Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 21 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 373)




Uma Trova de Curitiba/PR
Victorina Sagboni

Um mar de esperanças novas
magicamente brotou
na ternura dessas trovas
que o teu carinho inspirou!

Uma Trova de São Francisco de Itabapoana/RJ
Roberto Pinheiro Acruche

Após, tanto tempo unidos,
vem você, dizendo adeus!
Tornando agora perdidos
os melhores sonhos meus.

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

CRUZ E SOUZA
          a Leôncio Correia

Passa o Azul, cantando, uma trirreme de ouro...
Velas pandas... No Azul... Que levita inspirado
Reza o ebúrneo Missal, de um requinte ignorado,
Entre astros monacais e iatagãs de mouro?!...

Rutilam brocatéis de púrpura e de prata...
Fulgem broquéis, à popa... A trirreme estremece...
Ísis! — quem te acompanha a estranha serenata
E para o Além da Morte entre os eus braços desce?!...

Morte é a eternidade;é um poente de Outono...
Mago! — tu vais dormir o glorioso sono
Entre broquéis de ônix, e iagatãs de mouro...

Vais dormir!... Vais sonhar!... (Nobre e celeste oblata!)
Segue no Azul, cantando, uma trirreme de ouro...
Rutila brocatéis de púrpura e de prata.

Uma Trova Humorística de Bandeirantes/PR
Lucilia Alzira Trindade Decarli

Do "salve-se quem puder"
a traição, nem percebeu...
- "Não te assustes não, mulher,
que o fantasma já correu!"

Uma Trova de Guaratinguetá/SP
Durval Colichio

Ela disse, suspirando:
- Minha alma por ti delira!
Eu fiquei acreditando...
mas era tudo mentira.

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

ALÉM

 Enfim! Vais repousar, corpo meu tão franzino,
Escudo, roto já, pelos gládios da Sorte;
A decomposição completa o teu destino,
As atrações do Além levam-me além da morte.

 Para o Azul, para o Azul!... Vou perlustrar espaços,
Alma, - de sol em sol, - filtro que o corpo encerra...
Melhor fora, talvez, a noite de teus braços,
Meu amor; bem melhor! nos presídios da Terra.

 Exílios! De tua alma a minha alma se ausenta,
Soluças! Nosso adeus é agonia lenta,
A Quimera a morrer nos braços de um titã...

 Ficas em teu solar, sigo para o Mistério...
Quando seremos - LÁ! - no infinito sidério,
Almas nupciais na radiosa manhã?

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

A cantar ganhei dinheiro,
a cantar se me acabou.
O dinheiro mal ganhado
água deu água levou.

Uma Trova Hispânica da Colômbia
José Luis Díaz

¡Cuánto viento habrá pasado
por esta frágil veleta!
¡Cuánto juego ha naufragado
en mi alma de poeta!

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

FLOR DE CACTO

Vens do Azul, da Quimera, alma de olhos sidérios,
Que a minha alma de asceta aos paramos eleva
E à minha viuvez de mágoas e mistérios
Abre as aras do Além para o ofício da treva.

E eu bendigo, e sigo o teu corpo de Sombra,
Peito de névoa e luz; névoa das louras tranças,
Luz do olhar, desse olhar, deliciosa alfombra,
Calvário e serial de minhas esperanças.

Ilusões são punhais. Cada ilusão que aflora
A penumbra de um sonho, alma de olhos sidérios,
Leva o espectro da cruz às flâmulas da Aurora
Cruz do Além, cruz feral, de mágoas e mistérios.

A carícia cruel de teu seio fremente
Abre as asas do Além pra o ofício da Treva,
E eu te digo. E a minha alma, ajoelhada, sente
Que a tua alma de morta ao passado nos leva...

Trovadores que deixaram Saudades
Romeu Gonçalves da Silva
Juiz de Fora/MG, 1914 – 1984, Rio de Janeiro/RJ

A saudade machucada
e presa, em meu coração,
é uma pipa emaranhada
em fios de alta tensão...

Uma Trova de Teresópolis/RJ
Marisol

Improvisando meu mundo,
para tentar te esquecer,
fiz de um vazio profundo
minha razão de viver.

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

SOFIA

Eis que te vejo, Beatriz do Dante,
No alto céu de estrelas recamado,
Sonho, visão vivida em meu passado,
Enlevo de meus dias de estudante.

Em minha mente, como um sol levante,
Sobes da Consciência o mundo alado,
Mundo infinito, de ideais, criado
Da Inteligência à flama irradiante.

SOFIA: essência, emanação do Eterno,
Criadora das Formas, sempiterno
Jorro de inspiração dos Criadores;

Musa da Ideia e da Beleza, planas
Nos enlaces das asas soberanas,
Glória do Gênio, Guia de Condores!

Uma Trova de Volta Redonda/RJ
Eleonora de Almeida Monni

Pra ser feliz todo dia,
uma coisa eu aprendi:
espalhe amor e alegria
e o resto virá por si.

Um Haicai de Magé/RJ
Ariel Bernardes
11 anos

Sol fraco de inverno.
Vem do céu até o chão,
mas aquece pouco.

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

LÍSIS

 Lísis, o Amigo, as mãos me toma, e sigo...
A harpa preludia os Versos de Ouro...
Ouço das Musas o inspirado coro,
Em rumo ao Templo dórico prossigo.

 Ditoso quem possui o alvo tesouro
De um coração de verdadeiro amigo;
Ditoso aquele que do rito antigo
Conhece a acácia, o mirto e o verde louro.

 Lísis é a voz de Crótona, o espelho
Que reflete Pitágoras, o exemplo
Dos mais austeros Mestres do Conselho.

 Peregrino padrão, sublime aedo,
Guarda nos Versos as lições do Templo,
A chave de ouro do imortal segredo!

Uma Trova de Petrópolis/RJ
Edith Marlene de Barros

Esta vida é complicada,
difícil de se entender:
é sempre a pessoa amada
que faz a gente sofrer!

Um Haicai de São Paulo/SP
Alba Christina Campos Netto

crianças atentas
aos arrulhos coloridos:
periquitos soltos

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

Musa do Silêncio

I

No silêncio da tarde que se esfolha,
Vaga e macia nos ocasos de ouro,
Fito, cismando, o teu semblante, o louro
Tom do cabelo que o pesar desfolha.

