical".
Embora frequentasse as rodas literárias do Rio de Janeiro, onde nasceu e viveu, Dante Milano era completamente arredio à fama. Publicou seu primeiro e único livro, Poesias, aos 49 anos e, mesmo com a acolhida entusiástica da crítica, manteve-se distante. Convidado a candidatar-se à Academia Brasileira de Letras, jamais aceitou.
Na poesia de Milano não há expansões de lirismo. Há emoção, mas o sentimento parece refreado pela rédea do pensamento lógico. Devido, em parte, a essa contenção, os poemas dele parecem exalar sempre um ar sombrio, taciturno — aliás, duas palavras de seu agrado.

Fontes:
Arrigucci Jr., Davi [1991]. Dante Milano: a extinta música. Folha de S. Paulo, p. 6, caderno 6.
Eli Boscato. Dante Milano e o Lirismo sombrio de sua poesia. in http://lounge.obviousmag.org/
  
Folclore Brasileiro
Negrinho do Pastoreio



Chico Ribeiro
Negrinho do Pastoreio

A mão da noite fechara
a porta grande do dia,
era noite e dentro dela
a tempestade rugia...

O vento! Como ventava!
A chuva! Como chovia!
O trovão de boca aberta!
O raio, de quando em quando,
Soltando-se do trovão,
corria dentro da noite,
cortando em riscos de fogo
o seio da escuridão!

Ia fundo a tempestade:
O vento ventando mais,
a chuva chovendo mais.
E o Negrinho, como a ronda,
dentro da noite perdido!...

A tempestade crescendo,
cada vez roncando mais!...

E o Negrinho acocorado
entre as macegas, ouvindo,
ouvindo, vendo e sentindo,
o bate-bate da chuva,
o martelar do trovão.
E o raio...com que violência
cortava o raio a amplidão!...

E o Negrinho ouvindo tudo!
Tudo lhe vem aos ouvidos,
enche-lhe a vista, os sentidos,
menos o passo da ronda,
que lhe confiara o -Sinhô-,
a ronda que a tempestade
de vento e chuva espalhou...

A tempestade crescendo,
cada vez roncando mais!...

Depois, depois ... oh! Senhor!
Depois que tudo acabou,
que a chuva não mais choveu,
que o vento não mais ventou
e o raio se terminou
porque o trovão se calou.

E o Negrinho também!
A não ser pelos milagres,
pelo bem que ele nos presta
quando se perde um tareco,
ninguém mais dentro do mundo
no vão dos dias, das noites,
acompanhado ou sozinho,
conseguiu botar os olhos,
PODE ENCONTRAR O NEGRINHO!
–––––––––––

Augusto Meyer
Canção do negrinho do pastoreio

Negrinho do Pastoreiro,
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.

A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.

Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.

Negrinho do Pastoreiro
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.

Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite. . .
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.

Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.

Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.

Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela d'alva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)

Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.

Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.



