Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 375)



 

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Fagundes Queiroz

Atrás dos sonhos correndo,
no meu delírio sem fim,
eu acabei me esquecendo
de passar perto de mim...

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Heloisa Zanconato Pinto

A chorar leitos vazios,
somos irmãos, pescador:
–  tu... pelas secas dos rios,
eu.. por ausências de amor!

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

SIDERAÇÕES

Para as estrelas de cristais gelados
as ânsias e os desejos vão subindo,
galgando azuis e siderais noivados
de nuvens brancas a amplidão vestindo...

Num cortejo de cânticos alados
os arcanjos, as cítaras ferindo,
passam, das vestes nos troféus prateados,
as asas de ouro finamente abrindo...

Dos etéreos turíbulos de neve
claro incenso aromal, límpido e leve,
ondas nevoentas de Visões levanta...

E as ânsias e os desejos infinitos
vão com os arcanjos formulando ritos
da Eternidade que nos Astros canta...

Uma Trova Humorística de Ananindeua / PA
Cincinato Palmas Azevedo

Lembra a esposa do finado
na cama, vendo o pijama:
- Eras tal qual deputado...
poucas obras, muita fama!

Uma Trova de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

Diferentes, os mortais,
porque o destino não erra,
serão finalmente iguais
no mesmo leito de terra.

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

MÚMIA

Múmia de sangue e lama e terra e treva,
podridão feita deusa de granito,
que surges dos mistérios do Infinito
amamentada na lascívia de Eva.

Tua boca voraz se farta e ceva
na carne e espalhas o terror maldito,
o grito humano, o doloroso grito
que um vento estranho para os limbos leva.

Báratros, criptas, dédalos atrozes
escancaram-se aos tétricos, ferozes
uivos tremendos com luxúria e cio...

Ris a punhais de frígidos sarcasmos
e deve dar congélidos espasmos
o teu beijo de pedra horrendo e frio!...

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Se mil corações tivesse
com eles eu te amaria;
mil vidas que Deus me desse
em ti as empregaria.

Uma Trova Hispânica da Venezuela
Luis Alfredo Rivas Mazzei

Yo escribo con alegría
por los caminos del viento,
mi educación es la vía
¡para afirmar lo que siento!


Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

A DOR

Torva Babel das lágrimas, dos gritos,
dos soluços, dos ais, dos longos brados,
a Dor galgou os mundos ignorados,
os mais remotos, vagos infinitos.

Lembrando as religiões, lembrando os ritos,
avassalara os povos condenados,
pela treva, no horror, desesperados,
na convulsão de Tântalos aflitos.

Por buzinas e trompas assoprando
as gerações vão todas proclamando
a grande Dor aos frígidos espaços...

E assim parecem, pelos tempos mudos,
raças de Prometeus titânios, rudos,
Brutos e colossais, torcendo os braços!

Trovadores que deixaram Saudades
Orlando Brito
Niterói/RJ, 1927 – 2010, São Luís/MA

A botina na janela
não deu sorte ao Manoel.
O chulé que havia nela
espantou Papai Noel...

Uma Trova de Maringá/PR
A. A. de Assis

O fruto é um santo produto
do mais generoso amor.
Por isso é que antes do fruto
quis Deus que ele fosse flor!

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

VISÃO DA MORTE

Olhos voltados para mim e abertos
os braços brancos, os nervosos braços,
vens d'espaços estranhos, dos espaços
infinitos, intérminos, desertos...

Do teu perfil os tímidos, incertos
traços indefinidos, vagos traços
deixam, da luz nos ouros e nos aços,
outra luz de que os céus ficam cobertos.

Deixam nos céus uma outra luz mortuária,
uma outra luz de lívidos martírios,
de agonias, de mágoa funerária...

E causas febre e horror, frio, delírios,
ó Noiva do Sepulcro, solitária,
branca e sinistra no clarão dos círios!

Uma Trova de Niterói/RJ
Elen de Novais Félix

Em meu pomar de bonança
quando a mão de Deus me guia,
colho frutos da esperança
no outono de cada dia.

Uma Sextilha de São Simão/SP
Thalma Tavares

É feliz quem vê mais o lado bom
e o poeta está sempre com a razão.
Apesar de que o estro tudo enxerga;
e olha o triste e o que alegra o coração.
Há, no entanto, quem vê somente a lama
sem ter olhos pra ver a imensidão.

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

DANÇA DO VENTRE

Torva, febril, torcicolosamente,
numa espiral de elétricos volteios,
na cabeça, nos olhos e nos seios
fluíam-lhe os venenos da serpente.

Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
que convulsões, que lúbricos anseios,
quanta volúpia e quantos bamboleios,
que brusco e horrível sensualismo quente.

O ventre, em pinchos, empinava todo
como réptil abjeto sobre o lodo,
espolinhando e retorcido em fúria.

Era a dança macabra e multiforme
de um verme estranho, colossal, enorme,
do demônio sangrento da luxúria!

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Elisabeth Souza Cruz

Vivo em constante conflito
entre o delírio e a razão:
- Meu sonho alcança o infinito,
meus pés tropeçam no chão!

Um Poetrix de Paranavaí/PR
Renato Benvindo Frata

Manhã

Gemido de amor que se cala,
cão vadio que se deita:
– madrugada que se esvai…

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

CRISTAIS

Mais claro e fino do que as finas pratas
o som da tua voz deliciava...
Na dolência velada das sonatas
como um perfume a tudo perfumava.

Era um som feito luz, eram volatas
em lânguida espiral que iluminava,
brancas sonoridades de cascatas...
Tanta harmonia melancolizava.

Filtros sutis de melodias, de ondas
de cantos voluptuosos como rondas
de silfos leves, sensuais, lascivos...

Como que anseios invisíveis, mudos,
da brancura das sedas e veludos,
das virgindades, dos pudores vivos.

Uma Trova de Fortaleza/CE
Francisco José Pessoa

Neste mundo desigual
o mal suplantando o bem,
o contraste social:
– cada qual vale o que tem!

Um Haicai de Santa Juliana/MG
 

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Alexander Pasqual

a roupa da valsa
pendurada no varal —
seca de inverno

Uma Trova de Tomé-Açú/PA
Jair Sales de Almeida

Na paisagem desse sonho,
no contraste de um amor,
essas trovas que componho
sempre afogam minha dor!

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

PRESA DO ÓDIO

Da tu'alma na funda galeria
descendo às vezes, eu às vezes sinto
que como o mais feroz lobo faminto
teu ódio baixo de alcatéia espia.

Do desespero a noite cava e fria,
de boêmias vis o pérfido absinto
pôs no teu ser um negro labirinto,
desencadeou sinistra ventania.

Desencadeou a ventania rouca,
surda, tremenda, desvairada, louca,
que a tu'alma abalou de lado a lado.

Que te inflamou de cóleras supremas
e deixou-te nas trágicas algemas
do teu ódio sangrento acorrentado!

Recordando Velhas Canções
Pedro pedreiro
(samba, 1965)

Chico Buarque de Holanda

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento
desde o ano passado para o mês que vem
REFRÃO

Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também

REFRÃO

Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
    espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar
    se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás,
quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte,
      esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém,
     esperando enfim, nada mais além
Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem, que já vem…

Uma Trova de Natal/RN
Joamir Medeiros

Contraste: - Tu és a prova
deste conceito profundo:
- Como numa simples trova
cabe a imensidão do mundo?

