Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 372)




                        
 

                        Uma Trova de Bandeirantes/PR
Janete de Azevedo Guerra

Amor, carinho, esperança...
marcaram as nossas vidas.
Hoje, somente lembrança
nas fotos envelhecidas!

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Luiz Carlos Abritta

Eu te agrado, tu me agradas,
e, no doce cativeiro,
sem algemas, sem ciladas,
tu me prendes por inteiro!

Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

PROFISSÃO DE FÉ

Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.

Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia .

No vôo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.

É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.

Uma Trova Humorística de Santos/SP
Cláudio de Cápua

O delegado Pereira…
Êta Pereira bacana
- É de pouca brincadeira,
não dá pêra, só da “cana”!…

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Olympio S. Coutinho

Livrarias populares
lembram divinos recantos
onde estantes são altares,
onde os livros são os santos.

Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

PARA QUE SERVE A POESIA?

De servir-se utensílio dia a dia
utilidade prática aplicada,
o nada sobre o nada anula o nada
por desvendar mistério na magia.

O sonho em fantasia iluminada
aqui se oferta em módica quantia
por camelôs de palavras aladas
marreteiros de mansa mercancia.

De pagamento, apenas um sorriso
de nuvens, uma fatia de grama
de orvalho e o fugaz fulgor de astro arisco.

Serena sentença em sina servida,
seu valor se aquilata e se esparrama
na livre chama acesa de quem ama.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Se eu pensara quem tu eras,
quem tu havias de ser,
não dava meu coração
para tão cedo sofrer.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Susana Stefania Cerutti

Porque el amor nunca asume
sangre derramada en llanto,
ansias que nada consume
y le da a la vida canto.

Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

SONETO QUEBRADIÇO

Mão minha com maminha movediça
traçando vai na limpa areia branca
versos cambaios, frouxos, e na liça
língua caçanje, claudicante, manca.

No pé quebrado o ritmo se atiça
para dançar com rimas pobres, franca
trança de cambalhota tão cediça,
que me corrompe o salto e que me estanca.

Queda de braço nas quebradas quebras
vou me quebrando como um bardo gauche:
pelas savanas sou mais uma zebra.

Mas consciente desse torto approuch
já me socorre a gíria de alma treta
para solar meu solo nos ouvidos moucos.

Trovadores que deixaram Saudades
Tobias de Sousa Pinheiro
Brejo/MA (1926 – ????)

Economizo a saudade
e me chamam de avarento;
guardo minha mocidade
no cofre do pensamento.

Uma Trova de Belém/PA
Antonio Juraci Siqueira

Vão as agruras da lida
e tudo mais tem valia
sempre que a vida é  envolvida
nos braços da Poesia!


Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

NOSSA LÍNGUA
(para o poeta Antoniel Campos)

O doce som de mel que sai da boca
na língua da saudade e do crepúsculo
vem adoçando o mar de conchas ocas
em mansa voz domando tons maiúsculos.

É bela fiandeira em sua roca
tecendo a fala forte com seu músculo
na hora que é preciso sai da toca
como fera que sabe o tomo e o opúsculo.

Dizer e maldizer do mel ao fel
é fado de cantigas tão antigas
desde Camões, Bandeira a Antoniel,

este jovem poeta que se abriga
na língua portuguesa em verso e fala
nau de calado ao mar que não se cala.



Uma Trova de Caicó/RN
Prof. Garcia

Sob os feitiços do amor
e amante desse pecado,
como é bom ser pecador,
refém de um beijo roubado!

Um Haicai de Magé/RJ
Kênia Rocha dos Santos
12 anos

Estrela de inverno
Parece tão pequenina
Distante no céu.

Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

ARS POÉTICA

Nesse afago do meu fado afogado
as águas já me sabem nadador.
A rês na travessia marejada
gado da grei de um mar revelador.

Vou e volto lambendo o sal do fardo
língua no labirinto, ardendo em cor
furtiva, enquanto messe temperada,
da tribo das palavras sou cantor.

Procuro em frio exílio tipográfico
o verbo mais sonoro em melodia
o ritmo para a cal de um pasto cáustico.

Sou boi e sou vaqueiro dia a dia
no laço entrelaçado fiz-me prático
catador de capins nas pradarias.

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Gilson Faustino Maia

É chama que não aquece,
quando amor fica escondido.
É o coração quem padece,
bem melhor não ter nascido.

