Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 376)



   Uma Trova de Curitiba/PR
Serafim França

Melhor não ver – a saudade
é uma suave confidente.
Tem sempre uma intimidade
com os desejos da gente.

Uma Trova de Manaus/AM
Doroni Hilgenberg

A cama guarda segredos,
guarda amor e fantasias,
guarda também muitos medos
das madrugadas vazias.

Um Soneto de Bragança Paulista/SP
Lóla Prata

Soneto-comentário sobre "São Francisco e o rouxinol", de Martins Fontes

Um rouxinol cantava”... é o primeiro verso
do encantador soneto de Martins Fontes
em cujo clássico teor eu me alicerço
para a louvação de seus vastos horizontes.
Cativa a todos a singela narrativa
do elo musical da ave com São Francisco
que no assobio alegre, imita a patativa
como se numa vitrola, emperrasse o disco.

Mas o santo cansa-se... o pássaro segue...
e o praiano bardo se descongestiona,
pondo no papel até que o dom descarregue

todo o amor dedicado ao humilde frade...
depois, relendo o poema, se emociona
e vê que pra versos nasceu, eis a verdade!

1º lugar na Academia Santista de Letras em 2006
Concurso LOUVEMOS MARTINS FONTES

Uma Trova Humorística de São Mateus do Sul/PR
Gerson Cesar Souza

Vendo as listras do pijama
que vestia Dorotéia,
seu genro, bêbado, exclama:
- A zebra engoliu a véia!!!




Uma Trova de São Paulo/SP
Campos Sales

Mulher por Deus concebida,
é o fruto que ao mundo veio,
trazendo a fonte da vida
na vida do próprio seio.

Um Poema de Aracaju / SE
Raimundo Sampaio Costa

O enigma do Eu

Não é preciso dares nome
À tua enfermidade moral.
Este teu puritanismo nas entranhas embutido
É a doença que vos infecta.
E, para satisfazeres a saga de tua insana mente
Atacas-nos qual abutre faminto invejando-nos o ser.
Enfim! Libertas-te das algemas sujas
Do calabouço moralista que vos aflige.
Procuras na pureza pura dos prazeres te encontrar.
A causa de tua imensa dor
É a crise interna do desamor.
O Enígma de teu Eu, é apenas teu.
Não se reprima, não se reprima.
Pouco importa se és Dagmar, Itamar ou Valdemar...
Cruzes, cruzes,cruzes.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Eu quero bem, mas não digo
a quem é que quero bem;            
quero que saibam que eu quero, 
mas que não saibam a quem!

Uma Trova Hispânica da Venezuela
Ángela Desirée Palacios

La familia hay que cuidarla
para que esté siempre unida,
siempre quererla y amarla
y tenerla protegida.

Um Poema de Rio Branco / AC
Alessandro Borges de Moura

Magia infinda

Olha lá! O vento assanhando os cabelos verdes das árvores!
O moleque escorregando a ladeira com luvas
A correnteza levando os barquinhos de papel...
São crianças brincando na chuva.

Olha lá! A euforia subindo as montanhas!
A água turva se embalando;
O trovão montando na nuvem...
São crianças brincando na chuva.

Olha lá! Dezenas de pezinhos
Dançando sobre o barro vermelho!
A bola na rua fazendo curva,
As risadas sagradas da felicidade...
São crianças brincando na chuva.

Olha lá! Esse rio alegre de gente!
Não importam as trovoadas;
Essa chuva ainda vai longe...
Espalhando por toda terra
A magia infinita de toda essa criançada!

Trovadores que deixaram Saudades
Elen de Novaes Félix
Niterói/RJ (???? – 2015)

Quando as folhas vão caindo,
fecundando o solo enxuto,
o outono chega sorrindo
pelo sorriso do fruto.
Uma Trova de Natal/RN
Clarindo Batista de Araújo

Se todos fossem honestos,
ninguém veria, na praça,
mendigos comendo restos
do pão que a miséria amassa!

Um Poema de Belo Horizonte / MG
Ana Carolina Viana Faria

Frágil

Um monstro essa tal solidão
Que mata e envenena
Te rouba a razão
Te faz ir na contramão.

Um horror essa tal ilusão
Que afasta e queima
Um ou outro coração...
Sem hesitar.

Uma frágil emoção
Esse amor guardado em meu peito
Tão frágil que dá medo
Tão seguro que é frágil.
Parece que somos tão iguais...
E tão diferentes
Parece que somos tão unidos...
E tão distantes.

Não me pergunte por quê
E nem para onde
Só posso lhe dizer
Que agora eu quero você.

Uma Trova de Caçapava/SP
Élbea Priscila de S. e Silva

Atravesso a praça e estanco
ao ver a saudade atroz,
sentada no mesmo banco
que era ocupado por nós...

Um Haicai de Maringá/PR
A. A. de Assis

Casal ao relento.
Embaixo da árvore nua,
na cama de folhas.



Um Poema do Rio de Janeiro / RJ
André Luiz de Oliveira Pinheiro

A paz

Ó paz! Que a guerra proclama e não vem
Pomba branca, alvo do canhão, fugidia
Que no céu é a luz da manhã todo dia
A noite, lume na treva, e se mostra também...

Ó nações! Que buscam essa paz pelas eras
E a pomba branca em pincéis a pintá-la
Esperando em paz pelas mãos a soltá-la
Em bilhões de homens, são pincéis de quimeras...

Busca vã defraudada! No tempo perdido
Corações incontidos! Se vão colididos
De nações em lutas... De irmãos a brigar...

Mas a paz vislumbrada no amanhã temido
Não é céu esquecido! É bem requerido
Que do fundo d’alma pomba vai libertar…

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Sérgio Bernardo

Descrente dos bens terrenos,
chego à tardia certeza
de quanto foram pequenos
meus delírios de grandeza...