Segues, por entre os túmulos, sombria,
Na saudade pungente. Erma e discreta,
A Mansão do Silêncio a alma inquieta
Cinge-te, à luz nostálgica do dia.

És do Silêncio a Musa merencória,
Leio-te na alma angustiosa história,
Triste fadário que teu véu recata;

Leio-te na alma a solidão imensa,
Só mitigada por suave crença,
Prece que o olhar em lágrimas desata.

II

Vês? Eu bem sei que a tua dor é nobre
E nobre o culto que te inspira a campa;
Sobes da mágoa a merencória rampa,
Ouves da tarde o evocativo dobre.

Das sepulturas o silêncio cobre
A paz macia que o arvoredo estampa;
O ocaso acolhe a radiosa campa,
E denso crepe teu semblante encobre.

Ouço-te o passo, peregrino soa.
A dor que sentes em minha alma ecoa,
Asa de crepe que o silêncio cruza;

Asa tão só, mas tão formosa, adeja,
E o níveo mármore do sepulcro beija...
Sombra de Samos, merencória Musa!

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Almerinda Liporage

Que triste constrangimento
tu me deixas, grande amigo,
pois apenas sofrimento
posso repartir contigo.

Uma Teia de Trovas de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

A Rosa chifrou o Cravo
que o deixou em polvorosa.
O Cravo ficou tão bravo
que chifrou também a Rosa!

E naquele bafafá,
nunca vi tanta chifrada
foi chifre pra lá e pra cá
parecia uma tourada!

Depois de tanta chifrada
vejam como terminou:
– A Rosa... despetalada;
O Cravo... só desmaiou.

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

NO REINO DAS SOMBRAS

 Plenilúnio. O luar molha as colunas dóricas...
Junto ao pronau medito, evocando o teu rosto.
Que saudade de ti, dessa tarde de Agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!

 Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...

 Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... e, quando a lua eleva

 A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
-Alma branca,alma irmã,alma em flor, alma eslava-,
Na poeira de sóis da solitude infinda.

Um Haicai de Magé/RJ
Elizabeth Oliveira Cruz
12 anos

Estrela de inverno.
Pisca ao longe sem parar
E ilumina a terra.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Hedda de Moraes Carvalho

Vem depressa... alonga os passos...
Traz a dor que anda contigo
e encontrarás nos meus braços
o consolo de um amigo!

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

PAREDRA

Vênus pagã, olhos de sete-estrelo,
A cabeleira rútila fulgindo...
Amei-te!... amor, nos olhos teus fulgindo,
Volúpia; luz do sol de teu cabelo.

A luxúria findou. Astro maldito,
Rolei do azul aos pélagos hiantes...
Procurava a minha alma... além, distantes,
Lótus colhi nos edens do Infinito.

Morreste. Ao vau da Sombra, compungido,
Boa que foras para meus delírios,
Levei teu nobre coração partido.

Só então, osculando o altar de pedra,
À luz morrente de funéreos círios,
Tua alma ouvi... - a minha Irmã, Paredra.

Recordando Velhas Canções
Pau de arara
(canção, 1965)

Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

Eu, um dia cansado que tava
da fome que eu tinha
eu não tinha nada
que fome que eu tinha ,
que seca danada no meu Ceará.

Eu peguei e juntei
um restinho de coisas que eu tinha :
duas calças velhas e uma violinha
e num pau de arara
toquei para cá.

E de noite eu ficava na praia de Copacabana
zanzando na praia de Copacabana
dançando o xaxado pras moças olhá.

Virgem Santa
que a fome era tanta
que nem voz eu tinha
Meu Deus quanta moça
que fome que eu tinha
Mais fome que tinha no meu Ceará.

Puxa vida que num tinha uma vida
pior do que a minha
que vida danada ,
que fome que eu tinha
zanzando na praia pra lá e pra cá.

Quando eu via toda aquela gente
no come que come
eu juro que eu tinha saudades da fome
da fome que eu tinha no meu Ceará

E ai eu pegava e cantava
e dançava o xaxado
e só conseguia porque no xaxado
a gente só pode mesmo se arrastá.

Virgem Santa
que a fome era tanta
qu'inté parecia que mesmo xaxado
meu corpo subia
igual se tivesse querido voar.

Vou-me embora pró meu Ceará
porque lá tenho um nome
aqui não sou nada
sou só Zé com fome
sou só Pau de Arara.

Nem sei mais canto
vou picar minha mula
vou antes que tudo rebente
porque estou achando que o tempo está quente
pior do que antes não pode ficar.

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

Beijei teu rosto molhado
e senti nos olhos teus
que o pranto é sempre salgado
pois nunca é doce um adeus!

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

ATLÂNTIDA - poema épico
[do Prelúdio]

Íon, no Espaço
Poeira cósmica na amplidão,
-Terra!-
Num círculo de aço,
Na órbita que o Destino retraçou;
Terra de servidão!...
Terra de expiação!...
Terra de redenção!...
Domínio de Mayá, - a encantadora,
Que vida e morte encerra,
De filtros cheia a ânfora sonora;
-Terra!-
Um mundo para o Homem,
Cujo corpo o teu limo formou;
Um nada do Infinito;
Penumbra das almas, cuja essência
A Essência Eterna irradiou;
Caçou-a em que Formas se consomem,
Quando a alma revoa,
Livre à Carne, ao Desejo, que agrilhoa!...
– Terra!

Um Haicai de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946-2009)

Noitinha na várzea:
com a lua na garupa
búfalos regressam.

Uma Trova de Natal/RN
José Lucas de Barros

Quem, do bom senso, ouve a voz
antes de agir sem pensar,
nunca se entrelaça em nós
difíceis de desatar.

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

ATLÂNTIDA - poema épico
Canto I: A Morte de Poseidonis

Inquire o Mago:
-Á proa, à proa... A onda esconde
Neste momento, Mestre, o cimo que rebrilha...
Olhai-o agora!... Vede!... aumenta e maravilha.

