Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 1 de março de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 378)





Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Fagundes Queiroz

Sinto imensa gratidão
por alguém que nunca vi,
mas que fez a plantação
dos frutos que hoje colhi!

Uma Trova de Curitiba/PR
Orlando Woczikosky

Quem diz que não tem saudade
e se é verdade o que diz,
não teve a felicidade
de já ter sido feliz.

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

PERFEIÇÃO

Tanto esforço perdido em ser perfeito!
Em ser supremo, tanto esforço vão!
Sonho efêmero; acordo e, junto ao leito,
a mesma inércia, a mesma escuridão.

Vejo, através das sombras, um defeito
em cada cousa, e as cousas todas são,
para os meus olhos rútilos de eleito,
prodígios de impureza e imperfeição!

Fico-me, noite a dentro, insone e mudo,
pensando em ti, que dormes, esquecida
do teu amargurado sonhador...

Ah, Mas, se ao menos, imperfeito é tudo
salve-se, às mil imperfeições da vida,
a humilde perfeição do meu amor!

Uma Trova Humorística de Curitiba/PR
Maria Aparecida Pires

Comprou terras com fartura
o simplório do Zelão.
Na lorota da escritura:
“um pedacinho de chão”!

Uma Trova de Curitiba/PR
Wandira Fagundes Queiroz

A trova é mais que um recado
escrito por nossa mão,
é um lindo cartão timbrado
pela voz do coração.

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

TODOS TÊM SUA GLÓRIA...

Ó glória, glória triste, excelsa glória,
irmã do amor e da felicidade!
Visão marginal da trajetória
curta de nossa curta Mocidade!

Só se logra alcançar-te, à merencória
luz, quando a alma de ti se dissuade
e não és mais o que és, pois a memória
do que foste, é que é glória, de verdade.

Ó glória que eu julgava inatingível,
se és apenas a fama, e o amor é apenas
a posse corporal de uma mulher...

Que vos valeu penar as grandes penas
de sonhar que eras quase um impossível,
se és um sonho ao alcance de qualquer?!

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Eu quero bem à desgraça
que sempre me acompanhou;
mas tenho ódio à ventura,
que bem cedo me deixou.

Uma Trova Hispânica da Espanha
María Oreto Martínez Sanchis

La familia es el consuelo
en amarguras y penas,
la alegría y el anhelo
que fraguan bellas cadenas.

Uma Trova de Curitiba/PR
Maurício N. Friedrich

Meu amor na mocidade
foi efêmera ilusão;
dele só resta a saudade,
nas cinzas de uma paixão.

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

LUZ, PÓ

Grão de areia — expressão das últimas verdades.
Constelação — és tu a glória, o fausto, a pompa.
Que importa ao Saara, grão de pó, se no ar te evades,
dês que no alto uma real constelação irrompa?!

Que hinos soprais, tufões, na vossa hercúlea trompa
— poeira de sons que voa aos mundos a onde vades?
Clarão — poeira de luz! que tem que o Pó corrompa
o fulgor das paixões, o brilho das vaidades?

Astro — és um grão de areia escalado na Altura!
À refração do Sol, é um sol no Saara ardente
um átomo de pó que à areia se mistura!

Orgulho humano! a quanto aspiras e quanto ousas!
— Na inconstância da Vida está constantemente
a comunhão vital entre todas as cousas...

Trovadores que deixaram Saudades
Tasso Azevedo da Silveira
Curitiba/PR (1895 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Da vida no grande coro,
eis nosso destino atroz:
Seguirmos de choro em choro,
até que chorem por nós.

Uma Trova de Curitiba/PR
Maria da Graça Stinglin

Escolher rumos amenos,
inovar o dia-a-dia,
errar menos… sempre menos…
também é sabedoria.

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

SENSAÇÕES

Sensações de tristeza ou de alegria,
dá-no-las a Alma, como ideal produto
das impressões vitais de cada dia
engalanado em luz, sombreado em luto.

Pode o Espírito estar tranqüilo e enxuto:
mas, se os olhos se inquietam, à porfia,
a lágrima, que esponta, é já o fruto
das sensações... É o coração que expia...

E, ao transcorrer desse diamante bruto,
a Vida, toda, se consubstancia,
tal, um século, às vezes, num minuto!

Ilumina-se, assim, a Alma sombria:
— o que sinto, olho, gosto, palpo, escuto...
— sensações de tristeza ou de alegria...

Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez

Quem consegue imaginar
nosso mundo sem a escrita,
sem podermos registrar
o que a nossa mente dita?

Um Haicai de Magé/RJ
Lucas Pacheco Ângelo
12 anos

Estrela de inverno
Tão sumida e pequenina,
Perdida no céu.

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

BOÊMIO

Delícia e engano bom que é, para tantos,
a Vida — para mim, é, nada menos
— a conjura de todos os quebrantos,
— a ruim mescla de todos os venenos...

Ou, pela dor dos meus contínuos trenos,
praz ao céu eleger-me um dos seus santos,
ou é, talvez, de humildes e pequenos
não ter glórias, prazeres, nem encantos.

A vida é um bem, e é um mal, que se biparte:
se uma lágrima flui nos olhos, uma
alegria dos lábios ri, destarte!

Mas para mim a vida é só e em suma
— cumprir deveres mil em toda a parte
e direitos não ter em parte alguma…

Uma Trova de Curitiba/PR
Andréa Motta

Se teus versos, poetisa,
são repentes de saudade,
tua vida, feito brisa,
sinonímia de amizade!

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

TERRA IMORTAL

Flora! a Vida a noivar, em núpcias voluptuosas,
na antecâmara verde-azul, aos céus expansa!...
Flora, vegetação... Flora da Alma — Esperança,
que o Amor — flora imortal dos corações, desposas...