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

CÁRCERE DAS ALMAS

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
soluçando nas trevas, entre as grades
do calabouço olhando imensidades,
mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e sonhando, as imortalidades
rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
nas prisões colossais e abandonadas,
da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Um Haicai de Curitiba/PR
Álvaro Posselt

Ventinho da tarde -
Um quero-quero parado
sobre o campo seco

Uma Trova de São Paulo/SP
Renata Paccola

Se repousares, um dia,
em meu leito abandonado,
permitirás que a poesia
venha acordar ao meu lado!...

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

VOZ FUGITIVA

Às vezes na tu'alma, que adormece
tanto e tão fundo, alguma voz escuto
de timbre emocional, claro, impoluto
que uma voz bem amiga me parece.

E fico mudo a ouvi-la, como a prece
de um meigo coração que está de luto
e livre, já, de todo o mal corrupto,
mesmo as afrontas mais cruéis esquece.

Mas outras vezes, sempre em vão, procuro
dessa voz singular o timbre puro,
as essências do céu maravilhosas.

Procuro ansioso, inquieto, alvoroçado,
mas tudo na tu'alma está calado,
no silêncio fatal das nebulosas.

Hinos de Cidades Brasileiras
Rondonópolis/MT

Quão rebento brotastes radiantes,
como estrela de raro fulgor
Tão sonhada na força que emana,
fruto terno de nosso suor
Neste solo de seiva gigante,
esta linda cidade floriu
Dando brilho as cores que marcam,
a bandeira do amado Brasil.

Rondonópolis, Rondonópolis
Surgiste oh... brasão imponente
Praza Deus que em ti paire a graça
Que envolve de amor tua gente

Nas belezas das matas e montes,
nas entranhas de vales e rios
Na nobreza do denso cerrado,
foi assim que este sonho seguiu
Brasileiros de plagas distantes,
cá vieram trazer seu labor
E na luta perene e vibrante,
construímos solene penhor

Rondonópolis, Rondonópolis
Surgiste oh... brasão imponente
Praza Deus que em ti paire a graça
Que envolve de amor tua gente

Rio vermelho e majestoso,
lenda viva que a todos encanta
Onde a balsa Rosa Bororo,
navegou transportando esperança
Foi sustento do índio que viu,
tudo isso gestar e nascer
E o presente nos passa o comando,
pra fazer essa terra crescer

Rondonópolis, Rondonópolis
Surgiste oh... brasão imponente
Praza Deus que em ti paire a graça
Que envolve de amor tua gente

Todos que precederam essa história,
salve, salve a nobre missão
Pois sabiam que a nossa vitória,
era certa na força do chão
E cantamos tuas maravilhas,
em memória do marechal
Novos passos teu povo palmilha,
pelas trilhas do seu ideal.

Rondonópolis, Rondonópolis
Surgiste oh... brasão imponente
Praza Deus que em ti paire a graça
Que envolve de amor tua gente

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Milton Sebastião Souza

Quando o amor nos enlouquece
deixando os dois sem juízo,
o nosso leito parece
sucursal do paraíso.

Um Poema de Florianópolis/SC
Cruz e Souza
1861 – 1898

Violões que choram

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações a luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas magoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso...
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho
Almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,
Finas, diluídas, vaporosas brumas,
Longo desolamento dos inquietos
Navios a vagar a flor de espumas.

Oh! languidez, languidez infinita,
Nebulosas de sons e de queixumes,
Vibrado coração de ânsia esquisita
E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas,
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmolos, incerta,
Palpitando no espaço, ondula, ondeia,
E o canto sobe para a flor deserta
Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,
E no silêncio astral da Imensidade
Por lagos encantados adormecem
As pálidas ninféias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,
Essas lacerações como me embalam,
Como abrem asas brancas de clemência
As harmonias dos Violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,
Nos lânguidos bordões plangendo passa...
Quanta melancolia de anjo existe
Nas visões melodiosas dessa graça.

Que céu, que inferno, que profundo inferno,
Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,
Quanto magoado sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos e indecisos...

Que anelos sexuais de monjas belas
Nas ciliciadas carnes tentadoras,
Vagando no recôndito das celas,
Por entre as ânsias dilaceradoras...

Quanta plebéia castidade obscura
Vegetando e morrendo sobre a lama,
Proliferando sobre a lama impura,
Como em perpétuos turbilhões de chama.

Que procissão sinistra de caveiras,
De espectros, pelas sombras mortas, mudas.
Que montanhas de dor, que cordilheiras
De agonias aspérrimas e agudas.

Véus neblinosos, longos véus de viúvas
Enclausuradas nos ferais desterros
Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,
Sob abóbadas lúgubres de enterros;

Velhinhas quedas e velhinhos quedos
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos
Sepulcros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lívidos defuntos...

E como que há histéricos espasmos
na mão que esses violões agita, largos...
E o som sombrio é feito de sarcasmos
E de Sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos
Na prisão celular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos
Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes
Que eu vi dentre os vilões errar gemendo,
Prostituídos de outrora, nas serpentes
Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
Das luas tardas sob o beijo níveo,
Para os enterros dos seus sonhos mortos
Nas queixas dos violões buscando alivio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,
Frouxos, dormentes, adormidos, langues
Na degenerescência dos vencidos
De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,
Como que feitos de um poder extremo
Para vencer a convulsão das mortes,
Dos temporais o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,
Enrugados por fundas cicatrizes,
Procuram nos violões horas estranhas,
Vagos aromas, cândidos, felizes.

Ébrios antigos, vagabundos velhos,
Torvos despojos da miséria humana,
Têm nos violões secretos Evangelhos,
Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços
De carapuças, máscaras e gestos
Lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Lembrando a florescência dos incestos;

Todas as ironias suspirantes
Que ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas tétricas e errantes
Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose
Das virgens nos românticos enleios;
Os ocasos do Amor, toda a clorose
Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebéia
De requebros de faunos e ondas lascivas;
A langue, mole e morna melopéia
Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,
Em ais de dor, em contorsões de açoites,
Revive nos violões, acorda e dorme
Através do luar das meias noites!

