Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 3 de março de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 379)



 

Uma Trova de São Mateus do Sul/PR
Gerson Cesar Souza

Num show que bem poucos olham,
no palco das noites calmas,
chuvas de estrelas não molham,
mas lavam as nossas almas...
Uma Trova de Bauru/SP
Antonio Valentim Rufatto

Se há pedras na encruzilhada
do sucesso que procuras,
faze delas uma escada
para galgar as alturas.

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

SER FELIZ

Vida é viver, é ser alguém, é ser ninguém,
Quando quiser; é não mentir, sempre sorrir,
Morrer de rir, quando puder; é querer bem,
Homem, mulher, um ser qualquer, sem resistir;

Não desistir, nunca chorar, só quando tem
Alguém prá ouvir; sonhar, lutar, prá descobrir
O que é amar, o que é sentir; saber também
Que é grande o amor, elevador, sempre a subir;

Crescer, ter fé, firmar o pé, pisar no chão
E caminhar; Andar e crer, buscar, querer,
Na imensidão, o teu lugar; ter mente exposta

E, a quem te gosta, essa canção, teu coração;
Responder "não", prá quem te diz: "Ser ou não ser:
Eis a questão"; pois SER FELIZ: eis a resposta.

Uma Trova Humorística de Bauru/SP
Ercy Maria Marques de Faria

Diz o caipira ao chegar
“de fogo”, à mulher que o xinga:
-“Houve engano lá no bar...
eu disse “Mé”... deram “pinga”!!!

Uma Trova de Bauru/SP
Célia Martins

Querendo o mundo alegrar,
Deus juntou perfumes, cores,
e, para o poeta sonhar,
sorrindo criou as flores…

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

A ROSA BRANCA (I)

Tantas púrpuras rosas no rosal;
Grosas e grosas, tão bonitas rosas;
Entre as rosas vultosas, majestosas,
Brota uma branca rosa, desigual.

Meu olhar só percebe a rosa tal;
Prefere-lhe, entre rosas mais charmosas;
Rosas prá te dizer que, em meio às grosas,
És como a rosa branca, especial.

Tens no andar que alucina novas cores;
É por ter novas cores que alucina;
És preferida, dentre mil amores.

Como a flor no rosal, tão pequenina
Que, perante outras mais formosas flores,
Difere e, o coração, logo ilumina.

Uma Trova Popular
Autor Anônimo

Se esta rua fosse minha
eu mandava ladrilhar,
com pedrinhas de brilhante,
para meu amor passar.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Libia Carciofetti

Con coherencia en la vida
se puede llegar muy lejos
y una confianza aguerrida
quita todos los complejos.

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

UMA POESIA SOBRE NÓS

Nada vai separar, existem laços;
Nem vai desenlaçar, nem nos espaços
Entre os passos que juntos damos, sós;
Nem antes dos abraços, nem após.

Nada vai desatar tantos amassos;
Nem vai desamassar, nem nos escassos
Truques, traços, herdados dos avós,
Nossos braços, cruzados como nós.

Todo o meu corpo, todo o teu, também,
São bobinas trançadas de um motor,
Bouganvilles depois do sol se pôr,

A liberar calor como ninguém.
São nossos corações, que vão e vêm,
Pontas de um grande laço, que é o amor.

Trovadores que deixaram Saudades
Martinho de Abreu Carvalho
Bauru/SP (1913 – 1989)

Saudade! Guardo-a num lenço
que um dia orvalhei de pranto...
Tem o perfume do incenso:
– misto de amargo e de santo!

Uma Trova de Bauru/SP
Giovana Campos de Oliveira

– Onde está a felicidade?
E sinto ouvir do Senhor:
– Onde existir igualdade...
– e aonde existir o amor!"

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

A ILHA

- Quem és - pergunta o Sol - no azul brilhante
Que o céu, mesmo distante, cede ao mar?
Por que persistes tanto em ser gigante,
Se és menos que o meu brilho, a refratar?

- Sou ilha. Esse meu verde exuberante
Faz aves, por aqui, virem pousar.
Meu lar, acolhedor, traz navegante
Que a areia, um só instante, quer beijar.

- Se atreves a afirmar que não és só?
Tuas matas e terras, não são vãs?
No mar, lembra-te ilhota, és vil, és pó.

- Não feito tu, estrela das manhãs,
De quem a solidão provoca dó:
Tu vens, e vão dormir tuas irmãs.

