Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 374)




Uma Trova de Paranavaí/PR
Renato Benvindo Frata

Nas margens do Paraná
borboletas se levantam
pintando em panapaná,*
em cuja beleza encantam.

*Bando de borboletas, que migram em certas épocas, formando verdadeiras nuvens.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Adilson Galvão

Prevendo a grande viagem
    a qual farei qualquer dia,
    reservei uma passagem
    para o trem da poesia.

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

..E A VIDA CONTINUA

Aos poucos meus amigos vão embora...
Saudade hospitaleira abre janelas
e os ares das paisagens amarelas
aumentam o vazio que devora.

As mãos saudosas ficam sem aquelas
que tanto me afagaram mundo afora
nas horas tristes bem fora de hora
e nos momentos das tertúlias belas.

E assim eu sinto que também vou indo
na esteira da fatal apoteose.
Sublime é caminhar sempre sorrindo

sabendo que ao beber da mesma dose
os planos das paisagens verdejantes
ressurgirão sorrindo como antes.

Uma Trova Humorística de Porto Alegre/RS
Doralice Gomes da Rosa

Dois pijamas, dialogando,
no varal dependurados:
- À noite, estão nos usando...
pra quê, se acordam pelados?

Uma Trova de Sapucaia do Sul/RS
Neoly de O. Vargas

Doces lembranças guardadas,
    no peito, quem não as têm?
    – De caminhar de mãos dadas
    por sobre os trilhos do trem.

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

CONSCIÊNCIA 

Insisto ultrapassar aquela fresta
notória nas verdades difundidas;
procuro a alternativa que me resta
nas frases benfazejas de outras vidas.

Então eu sigo ao rumo que se atesta
sedimentado às fontes bem hauridas
na explícita vereda mais modesta
que eleva à paz no amor das mãos unidas.

Auto-perdão é o que preciso agora;
ver o passado a limpo ir embora;
a consciência em pluma levitar.

As hastes nos espinhos tão robustas
aclaram as fraquezas mais vetustas
das falsas flores perseguindo o ar!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Deus não criou infelizes...
Os infelizes se fazem...
Mas quem pode interromper
o destino que eles trazem?!

Uma Trova Hispânica do México
Ernestina Ramírez Escobar

En palabra y pensamiento
debe tener coherencia
aquel que en todo momento
limpia quiere la conciencia.

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

TRANSLAÇÃO DA AUSÊNCIA
 (Homenagem a Miguel Russowsky, aniversário de passamento ocorrido em 3.10.2009)

Com uma volta ao sol sem sua companhia
a saudade a doer procura no universo
uma estrela crescente em rima de mais verso
e eis que encontra um sorriso em forma de poesia!

Meditando perlustro um soneto e converso
com estrofes ativas sem tisne, elegia.
(e eis que encontro um sorriso em forma de poesia)
E a sua alma brilhante e emersa... e eu... imerso!

Sua ausência me acode num pranto doído
e afugenta o vazio ao cosmo infecundo;
me acalanta presente sem nunca ter ido.

Com a sua energia a sublimar meu mundo
eu rogo ao Criador descerrar esse véu...
e eu poder abraçar nosso doutor MIGUEl!!

Trovadores que deixaram Saudades
P. de Petrus
(Pedro Bandettini)
São Paulo/SP, 1920 – 1999, Rio de Janeiro/RJ

Certos olhos, já cansados
pelo tempo que passou,
lembram faróis embaçados
que o mar da vida embaçou.

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Zeni de Barros Lana

Nas asas da inspiração,
alço voos de esperanças
e na lira da emoção,
dedilho velhas lembranças.

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

CREPÚSCULO 

À tarde bocejante no cenário
plangente o sol despede-se do dia.
Ecoa sibilante nostalgia
num canto o canto altivo do canário.

Sonora à rede em pausa de harmonia,
parece que a saudade é itinerário
levando uma cantiga em tom sumário
aos tempos juvenis que ela irradia.

Canário mudo agora eu sei de cor
as pautas que o passado ora solfeja
compassos em meus passos sonolentos.

É tarde e bocejante em tom maior
minha alma agora canta a paz que almeja
qualquer cantante dos áureos momentos!

Uma Trova de São Paulo/SP
Campos Sales

A censura mais intensa
de um regime truculento
pode calar até a imprensa,
mas não cala o pensamento!

Um Haicai de Magé/RJ
Jorge Luiz Felisberto
12 anos

Arco-íris de inverno.
Tocando o mar muito claro
Vem lá dos morros.

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

SEMPRE

Quando partiste para a eternidade
eu não sabia que doía tanto
tua presença na minha saudade;
o teu semblante calmo em cada canto...

O amor que existe neste lar portanto
Ficou maior dentro de mim, verdade.
Meu coração cresceu e por encanto
enfrento só... a triste realidade!

As minhas mãos vazias sem o tato
dos teus carinhos, roçam o retrato,
por ironia sempre sorridente...

E em cada canto o riso da esperança
leva-me a ti o que o olhar alcança:
os teus objetos: nosso eternamente!! 

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Jupyra Vasconcelos

Vem o carteiro sorrindo.
(Ah... notícias afinal...)
Era a esperança mentindo;
trouxe apenas um jornal...