Um Haicai de Magé/RJ
Luiza Lemos de Oliveira

Lua fria de inverno.
A sombra de cachorro
Passa na porta.
Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

MALA COM ALÇA

É da lama essa mala que retiro
para subir a encosta (como a pedra
que Sisifo ainda empurra todo dia)
numa viagem cheia de seqüelas.

Não há como negar tantos espinhos
na travessia turva de mistérios
que vão-se descobrindo nos caminhos:
a mão negada, a fome, o vitupério,

o rito solidário que esquecemos
em troca a vaidade transitória.
Somos do barro e ao barro voltaremos.

A verdade do Homem e de sua Hora
vem com mala e alça, disto sabemos,
mais o peso do corpo e sua história.

Uma Trova de Santos/SP
Carolina Ramos

Se me pisas com descaso,
eu gemerei dolorida,
que as flores morrem num vaso,
porém, num jardim, têm vida!

Um Haicai de Magé/RJ
Vitória Carvalho Miguel
12 anos

Estrela de inverno.
Brilha distante no céu
Ao anoitecer.

Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

SONETO DE ANIVERSÁRIO

Setembro me agasalha nos seus galhos
e de amor canto no seu verde ventre:
Eis a ventura vaga em danação,
bronze canonizado nas cigarras.

O canto é breve, fino, e já anuncia
o inconfundível som do último acorde:
aquele dó de peito em nó estrídulo.
Como Bashô sonhara, é despedida

que mal se sabe, é morte anunciada,
canora liturgia sazonal.
Em setembro me mato e me renasço

em canto livre, rouco, sem ter palco,
representando de cor e salteado
o meu 13, que é fado e sortilégio.

Um Haicai de Magé/RJ
Zuleika Gomes Ferreira
13 anos

Estrela de inverno.
Pequenina e sem brilho
Ao anoitecer.

Uma Trova de Niterói/RJ
Elen de Novais Felix

Anoitece…a lua espia
a varanda em soledade,
e banha a rede vazia
em seu clarão de saudade.
 
Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

BOLERO DAS ÁGUAS

O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.

A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.

Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,

é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.

 Recordando Velhas Canções
Festa do Bolinha
(jovem guarda, 1965)

Erasmo Carlos e Roberto Carlos

  Eu ontem fui a festa    
na casa do Bolinha
  confesso não gostei   
dos modos da Glorinha
toda assanhada   
nunca vi igual
  trocava mil beijocas
com Raposo no quintal

Porém pouco durou   
aquela paixão
  pois Bolinha com ciúmes   
formou a confusão
  Aninha tropeçou   
e os copos derrubou
  e a casa do Bolinha
num inferno se tornou

  Bolinha provou   
que é ciumento pra' chuchu
  e, que não gosta da Lulú
  bobinha,   
que por êle ainda chora
com tanto pão   
dando bola no salão
Luluzinha foi gostar   
logo de um bolão.

Uma Trova de São Paulo/SP
J. B. Xavier

Não há dor mais dolorida
do que a tristonha aparência
de quem matou pela vida
a sua própria inocência.

Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

EQUU
(para o poeta Rafael Courtoisie)

Nos astros me perdia logo cedo
enquanto a luz vestia-me de noites.
Então chorava no meu ombro o enredo
grave galope breve com seus coices.

As éguas do destino cospem medos
sabendo-me alazão de muitas foices,
ou pangaré lunar dos meus degredos.
Por isso perseguiam-me nas noites

aquelas mais escuras sem estrelas
nas quais sou presa fácil sem que fosse
porque flechando verbos sei contê-las.

Não eram éguas mouras dos desertos
senão potrancas férteis com seus roces
estas que vinham mansas muito perto.

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Wanda de Paula Mourthé

Lembranças de amor desfeito...
silêncio em horas tardias,
pois tua ausência em meu leito
dorme onde outrora dormias.

Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

CURTA PAVANA

O dorso que se curva arco elegante
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil, celebrante
de rito sedutor, que me balança

toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.

Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.

Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.

Hinos de Cidades Brasileiras
Flor da Serra do Sul/PR

No encontro de três povos, um novo rumo foi buscado,
Gaúchos e catarinenses com paranaenses irmanados,
Foi com lutas e sacrifícios, palmo a palmo conquistado.
O solo fértil, num planalto cercado com pinheirais,
Com trabalho e justiça expandiu-se mais e mais

Flor da Serra, Flor da Serra, onde o céu é mais azul,
Flor da Serra no passado, hoje Flor da Serra do Sul.