A LENDA


Era o tempo da escravidão e um menino negrinho, pretinho que nem carvão, humilde e raquítico era escravo de um fazendeiro muito rico, mas por demais avarento. Se alguém necessitasse de um favor, não se podia contar com este homem. Não dava um níquel a ninguém e seu coração era a morada de uma pedra, não nutria qualquer sentimento por ninguém, a não ser por seu filho, um menino tão malvado quanto seu pai, pois afinal, a fruta nunca cai muito longe da árvore. Este dois eram extremamente perversos e maltratavam o menino-escravo desde do raiar do dia, sem lhe dar trégua. Este jovenzinho não tinha nome, porque ninguém se deu sequer o trabalho de pensar algum para ele, assim respondia pelo apelido de “negrinho”.
Seus afazeres não eram condizentes com seu porte físico, não parava o dia inteiro. O Sol nascia e lá já estava ele ocupado com seus afazeres e mesmo ao se por, ainda se encontrava o negrinho trabalhando. Sua principal ocupação era pastorear. Depois de encerrar seu laborioso dia, juntava os trapos que lhe serviam de cama e recebia um mísero prato de comida, que não eram suficientes para repor as energias perdidas pelo sacrificado trabalho.
Mesmo sendo tão útil, considerado mestre do laço e o melhor peão-cavaleiro de toda a região, o menino era inúmeras vezes castigado sem piedade.
Certa vez, o estanceiro atou uma carreira com um vizinho que gabava-se de possuir um cavalo mais veloz que seu baio. Foi marcada a data da corrida e o negrinho ficou encarregado de treinar e montar o famoso baio, pois sabia seu patrão, não haver ninguém mais capaz que ele para tal tarefa.
Chegando o grande dia, todos os habitantes da cidade, vestindo suas roupas domingueiras, se alojaram na cancha da carreira. Palpites discutidos, apostas feitas, inicia-se a corrida.
Os dois cavalos saem emparelhados. Negrinho começa a suar frio. pois sabe o que lhe espera se não ganhar. Mas, aos poucos toma a dianteira e quase não há dúvida de que seria vencedor. Mas, eis que o inesperado acontece, algo assusta o cavalo, que para, empina e quase derruba Negrinho. Foi tempo suficiente para que seu adversário o ultrapasse e ganhe a corrida.
E agora? O outro cavalo venceu. Negrinho tremia feito “vara verde” ao ver a expressão de ódio nos olhos de seu patrão. Mas o fazendeiro, sem saída, deve cobrir as apostas e põe a mão no lugar que lhe mais caro: o bolso.
Ao retornarem à fazenda, o Negrinho tem pressa para chegar a estrebaria.
- Aonde pensa que vai? pergunta-lhe o patrão.
- Guardar o cavalo sinhô! Balbuciou bem baixinho.
- Nada feito! Você deverá passar trinta dias e trinta noites com ele no pasto e cuidará também de mais 30 cavalos. Será seu castigo pelo meu prejuízo. Mas, ainda tem mais, passe aqui que vou lhe aplicar o devido corretivo.
O homem apanhou seu chicote e foi em direção ao menino:
- Trinta quadras tinha a cancha da corrida, trinta chibatadas vais levar no lombo e depois trata de pastorear a minha tropilha.
Lá vai o pequeno escravo, doído até a alma levando o baio e os outros cavalos à caminho do pastoreio. Passou dia, passou noite, choveu, ventou e o sol torrou-lhe as feridas do corpo e do coração. Nem tinha mais lágrima para chorar e então resolveu rezar para a Nossa Senhora, pois como não lhe foi dado nome, dizia-se afilhado da Virgem. E, foi a “santa solução”, pois Negrinho aquietou-se e então cansado de carregar sua cruz tão pesada, adormeceu.
As estrelas subiram aos céus e a lua já tinha andado metade de seu caminho, quando algumas corujas curiosas resolveram chegar mais perto, pairando no ar para observar o menino. O farfalhar de suas asas assustou o baio, que soltou-se e fugiu, sendo acompanhado pelos outros cavalos. Negrinho acordou assustado, mas não podia fazer mais nada, pois ainda era noite e a cerração como um lençol branco cobria tudo. E, assim, o negrinho-escravo sentou-se e chorou…
O filho do fazendeiro, que andava pelas bandas, presenciou tudo e apressou-se em contar a novidade ao seu pai. O homem mandou dois escravos buscá-lo.
O menino até tentou explicar o acontecido para o seu senhor, mas de nada adiantou. Foi amarrado no tronco e novamente é açoitado pelo patrão, que depois ordenou que ele fosse buscar os cavalos. Ai dele que não os encontrasse!
Assim, Negrinho teve que retornar ao local do pastoreio e para ficar mais fácil sua procura, acendeu um toco de vela. A cada pingo dela, deitado sobre o chão, uma luz brilhante nascia em seu lugar, até que todo lugar ficou tão claro quanto o dia e lhe foi permitido, desta forma, achar a tropilha. Amarrou o baio e gemendo de dor, jogou-se ao solo desfalecido.
Danado como ele só e, não satisfeito com já fizera ao escravo, o filho do fazendeiro, aproveitou a oportunidade de praticar mais uma maldade dispersa os cavalos. Feito isso, correu novamente até seu pai e contou-lhe que Negrinho havia encontrado os cavalos e os deixara fugir de propósito. A história se repete e dois escravos vão buscá-lo, só que desta vez seu patrão está decidido em dar cabo dele. Amarrou-o pelos pulsos e surrou-o como nunca. O chicote subia e descia, dilacerando a carne e picoteando-a como guisado. Negrinho não agüentou tanta dor e desmaiou. Achando que o havia matado, seu senhor não sabia que destino dar ao corpo. Enterrá-lo lhe daria muito trabalho e avistando um enorme formigueiro jogou-o lá. As formigas acabariam com ele em pouco tempo, pensou.
No dia seguinte, o cruel fazendeiro, curioso para ver de que jeito estaria o corpo do menino, dirigiu-se até o formigueiro. Qual sua surpresa, quando o viu em pé, sorrindo e rodeado pelos cavalos e o baio perdido. O Negrinho montou-o e partiu a galope, acompanhado pelos trinta cavalos.
O milagre tomou o rumo dos ventos e alcançou o povoado que alegrou-se com a notícia. Desde aquele dia, muitos foram os relatos de quem viu o Negrinho passeando pelos pampas, montado em seu baio e sumindo em seguida por entre nuvens douradas. Ele anda sempre a procura das coisas perdidas e quem necessitar de seu ajutório, é só acender uma vela entre as ramas de uma árvore e dizer:

Foi aqui que eu perdi
Mas Negrinho vai me ajudar
Se ele não achar
Ninguém mais conseguirá!

Esta é a mais linda e popular lenda fraternal gaúcha. Ela representa um grito de repúdio aos maus-tratos com o ser humano. Reflete a consciência de um povo (gaúchos) que deliberadamente condenou a agressão e a brutalidade da escravidão. É uma lenda sem dono, sem cara, sem raça é a lenda de todos nós, que lutamos dia-a-dia nesta terra de excluídos.
O Negrinho do Pastoreio é a formatação de um arquétipo do inconsciente coletivo e podemos vê-lo como uma manifestação de uma consciência coletiva repleta de ideologias que são transmitidas pela cultura e linguagem que nós utilizamos quando estamos sujeitos a algo.
A escravidão ainda persiste, embora incógnita e camuflada, mostra sua terrível face nas sub-habitações circunvizinhas às metrópoles. Esta questão social, tem a cada dia afastado a classe média de uma consciência do real problema e que por medo ou omissão, mantêm-se afastada e enclausurada em suas fortalezas gradeadas.
A lenda do Negrinho do Pastoreio possui versões no Uruguai e na Argentina, lugares onde praticamente a escravidão inexistiu, portanto, aqui configura-se uma verdadeira “exportação” da lenda gaúcha. A sua versão mais antiga é a de propriedade de Apolinário Porto Alegre, “O Crioulo do Pastoreio” de 1875, quando ainda existia a escravidão no país. João Simões Lopes Neto, publicou em 1913 as “Lendas do Sul”, onde concretizou algumas alterações, introduzindo o baio, as corujas e a Nossa Senhora.
No Rio Grande do Sul, o Negrinho é símbolo da Caixa Econômica Estadual. É encontrada outra homenagem à ele na sede do Governo do Estado, no Salão Nobre que leva o seu nome. Lá encontramos afrescos do famoso pintor Aldo Locatelli que reconta sua história na versão de Lopes Neto.
Inúmeros poetas e trovadores, já cantaram e escreveram sobre esta lenda, sendo que o mais famoso dos poemas pertence à Barbosa Lessa (abaixo)

Barbosa Lessa
Negrinho do Pastoreio

Negrinho do Pastoreio
Acendo essa vela pra ti
E peço que me devolvas
A querência que eu perdi

Negrinho do Pastoreio
Traz a mim o meu rincão
Eu te acendo essa velinha
Nela está o meu coração

Quero rever o meu pago
Coloreado de pitanga
Quero ver a gauchinha
A brincar na água da sanga

E a trotear pelas coxilhas
Respirando a liberdade
Que eu perdi naquele dia
Que me embretei na cidade.

Fonte da lenda: http://www.rosanevolpatto.trd.br/, 2008.



Silmara Santade Masiero
Canto V de Os Lusíadas – Simbologia do episódio do Gigante Adamastor