Chuveirão Biográfico sobre o Poeta
João da Cruz e Souza nasceu em 21 de novembro de 1861 em Desterro, hoje Florianópolis, Santa Catarina. Filho dos escravos alforriados Guilherme da Cruz, mestre-pedreiro, e Carolina Eva da Conceição, desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o marechal Guilherme Xavier de Sousa - de quem adotou o nome de família, Sousa. A esposa de Guilherme Xavier de Sousa, Dona Clarinda Fagundes Xavier de Sousa, não tinha filhos, e passou a proteger e cuidar da educação de João. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.
Em 1881, dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual combateu a escravidão e o preconceito racial.
Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna por ser negro.
Em 1885 lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea.
Cinco anos depois foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil, colaborando também com o jornal Folha Popular.
Em fevereiro de 1893, publica Missal (prosa poética baudelairiana) e em agosto, Broquéis (poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil que se estende até 1922.
Em novembro de 1893 casou-se com Gavita Rosa Gonçalves, também descendente de escravos africanos. Deste matrimônio nasceram quatro filhos, Raul, Guilherme, Reinaldo e João. Mas todos faleceram de tuberculose pulmonar. Sua esposa, ainda sofreu de distúrbios mentais que chegaram a refletir até mesmo nos escritos do poeta.
Morreu a 19 de março de 1898 em Minas Gerais, na localidade de Curral Novo, então pertencente ao município de Barbacena.
Em 1948 a localidade se emancipa e passa a se chamar Antônio Carlos. Cruz e Sousa estava em Curral Novo pois fora transportado às pressas vencido pela tuberculose.
Teve o seu corpo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão destinado ao transporte de cavalos. Ao chegar, foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier por seus amigos, dentre eles José do Patrocínio, onde permaneceu até 2007, quando seus restos mortais foram então acolhidos no Museu Histórico de Santa Catarina - Palácio Cruz e Sousa, no centro de Florianópolis.
Cruz e Sousa é um dos patronos da Academia Catarinense de Letras, representando a cadeira número 15.

Seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. É certo que encontram-se inúmeras referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, à nebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos.
No aspecto de influências do simbolismo , nota-se uma amálgama que conflui águas do paganismo de Baudelaire ao espiritualismo (e dentro desse, ideias budistas e espíritas) ligados tanto a tendências estéticas vigentes como as fases na vida do autor.
Embora quase metade da população brasileira seja não-branca, poucos foram os escritores negros, mulatos ou indígenas. Cruz e Sousa, por exemplo, é acusado de ter-se omitido quanto a questões referentes à condição negra. Mesmo tendo sido filho de escravos e recebido a alcunha de "Cisne Negro", o poeta não conseguiu escapar das acusações de indiferença pela causa abolicionista.
A acusação, porém, não procede, pois, apesar de a poesia social não fazer parte do projeto poético do Simbolismo nem de seu projeto particular, o autor, em alguns poemas, retratou metaforicamente a condição do escravo. Cruz e Sousa militou, sim, contra a escravidão,  tanto da forma mais corriqueira, fundando jornais e proferindo palestras por exemplo, participando, curiosamente, da campanha antiescravagista promovida pela sociedade carnavalesca Diabo a quatro, quanto nos seus textos abolicionistas, demonstrando desgosto com a condução do movimento pela família imperial.
Sylvio Back dirigiu um filme sobre o poeta lançado em 1998. Todo o texto do filme é só de poemas de Cruz e Sousa.

Cruz e Souza é, sem sombra de dúvidas, o mais importante poeta Simbolista brasileiro, chegando a ser considerado também um dos maiores representantes dessa escola no mundo. Muitos críticos chegam a afirmar que se não fosse a sua presença, a estética Simbolista não teria existido no Brasil. Sua obra apresenta diversidade e riqueza.
De um lado, encontram-se aspectos noturnos, herdados do Romantismo como por exemplo o culto da noite, certo pessimismo, angústia morte etc. Já de outro, percebe-se uma certa preocupação formal, como o gosto pelo soneto, o uso de vocábulos refinados, a força das imagens etc. Em relação a sua obra, pode-se dizer ainda que ela tem um caráter evolutivo, pois trata de temas até certo ponto pessoais como por exemplo o sofrimento do negro e evolui para a angústia do ser humano.
Cruz e Sousa foi um poeta cuja individualidade era tenazmente combatida em sua época. Alguns críticos justificam esse fato como que uma conseqüência da origem racial do vate catarinense. Tanto assim que Ronald de Carvalho, comentando ainda o seu individualismo, escreve: - "0 amargo fruto dos preconceitos que o comprimiam por todos os lados".
É uma das vozes mais altas da Poesia Brasileira. 0 aparecimento de "Broquéis", em 1893, praticamente inaugurou o Movimento Simbolista no Brasil. A poesia "Antífona", constitui-se em verdadeira profissão de fé simbolista.
Sua linguagem era impregnada de vocábulos que davam um vigoroso ritmo evocativo, seguidos de delírios constantes, como na poesia "ódio Sagrado" Abusava de aliterações, buscando uma virtuosidade musical.


A chuva traz à lembrança
uma janela quebrada,
a casa humilde e a criança
olhando, triste, a enxurrada.

Agora, sem mais nem quando,
sofrendo porque fugiste,
eu sonho que estás voltando,
para eu deixar de ser triste…

A jangada, quando alcança
dos mares a imensidade,
leva no bojo a esperança,
deixa na praia a saudade.

- Algo impede o casamento?
Se alguém sabe, agora fale!...
- Eu sei, seu padre... - Um momento!
Você é o noivo, e assim não vale!

Ao migrante maltrapilho,
que cruza o adusto sertão,
só resta, ao morrer-lhe o filho,
o consolo da oração…

Ao te encontrar, sem querer,
tarde linda, sol morrente,
mais triste que te perder
foi te rever novamente.

Apregoa o Zé Seráfico,
que a mulher está na dela:
- como um filme fotográfico,
só no escuro se revela…

Buscando esperanças vãs
no descompasso dos prazos,
gastei, sem ver, mil manhãs
e não sei quantos ocasos.

Cai a chuva fina e mansa,
e, na janela, que graça:
- O nariz de uma criança
achatado na vidraça!…

Casa assombrada... sombria...
Portas rangendo... Arrepio...
E o Zé tremia, tremia,
dizendo que era de frio!…

Coragem!... Sua mulher
tem poucos dias... Lamento...
- Doutor, se o destino quer,
mais uns dias eu aguento...

Da loja um ladrão levou
cristais valiosos ao léu,
e o lojista assim rezou:
- Pai nosso cristais no céu...

Das mágoas, dos sacrifícios,
das dores, dos sofrimentos,
fiz enormes edifícios
onde alugo apartamentos.

De longe, não desconfias
que, esperando tua volta,
tua ausência de mil dias
traz mil noites de revolta.

De repente este conflito,
quando a ausência me revolta,
por tudo que não foi dito
para trazer-te de volta!

Desconfio que a velhice
chega sempre bem depressa
quando se faz a tolice
de pensar que ela começa...

Descrente, maldigo até
meus atos de contrição,
por não ter, a minha fé,
o tamanho da oração!…

De volta à casa paterna,
revejo os vitrais antigos,
por onde a saudade eterna
repassa rostos comigo…

Diz, de cabeça enfaixada
- Não brigue, nem se aborreça.
Sua mulher, se é charada,
a minha é quebra-cabeça !...

Diz que vai me abandonar,
cai em pranto mas, depois,
perdoa e põe-se a rezar,
pedindo aos céus por nós dois…

Eis-me no inverno da vida
velando ocasos tristonhos,
mantendo a mão estendida,
tentando alcançar meus sonhos…

Ela se foi manhã cedo,
furtiva, sem que eu a visse,
guardando o rumo em segredo
para que eu não a seguisse.

Em passos e contrapassos,
ao som de acordes tristonhos
sempre foges dos meus braços
no bailado dos meus sonhos...