-É, Runá, de Tupã Boiera, a serra imensa,
A terra dos palmais que das ondas se adensa.
Pindorama, o país das tribos temerosas,
-A taba hospitaleira, as almas valorosas.

Sumakê, tu serás o íris da esperança;
A redourar na rede o sonho de criança;
Runá, - de Paititi a cidade fulgor
Levantarás, - e ireis com denodo e labor
Edificando o Reino, Atlântida futura,
De beleza moral e sublime cultura.

Servidores leais dos Santuários Brancos,
Dos Goécios contereis os terríveis arrancos.
A Magia do Bem vencerá a do Mal:
O Amor espargirá o culto de Baal.
Os templos do deus LUZ a Concórdia, a Amizade
Ao país levarão, de cidade em cidade.

A Flama brilhará na altiva Cordilheira,
Fanal - esclarecendo a Humanidade inteira.
Os pósteros virão das lindas do Planeta,
Pés roxos, a sangrar, do arrocho da calceta.
E a todos abrireis as plagas e os palmares,
E ditosas sereis na paz de vossos lares.

Hinos de Cidades Brasileiras
Olinda/PE

Olinda, cofre sublime
de brilhantes tradições.
Teu nome beleza exprime
e produz inspirações.
Teu céu, teu mar, teus coqueiros,
ruínas, praias, luar,
despertam sonhos fagueiros,
deslumbrando o nosso lar.

Estribilho:
Glória a Duarte Coelho,
que ouvindo o justo conselho
de inspiração genial,
deu luz, prestígio, beleza,
força,progresso e grandeza,
a ti, Olinda imortal.

Olinda, tão sedutora,
quanta beleza conténs!
sendo assim merecedora
do lindo nome que tens,
De nossa brasilidade
foste o berço singular!
No teu solo a liberdade
nunca deixou de brilhar.

Olinda, honrando a memória
do artista que te fundou,
com ele reparte a glória
que a tua fama alcançou.
Que majestade suprema
existe em tudo o que é teu!
tu és, Olinda, um poema
que a natureza escreveu!…

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Ary Viotti

Eu só queria entender...
quem poderia explicar
por que o amar faz sofrer
e o sofrer não faz amar?

Um Poema de Curitiba/PR
Dario Vellozo
(1869-1937)

SOLAU*
       A Nestor de Castro

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Loura de olhos monacais;
Eu rezo salmos a Dona Morte,
Sou o coral das Catedrais;
Nos meus idílios flavesce a morte,
A morte, — vinho das bacanais.

Volvei os olhos de esperança
A um cavaleiro Rosa-Cruz;
Os vossos olhos de esperança
São liras de ouro, alvas de luz;
São pulvinários de esperança,
Valquíria astral da Rosa-Cruz.

 Nos cinerários de meus sonhos
Arderam Silfos e Quimeras;
Em que sepulcro andam meus sonhos,
Ó Peregrina de outras eras?!...
Noiva, — sepulcro de meu sonhos,
Crisoberil das primaveras!

Eu sou o pajem de Dona Morte,
Entre castelos e solares;
Seguindo os passos de Dona Morte,
Subi a torres de sete andares,
Os belvederes de Dona Morte
Andam suspensos de meus olhares.

Andam suspensos de minha boca
Os nove arcanos da Alquimia;
Nos setiais de minha boca
Rezaram monjas noite e dia;
Jamais oscules a minha boca,
Estrela d´alva da Nostalgia!...

 Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura, de olhos monacais,
A Morte embala meus sonhos mortos
Nas absides das Catedrais.
A Morte é a noiva dos sonhos mortos,
A Morte é círio das bacanais.

Deixa que mortos enterrem mortos,
Loura, de olhos monacais!

* Solau - Composição bem antiga, da época anteclássica renascentista, de caráter melancólico e habitualmente acompanhada por música. Autores que a cultivaram: Bernardim Ribeiro,Sá de Miranda, Jorge de Vasconcelos, Gonçalves Dias, Almeida Garret, Carlos D. Fernandes (simbolista brasileiro). Poetas modernos como Manuel Bandeira e Mário Quintana, também, escreveram poemas com o título de Solau.