         Vamos nos concentrar apenas no episódio do “Gigante Adamastor”, presente no Canto V. Dele trataremos da origem do nome, de sua simbologia e da estrutura dessa narrativa dentro do Canto V.
         A procedência do mito do Gigante Adamastor se perde nas trevas da própria história. Na Odisséia de Homero, o mito aparece pela primeira vez na figura do gigante Polifemo. A transformação de um titã em promontório tem origem na mitologia grega: Atlas, gigante filho de Júpiter e Clímene, encarregado de sustentar o céu sobre os ombros, foi um dia transformado em monte ao ver a cabeça da Medusa.
         Na literatura latina, aparece o nome Adamastus na Eneida de Virgílio. Este nome ocorre na Eneida em circunstâncias que têm alguma coisa em comum com o aparecimento do Adamastor aos portugueses.
         O ciclope da Eneida é um “monstrum horrendum, informe, ingens” e o Adamastor é um “monstro horrendo” (Lus. V, 49, 1) sendo os adjetivos “informe, ingens” transferidos para “disforme e grandíssima estatura” ( Lus. V, 39, 3 ).
         Sidônio Apolinar ( século V, d. c. ) foi o primeiro a dar o nome de  Adamastor a um gigante. Este nome aparecia nos melhores dicionários existentes em Portugal, na época de Camões.
         Provavelmente, Camões se inspirou na personagem de Virgílio para construir e denominar a sua personagem, e também, consultou os bons dicionários da época.
          No plano histórico, o gigante se identifica com o Cabo das Tormentas (ou Cabo da Boa Esperança) a passagem pelo Sul da África, que simboliza a passagem do Ocidente para o Oriente. Neste local, várias embarcações se perderam em busca de novos caminhos e de novas terras.
         Camões inseriu este episódio bem no meio da epopéia, para insinuar que o Cabo da Boa Esperança marcava a metade da viagem e o seu ponto crucial.
         No plano mitológico, o gigante Adamastor simboliza um enorme rochedo que surpreendeu Vasco da Gama no meio de sua viagem. Adamastor era um titã que foi seduzido pela ninfa Tétis e transformado num monstro de pedra pelos deuses.
         A ninfa Tétis simbolizaria, na sua pequenez, a brevidade geográfica de Portugal, enquanto Adamastor seria a imagem da vastidão marítima, vencida pela perseverança e astúcia dos portugueses.
         O episódio simboliza ainda, a superação, pelos portugueses, do medo do mar tenebroso e das superstições medievais. É também, fruto da experiência vivida pelo poeta: tanto no aspecto náutico quanto amoroso ( quando humaniza o gigante, faz dele mais uma vítima do amor ).
         Há semelhanças entre Adamastor e o povo português: ambos são capitães do mar, defendem seu solo com bravura, porém são sensíveis à beleza feminina, amam aos extremos e satisfazem-se com os enganos de amor.
         Quanto à estrutura dessa narrativa dentro do Canto V, temos que considerar o seguinte: a narrativa tem vinte e três estrofes, estendendo-se da estrofe 37 à 60.
         Há uma pequena introdução quando se dá a preparação do ambiente para o aparecimento do gigante. Percebe-se uma mudança brusca de cenário, no momento em que surge o gigante. Assim, a nuvem que os ares escurece, causa espanto e terror aos navegantes.
         Entre as estrofes 39 e 48, temos uma primeira imagem do gigante, que podemos chamar de Adamastor 1.
         Num primeiro momento, há a descrição do gigante, o seu retrato físico e os traços morais. Esta descrição se dá nas estrofes 39 e 40.Adamastor tem grandíssima estatura, rosto carregado, barba esquálida, postura medonha e má, cor terrena e pálida, cabelos crespos e cheios de terra, boca negra, dentes amarelos. Era tão grande que foi comparado com o Colosso de Rodes (Est. 40).
         Em seguida, há a fala do gigante, quando faz profecias terríveis entre as estrofes 41 a 48.O gigante faz ameaças violentas aos navegantes. Promete acontecimentos terríveis naquele local: “naufrágios, perdições de toda sorte / que o menor mal de todos seja a morte” .Promete vingança a quem o descobriu, Bartolomeu Dias, que aí acaba morrendo aproximadamente em 1500 ( Est. 44 – v. 2 ).
         Promete ainda a  morte ao “primeiro ilustre que a ventura / com fama alta dizer tocar os céus”: Francisco de Almeida, 1º vice-rei da Índia que aí morre também ( Est. 45 – v. 1 ).
         Profetiza o naufrágio e morte da família Sepúlveda ( Est. 46, 47, 48 ): Manoel de Souza Sepúlveda, a esposa Leonor e os filhos naufragam e morrem de fome.
         Todas as profecias anunciadas no poema pelo gigante Adamastor, já eram fatos ocorridos na história trágico-marítima de Portugal, pois Os Lusíadas foi publicado em 1572. Soam mesmo como vaticínios que a história se encarregou de cumprir.
         É na estrofe 49, bem no meio da narrativa, que vamos perceber uma espécie de transição, quando se anuncia um novo enfoque do que é narrado.
         O gigante não é uma personagem inteiriça, sem contrastes. Na primeira parte ele mostra-se rancoroso, sedento de vingança, e na segunda parte ele se humanizará, irá  tornar-se sensível e chegará a chorar.
         A articulação entre as duas partes se dá quando Vasco da Gama interrompe as profecias ameaçadoras do gigante para perguntar-lhe: “Quem és tu ?”
         Adamastor conta a Vasco da Gama que era um titã, filho da terra, e que como seus irmãos, revoltou-se contra Júpiter. Mas diferentemente deles, seu ato de rebeldia foi buscar a armada de Netuno, pois ele era “capitão do mar” . Sua infelicidade  foi apaixonar-se  pela ninfa Tétis,  esposa de Peleu,e filha de Dóris e Nereu. Foi seduzido e repudiado por ela, tentou tomá-la à força, por isso foi punido pelos deuses e transformado num monstro de pedra, o Cabo das Tormentas.
         Esta última parte do episódio é narrado com muito lirismo, como acontece em outros trechos da epopéia, principalmente quando Camões aborda o caso amoroso de D. Pedro I e D. Inês de Castro. Não raro, o leitor se emociona com a imensa força do gigante se abatendo frente a ironia e a impassividade da pequena Tétis, uma síntese de malícia e sensualidade.
         Logo em seguida, há o epílogo, com o desaparecimento do gigante, que sai de cena da mesma forma com que surgiu, de maneira súbita, com mudança brusca do cenário. Novamente se ouvem as ondas batendo nos rochedos enquanto o ar escurece.
         Trata-se de um episódio riquíssimo e que já mereceu estudos profundos de vários teóricos da literatura.
         O nosso intuito , como dissemos, foi o de apenas reunir em poucas páginas, algumas referências de natureza didática, que pode facilitar a leitura do texto, tornando-o mais concreto a olhos desatentos.