Endoidou e, em seus chiliques,
diz que é um relógio em destaque,
por isso vai, com seus tiques,
repetindo - tique-taque…

E o marido da Mercedes,
pintor sagaz, com seus trecos,
de dia pinta paredes,
de noite... "pinta os canecos".

Eu baterei na janela...
Confia em mim! - prometeu...
Mas foi a saudade dela
quem na vidraça bateu…

Grita a mulher do ladrão:
- Por onde andaste, cretino ?...
Não vejo qualquer menção
de assaltos, no matutino!

Há muita gente enganosa
qual goiaba sazonada:
- Por fora, a casca sedosa;
por dentro, podre ou bichada!

Maria!... grito, encantado,
quando me encontro sozinho.
Mas, quando estou ao seu lado,
só sei dizê-lo baixinho...

Não fosse a dor no traseiro,
numa corrida recorde,
diria, ainda, o carteiro,
que "cão que ladra não morde!...’

Não quis ver tua partida
nem teus acenos de adeus,
quando, agora, a tua vida
tem rumos que não são meus.

Não vivas com tanto orgulho
em razão do teu talento,
o tambor, que faz barulho,
tem, por dentro, apenas vento!

Na tua mão estendida
para este aperto de adeus,
vejo que a linha da vida
tem rumos que não são meus.

Nestas horas de sol-posto,
na saudade mais atroz,
nas fotos, beijo-te o rosto;
nas cartas, ouço-te a voz.

No forró do Zé Pancada,
que acabou no maior pau,
o Chicão desceu a escada
sem pisar nenhum degrau!

No peito a amargura cresce,
quando o caboclo, tristonho,
pede o inverno para a messe
e o inverno é apenas um sonho!

Numa farmácia, a freguesa
- Tem sal de frutas aí ?
Tem ? Então, por gentileza,
me dá um de abacaxi...

Nunca vi almas! - diz rindo.
E um cara na sua frente,
foi sumindo... foi sumindo...
transparente... transparente...

Os teus vestidos, Vitória,
e os lindos sapatos altos,
representam promissória
pela qual dou muitos saltos!

O velhinho monologa
contra o remédio, no leito:
- De que me adianta esta droga,
se o resto não tem mais jeito?!…

O velho galo, à noitinha,
ouviu a franga assanhada
dizendo para a galinha :
- Ele ainda "canta"... e mais nada!

Pago as vidraças quebradas,
que quebrei quando menino,
com as violentas pedradas
que hoje levo do destino!

Pelo espaço onde flutua,
nas noites claras de estio,
a lua ri de outra lua
que faz caretas no rio.

Pintora boa, de fato,
tem talento a Elizabete,
pois pintando o auto-retrato,
pintou-o "pintando o sete".

Por ser muito procurada
pra fazer qualquer trabalho,
foi, na loja, apelidada
de "garota quebra-galho"…

Promessa, cheia de graça,
de regressar, ela fez...
... Mas quem bateu na vidraça
foi a saudade, outra vez…

Quando teus olhos eu fito,
rezo neles a oração
de um monge em transe, contrito,
num ato de adoração!

Realismo mesmo mostrou
o pintor sacro Gregório,
que óleo de rícino usou
pra pintar... o purgatório!

Sem rival na adulação,
Belarmino Guararapes
chega a usar mata-borrão
no que o chefe escreve a lápis!…

Se não tens mais esperanças,
tantos são os teus fracassos,
muda o curso das andanças...
toma o rumo dos meus braços!

Se o patrão conta piada,
puxa-saco faz assim:
solta logo a gargalhada,
sem esperar pelo fim.

Se o tormento, como dizes,
é a remissão dos pecados,
por te amar - é bom que frises -
eu tenho os meus perdoados.

Socialite na butique:
Qual é a moda, seu Andrada?...
Agora, madame, o chique
é pagar conta atrasada...

Sofrendo tuas demoras,
com meus sonhos moribundos,
maldigo a fuga das horas
na precisão dos segundos!…

Tendo aos braços o serão
de nove meses atrás,
Marília exclamou: Patrão,
fazer serão... nunca mais!

Teus olhos nos meus pousados,
em silente confissão,
são dois monges deslumbrados,
rezando a mesma oração!

Tua ausência, tão sentida,
seria menor castigo
se eu soubesse repartida
minha saudade contigo.

Tu partes... mas, por piedade,
ao me deixares sozinho,
tira o espinho da saudade
do rumo do meu caminho!

Vendo o galã na TV
beijar a sua parceira,
grita o garoto: - Mãiêêê,
igual papai e a copeira!…

Verdade que se proclama
pelo efeito contraposto:
- quem joga pedra na lama,
recebe lama no rosto.

Vê, Rosário, o que me aprontas!
Eu te conheço do berço.
Tens um rosário de contas
do qual não pagaste um terço!...

Vive o rio seu conflito
no dolente marulhar,
marulho que é quase um grito
por nunca poder voltar.

Santiago Vasques Filho, nasceu em Teresina/PI, em 1921 e faleceu em Fortaleza/CE, em 1992.  Poeta, cronista, juiz de direito, militar, foi ex-presidente da UBT-Fortaleza, Academia Bom-jesuense de Letras (RJ), Academia Nilopolitana de Letras (RJ), Academia Cachoeirense de Letras (ES), Academia de Letras Uruguaiana e Academia de Letras da Fronteira Sudoeste.

Folclore Brasileiro
Boitatá
 

Merlânio Maia
Boitatá
(excerto do poema O Folclore Brasileiro)

O boitatá não é boi
Só tem um olho na testa
É um protetor da mata
E se esconde na floresta
Mas tem um rabo que sobra
O resto parece cobra
Faz da crença sua festa!
____________
Valeriano Luiz da Silva
O Boitatá
(excerto)

Dizem que na terra houve um dilúvio e para se escapar
Esta cobra procurou um buraco para lá entrar
E só dos olhos dos animais ela pôs se alimentar
E de tantos olhos que comeu seu corpo transparente pôs-se a iluminar

Como era grande a escuridão
Os seus olhos ficaram em grande proporção
Dizem que ainda anda pelos campos procurando animais
Para se alimentar de seus restos mortais

Durante o dia é quase cega
Mas a noite tudo enxerga
Tem vez que seus olhos ficam grandes e flamejantes
Aí ela persegue os noturnos viajantes

Falam que às vezes corre na mata de um lado para outro
Como um facho cintilante de fogo com seu olhar maroto
O seu nome muda, de acordo com o lugar
Para os índios seu nome é "Mbaê-Tatá",

No nordeste do Brasil parece mais mimadinha
Pois lhes dão o nome de "Cumadre Fulôzinha"
Falam que mora no fundo dos rios
Este bicho bravio

Há versões diferentes
Deste bicho entre as gentes
Uns dizem que ele protege as matas contra queimadas
Outras já falam que põe fogo pra ver as matas acabadas
_______________
A Lenda do Boitatá