Flora... A Terra, no cio, os cabelos destrança,
ourejados de orvalho e coroados de rosas...
E o Céu abre sobre ela as asas luminosas
e no arco-íris lhe manda um abraço de aliança...

Cibele, engrinaldada em véus rosicolores,
contra os beijos de luz, que, do alto, o céu derrama,
solta beijos sensuais de gorjeios e flores...

Idílio. O sol é quase um coração em chama.
Flora!... É a vida, a esperança, a rir nos teus verdores
e a dizer pela voz dos teus perfumes — "Ama!"

Uma Trova de Curitiba/PR
Apollo Taborda França

Tudo serve de motivo
para trovas se fazer…
bem feitas não levam crivo,
valem muito e dão prazer!

Um Poetrix de Paranavaí/PR
Renato Benvindo Frata

Ocasião

Carente e pidoncha,
a gripe se aninhou
no meu ninho.

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

DIÁRIO DE UM SONHO (IV)

É de outro artista — não me lembra o nome —
que o Poeta, no seu sonho de arte, é alguém
à parte... é como a aranha, que consome
todo o tempo, na rede a que se atém.

E, alheio ao próprio tempo, que carcome
o brilho às cousas, séculos além,
eu ia — aranha — superior à fome
e à sede, e, aranha, me sentia bem...

Na solidão, como num canto escuro,
tecia a teia rósea do Futuro,
quando me entraste, a rir, tonta de sol...

E, de então, sem te ver (e ver-te é raro!),
não sei tecer... só sei tecer no claro,
não sei tecer sem ti meu aranhol...

Um Haicai de Magé/RJ
João Victor Ferreira
13 anos

Na rua deserta
Um casal de idosos olhando
O céu escuro de inverno.

Uma Trova de Curitiba/PR
Luiz Hélio Friedrich

O adeus naquele momento,
por orgulho de nós dois,
não mediu o sofrimento,
sem remédio, do depois.

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

SONHO MORTO

Amanhã, quando o Sonho em que, a rir, agonizo,
ai! de mim! for a só realidade de um sonho,
realidade infeliz! será, talvez, preciso
morrer... Pois venha a Morte. É vir que eu nem me oponho!

Venha a Morte. E, afinal, às vezes, a idealizo
no seu luto profundo, infinito e medonho.
Venha-me! E, antevisão terreal do Paraíso,
Morte Libertadora, é assim que te suponho!

Vós outros não sabeis o que é arder em sigilo
por um sonho, antevê-lo, e, em pleno engano, em pleno
sonho, ver outra mão realizá-lo, atingi-lo!

Nem sabeis que é melhor morrer, forte e sereno,
do que ter de, alma em febre e rosto assim tranqüilo,
gota a gota, beber esse doce veneno...

Recordando Velhas Canções
Odeon
(Tango, 1910)

Ernesto Nazareth

Ai, quem me dera
O meu chorinho
Tanto tempo abandonado
E a melancolia que eu sentia
Quando ouvia
Ele fazer tanto chorar
Ai, nem me lembro
Há tanto, tanto
Todo o encanto
De um passado
Que era lindo
Era triste, era bom
Igualzinho a um chorinho
Chamado Odeon.

Terçando flauta e cavaquinho
Meu chorinho se desata
Tira da canção do violão
Esse bordão
Que me dá vida
Que me mata
É só carinho
O meu chorinho
Quando pega e chega
Assim devagarzinho
Meia-luz, meia-voz, meio tom
Meu chorinho chamado Odeon

Ah, vem depressa
Chorinho querido, vem
Mostrar a graça
Que o choro sentido tem
Quanto tempo passou
Quanta coisa mudou
Já ninguém chora mais por ninguém
Ah, quem diria que um dia
Chorinho meu, você viria
Com a graça que o amor lhe deu
Pra dizer "não faz mal
Tanto faz, tanto fez
Eu voltei pra chorar com vocês"

Chora bastante meu chorinho
Teu chorinho de saudade
Diz ao bandolim pra não tocar
Tão lindo assim
Porque parece até maldade
Ai, meu chorinho
Eu só queria
Transformar em realidade
A poesia
Ai, que lindo, ai, que triste, ai, que bom
De um chorinho chamado Odeon

Chorinho antigo, chorinho amigo
Eu até hoje ainda percebo essa ilusão
Essa saudade que vai comigo
E até parece aquela prece
Que sai só do coração
Se eu pudesse recordar
E ser criança
Se eu pudesse renovar
Minha esperança
Se eu pudesse me lembrar
Como se dança
Esse chorinho
Que hoje em dia
Ninguém sabe mais.

Uma Trova de Curitiba/PR
Roza de Oliveira

Prazer que enriquece e acalma
nesta humana travessia:
– sentir em chama minha alma
quando arde em chama a poesia!

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

ÁGUIA FERIDA

Meu Ideal, és uma águia, dessas grandes
águias que se aventuram céus além...
E, tanto as asas, dia a dia, expandes,
que elas te envolvem, te alçam, te sustêm!

Não te assombram os Alpes, nem os Andes,
nem o Profundo, nem o Imenso, nem
céu, nem oceano: que, ante quem te abrandes,
e a quem te curves, só existe Alguém...

Após tantas impávidas subidas,
doem-te as asas... trazes-as despidas
de plumas... asas que não mais voarão...

Voltas, desces... E há um mal que te denigre...
Águia! quem te feriu? o leão?! o tigre!?
— Coisa pior: foi a Desilusão...

Um Haicai de Magé/RJ
Fernanda Cristina Cassiano da Silva
 13 anos

Céu escuro lua fria
E as pessoas sonham
Com o amanhecer.

Uma Trova de Curitiba/PR
Vânia Ennes

Reconheço que a razão
exerce extremo fascínio,
mas se acerta o coração…
vão-se o rumo, o raciocínio!