Uma Trova de Bauru/SP
Helena de Barros Barbosa Moreira

Outono, linda estação,
onde todos, neste mundo,
sentem a enorme emoção
de um renovar mais profundo!

Um Haicai de Ilhéus/BA
Abel Silva Pereira

A mata fecha
foi, agora, iluminada
pelos vaga-lumes.

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

A CIGARRA E A FORMIGA

Cigarra, sai de cima deste galho,
Suspende o canto e monta o teu abrigo.
O inverno há de trazer fome e perigo.
Assim, tu morrerás. Vê que eu batalho.

Aprecio, formiga, o teu trabalho.
Por instinto que o fazes. Já te digo:
Carregar tanto peso não consigo;
Meu destino é cantar; meu canto, espalho.

De que vale tal canto sem a vida?
É melhor prevenir do que sofrer.
Eu procuro da morte uma saída.

Então, sobe aqui, junta-te ao meu canto
Que pode incomodar ou, triste, ser,
Mas nunca irá morrer, isso eu garanto.

Uma Trova de Bauru/SP
Irma Rangel Martins

Nossa vida é dom divino,
cabe-nos cuidá-la bem
com amor e muito tino;
vivenciá-la também...

Uma Haicai de São Paulo/SP
Alonso Alvarez

flores ao vento
na cortina da janela
cores da primavera

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

O URUBU E A POMBA

Pomba pousou no galho do urubu
Dizendo a ele: "És feio prá chuchu!
Pobres os que nasceram no teu nicho
Condenados, meu Deus, a comer lixo!

E tantas vezes eu quis ser como tu,
Planar além do alcance, a olho nu,
Aproveitar a vida sem capricho,
Ser até conhecida como... bicho!"

"Natureza", urubu disse, "me ensina
Que se, de um lado, impõe limitações,
Do outro só virtudes que combina.

És símbolo de paz, eu sou de morte,
Mas não são atributos, são ações
Que busco prá seguir feliz e forte."

Uma Trova de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

Não há sorriso que emplaque
na comédia desta vida,
se na ironia da claque,
toda verdade é escondida!...

Uma Teia de Trovas Apaixonada de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Quando eu vi a "menininha"
na janela, a me flertar,
pensei: encontrei e minha
namorada..., pra casar!

Não deu outra, e hoje estou
casado...; vê se adivinha?
Isto mesmo..., adivinhou...
foi com ela: a "menininha"!

Lá se vão mais de "quarenta",
casado, e digo, pra quem
pergunta: como tu aguenta?
Muito amor e... e... também!

Para quem pensa em casar
não sou de passar receita;
mas pros "quarenta" alcançar,
receito: ame a sua eleita!

Em nossos "quarenta", a dois,
tempo ruim nos ocorreu;
mas o bom veio depois:
ver que o nosso amor venceu!

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

CASTRO ALVES

Deus, ó Deus, onde está pousado o Castro?
Ave de Andrada e de um país inteiro
Andará num navio, não mais negreiro?
No pendão brasileiro, junto ao mastro?

Ou fez a liberdade dele um astro,
Prá iluminar a praça, em fevereiro?
Poeta social, gênio e guerreiro -
Vozes do mundo irão seguir seu rastro.

Hoje, enquanto o lirismo, em versos bravos,
Transpira, do condor que morreu novo,
Às bocas dos herdeiros dos escravos,

Espumas flutuantes vêm da serra
Trazer, na cachoeira, a voz do povo:
"Alvesverde pendão da minha terra..."

Um Haicai de Lençóis/BA
Afrânio Peixoto
(1876 - 1947) Rio de Janeiro RJ

Arte de Resumir

O ipê florido,
Perdendo todas as folhas,
Fez-se uma flor só.

Uma Trova de Bauru/SP
José Marques

Canta, canta o bem-te-vi
procurando por seu par.
Por que eu nunca me atrevi
cantar para te encontrar?

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

MILTON NASCIMENTO

É santa a sua voz, manto sagrado
Que remove as montanhas, com cuidado,
Prá durar. Ó Deus, salve este oratório,
Que Maria amaria, ao ver, simplório.

Tem três pontas de areia o seu arado,
Que já fez cio da terra. Traz, guardado
No peito, ao lado esquerdo, o repertório
Que - em travessias - jaz, bem mais notório.

Paixão mineira, em mil tons repartida,
Toca, do nascimento até a foz,
Corações de estudantes, feito nós.