Estrofes 37-38: introdução (2)
Estrofes 39-48: Adamastor 1 (10)
Estrofe 49: transição (1)
Estrofes 50-59: Adamastor 2 (10)
Estrofe 60: epílogo (1)

         Como se vê, há uma distribuição muito equilibrada das partes: das vinte e quatro estrofes, quatro se destinam à introdução, transição e epílogo; as vinte restantes, divididas ao meio, apresentam o herói da seqüência. Tanto Vasco da Gama como o Adamastor aparecem como narradores e como personagens.
         No plano histórico, simboliza a superação pelos portugueses do medo do “Mar Tenebroso”, das superstições medievais que povoavam o Atlântico e o Índico de monstros e abismos. Adamastor é uma visão, um espectro, uma alucinação que existe só nas crendices dos portugueses. É contra seus próprios medos que os navegadores triunfam.
         No plano lírico é um dos pontos altos do poema, retomando dois temas constantes da lírica camoniana: o do amor impossível e o do amante rejeitado.
         Adamastor, um dos gigantes filhos da Terra, apaixonou-se pela nereida Tétis. Não correspondido, tenta tomá-la à força, provocando a cólera de Júpiter, que o transforma no Cabo das Tormentas, personificado numa figura monstruosa, lançada nos confins do Atlântico.
         Este episódio é importante, pois nele se concentram as grandes linhas da epopéia:

1. O real maravilhoso (dificuldade na passagem do cabo).
2. A existência de profecias (história de Portugal).
3. Lirismo (história de amor, que irá ligar-se mais tarde, à narração maravilhoso da Ilha dos Amores);
4. É também um episódio trágico, de amor e morte;
5. É um episódio épico, em que se consolida a vitória do homem sobre os elementos (água, fogo, terra, ar);

Enredo

         37 – A viagem da esquadra é rápida e próspera até uma nuvem que escurece os ares surgir sobre as cabeças dos navegantes.

Porém já cinco sóis eram passados
Que dali nos partíramos, cortando
Os mares nunca doutrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece,
Sobre nossas cabeças aparece.

         38 – A nuvem escura que surgiu vinha tão carregada que encheu de medo os navegantes. O mar, ao longe, fazia grande ruído ao bater contra os rochedos. Vasco da Gama, atemorizado, lança voz à tempestade perguntando o que era ela, que ela lhe parecia mais que uma simples tormenta marinha. Repare que o cenário aterrador fará a imagem do Gigante ainda mais terrível e assustadora.