Um Poema de Balneário Pinhal / RS
Annulino Soares

O menino e o riacho

Quase todas as tardes
Com um caniço e uma linha
Aquele menino e suas verdades
Para aquele riacho ia

Caniço e linha na espera
O menino com o riozinho falava:
- Riozinho, eu quero que tuas correntezas
Levem as minhas tristezas

- Riozinho, troca comigo
Por um peixinho?
E o riozinho, atendendo ao pedido amigo
Lhe respondia com todo o carinho

No caniço e na linha do menino
O riozinho colocava um peixinho
Aquele riozinho tinha pena do pequenino
Agradecido, chamava o riozinho de meu amorzinho

Com os olhos em lágrimas, crede
Lavava o rosto nas suas águas
Usando as mãos matava a sede
Se despedia, parecia que ali deixava algumas mágoas

Uma tarde o menino foi ao riozinho e falou:
- Riozinho, hoje eu não vim te pedir nada
Estou muito feliz, minha mãezinha voltou
Quero só conversar, tu me ouviste quando eu mais precisava.

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Licínio Antonio de Andrade

Em meu delírio utopista
um sonho não se desfaz:
– é ver um mundo otimista
unindo as mãos pela paz.

Uma Teia de Trovas, de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Junior

Do amor

Noite a noite, comovido,
na dureza do colchão,
tenho ouvido o seu ruído,
ou será meu coração?

Meu amor tem esperança
de esperar, sem desejar;
todo amor é uma criança
que cresceu sem esperar.

Cada folha, nesse inverno,
só prospera na ilusão;
nosso amor é que é eterno,
primavera até verão.

Ternamente, docemente,
nos amamos e amaremos;
o futuro é mais presente
no jardim que oferecemos.

Outra lágrima se espalha
nas folhinhas do jardim;
doce orvalho, só migalha,
resto d'alma no jasmim...
Um Poema de Tupã / SP
Carlos Marcos Faustino

Melancolia

Ai! Os fados que nas noites canto,
Vão sendo espalhados ao longo do oceano,
Enquanto ao sabor do vento as ondas dançam,
E à lua tecem juras os que amam;
Ai! Da minha terra todos os encantos,
Enchem minha alma de tristeza, de alegria,
Como eram doces, meu Deus, aqueles dias.

Ai! Como já dói no peito a saudade,
Minha aldeia toda enfeitada de flores,
Depois das colinas, repleta de amores,
Minha casa, recanto de felicidades,
Meus anos todos de meninice,
Pastorear as ovelhas e as cabras,
Depois crescer, arrumar as malas,
Sem nem mesmo ter barba na cara,
Verter um cálice de lágrimas e de ais,
E ver cada vez mais distante o cais.

Meus pais, num último aceno estampado,
Dois brancos lenços, apenas dois alvos pontos,
Como duas gaivotas perdidas no horizonte,
Descem gotas em meu rosto que a brisa espalha,
E a emoção que chega embarga a minha voz, que falha,
E tudo o que consigo sentir nesse instante,
São coisas que o mar me assovia, Melancolia.

Uma Trova de Fortaleza/CE
Leda Costa Lima

A alegria de quem ama
bem traduz o intenso brilho
nos olhos da mãe, na cama,
ao ver o primeiro filho!

Um Poema de Vitória da Conquista / BA
Eber dos Santos Chaves

O soldado moribundo

Meus olhos se abrem
Sinto-me atordoado
Meu corpo, deitado em meio à lama,
Está febril e dormente
Não tenho forças para me levantar.

Ouço aviões se aproximando
O medo me paralisa
O bombardeio me ensurdece
Sinto o chão estremecer
Inerte, choro e rezo para não ser atingido.

Há uma pausa nos ataques
Levanto os meus olhos, mas o que vejo é tão triste
A fumaça se mistura à névoa
Os campos estão pintados de vermelho
E o lamaçal é um depósito de braços, pernas e entranhas.

Queria que tudo isso fosse apenas um pesadelo
Em que estivesse tentando fugir do horror do campo de batalha,
Mas a dor, o frio e o cheiro de morte
Anunciam minha lucidez

Nunca mais serei o mesmo
A minha fé, antes inabalável,
Agora se dissipa ao avistar cada corpo mutilado
Sei que a morte está a minha espera
E que a minha sentença é certa,
Mas ainda não posso desistir de viver.

Recordando Velhas Canções
Minhas madrugadas
(samba, 1965)

Paulinho da Viola e Candeia

Vou pelas minhas madrugadas a cantar
Esquecer o que passou
Trago a face marcada
Cada ruga no meu rosto
Simboliza um desgosto

Quero encontrar em vão o que perdi
Só resta saudade
Não tenho paz
E a mocidade
Que não volta mais

Quantos lábios beijei
Quantas mãos afaguei
Só restou saudade no meu coração
Hoje fitando o espelho
Eu vi meus olhos vermelhos
Compreendi que a vida
Que eu vivi foi ilusão

Uma Trova de Belém/PA
Antonio Juraci Siqueira

Vão as agruras da lida
e tudo mais tem valia
sempre que a vida é  envolvida
nos braços da Poesia!

Um Poema de Quatro Barras / PR
Iza Engel

Encanto

Moça bonita,
Coração a cantar.
Sorriso estampado.
Brilho no olhar.
Pelo que mostra,
Há amor,
Muito amor,
Nesse ar…

Uma Trova de Senhor do Bonfim/BA
Austregésilo Miranda Alves

Atrás de sonho e ilusão
vi, no outono, o mesmo intento
num gatinho brincalhão
atrás de folhas ao vento...

Um Poema de Curitiba/PR
Iracema Alvarenga

Limite

Como por limite
Numa menina
Atrevida, moleca,
Impetuosa, alegre,
Decidida, aventureira?

Ir além do limite.
Se entregar às aventuras
Da vida, aos prazeres, ao vício...

Meu Deus! Por que?
Viver intensamente
Errados rumos?
Agredir os outros?
Violentar a si mesma?
Transgredir a lei?

Sem pensar em nada...
Seguia pela madrugada.
Aventura perigosa, dolorosa,
Sem limites.