Chuveirão Biográfico do Poeta
         Dario Persiano de Castro Velozo nasceu no Rio de Janeiro, a 26 de novembro de 1869, mas viveu em Curitiba, Paraná, onde faleceu em 28 de setembro de 1937.
         Estudou no Liceu de São Cristóvão (de 1880 a 1883), tendo se tornado aprendiz de encadernador (1883).
         Sua vida até a mudança para Curitiba é registrada em seu livro Retiro Saudoso, de 1915 , narrando sua infância no Rio de Janeiro.
         De 1886 a 1889 estudou no Pathernon Paranaense (onde conheceu Eusébio Mota - apesar de não ter sido seu aluno -, um professor que estimulou muitos dos seus à Arte Literária) e, depois, no Instituto Paranaense. Neste último, fora companheiro de turma dos novíssimos de sua geração: Silveira Netto, Nestor Victor, Emílio de Menezes, Emiliano Pernetta,  etc.
         Em 1889 lança seu primeiro livro intitulado Primeiros Ensaios, editorado nas oficinas do Dezenove de Dezembro. Este livro teve como principais influências ao jovem Dario Vellozo os neo-românticos Lord Byron, Lamartine e Musset.
         De 1889 a 1893 trabalhou em cargos burocráticos da repartição de polícia e na secretaria de Fazenda do estado do Paraná.
         Em 1890 , com a fundação da Revista do Club Curitybano, que tinha como Diretor seu pai Cyro Vellozo, temos o desabrochar de uma tendência literária de Dario Vellozo, tendo seus poemas e crônicas publicados desde o segundo número deste periódico (de 01 de Fevereiro de 1890), com Êxtase Divino.
         Em 1892 , com seu espírito de liderança e sociabilidade, funda nas oficinas do Club Curitybano (juntamente com Augusto Stresser e Brasílio Costa) o Grêmio Ensaios Literários. Neste ano, as influências do recém chegado da Europa poeta Jean (João) Itiberê da Cunha sobre sua leitura ficam evidenciadas.
         Descobre neste ano Poe, Flaubert e Huysmanns e, no ano seguinte: Verlaine, Rimbaud, Mellarmé, L'Islle Adam, além de Péladan, Stanislas de Guaita, Maurice Maeterlinck, Eliphas Levi e Papus (sendo esses cinco últimos pela influência direta de João Itiberê).
         Em 1893 também vê-se envolvido na fundação de uma nova revista, Azul, que fora uma primeira tentativa do grupo do Cenáculo (periódico simbolista inaugurado em 1895). A Revista Azul tem interrompida sua sequência em razão da Revolução Federalista, na qual Dario Vellozo, juntamente com os outros participantes da Revista, lutam ao lado dos legalistas.
         Em 1893, casou-se com Escolástica Moraes, com quem teve doze filhos: Porthos, Cyro, Zulmira, Carmen, Violeta, Valmiki, Ilian, Athos, Alcione, Lysis, Isis e Alyr, todos naturais de Curitiba.
         De 1894 a 1898 era o redator dos debates ocorridos no congresso legislativo do estado paranaense.
         Em 1894 torna-se o Diretor Literário da Revista do Club Curitybano, mudando a grafia deste último para Coritibano. Irá permanecer na Direção desta revista até 1900
         Fez parte do Movimento Simbolista no Paraná, juntamente com Emiliano Pernetta, Rocha Pombo, Nestor de Castro, entre outros.
         Em 1895 funda a Revista O Cenáculo, junto com Antonio Braga, Silveira Neto (pai de Tasso da Silveira) e Júlio Pernetta (irmão de Emiliano Pernetta), principal grupo de poesia do Estado do Paraná, na qual temos caracterizada toda a veia simbolista não só dos autores curitibanos, como de todo o Brasil. Essa revista terá uma curta duração de dois anos, mas o suficiente para deixar suas marcas.
         Em 1896 lança a obra em prosa Esquifes. Neste mesmo ano intensifica seus estudos de Ciência Oculta, com traduções de autores ocultistas europeus publicados na página do Club Curitybano. Também envolve-se em polêmica neste ano ao publicar nas folhas d'O Cenáculo o texto Pelos Índios! que é apoiado pela Maçonaria de seu estado.
         Em 1897 publica dois fabulosos livros (parte de uma trilogia junto com Atlântida, de 1938): Alma Penitente e Althäir, além de colaborar no periódico A Pena.
         Em 1898 é nomeado professor interino e, depois, efetivado (após concurso) como professor de História Universal e do Brasil (1899) no Ginásio Paranaense antigo Instituto paranaense, no qual estudou. Neste ano também funda o Jornal Jeruzalém, que irá intensificar seus polêmicos (para a época) discursos anti-clericais, também colaborando em Pallium.
         Em 1899 funda A Esphynge Jornal, e mantém contatos com os grupos de Papus e de Jollivet-Castelot (Groupe Independente de Études Esoteriques e Association Alchimique de France, respectivamente), promovendo a ideia da constituição de suas escolas em terras brasileiras. Não a toa, fora contemporâneo do efervescente final de século ocultista europeu, fazendo-o também presente no Brasil.
         Foi professor também da Escola Normal e um dos membros fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Paranaense, criado em 1900.
         Seus discursos anti-clericais e republicano-socialistas, além das questões pedagógicas (visto que era professor de História no Ginásio Paranaense) irão margear suas teses lançadas de 1902 a 1908 como: Lições de História (1902 ), Escola Moderna (1903 ), Da Instrução Pública (1904 ), No Sólio do Amanhã (1905 ), Derrocada Ultramontana (1905 ), Voltaire (1905 ), Pátria Republicana (1905 ), Compêndio de Pedagogia (1907 ), Moral dos Jesuítas (1908 ).
         Em 1908 publica o livro de poesias Hélicon e inicia a publicação do periódico Myrto e Acácia.
         Era extremamente bem querido por seus alunos, onde sua oratória, desprovida de retóricas, era apaixonante.
         Funda o Instituto Neo-Pitagórico em 1909 , onde constrói um fabuloso e helenístico "Templo das Musas" (1918 ), procurando reviver a magna Grécia, tendo publicado no ano anterior os estatutos da Sociedade Neo-Pitagórica. Suas Celebrações Místicas se deram entre as Colunas do mesmo, atraindo inúmeros Iniciados e admiradores.
         Ali funda sua Tipografia (em 1911 , de nome Tipografia Crótona Vellozo & Filhos), na qual edita seus livros e anais de estudos dos alunos de seu Instituto. Este ano é fundamental como divisor de águas para Dario Vellozo. Além da coroação de Emiliano Pernetta como o mais célebre poeta de Curitiba, inicia-se a Celebração do Equinócio (juntamente com seus alunos do Ginásio Paranaense) com a festa de Clóris e a festa de Ceres: Delfos e Elêusis erguendo cânticos à Fraternidade.
         Inicia numerosos intelectuais (não só brasileiros) em sua Sociedade. João Itiberê da Cunha (autor Simbolista, que iniciou inúmeros autores de Curitiba nesta veia literária, tendo feito parte do movimento original francês, amigo de Maurice Maeterlinck - Simbolista belga - e que lança seu début em francês, o ótimo Préludes), que o inicia verdadeiramente nos estudos simbólicos no último decênio do século XIX, deu origem à um apaixonado discípulo.
         Em 1919 funda um ramo da Sociedade Teosófica em Curitiba, de Blavatsky, chamado Loja Teosófica Nova Crótona.
         Em 1920 publica os livros O Habitat e a Integridade Nacional e, em homenagem à morte de seu filho menor, O Livro de Alir.
         Em 1921 , Tasso da Silveira (seu ex-aluno no Ginásio Paranaense e filho de Silveira Netto, um dos fundadores do grupo do Cenáculo) irá publicar um livro em sua homenagem intitulado: Dario Vellozo: Perfil Espiritual.
         Em 1922, com o centenário da Independência, temos a publicação (por Dario Vellozo) das obras: Horto de Lisis, Símbolos e Miragens, Missão Social do Brasil, O Brasil e o Ideal Pitagórico.
         Em 1923 ele e seus alunos passam a editar uma coluna no Jornal Gazeta do Povo, de nome Coluna Dórica. Neste mesmo ano tem publicado seu livro No Limiar da Paz.
         Em 1929 reúne poesias suas publicadas entre 1892 e 1929 (fase Simbolista) e publica o ótimo Cinerário.
         Em 1931 é inaugurado o periódico A Lâmpada, de seu Instituto.
         Em 1932 afasta-se do magistério. Daí trata de escrever Atlântida, finalizada em 1933 mas somente publicada (post -mortem) em 1938
         Sua última obra publicada em vida chamava-se Jesus Pitagórico e fora publicada em 1936 , quando já se encontrava enfermo.
         Postumamente, foram publicadas as obras inéditas (além de Atlântida): Fogo Sagrado (1941 ), Psiquê e Flauta Rústica e, numa reunião do Instituto Neo Pitagórico (em três volumes): Obra Completa (1979 ), com um quarto volume lançado em 1975
         Cabe salientar aqui que, até sua morte em 28 de Setembro de 1937 , Dario Vellozo permaneceu um eterno e admirável Simbolista, tornou-se um pagão de primeira linha ao tentar reviver entre seus convíveres a inigualável Grécia e seus cultos.
         Tão admirável persona teve seu enterro seguido de grandioso cortejo que, passando pelos bairros pobres da cidade de Curitiba, teve uma multidão a seguir e a celebrar a morte do mais formidável poeta, professor e visionário aparecido por terras curitibanas.
         Como educador, foi autor de dois livros didáticos que foram muito utilizados pelas escolas curitibanas: “Lições de história” (1902), que foi reeditado várias vezes até o final dos anos 1940, e “Compêndio de pedagogia” (1907).
         Graças a sua produção intelectual como poeta, educador e filósofo, e sua atuação social, exerceu muita influência na vida cultural de Curitiba entre o final do século XIX e início do século XX. Sua idéias e ações foram perpetuados através de seus discípulos, dos quais o principal foi seu genro Rozala Garzuze.