Antigo mito brasileiro cujo nome significa “coisa de fogo”, em tupi. Já referido por José de Anchieta em 1560, o boitatá é um gênio protetor dos campos: mata quem os destrói, pelo fogo ou pelo medo. Aparece sob a forma de enorme serpente de fogo, na realidade o fogo-fátuo, ou santelmo, do qual emana fosfato de hidrogênio pela decomposição de substâncias animais. A causa desse mito pode ser explicada com uma reação química, ossos de animais, como bois, cavalos etc. que são ricos em fósforo branco, que é um material inflamável (diferente do fósforo vermelho que é usado como medicamento), se aglomeram em um lugar, o osso começa a se decompor, e sobra apenas o fósforo. Quando um raio ou faísca, entra em contato com os ossos semi-decompostos causa uma enorme chama.
O Boitatá é o gênio que protege as campinas e sempre castiga os que põem fogo no mato. Quase sempre ele aparece sob a forma de uma cobra muito grande, com dois olhos enormes, que parecem faróis. Às vezes, surge também com a aparência de um boi gigantesco, brilhante.
O Boitatá é um mito universal. Na Inglaterra é conhecido como “Jack with a lantern” (Jack com uma lanterna), na Alemanha é “Irlicht” (a luz louca), na França é “Moine des marais” (assombração dos pântanos) e nos países que se fala espanhol é “Luz mala” ou “Víbora de Fuego”.
Em 1560 registrou o Padre José de Anchieta:
“Há também outros (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá, que quer dizer cousa de fogo, o que é o mesmo como se se dissesse o que é todo de fogo. Não se vê outra cousa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza.” (in: Cartas, Informações, Framentos Históricos, etc. do Padre José de Anchieta, Rio de Janeiro, 1933)

Etimologia e variantes nominais

O termo mais difundido é boitatá. O termo seria a junção das palavras tupis mboi e tatá, significando cobra e fogo, respectivamente – ou ainda de mboi – a coisa ou o agente. Significa, assim, cobra de fogo, fogo da cobra, em forma de cobra ou coisa de fogo.
Sobre a etimologia, escreveu Couto de Magalhães que “como a palavra o diz, mboitatá é cobra-de-fogo'” .
No Centro-Sul é chamado de baitatá ou batatá e até mesmo de mboitatá. Na Bahia aparece como biatatá. Em Minas Gerais chamam-no de batatal. Em São Paulo é bitatá. No Nordeste é comum o termo batatão. Nos estados de Sergipe e Alagoas recebem os nomes de Jean de la foice ou Jean Delafosse.
Do Boitatá, no Sul, se conhece três versões: a primeira mostra-o com os olhos ferventes. Nas trevas distingue tudo, porém na luz nada vê. Quando as águas tomaram conta da campanha (Dilúvio), alagando caminhos, várzeas e coxilhas, ela foi para o lugar mais alto que encontrou. Tanto furou, que conseguiu fazer um buraco muito fundo e escuro. Recolhe-se neste local e esperou até que as águas baixassem. A necessidade de distinguir nas trevas, obrigou-a a arregalar os olhos. Mas ela arregalou tanto…tanto, que elas passaram a brilhar como duas tochas de fogo. São os olhos de Boitatá, assim transformados, que o gaúcho se depara à noite, quando passeia pelos campos.
A segunda versão, corrente entre os estanceiros gaúchos, é que durante à noite ao cavalgar ou viajar à noite, avistam um fogo volante, às vezes em forma de cobra, outras vezes em forma de pássaro, voando na frente do cavaleiro e impedindo-lhe a marcha. Há uma crendice popular que Boitatá se deixa atrair pelo ferro. E, então um meio de se livrar de seu ataque, consiste em desatar o laço e arrastá-lo pela presilha. Ele acompanhará o ferro da argola do laço e ao se passar por um arbusto, ele se desmancha todo. Até que se recomponha, a pessoa tem tempo de fugir.
A terceira versão nos foi transmitida por J. Simões Lopes Neto. Ele nos relata que numa noite muito escura iniciou-se o grande dilúvio. A água cobriu todas as coxilhas, inundou as sangas e arroios, encheu todas as tocas dos animais, inclusive a de uma cobra grande chamada de “boiguaçu” que dormia quieta. Acordando com o frio da água, encheu-se de susto. Saiu para fora e apertada de fome começou a comer só os olhos dos animais que encontrava a sua volta. Como os animais sofrem influência do alimento que comem, a Boiguaçu não escapou a regra, sua pele tornou-se muito fina e ficou luminosa pelos mil olhos que devorou.
Os homens quando voltaram à vê-la, não a reconheceram e pensaram tratar-se ser de uma nova cobra, por causa de seu aspecto deram-lhe o nome de Boitatá, ou seja, cobra de fogo.
Passado um certo tempo, a Boitatá morreu de pura fraqueza, porque só os olhos que comeu não a alimentaram o suficiente. Ao decompor-se, a luz que estava presa dentro dela esparramou-se pelos brejos e pode tomar a forma tanto de cobra como de boi. O povo da campanha adverte, ao vê-la deve-se ficar imóvel, de olhos fechados, sem respirar, até que ela resolva ir embora.
Há muitos outros casos e lendas, o povo do País de Gales tinham o seu “Jack com uma lanterna” e atribuem-lhe a intenção de espírito zombeteiro, que ensina o caminho errado aos que se perdem pelos prados. O budismo nipônico, admite entre os seus “gakis”, o “Shinen-Gaki”, que aparece à noite, sob a forma de fogo errante. E justifica historicamente o caso remontado aos celtas, que tinham o “fogo dos Druidas” e à antiguidade clássica, onde encontramos o fogo de Helena.
Na região missioneira, adquiriu Boitatá uma função disciplinadora de castigo entre pessoas que se estimam e consideram. Para conservar o respeito que deve haver entre compadre e comadre e levando em conta a fragilidade humana, existia a lenda de Mboitatá (Víbora de Fogo) que se reduz ao seguinte: se os compadres esquecerem-se do sacramento que os une, não fazerem caso dele, faltando a comadre a seus deveres conjugais com seu compadre, de noite se transformarão os culpados em Mboitatá, ou seja, em grandes serpentes ou pássaros que possuem em vez da cabeça uma chama de fogo. Eles brigarão toda a noite, lançando chamas e queimando-se mutuamente até o final da madrugada, para tornar a fazer tal feito na noite seguinte, assim por séculos e séculos, mesmo depois de mortos.
Segundo a ciência, todas estas lendas surgiram da mera observação de um fenômeno comum que ocorre sempre em há algo ou pessoa em estado adiantado de decomposição. É conhecido pelo nome de fogo-fátuo, inflamações espontâneas emanadas em virtude da enorme quantidade de gases que se desprendem das ossadas dos animais dispersos pelos pampas.
São estes fogos-fátuos desprendidos de lugares pantanosos, de coxilhas onde encontramos animais decompostos, nas estrumadeiras, nos campos de folhagens apodrecidas, os grandes geradores de tais lendas.
Este mito não é exclusivamente aborígene, porque há nas lendas cosmogônicas dos Fans da África a imagem de Mboya, representando na floresta um acham errante à procura de Bingo, o filho a quem Nzamé atirara ao precipício. Existe também no Maranhão, um mito mais aproximado do da tribo dos Fans do que do Boitatá. É o que se conhece pelo nome de kuracanga. Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira kuracanga, isto é, a cabeça sai do corpo, à noite e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de sustar-se esse horrível fadário, é fazer com que a filha mais velha seja madrinha desta caçula.