Até que um dia não retornou...
A morte a libertou.
Fim do sofrimento,
Da busca,da ilusão,
Danação, falta de sossego.
Confusas situações, trama, armadilha…
 
Hinos de Cidades Brasileiras
Itapema/SC

Esculpida da pedra tu foste,
Tapera se denominou
Em um tempo não muito distante,
tua história assim começou
Itapema mais tarde seria,
e o progresso iria chegar
Povo ordeiro e trabalhador
tuas terras viria habitar

És orgulho para todos nós,
e a história só vem confirmar
És estrela da rota do sol,
no turismo és força sem par
Terra rica em frutos do mar,
Itapema do meu coração
Orgulhosos cantamos teu nome,
princesinha da nossa nação.

Tuas matas, encostas e rios,
montanhas de rara beleza
Tua fauna e também tua flora,
para nós uma grande riqueza
Do teu solo tão fértil que é,
doces frutos podemos colher
Pois também tua agricultura
não podemos jamais esquecer.

É destaque na pesca o teu mar,
que orgulha os teus moradores
Deste até mesmo uma profissão
para teus filhos, os pescadores
Tua força é teu povo, Itapema,
como é doce o teu nome cantar
Nos ouvidos de nossas crianças,
o teu nome é canção de ninar.

Itapema, Itapema,
linda flor que a todos fascina
Itapema, Itapema,
no jardim de Santa Catarina
Itapema, Itapema,
Itapema do meu coração
Orgulhosos cantamos teu nome,
princesinha da nossa nação.

Uma Trova de São Paulo/SP
Cipriano Ferreira Gomes

Tempestade... e mar erguido
é um cavalo em movimento
que, tendo o corpo ferido,
desfere coices no vento.

Um Poema de Paranavaí/PR
Dinair Leite

YARA

A remar pelo rio, Francisco
no Chico pousou o olhar
Por falta de amor, em descanso
no velho Chico fora pescar

Sozinho por conta e risco
Francisco retoma o remar
a vadiar no doce remanso
no barco, anzol a esperar

Para afastar o fastio
o moço se põe a cismar
solta remos n'água do rio
e sonha outro amor, a vagar

E se debruça na água
à procura de uma resposta
Coloca à deriva, a mágoa
a dor que o peito lhe arrosta

Então divisa a sereia
de verdes cachos, formosa
que o leito d'água verdeia
no vai e vem, sinuosa

O moço olha em fascínio
a ninfa irresistível
Beleza de corpo cetíneo
a domar o jovem falível

O gênio das águas atrai
com doces promessas, encanto
amor, feitiço, quebranto
e o moço, no rio, cai

Uiara o toma em abraço
um braço sedoso o envolveu
Abriu-se o portal e o paço
de cristal, o moço acolheu

Francisco, no Chico sumiu
rumou à nova vivenda
Fantástico canto se ouviu:
- O moço assim virou lenda.
_____________________________________

 

A mensagem dos meus lábios
em resposta à sua ofensa
tem o silêncio dos sábios,
que outra resposta dispensa!

Amigo é trova perfeita
que tem sentido completo;
a redondilha que enfeita
as rimas... do meu afeto!

Aquele adeus inconcluso,
que eu recebi como ofensa,
pôs-me ainda mais confuso:
não foi adeus... foi sentença!

As ondas laboriosas
urdindo em verdes teares,
desenham rendas mimosas
para as noivas de seus mares!…

A viola atravessada,
presa à viga da palhoça,
parece uma cruz lavrada
na alma cantante da roça!

Como é bom café quentinho
com broinhas de fubá,
fogão de lenha, um ranchinho
e a paz que a roça me dá!

Com requintes de nobreza,
na incerteza de quem vem,
ponho o vinho sobre a mesa
mas faço um brinde a ninguém…

Confinei meu sonho ousado
nas fronteiras que tracei,
mas o sonho revoltado
tornou-se um fora-da-lei!

Criei um muro entre a gente,
pensando em me defender...
Mas teu semblante, insistente,
pula o muro e vem me ver!...

Em sonhos, acorrentado,
entre regressos sem fim,
vivo vidas do passado,
vividas dentro de mim.

Flores na ponta do pé
que o vento agita e lidera,
entram dançando balé
no palco da primavera!...

Nas manhãs cheias de cores
quando o Sol se manifesta,
os ninhos se enchem de amores
e a vida brinca de festa!!!

O espetáculo termina
e o dia encerra a função.
A noite estende a cortina
nos varais da solidão!

O motivo é tão perfeito...
Meia-lua... o céu em festa...
que o sonho sonha no leito
da rede que a lua empresta!

O teu semblante lembrado
entre um luar e uma rede,
hoje é sonho emoldurado
que eu pendurei na parede!

Quem só cuida do semblante
e se furta ao bom conselho,
mostra na alma agonizante
o que não mostra ao espelho.

Quero beijar-te... e, distante,
grafo estes beijos à mão.
Se não tenho o teu semblante,
que viva a imaginação!

Refúgio que não consola,
mas engana de verdade,
é beber uma viola
degustando uma saudade!

Se a palavra vem vazia
ou vem ferindo demais,
mil vezes a companhia
do silêncio e nada mais!

Sendo o silêncio uma prece,
eu nem preciso rezar...
Se a minha alma se entristece,
faço o silêncio falar!

Sou uma roça enflorada
quando ao sol de teu olhar,
me amanheço em alvorada
com meus sonhos a espigar!

Tento agarrar teu semblante
na ilusão de ser verdade.
Mas percebo neste instante
que foi troça da saudade...

Vai a tarde, agonizante,
gotejando a luz do dia...
e num golpe fulminante,
a noite estanca a sangria!


Folclore Brasileiro
O Saci



Quirino dos Santos
O Saci

“Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.

Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;

Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.

Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.

No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.

Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!

Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!

Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.

É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!

Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou…
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.

Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!

Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.

Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.

Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!”

Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!

Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.

Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!

Como ela deixa a desora
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!…
______________
Cleonice Rainho
Saci-Pererê

Bonequinho preto
de uma perna só,
cachimbo na boca
e gorro vermelho
— fogo vivo de suas magias.