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

A FELICIDADE

Existe. Eu a conheço. Ouço-a e lhe falo: fito
os meus olhos nos seus, e, exaltando-a, me exalto.
Vou tocá-la, porém... — há entre nós o infinito!
— foge o horizonte, o céu esfuma-se em cobalto...

Minha Felicidade!... hei de atingi-la!... salto
muralha por muralha, ergo-me, vôo, agito
todas as asas da Alma, ando, de sobressalto
em sobressalto, atrás desse enganoso Mito...

Antes de te sonhar, vi-te, e, antes de buscar-te,
vieste... mas, para amar-te, urge-me que descentre
o Ideal para a Ambição... E ai! dos meus sonhos de arte!

Ai! de mim que sonhei ser feliz, e deponho
minha felicidade e minhas glórias, entre
a guilheta da Vida e a redenção do Sonho!...

Hinos de Cidades Brasileiras
Fênix/PR

I

Nos braços do Ivaí caudaloso
Que ergue forte e varonil
Ó Fênix meu torrão formoso
Terra rica e tão gentil

II

Vila Rica do Espírito Santo
Testemunha os autores da história
Esta plaga que eu amo tanto
E hei de ver eternamente em tom de glória

III

És Fênix, amada
Orgulho dos filhos teus
Nasceste predestinada
E abençoada por Deus

IV

Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná

V

Há de ter alguém no Norte
Qual majestoso pinheiro
Do povo ao Brasil forte
No labor é o primeiro

VI

Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná

VII

Aos heróicos pioneiros
Que ascendiam o sucesso
Nosso afeto verdadeiro
Pela glória e o progresso

VIII

Minha Fênix, pujante
Outra mais linda não há
És celeiro alvissonante
Do querido Paraná

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Alves

Meu tempo tornou-se esparso…
Por mais que eu tente retê-lo,
nem com tintura eu disfarço
o cinza do meu cabelo…

Um Poema de Buquim/SE
Hermes Fontes
(1880 – 1930)

A ODISSÉIA DO VERSO

Vieram da fonte sensitiva e casta
do Coração: filtraram-se em requinte,
nos centros cerebrais: são versos... basta.
É estrofá-los em luz, por conseguinte.

É escrevê-los em fogo, em tom que os pinte,
voz que os declame... E a língua mal se arrasta!
E a pena extrai-lhes a expressão seguinte
que os fixa nos papéis da minha pasta...

Leva-mos o impressor, a publicá-los.
Lá se vão os meus versos... E eu sucumbo,
ao despedir-me da alma, entre ais e abalos...

E, ante a máquina, agora, o olhar descerro:
— vejo o meu Sonho transformado em chumbo!...
— vejo a minha Arte reduzida a ferro!...

Sobre a canção “Odeon”
Ernesto Nazareth ouviu os sons que vinham da rua, tocados por nossos músicos populares, e os levou para o piano, dando-lhes roupagem requintada. Sua obra se situa, assim, na fronteira do popular com o erudito, transitando à vontade pelas duas áreas. Em nada destoa se interpretada por um concertista, como Arthur Moreira Lima, ou um chorão como Jacó do Bandolim.
O espírito do choro estará sempre presente, estilizado nas teclas do primeiro ou voltando às origens nas cordas do segundo. E é esse espírito, essa síntese da própria música de choro, que marca a série de seus quase cem tangos-brasileiros, à qual pertence "Odeon". Obra-prima no gênero, este tango é apenas mais uma das inúmeras peças de Nazareth em que "melodia, harmonia e ritmo se entrosam de maneira quase espontânea, com refinamento de expressão", como opina o pianista-musicólogo Aloysio de Alencar Pinto.
"Odeon" é dedicado à empresa Zambelli & Cia., dona do cinema homenageado no título, onde o autor tocou na sala de espera. Localizado na Avenida Rio Branco, 137, possuía duas salas de projeção e considerado um dos "mais chics cinematógraphos do Rio de Janeíro". Em 1968, a pedido de Nara Leão, Vinícius de Moraes fez uma letra para "Odeon".
Fonte: Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo.

Chuvisco Biográfico do Poeta
Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes nasceu em Buquim, Sergipe, a 28 de agosto de 1888 e faleceu no Rio de Janeiro, a 25 de dezembro de 1930.
Fundou o jornal Estréia, com Júlio Surkhow e Armando Mota, em 1904, no Rio de Janeiro.
Formou-se bacharel em direito em 1911, mas não exerceu a profissão.
De 1903 ao final da década de 1930 colaborou em periódicos como os jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias e as revistas Careta, Fon-Fon!, Tribuna, Tagarela, Atlântida, entre outras.
Foi também caricaturista do jornal O Bibliógrafo. No período, trabalhou como funcionário dos Correios e oficial de gabinete do ministro da Viação.
Em 1913 publicou seu primeiro livro de poesia, Gênese.
Seguiram-se Ciclo da Perfeição (1914), Miragem do Deserto (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922) e A Fonte da Mata... (1930), entre outros.
A poesia de Hermes Fontes é de estética simbolista.
____________
Caio Cardoso Tardelli
Hermes Fontes e o Símbolo Silenciado

Saudade é eternidade:
- Eu tenho a eternidade dentro de mim!
(em “Visão Longínqua”)