SIMBOLISMO

A serpente troca de pele de tempo em tempos. Este ciclo de transformação simboliza viver, morrer e renascer. Na Grécia a serpente é representada como arco-íris. Ela simboliza o poder de cura. Duas serpente entrelaçadas num bastão de madeira ou metal formam o caduceu, símbolo da paz. A serpente gera o fogo. Essa energia atua no plano material, na paixão, na vitalidade e na procriação. Nos mitos, a serpente é mediadora dos deuses e do conhecimento.

A LENDA

Fazia bastante tempo que havia anoitecido. As pessoas estavam apavoradas, pensando que o dia não voltaria mais. E como a noite estava durando muito, tudo ficou desorganizado. Não havia mais carne. As colheitas não podiam ser feitas no escuro e ficaram perdidas. Todos estavam cansados da escuridão, daquela noite estranha, onde não brilhavam a lua nem as estrelas, onde não se ouvia um rumor, nem se sentia o cheiro dos pastos e o perfume das flores.
Tão grande era a escuridão, que as pessoas tinham medo de se afastar e não encontrar mais o caminho. Ficavam reunidas em volta das pequenas fogueiras, embora as brasas, cobertas de cinza, mal esquentassem… Ninguém tinha coragem sequer para soprá-las, tão desanimados estavam todos.
Não muito longe, numa gruta escura, vivia a Boiguaçu – a Cobra Grande – quase sempre a dormir. De tanto viver no escuro, seus olhos tinham crescido e ficado como dois faróis.
No início da longa noite, caiu uma chuva tão forte e seguida, que todos os lugares baixos foram inundados. Os bichos atingidos correram, aos bandos, para os lugares mais altos. Só se ouviam berros, pios, gritos. O que salvou as pessoas foram as fogueiras que, então, havia sido acesas. Não fosse isto, não teriam sobrevivido diante daquela multidão de bichos apavorados.
A água também invadiu a gruta onde morava a Boiguaçu. Ela custou muito para acordar e quase morreu afogada. Por fim, despertou; percebendo o perigo, deixou o esconderijo e seguiu para onde já estavam os outros bichos.
Diante da necessidade, todos acabaram ficando amigos: perdizes, onças, cavalos…. Menos o Boiguaçu. O seu mau gênio não lhe permitia conviver com os outros. Ficou de lado, o mais longe possível.
A chuva cessou, mas com a escuridão que fazia, os bichos não conseguiram encontrar o caminho de volta. O tempo foi passando e a fome apertando. Começaram as brigas entre eles. Brigavam às escuras, sem enxergar nada! Somente a Boiguaçu via tudo, com seus olhos de fogo.
Acontece que, se os outros animais sentiam fome, a Boiguaçu também andava com o estômago no fundo. Só não havia atacado por causa da grande quantidade de animais.
Se a cobra podia ficar muito tempo sem comer, os outros bichos já não podiam mais.
Ela percebeu isso e viu que era chegada a hora. Preparou-se, então, para o ataque. O que comeria em primeiro lugar? Um cavalo? Uma onça? Uma perdiz? Eram tantos, que ela nem sabia.
Os bichos têm preferência por determinada coisa. A Boiguaçu gostava especialmente de comer olhos. Como era grande a quantidade de animais que ela podia atacar, naturalmente ia ficar satisfeita comendo apenas os olhos.
O animal que se encontrava mais perto era justamente uma enorme onça pintada. A Boiguaçu atacou-a. Fosse em outra ocasião e a onça não teria sido presa tão fácil, não! Porém, enfraquecida pela fome e cega pela escuridão, ela nem reagiu. A Boiguaçu matou a onça e comeu-lhe os olhos.
Logo depois, atacou outros animais. Mas só comia os olhos.
Gostou tanto que não fazia outra coisa. Ou melhor: também dormia. Quando estava satisfeita, recolhia-se num canto e dormia, dormia…. Depois, quando a fome voltava, ela retornava ao seu trabalho de matar os companheiros.
Como sua pele era muito fina, ela começou a ficar luminosa, com a luz dos inúmeros olhos engolidos. Os que viram a cobra não reconheceram mais a Boiguaçu e pensaram que fosse uma nova cobra.
Deram-lhe, então, o nome de Boitatá, ou seja, cobra de fogo, nome muito apropriado, pois realmente ela era uma grande listra de fogo, um fogo triste, frio, azulado.
A partir de então, as pessoas não tiveram mais sossego. Viviam com medo de ser atacadas pelo monstro. Do jeito que ele andava matando os bichos, logo necessitaria atacar as pessoas.
Entretanto, tiveram sorte. A preferência do Boitatá foi a sua própria perdição.
Só comia olhos e, assim, foi ficando cada vez mais luminoso e mais fraco, também, pois os olhos não sustentavam, embora lhe satisfizessem o apetite. Tão fraco ficou que acabou morrendo, sem conseguir sequer sair do, lugar!
O monstro morreu, mas a sua luz esparramou-se pelos brejos e cemitérios e hoje pode tomar a forma de cobra ou de touro. Parece que, por castigo, o Boitatá ficou encarregado de zelar pelas campinas.
Logo que ele morreu, o dia surgiu outra vez. Foi uma alegria enorme. As pessoas voltaram a sorrir e as aves, a cantar. Tudo, enfim, voltou a ser como era antes


Conselhos para fazer boas trovas

         Dizem que se conselho tivesse realmente valor, a gente não dava, vendia. No entanto, dada a escassez de literatura de ensino sobre a confecção da poesia, especificamente de trova, me aventurei a contrariar o refrão popular e a alinhavar estes, dedicados especialmente aos novos trovadores.
         Não há novidade nenhuma nestes conselhos. Alguns são até bem óbvios. Também, evidentemente, a grande maioria deles não se limita só à trova, são comuns para a poesia e para a literatura em geral. Vamos a eles:

1 – Estude português. Conheça ou procure conhecer bem a língua, o vocabulário e seu funcionamento (ou seja, a gramática). O poema é feito de palavras em ação, transmitindo pensamentos e sons. Como o pintor precisa conhecer as tintas e suas maneiras de se ligarem, como o músico necessita saber tudo sobre as notas musicais e os instrumentos que utiliza, o poeta precisa conhecer bem sua matéria prima, ou seja, os vocábulos da língua, como eles interagem uns com os outros. Portanto, se você não sabe português, procure saber.

2 – Leia os bons autores. Estude a maneira como trabalharam a palavra, a frase, o verso. Procure descobrir como é que eles chegaram a certas soluções, a certos efeitos de que você gostou.

3 – Aprenda bem a metrificação. Procure inteirar-se dos segredos da contagem silábica fônica. O ideal é você procurar quem conheça a técnica e estudar com ele.

4 – Não tenha preguiça de fazer, mesmo sozinho, exercícios poéticos de metrificação. Nestes exercícios, procure imitar as trovas ou os trechos dos quais você gosta, variando ou modificando os temas originais. Lembre-se: qualidade e não quantidade é o que se quer da obra de arte.