Original e engraçadinho
podia ser de qualquer cor
ou de qualquer raça,
esse negrinho,
pois já virou até passarinho...

Molequinho esperto levado,
faz artes como Pedro Malazartes
e pelas estradas
aos viajantes persegue
— traidor como quê esse Saci-Pererê.

Mas no nosso carro,
ele dança e pula
com um pé só,
sem ouvir vovó
que conta sua lenda e diz:
— Pra nós é um mascote,
símbolo de sorte
dessa viagem feliz.



A Lenda do Saci
         É um duende idealizado pelos indígenas brasileiros como apavorante guardião das florestas. A princípio ele era um curumim perneta, de cabelos avermelhados, encantador de crianças e adultos que perturbava o silêncio das matas.
         Saci é o duende mais popular do Brasil. Sua lenda ocorre no Sul, no Centro e no Norte do Brasil.
         Gozando da faculdade de se transformar, como todos os personagens elementais, ora é visto sob a forma de um pequeno tapuio, sozinho ou acompanhado por uma horrível megera, ora como um negrinho unípede, de barrete vermelho que aparecia aos viajantes extraviados na floresta, mas pode ainda, aparecer disfarçado de uma ave. Na maioria das lendas Tupis, o Saci é encontrado na forma de um pássaro. Distingue-se pelo canto, que consiste em duas sílabas: “sa-cim”.
         O cântico dos pássaros sempre esteve ligado ao fato da crença greco-romana dos augúrios que se julgava poder tirar-se da aparição, do vôo ou do canto das aves.
         Quando os Tapuias ouviam o canto do Saci, os velhos o esconjuravam, as crianças procuravam o aconchego do colo de suas mães, os pais tremem, mas não negam o fumo que espalham pelas cercas dos quintais, para que o Saci se cale e se retire, levando com que satisfazer o vício de fumar.
         Em contato com o elemento africano e a superstição dos brancos, recebeu o cognome de Taperê, Pererê Sá Pereira, etc. Tornou-se negro, ganhou um gorro vermelho e um cachimbo na boca. Em alguns lugares, como às margens do rio São Francisco, adquiriu duas penas e a personalidade de um demônio rural que faz travessuras e gosta de enganar pessoas. É o famoso Romão ou Romãozinho.
         Na zona fronteiriça ao Paraguai ele é um anão do tamanho de um menino de 7 a 8 anos, que gosta de roubar criaturas dos povoados e largá-las em lugar de difícil acesso. Talvez devido aos vestígios culturais trazidos pelos bandeirantes em suas andanças pelo sul do Brasil, o saci mineiro recebeu, além dessas qualidades do “Yaci-Yaterê” guarani, um bastão, laço ou cinto, que usa como a “vara de condão” das fadas européias. Sincretizado freqüentemente como o capeta, tem medo de rosários e de imagens de santos. Quando quer desaparecer, transforma-se num corrupio de vento.

         Através de Tio Barnabé, um dos seus personagens, Monteiro Lobato descreve o Saci-Pererê:
         O saci é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte: azeda o leite, quebra pontas das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça.
         Tio Barnabé continua:
         - Tinha anoitecido e eu estava sozinho em casa, rezando as minhas rezas. Rezei, e depois me deu vontade de comer pipoca. Fui ali no fumeiro e escolhi uma espiga de milho bem seca. Debulhei o milho numa caçarola, pus a caçarola no fogo e vim para este canto picar fumo pro pito. Nisto ouvi no terreiro um barulhinho que não me engana. “Vai ver que é saci!” – pensei comigo. – E era mesmo. Dali a pouco um saci preto que nem carvão, de carapuça vermelha e pitinho na boca, apareceu na janela. Eu imediatamente me encolhi no meu canto e fingi que estava dormindo. Ele espiou de um lado e de outro e por fim pulou para dentro. Veio vindo, chegou pertinho de mim, escutou os meus roncos e convenceu-se de que eu estava mesmo dormindo. Então começou a reinar na casa. Remexeu tudo, que nem mulher velha, sempre farejando o ar com o seu narizinho muito aceso. Nisto o milho começou a chiar na caçarola e ele dirigiu-se para o fogão. Ficou de cócoras no cabo da caçarola, fazendo micagens. Estava “rezando” o milho, como se diz. E adeus pipoca! Cada grão que o saci reza não rebenta mais, vira piruá.
         Dali saiu para bulir numa ninhada de ovos que a minha carijó calçuda estava chocando num balaio velho, naquele canto. A pobre galinha quase que morreu de susto. Fez cró, cró, cró… e voou do ninho feito uma louca, mais arrepiada que um ouriço-cacheiro. Resultado: o saci rezou os ovos e todos goraram.
         Em seguida pôs-se a procurar o meu pito de barro. Achou o pito naquela mesa, pôs uma brasinha dentro e paque, paque, paque… tirou justamente sete fumaçadas. O saci gosta multo do número sete.
         Eu disse cá comigo: “Deixe estar, coisa-ruinzinho, que eu ainda apronto uma boa para você. Você há de voltar outro dia e eu te curo.”
         E assim aconteceu. Depois de muito virar e mexer, o sacizinho foi-se embora e eu fiquei armando o meu plano para assim que ele voltasse.
         Na sexta-feira seguinte apareceu aqui outra vez às mesmas horas. Espiou da janela, ouviu os meus roncos fingidos, pulou para dentro. Remexeu em tudo, como da primeira vez, e depois foi atrás do pito que eu tinha guardado no mesmo lugar. Pôs o pito na boca e foi ao fogão buscar uma brasinha, que trouxe dançando nas mãos.
         Tem as mãos furadinhas bem no centro da palma; quando carrega brasa, vem brincando com ela, fazendo ela passar de uma para a outra mão pelo furo. Trouxe a brasa, pôs a brasa no pito e sentou-se de pernas cruzadas para fumar com todo o seu sossego.
         Quando quer cruza as pernas como se tivesse duas! São coisas que só ele entende e ninguém pode explicar. Cruzou as pernas e começou a tirar baforadas, uma atrás da outra, muito satisfeito da vida. Mas de repente, puf! aquele estouro e aquela fumaceira!… O saci deu tamanho pinote que foi parar lá longe, e saiu ventando pela janela fora.
         Eu tinha socado pólvora no fundo do pito – exclamou tio Barnabé, dando uma risada gostosa. – A pólvora explodiu justamente quando ele estava dando a fumaçada número sete, e o saci, com a cara toda sapecada, raspou-se para nunca mais voltar.