Fontes:
– MURICY, Andrade. Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, vol. 01. SP: Perspectiva, 1987.
– Rubens Malcher Pinho. O Caminho da Serpente.

 
A alegria de viver
vai depender do momento...
Veranear pode ser
perfeito acontecimento.

A Escola se consolida     
quando o aluno, bem formado,
vai bem na escola da vida
por ter sido preparado!

Alegria de viver,
jamais poderá ter freios...
Sorrisos vão aquecer
todos os meus galanteios!

Atraídas pelas cores,
pela beleza que impera,
crianças fazem das flores
saudação à Primavera!

Buscando tecnologia,
o mundo, de hoje, se esquece
que a família em harmonia
tem o amor que nos aquece!

Céu do Brasil refletido
nas águas de um grande rio
retrata o país movido
por gente de muito brio!

Chegar às nuvens é sonho
de fugir da desventura,
mas jamais será tristonho
aquele que a Deus procura!

Cheiro de mato, gorjeio
dos pássaros... Que saudade!
Nada mudou e o passeio,
uma volta à mocidade!

Como faz a talhadeira
retirando toda aresta,
amolda-te por inteira:
– a vida vira uma festa!

Com uma enorme tristeza
que invade o meu coração,
eu contemplo a natureza,
fugindo da solidão.

Cor da pele? Quer saber?
não faz ninguém diferente.
Diferente é sempre ter
coração benevolente!

De barco, para o recanto,
fui por rio sinuoso,
e aquele pavor, no entanto,
tornou-se algo prazeroso!

Dia e noite navegando,
eu busco a felicidade...
céu e mar vou contemplando,
vendo você com saudade!

Do trem, a vista florida
logo foi me surpreendendo;
se assim olharmos a vida,
de sonhos vamos vivendo!

É gente que vai e vem
nesta vida de labuta;
São Paulo não se detém,
é cidade resoluta!

Enquanto favorecidos
levam vida sem coragem,
muitos pobres, decididos,
lutam, fraquejam, mas agem!

Esta família preciosa
ninguém de nós escolheu;
cordial e generosa,
foi Deus quem nos concedeu!

E vendo o tempo que passa,
afloram recordações:
– as retretas lá na praça,
flertes causando emoções!..

É verão, a natureza
se aprimora: o sol ardente,
o azul do céu... e a certeza
desse Deus onipotente!

Folhas e folhas rasgadas,
escritas com tanto ardor,
hoje “páginas viradas”
do que foi um grande amor!…

Homem de olhar penetrante,
sem que a donzela resista,
está certo que, por diante,
estará feita a conquista.

Na grinalda e no buquê,
flores brancas e amarelas;
se tudo tem o porquê:
isto é sonho das donzelas!

Não precisa ter chuteira
para mostrar futebol;
quem tem batida certeira
terá um lugar ao sol!

Nem sempre ter liberdade
traz total satisfação;
eu, presa a você, verdade,
mantenho acesa a paixão!

Num céu de rara beleza,
um arco-íris resplandece...
e, olhando, tenho a certeza:
é luz de Deus que aparece.

Onde tudo foi escuro,
mar e lua resplandecem;
sendo assim, eu asseguro:
namorados aparecem!...

O “ser feliz” nesta vida
está na simplicidade,
um só carinho, querida,
traduz a felicidade!

Preservação se constata
no Mato Grosso do Sul,
pois voa por toda a mata
a formosa arara azul!

Que bom se o Sol encoberto,
por nuvens de poluição,
mostrasse ao homem, por certo,
o tamanho da agressão!

Que bom seria se a Terra
estivesse em boas mãos,
liberta de qualquer guerra,
seriam todos irmãos!

Registrar minhas andanças
me traz intensa alegria;
com essas doces lembranças,
não deixo a vida vazia.

Saudemos nossa amizade
com o mais alegre brinde:
que ela a ninguém desagrade,
e que jamais ela finde!

Sei que nada nos aparta,
nem a distância malvada,
pois ao abrir sua carta...
Vejo-me até abraçada!

Tempo passa, vai embora...
restam lembranças, saudade...
busque, então, em cada aurora,
a doce felicidade!

Um rapaz encantador
agrada qualquer donzela,
se faz as juras de amor
num jantar à luz de vela.