5 – Valorize-se. Não publique qualquer besteira. Só se permita publicar aquilo de que realmente goste. Exerça rigorosa autocensura de qualidade. Lembre-se que seu nome está em julgamento cada vez que alguém lê algo assinado por você.

6 – Não tenha medo de emendar obras já terminadas ou até publicadas. A comunicação é difícil e há sempre uma melhor maneira de dizer alguma coisa. Vale a pena modificar trechos para alcançar ou aproximar-se, pelo menos, da perfeição.

7 – Por outro lado, há um momento em que se deve parar. Muitas vezes – e isto se dá frequentemente com a trova, que é composição quase que instantânea – o melhor a fazer é abandonar aquele caminho, jogar tudo fora e começar tudo de novo.

8 – Uma boa maneira de exercitar sua criatividade é, mesmo tendo alcançado a comunicação, e feito uma trova que considera boa, recomeçar e tentar comunicar a mesma coisa com outra trova de maneira diferente. Às vezes o resultado disto é tão bom que as duas trovas resultantes podem ser aproveitadas.

9 – A trova exige ser pensada antes de ser escrita. É importante que ela diga alguma coisa, tenha um achado, algo que lhe dê um quê especial, que a torne única entre as outras trovas, ou seja, personalidade. Aproveite bem aquele exíguo espaço de 28 sílabas poéticas. Todas as palavras devem ter função, e não deve faltar nenhuma palavra. Este é um dos grandes segredos da boa trova.

10 – O trabalho final deve estar limpo e completo. Os versos devem ser fáceis de ser lidos e entendidos, as palavras em sua ordem certa, sem mutilações ou inversões. As dificuldades de composição não devem transparecer no resultado final. Tire os andaimes do edifício antes de apresenta-lo ao público.

11 – Na composição do verso da trova, você deve tomar cuidado com a sonoridade, particularmente com a distribuição das vogais pelas sete sílabas, especialmente as tônicas. Será interessante, para evitar a monotonia e aumentar o efeito estético, que as vogais de apoio das tônicas das palavras do verso sejam todas diferentes no mesmo verso. Esclareço com exemplo: “Amada e adorada fada” é um verso onde todas as sílabas tônicas (a 2ª, a 5ª e a 7ª) possuem a vogal de apoio “a”. Resultado: monotonia. No verso “Passarinho, tuas penas”, já as sílabas fortes são todas diferentes: a terceira sílaba tem vogal de apoio “i”, a quinta “u” e a sétima “e”. Note-se que o colorido já é outra coisa!

12 – Você deve aprender o uso inteligente das vogais, especialmente na transmissão de sentimentos, tanto nas rimas como nas vogais de apoio das sílabas tônicas do verso. Não chego ao exagero de dizer (como diziam os parnasianos) que a cada vogal corresponde uma cor – mas, indubitavelmente, as cores claras, a alegria, a leveza, estão nas vogais mais abertas – a – é e ó. A tristeza, a gravidade, o luto, a morte, o pesadume são domínio das vogais ê, ô e u. O “i” tem algo tem algo de elétrico, subitâneo, cortante, gritante, frio... O ê, êm, on (ou õ) e o na (ou ã) transmitem volúpia, langor, preguiça, paragem...

13 – Não use clavilhas, ou palavras colocadas ali sem necessidade, apenas para completar as sete sílabas do verso. Procure utilizar todas as sílabas para reforçar a mensagem.

14 – Por outro lado, não use palavras mutiladas pelo apóstrofo. A língua portuguesa é riquíssima de sinônimos e de recursos, e as chamadas “licenças poéticas” não cabem mais na trova moderna. Não se escreve mais “minh’alma” e copo d’água”; a elisão se dá na pronúncia, normalmente.

15 – Não inverta a ordem natural das palavras, a não ser quando permissível na linguagem comum. Tais inversões, muito usadas na poesia do passado, perturbam a fluência natural do entendimento do verso.

16 – Não utilize frases vazias, apenas para “encher linguiça”. Trovas a gente às vezes vê onde a mensagem está concentrada em apenas um ou dois versos – sendo os outros constituídos de umas bobaginhas com rima, só para completar a trova. Não faça isso. Deve usar os quatro versos para dizer algo em todos eles – e com todos eles.

17 – Tome cuidado com os cacófatos. Leia sua trova em voz alta para ver se não entrou nela alguma “palavra pirata”, roubando o sentido da frase e destruindo qualquer efeito poético que você quis dar, formada, por exemplo, com sílabas de palavras contíguas: “o álbum da moça”, “pouca galinha”, “não há sapatos” (que pode ser entendido por “não assa patos”), “que belos versos compus” (versos doentes, pois estão com pus...).

18 – Não use palavras dissonantes, malsoantes, com “encontros” ou “esbarrões” de sílabas tônicas, como: “nesta data tão querida”. Evite coisas como a preposição “como”, que pode transformar-se em tempo verbal de “comer”: “como a poeira dos anos”, ou “desabrocha” – que pode significar “diz a brocha”...

19 – Não use expressões batidas, lugares comuns. Procure sempre ser original, combinar as palavras de maneira nova. Afinal a arte poética é isso: a procura incessante de novas maneiras de expressão.

20 – Os adjetivos devem ser usados com parcimônia. Os substantivos e os verbos são a essência da comunicação verbal. Os adjetivos devem aparecer pouco, apenas para colorir, perfumar, temperar.

21 – E a rima? Importantíssimo elemento da trova, que só possui no máximo duas, ou seja, dois pares de versos com rimas iguais. E essas duas rimas devem ser escolhidas com cuidado e critério. Como disse Banville, as rimas devem parecer surpresas de se encontrar, mas ao mesmo tempo contentes com o encontro.

22 – Evitar que os dois pares de rimas fiquem parecidos entre si, ou seja, tenham sons idênticos. Para isso, não devem ter as vogais de apoio iguais: para isso, não devem ter as vogais de apoio iguais: óde/ófa; une/ula; ado/ave – ou serem homófonos: ente/ezes; uva/lua; ora/oda.

23 – Não rimar timbres diferentes de “e” e de “o”. Chapéus não rima com Deus, nem festa com cesta, nem foi com herói, etc.

24 – Evitar rimas muito fáceis. Mesmos tempos de verbo: amaram/voltaram; serão/amarão. Ou diminutivos: amorzinho/cachorrinho. Ou advérbios em mente: somente/constantemente. Quando aparecer uma rima em diminutivo, rimar com outra palavra de mesma terminação: cachorrinho com vinho, vizinho, ninho... Constantemente com gente, ausente, etc.

25 – Evitar rimas evidentes, já muito batidas: noivo/goivo; noite/açoite; olhos/abrolhos; água/mágoa; Brasil/gentil/varonil.

26 – Evitar as cavilhas de rima – por exemplo: inventar nomes próprios, às vezes pouco usuais ou inexistentes, e introduzi-los na trova só para resolver um problema de rima. Tal recurso é muito usado em concursos de trovas humorísticas, mas não convence.

27 – Recurso antigo, mas eficaz, é procurar rimar categorias gramaticais diferentes. Substantivos com verbos, adjetivos com pronomes, etc. Exemplos: verdes/terdes; foi/boi; assim/vim; nada/adorada...