Tão temerosa vinha e carregada,
Que pôs nos corações um grande medo;
Bramindo, o negro mar de longe brada,
Como se desse em vão nalgum rochedo.
“Ó Potestade (disse) sublimada:
Que ameaço divino ou que segredo
Este clima e este mar nos apresenta,
Que mor cousa parece que tormenta?”

         39 – Vasco da Gama não havia terminado de falar quando surgiu uma figura enorme, de rosto fechado, de olhos encovados, de postura má, de cabelos crespos e cheios de terra, de boca negra e de dentes amarelos. Esta passagem é meramente descritiva.

Não acabava, quando uma figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

         40 – A figura era tão enorme que poder-se-ia jurar ser ela o segundo Colosso de Rodes. Surge no quarto verso a introdução da fala do Gigante, cuja voz fazia arrepiar os cabelos e a carne dos navegantes.

Tão grande era de membros, que bem posso
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso,
Que um dos sete milagres foi do mundo.
Com tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Que pareceu sair do mar profundo.
Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!

         41 – O gigante chama os portugueses de ousados e afirma que nunca repousam e que tem por meta a glória particular, pois chegaram aos confins do mundo. Repare na ênfase que se dá ao fato de aquelas águas nunca terem sido navegadas por outros: o gigante diz que aquele mar que há tanto ele guarda nunca foi conhecido por outros.

E disse: “Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar nos longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados d’estranho ou próprio lenho:

         42 – Já que os portugueses descobriram os segredos do mar, o gigante lhes ordena que ouçam os sofrimentos futuros, conseqüências do atrevimento de cruzar os mares.

Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do úmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo largo mar e pela terra
Que inda hás de subjugar com dura guerra.

         43 – O gigante afirma que os navios que fizerem a viagem que Vasco da Gama está fazendo terão aquele cabo como inimigo. A primeira armada a que se refere Adamastor é a de Pedro Álvares Cabral, que perdeu ali quatro de suas naus: o dano – o naufrágio – foi maior que o perigo, pois os navegantes foram surpreendidos.

Sabe que quantas naus esta viagem
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,
Inimiga terão esta paragem,
Com ventos e tormentas desmedidas!
E da primeira armada, que passagem
Fizer por estas ondas insofridas,
Eu farei d’improviso tal castigo,
Que seja mor o dano que o perigo!

         44 – O gigante afirma que se vingará ali mesmo de seu descobridor, Bartolomeu Dias, e que outras embarcações portuguesas serão destruídas por ele. As afirmações são ameaçadoras, como se verá: o menor mal será a morte.

Aqui espero tomar, se não me engano,
De quem me descobriu suma vingança.
E não se acabará só nisto o dano
De vossa pertinaz confiança:
Antes, em vossas naus verei, cada ano,
Se é verdade o que meu juízo alcança,
Naufrágios, perdições de toda sorte,
Que o menor mal de todos seja a morte!

         45 – É citado D. Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da Índia, e sua vitória sobre os turcos. O gigante continua ameaçador: junto a ele continua a haver perigo.

E do primeiro ilustre, que a ventura
Com fama alta fizer tocar os céus,
Serei eterna e nova sepultura,
Por juízos incógnitos de Deus.
Aqui porá a turca armada dura
Os soberbos e prósperos troféus;
Comigo de seus danos o ameaça
A destruída Quíloa com Mombaça.

         46 – Nesta estrofe o gigante cita a desgraça da família de Manuel de Sousa Sepúlveda, cujo destino será tenebroso: depois de um naufrágio, sofrerão muito.

Outro também virá, de honrada fama,
Liberal, cavaleiro, enamorado,
E consigo trará a formosa dama
Que Amor por grão mercê lhe terá dado.
Triste ventura e negro fado os chama
Neste terreno meu, que, duro e irado,
Os deixará dum cru naufrágio vivos,
Para verem trabalhos excessivos.

         47 – O gigante diz que os filhos queridos de Manuel de Sousa Sepúlveda morrerão de fome e sua esposa será violentada pelos habitantes da África, depois de caminhar pela areia do deserto.