E passados muitos anos, um brado forte ecoou,
Ser distrito era pouco e um plebiscito se criou,
Em dezoito de Junho de noventa, a assembléia aprovou,
Com anseio, com justiça, Flor da Serra emancipou,
Em vinte e dois de Dezembro, a bandeira levantou.

Nos braços do sudoeste, no querido Paraná,
Na rota do Mercosul, és a estrela a brilhar,
A ecologia, nossas culturas, belas fontes a brotar,
É celeiro de fartura, resplandece encantos mil,
Povo gentil e hospitaleiro que engrandece o Brasil.

Uma Trova de Saitama/Japão
Edweine Loureiro

Olhos no céu, curumim
faz bailar, tão colorida,
a pipa que leva assim
uma mensagem de vida.

Um Poema de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946 – 2009)

MANHÃ

A manhã nasce das muitas janelas
deste sereno corpo fatigado,
sede  dos meus caminhos sem cancelas,
na luz de muitos astros albergados.

Casa em que me recolho das mazelas,
dos louros, derroteiros, lado a lado,
para de mim ouvir franca seqüela:
Ecce Homo! Eis o triste camuflado.

Essa tristeza antiga em residência,
às vezes se constrói em face alegre,
máscara sem eu mesmo em aparência

num carnaval insólito em seu frege.
O que me salva a cor nessa vivência
é saber que a poesia é quem me rege.

 Chuvisco Biográfico do Poeta

Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto era amazonense de Manaus, onde nasceu a 13 de setembro de 1946 e faleceu hoje, 25 de agosto de 2009.
Dividiu seus primeiros estudos entre colégios de Manaus e em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Durante sua permanência no Rio Grande do Sul, mais precisamente em Porto Alegre, travou conhecimento com o poeta Mario Quintana, quem lhe deu os primeiros ensinamentos e o estímulo para caminhar pelas veredas da poesia.
Especialista em tecnologia educacional na área de Comunicação Social (UFRJ), Teve passagens, como repórter, redator, colunista, copy-desk e editor, em todas as redações dos jornais de Manaus, do ínicio da década de 60 até final da década de 80; foi diretor de produção da Televisão Educativa do Amazonas – TVE.
Consultor da Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas. Idealizador e Editor-geral do suplemento literário “O Muhra”, de circulação bi-mestral, editado pela referida secretaria.
Envolvido com teatro, artes plásticas, foi na música popular que a sua contribuição se faz mais efetiva como compositor, letrista e produtor de espetáculos e de discos. Desde 1968, quando venceu o I Festival da Canção do Amazonas, Aníbal foi colecionando prêmios com mais de 18 primeiros lugares em festivais em sua terra, no Brasil e no exterior. Representou o Brasil no VIII Festival de Joropo de Villa Vicencio, Colômbia (1969);
Foi o único artista amazonense a se classificar e se apresentar no Festival Internacional da Canção FIC, em 1970, com a música “Lundu do Terreiro de Fogo”, defendida pela cantora Ângela Maria.
Tem músicas gravadas por vários artistas brasileiros.
Aníbal Beça, além da sua condição artística era produtor e animador cultural nato.
Sua participação política tinha-se plasmado no âmbito de entidades de classe, como diretor do Sindicato dos Escritores, presidente da ACLIA Associação de Compositores, Letristas e Intérpretes do Amazonas, Presidente do Coletivo Gens da Selva (ONG), Vice-Presidente da UBE-AM União Brasileira de Escritores, seção Amazonas
Seu trânsito amplo, por diversos setores artísticos, que se estende até à manifestação da arte mais popular brasileira, o carnaval, fez com que fosse lembrado, e merecidamente homenageado, em 99, como tema de enredo “Aníbal Bom à Beça” da Escola de Samba “Sem Compromisso”.
Fazia parte da Ala dos Compositores das Escolas de Samba Reino Unido da Liberdade e Sem Compromisso, dando a esta última, seu único título pela autoria do enredo e do samba de enredo “Joana Galante – Axé dos Orixás”, e classificou a referida escola entre as três primeiras colocações com os samba de enredo: “Hotel Cassino – Apoteose Boêmia”, “Hoje tem Guarany”, “Vento e sol, passa cerol – A Arte de empinar papagaios” ; “Sol de Feira – O pregão da Alegria”.
Seu primeiro livro Convite Frugal, data de 1966.
A propósito de sua poesia, o poeta Carlos Drummond de Andrade, teceu, em 31 de julho de 1987 – pouco antes de morrer – o comentário: “Li Filhos da Várzea, os poemas-pôster e os haicais afetuosamente a mim dedicados. Obrigado por tudo, meu caro poeta. É de coração aberto que lhe desejo a maior receptividade pública e compreensão para a bela poesia que está elaborando e que, espero, marcará seu nome como um dos que engrandeceram o cultivo artístico do verso.”
Em 1994, com o livro Suíte para os Habitantes da Noite, sagrou-se vencedor, dentre 7.038 livros de todo o país, do 6º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira – categoria poesia. O livro, lançado sob o selo da editora Paz e Terra, saiu em 1995.
Anibal Beça se destaca pela sua prática do haicai.
Foi membro da UBE , União Brasileira de Escritores, do Coletivo Gens da Selva (ONG) e do Clube da Madrugada, entidade instauradora dos movimentos renovadores no campo literário e artístico do Amazonas.
Em junho de 99, Representou o Brasil no VIII Festival Internacional de Poesia de Medellín, e em agosto/99 no Encontro Internacional de Escritores da Associação Americana para o desenvolvimento cultural, em Bogotá.
Tem participação em diversas antologias: A Nova Poesia Brasileira de Olga Savary; A Poesia do sec. XX – Amazonas de Assis Brasil; Poesia Sempre da Fund. Biblioteca Nacional.; Antologia FUI EU de Eunice Arruda.