Por ser ponto de encontro e despedida,
Não cansa de viver bailes da vida,
Nem de cantar... com força, raça e voz.

Recordando Velhas Canções
Disparada
(moda-de-viola, 1966)

Geraldo Vandré e Theo de Barros

Prepare o seu coração
pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão,
eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
e posso não lhe agradar

Aprendi a dizer não,
ver a morte sem chorar
E a morte, o destino tudo,
a morte o destino tudo
Estava fora de lugar,
eu vivo pra consertar

Na boiada já fui boi,
mas um dia me montei
Não por um motivo meu
ou de com quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
porém por necessidade
Do dono de uma boiada
cujo vaqueiro morreu

Boiadeiro muito tempo,
laço firme, braço forte
Muito gado, muita gente
pela vida segurei
Seguia como num sonho
que boiadeiro era um rei

Mas o mundo foi rodando
nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando
as visões se clareando
As visões se clareando,
até que um dia acordei

Então não pude seguir,
valente em lugar tenente
E o dono de gado e gente,
porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata,
mas com gente é diferente

Se você não concordar,
não posso me desculpar
Não canto pra enganar,
vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado,
vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi,
boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse,
por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
querer ir mais longe que eu

Mas o mundo foi rodando
nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
agora sou cavaleiro
Laço firme, braço forte
de um reino que não tem rei.

Uma Trova de Bauru/SP
José Roberto Pereira de Souza

Na estrada, a perder de vista,
não vou caminhando a esmo,
cada passo é uma conquista
para o encontro de mim mesmo.

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

SORRISO

Afine o olhar, o tanto que puder
Mova a musculatura peri-oral
Esticando num eixo horizontal
Os lábios, mostre os dentes se quiser,

Do coração emita um som qualquer
Que transmita alegria em seu final,
Tantas vezes repita o ritual
Quanta felicidade aí couber,

Sacuda o corpo inteiro, se preciso
Adicionando tudo que há em si
Aos vinte e sete músculos do riso

E que as rugas e covas do seu rosto
No instante sepulcral, digam: "Aqui
O amor foi bem maior do que o desgosto!”

Um Haicai de Curitiba/PR
Alice Ruiz

sinal fechado
o menino atravessa
escrevendo versos

Uma Trova de Bauru/SP
Luzia Aparecida João

Encanto maior não há
que a pureza da criança
soletrando o Beabá
na cartilha da esperança.

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

O VÍCIO

Nada é pior prá gente do que um vício:
Impulso inconsequente a manobrar
A mente. Se não cura, vai pr'o hospício,
Tão demente seu corpo vai ficar.

Vem sempre de repente, sem indício;
Quando sente, é difícil controlar;
Mas nem tente provar que é benefício,
Somente se o seu vício for de amar.

Pois o amor bate forte, igual bebida;
Envelhece depressa, como o fumo;
Alucina mais vezes do que o pó.

Mas não surge prazer maior na vida;
Quem dele se vicia, encontra um rumo,
Uma alegria, nunca acaba só.

Hinos de Cidades Brasileiras
Ibiporã/PR

Foi fundada no bruto sertão
Pouco às margens do Rio Tibagi
E crescendo tornou-se o brasão
Deste povo que vibra e sorri.

Tu exalas perfume no ar
Há em ti um gorjeio de prece
Sua história é um hino a cantar
As grandezas que a pátria enaltece.

Salve, salve Ibiporã.
Terra de audazes bandeirantes
Teus cafezais heróico afã
São teus preciosos diamantes.

Vem dos rios, vem dos lares e florestas.
Vem da alma da infância senil
Sussurrando uma brisa de festas
Ao beijar o pendão do Brasil.

Da mais bela e grandiosa matriz
Linda imagem da Virgem da Paz
Abençoa a cidade feliz
E serena-lhes os dias que traz.

Salve, salve Ibiporã.
Terra de audazes bandeirantes
Teus cafezais heróico afã
São teus preciosos diamantes

Uma Trova de Bauru/SP
Vânia Maria Menezes de Figueiredo

A vida nos faz promessas
de amor, sucesso, dinheiro;
nunca se sabe qual dessas
é descumprida primeiro...