LENDA DA ORIGEM INDÍGENA DO SACI

         Um tuixaua tinha dois filhos. O tio odiava os sobrinhos e convidou-os para ajudá-lo em uma derrubada de árvores para fazer um plantio. Os dois sobrinhos aceitaram.
         Chegando na floresta, o tio embriagou os jovens e os assassinou por pura maldade.
         Depois um dos assassinados perguntou ao outro:
         -“Eu tive um sonho muito estranho e tu o que sonhaste?”
         -“Sonhei, diz o outro, que nos lavávamos com carajuru”.
         -“O mesmo sonhei eu”.
        
         E resolveram voltar para a casa da avó. Vendo-os, a velha já ia aquecer o jantar, mas os dois netos disseram:
         -“Ah! nossa avó, nós não somos mais gente, e sim só espíritos. Assim, sendo, nós teremos que te deixar, mas quando ouvires cantar: Tincauan…Tincauan!…foge para casa. Mas quando cantarmos: Ti….Ti…Ti…., então nos reconhecerás.

         Ficaram os jovens, desde então, mudados em dois pássaros de agouro, de mistério e de morte. Um é Saci, o outro é o Matintaperera. Ambos nascidos de uma tragédia, só espalham desgraças e semeiam pavores.

         Impondo-se à crendice popular como um pássaro possuído pelo demônio, o Saci, adquiriu feições de gente e à noite vagueava pelas estradas, cantando e assobiando.
         Contam que nos tempos coloniais, quando se avistava uma moça magra, triste, pálida, logo diziam:
         - “Isso é obra de Saci”, porque, segundo os velhos colonos, as moças se apaixonavam por ele, sendo a morte a conseqüência inevitável desta paixão. Daí as quadrinhas consagradas no folclore popular:

“Menina, minha menina,
Quem te fez tão triste assim?
De certo foi Saci
Que flor te fez do seu jardim.”

         Sua imagem e sua lenda, sofreram transformações quando em contato com elementos africanos e europeus. Suas características comportaram muitas variantes. Cada qual o vê a seu modo. De suas diabruras foram narradas coisas espantosas. Não se têm conta do número de molecagens e sortilégios que o diabinho infantil praticou. À noite dava nó na crina dos cavalos, roubava os ninhos das galinhas, cuspia nas panelas quando a cozinheira era preta, deixava as porteiras abertas, assobiava como o vento nas janelas e nas portas, etc.
         O cavalo era uma das suas vítimas preferidas. Segundo a crendice popular, o Saci corre as pastagens, lança um cipó no animal escolhido e nunca errou, trança-lhe a crina para amarrar com ela o estribo e, de um salto, ei-lo montado. O cavalo toma-se de pânico e deita a corcovear campo a fora, enquanto o Saci lhe finca o dente no pescoço e chupa seu sangue.
         Uma curiosidade em relação ao Saci-Pererê é que ele pode tornar-se invisível com o uso do sua carapuça vermelha. Contam alguns, que onde se forma um redemoinho de vento que levanta muito poeira (pé de vento), é certo que dentro dele há um Saci. Para capturá-lo, deve-se jogar dentro dele um rosário ou uma peneira. Todo o Saci, como todo o diabinho, tem horror de cruz. Já outros, afirmam que ele usa um barrete feito de marrequinhas (flores da corticeira) e é o Saci que governa as moscas importunas, as mutucas e os mosquitos.
         Mas porque nosso Saci tem uma perna só?
         O Saci é considerado um fiel representante de um período social da história do Brasil: a época da escravidão. Portanto, não é por acaso que o Saci apresenta-se com uma perna só, pois todos os escravos fugidos que eram recapturados passavam por muitas torturas e muitas vezes eram esquartejados. O Saci retrata este negro escravo em sua luta contra o dominador e o discriminador. A falta da perna não é só metáfora, mas sim algo que realmente acontecia nesta época e passou para o folclore a partir das amas negras, ao contarem suas estórias para embalar os sonhos das crianças brancas.
         Com o passar do tempo, a imagem do Saci rebelde e desordeiro, foi amenizada, forçosamente controlada e passou então para estória brasileira como um símbolo nacional, um mestiço que une classes sociais e as etnias. Mas sabemos que a verdade não é bem essa….!
         O valioso livro “Contos Populares” de Lindolfo Gomes, conta-nos um curioso caso, em que domina o Saci. E, das eruditas notas explicativas, transcrevemos:
         “A respeito do Saci, há uns que afirmam ser um negrinho de uma banda, ou de uma perna só, gênio em alguns casos benfazejo e protetor e em outros, perverso e malfazejo, que vaga à noite pelas estradas a perseguir os viajantes ou penetrar nos lares para praticar toda a sorte de malefícios e acender seu cachimbo, sempre armado de um cacetinho, pronto a descarregá-lo no lombo alheio. Já para outros, o Saci é um passarinho cabuloso e maléfico. Percebe-se logo que este mito saci foi com o decorrer dos tempos se ampliando de elementos míticos estranhos, como por exemplo, os da Escócia, com os quis, segundo Ramiz Galvão, muito se assemelha o “Trilby”, do conto de Nodier e o diabrete “Robin”, de que nos fala Shakespeare, ora tão prestativo e ora tão perverso para com a gente da casa em que se instala.”
         Há também ainda, quem lhe pinte com feições mais perversas, descrevendo-o como o “terror dos caçadores”, que salta à garupa dos cavaleiros, chibatando-os e torturando-os.
         Foi Monteiro Lobato em seu livro “O Saci”, quem mais popularizou este personagem, como uma entidade travessa. Conta-nos que ele nascia em um local da floresta conhecida como “sacizeiros”, constituída de bambuzais. Desse local só sairá quando completar 7 anos e viverá até os 77.
         Mas mesmo Lobato não conseguiu com sua obra apagar os traços estigmatizantes do Saci, pois a mentalidade da escravidão ainda era muito forte. Tais marcas só desaparecem bem mais tarde, quando a indústria cultural consegue domesticar o Saci e torná-lo tão somente um molequinho arteiro, que perdeu seus poderes mágicos e sua agressividade.
         Serão suas travessura que lhe garantirão popularidade em todo o País e fora dele também. Conheça um pouco da sua estória….