Vale a pena envelhecer,
viver o hoje e ser feliz;
o passado remover
sem deixar a cicatriz!

Vão meus beijos tão distante,
levando o que mais esmero:
sentimento fascinante
de um amor sempre sincero!

Voando a primeira vez,
por entre nuvens passei;
quem sabe um dia, talvez...
estrelas contemplarei.

Folclore Brasileiro
O Boto Cor de Rosa


Jeso Carneiro
Boto Cor de Rosa

Das águas surge
Moço alvo encantador
Vem em busca da cabocla
Para lhe dar seu amor.
Galante, todo faceiro
Expele o odor da sedução
Tem cheiro de rosa
Vim de cá, manjericão
Para chamar a fogosa cunhantan.
Veste terno,
Dança com empolgação
Faz a harmonia dos passos
Magia linda da acasalação.

Boto Rosa!
É boto macho!
Com fama de conquistador
Vem do fundo das águas
Para em terra firma mostrar seu valor.
Dizem que é loiro
Alvinho de olhos azuis
Mas tem o traço do caboclo tapajônico
Honesto, formoso e namorador.
Tem magia, tem amor
Tem nome de rosa
Mas nada tem a ver com flor.

É um moço bem bonito
Que enfeita o Sairé
Vestido de branco passeia contente
Fogoso e sedutor
A cintilar beleza
No luar da praia na linda ilha do amor.

Boto Cor de Rosa!
Saí em noite de Sairé
Acesso e todo prosa
Exibindo elegância, charme e sedução
Para logo seduzir
A cabocla mais linda e formosa
Da vila de Alter do Chão.
__________________
Guerreiros Mura
A Sedução do Boto cor-de-rosa

Todo o meu pecado
Foi amar uma linda sereia do mar
E como lição herdei a maldição
De viver nas águas contemplando a solidão
Os mistérios e as mágoas dos rios a imensidão

Mas o feitiço das escuridão
Quebrou-se ao luar
O boto cor-de-rosa emergiu
Dele o encanto surgiu
De boto a um lindo rapaz
Astucioso e sagaz
Do fundo do rio Solimões
Uniu-se dois corações

Veio seduzir a cirandeira bela
Dançarina, dançarina
De sua paixão
Com fitas brancas e amarelas
Dança a dança, dança a dança
Da sedução

Está se deslumbrando senhor
Uma linda estória de amor
Com a cirandeira bela fogosa
Amor do boto cor-de-rosa.
_________________
José Pereira dos Santos
O boto cor de rosa

Moça bonita
Sentada no banco,
Preste atenção
Ao rapaz de branco

Da festa, o mais belo,
O melhor dançador,
Sabe fazer-te
Juras de amor.

Dança muito bem!
Promete-te o céu,
Porém verifica
Se tira o chapéu.

À beira do rio
Com ele não desça,
Antes que tire
O chapéu da cabeça.

Dizem que conquista
Encanta a modesta,
Moça mais bonita
Presente na festa.

Aqui no Madeira
No rio ou no porto,
Ainda se conta;
A lenda do boto.

A Lenda do Boto Cor-de-rosa

Existem dois tipos de botos na Amazônia, o rosado e o preto, sendo cada um de diferente espécie com diferentes hábitos e envolvidos em diferentes tradições. Viajando ao longo dos rios é comum ver um boto mergulhando ou ondulando as águas a distância. Se diz que o boto preto ou tucuxi é amigável e ajuda a salvar as pessoas de afogamentos, mas o rosado é perigoso. Sendo de visão ineficiente, os botos possuem um sofisticado sistema sonar que os ajuda a navegar nas águas barrentas do Rio Amazonas.

A Lenda

A lenda do boto é mais uma crença que o povo costumava lembrar ou dizer como piada quando uma moça encontrava um novo namorado nas festas de junho.
É tradição junina do povo da Amazônia festejar o nascimento de Santo Antonio, São João e São Pedro.
Esta lenda tem sua origem no boto-cor-de-rosa, um mamífero muito semelhante ao golfinho, que habita a bacia do rio Amazonas, e também pode ser encontrado em países, tais como: Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela. As diferenças básicas são as seguintes: o golfinho vive no mar, e o boto vive em água doce, o golfinho tem cor acinzentada e o boto pode ser acinzentado, preto ou possuir cor avermelhada.
Durante as festas juninas, quando são comemorados os aniversários de São João, Santo Antonio e São Pedro, a população ribeirinha da região amazônica celebra estas festas dançando quadrilha, soltando fogos de artifício, fazendo fogueiras e degustando alimentos típicos da região. Reza a lenda que é quando o boto-cor-de-rosa sai do rio transformando-se em um jovem elegante e belo, beberrão e bom dançarino, muito bem vestido trajando roupas, chapéu e calçados brancos. O chapéu é utilizado para ocultar (já que a transformação não é completa) um grande orifício no alto da cabeça, feito para o boto respirar. É graças a este fato que, durante as festividades de junho, quando aparece um rapaz usando chapéu, as pessoas lhe pedem para que ele o retire no intuito de se certificarem de que não é o boto que ali está.
A tradição amazônica diz que o boto carrega um espada presa ao seu cinto, mas que, no fim da madrugada, quando é chegada a hora de ele voltar ao leito do rio, é possível observar que todos seus acessórios são, na verdade, outros habitantes do rio. A espada é um poraquê (peixe-elétrico), o chapéu é uma arraia e, finalmente, o cinto e os sapatos são outros dois diferentes tipos de peixes.
Este desconhecido e atraente rapaz conquista com facilidade a mais bela e desacompanhada jovem que cruzar seu caminho e, em seguida, dança com ela a noite toda, a seduz, a guia até o fundo do rio, onde, por vezes, a engravida e a abandona. Por isso, as jovens eram alertadas por mulheres mais velhas para terem cuidado com os galanteios de homens muito bonitos durante as festas, tudo pra evitar ser seduzida pelo infalível boto e a possibilidade de tornar-se, por exemplo, uma mãe solteira e, assim, virar motivo de fofocas ou zombarias. Seduzidas, as mulheres mantém encontros furtivos com esta entidade, que ao amanhecer retorna ao fundo dos rios, onde reside.
Conta-se, que certa ocasião, havia uma tapuia que vivia só em sua palhoça e que de repente começou a emagrecer e entristecer sem aparentar moléstia alguma. Desconfiados que fosse obra do Boto, os homens da tribo fizeram-lhe uma emboscada.
À noite viram chegar ao porto um branco que não era do lugar e dirigiu-se para a choupana. Acompanharam-no e quando ele entrou, de mansinho abriram a palha da parede e viram-no querer deitar-se na mesma rede da tapuia. Então, um tiro o prostrou e arrastando-o para a barranca do rio, confirmaram suas suspeitas, tal homem era realmente o Boto. A autoridade local não fez corpo de delito, pois matar um boto não é crime previsto em lei.
Raul Bopp, um poeta profundamente brasileiro, no “Cobra Norato”, refere-se assim, graciosamente, a um caso do Boto:

“- Joaninha Vintem: Conte um causo…
- Causo que?
-Qualquerum.
Vou contar causo de boto:
Amor chovia
Chuveriscou
Tava lavando a roupa Maninha
Quando o boto me pegou.

-Ó Joaninha Vintem
Boto era feio ou não?

- Aí, era um moço novo Maninha,
tocador de violão…
Me pegou pela cintura…

- Depois que aconteceu?…

Xentes!
Olha a tapioca embolando no tacho!

- Mas que boto safado!

Nos conta a poesia, que a pobre cunhã-poranga (moça bonita), por não ter a sorte de possuir um muiraquitã protetor, não conseguiu livrar-se das malhas de sedução do boto.
Nas noites de luar do Amazonas, afirmam alguns, que os lagos se iluminam e pode-se ouvir as cantigas de festas e danças onde o Boto, ou também chamado de Uiara, participa.
Sedutor e fecundador, conta-se que o boto sente o odor feminino a grandes distâncias, virando as canoas em viajam as mulheres. Isso ocorre sempre a noite, e para evitar o boto, deve-se esfregar alho na canoa, nos portos e nos lugares que ele goste de parar.
As primeiras alusões à lenda apareceram em meados do século XIX, inicialmente referentes a sua transformação em uma bela mulher que atraia os moços ao rio, afogando-os, e pouco depois, aparece como o homem-boto nas cercanias do rio.
Sobrexistindo hermafrodita, o mito termina pela fixação morfológica dicotômica em Boto e Mãe D’Água, o cetáceo, restringindo-se às mulheres e a Iara, aos homens.
A inexistência, no Brasil, nos séculos XVI, XVII e XVIII, de entidades com os atributos do boto, faz supor que a lenda seja de origem branca e mestiça, com projeção nas malocas indígenas e ribeirinhas.

Simbolismo

O Boto é portanto, o Dom Juan da planície Amazônica. Seu prestígio, longe de diminuir com as dissipações do tempo, ganha novos florões com os casos que todo dia lhe aumentam o lendário e a fé do ofício. O papel que lhe atribuem não difere muito das proezas que assinalaram a famosa personagem de “Tirso de Molina”. O asqueroso mamífero misciforme, com aqueles seus dois a três metros de comprimento, com aquele focinho pontiagudo e encabelado, passa por ser um herói mais atrevido, em matéria de amor, de que os tipos de Merimée.
O Boto é hoje um animal em extinção e grande culpa disso é por que o homem lhe conferiu poderes mágicos. Muitos pescadores os capturam para corta-lhes o pênis com a finalidade de fazer um amuleto de “conquista varonil” ou para combater a impotência sexual. Suas nadadeiras também são utilizadas na fabricação de remédios. Seus olhos são usados como atrair as mulheres. Os pajés costumavam realizar rituais para preparar os olhos do animal a ser entregues e usados pelos necessitados.
A crença neste mito está disseminada pela população ribeirinha do Rio Amazonas. O Boto representa o “animus”das mulheres, que faz inter-relação entre o consciente e o inconsciente. O inconsciente masculino é feminino e regido pelo “anima”. O “animus” é a figura masculina arquetípica que reflete o princípio masculino nas mulheres. O Boto é este “animus arquetípico” representando tanto o inconsciente individual quanto o coletivo. Sua grande beleza e poder de sedução são explicados, quando entendemos que ele não é um homem e sim a imagem que as mulheres fazem do homem.
O Boto é símbolo de sedução e energia vital.
Todos os animais aquáticos simbolizam o psiquismo, esse mundo interior e tenebroso através do qual se faz conexão com Deus ou com o Diabo.
De natureza ambígua estes seres se ligam aos rios e oceanos, lugar de todas as fascinações e de todos os terrores, imagem da mãe e da deusa-mãe primitiva em seu aspecto generoso e criador e, ao mesmo tempo, terrível. Mares, rios, são lugares selvagens e inumanos, onde a lógica nunca prevalece. É por isso que todos os mitos e divindades marinhas conservarão sempre um caráter arcaico. Saindo dessa água enigmática, os peixes tornam-se eco deste terror antepassado, que roça o desconhecido.
O Boto é a figura popular das águas e do folclore da região amazônica e sua aparência é de um golfinho. Os órgãos sexuais quer do Boto, quer da sua fêmea, são muito utilizados em feitiçaria, visando a conquista ou domínio do ente amado. Porém o mais utilizado do mesmo é o olho do Boto, que é considerado amuleto do mais forte na arte do amor e sorte. Dizem mesmo que, segurando na mão um amuleto feito de olho de Boto tem que ter cuidado para quem olhar, pois o efeito é fulminante: pode atrair até mesmo pessoas do mesmo sexo, que ficam apaixonadas pelo possuidor do olho de Boto, sendo difícil de desfazer o efeito…Conta-se algumas histórias em que maridos desconfiados de que alguém estava tentando conquistar suas mulheres armaram uma cilada para pegar o conquistador. A cilada geralmente acontece à noite, aonde o marido vai a luta com o seu rival, mesmo ferido, consegue fugir e atirar-se n’água. No dia seguinte, para a surpresa do marido e demais pessoas que acompanharam a luta, o cadáver aparece na beira d’água com o ferimento da faca, ou de tiros, ou ainda com o arpão cravado no corpo, conforme a arma utilizada, não de um homem, mas pura e simplesmente um Boto.
O boto ou Uauiara, também é conhecido por ser uma espécie de protetor das mulheres, cujas embarcações naufragam. Muitas pessoas dizem que, em tais situações, o boto aparece empurrando as mulheres para as margens do rio, a fim de evitar que elas se afoguem.
Assim sendo, na região norte do Brasil, quando as pessoas desejam justificar a geração de um filho fora do casamento, ou um filho do qual não se conhece o pai, é comum ouvir que a criança é filha do boto.
––––––––––––––––––––––––-
Fontes:

Alessandra Almeida da Rocha*
Análise estilística de alguns poemas de Cecília Meireles (Parte III)

“Epigrama Nº 2”

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinastes aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

O poema é iniciado por um predicativo do sujeito que vem antecedendo a palavra “felicidade”, ao fazer uma afirmação sobre a mesma. É narrado em segunda pessoa:

 És precária e veloz, Felicidade.

 A palavra “felicidade”, neste verso funciona como um vocativo, pois é personificada. Assim, ela passa a ter vida e a ser tratada como uma pessoa que convive entre nós. O predicativo, citado , já nos sugere a transitoriedade e a fugacidade da felicidade,.

Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.

 No segundo verso desta primeira estrofe, o “eu” lírico parece conversar com a “Felicidade”, mostrando que é difícil prendê-la, pois a sua passagem é rápida, quase não se percebe a sua existência.
No terceiro verso, há uma inversão “Foste tu”, sugerindo que o “eu" lírico culpe a “Felicidade” por fazer com que os homens acreditem na existência do tempo, que viviam melhor antes desta noção.
A atribuição da culpa continua na quarta estrofe, pois se afirma que a Felicidade ensinara aos homens a invenção das horas para medir o tempo, para marcar o momento de felicidade que eles têm em suas vidas, visto que ela (a felicidade) é extremamente passageira. A respeito disto, a própria Cecília Meireles define a felicidade: “Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros” (CM, LC, p. 15)
Para ela, esse sentimento é mutante, fugaz, como foi observado no poema, até então.
A personificação da “felicidade” continua a ser usada, pois esse vocativo surge novamente nesse primeiro verso, da segunda estrofe, seguido do predicativo do sujeito “és coisa estranha e dolorosa”. Notamos uma percepção do “eu” lírico sobre a “felicidade”, ou seja, quanta dor ela é capaz de deixar. Há uma antítese entra as palavras “felicidade” X “dor”, indicando o contraste que existe. Achamos que quem é feliz não sofre e essa idéia é desconstruída, pois é através da dor, do sofrimento, que alcançamos a felicidade.
No segundo verso da segunda estrofe, o “eu” lírico categoricamente afirma que a vida sempre será triste porque os homens buscam uma coisa que dura pouquíssimo tempo, que existe em apenas alguns momentos, como é observado no terceiro verso, que diz:

porque um dia se vê que as horas passam

 A palavra “horas” é uma metáfora e significa tudo, ou seja, felicidade, vida, objetos e que acabarão sem deixar marcas de sua presença.
No último verso desta última estrofe, há continuidade do verso anterior, como se fosse finalizada a sua conversa, pois apenas o tempo continuará a existir, porém sem ninguém, acima de nações e povos, persistirá e existirá durante as gerações e os milênios.
O tema abordado é do da fugacidade da felicidade, de sua meteórica passagem na vida de cada ser humano, que também é muito breve. Existe uma ligação entre a fragilidade da vida e da felicidade, pois nós vivemos buscando a felicidade, deixamos que passe em pequenos momentos do nosso dia-a-dia, enquanto o tempo, imperdoável, age silenciosamente.
Ocorrem rimas alternadas entre as palavras “demoras” (segundo verso, primeira estrofe) e “horas” (quarto verso, primeira estrofe), sugerindo a passagem rápida das horas . Também, entre “triste” (segundo verso, segunda estrofe) e “persiste” (quarto verso, segunda estrofe), pois a tristeza por essa existência da felicidade persiste, percebendo-se a melancolia que existe nessa árdua procura.
O recurso do cavalgamento é usado em:

Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

Tais versos nos sugerem que o diálogo entre a “felicidade” e o “eu” lírico é tranqüilo, sem perturbações.
Para demonstrar a passagem veloz “dessa tal felicidade”, o poeta usa palavras que imprimem um ritmo acelerado, tais como: “veloz”, “horas”, ”passam”, “tempo”.
Existe a presença de sinalefa e hiato nestes versos:

És precária e veloz, Felicidade
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo
e, para te medir se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.

Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

Esses versos mostram-nos a fluidez do discurso do “eu” lírico. A presença da cesura indica-nos uma pequena pausa do “eu” lírico em seu pensar. Observemos estes versos:

Foste tu / que ensinaste aos homens que havia tempo,
porque junto um dia se vê / que as horas todas passam.

O poema é composto por dois quartetos, uma das formas tradicionais, herança dos simbolistas, bastante utilizada na obra de Cecília.
Neste poema há o uso das assonâncias em /a/, /i/,/o/,/e/, indicando a tristeza, dor e melancolia do “eu" lírico, vejamos estes exemplos:

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa

e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

As aliterações em /s/ e /r/ nos lembram tanto a velocidade, quanto os obstáculos, como nos versos abaixo:

 porque um dia o se vê que as horas todas passam

e, para te medir, se inventaram as horas.

 A imagem visual é sugerida no poema pelas palavras “horas”, “tempo”, “passam”, dizendo-nos que vemos a vida correr.
O título Epigrama, que significa poesia breve e satírica, representa esse diálogo que gostaríamos de travar com a felicidade e que Cecília consegue, em um tom irônico bem suave, na qual ela satiriza a felicidade e nossa insana procura, deixando-a escapar em quase todos os momentos de nossa existência.

continua… “Criança”

Fonte:
Revista Philologus, v. 16, p. 1-1, 2000.
_______________
*Alessandra Almeida da Rocha, atualmente é professora docente I - Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Educação e da rede privada do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa. Graduação em Letras, na UERJ e Pos-graduação em Língua Portuguesa pela UERJ-FFP.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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