Verão morrer com fome os filhos caros,
Em tanto amor gerados e nascidos;
Verão os Cafres, ásperos e avaros,
Tirar à linda dama seus vestidos;
Os cristalinos membros e preclaros
À calma, ao frio, ao ar verão despidos,
Depois de ter pisada longamente
Co’s delicados pés a areia ardente;

         48 – Os sobreviventes do naufrágio verão Manuel de Sousa Sepúlveda e sua esposa, que morrerão juntos, ficarem no mato quente e inóspito.

E verão mais os olhos que escaparem
De tanto mal, de tanta desventura,
Os dois amantes míseros ficarem
Na férvida e implacável espessura.
Ali, depois que as pedras abrandarem
Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
Abraçados, as almas soltarão
Da formosa e misérrima prisão.

         49 – O gigante continuaria fazendo as previsões se Vasco da Gama não o interrompesse perguntando quem era aquela figura maravilhosa. O monstro responderá com voz pesada porque relembraria seu triste passado.

Mais ia por diante o monstro horrendo
Dizendo nossos fados, quando, alçado,
Lhe disse eu: – Que és tu? Que esse estupendo
Corpo certo me tem maravilhado!
A boca e os olhos negros retorcendo
E dando um espantoso e grande brado,
Me respondeu, com voz pesada e amara,
Como quem da pergunta lhe pesara:

         50 – O gigante se apresenta: ele é o Cabo Tormentoso, nunca conhecido pelos geógrafos da Antigüidade, última porção de terra do continente africano, que se alonga para o Pólo Sul, extremamente ofendido com a ousadia dos portugueses.

Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompônio, Estrabo,
Plínio e quantos passaram fui notório.
Aqui toda a africana costa acabo
Neste meu nunca visto promontório,
Que para o Pólo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.

         51 – Adamastor diz que era um dos Titãs, gigantes que lutavam contra Júpiter e que sobrepunham montes para alcançar o Olimpo. Ele, no entanto, buscava a armada de Netuno, nos mares.

Fui dos filhos aspérrimos da Terra,
Qual Encélado, Egeu e Centimano;
Chamei-me Adamastor e fui na guerra
Contra o que vibra os raios de Vulcano;
Não que pusesse serra sobre serra,
Mas conquistando as ondas do Oceano,
Fui capitão do mar, por onde andava
A armada de Netuno, que eu buscava.

         52 – Adamastor cometeu a loucura de lutar contra Netuno por amor a Tétis, por quem desprezou todas as Deusas. Um dia a viu nua na praia e apaixonou-se por ela, e ainda não há algo que deseje mais do que ela.

Amores da alta esposa de Peleu
Me fizeram tomar tamanha empresa;
Todas as Deusas desprezei do Céu,
Só por amar das águas a princesa;
Um dia a vi, co’as filhas de Nereu,
Sair nua na praia e logo presa
A vontade senti de tal maneira,
Que inda não sinto cousa que mais queira.

         53 – Como jamais conquistaria Tétis porque era muito feio, Adamastor resolveu conquistá-la por meio da guerra e manifestou sua intenção a Dóris, mãe de Tétis, que ouviu da filha a seguinte resposta: como poderia o amor de uma ninfa agüentar o amor de um gigante?

Como fosse impossível alcançá-la
Pela grandeza feia de meu gesto,
Determinei por armas de tomá-la
E a Dóris meu caso manifesto.
De medo a Deusa então por mi lhe fala.
Mas ela, com formoso riso honesto,
Respondeu: – Qual será o amor bastante
De ninfa, que sustente o dum Gigante?

         54 – Continua a resposta de Tétis: ela, para livrar o Oceano da guerra, tentará solucionar o problema com dignidade. O gigante afirma que, já que estava cego de amor, não percebeu que as promessas que Dóris e Tétis lhe faziam eram mentirosas.


Contudo, por livrarmos o Oceano
De tanta guerra, eu buscarei maneira
Com que, com minha honra, escuse o dano.
Tal resposta me torna a mensageira.
Eu, que cair não pude neste engano
(Que é grande dos amantes a cegueira),
Encheram-me, com grandes abundanças,
O peito de desejos e esperanças.

         55 – Uma noite, louco de amor e desistindo da guerra, aparece-lhe o lindo rosto de Tétis, única e nua. Como louco, o gigante correu abrindo os braços para aquela que era a vida de seu corpo e começou a beijá-la.