O SACI E A PERNA DE PAU

         Conta-se que numa noite, há muito tempo atrás, em que outros homens se divertiam jogando e bebendo, um deles, chamado Felício, resolveu dar umas voltar e se deliciar com o luar. Sentou-se num grosso tronco de ipê, a beira do riacho e começou a preparar um “pito”. Foi quando ouviu uma vozinha:
         - “Moço, tem um pouco de fumo aí?”.

         Pensando que fosse um de seus amigos, virou-se para responder, quando deu com o Saci. Ele lhe sorria segurando um cachimbinho vazio.
         Felício, ficou branco, depois verde, um arco-íris de cores, tamanho foi seu susto. Quis gritar, mas sua voz sumiu por encanto, ou medo mesmo. O Saci chegou mais perto e disse:
         - “Não tenha medo, meu amigo. Só quero um pouco de fumo.”

Felício faz um esforço danado e tira do bolso um pedaço de fumo.
         - “Aqui está!”. Diz ele ao Saci, mal conseguindo balbuciar as palavras.
         - “Assim não serve. Respondeu o diabinho. “Tem que ser picado, pois não tenho canivete”.

         Com medo de irritar o Saci, o pobre homem tratou de fazer rapidinho o que ele lhe pediu. Depois, com muito sacrifício, Felício deu o fumo ao Saci.
         - “Encha o pito!”
         - “Agora acenda!”. Ordenou ele.

         O Saci passou então, a dar baforadas de satisfação. Passados alguns minutos, o danadinho chegou mais perto e perguntou a Felício o que estava fazendo tão longe de casa. Felício explicou então que trabalhava com madeiras e foi contando sua história… No final o Saci deu uma grande risada e disse:
         - “Madeira, não é mesmo? Pois é justamente o que eu estava procurando…”
         - “Mas para que?” Pergunta Felício.
         - “Olhe, pois vou lhe confessar uma coisa, as vezes tenho muita vontade de ser como as outras pessoas e ter duas pernas, entende?
         - “Ah!”. Respondeu, compreendendo a intenção do Saci. “Você quer que eu lhe faça uma perna de pau, não é mesmo?”
         - “Pois é isso mesmo e te darei três dias para que esteja pronta, senão não darei sossego a você e seus companheiros!” Em seguida saiu pulando e sumiu no meio do mato.

         Felício voltou ao seu barracão e contou aos companheiros o acontecido. Uns acreditaram ,outros acharam que tinha bebido demais.. Até que Felício acabou esquecendo o caso. No terceiro dia, conforme prometido, quando os homens estavam em pleno trabalho, eis que um menino de gorro vermelho surgi à porta do barracão. Quando deram com ele..vocês nem podem imaginar..uns empurravam os outros, caiam, levantavam-se e acabaram saindo todos pela abertura da janela. Apenas Felício ficou lá, estarrecido! Daí perguntou:
         - “O que você quer?”
         - “Ora, ora. Então não sabe? Vim buscar minha perna de pau, lembra-se? Não vá dizer que ainda não está pronta?”