Bibliografia
Convite Frugal, Ed. Gov. do Estado do Amazonas, Manaus, 1966
Filhos da Várzea e outros poemas(abrigando o livro Hora Nua),
Casa Madrugada Editora, Manaus,1984.
Itinerário da Noite Desmedida à Mínima Fratura, Casa Editora Madrugada, Manaus, 1987.
Quem foi ao vento, perdeu o assento, (Teatro) Edições SEMEC, Manaus, 1987.
Marupiara – Antologia de Novos Poetas do Amazonas, (organizador) Ed. Gov. do Estado do Amazonas, Manaus, 1989.
Suíte para os Habitantes da Noite, Editora Paz e Terra, São Paulo (Vencedor do VI Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira), 1995.
Banda da Asa – poemas reunidos – Editora Sette Letras, Rio de Janeiro, 1998.
Fonte: Jornal de Poesia

Adágio antigo me acode
quando o bom senso escasseia:
- quem sabe o que o vento pode,
não planta casas na areia…

Almas sensíveis, tocadas
pelo frio do abandono,
são como as tardes nubladas
e as noites tristes de outono…


A minha choça de palha
não tem vidraças, meu bem:
- mas quanto amor agasalha
e quantos sonhos também!

Ao ver que iam ser defuntos,
o porco disse à mulher:
- Quem sabe nos deixam juntos
numa linguiça qualquer!...

De que remotas idades
tu vens, ó alma que abrigo,
trazendo tantas saudades
e tantas magoas comigo?...
Doutor, com voz alterada,
pra jovem de corpo nu:
"A senhora não tem nada...
Tá é boa pra chuchu...”

Em pleno palco, a Jussara
espirrou de supetão.
E.. a dentadura da cara
virou risada no chão...

“Ih, mamãe, olha a Raimunda!
Dizia um guri bicão:
nunca pensei que corcunda
mudasse de posição!...”

Lancemos, pois, as sementes
dos sentimentos mais cultos:
– que o rumo dos inocentes
está nas mãos dos adultos!

MEU DEUS! nas minhas andanças,
estranhos rumos fatais,
como eu gastei esperanças
com ilusões tão banais…
Meus rumos... e foram tantos,
que eu andei como ninguém!
- Se um dia me deram prantos,
deram-me risos também!

Mulher que a todo momento
vai procurar o dentista,
além de dar no orçamento,
acaba dando na vista...

Na horinha "H", quando a boa
parava de recusar,
a bandida da patroa
me acordou pra... trabalhar!

Nasceram pintos... e ao choro
dos pintos, o galo viu
que o miserável do louro
mais uma vez conseguiu!...