Um Haicai de Magé/RJ
Letícia Monteiro
11 anos

Sol fraco de inverno.
Aquece pouco as casas
E o nosso coração.

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

UM LUGAR PARA A ROSA

Oh! tempo enganador, longevidade
parece tão curtinha no compasso
da vida cirandeira sem espaço
de ver o verde avesso à vacuidade.

O infindo no finito de um regaço
é a fonte que jamais se perde à idade.
E quem não vive o colo na saudade
não sente alvorecer num meigo abraço.

No passo escasso o espaço que se faz
amplia a solidão mesmo envolvida
na luz de uma cadência insidiosa.

A roda-viva ronda a nossa paz;
a frialdade aflige-nos ferida...
Redescubramos com urgência a rosa!!

Uma Trova de São Paulo/SP
Alba Christina Campos Netto

Juntos, seguimos a estrada,
mas nem uma ideia eu tinha
de que a tua caminhada
terminasse antes da minha.

Um Haicai de Magé/RJ
Sara Santana do Carmo
14 anos

Sol fraco de inverno.
O passarinho voando
Sobre o jardim

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

DISTÂNCIA

Eu tenho pena da nossa amizade
que é tão sublime por anos a fio.
Mas a distância qual águas de um rio
tem seu destino em corrente saudade.

Nosso barquinho mantém desafio;
enfrenta as ondas e até tempestade
e na esperança que os olhos invade
o pranto morno acoberta este frio.

Quem sabe um dia a inversão dê sentido;
num porto espreite o lampejo fugido
e o tempo aporte no chão da vontade;

As nossas mãos enrugadas desmontem
a solidão e que eu diga: foi ontem
que eu tinha pena de nossa amizade!

Um Haicai de Magé/RJ
Thainá Flausino
13 anos

Nuvens de inverno
Colorindo todo o céu
Parece que vai chover.

Uma Trova de Porto/Portugal
Emília Peñalba de A. Esteves

A vida é uma caminhada
que depressa chega ao fim.
Prefiro uma trilha errada,
mas escolhida por mim.

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

TROPEÇO 

Vejo-me agora no final da estrada
e as consequências de uma vida aflita
a procurar afoito a mais bonita
virtude altiva, joia lapidada.

As mãos vazias cheias de desdita
não afagaram outras sem ter nada.
E a consciência viva, tão pesada,
arrasta o fardo que a ambição incita.

Peço perdão para mim mesmo, eu sei
que para evoluir existe lei
da semeadura e sua consequência.

Queira ou não queira o fim faz o começo
para engendrar a escala sem tropeço;
ser mais humilde na nova existência!

Recordando Velhas Canções
Reza
(canção, 1965)

Edu Lobo e Rui Guerra

Por amor andei já
Tanto chão e mar
Senhor, já nem sei
Se o amor não é mais
Bastante prá vencer
Eu já sei o que vou fazer

Meu Senhor uma oração
Vou cantar para ver se vai valer
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria,
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria

Ó meu santo defensor    
traga o meu amor
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria,
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria

Se é fraca a oração   
mil vezes cantarei
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria,
Laia, ladaia, sabatana, Ave Maria

Uma Trova de Caicó/RN
Professor Garcia

Nesta longa caminhada
que fazemos sempre a sós...
Nem o silêncio da estrada
quebra o silêncio entre nós!

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

SUTIL OLHAR

A nova era agora tão veloz
atinge os ares lassos de metais;
a quântica figura não é mais
o mito que atordoa a todos nós.

Os olhos deslumbrados por fanais
que buscam horizontes, antes sós,
percebem muito além de nossa voz
as vibrações sutis de mil sinais.

Desperta criatura limitada!
Aguça a tua aura dos sentidos;
o mundo ao teu redor é quase nada!

A nova era agora tem ouvidos;
o espírito retarda evolução
se olhar de uma segunda dimensão!! 

Um Haicai de Magé/RJ
Isabelle Carolina C.B. Bastos
12 anos

Estrela de inverno.
Aparece bem distante
Ao anoitecer.

Uma Trova de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla

Chego à velhice, contente
e o meu ocaso é bem-vindo,
ao ver que o sol, no poente,
faz o entardecer mais lindo!

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

SILÊNCIO

Quando eu pensei que tudo estava certo...
eis que você, na calma de serpente,
virou meu mundo assim tão de repente
numa miragem plena de um deserto.

Meu pensamento sóbrio, tão presente,
não alertou-me como estava perto
um coração fechado... e bem aberto
à pequenez de um sopro tão latente!

Me refazendo aos poucos, fui olhando
nas passarelas de um mundo nefando
desfiles frágeis, quem olha e não vê.

Hoje agradeço sua insensatez
silenciando o vazio de vez
feliz por mim e triste por você!

Hinos de Cidades Brasileiras
São Caetano/SP

São Caetano pequeno gigante
Sob um céu estrelado e de anil
És cidade, trabalho, és progresso
És infante do nosso Brasil.

Do passado nos resta lembrança
De herois que souberam te erguer
Para frente, para frente
São Caetano, tu tens que crescer.

Do triângulo, joia rara
Dá exemplo de teu vigor
E tua luta não para
É grande o teu valor. (Bis)

Mais e mais chaminés se levantam
Apitos fazem-se ouvir
Do trabalho é tua glória
De grandeza será teu porvir.

