Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 13 de março de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 383)




 Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez

Numa sala pequenina,
se prestarmos atenção,
a própria criança ensina
como ensinar a lição.

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Gilson Faustino Maia

Eu te emprestarei os vinte,
pois a minha idade aguenta.
E fico, nobre pedinte,
com pouco mais de cinquenta.

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

Amor e vida

Esconde-me a alma, no íntimo, oprimida,
Este amor infeliz, como se fora
Um crime aos olhos dessa, que ela adora,
Dessa, que crendo-o, crera-se ofendida.

A crua e rija lâmina homicida
Do seu desdém vara-me o peito; embora,
Que o amor que cresce nele, e nele mora,
Só findará quando findar-me a vida!

Ó meu amor! como num mar profundo,
Achaste em mim teu álgido, teu fundo,
Teu derradeiro, teu feral abrigo!

E qual do rei de Tule a taça de ouro,
Ó meu sacro, ó meu único tesouro!
Ó meu amor! tu morrerás comigo!

Uma Trova Humorística do Rio de Janeiro/RJ
César Torraca

Ela é nova e ele velhinho...
e veio um par de rebentos...
- curioso é que, ao vizinho,
não faltaram cumprimentos...

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Antonio Cabral Filho

Por serem bens muito raros,
de inestimável valor,
paz, amor, são temas caros
na vida do trovador.

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

Anoitecer

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se além da serrania
Os vértices de chamas aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia.

Um mudo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua.

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula.... Anoitece.

Uma Quadra Popular
Autor Anônimo

Mandei buscar na botica
remédio para uma ausência,
me mandaram a saudade,
coberta de paciência.

Uma Trova Hispânica da Venezuela
Luis Alfredo Rivas Mazzei

Al cambio de la palabra
la utilizó con paciencia
como agricultor que labra
honesto y con transparencia

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

A cavalgada

A lua banha a solitária estrada...
Silêncio!... Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada.

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando.
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada...

E o bosque estala, move-se, estremece...
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce...
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solitária banha...

Trovadores que deixaram Saudades
Pedro Uzzo
Paraibuna/SP (1901 – 1997) Santos/SP

Que pedra sem alma aquela
da grota, ao sopé do monte:
sufoca debaixo dela
os soluços de uma fonte!

Uma Trova de Bauru/SP
João Batista  Xavier Oliveira

A dor cruciante impera
quem abraça a solidão;
seu orgulho nada espera
sozinho na multidão.
  
Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

Desdéns

Realçam no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral felinas
Garras com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz... O sândalo se evola;

O ar cheiroso em redor se desenrola;
Pulsam os seios, arfam as narinas...
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
Numa indolência mórbida, espanhola...

Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa mão impiedosa que me arranca
A vida aos poucos, nesta morte lenta!

Essa mão de fidalga, fina e branca;
Essa mão, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Flávio Stefani

Poesia, na verdade,
é manter os pés no chão,
transformando a realidade
em instantes de paixão!

Um Haicai de Curitiba/PR
 

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

O misantropo

A boca, às vezes, o louvor escapa
E o pranto aos olhos; mas louvor e pranto
Mentem: tapa o louvor a inveja, enquanto
O pranto a vesga hipocrisia tapa.

Do louvor, com que espanto, sob a capa
Vejo tanta dobrez, ludíbrio tanto!
E o pranto em olhos vejo, com que espanto,
Que escarnecem dos mais, rindo à socapa!

Porque, desde que esse ódio atroz me veio,
Só traições vejo em cada olhar vetusto?
Perfídias só em cada humano sei-o?

Acaso as almas poderei sem custo
Ver, perspícuo e melhor, só quando odeio?
E é preciso odiar para ser justo?!

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

Navegando em meu veleiro,
num  mar, assim, tão bonito,
procuro meu companheiro,
nesse meu sonho infinito!

Uma Quadra Popular Portuguesa de S. Domingos de Rana
João Baptista Coelho

Foi por não ter ido à escola
com a atenção que é devida,
que ando, hoje, a pedir esmola
na outra escola : a da Vida.

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

Na Penumbra

Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,
Lembras-te?... apenas reluzia a medo,
Na escuridão crepuscular da alcova
O diamante que ardia-te no dedo...

Nesse ambiente tépido, enervante,
Os meus desejos quentes, irritados,
Circulavam-te a carne palpitante,
Como um bando de lobos esfaimados...