Percebo, ao fim da jornada,
que às vezes, na humana lida,
por culpa de um "quase nada"
se perde tudo na vida...
Que eu quase não tenho nada,
comentam com ironia.
Tolice! Na minha estrada
eu tenho Deus, todo dia!

Saudade! Sou como o porto
num braço escuro de mar,
que já nem logra o conforto
de ver um barco chegar…

Um detetive gaiato,
de serviço no Japão,
tendo por pista um retrato,
quis prender toda a... Nação!

Vexame foi o da mestra,
vaidosa de saber tanto,
que disse, numa palestra:
- "Se for perciso, agaranto!"

Vou no meu rumo ou caminho
colhendo, em coisas de amor:
- De metro em metro, um espinho!
- De légua em légua, uma flor!...

Folclore Brasileiro
Mula Sem Cabeça

Autor Anônimo
A mula-sem-cabeça

Uma história velada
Na cidade era narrada
De uma mula encantada
Que pela praça rondava

Uma mulher se apaixonou
Pelo padre que rezava
Em mula-sem-cabeça transformou
E foi amaldiçoada

Formaram-se grandes confusões
Em torno da mula malvada
Homens ficavam bobões
Mulheres não diziam nada

À meia-noite aparecia
Para a cidade atormentar
Fazia o que queria
Com seu cabresto singular

A mula desembestada
Firme e sem coração
Destruía o que encontrava
De nada abria mão

Sua fúria era tal
Que cambaleou e caiu
O que trazia de mal
Ali se destruiu

A notícia logo correu
Pelos lábios de sábio e tabaréu
A mula se desvaneceu!
Apagou seu fogaréu!!!!
______________

Vandré Paulo
A mula sem cabeça

Essa história aconteceu
Há muitos anos atrás
Fruto de um relacionamento
De uma jovem e um rapaz
Cujas consequências
Tiveram muito cartaz

O rapaz era um padre
E a jovem se apaixonou
Um romance proibido
Ao qual nada agradou
O amor foi consumado
E uma tragédia resultou

A jovem foi condenada
A carregar uma maldição
Em noites de lua cheia
Virar uma assombração
Uma Mula-sem-cabeça
A vagar sem perdão
_________________

Wanda Campos
A Lenda da mula-sem-cabeça

Lá atrás da igrejinha
no canto do povoado
mora em uma casa estranha,
uma mulher bem bonita
mas que dizem estar vivendo
uma sina esquisita.
Quando chegou o novo padre,
muito sério, bonitão,
a pobre coitada mulher
mesmo tentando o contrário
lhe entregou seu coração!
E como dizem os antigos:
Pra isso não tem salvação,
se apaixonou pelo padre,
vai receber a maldição.
E nas noites de quinta feira
a transformação acontece
e ninguém mais vê a mulher
que logo desaparece,
quem passa em frente a casa
se benze e diz uma prece.
A mula-sem-cabeça galopa
por aí desenfreada
tem no lugar da cabeça,
uma fogueira, a coitada.
Mas existem alguns meios
de por fim a maldição,
alguém lhe retire o cabresto
ou lhe espete no corpo
agulha ou alfinete virgem,
com coragem e determinação.
Uma outra maneira
de acabar com o encantamento
é ser amaldiçoada pelo padre,
autor deste sofrimento.
Depois do encanto desfeito,
o namoro terminado,
não se fala mais no assunto,
pois tudo foi perdoado.
Mas sempre que reza a missa
o padre olha desconfiado,
tentando encontrar a moça
da qual  já foi namorado.
  