         Felício gaguejou, atrapalhou-se todo até que consegui dizer que ainda não estava pronta. O Saci xingou, esbravejou, mas acabou indo embora com a promessa que tudo estaria pronto dentro de mais três dias.
         Felício saiu atrás dos homens. Gritou um tempão até conseguir reunir todos. Eles não queriam ficar mais no barracão. Não queriam nada com o Saci. Ajudar a fazer a perna dele? Nem sonhando! Mas acabaram concordando, pois era a única maneira de se livrar do diabinho.
         Trabalharam com afinco. No dia marcado, o Saci voltou e ficou muito contente. Todos suspiraram aliviados. Mas pensam que a estória acaba assim? Que nada! Ele falou que desejava uma perna para cada Saci de sua família. Não esperou resposta, deu um assobio e logo o barracão ficou cheio de sacis. É claro que Felício ficou sozinho! Não vendo outra saída, ele concordou em fazer as pernas de pau, mas ia levar anos. Quis saber então quais os Sacis que iam ser atendidos primeiro. Aí sim o tumulto foi grande, ninguém queria ser o último.
         Foi quando Felício teve uma idéia. Ele viu uma enorme arca que haviam trazido para deixar no rancho e mentalmente resolveu a situação.
         Dirigiu-se ao Saci-chefe:
         - “O melhor modo de resolver quais serão os primeiros é este…” Pegou um punhado de feijão e esparramou no fundo da arca. Depois disse que quem pegasse mais grãos seriam os primeiros. Todos os Sacis concordaram e mergulharam na arca. Mas Felício havia esquecido do Saci-chefe. Foi quando então tirou-lhe da mão a perna de pau e atirou-a dentro da arca. O Saci nem piscou e também se jogou dentro da arca. O Felício então fechou-a. Chamou os homens e levaram a arca o mais longe possível. Desde então nenhum Saci apareceu mais por aquelas bandas.
—————————-
         Em seu O Saci-Pererê – Resultado de um inquérito , Monteiro Lobato faz um retrato falado do Saci, conforme lhe foi passado por entendidos no assunto:
         Só no convívio do sertanejo, valente de dia e medroso de noite, ao som da viola num rancho de tropeiros, vendo bruxolear a fogueirinha e, fora, na imprimadura da escuridão, lucilar o vagalume vagabundo é que um artista poderá “ouvir e entender” sacis.
         O medinho contagioso abrir-lhe-á todas as válvulas da compreensão. E saberá pela boca ingenuamente crédula do Jeca Tatu que tempera a viola que o Saci é um molecote daninho, cabrinha malvado, amigo de montar em pelo nos “animais” soltos no pasto e sugar-lhes o sangue enquanto os pobres bichos se exaurem em correria desesperada, às tontas, loucos de pavor. E que em dias de vento ele passa pinoteando nos remoinhos de poeira. E que nessa ocasião basta lançar no turbilhão um rosário de caiapiá para tê-lo cativo e a seu serviço como um criadinho invisível. E saberá mil particularidades mais, ouvirá “causos” de mil diabruras pelos campos, ou dentro de casa se uma cruz na porta principal não a protege do capeta. E ficará encantado com a psicologia do pernetinha, cuja mania é atazanar a vida do sertanejo com molecagens de todo o gênero sem entretanto cair em excessos de perversidade. Não tem maus bofes, o Saci. O que quer é divertir-se a custa do caboclo e quebrar a vida monótona do sertão.
         Mas há controvérsias.
         Na Geografia dos Mitos Brasileiros , Câmara Cascudo cita uma passagem de Poranduba Amazonense em que Barbosa Rodrigues vê a identidade do insigne perneta se sobrepor à de uma ave, o popularíssimo “Pássaro-Saci”:
         … no Sul é Saci tapereré, no Centro Caipora e no Norte Maty-taperê.
         O civilizado, que muitas vezes não entende a pronúncia do sertanejo, que é o mais perseguido por ele nas suas viagens, tem-lhe alterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê, Sererê, Siriri, Matim-taperê e até já lhe deu um nome português, o de Matinta-Pereira, que mais tarde, talvez, terá o sobrenome “da Silva” ou “da Mata”. Para conseguir seus fins, e fazer suas proezas sem ser visto, sempre vive o Saci ou Mati metamorfoseado em pássaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancólicas, ora graves ora agudas, iludem o caminhante que não pode assim descobrir-lhe o pouso porque, quando procura vê-lo pelas notas graves, que parecem indicar-lhe estar o Saci perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E assim, iludido pelo canto se perde, leva descaminho nunca vendo o animal.
         Um adendo. Gabriel Esquerra, um saciólogo argentino, diz existir uma dúvida polêmica, entre a população de Misiones, na região fronteiriça com o Brasil e o Paraguai, quanto à questão levantada por Barbosa Rodrigues: ninguém sabe ao certo se o Saci e o pássaro-Saci se convertem um no outro ou se trabalham em sociedade…
         Já Alceu Maynard Araújo, no primeiro volume de Folclore Nacional , cita o major Benedito de Sousa Pinto, de São Luiz do Paraitinga, evidentemente:
         Conhecemos três espécies de Saci: trique, saçurá e pererê. O Saci mais encontrado por aqui é o Saci-pererê. É um negrinho de uma perna só, capuz vermelho na cabeça e que, segundo alguns, usa cachimbo, mas eu nunca vi. É comum ouvir-se no mato um “trique”isso é sinal que por ali deve estar um Saci-trique. Ele não é maldoso; gosta só de fazer certas brincadeiras como, por exemplo, amarrar o rabo de animais.
         O saçurá é um negrinho de olhos vermelhos; o trique é moreninho e com uma perna só; o pererê é um pretinho que, quando quer se esconder, vira um corrupio de vento e desaparece no espaço. Para se apanhar o pererê, atira-se um rosário sobre o corrupio de vento.
         Quando se perde qualquer objeto, pega-se uma palha e dá-se três nós, pois se está amarrando o “pinto” do Saci. Enquanto ele não achar o objeto, não desatar os nós. Ele logo faz a gente encontrar o que se perdeu porque fica com vontade de mijar. Quando se vê um rabo de cavalo amarrado, foi o Saci quem deu o nó. Tirando-se o gorrinho do Saci-pererê, ele trará para quem o devolva tudo o que quiser.
         Quando passar o redemoinho de vento, jogando-se nele um garfo sai o sangue do Saci. Há outras versões: dizem que jogando-se um rosário, o Saci fica laçado; e que jogando-se uma peneira, fica nela.

Um ancestral do Saci

         Pesquisando sobre a origem e abrangência geográfica do saci, me aventurei por livros e enciclopédias de folclore. Embora todos os continentes tenham duendes protetores das florestas, nenhum tem as características de nosso simpático unípede. Nem mesmo na África negra descobri parentes do saci, o que delimita seu habitat natural à América do Sul.
         Os guaranis contam histórias de um pequeno índio meio mágico, com o poder de ficar invisível, que vive nos bosques e protege os animais, escondendo-os dos caçadores. Seu nome é Cambai ou Cambay, e curiosamente ele tem uma perna torta, e anda manquitolando. Vem daí a expressão cambaio, que significa manco, em português. Cambai pode ser considerado um ancestral do saci moderno, que adquire a cor preta por influência da cultura afro trazida para o Brasil.
         Nas lendas amazônicas ou litorâneas (aruaques, tupinambás) não há registros de saci, o que nos leva à conclusão de que ele é originário do Centro-Sul do país – área guarani – tendo como centro de irradiação o Vale do Paraíba, onde registramos a maior parte das ocorrências.
         Quando já considerava encerrada a pesquisa deparei com um fato assombroso, que passo agora a relatar. Viajantes do século XVII, explorando o extremo sul do continente, chegaram às terras geladas da Terra do Fogo, onde encontraram uns poucos índios, altos e fortes, habituados à aridez do solo e à inclemência do tempo. Uma rara ilustração da época, encontrada num livro espanhol, revela um pequeno homem, nu, barbado, deitado no chão com sua única perna erguida e um enorme pé sobre a cabeça.
         Um saci estranhíssimo! Diz o texto, um relato dos primeiros desbravadores, que ele assim agia para se proteger do sol naquela região desértica. Foi chamado de “patagon” (grande pata, pezão), e daí deriva o nome da região: Patagônia. Como hoje não há mais relatos sobre sua presença, podemos supor que está extinto, infelizmente. Mas sua semelhança com o nosso saci revela que foi um parente próximo, um antepassado igualmente sul-americano.