Um Poema de Vitória/ES
Bernardo Trancoso

O DISFARCE

Cobre a máscara
O jeito verdadeiro que tens.
Quando estás próxima a mim,
Veste-a e finge ser um falso alguém.
Teu cheiro mostra-me o teu disfarce.
É por modéstia?
Temes não me agradar, pois,
Por inteiro, sendo honesta.
Mas, mesmo que eu
Deteste-a ao ver quem és,
De fato,
Vou primeiro partir por tua mentira
Ante a moléstia.
Se existe algum problema,
Algum motivo prá enganação,
Permite-me ajudá-la agora,
Antes que eu pense
Estar errado ao te amar.
Já tem sido inofensivo - não mais -
Meu coração que, hoje, te fala
Em forma de um soneto
Disfarçado.

Sobre a Canção “Disparada”
         Disparada”, a mais vigorosa canção de protesto surgida até então, um verdadeiro cântico revolucionário. Musicado por Téo sobre uma versalhada que Vandré havia escrito durante uma viagem, “Disparada” é uma moda-de-viola com sotaque nordestino. “A intenção era compor uma moda-de-viola baseada no folclore da região Centro-Sul, porém nossas raízes se infiltraram no processo e resultou uma catira de chapéu de couro”, esclarece Téo na contracapa de seu primeiro elepê.
         Para apresentar “Disparada”, os autores escolheram Jair Rodrigues, então no auge da popularidade, entregando o acompanhamento ao Trio Novo — Téo (viola), Heraldo do Monte (violão) e Airto Moreira (percussão) — reforçado pelo Trio Marayá.
         Nas duas fases o resultado foi excelente, com a canção sendo ruidosamente aclamada pela facção mais politizada da platéia — principalmente em trechos como “Mas o mundo foi rodando / nas patas do meu cavalo / e já que um dia montei / agora sou cavaleiro / laço firme, braço forte / de um reino que não tem rei...” — que rivalizava em número e entusiasmo com os partidários de “A Banda”. Em vista disso, embora “A Banda” tenha ganho pelos votos dos jurados, a direção da Record resolveu considerar as duas concorrentes empatadas na primeira colocação, a fim de evitar um confronto entre os torcedores.
         Uma nota pitoresca na apresentação de “Disparada” foi a utilização de uma queixada de burro como instrumento de percussão. A novidade, descoberta por Airto Moreira numa loja em Santo André, emprestou maior rusticidade ao acompanhamento, além de evocar uma visão forte da seca
(Fonte: Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo – Vol. 2 ).
___________________________
Bernardo Sá Barreto Pimentel Trancoso é natural de Vitória/ES, nascido em 22 de fevereiro de 1976. Atualmente reside, trabalha e escreve poemas em São Paulo.

 
Ah!... Se você não adere,
à nossa boa amizade,
eu sinto o espinho que fere
meu coração de saudade.

A minha casa contém
muito amor, paz e carinho
para os amigos que vêm
ocupar meu feliz ninho.

A minha colega Flora
dos meus tempos de criança,
ao ver passar nossa aurora,
a retenho na lembrança.

As minhas melhores trovas
eu guardo no coração
onde todas dão as provas
da minha grata emoção.

De quando eu era criança
relembro o sítio, o pombal:
– Aquela terna lembrança
do fundo do meu quintal.

Do meu Pai muito adorado
recordo com alegria,
seu exemplo justo e honrado
na minha infância sadia.

Eu não sinto diferença
dos três sobrinhos que tenho,
porque nesta minha crença
pra eles, a Deus me empenho.

Eu sou como o beija-flor
que tenta alegrar a vida
com ternura multicor
ao beijar a Margarida.

Há dias que me lamento.
Em outros, mantenho a calma.
Se controlo o pensamento,
há tempestade em minha alma.

Minha mãe, muito querida
é uma santa aqui na terra.
Toda alegria da vida
que o meu coração encerra.

Minha vida foi feliz
nas asas de uma ilusão.
Hoje a saudade me diz
que só resta a solidão.

Não tenho filho nem filha
que me afague o coração,
pois eu vivi tal qual ilha
perdida na solidão.

O meu sangue e o dele é um elo
de ternura e de afeição
que agradeço a Deus. Marcello
é o meu estimado irmão.

Ó minha musa querida!
Deste meu querer imenso!
És o amor da minha vida;
é por ti que vivo e penso!...

Poetas e Trovadores
encantam de amor o mundo,
onde mostram seus valores
com seu verso mais profundo.

Quando Deus levou meu pai,
eu agoniado e aflito
senti na vida que sai,
soar no mundo o meu grito.

Quando um dia a conheci,
meu coração disparou.
Foi tão perdido por ti,
que ainda não se encontrou.