No futuro será monumento.
Brasil saberá te eleger
Para frente, para frente
São Caetano, tu tens que crescer.

Do triângulo, joia rara
Dá exemplo de teu vigor
E tua luta não para
É grande o teu valor. (Bis)

Uma Trova de Caicó/RN
Eva Yanni Garcia

Por trás de tão lindos montes
há fonte em todo lugar;
mas a mais bela das fontes
é a fonte do teu olhar!

Um Poema de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

JOIO

Por que nós complicamos singelezas
pelo simples sabor de afirmação;
por que não escutar o coração
que pulsa as vibrações das incertezas…

se temos ao alcance o corrimão;
degraus que facilitam mãos coesas;
o dom de emocionarmos às belezas…
Por que só ver a luz na escuridão?

Estamos de passagem simplesmente.
Abrindo com desvelo nossa mente
o mundo é bem maior em nosso espaço.

Por que nós complicamos as passagens
seguindo a realidade das miragens?
A vida é bela e o tempo é bem escasso!


 
A alegria despertava
quando a porteira se abria.
Hoje aberta... sem a trava...
só transita nostalgia!

Alvo de risos e palmas
embutido em seu disfarce,
o palhaço lava as almas
querendo da dor vingar-se!

A neve em nossos cabelos
não arrefece a união;
o tempo com seus desvelos
aquece nossa paixão.

Anos dourados, orquestras,
rostos colados, penumbra,
voltas em passadas destras...
o meu passado vislumbra!

Após a invenção da roda
a pressa, numa rodada,
parece que virou moda
na roda-viva enrolada!

Aquele que não respeita
o tempo, na semeadura,
certamente na colheita
não terá fruta madura.

Assim como não se para
o tempo, naturalmente,
um grande amor não separa
duas almas no poente!

Bem no meio da floresta
a terra respira fundo...
Aproveita o que lhe resta
arejando mais o mundo!

Busquei na vida sentido
para compreender meus ais:
um grande orgulho contido
e amor pequeno demais!

Como sou tão distraído!
Após você ir embora
notei quem tinha fugido:
eu de mim... somente agora!

Comprimido pelo tédio
teu elixir foi meu mal.
És para mim, do remédio,
o efeito colateral!

Cultivar rosas consiste
em saber do espinho oculto;
a ilusão dorida existe
na vida envolta num vulto.

Das mãos limpas que me valho
são exemplos dos meus pais:
honestidade e trabalho;
ganância... inveja... jamais!

Dinheiro não cai do céu
e de pedra não sai leite;
quem espera sempre ao léu
não passa de um vil enfeite.

Distância não é medida
se a paixão é verdadeira;
o calor de despedida
não diminui a fogueira.

Eu me sinto um fugitivo
sem teu olhar prisioneiro
pois na prisão em que eu vivo
o amor é o meu carcereiro!

Felicidade consiste
olhar a vida risonha...
um brilho que não existe
nos olhos de quem não sonha!

Na distância dos abrolhos
que abrigam os excluídos,
quanta súplica nos olhos
ao silêncio dos ouvidos...!

Não é ilusão dos meus olhos
nem delírio de carência;
são os sinais dos escolhos
desenhando a tua ausência!

Não há sorriso que emplaque
na comédia desta vida,
se, na ironia da claque,
qualquer verdade é escondida!

Não quero rimar espera
na tua ausência dorida;
ao chegar a primavera
a esperança é colorida!

Na praça, o coreto dorme...
despertando a minha infância.
E aquela saudade enorme
encurta mais a distância!

Nas noites esperançosas
meu sonho... apenas um vulto...
é um jardineiro entre as rosas
nos seus espinhos oculto!

No fim do túnel a luz
sinaliza uma esperança.
Quem a seu brilho conduz
a vitória sempre alcança!

No jardim da minha infância
quantas flores eu colhi!
Ainda sorvo a fragrância
toda vez que volto aqui!

Novas auroras... quimeras...
esperanças e portais.
Parecem que em primaveras
as flores encantam mais!!

O caráter se desfaz...
irmão não é mais irmão...
se a mentira for capaz
de confundir a razão.

O dom do perdão desperta
a esperança então contida.
Renascer é a porta aberta
às causas nobres da vida.

O ponto de referência
que nos uniu de verdade
foi a esquina da paciência
com as ruas da saudade!

O presente desatina
quem cai no conto falaz:
– trocar voto por botina
leva sempre um pé por trás!

Parece um sonho e me espanta
nosso amor tanto expandir.
A felicidade é tanta
que receio até dormir!

Pelas flores que plantei
entre espinhos... muito fiz
que um grande jardim ganhei:
Minha sina é ser feliz!

Pergunto ao tempo até quando
a falsa paixão se esconde.
E ele passando... passando...
sutilmente já responde!

Pés na calçada da fama;
mãos abanando fortuna...
porém sua alma reclama
na solidão que importuna!

Procurei felicidade
todos momentos da vida.
Encontrei-a na humildade:
estava em mim... escondida!

Procurei na vida um jeito
de viver que me incentiva:
– no jardim, amor-perfeito;
– na esperança a sempre-viva!

Quando o céu desaparece
o espírito em desarranjos
para encontrar-se na prece
precisa de muitos anjos!