Já néscio, já da guerra desistindo,
Uma noite, de Dóris prometida,
Me aparece de longe o gesto lindo
Da branca Tétis, única, despida.
Como doido corri de longe, abrindo
Os braços para aquela que era a vida
Deste corpo e começo os olhos belos
A lhe beijar, as faces e os cabelos.

         56 – Adamastor não consegue expressar a mágoa que sentiu, porque, achando que beijava e abraçava Tétis, encontrou-se abraçado a um duro monte. Sem palavras e imóvel, sentiu-se como uma rocha diante de outra rocha.

Oh! Que não sei de nojo como o conte!
Que, crendo ter nos braços quem amava,
Abraçado me achei com duro monte
De áspero mato e de espessura brava.
Estando com penedo fronte a fronte,
Que eu pelo rosto angélico apertava,
Não fiquei homem, não; mas mudo e quedo
E junto dum penedo outro penedo!

         57 – Adamastor invoca Tétis, perguntando porque, se ela não amava, não o manteve com a ilusão de abraçá-la. Dali ele partiu quase louco pela mágoa e pela desonra procurando outro lugar em que não houvesse quem risse de sua tristeza.

Ó Ninfa, a mais formosa do Oceano,
Já que minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?
Daqui me parto, irado e quase insano
Da mágoa e da desonra ali passada,
A buscar outro mundo, onde não visse
Quem de meu pranto e de meu mal se risse.

         58 – Os Titãs já foram vencidos e soterrados para maior segurança dos deuses, contra quem não é possível lutar. Adamastor anuncia, então, seu triste destino.

Eram já neste tempo meus Irmãos
Vencidos e em miséria extrema postos,
E, por mais segurar-se Deuses vãos,
Alguns a vários montes sobrepostos.
E, como contra o Céu não valem mãos,
Eu, que chorando andava meus desgostos,
Comecei a sentir do fado amigo,
Por meus atrevimentos, o castigo:

         59 – A carne do gigante se transformou em terra e os ossos em pedra; seus membros e sua figura alongaram-se pelo mar; os Deus fizeram dele um Cabo. Para que sofra em dobro, Tétis costuma banhar-se nas águas próximas.

Converte-se-me a carne em terra dura;
Em penedos os ossos se fizeram;
Estes membros que vês e esta figura
Por estas longas águas se estenderam;
Enfim, minha grandíssima estatura
Neste remoto Cabo converteram
Os Deuses; e, por mais dobradas mágoas,
Me anda Tétis cercando destas águas.

         60 – O gigante desapareceu chorando e o mar soou longínquo. Vasco da Gama ergue os braços ao céu e pede aos anjos que os casos futuros contados por Adamastor não se realizem.

Assim contava; e, com medonho choro,
Súbito d’ante os olhos se apartou.
Desfez-se a nuvem negra e com sonoro
Bramido muito longe o mar soou.
Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
A Deus pedi que removesse os duros
Casos que Adamastor contou futuros.

Referências bibliográficas

ABDALA JÚNIOR, Benjamin . Camões Épica e Lírica . São Paulo:  Scipione, 1993.
CIDADE, Hernâni . Portugal histórico-cultural . Lisboa : Presença, 1985.
MOISÉS, Massaud . A literatura portuguesa . 11 edição . São Paulo :  Cultrix, 1973.
_____ .(dir.) A Literatura portuguesa em perspectiva.vol. 2. São Paulo : Atlas, 1993.
RAMALHO, Américo da Costa . Estudos Camonianos . Coimbra: Instituto de Alta             

Fontes:
XXI Seminário do Centro de Estudos Linguísticos e Literários do Paraná. Cascavel/PR: UNIOESTE, 2009
complemento da análise do canto estrofe por estrofe obtido em

_______________
Silmara Santade Masiero é Mestre em Educação pela Universidade do Oeste Paulista -UNOESTE (2010) na linha de pesquisa 2: Formação e Prática Pedagógica do Profissional Docente . Especialista em Língua Inglesa pela Faculdade Estadual de Filosofia,Ciências e Letras de Jacarezinho ( 2002) Graduada em Letras pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Jacarezinho (2000). É professora titular efetiva PEB II- Inglês na E.E.Professor Homero Calvoso desde 2005. Designada Professora Coordenadora de Língua Estrangeira Moderna/Inglês na Diretoria de Ensino da Região de Ourinhos desde 2009 até presente data. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Línguas Estrangeiras Modernas.


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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