Saudade vive comigo...
e não deixo de sonhar.
Se um amor eu não consigo
na minha vida encontrar!

Se a vida agora o castiga
provocando cicatriz,
deixe que o sonho prossiga
e procure ser feliz.

Se moço ou velho, o Poeta
na tristeza ou na alegria
faz da vida linda meta,
com as flores da harmonia!

Sou da terra do esplendor,
Sergipe do meu Brasil,
templo de cultura e amor
e conceito varonil.

Toda beleza e ternura
tão natural em você,
explica a grande loucura
que eu sinto e não sei porquê.

Um beija-flor me contou
que viu você namorando.
Em outro galho pousou
e ficou me consolando...

Você só chegou agora
no outono da minha vida
para encontrar nova aurora
na mocidade perdida.
______________
        Alfredo Alencar Aranha, filho de Alfredo Guimarães Aranha e  de Jacy Alencar Aranha, nasceu em Aracaju/SE e radicou-se no Rio de Janeiro/RJ.
         Oficial do Exercito (reformado) por perda de visão.
         Poeta, contista, ilustrador, trovador, alcançou prêmios de edição em vários Antologias; certificados e diplomas em concursos e medalhas. 
Membro Efetivo da ADABL (Associação de Diplomados da Academia Brasileira de Letras);
         Colaborador da ABT (Academia Brasileira de Trova):
         Cadeira de n. 49 da APALA (Academia Pan-Americana de Letras e Artes);
         Membro Titular da SPOC (Sociedade dos Poetas Cariocas):
         Pertence ao GALMA ( Grupo Artístico e Literário Mércia de Aloan);
Frequentador do "Chá do Poeta", na sede dos ex-funcionários do Banco do Brasil;
         Associado da APERJ (Associação Profissional dos Poetas do Estado do Rio de Janeiro).
         Lançou em 1996 o seu primeiro livro: “Revivendo...”, homenageando seus Mestres e Amigos. Em 2000, “Haverá sempre você” e em 2003, “Amizades que me honram” (acrósticos).

Folclore Brasileiro
A Cuca


Cássia Eller
Música da Cuca

Esta música foi criada para o personagem da Cuca na série de TV "Sítio do Pica-Pau amarelo", transmitida pela Tv Globo.

Cuidado Com a Cuca
Que a Cuca te pega
Te pega daqui, Te pega de lá

A Cuca é malvada
E se fica irritada
A Cuca zangada
Cuidado com ela
A Cuca é matreira

E se fica zangada
A Cuca é danada
Cuidado com ela
Cuidado com a Cuca
Que a Cuca te pega
Te pega daqui, Te de lá

A Cuca é malvada
E se fica irritada
A Cuca zangada
Cuidado com ela.


Cuidado com a Cuca
Que a Cuca te pega
A Cuca é danada
Ela vai te pegar

         A Cuca é um ente velho, muito feio, desgrenhado, que aparece no meio da noite para levar consigo crianças inquietas, que não dormem ou falam muito. Para muitos, a Cuca, é apenas uma ameaça de perigo sem forma. Amedronta pela deformidade. Ninguém sabe ao certo que aparência tem esse fantasma.
         A Cuca é uma personagem do folclore brasileiro, uma bruxa velha com aparência assustadora, possui corpo de jacaré e unhas imensas, dona de uma voz assustadora ela rapta as crianças desobedientes. Reza a lenda que a criatura dorme uma vez a cada 7 anos e, por isso, os pais tentam convencer as crianças de dormirem nas horas corretas pois, do contrário, serão levadas pela Cuca.
         A maioria, no entanto, identifica-a como uma Velha, muito velha, enrugada, de cabelos brancos e assanhados, magríssima, corcunda e sempre ávida pelas crianças que não querem dormir cedo e fazem barulho. É um fantasma noturno. Figura em todo Brasil nas cantigas de ninar. Não está localizado em nenhuma região específica, mas em toda parte. Atua em todos os lugares mas nunca se disse quem carregou e como o faz. Conduz a criança num saco e some imediatamente depois de fazer a presa, sem deixar vestígios.
         Em Portugal chama-se Coca, e possui uma forma de Dragão. Lá, na província do Minho, no meio da procissão de Corpus Christi, a figura de São Jorge a ataca com sua lança.
         Mas no Brasil, ela não é monstruosa, tem forma humana, tanto que se confunde com o Preto Velho, ou a Negra Velha das histórias.
Vale lembrar que uma das mais conhecidas cantigas de ninar, pertencentes às músicas folclóricas, assinala a presença desse ser mitológico e malvado, muitas vezes chamada de Bicho-papão, a Cuca:

“Nana neném que a Cuca vem pegar,
papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar.
Bicho papão, saia do telhado,
deixe a criança (nome) dormir sossegada”

         Vem ainda de Portugal, um espantalho que seguia a Procissão dos Passos. No Brasil, este chamava-se Farrinoco, era conhecido como A Morte e amedrontava as crianças que atrapalhavam o cortejo.
         Literalmente quer dizer, entidade fantástica, com que se mete medo às criancinhas. A Cuca Paulista parece o Negro Velho de Minas, o Tutu de outros estados, e o Papão de Portugal. Em Pernambuco significa mulher velha e feia, espécie de feiticeira, também Quicuca, ticuca, rolo de mato. Há uma quadrinha mineira, que se originou de uma criada para o Papão Português. Na versão mineira, a palavra Papão é Coca.

Vai-te, Coca, sai daqui
para cima do telhado;
deixa dormir o menino,
seu sono sossegado.

E há a versão nordestina, a mais comum dessa cantiga:

Durma, nenê,
Senão a Cuca vem,
Papai foi à roça,
Mamãe logo vem.

         Foi nas obras do escritor brasileiro Monteiro Lobato que a personagem Cuca ganhou popularidade. No "Sitio do Pica-pau amarelo", transformado em série de televisão no final dos anos 70 e começo dos 80, a Cuca passou a ser conhecida nos quatro cantos do país. Na Tv, a Cuca era uma espécie de jacaré bípede com cabelo amarelo e uma voz horripilante, que tinha a ajuda do saci-pererê. Malvada, morava num lugar escuro (caverna) onde, como se fosse uma bruxa, ficava fazendo poções mágicas.


         Nomes comuns: Cuca, La cuca, Cuco, Coca, Coco, Santa Coca, Farrinoco, Papão.
         Origem Provável: Européia. Possui elementos da Mitologia Grega e agregou alguns vestígios da Mitologia africana, como, por exemplo, O Negro Velho, Negro de Angola.
         Na Espanha há a Coca, serpente de lona e papelão que sai no dia de Corpus Christi. A Coca é apenas um dragão gigante, com patas de grilo, cauda de serpente e um par de asas.
         A palavra castelhana Coco, viria do Grego Kakos ou Cacos, um monstro meio homem, meio animal, feio, feroz e bruto. Este representaria uma entidade fantástica, que se julga habituada a devorar criaturas humanas, como faz o Papão. Na Espanha era um fantasma para assombrar as crianças e já era citado nos séculos XVI e XVII.
         Há também a tradição de uma Cuca humanizada. Na Vila Nova de Portimão, no Algarve, as crianças portuguesas correm apavoradas por causa de um espantalho que segue a procissão dos Passos. Este veste uma túnica amortalhada, cabeça com um capuz afunilado onde os olhos espreitam por dois buracos, que se encarrega de afastar os meninos para que não perturbem a marcha.
         Em Portugal, no Minho, chamam de “coca”, uma abóbora vazia, cortados os lugares da boca e olhos, com uma luz acesa dentro, que colocam em lugares desertos, à noite, para amendrontar crianças e aldeões distraídos.
         Há ainda o elemento africano que, no Brasil, ajudou a dar a forma atual do mito. Num idioma africano, Cuco ou cuca, quer dizer avô e avó. Simboliza a velhice, a melancolia física. É assim que surge o “negro Velho” de Minas, um Cuca Angolês. No Nordeste, o “negro de Angola” vale pela “Coca” e pela “Cuca” do Sul do Brasil, que assusta as crianças que se julgam espertas.
         Coca serve de prefixo para outros bichos fantásticos, como a Cocaloba, espécie de Cabra Cabriola de Portugal, que cerca as casas onde as crianças dormem, procurando incansavelmente raptá-las. A Cocaloba não veio para o Brasil com os emigrantes.
         Em Tupi, cuca, significa trago, o ato de engolir, de onde vem a ideia de voracidade. Em resumo, “Coca” e “Cuca”, resumem espécimes africanos, europeus e ameríndios. Assim, como fantasma, herdou do Coco, sua aparência demoníaca; da Coca, o ar de monstro, e do Cuco negro, a aparência misteriosa e antropófaga.