Quando se enxerga o inimigo
o embate é menos atroz,
pois ele é maior perigo
estando dentro de nós.

Quantas pedras removidas
e quantas por remover.
Provações em nossas vidas,
que só nos fazem crescer!

São os cuidados dos pais
que molduram nossa vida.
Laços eternos jamais
se perdem na despedida.

Saudade em versos e prosas...
cantiga mais entoada.
Entre os espinhos e as rosas...
é a solidão perfumada!

Se a vitória é consequência
dos degraus da falsidade,
os valores da aparência
jamais provam dignidade!

Se cuidarmos bem da fonte
a natureza eterniza
os vislumbres do horizonte
com as promessas da brisa!

Sinto a brisa descansar
sua ternura em minha alma
quando a luz do teu olhar
a minha tormenta acalma.

Teatral! Muito fagueira
a trova não é pequena:
– representa a peça inteira
em uma única cena!

Tépidas mãos conduzindo
mãos carentes e cansadas
mostram o mundo mais lindo
com luzes nas caminhadas.

Um pequeno gesto basta;
pode mudar uma vida:
– o instante que a mão se afasta
de outra mão na despedida.

Chuvisco Biográfico do Poeta e Trovador
João Batista Xavier Oliveira nasceu em Presidente Alves em 16 de junho de 1947, filho de Joaquim de Oliveira Filho (Sr. Nenê) e de Antonia Xavier de Oliveira (Dona Nina).
Aos onze meses sofreu poliomielite (na época não havia vacina), porém, com muito empenho dos seus pais, levou uma vida normal, sem traumas.
Em 1958 concluiu os estudos primários e em 1965, concluiu a quarta série ginasial (primeira turma de formandos).
Quanto à poesia, esta despertou a ele a partir de 1961, porém, ficou um longo período sem compor, pois a dedicação ao trabalho profissional ocupava muito tempo.
Em 1968 formou-se técnico em contabilidade na Fundação 29 de Março, Pirajuí.
Eleito vereador em 1968, porém, por motivo de mudança, assumiu o seu suplente, porquanto a partir de janeiro de 1970, assumiu vida profissional no Bradesco, Cidade de Deus.
Em Presidente Alves, trabalhou de 1964 a 1967 na Exatoria Federal; de 1968 a 1969 na Coletoria Estadual, e num escritório de contabilidade. Lecionou matemática particular.
Fikxou residência em Bauru/SP, desde 1975.
Casou-se em 1977 com Maria da Graça Alves de Oliveira, com quem tem três filhos
Na vida profissional chegou a gerente executivo, cargo no qual aposentou-se em 1991 por motivo de saúde.
A partir de 1998 dedicou-se à poesia, fazendo parte da União Brasileira de Trovadores/Bauru, ganhando inúmeros prêmios em vários estados inclusive em Portugal.

Folclore Brasileiro
A Iara



Ronaldo Barbosa (Boi Caprichoso)
Canto Da Yara

Canta e encanta
Sereia dos lagos
Yara dos rios
Tua beleza é a própria melodia
Brota das águas
E invade a floresta em sinfonia

Encanto que surge ao luar
Que envolve o pescador
Que seduz navegador
E inspira o trovador

Voz sonora
Infinita brasa ou calor
Tudo em volta é fogo
Incenso, fumo e fervor
Canta minha sereia...

E quando você para
Para ouvir
E quando você pensa em voltar
Não há mais tempo
Tudo fica tão distante de você

O canto da sereia seduziu você (2x)
Um canto caprichoso seduziu você
________________________
Olavo Bilac
A Iara

        Vive dentro de mim, como num rio,
        Uma linda mulher, esquiva e rara,
        Num borbulhar de argênteos flocos, Iara
        De cabeleira de ouro e corpo frio.

        Entre as ninféias a namoro e espio:
        E ela, do espelho móvel da onda clara,
        Com os verdes olhos úmidos me encara,
        E oferece-me o seio alvo e macio.

        Precipito-me, no ímpeto de esposo,
        Na desesperação da glória suma,
        Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...

        Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
        E a mãe-d'água, exalando um ai piedoso,
        Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.
__________________________
Wanda Campos
A lenda da Iara

Jaguarari, índio forte
muito bonito e valente,
adorava caçar e pescar,
vivia feliz em sua tribo
admirado por toda a gente.

Num dia de muito sol
saiu para passear,
seguiu até a floresta,
ouvindo os pássaros cantar
e sentindo muito calor
pensou em se refrescar.

Encontrou um lindo lago
e nele resolveu nadar.
Quando a noite caiu
e para a aldeia  ia retornar,
ouviu um canto suave
e foi voltando para o lago
sem poder se controlar.

Ao chegar perto da margem
procurou com o olhar
para saber onde estava
a dona de tão belo cantar.
Avistou o ser encantado
com uma cauda reluzente,
longos cabelos castanhos
ficando logo enfeitiçado.

Uma moça, linda, morena
com olhos da cor do mel
com uma voz maviosa
tal qual um anjo do céu,
chamou-lhe para dentro d'água
e Jaguarari, pobre coitado
foi afundando-se nas águas,
sem nunca mais ser encontrado.

Contam que até hoje
depois do anoitecer
de beira de lago ou rio
nenhum índio quer saber,
pois sabem que correm o risco
de não voltar pra aldeia
se escutar o belo canto
ou ver o olhar sedutor
da Mãe D'água, a sereia.