28 – Importante auxiliar da composição é o dicionário de rimas – um livro onde aparecem, listadas de acordo com as suas rimas, as palavras da língua. Existem diversos no mercado.

29 – Também o dicionário da língua é importante auxiliar de composição. Você deve conhecer o significado profundo e inequívoco de cada palavra que emprega.

30 – Para escrever uma trova não há fórmula ou receita de bolo. Começa-se escrevendo um dos quatro versos da trova. Este será o núcleo inicial, do qual nascerão os outros, já determinando um dos dois pares de rima, e não é, necessariamente, o que ficará no início da trova. O verso seguinte complementará o pensamento ou rimará com ele. Será interessante ir numerando de 1 a 4, a provável posição final dos versos que vão nascendo. A necessidade da rima ou da fluência verbal podem, depois, modificar tal posição.

Prossegue-se a composição, tentando, mudando a disposição das palavras, brincando com elas, descobrindo sua música e seus significados, tendo em vista, naturalmente, a ideia, a mensagem a transmitir, o sentimento a comunicar – e um efeito final especial, o “achado” que, para ser achado, precisa ser procurado...

Na dúvida de qual verso ou maneira de expressão adotar, vá escrevendo as diversas soluções (com sinônimos, palavras de mesma rima, etc), na folha em branco, embaixo da outra. Assim você não esquecerá delas e as terá à disposição para o caso, por exemplo, de ter de interromper o trabalho ali para fazer outra coisa. Tal listagem de alternativas do mesmo verso facilitará a escolha final – que, por sua vez, pode ser até uma solução híbrida entre duas alternativas da lista.

É isso aí. Divirta-se!
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NOTA: esse texto faz parte do livro “TROVADORES 88”, 1º volume, antologia de trovas organizada por Antônio Soares, ocupando as páginas 18/22. Embora alguns trechos pareçam defasados, pois o texto foi escrito em 1988, considero-o extremamente útil, principalmente aos que se iniciam na Trova.

Alessandra Almeida da Rocha*
Análise estilística de alguns poemas de Cecília Meireles (Parte V)


“Noções”

 Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

 Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Oh! meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua este corpo efêmero e precário,
como passiva e inúmera...o vento largo do oceano sobre a areia

 Desde o primeiro verso, quando iniciamos a leitura do poema, notamos que é todo construído em primeira pessoa, referindo-se à subjetividade, ao íntimo, à descrição dos sentimentos, como vemos:

 Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos desejos afligidos

Nesta primeira estrofe ocorre um hipérbato, que nos dá a ideia de vastidão, da amplidão que existe na alma do “eu” lírico. A construção repetida do pronome “mim” é usado para acentuar essa distância interior, citada anteriormente, e nela os desejos, as angústias passeiam, habitam este ser reflexivo.
Do primeiro para o segundo verso há o encavalgamento, que sugere uma pausa para a complementação do pensamento do “eu” lírico.
Na segunda estrofe, o “eu” lírico diz que a água, com o seu movimento, levará suas esperanças, metáfora de naves, e que elas são cobertas por suas dores, angústias, tristezas, representadas por espelhos, mas essas esperanças continuarão a existir, apesar dos momentos e problemas, é preciso tirar boas experiências e ensinamentos, o que é representado pela palavra “lâmina”.
Na terceira estrofe, o “eu” lírico usa a palavra “sonho” significando vida, pois é breve, como a primeira e fica à mercê dos acontecimentos, representada pela palavra “correnteza”, que nos lembra um movimento, um ritmo rápido, no qual podemos pensar na rápida passagem da vida e sua brevidade.
Darcy Damasceno sobre a brevidade da vida em Cecília Meireles diz: “Vemos assim avivarem-se os rastros da alma alertada contra os desenganos do mundo, desenganos que se enfeixam num tópico principal: o da brevidade da vida”. (CM, PC, DD, pág.42)
E sobre o símbolo do sonho, revela-nos: “A insegurança do ser humano, a fragilidade das coisas, a inconstância da sorte, a ideia de que tudo é sonho são temas que, direta ou indiretamente, daquele (brevidade da vida) decorem”. (CM, PC, pág.42)
Dessa vida que é um sonho passageiro, o poeta busca apenas, ou tenta, respostas para os questionamentos infinitos, mas que são sem respostas, como a morte.
Na quarta estrofe, o “eu” lírico volta-se para si mesmo, seus pensamentos, suas atitudes, refletindo sobre elas. Neste verso, se usa o tempo passado, em oposição ao presente, como que a alma do “eu” lírico estivesse olhando para algo estático, sem vida, o corpo morto, que foi útil e deixou de sê-lo para essa alma, que saiu do seu casulo.
O segundo verso continua no passado para que as lembranças do “eu” lírico surjam, constatando que a sua virtude, que era a de errar pelos caminhos contraditórios de sua existência, o fazia forte. A sua solidão valia mais que a felicidade e a beleza que são desgastáveis pelo tempo como se vê neste terceiro verso.
A solidão é um traço característico na poesia de Cecília Meireles, como foi dito pela própria: “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão(...)” (CM,LC, pág.3)
A última estrofe é iniciada por uma exclamação, indicando uma surpresa do “eu” lírico por notar que a sua alma é atemporal, perante o corpo precário, passageiro, transitório, comparando este corpo com o vento, passageiro, e a alma, comparada à areia, representando a eternidade.
Como vemos esta poesia toca no tema da transitoriedade da vida, dando melancolia a esta.
A transitoriedade foi definida da seguinte forma por Darcy Damasceno, nas obras de Cecília Meireles:

        A consideração das coisas resulta na consciência de que a vida é um fluxo constante e o tempo tudo corrói; a constatação da transitoriedade emerge como o verme antecipado do podre que um dia há de ser o apetecível fruto da vida .Daí que às descargas dos sentidos se sobreponha a indagação, a análise, a atitude inteligente.(CM, PC, DD, pág.40)

O poema não segue as construções tradicionais de outros poemas da autora. Desta vez, a poetisa adota o verso livre, característico do Modernismo e que a autora utiliza em alguns momentos na sua obra. Vê-se também que não há rima no poema, composto de cinco estrofes (as três primeiras com dois versos e as duas últimas com três versos), talvez para simbolizar a liberdade que tem a nossa alma, que não se enquadra em regras, depois de livre.
Há a presença da natureza ao usar as palavras “água”, “correnteza”, “mares”, “vento”, “oceano”, representando a vida humana.
Os recursos da assonância de /a/, /e/, /o/, como nesse verso:

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos

E das aliterações de /s/, /r/, em:

Minha virtude era esta errância por mares contraditórios

Tais recursos sugerem o som do vento e o som do mar, velozes com a vida.

Noções , título do poema, pode significar, ter ideia, ter consciência. Durante o poema o “eu” lírico vai tendo a noção de sua vida que é efêmera e de sua alma que é eterna. Isto é universal, acontecerá com todas as pessoas, em todas as épocas.

Fonte:
Revista Philologus, v. 16, p. 1-1, 2000.
_______________
*Alessandra Almeida da Rocha, atualmente é professora docente I - Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Educação e da rede privada do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa. Graduação em Letras, na UERJ e Pos-graduação em Língua Portuguesa pela UERJ-FFP.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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