Alessandra Almeida da Rocha*
Análise estilística de alguns poemas de Cecília Meireles (Parte VIII, final)

“Assovio”

Ninguém abra a sua porta
para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

E ela não sabe o meu rumo,
eu não lhe pergunto o seu:
não posso perder mais nada,
se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo o que é meu:
- a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

O “eu” lírico pede as pessoas, ao mundo que não o incomodem e que não o questionem sobre as coisas passadas, passado este simbolizado pela palavra “porta”, no primeiro e segundo versos, da primeira estrofe. Complementando-a o “eu” lírico conta-nos que a sua única companheira é a noite, cheia de mistério, de tristeza, de melancolia, sugerida pelo uso do pleonasmo “noite escura” e o uso do advérbio de intensidade “mais”, que reforçam a idéia dessa amizade. Outro fator intensificador é o uso do hipérbato, que é sugestivo dessa fortaleza, dessa união entre a noite e o “eu” lírico, observada nos últimos versos.
Na segunda estrofe, o “eu” lírico se contenta com a companhia da “noite”, pois ambos não se questionam sobre o passado, o presente e menos ainda sobre o futuro, representado por “rumo”.
O “eu” lírico afirma que não pode perder tempo em viver, visto que sua vida foi marcada por perdas humanas, irreversíveis. É importante, na finalização do terceiro e quarto versos, a presença das palavras “nada” e “perdeu”, que reforça as perdas citadas anteriormente e o desejo de não permitir que elas continuem, quando diz, enfaticamente:

não posso perder mais nada

Vimos que o “eu” lírico continua caminhando sozinho, apenas junto com a “noite”, na terceira estrofe, carregando “tudo” o que está marcado em sua alma, que é a dor deixada pelos homens perdidos e passados em sua vida, mas que o sustentam de pé, de cabeça erguida e a sua vida dada por Deus. A vida é representada pela palavra “canção”, que sugere algo passageiro e suave, como é o ritmo da vida, associada à figura de Deus, o único que pode tirá-la.
Nesse poema nota-se a presença da forte influência espiritualista em sua arte, surgida em 1918, nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa, e que iria reiterar-se em todos os seus poemas, como a sugerir que refletíssemos sobre a nossa condição efêmera.
Ressaltamos que a poetisa ao construir o terceiro verso utiliza o travessão para destacar a dor sofrida.
O poema é composto por três estrofes, cada uma delas com quatro versos. Ocorre a presença de rimas entre “aconteceu” e “eu” (primeira estrofe); “seu” e “perdeu” (segunda estrofe); “meu” e “deu” (terceira estrofe). O interessante é que, em todas as palavras no poema, está inserida a palavra “eu”, presente na primeira estrofe, sugerindo a intensificação da dor, da figura do “eu” lírico a cada momento do caminho percorrido por ele durante a vida.
O cavalgamento é observado em toda a poesia, indicando uma pausa reflexiva do “eu” lírico, e também para dar uma suavidade rítmica a mesma, acentuada pelas assonâncias de /e/, /o/, /u/ e /a/, como por exemplo:

Ninguém abra a sua porta
se o que houve já se perdeu

 E aliterações de /d/ e /c/ em:

 e a canção que Deus me deu

 Apesar das palavras “nada” (terceiro verso, segunda estrofe) e “tudo” (segundo verso, terceira estrofe) estarem distantes uma da outra, entendemos que há uma antítese, para vermos o medo do “eu” lírico em perder o “tudo” que neste instante possui: a sua dor e a sua vida.
A “noite” é o único elemento da natureza que surge na poesia para simbolizar a sua real companheira, que é personificada neste verso:

Vou pelo braço da noite

O título Assovio nos indica algo passageiro, transitório e, ao mesmo tempo, musical, como a canção e a própria vida, apesar dos sofrimentos existenciais do ser humano.