A Lenda da Iara

Iara ou Uiara (do tupi ‘y-îara “senhora das águas”) ou Mãe-d’água, segundo o folclore brasileiro, é uma sereia. Não se sabe se ela é morena, loira ou ruiva, mas tem olhos verdes e costuma banhar-se nos rios, cantando uma melodia irresistível. Os homens que a veem não conseguem resistir a seus desejos e pulam nas águas e ela então os leva para o fundo; quase nunca voltam vivos e depois os comem. Os que voltam ficam loucos e apenas uma benzedeira ou algum ritual realizado por um pajé consegue curá-los. Os índios têm tanto medo da Iara que procuram evitar os lagos ao entardecer.
Iara antes de ser sereia era uma índia guerreira, a melhor de sua tribo. Seus irmãos ficaram com inveja de Iara pois só ela recebia elogios de seu pai que era pajé, e um dia eles resolveram tentar matá-la. De noite quando Iara estava dormindo seus irmãos entraram em sua cabana, só que como Iara tinha a audição aguçada os ouviu e teve que matá-los para se defender e, com medo de seu pai, fugiu. Seu pai propôs uma busca implacável por Iara. E conseguiram pegá-la; como punição Iara foi jogada bem no encontro do rio Negro com Solimões. Os peixes a trouxeram à superfície e de noite a lua cheia a transformou em uma linda sereia, de longos cabelos negros, brilhantes e sedosos além de olhos verdes da cor das matas, com uma voz divina e uma beleza que enfeitiça.
Iara era, segundo outros, a deusa dos peixes.
Moça bonita, de cabelos demasiadamente longos, que sempre mora nas águas perto das matas. Pode morar no mar, nos rios, nos lagos, nas cachoeiras e nas lagoas.
Vez por outra, nas horas mortas da noite, especialmente em noite de luar, canta.
Diz que duma voz tão boa, bonita e tocante que o homem que a ouve morre de paixão por ela.
Quando o Homem se apaixona por ela, ele é levado ao fundo das águas (mar, rio, cachoeira, lago ou lagoa) e é devorado pela Iara
Não se entende nada de suas cantigas porque canta em língua indígena. Se a mãe-d’água por acaso um dia morre, sua fonte seca.
A canção das sereias chama o homem para abandonar-se e lançar-se ao fundo do rio para morrer e emergir em uma nova vida com um novo entendimento. As sereias são criaturas da água, que por sua vez possuem um valor simbólico de longo alcance. Para água, convergem uma dualidade, ela nos dá comodidade e elasticidade, assim como é fonte de abundância. É a água que usamos no batismo e representa a purificação e renovação espiritual. Mas a água também é destrutiva nas inundações e nos afogamentos, que aniquilam e matam. As sereias incorporam todas estas qualidades e são símbolos tanto da morte, como da imortalidade. Elas clamam pelo homem ao desconhecido, impulsionando-o a abandonar o que é, para transformar-se em algo novo. O medo das sereias é o medo da transformação, o medo de aprender, o medo de perder o controle, o medo de ascender ao inconsciente.
No livro de M. Esther Harding, “Os Mistérios da Mulher”, está descrita uma impressionante associação entre as fases da lua com as fases da deusa. A cada fase da lua, conta, a deusa veste um diferente traje de escamas, que é o traje de seu instinto.Os peixes eram dedicados a Atárgatis, a deusa lua de Ascalon, uma das formas de Ishtar, que era algumas vezes representada com rabo de peixe. Esta representação refere-se a extrema inconsciência do instinto feminino. Aqui a satisfação do instinto é essencial, não importando as consequências do tal ato. O aspecto deusa-sereia corresponde ao período da Lua Escura, onde ela está inteiramente sob o domínio do instinto. Esta fase pertence à esfera dos mistérios da mulher e, para um homem olhar para a ela nestes dias, significa “doença e morte”, pois estará agindo como fêmea, desprezando qualquer consideração humana.
É a “Viúva Negra” nos seus melhores dias. Muitas mulheres não estão conscientes do poder desta qualidade feminina e então, um efeito desastroso pode ocorrer em virtude de sua desatenção ao papel de destruidora de seu amor. Mas há também algumas, que conscientes do seu poder sobre os homens o usam inescrupulosamente para vantagens pessoais. Para aceitar o poder desta Lua, sem se deixar sucumbir a ele, é necessário autodisciplina e sacrifício do auto-erotismo.
Uma mulher que se confronta com tais aspectos na escuridão de seu coração pode aprender a lidar melhor com este conflito em vez, de tornar-se responsável de atitudes irreconciliáveis e opostas. Em verdade, esta energia instintiva se transformará em algo bom e utilizável na vida. Esta energia fluirá naturalmente em seus relacionamentos aprofundando-os, ou pode tornar-se um escape direcionado à um trabalho criativo, ou ainda, suprirá a força motriz que torna possível a construção de uma personalidade mais completa, fundamentada tanto no lado sombrio quanto no aspecto luminoso.
Na galeria de nossos mitos, Uiara aparece como a Ninfa das Águas, tendo características ao mesmo tempo de mulher e homem. Mulher para seduzir os homens e homem para seduzir as mulheres. Apresenta, portanto, propriedades andróginas, diferente de outras figuras do lendário aquático.
Há estudiosos, que acreditam que a lenda do boto seja a masculinização de Iara. O assunto em verdade comporta discussão, dado ao grande número de conjecturas e contradições. Iara, ao meu ver, nada tem a ver com a lenda do boto. Ela é uma deusa das águas fluviais, ondina, sereia e Mãe D’água, portanto sua divindade feminina lunar. Já o boto é uma divindade masculina solar. O certo, é que a nossa Iara aparece tanto sob a forma de uma bela mulher, como a forma de um homem que desvia e arrebata donzelas.
Verifica-se que as nossas Iaras correspondem ao mito da Iemanjá e é também a mesma sereia dos tempos gregos, metade mulher e metade mulher que Ulisses encontrou no mar e aquela mesma Lorelei, a fada da Germânia. Quem olha descuidadamente o espelho do rio ou da lagoa, verá a Iara em sua deslumbrante beleza, ela abrirá os olhos como um doce convite e atrairá a vítima, levando-a para o fundo de seu palácio encantado-a e matando-a no arrebatamento delicioso das núpcias funestas.
Numerosas são as lendas em torno de Iara, seus encantamentos e artimanhas. É o mito que mais inspirou poetas brasileiros. José de Alencar, por exemplo, incluiu no romance “O Tronco de Ipê” um conto sobre a Mãe-d’água, em que figura um palácio de ouro e de brilhantes no fundo do mar.