Hermes Fontes (1888-1930) foi um dos pontos mais altos da poesia da Belle Époque brasileira e, sem qualquer dúvida, de todo o Simbolismo nacional. A sua ascensão ao posto de genial logo após a sua estreia com Apoteoses (1908) foi, pouco a pouco, sofrendo de uma lenta e agonizante queda ao ostracismo, das mais injustas de nossa literatura. O fato de sua poética ser palpitante de sentido trágico, perscrutador de uma metafísica complexa, às vezes de uma eloquência épica, fez com que a sua figura se distanciasse do furor modernista que tomou vulto após 1922. Porém, àquela época, faltou reconhecimento às realizações que Hermes operara no verso livre e na poesia visual, muito antes das vanguardas autoproclamadas revolucionárias. A má interpretação com a sua poesia foi tamanha que, diante de seus mais profundos gritos de desesperação, poucos lhe encararam com seriedade, levando muitos críticos a concluir que seus versos eram meras falsidades ou exageros de um gênio efervescente. Foi autor de dez livros, configurando-se em um dos mais fecundos poetas daquela época.
É impossível, no caso do poeta sergipano, separar alguns trechos de sua vida da evolução poética que lhe decorreu. Desde muito cedo estudando no Rio de Janeiro (formando-se, em 1911, no curso de Direito), viveu saudoso de sua terra terra natal, sendo Boquim referenciada várias vezes em seus livros. Apesar da imediata celebridade que lhe foi louvada após a sua estreia, a sua vida pessoal raramente deixou de ser envolvida em desalento. A morte de sua mãe, sem que ele pudesse acudi-la, o fim de seu casamento com Alice, por quem era absolutamente apaixonado, a frustração pelas cinco rejeições da Academia Brasileira de Letras, foram ao poeta golpes duríssimos, implacáveis, que lhe marcam definitivamente as obras a partir d'O Ciclo da Perfeição (1914). Hermes, que era um pouco gago e tinha a audição prejudicada (o que não o impediu de também ser compositor), foi se isolando cada vez mais em seu sonho e em sua tragédia pessoal, não raramente clamando por ajuda em vários poemas. Não resistiu, porém, ao seu destino: na véspera de Natal de 1930, matou-se com um tiro no peito.
            De Apoteoses, há de se transcrever um dos mais geniais poemas que o nosso Simbolismo tem para oferecer. O conceito de poesia visual, em uma concepção mais desenvolvida, é esse de Hermes Fontes, e que também foi utilizado por Fagundes Varela, no poema “Na Cruz”, ou por Da Costa e Silva, no clássico “Madrigal de um Louco”, entre vários outros exemplos; ou seja, aquele poema em que formação da imagem vem por meio da polimetria, mas em que qualidade textual ainda se sobressai à pictórica. Ei-lo:

POUCO ACIMA DAQUELA ALVÍSSIMA COLUNA (em Apoteoses)

Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou vendo-a, sem na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu na boca se me enfuna
de beijos – uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do meu Ser;
outros – hóstias ideias dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios
do meu infinito amor...
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom
produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca!
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz....

            Em Gênese, publicado em 1913, a sua metafísica começa a se desenvolver pouco a pouco, sem os exageros verbais de seu livro de estreia, ao lado de um romantismo ainda alentado. O sentido simbólico dessa obra – o da criação de todas as coisas – fez com que ela fosse dividida em quatro partes e doze sub-seções, revelando o caráter grandioso, quase épico do livro. Vejamos um dos mais interessantes sonetos de Gênese:

LUAR (em Gênese)

Noite ou dia?! Ilusão... É noite. A Natureza
tem um pudor de noiva, ao beijo do noivado:
sonha, velada por um véu diáfano, e presa
de um sonho branco, um sonho alegre, iluminado.

A Lua entra por toda a parte, clara, acesa...
Desabrocham jasmins de luz, de lado a lado...
E o luar – vê bem: dirás que é o óleo da Tristeza
diluído pelo céu... pela terra entornado...

E há nos raios da Lua – a um tempo, hastis e lanças,
corações a sangrar feridos do infortúnio,
flores sentimentais do jardim das lembranças...

A ave do Sentimento as asas bate e espalma...
e, enquanto se abre aos céus a flor do Plenilúnio,
abre-se, dentro em nós, o plenilúnio da Alma...

Também em Gênese, encontra-se um dos mais propagados sonetos de Hermes Fontes – no caso, por ser de uma musicalidade rara, quase de um missal, mas, sobretudo, por atingir poeticamente a genialidade incontestável. A questão da idealização feminina, para ele, foi um tema importante até o fim de seus dias, variando, somente, a postura melancólica do autor diante da musa ou a postura idólatra. Ei-lo:

IN EXELSIS! (em Gênese)

Glória a Ti, que és perfeita em quanto, humanamente,
possa alguém atingir à perfeição moral!
Glória! Ao desabrochar dessa alma redolente,
o incenso do meu culto, o hino do meu ritual!

Glória a Ti, só a Ti, pois é de Ti, somente,
ó Expressão Natural do Sobrenatural,
e é só em Ti que encontro a invisível semente
com que, assim, frutifico em pensamento e ideal!

Glória, em Ti, alma-irmã! Milagre que conferes
a todos os que atrais e a mim, que repudias,
a alta revelação da maravilha que és!

Glória, em Ti, ao Amor! Glória! em Ti, às mulheres!
A Ti, que reduziste a glória dos meus dias
a degrau do teu Sólio, a escrínio dos teus pés!...