Como que estava sobre nós suspensa
A pomba da volúpia; a treva densa
Do teu olhar tinha tamanho brilho!

E os teus seios que as roupas comprimiam,
Tanto sob elas, túmidos, batiam,
Que estalavam-te o flácido espartilho!

Uma Trova de Angra dos Reis/RJ
Jessé Nascimento

Nos meus momentos tristonhos,
quando a incerteza me alcança,
vou acalentando os sonhos
com a canção da esperança.

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Glosando Arlene Lima (Maringá/PR)

MOTE...
As minhas mãos calejadas
plantam sementes de amor,
que nascem e são cuidadas
e se transformam em flor!

GLOSA...
As minhas mãos calejadas
na semeadura do Amor
serão sempre abençoadas
pelo Sumo Lavrador!

Todos que no seu canteiro
plantam sementes de Amor
colherão, o ano inteiro,
os frutos do seu labor!

Quando fizeres lavradas
planta sementes de Amor,
que nascem e são cuidadas
pelas mãos do Criador!

As sementes mais assentes
são as sementes de Amor;
formam rebentos latentes
e se transformam em flor!

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguinea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

Um Haicai de Manaus/AM
Zemaria Pinto

o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã

Uma Trova de Caicó/RN
Paulo Roberto da Silva

Traçadas pela quimera...
as rugas que hoje pranteio,
são marcas da minha espera
de um amor que nunca veio!

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

Saudade

Aqui outrora retumbaram hinos;
Muito côche real nestas calçadas
E nestas praças, hoje abandonadas,
Rodou por entre os ouropéis mais finos...

Arcos de flores, fachos purpurinos,
Tons festivais, bandeiras desfraldadas,
Girândolas, clarins, atropeladas
Legiões de povo, bimbalar de sinos...

Tudo passou! Mas dessas arcarias
Negras, e desses torreões medonhos,
Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

E, em torno os olhos úmidos, tristonhos,
Espraia e chora, como Jeremias,
Sobra a Jerusalém de tantos sonhos!...

Recordando Velhas Canções
Nossa canção
(canção, jovem guarda, 1966)

Luiz Ayrão

Olha aqui,preste atenção
essa é a nossa canção
vou cantá-la seja onde for
para nunca esquecer o nosso amor,
nosso amor

Veja bem, foi você
a razão e o porquê
de nascer essa canção assim
pois você é o amor
que existe em mim   

Você partiu
e me deixou
nunca mais você voltou
pra me tirar da solidão
e até você voltar
meu bem eu vou cantar
essa nossa canção

Uma Trova de Caicó/RN
Prof. Garcia

Sê feliz na caminhada,
esquece o bem que te fiz...
Nem sempre o fim de uma estrada
é o fim de quem foi feliz!!!

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

Último porto

Este o país ideal que em sonhos douro;
Aqui o estro das aves me arrebata,
E em flores, cachos e festões, desata
A Natureza o virginal tesouro;

Aqui, perpétuo dia ardente e louro
Fulgura; e, na torrente e na cascata,
A água alardeia toda a sua prata,
E os laranjais e o sol todo o seu ouro...

Aqui, de rosas e de luz tecida,
Leve mortalha envolva estes destroços
Do extinto amor, que inda me pesam tanto;

E a terra, a mãe comum, no fim da vida,
Para a nudeza me cobrir dos ossos,
Rasgue alguns palmos do seu verde manto.

Um Haicai de Pereira Barreto/SP
Teruko Oda

Insetos que cantam...
Parece que as sombras se amam
nos cantos escuros.

Uma Trova de Belém/PA
Antonio Juraci Siqueira

Nas manhãs ensolaradas,
papagaios de papel
são bandeiras desfraldadas
que a infância agita no céu!

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Hinos de Cidades Brasileiras
Torres/RS

Torres.
Tu és, cidade - menina,
A mais formosa praia sulina....
Tu és vida, luz e calor,
Tu és um poema de amor.

Entre as praias gaúchas,
Tu és a mais bela;
És uma linda aquarela.
De cor e de poesia...
És magistral sinfonia.

O teu mar de verdes águas,
Batendo contra os rochedos,
Vai cavando entre penedos
Tuas furnas deslumbrantes...

O Mampituba sereno,
A Torre Sul e a Guarita,
O Farol e a Torre Norte,
A Igrejinha tão bonita.