Jaraguari e a Iara

Jaguarari era um moço índio. Ele era muito forte, tão forte como a onça. E se houvesse uma luta entre os dois, não sei quem sairia ganhando. Era, também, muito corajoso e os outros moços índios morriam de inveja. Os velhos gostavam dele, porque era bondoso. As moças, então, viviam elogiando sua elegância, sua força, sua ligeireza! É claro que ele se sentia feliz.
O índio Jaguarari gostava de remar e possuía uma canoa muito bonita. Mas bonita mesmo! Feita com todo o capricho. Quando ele passava, remando, as aves da beira do rio não fugiam, ao contrário, esticavam o pescoço o mais que podiam para vê-lo passar.
Para pescar e caçar não havia outro! Não tinha nem graça: enquanto os outros índios se cansavam, correndo pela selva atrás de algum bicho, Jaguarari caçava quantos queria. Depois, pedia aos jovens índios que o ajudassem a carregar os animais que havia caçado. E eles, embora tivessem inveja de Jaguarari, não conseguiam resistir ao seu pedido, tão grande era sua simpatia.
Como o moço era bondoso, ainda repartia os animais abatidos com os amigos, proibindo-os de contar aos outros índios quem os havia caçado…
Um dia, ele partiu bem cedo para a caça. Ia sozinho. A manhã estava linda. De toda parte, saíam gritos, pios, cantos, saudando o sol que transformava tudo em vida e alegria. O moço índio sentia-se mais feliz do que nunca e não parava de admirar as maravilhas que encontrava: as aves voando perto das águas tranquilas do lago… O colorido das flores… As teias de aranha cobertas de orvalho, parecendo tecidas com fios de prata… Quanta beleza! Entusiasmado, ele resolveu passar o dia na floresta. Só voltaria à aldeia quando começasse a anoitecer. Queria aproveitar bem aquele dia maravilhoso. Foi entrando pela selva, até alcançar lugares que ainda não conhecia. Em tudo encontrava a mesma vida e a mesma beleza, que pareciam nascer da luz do sol.
Encontrou um lago muito bonito, o mais bonito que ele já havia visto. Tinha uma superfície tão calma e cristalina, que parecia ser de vidro. Não resistiu e resolveu dar um mergulho. Como sempre, as aves que se achavam nas margens não fugiram. Chegaram mais perto do lago, para ver melhor o moço índio.
Depois de se banhar demoradamente, deitou-se à beira do lago e ficou admirando a beleza do céu. Ficou assim horas, completamente esquecido do que pretendia fazer. Quando se lembrou, deu um salto, apanhou o arco, as flechas e partiu para a caça. Não queria caçar muito, pois estava longe de sua aldeia.
E ficou por ali, caçando, até sentir fome. Preparou e comeu uma das caças e, sentindo sono, deitou-se para descansar um pouco. Adormeceu profundamente. Quando despertou, viu que o dia já estava terminando. Apressou-se em voltar à aldeia.
Mal começou a andar, ouviu um canto que o deixou maravilhado. Nunca ouvira nada tão bonito, antes. Deixava longe o canto do uirapuru! Jaguarari, encantado, queria conhecer a ave que cantava assim, mas já era tarde. Precisava ir embora, mas era tão bonito! Poderia voltar outro dia… E não conseguia afastar-se.
Sem perceber, foi andando na direção da doce e mágica melodia. Afastando cipós e folhagens, sem ligar para o perigo que podia encontrar, foi seguindo como que puxado por uma corda invisível.
Não demorou muito, chegou, por outro caminho, ao lago onde havia nadado. E viu a Iara.
Era realmente a Iara. Tinha um rosto tão lindo, que o moço ficou impressionado.
Sempre atraído, ele já estava quase dentro da água. Lembrou-se, porém, do que os velhos costumavam contar sobre a Iara e se agarrou desesperadamente ao tronco de uma árvore, à beira do lago.
Iara, que já o tinha visto antes, quando ele estava nadando, queria leva-lo para o fundo das águas. Como não gostava da luz do dia, esperara entardecer para atrair o moço com o seu canto.
Jaguarari, por ser forte, muito forte, conseguiu resistir, agarrado ao tronco da árvore. Depois, segurando os cipós que havia por perto, conseguiu afastar-se do lago. Percebeu, então, inúmeros animais e aves, paralisados pelo canto da Iara. Estavam tão hipnotizados, que nem perceberam a sua passagem.
Quando chegou à aldeia, sua mãe notou que ele estava diferente.
- Que aconteceu? – perguntou-lhe. Você foi atacado por alguma fera?
- Não, minha mãe. Nada me aconteceu.
- Mas você está tão esquisito! Nunca o vi assim!
- É apenas cansaço. Estive muito longe e precisei andar depressa, para que a noite não me pegasse na floresta.
- Ainda bem. Pensei que fosse coisa mais grave.