O livro seguinte de Hermes Fontes, Ciclo da Perfeição (1914), marcou o início da queda de sua popularidade. Se ele havia mantido grande parte de seu status durante os seis anos seguintes de sua estreia, a partir da obra publicada em 1914, enquanto a sua vida lhe pregava reviravoltas trágicas, as temáticas ficavam cada vez mais intimistas, fúnebres, não raramente em um prenúncio desesperado de seu fim. O poeta, não obstante a queda de popularidade, crescia, desenvolvia-se, aguçava-se em seu ofício, e a dor como deságue essencial de um sonho inalcançado – leitmotiv dessa fase – se sobressai ao amor e até mesmo ao ideal, mesmo que a estes o poeta jamais tenha abandonado.
            Essa sombria época de Hermes Fontes, apesar de ser uma das mais fecundas, contou, em seus momentos mais desesperadores - verdadeiros clamores por ajuda - com uma crítica insensível. O caso mais flagrante foi o de Medeiros e Albuquerque (autor de um dos primeiros livros decadentistas brasileiros, Canções de Decadência, 1889), que, ao se deparar com o poema “Superstição”, presente em Miragem do Deserto (1917), considerou que o poeta fazia “considerações engraçadas” sobre o seu nome. O poema, em realidade, é de um prenúncio funesto arrebatado. Note-se, porém, além dessa percepção, o seu verso livre, musicalíssimo, típico do autor. Ei-lo:

SUPERSTIÇÃO (em Miragem do Deserto)

H. F.

As duas iniciais do nome a que respondo
(e é pena que, horas e horas, me atarefe
nesta superstição!),
as duas iniciais do meu nome – H. F. -
têm um símbolo bom, junto a um símbolo hediondo,
um destino de herói e um de vilão:

há no H uma escada, um degrau de subida,
uma vaga noção de arquitetura
interrompida...
O F é, porém,
forca... poste fatal... marco do fim da Vida...
guindaste de almas para a sepultura,
para a eterna Altura,
para o Além...

Para subir à força do meu F
tenho ao lado uma escada – o meu H.
Carrasco, magarefe,
alto lá!
alto lá!
Por suas iniciais, meu nome ensina
a não temer pressentimentos vãos.
Ergástulo, fogueira, ou guilhotina,
cicuta, ópio, ou morfina...
- Quem sabe a sua sina?
- Quem sabe lá se há-de morrer por suas mãos?

Após alguns trabalhos de menor relevo – apesar de ainda configurar-se em poesia de boa qualidade -, em 1922 foi publicada a grande obra dessa fase intimista de Hermes Fontes: A Lâmpada Velada. Perambulando entre a metafísica (“Dor Cósmica”) e a saudade de seu frustrado amor (“Aquele Amor”), entre outros temas como o Tempo, a música, a arte e a morte, é, sem dúvida, a sua obra mais completa e complexa. Curiosamente, o ano de 1922 ficou marcado, por convenção, como o ano da reviravolta modernista no Brasil, consequente da Semana de Arte Moderna; porém, nesse mesmo período Hermes Fontes lançou a sua Lâmpada Velada, Raul de Leoni entrou na história com a sua Luz Mediterrânea, entre outros grandes poetas não ligados ao movimento modernista que durante - e depois de 1922 - não se vincularam ao estouro vanguardista. Convém, portanto, também jogar lume à espetacular produção literária da época e que não estava ligada aos modernistas. Enfim, vejamos um poema de A Lâmpada Velada e que, apesar de longo, a sua completa transcrição se faz necessária:

MARCHA-FÚNEBRE (em A Lâmpada Velada)

Manda apagar a lâmpada. Estou triste
e quero ficar só com a minha Tristeza.
O Plenilúnio me abençoa e assiste:
- é uma lâmpada acesa.

Abençoa-me, vem até mim, tranquiliza
a minha inquietação.
E, macia, de plumas, indecisa,
toca-me, entrou-me o quarto aberto, a viração.

Se eu pudesse fechar os olhos, por instantes,
por séculos, ou pela eternidade!... Há dias
tenho a perseguição de sonhos delirantes
e fantasmagorias...

- Manda apagar a lâmpada. Prefiro
a penumbra... A penumbra é menos má.
Amo a ronda espectral dos mistérios, ao giro
das coisas redivivas do Sabá.

Mora-me em frente uma vizinha douda.
Tem por só convivente um velho piano.
E, à meia-noite, quando a rua toda
dorme o primeiro sono, honesto e humano,

quando eu mesmo, que sou essa coruja inata
no homem que envelheceu precocemente, estou
durmo-não-durmo – soa o adágio da Sonata,
o Miserere... Escuto – é a Doida que acordou.

Ontem, à meia-noite, eu contava escutá-la.
Meia-noite... hora e meia... E o piano, sempre mudo!
Quis ver. Olhei em frente: estava acesa a sala,
dois círios, um caixão, muita gente... E era tudo.

E, agora, a insônia. Estou sem calma. Abro a janela,
fecho-a, de novo; torno ao leito, enfim.
Eu nunca vi a Doida, e estou estou pensando nela!
Talvez pensasse aquela doida em mim...

Já no entre-sono, o meu espírito parece
velar meu próprio corpo. Ardem dois círios.
Sinto em redor de mim pálidas mãos em prece
e um perfume augural de rosas e de lírios.

E o sonho faz-me ver, na ilusão agoureira,
meu próprio funeral:
Ouço perfeitamente, à minha cabeceira,
a voz do orgão-maior enchendo a catedral!...

Minha vizinha doida ressuscita
e com aquelas mãos tuberculosas
senta-se ao piano e ensaia uma canção maldita...
Dá-me espinhos, com isso, e me recolhe as rosas...

E torna ao velho piano. E soluça e se expande.
Agora, é a Marcha-Fúnebre... Faz crer
uma reencarnação de Georges Sand...
Chopin desperta em mim o que ia a adormecer...

Pobre vizinha! Estás bem viva. E antes morresses...
Ardes de amor por mim, ardo por outra. É a vida.
Deve ser meia-noite, ou mais. Que uivos são esses
que vêm lá dos confins da Sombra adormecida?

- Manda acender a lâmpada. Depressa!
A lua se apagou, há luto no jardim.
E a mal-assombração deste sonho começa
a infundir um pavor de realidade em mim.

Aqueles uivos, longe... aquela voz tão perto...
É a Marcha que Chopin fez para os meus ouvidos,
cheia dos uivos que enchem o deserto,
uivos imemoriais dos mundos esquecidos...