CONCLUSÃO

O estudo das poesias de Cecília Meireles permitiu o estudo de algumas particularidades expressivas de sua obra, ressaltando-se a presença marcante da subjetividade em seu estilo. Num momento decisivo para o Modernismo, a obra ceciliana parece sustentar as marcas do etéreo e do atemporal, do particular (o espiritualismo da autora, por exemplo) e do universal (a própria poesia).Esta subjetividade é universal, visto que os poemas parecem refletir no papel as dores e as angústias de toda a humanidade.
Além disso, Cecília Meireles nos faz refletir sobre existência, tão efêmera, traduzida por ela, que faz uso de imagens sensoriais para a visualidade poética de seus temas.
O vocabulário utilizado é simples, assim como a sintaxe, apesar de ser notória a vasta cultura da poetisa. Mas, mesmo simples, é repleto de simbolismo, no qual o leitor deve ater - se aos detalhes que compõem o grande fio que liga as palavras e os vários sentidos sugeridos no texto.
Geralmente, o ritmo dos poemas estudados é lento e suave, indicando também como a poetisa era delicada ao “criar” a representação do som de suas “letras”. Em algumas passagens o ritmo é acelerado, mas a suavidade não desaparece.
A natureza metaforiza a nossa condição de humanos, portanto efêmeros, mas eternos, devido a associação que se faz indiretamente com Deus.
A análise estilística, em todos os seus níveis (semântico, fônico, sintático, morfológico e lexical e mesmo rítmica), vem mostrar a sua importância para a compreensão do estilo de Cecília Meireles e a necessidade de ir além da gramática tradicional, que, às vezes, não consegue responder as nossas indagações sobre a inquietante imaginação poética.
A estilística também está presente não só em poesias, mas em todos os tipos de texto. É verdade que por não ter havido divulgação, há alguns anos atrás, alguns professores de Língua Portuguesa sentiram dificuldade em reconhecê-la. Porém, este quadro, atualmente, tem mudado devido a existência de obras diversas sobre o assunto.
Este trabalho teve a intenção de mostrar o estudo de alguns poemas dessa poetisa, política e professora versátil, que fascina qualquer pessoa, leitora de sua arte pela primeira vez, através dos temas abordados e tão ligados a sua vida pessoal, também o seu estilo, presente na organização poética, nas combinações de palavras e sons. A estilística foi utilizada para compreendermos os mecanismos usados pela autora para expressar o seu lirismo.

BIBLIOGRAFIA:

    a) Obras da autora:

    MEIRELES, Cecília. Viagem;Vaga Música. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1982. (Coleção Poesis).
    ______. Flor de poemas. Notícia biográfica, bibliografia e estudo crítico de Darcy Damasceno. 6a ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1984. (Coleção Poesis).
    ______. Poesia Completa. Introdução de Walmir Ayala, notícia biográfica e bibliografia de Darcy Damasceno. Rio de Janeiro : Nova Aguilar, 1994.
    ______. Literatura Comentada. São Paulo: Abril, 1980.

    b) Obras sobre a poesia e a vida da autora:

    AZEVEDO FILHO, Leodegário. Poesia e Estilo de Cecília Meireles. Rio de Janeiro : José Olympio, 1970.
    BARBADINHO NETO, Raimundo. “Os escritores modernistas brasileiros diante do problema da língua”. In: Antologia de textos do Modernismo. Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico, 1982.
    BOSI, Alfredo. História da Literatura Brasileira. 3a edição. São Paulo : Cultrix, 1994.
    CAVALIERI, Ruth Villela. Cecília Meireles: o Ser e o Tempo na Imagem Refletida. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro : PUC, 1983.
    CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. São Paulo : Cultix, 1978.
    CUNHA, Celso. Cintra, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985.
    DAMASCENO, Darcy. Cecília Meireles:O Mundo Contemplado. Rio de Janeiro : Orfeu, 1967.
    ______. Cecília Meireles:poesia, por Darcy Damasceno. Rio de Janeiro : Agir, 1974.
    LAMEGO, Valéria. A Farpa na Lira: Cecília Meireles na revolução de 30. Rio de Janeiro : Record, 1996.
    MELO, Gladstone Chaves de. Ensaios de Estilística da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro : Padrão, 1976.
    MONTEIRO, José Lemos. A Estilística. São Paulo : Ática, 1991.
    POSSENTI, Sírio. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo : Martins Fontes, 1993. (Texto e linguagem).
    ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. 32a ed. Rio de Janeiro : José Olympio, 1994.
    SIMÕES, Darcília, org. A Estilística Singular de “I-Juca Pirama”. Rio de Janeiro : UERJ, Depext, 1997.
    TAVARES, Hênio Teoria literária. 4a ed. Lisboa : Bernardo Álvares S.A, 1969.

Fonte:
Revista Philologus, v. 16, p. 1-1, 2000.
_______________
*Alessandra Almeida da Rocha, atualmente é professora docente I - Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Educação e da rede privada do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa. Graduação em Letras, na UERJ e Pos-graduação em Língua Portuguesa pela UERJ-FFP.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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