No dia seguinte, ele continuou preocupado e triste, bem diferente do que havia sido até então. Todos estranharam e queriam saber o que lhe havia acontecido. Muitos acreditavam que ele estava sendo vítima de Jurupari, o espírito do mal, pois o moço não ligava para mais nada. Apenas continuava a caçar e a pescar. Só que não trazia mais bichos e peixes, como antes. Agora, trazia apenas algum bichinho e dois ou três peixes, quando muito. Ele ficava a maior parte do tempo na beira do lago, para tornar a ver a Iara. Estava completamente enfeitiçado.
A Iara, porém, não aparecia mais. E o moço ficava ali, atento, procurando perceber algum movimento na água ou ouvir algumas notas de seu maravilhoso canto.
A mãe dele é que não conseguia descansar. Ficava à espera do filho e, todas as vezes que lhe perguntava o que estava acontecendo, a resposta era sempre a mesma:
- Nada. Apenas estou cansado.

Ele, que antes não gostava de ficar na floresta quando escurecia, voltava agora muitas horas depois de ter anoitecido. E, desde aquele dia, não aceitou mais a companhia de ninguém.
Os dias foram passando e cada vez Jaguarari parecia mais triste e desanimado. Tanto sua mãe insistiu, que, uma noite, ao voltar do lago, ele lhe contou:
- Vi a Iara, minha mãe. Num lago, bem dentro da floresta. É a moça mais linda que já me apareceu. Não existe outra igual. Seu canto é tão bonito, que não consigo esquecê-lo. Preciso vê-la outra vez e, novamente, ouvir a sua voz maravilhosa!

A pobre mãe pôs-se a chorar:
- Fuja da Iara! – pediu-lhe. Ela conseguiu enfeitiçá-lo e você será morto, se não se afastar dela!

Ele foi para a rede, mas não pôde dormir. A lembrança do canto da Iara roubara-lhe o sono.
No dia seguinte, ouvindo o conselho da mãe, Jaguarari não saiu da aldeia. À medida, porém, que a tarde ia caindo, ele foi ficando impaciente. Não conseguia conter-se. Precisava ir até o lago! Como era tarde demais para atravessar a floresta, tomou uma canoa e começou a descer o rio. Os que estavam por perto pensaram que ele ia pescar.
De repente, um índio gritou:
- Ei, Jaguarari não estava sozinho? Pois agora não está mais! Vejam!

Ao longe, avistava-se Jaguarari de pé, na canoa, em companhia de uma moça. Era a Iara. Foi a última vez que alguém o viu.
–––––––––––––––––-
Fontes:


Alessandra Almeida da Rocha*
Análise estilística de alguns poemas de Cecília Meireles (Parte IV)

“Criança”

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, - e resiste.

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto, se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo,
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo,
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.

No primeiro verso da primeira estrofe, o “eu” lírico inicia a descrição de um menino de maneira afetiva,quando coloca o substantivo “cabeça” no diminutivo “cabecinha”, reforçado, logo em seguida, pelo adjetivo “boa”. A palavra “cabecinha” é uma metáfora para a personalidade, ou seja, um menino de boas atitudes. Apesar disso, o menino é um ser triste.
No primeiro e segundo versos ocorre uma epanadiplose, pois este é iniciado com a expressão que finaliza o anterior, observemos:

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,

Neste verso o pronome “que” dá uma ideia de continuidade das qualidades desse menino.
Novamente, no terceiro verso, existe uma epanadiplose, com uma pequena inversão sintática não existente no verso anterior, para reforçar a vida sofrida e solitária desta criança. O uso do travessão dá uma pausa e uma intensidade ao verso para mostrar a resistência da criança, como vemos:

que sozinho sofre, - e resiste.