… São as lamentações de almas em abandono
que, na febre da sua exaltação,
velam o próprio corpo, alam o próprio sono,
fazem quarto de morte ao próprio coração...

Apesar de se configurar em um poema polimétrico, não se compara à variação de “Superstição” e de outros poemas mais ousados do autor. “Marcha-Fúnebre” é uma espécie de poema-espelho da fase mais sombria de Hermes, mas também de uma grande representatividade daquela que é uma das mais belas intertextualidades do Simbolismo: o trabalho verbal e o onírico com a música clássica.
Muito comum também aos simbolistas brasileiros foi a tendência de homenagear os seus ícones literários. A quantidade de poemas dedicados a Cruz e Sousa, Baudelaire e Mallarmé é praticamente incontável; em menor número, havia os poemas-homenagem às cores-signo de Rimbaud. Hermes Fontes, em Lâmpada Velada, escreveu um dos mais belos sonetos em preito a Cruz e Sousa, talvez um dos mais importantes do estilo. Vejamo-lo:

O CARVÃO E O DIAMANTE (em A Lâmpada Velada)
(Pensando em Cruz e Sousa)

Teceis, Senhor, de insólitos contrastes,
a matéria que jaz e a essência que erra.
Foi das classes humílimas da Terra
que o vosso filho e intérprete tirastes.

Fizestes, lado a lado, o abismo e a serra...
E aos atros, nos seus rútilos engastes,
desde a luz eterna, e os distanciastes
lá longe, como a alguém que se desterra!

No carvão, escondestes o diamante.
E ocultastes as pérolas, sob a água,
e os prásios, sob a areia transitória.

E foi à alma de um negro agonizante
que houvestes a mais pura flor da Mágoa
e a dor mais alta pelo Amor e a Glória!

Paira, em A Lâmpada Velada, um profundo sentimento de desalento e frustração. O último terceto de  “Bem que se Perde...” grita ao expor a agonia do poeta (“Felicidade, dolorosa esfinge!/ - tu não me foste o bem que não se atinge!/ - foste o que se alcançou e se perdeu.”). Poemas de prenúncios mortuários, mas, sobretudo, de uma tentativa de compreensão da própria existência que se seguia (“Para que mundo irão? Pelo que o olhar expande,/ nenhum dos dois se reconhecerá.// Se ela o reconhecer, dirá: Como eras grande!/ Se ele a reconhecer, dirá: Como eras má!”) - em “Encruzilhada” -, demonstram que, ao contrário do início de sua carreira, quando a poesia lhe era a grande aspiração para a glória, o verso tornara-se, com o passar do tempo, o seu único meio de salvação e de diálogo consigo mesmo e, com uma réstia de esperança, com o mundo que já não lhe ouvia como em outrora. Em sua obra-prima, Hermes expôs em linhas de rara beleza esse seu sofrimento:

ARQUEJO (em A Lâmpada Velada)

Comoção de minha Alma iluminada....
Maturidade esplêndida do Amor...
… Para quê? É-me inútil a escalada
e já descri de ser o vencedor...

Desfeito o altar, por que manter a escada?
Meu destino é de chamas e esplendor,
mas olho em derredor, não vejo nada,
senão a minha Sombra e a minha Dor!

A minha Dor – essa imortal ruína;
a minha Sombra – essa espiã divina,
e a minha Solidão, em torno a mim:

E esta desilusão, e esta saudade,
e esta mentira de celebridade,
e este cansaço de esperar o fim...

Nas obras posteriores, Hermes Fontes se voltou à terra natal e a uma poesia um pouco mais patriótica, como em Despertar! (1922). A sua poética, nessa obra, louva o Brasil, as suas lendas, cultura e beleza, de maneira competente, mas sem atingir a mesma qualidade dos livros anteriores. Trechos como “Dezembro em meu país. Ao pôr-do-sol, dir-se-ia,/ o azul se amplia,/ o céu aumenta,/ a terra aumenta, aumenta o mar./ Que espetáculo! E que hora de harmonia!”, constituem, tematicamente, grande parte da obra. O estilo de Despertar! se aproxima muito mais de um Pós-Romantismo (condizente ao momento de sincretismo pelo qual a nossa literatura passava) do que propriamente um Simbolismo, inclusive porque, durante a obra, poucos versos foram postos sob a opala do signo.
Mais relevante, da produção final de Hermes Fontes, é o seu livro derradeiro, A Fonte da Mata (1930), escrito em homenagem a um dos seus locais mais queridos de Boquim. Apesar de manter, às vezes, ainda um tom ufanista, o que se vê, por um lado, é um poeta resignado com o seu próprio fado, flertando com a harmonia-perfeita estóica, por outro, verdadeiras despedidas, lamentos finais de uma alma que já não seria ouvida. O poema “Suave Amargor” demonstra certo equilíbrio entre essas tendências. Vejamo-lo:

SUAVE AMARGOR (em A Fonte da Mata)

Sofrer é o menos, minha suave Amiga;
todos têm sua cruz ou seu cajado
- cruz de dor, ou cajado de dever...

Este é sereno; aquele se afadiga:
um, só pelo desejo contrariado,
outro, por esperar, sem nunca obter.

Tudo muda, dirás... Mas, certamente,
não muda a luz: - vem sempre do Nascente
para o mesmo calvário do Sol-Pôr!

Sofrer é o menos... A dificuldade
é sofrer sem protesto e sem rancor;
é morrer sem tristeza e sem saudade:

morrer, de olhos em Deus, devagarinho,
ciciando uma palavra de carinho
aos que vivem sem fé e sem amor...