Fontes:
MEGALE, Nilza B. Folclore Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1999.
LOBATO, Monteiro. O Saci. São Paulo: Brasiliense, s/d.



Alessandra Almeida da Rocha*
Análise estilística de alguns poemas de Cecília Meireles (Parte VI)



“Acontecimento”

 Aqui estou, junto à tempestade,
chorando como uma criança
que viu que não era verdade
o seu sonho e a sua esperança.

A chuva bate-me no rosto
e em meus cabelos sopra o vento.
Vão-se desfazendo em desgosto
as formas do meu pensamento.

Chorarei toda a noite, enquanto
perpassa o tumulto nos ares,
para não me veres em pranto,
nem saberes, nem perguntares:

“Que foi feito do teu sorriso,
que era tão claro e tão perfeito ?”
E o meu pobre olhar indeciso
não te repetir: “Que foi feito...?”

A primeira estrofe inicia-se em seu primeiro verso com o advérbio de lugar “aqui”, no qual o “eu” lírico afirma a sua presença neste mundo, com a “tempestade” que simboliza as atribulações fortes e passageiras vividas. Desde já, vê-se que o poema é em primeira pessoa.
Há a ocorrência de um hipérbato “Aqui estou (...)” para acentuar este lugar que o “eu” lírico / poeta vive. Ele, no segundo verso, nos diz que passa por aqui sofrendo, o que é representado pelo verbo chorar, como se fosse uma criança, ou seja, inocentemente. Para nos transmitir tal significado usa uma comparação.
Essa “criança” inocente, o “eu” lírico, percebe que a sua vida, representada metaforicamente pela palavra “sonho” e a sua “esperança”, seus anseios e desejos eram irreais, como se pode observar nos dois últimos versos. O poeta passa do narrador de primeira pessoa para a terceira sugerindo que a figura de sua imagem na infância tivesse voltado e nota-se este adulto angustiado, como vemos nessa estrofe.
A segunda estrofe é iniciada por uma personificação da chuva e do vento. Devido a sua angústia de crise existencial, a natureza ganha vida e, também, parece tocar ou até mesmo agredir o “eu” lírico:

A chuva bate-me no rosto
e em meus cabelos sopra o vento.

No segundo verso existe um hipérbato para suavizar a atitude da natureza com relação ao “eu” lírico, dando um ritmo tranqüilo ao poema.
O “eu” lírico fala-nos que seus conceitos, presentes em seu pensamento, são destruídos pela sua tristeza, pelas suas derrotas na vida. Usa, nestes versos, outro hipérbato, para intensificar a dor.
A continuação da dor persiste na terceira estrofe e é simbolizada, no primeiro verso, pela palavra “noite”, enquanto o “eu” lírico não entender o seu conflito existencial, não permitindo que as outras pessoas o ajudem, como é dito nos dois últimos versos.
O “eu” lírico não se sentiria bem, se as pessoas o indagassem sobre a sua antiga alegria, contida na palavra “sorriso”, que transmitia “luz” e bem-estar ao próximo e ele mostra através de seu olhar, sua pobreza e indecisão espiritual, desconhecendo o seu paradeiro e retomando a indagação.
Percebemos que a fugacidade das coisas, a transitoriedade da vida está presente no poema, ao contar-nos a perda da alegria e esperança.
É interessante observar que o poema está sintetizado em rimas alternadas, que estão encaixadas nos quatro versos, como a sugerir que, até nos pequenos detalhes da nossa vida, o tempo passa, vejamos: “tempestade” (primeiro verso, primeira estrofe) e “verdade” (terceiro verso, primeira estrofe); “criança” (segundo verso, primeira estrofe) e “esperança” (quarto verso, primeira estrofe); “posto” (primeiro verso, segunda estrofe) e “desgosto” (terceiro verso, segunda estrofe); “vento” (segundo verso, segunda estrofe) e “pensamento” (quarto verso, segunda estrofe); “enquanto” (primeiro verso, terceira estrofe) e “pranto” (terceiro verso, terceira estrofe); “ares” (segundo verso, terceira estrofe) e “perguntares” (quarto verso, terceira estrofe); “sorriso” (primeiro verso, quarta estrofe) e “indeciso” (terceiro verso, quarta estrofe); “perfeito” (segundo verso, quarta estrofe) e “feito” (quarto verso, quarta estrofe).
O poema apresenta o recurso do cavalgamento que sugere a lentidão do eu lírico ao perceber as mudanças que sofreu sua vida, como nesses exemplos:

A chuva bate-me no rosto

e em meus cabelos sopra o vento.

“Que foi feito do teu sorriso,

que era tão claro e tão perfeito?”

A natureza transmite-nos imagens sensoriais para que sintamos o mesmo que o “eu” lírico. Para isto, o poeta usou as palavras “tempestade”, “criança”, “chuva”, “vento”, “noite”, “ares”. A natureza, em Cecília Meireles, segundo Darcy Damasceno, é panorâmica e solidária com os sentimentos do ser humano, pois engloba, simbolicamente, os aspectos físicos e psíquicos de ambos, como no verso:

perpassa o tumulto nos ares

Utiliza-se de aliterações /p/, /t/ e /s/, sugerindo a violência e rapidez de seus pensamentos e assonâncias de /e/, /o/ e /i/, acentuando a sua tristeza e dor, como por exemplo:

Que foi feito do teu sorriso (...)

O título colocado Acontecimento é a conscientização do “eu” lírico sobre a perda das melhores coisas de sua vida, que o marcaram definitivamente.

continua… “Herança”

Fonte:
Revista Philologus, v. 16, p. 1-1, 2000.


_______________
*Alessandra Almeida da Rocha, atualmente é professora docente I - Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Educação e da rede privada do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa. Graduação em Letras, na UERJ e Pós-Graduação em Língua Portuguesa pela UERJ-FFP.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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