No primeiro verso desta segunda estrofe é ressaltado, mais uma vez, a atitude da criança pelo uso da anáfora, com a alteração de adjetivo, que passou para “ausente”, sugerindo mudança de estado, como se vê:

Cabecinha boa de menino ausente

A característica do sofrimento é retomada no segundo verso da segunda estrofe e, por isso, fez com que o menino se tornasse um ser reflexivo sobre a sua vida, a sua existência. Neste momento, lembra-nos a própria Cecília que, desde criança, aprendeu a conviver com a morte (seus pais, seu primeiro marido), a dor, a solidão, o silêncio, o significado da existência, sem traumas, mas de maneira realista, como é dito pela própria poetisa: “...Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenininha, uma tal intimidade com a mote que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno (...)” (CM, LC, pág.1)
Podemos pensar que o menino do poema é uma metáfora da própria vida de Cecília quando criança.
No terceiro verso da mesma estrofe, o “eu” lírico descreve o menino como perdido em seus sentimentos, pois por refletir sobre si mesmo, não sabe o que sente. Isto é reforçado pelo uso das reticências:

e não sabe mais o que sente...

Na terceira estrofe, primeiro verso, se usa a anáfora e o adjetivo utilizado, neste instante é “mudo”, dizendo-nos que ele, o menino, está sem palavras, sem ação, diante do que vive e sofre:

Cabecinha boa de menino mudo

O “eu” lírico/narrador completa, no segundo verso, a carência emotiva e material do menino, acentuado pelo uso das palavras “não” e “nada”, mostrando que ele tinha receio de perder as poucas coisas boas que a vida lhe deu (último verso da terceira estrofe).
Nesta estrofe aparecem as antíteses entre as palavras “ter” x “perder”; “tudo” x “nada”, retratando a oscilação que ocorre em nossa vida,mais voltada para o lado material, enquanto o espiritual é deixado de lado. Mas, na verdade, tudo é passageiro e efêmero e deixamos de aproveitar os verdadeiros sentimentos.
Na quarta estrofe, o menino transformou-se em santo, em anjo, indicando que ele está morto e o seu espírito vai analisar sua vida e passagem terrestre. O recurso da anáfora é utilizado.
O “eu” lírico/narrador nos diz que o menino/anjo, do alto, podemos pensar, então, em inocência e céu, se põe a observar a correria do mundo, representada pela “água” e a sua tristeza, angústia, enquanto pertencia a esse mundo carnal (segundo e terceiro versos da quarta estrofe).
O símbolo da “onda” é usado no primeiro verso da última estrofe, sugerindo um ritmo lento ao verso e também ao poema, e assim como a conscientização que, durante a vida, ele nunca fora feliz e que a felicidade é efêmera, encerrando o poema melancolicamente.
O tema do poema é a infelicidade da vida, a sua transitoriedade, anunciada a todo instante pela morte, encarada como fato natural e verdadeiro. O poema é construído com cinco estrofes, cada uma com três versos, podendo sugerir as cinco fases do ciclo humano.
Ocorrem rimas alternadas entre “triste” (primeiro verso, primeira estrofe) e “resiste” (terceiro verso, primeira estrofe), indicando a resistência do menino triste em viver; “ausente” (primeiro verso, segunda estrofe) e “sente” (terceiro verso, segunda estrofe), mostrando que, apesar da sua ausência, ele não deixa de sentir as coisas; “mudo” (primeiro verso, terceira estrofe) e “tudo” (terceiro verso, terceira estrofe), dizendo que, na sua mudez, tem tudo o que conquistou; “santo” (primeiro verso, quarta estrofe) e “desencanto” (terceiro verso, quarta estrofe), no qual santificou-se pela sua vida desencantada; “fria” (primeiro verso, quinta estrofe) e “possuiria” (terceiro verso, quinta estrofe), na qual a possessão da fria felicidade,é inútil.
Analisando as rimas vemos o trabalho de construção do poema, pela autora, nos detalhes fonéticos.
Para reforçar, utiliza assonâncias de /e/, /i/, /o/, como nesse verso:

de menino triste que sofre sozinho

E aliterações de /q/, /n/, /d/, em:

que não teve nada, que não pediu nada

Nos dois recursos utilizados faz-se perceptível a força de sua tristeza nas assonâncias e uma forte afirmação sobre a sua falta com as aliterações.
Podemos afirmar que todo o poema é construído de cavalgamentos, no qual o “eu” lírico narra / declara suavemente a passagem do menino pela terra e sua passagem ascensional para outro plano, verso por verso, estrofe por estrofe.
A poetisa usa formas verbais que reforçam as imagens visuais como, por exemplo, em “vermos”. As palavras são “triste”, “sofre”, “pensativo”, “mudo”, “água”, “onda” e as imagens tácteis nas palavras “água”, “onda”, “fria” são sugestivas para que possamos sentir as mesmas sensações do menino. Cecília constrói um poema marcado pela sinestesia com “onda” e “água”, que nos sugere a mútua troca de sensações entre o ser humano e o mundo. Nota-se a gradação na figura do menino que se tornasse um santo: “triste”; “ausente”; “mudo”; “santo”. Ou seja, passa da carne para o espírito.
O título escolhido para esse poema Criança simboliza a imaturidade do ser humano para a vida pós - morte, para qual ninguém nunca está preparado, pois somos inocentes para o que virá, visto que a vida e a felicidade são efêmeras, não se pode voltar atrás. Para isso, devemos conservar a pureza, como a de uma criança.

continua… “Noções” 

Fonte:
Revista Philologus, v. 16, p. 1-1, 2000.
_______________
*Alessandra Almeida da Rocha, atualmente é professora docente I - Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Educação e da rede privada do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa. Graduação em Letras, na UERJ e Pos-graduação em Língua Portuguesa pela UERJ-FFP.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to