            Hermes Fontes foi um dos melhores poetas brasileiros e, diante de sua obra que tanto nos entregou em beleza e desenvolvimento estético, o fato de seu nome estar no anonimato até hoje, como se ele ainda estivesse cumprindo o seu destino de queda, é inaceitável. Foi o poeta de Boquim uma das mais autenticas vozes literárias de nossa Belle Époque, e que, antes de 1922, já escrevia poemas-visuais, versos livres, sonetos polimétricos, sendo reconhecido, por Oswald de Andrade, como o poeta que, ao lado de Gilka Machado, começou “a abrir desvãos através dos quais seria possível prever a chegada da primeira revolução literária que houve no Brasil”. Para Hermes, que se diga, basta – como se fosse pouco - o que se fez a Gilka: uma publicação recente de sua obra. A poeta carioca, genial como foi, importante como foi, também correu o risco de esquecimento graças ao foco excessivo nos poetas de convenção, salvando a sua obra desse ostracismo a publicação da Poesias Completas, em 1992. Andrade Muricy já atentava, em seu Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, que “Hermes Fontes está muito mais esquecido do que a decência deve permitir em terra culta. Ele e Augusto dos Anjos foram, no entanto, os maiores poetas da sua geração”. Ou seja, já é tempo de recuperar a obra do autor de Gênese, uma das mais belas produzidas no Brasil, vitimada por um dos mais incompreensíveis casos de esquecimento já ocorridos em nossa poesia.

 
Ao tirar da noite a manta,
a alvorada traz fulgores,
o dia então se levanta
espreguiçando em mil cores.

As emoções esquecidas
da minha vida passada,
são as estrelas perdidas
nos sonhos da madrugada.

A vovó pede socorro
ao ver um vulto passar.
Eu de susto quase morro...
sinto o vulto me apalpar!

De águas passadas de um rio,
das saudades que eu não quis
guardei um álbum vazio
da viagem que eu não fiz.

Deixaste meu coração
abandonado, sem voz...
veio o nada... e a imensidão
fez a distância entre nós!

Do céu surgiu bela imagem
não sei se rainha ou santa,
mas não passou de miragem,
se desfez, não mais encanta.

É esquisita a sua tia,
tem mania bem estranha:
lava os pés numa bacia,
a mesma em que faz lasanha!

... foi um caminho perfeito
de poesias e flores...
Acabou-s, está desfeito,
nem há mais fonte de amores!

Não desisto da conquista
do teu afeto e carinho,
já deixei exposto à vista
um feitiço em teu caminho.

Não te esqueço eis a verdade,
sempre em mim estás presente;
tua ausência é uma saudade
sentida constantemente.

Na travessia da vida
fiz jornadas corajosas,
não deixei trilha esquecida,
na passagem deixei rosas.

Na tristeza do meu pranto
na beleza e na alegria,
em minha alma, lá num canto,
vive sempre a poesia.

Nunca perca um só momento,
não leve a vida vazia,
não maltrate o sentimento...
eis o conselho do dia.

O luar, o sol nascente,
riacho... sorriso... flor...
Poesia é simplesmente
o coração com amor!

Pelo amor que vive em nós
e o bem que a ti sempre quis,
sempre creio em tua voz
e em tudo que ela me diz!

Perco a paz...não a retenho,
tonteio...fico sem norte,
se o equilíbrio não mantenho,
na minha emoção mais forte.

Portos abertos ao mundo...
Banco, imprensa, academias...
D.João mudou a fundo
o Brasil daqueles dias.

Quando o sol lá no poente
anuncia o entardecer,
procuro o amparo silente,
dou descanso ao meu viver!

Quem passa a noite ao relento
e se entrega ao deus dará,
joga a própria vida ao vento
não sabe o fim que terá.

Se falas do amor em nós,
não ouço...duvido sim!
Há ciúme em viva voz
gritando dentro de mim.

Todo mundo já sabia
dos velhos pecados graves
que certo padre escondia
em segredo a sete chaves.

Uma folha ressequida
dentro de um livro guardada,
hoje é resquício sem vida
de amor... poeira de nada.

Vem receber meu carinho...
Vem acolher meu afeto...
Ouve este apelo mansinho
que não aceita teu veto.

Vê passar o seu vizinho,
e a mulher sente revolta
do suspiro, bem fininho,
que o marido dela solta.

Vivendo sem direção
sou pluma no céu, perdida,
seguindo meu coração
ávido... buscando a vida!

Folclore Brasileiro
Conto da Coca

        Uma vez um menino foi passear no mato e apanhou uma coca; chegando em casa, deu-a de presente à avó, que a preparou e comeu.
         Mais tarde, sentiu o menino fome e voltou para buscar a coca, cantando:

 Minha vó, me dê minha coca
 Coca que o mato me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

        A avó, que já havia comido a coca, deu-lhe um pouco de angu.
        O menino ficou com raiva, jogou o angu na parede e saiu. Mais tarde, arrependeu-se e voltou, cantando:

Parede, me dê meu angu
Angu que minha vó me deu
Minha vó comeu minha coca
Coca recoca que o mato me deu

        A parede, não tendo mais o angu, deu-lhe um pedaço de sabão.
         O menino andou, andou, encontrou uma lavadeira lavando roupa sem sabão e disse-lhe: — Você lavando roupa sem sabão, lavadeira? Tome este pra você.
         Dias depois, vendo que a sua roupa estava suja, voltou para tomar o sabão, cantando:

 Lavadeira, me dê meu sabão
 Sabão que a parede me deu
 Parede comeu meu angu
 Angu que minha vó me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

         A lavadeira já havia gasto o sabão: deu-lhe então uma navalha.
         Adiante, encontrando um cesteiro cortando o cipó com os dentes. Disse-lhe: — Você cortando o cipó com os dentes?… Tome esta navalha.
         O cesteiro ficou muito contente e aceitou a navalha.
        No dia seguinte, sentindo o menino a barba grande, arrependeu-se de ter dado a navalha (ele sempre se arrependia de dar as coisas) e voltou para buscá-la, cantando:

 Cesteiro me dê minha navalha
 Navalha que lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

        O cesteiro, tendo quebrado a navalha, deu-lhe, em paga um cesto.
        Recebeu o cesto e saiu dizendo consigo: — Que é que eu vou fazer com este cesto?
        No caminho, encontrando um padeiro fazendo pão e colocando-o no chão, deu-lhe o cesto. Mais tarde, precisou do cesto e voltou para buscá-lo com a mesma cantiga.