Recantos cheios de sonhos...
Torres : Ó praia tão sedutora,
Tens a beleza morena
Da menina sonhadora,
Da moça que devaneia
Sobre a tua areia...

Ó Torres :
Das três torres,
Tu és a rainha das praias...

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Alves da Silva

Se o motivo me balança,
deixo de lado a quimera,
faço do amor esperança,
onde a razão desespera...

Um Poema de Mogúncia/MA
Raimundo Correia
(1859 – 1911)

Plenilúnio

Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens sai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, sonâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão!

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal;
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras,
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noites inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata frios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
- Caçoilas de ópio, de embriaguez -
Evaporaram letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas a flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária luz a nadar,
Por toda a parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...
_____________________________________
Chuveirão Biográfico do Poeta
Raimundo da Mota de Azevedo Correia, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia/MA, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911.
Foram seus pais o desembargador José Mota de Azevedo Correia, descendente dos duques de Caminha, e Maria Clara Vieira da Silva. Vindo a família para a Corte, Raimundo foi matriculado no Internato do Colégio Nacional, hoje Pedro II, onde concluiu os estudos preparatórios em 1876. No ano seguinte, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Ali encontrou um grupo de rapazes entre os quais estavam Raul Pompéia, Teófilo Dias, Eduardo Prado, Afonso Celso, Augusto de Lima, Valentim Magalhães, Fontoura Xavier, Silva Jardim todos destinados a ser grandes figuras das letras, do jornalismo e da política.
Em São Paulo, no tempo de estudante, colaborou em jornais e revistas.
Estreou na literatura em 1879, com o volume de poesias Primeiros sonhos.
Em 1883, publicou as Sinfonias, onde se encontra um dos mais conhecidos sonetos da língua portuguesa, “As pombas”. Este poema valeu a Raimundo Correia o epíteto de “o Poeta das pombas”, que ele, em vida, tanto detestou.
Recém-formado, foi para o Rio de Janeiro, sendo logo nomeado promotor de justiça de São João da Barra e, em fins de 1884, era juiz municipal e de órfãos e ausentes em Vassouras.
No final deste ano casou-se com Mariana Sodré, de ilustre família fluminense.
Em Vassouras, começou a publicar poesias e páginas de prosa no jornal O Vassourense, do poeta, humanista e músico Lucindo Filho, no qual colaboravam nomes ilustres: Olavo Bilac, Coelho Neto, Alberto de Oliveira, Lúcio de Mendonça, Valentim Magalhães, Luís Murat, e outros.
No início de 1889, foi nomeado secretário da presidência da província do Rio de Janeiro, no governo do conselheiro Carlos Afonso de Assis Figueiredo. Após a proclamação da República, foi preso. Sendo notórias as suas convicções republicanas, foi solto, logo a seguir, e nomeado juiz de direito em São Gonçalo de Sapucaí, no sul de Minas.
Em 22 de fevereiro de 1892, foi nomeado diretor da Secretaria de Finanças de Ouro Preto. Na então capital mineira, foi também professor da Faculdade de Direito.
No primeiro número da Revista que ali se publicava, apareceu seu trabalho “As antiguidades romanas”.
Em 1897, no governo de Prudente de Morais, foi nomeado segundo secretário da Legação do Brasil em Portugal. Ali edita suas Poesias, em quatro edições sucessivas e aumentadas, com prefácio do escritor português D. João da Câmara.
Por decreto do governo, suprimiu-se o cargo de segundo secretário, e o poeta voltou a ser juiz de direito.
Em 1899, residindo em Niterói, era diretor e professor no Ginásio Fluminense de Petrópolis.
Em 1900, voltou para o Rio de Janeiro, como juiz de vara cível, cargo em que permaneceu até 1911.
Por motivos de saúde, partiu para Paris em busca de tratamento. Ali veio a falecer.
Seus restos mortais ficaram em Paris até 1920. Naquele ano, juntamente com os do poeta Guimarães Passos também falecido na capital francesa, para onde fora à procura de saúde foram transladados para o Brasil, por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, e depositados, em 28 de dezembro de 1920, no cemitério de São Francisco Xavier.
Raimundo Correia ocupa um dos mais altos postos na poesia brasileira. Seu livro de estréia, Primeiros sonhos (1879) insere-se ainda no Romantismo. Já em Sinfonias (1883) nota-se o feitio novo que seria definitivo em sua obra, o Parnasianismo. Segundo os cânones dessa escola, que estabelecem uma estética de rigor formal, ele foi um dos mais perfeitos poetas da língua portuguesa, formando com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac a famosa trindade parnasiana. Além de poesia, deixou obras de crítica, ensaio e crônicas.