A Lenda da Mula Sem Cabeça

A Mula-sem-cabeça é uma antiga lenda dos povos da Península Ibérica, que foi trazida para a América pelos espanhóis e portugueses. Esta história também faz parte do folclore mexicano (conhecida como “Malora”) e argentino (com o nome de Mula Anima). Pressupõem-se que este mito tenha nascido no século doze, época em que as mulas serviam de transporte para os padres.
No Brasil, a lenda disseminou-se por toda a região canavieira do Nordeste e em todo o interior do Sudeste. A Mula-sem-cabeça, representa uma espécie de lobisomem feminino, que assombra povoados onde existam casas rodeando uma igreja.
Segundo esta lenda, toda a mulher que mantivesse estreitas ligações amorosas com um padre, em castigo ao seu pecado (aos costumes e princípios da Igreja Católica), tornar-se-ia uma Mula-sem-cabeça. Esta história tem cunho moral religioso, ou seja, é uma repreensão sutil ao envolvimento amoroso com sacerdotes e também com compadres. Os compadres, eram tidos como pessoas da família, e qualquer tipo de relação mantida entre eles, era considerada incestuosa.
A metamorfose ocorreria na noite de quinta para sexta-feira, quando a mulher, em corpo de mula-sem-cabeça, corre veloz e desenfreadamente até o terceiro cantar do galo, quando, encontrando-se exaurida e, algumas vezes ferida, retorna a sua normalidade. Homens ou animais que ficarem em seu trajeto seriam despedaçados pelas violentas patas. Ao visualizar a Mula-sem-cabeça, deve-se deitar de bruços no chão e esconde-se “unhas e dentes” para não ser atacado.
Uma versão é que, se um padre engravidasse uma mulher e a criança fosse do sexo feminino viraria mula-sem cabeça e se fosse menino seria um lobisomem.
Para que ela não se manifeste, o padre deve amaldiçoá-la antes de celebrar cada missa. Segundo Pereira da Costa, isso deve ser feito antes de tocar a hóstia, no momento da consagração. Em alguns lugares, basta causar-lhe um ferimento, tirando-lhe sangue. Ao encontrar uma mula, é preciso esconder as unhas a fim de não atrair a sua ira.
A Mula-sem-cabeça sai pelos campos soltando fogo pelas ventas e relinchando, apesar de não ter cabeça. Ela é descrita como um animal negro, com pelos brancos na cabeça, olhos cor de fogo, pata na forma de lâminas afiadas, com um relincho apavorante (Que seria um misto de relincho com gemido humano) e solta fogo pelas ventas. Seu encanto, segundo a lenda, somente será quebrado se alguém conseguir tirar o freio de ferro que carrega. Em seu lugar, aparecerá uma mulher arrependida.
Diz a lenda que, se escutares na madrugada o cavalgar da mula-sem-cabeça, confirmado pelo som aterrorizante emitido por ela, jamais deve olha-la, nem ao menos espia-la, pois, aquele que a espiar, será surpreendido com a mesma vindo em sua direção.
Também há uma versão mais antiga ainda, que conta que em um certo reino, a rainha tinha a mania de ir certas noites ao cemitério, sem permitir que ninguém a acompanhasse. O rei, então, decidiu seguir sua mulher, secretamente, durante uma dessas saídas, e encontrou-a debruçada sobre uma cova, que abrira com as próprias mãos cheias de anéis, devorando o cadáver de uma criança, enterrada na véspera. O rei, então, soltou um berro horrível, e quando sua mulher viu que fora pega em flagrante, soltou um berro mais terrível ainda, se transformando assim na Mula-Sem-Cabeça.
Dizem também, que se alguém passar correndo diante de uma cruz à meia-noite, ela aparece.
A mula-sem-cabeça também é conhecida como a burrinha-do-padre, ou simplesmente burrinha.
A Mula-sem-cabeça, possuiria as seguintes características:

1. Apresenta a cor marrom ou preta.
2. Desprovida de cabeça e em seu lugar apenas fogo.
3. Seus cascos ou ferraduras podem ser de aço ou prata.
4. Seu relincho é muito alto que pode ser ouvido por muitos metros, e é comum a ouvir soluçar como um ser humano.
5. Ela costuma aparecer na madrugada de quinta/sexta, principalmente se for noite de Lua Cheia.
6. Segundo relatos, felizmente existem maneiras de acabar com o encantamento que fez a mulher virar Mula-Sem-Cabeça, uma delas consiste em uma pessoa arrancar o cabresto que ela possui, outra forma é furá-la, com algum objeto pontiagudo tirando sangue (como um alfinete virgem). Outra maneira de evitar o encantamento é de que o amante (padre) a amaldiçoe sete vezes antes de celebrar a missa.