 Padeiro me dê meu cesto
 Cesto que o cesteiro me deu
 O cesteiro quebrou minha navalha
 Navalha que a lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

        O padeiro, que tinha vendido o pão com o cesto, deu-lhe um pão.
        Saiu o menino com o pão, e, depois de muito andar, não estando com fome, deu o pão a uma moça, que encontrou tomando café puro.
        Depois, sentindo fome, voltou para pedir o pão à moça e canta:

 Moça me dê meu pão
 Pão que o padeiro me deu
 O padeiro vendeu meu cesto
 Cesto que cesteiro me deu
 O cesteiro quebrou minha navalha
 Navalha que a lavadeira me deu
 Lavadeira gastou meu sabão
 Sabão que parede me deu
 Minha vó comeu minha coca
 Coca recoca que o mato me deu

        A moça havia comido o pão; não tendo outra coisa para lhe dar, deu-lhe uma viola.
        O menino ficou contentíssimo; subiu com a viola numa árvore e se pôs a cantar:

 De uma coca fiz angu
 De angu fiz sabão
 De sabão fiz uma navalha
 Duma navalha fiz um cesto
 De um cesto fiz um pão
 De um pão fiz uma viola
 Dinguelingue que eu vou para Angola

Fonte:
Jangada Brasil. Setembro 2010. Ano XII – nº 140. Edição Especial de Aniversário.
       

XXVIII Jogos Florais de Ribeirão Preto
XVI Jogos Florais Estudantis de Ribeirão Preto

Prazo: até 30 de abril de 2015

Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, Secretaria Municipal da Cultura, Secretaria Municipal da Educação, Fundação Feira do Livro, Fundação Instituto do Livro, União Brasileira de Trovadores
REGULAMENTO:
        
Os 28º Jogos Florais de Ribeirão Preto e 16º Jogos Florais Estudantis de Ribeirão Preto, promovidos pelas entidades acima, integram as festividades da 15ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, SP. Brasil.

São temas dos concursos de Trovas:

a)Nacional/: Veterano e Novo Trovador (*)

Perfil (Lírico e/ou filosófico)

Propina (Humorístico)

Sistema envelope 8/11 (meio comercial)

(*) Novo Trovador (para a UBT-N) é o trovador que ainda não obteve três (3) classificações em concursos nacionais. O concorrente deverá colocar no cabeçalho da trova, o tema a que concorre. No rodapé escrever Novo Trovador.
Neste âmbito nacional, apenas uma trova por tema.
Quaisquer informações:
Instituto do Livro: 016-39316004.
Endereço de remessa:
prof. Nilton Manoel Teixeira
-Caixa Postal 448 –
Ribeirão Preto- SP- 14001970.
b) Municipal (somente para trovadores de Ribeirão Preto).
Paisagem (lírico/filosófico)
Buraco (humorístico)

Endereço de remessa:

Carolina Ramos
Caixa posta, 52
11.001-970- Santos-SP
c) XVI Jogos Florais Estudantis de Ribeirão Preto:
-Teatro (lírico/filosófico
-Balada (Humorístico)
Endereço de remessa:
Rita Marciana Mourão
Caixa Postal 448 –
14001970- Ribeirão Preto -SP
Cada concorrente (municipal ou estudantil) poderá enviar até três (3) trovas por tema. Os veteranos e os novos trovadores, enviarão apenas uma (1) por tema, até 30 de abril de 2015.

A comissão divulgará as trovas vencedoras até meados de maio.
As festividades ocorrerão em programação compartilhada e específica com a XVI Feira Nacional do Livro, nos dias 19, 20 e 21 de junho de 2015.

A premiação para cada tema municipal e estudantil será:
5 vencedores ( troféu e diploma)
5 Menções honrosas (medalha dourada e diploma)
5 Menções honrosas (medalha prateada e diploma)

Obs.
Em âmbito nacional:
VETERANO (1º a 5º), troféus e 5 (cinco) Menções Honrosas (6º a 10º) com medalhas douradas;
NOVO TROVADOR:
1º lugar, vencedor com troféu;
e os demais (4), Menções Honrosas com medalhas douradas.

As trovas premiadas serão editadas em livro que serão ofertados aos concorrentes, escolas e imprensa.

As três escolas com maior número de vencedores receberão na ordinal, o troféu Escola de Trovadores.

Os premiados em primeiro lugar cada tema (nacional e novo) terão direito (base em todos os Jogos Florais) a estadas pagas (pernoite e refeições) em hotel indicado pela organização durante os três dias do evento.

Todos os concorrentes e simpatizantes estão convidados a participar da pauta programada.

As trovas já publicadas ou com semelhanças a outras, mesmo autor, ou plagiadas, serão excluídas reservando a comissão o direito de não completar as premiações ordinais previstas. Na exclusão de alguma trova, todas as demais subirão na listagem.

A decisão da comissão literária é irrecorrível.

As trovas não premiadas serão queimadas. Quaisquer casos omissos serão resolvidos pela comissão organizadora.

Ribeirão Preto, 2 de janeiro de 2015.

Nosso carinho é tamanho
que quem chega a Ribeirão,
deixa de ser um estranho
para tornar-se um irmão.
(José Maria Morgade de Miranda, presidente da Câmara Municipal no centenário de Ribeirão Preto.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to