Para se descobrir se a mulher é amante do padre, lança-se ao fogo um ovo enrolado em linha com o nome dela e reza-se por três vezes a seguinte oração:

“A mulher do padre
Não ouve missa
Nem atrás dela.
Há quem fique …
Como isso é verdade,
assa o ovo
e a linha fica…”

SIMBOLISMO

A Mula-sem-cabeça é oriunda do lado sombrio do inconsciente coletivo, seria talvez, o próprio arquetípico das criaturas que povoam as florestas, representando as camadas profundas do inconsciente e do instinto. Assim como o lobo, a mula-sem-cabeça aqui, nos induz ao desencadeamento dos instintos selvagens. Sob a influência do moralismo judaico-cristão, esta tendência se ampliou e levou ao horror da caça às bruxas e da Inquisição. Os relatórios dos “processos” de feitiçaria contêm obras-primas de animalidade mais crassa.
O animal representado nesta lenda, nos faz alusão então, uma valorização negativa, o conjunto de forças profundas que animam o ser humano e, em primeiro lugar, o libido (tomado em sua significação sexual), que desde a Idade Média se identifica principalmente com o cavalo, ou em nosso caso, com a mula.
O animal já aparece não portando a cabeça, tal fenômeno, pode ser entendido em sentido metafórico como ausência de razão e da própria consciência, predomínio, portanto, das paixões, dos impulsos sexuais de imediato atendidos, do domínio do inconsciente pessoal e coletivo.
A Mula-sem-cabeça é uma mulher amaldiçoada, pecaminosa, que teve o atrevimento de desejar o santo padre, representante de Deus e Cristo na terra. Este relato nos faz repensar no quanto os homens da Igreja, daquela época (Idade Média) tinham medo do poder feminino de sedução. Tais medos, os levaram a atitudes de desespero, que os fizeram a abster-se de qualquer contato com o sexo oposto, além de fantasiarem e criarem assombrações para incutir maior receio.
O que fica de lição desta lenda é que todos nós devemos nos integrar com nossos instintos. “O animal, que no homem é sua psique instintual, pode tornar-se perigoso quando não é conhecido e integrado à vida do indivíduo. A aceitação da alma animal é a condição para a unificação do indivíduo e para a plenitude de seu desabrochar.”
Cada animal, simbolicamente faz eco à natureza profunda do ser humano.
Fontes:



Alessandra Almeida da Rocha
Análise estilística de alguns poemas de Cecília Meireles (Parte II)


“Retrato”

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- em que espelho ficou perdida
a minha face?

No início da leitura do poema “Retrato”, notamos também a presença da primeira pessoa, o “eu” lírico descrevendo o seu próprio rosto, esse rosto que ele não mais reconhece como sendo o seu, como nesse primeiro verso: Eu não tinha esse rosto de hoje, a ideia é intensificada pelo advérbio de negação e pelo pronome demonstrativo, que sugere a passagem de tempo, a transitoriedade da vida; e a melancolia do “eu” lírico ao fazer esta constatação, continuando no segundo verso, no qual há a repetição da palavra “assim”, que indica uma mudança ocorrida tanto no íntimo, na personalidade, como em assim calmo, assim triste, quanto fisicamente, “assim magro”.
O uso seguido da palavra “assim” dá um ritmo lento a esse verso, como se a sugerida passagem fosse tranquila e quase imperceptível para o “eu” lírico.
Na terceira estrofe a constatação continua na percepção dos olhos tão vazios, devido aos sofrimentos e experiências vividos e o lábio amargo, no quarto verso dá continuidade a essa ideia. Ocorre uma anáfora, nome dado à figura que resulta quando se repete a mesma palavra ou frase no começo de vários versos, da palavra “nem” no início do terceiro e quarto versos desta primeira estrofe, na qual o “eu” lírico continua reiterando a sua negação da percepção de suas mudanças.
No primeiro verso da segunda estrofe, o “eu” lírico observa a mudança ocorrida, nas suas mãos, partes significativas e simbólicas do corpo e que simbolizam força e luta pela vida, no poema, esse hoje é sem força e já não se luta mais como nos tempos remotos, passados. O “eu” lírico continua descrevendo-as no segundo verso como tão paradas e frias e mortas, destacando-se o tom melancólico. Novamente, nesse verso a repetição da conjunção “e” imprime lentidão ao ritmo do verso e sugere a passagem da vida para morte.
Ainda nesta estrofe, no terceiro verso, o eu lírico descreve seu coração, metáfora para os seus sentimentos, que, antes, eram mostrados, expostos e atualmente estão retraídos, escondidos, como é dito no quarto verso.
Ocorre na segunda estrofe uma anáfora, com a expressão “eu não tinha” que introduz o poema. É o “eu” lírico reafirmando a não percepção dessa passagem de tempo, o que provoca um sentimento de perplexidade.
Na terceira estrofe, no primeiro verso, o “eu” lírico percebe e assume que mudou fisicamente e interiormente e que isto foi tão simples, tão certa, tão fácil, como se lê no segundo verso. Mais uma vez, o poeta fala-nos da transitoriedade da vida, dessa “passagem” para outro lugar, passagem esta que é universal, pois acontecerá com todos nós, sem saber quando, nem onde, e, mesmo assim, ficamos surpresos com isto. Há a repetição da palavra “tão” mostrando a certeza da evolução e o ritmo torna-se acelerado como a passagem da vida.
No penúltimo e último versos da última estrofe há um questionamento “eu” lírico, que fica desejoso em saber em que momento ele perdeu a sua vitalidade. O poeta fala isso no poema metaforicamente: “espelho” seria o lugar, o momento; “face” seria a vida, a juventude.
Cecília Meireles, magnífica e liricamente, aborda o tema da passagem da vida e da sua transitoriedade de maneira filosófica, universal e simples, influências estas recebidas do grupo espiritualista ao qual pertenceu, o que aparece em toda a sua obra.
Sobre essa transitoriedade e fugacidade do tempo, Darcy Damasceno, em Poesia do Sensível e do Imaginário, afirma: “Contínuo latejar, a consciência da fugacidade não apenas se torna a mola mestra do lirismo, como, por ansioso esforço de apreensão do fugidio, busca no concreto as amarras dos fios imaginativos”. (p. 37)
Observamos neste poema a gradação que ocorre nestes versos:

assim calmo, assim triste, assim magro
tão paradas e frias e mortas
tão simples, tão certa, tão fácil

Essas gradações sugerem a evolução, a passagem de tempo do poema.
Em dois momentos ocorre o cavalgamento:

eu não tinha este coração
que nem se mostra.
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Ocorre a sugestão ou a impressão de que o “eu” lírico fez uma pausa no seu pensamento ao constatar todas as mudanças ocorridas.
Ocorrem cesuras nos seguintes exemplos:

Eu não tinha / este rosto de hoje
Eu não tinha / estas mãos sem força
eu não tinha / este coração
Eu não dei / por esta mudança

Este recurso nos sugere a conscientização do “eu” lírico, da sua mudança lenta e gradual.
É interessante ressaltar que o poeta faz um jogo com as palavras “magro” (o segundo verso, primeira estrofe) e “amargo” (quarto verso, primeira estrofe). As letras da primeira aparecem inseridas e na segunda, como se o final da existência estivesse por pouco tempo e isso o deixa amargurado. Isto ocorre novamente em “mortas” (segundo verso, segunda estrofe) e “mostra” (quarto verso, segunda estrofe), significando que a morte sempre se mostra em nossa vida.
A poeta segue a estrutura de três estrofes e cada uma delas é composta por quatro versos, resquícios da influência simbolista e sua forma tradicional, nunca abandonadas por Cecília.
Ela utiliza principalmente de assonâncias de /e/ e /o/:

Eu não tinha este rosto de hoje
nem estes olhos tão vazios

Dando-nos um sentimento e uma ideia de melancolia permanente. Usa também de aliteração de /r/ em:

tão paradas e frias e mortas

Nesses versos indica-se o grande obstáculo que é a morte. Nota-se a musicalidade presente, fato característico no poema.
Também notamos as impressões sensoriais sugeridas no poema., principalmente a imagem visual que surge com o uso das palavras “rosto”, “calmo”, “triste”, “magro”, “olhos”, “lábio”, “mãos”, “espelho”, “face” e a imagem do paladar e do tato em “amargo”, “força”, “parada”, “fria”, “morta”, sugerindo que o corpo demonstra toda sua tristeza, toda a sua “passagem” desta vida para o desconhecido.
O título Retrato se encaixa perfeitamente ao poema porque a palavra simboliza algo estático, parado, eternizado e o “eu” lírico ansiava se eternizar, porém o tempo não permitiu e, por isso, ao final do poema se indaga em que momento de sua vida a sua juventude foi eternizada pela imobilidade, como acontece nos álbuns de família.

continua… “Epigrama n. 2”

Fonte:
Revista Philologus, v. 16, p. 1-1, 2000.

_______________
Alessandra Almeida da Rocha, atualmente é professora docente I - Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Educação e da rede privada do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa. Graduação em Letras, na UERJ e Pós-Graduação em Língua Portuguesa pela UERJ-FFP.


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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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