Luiz Otávio
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ (1916 – 1977) Santos/SP

Saudade: um eco perdido
de uma cantiga da infância...
Perfume de flor nascido
lá nas brumas da distância…
–––––––

Aline Nascimento
Toda criança ao nascer
traz do amor a pura essência,
no aroma que, chego a crer,
só pode vir da inocência.

Alvaro Hilinski
Fornecendo os alimentos
do seu meio tão fecundo,
o mar, em todos momentos
sacia a fome do mundo.

Amaury Miranda
É trova uma ave pequena,
alegre, viva e feliz…
que voa da mão serena
de São Francisco de Assis.

Américo Deg’liesposti
Que no instante derradeiro,
ao fechar meus olhos nus,
ancore, enfim, meu veleiro
num porto pleno de luz...

Ana Maria Guerrize Gouveia
Eu sou como o cais vazio...
Um porto de despedida,
o corroído navio...
sem chegada... nem partida!

Angelina Pereira Leite
Prosseguindo espaço afora,
minha trova, na amplidão,
de saudade canta e chora
o trovador, meu irmão.

Antoine Lascani
Em nossa memória, irmão,
vive a tua poesia;
tu vives no coração,
dia e noite, noite e dia.

Antônio Colavite Filho
Em um jardim da cidade,
tendo a sua companhia,
eu já nem sinto saudade
da saudade que eu sentia...

Áurea Navarro Turini
Da infância guardo a magia
do meu veleiro encantado.
Era nele que eu fugia
do mundo feio e pesado.

Bellarmino Franco
Singra os mares desta vida
nosso amor, forte veleiro,
bate a procela atrevida
e chega ao porto, altaneiro.

Brites Quaresma Figueiredo
No verde mar, o arrebol
reflete uma linda imagem,
o veleiro, à luz do sol,
é a branca cor da paisagem.

Carmen Cerdeira Ventura
No mar revolto da vida,
sangrando o peito de dor,
sou teu veleiro, querida,
guiando as velas do amor!

Carolina Ramos
De esperanças carregada,
velejou por tantos portos;
hoje retorna a jangada,
trazendo meus sonhos mortos.

Cidoca da Silva Velho
Deram-me as rugas do rosto,
finda a ansiedade de esperas,
a ternura de um sol posto
e um luar de primaveras.

Célia S. Oliveira
A brisa leve balança
o veleiro sobre o mar,
e traz de volta a esperança
na força do teu olhar!

Cláudio de Cápua
Que esta trova seja um hino,
que ouças o pobre a gemer
e, ouvindo o planger do sino,
saibas o irmão socorrer.

Cynira  Antunes de Moura
Espera por mim, veleiro,
sem minhas malas não partas...
leva o meu sonho primeiro
e as esperanças mais fartas!

Dalva de Araujo
Infância, quanta beleza
nesta imagem estampada,
a calma da natureza
reflete a paz desejada.

David de Araújo
Olha o mar: nos seus arrancos,
ele adorna as enseadas,
espalhando os búzios brancos
entre as conchas nacaradas…

Edite Rocha Capelo
O colorido das flores,
seja qual for a estação,
traz alegria de amores,
encanta o meu coração.

Edna Gallo
O meu coração cansado,
nas andanças da emoção,
hoje está triste, ancorado,
no porto da solidão.

Enéas de Castro
Veleiro singrando as águas,
qual cisne branco ele avança,
joga no mar minhas mágoas,
trazendo a minha esperança.

Ilze de Arruda Camargo
Juventude é primavera
florindo dentro de nós,
traz sonhos, lutas, quimeras,
depois se vai bem veloz!

Iracy Aparecida Carrijo
Juventude, quero crer,
é fé, força de vontade,
por isso podemos ver
jovens de qualquer idade.

Íria Belchior
Voa doce liberdade.
Voa nas asas do vento.
Vai desenhando a saudade,
dando cor ao sentimento

Izabel Moraes Aguiar
Segue o destino traçado
da trilha a ti concedida,
não lamentes do passado
a juventude perdida.

José Veiga de Carvalho
Na concha do teu ouvido
espero um dia dizer,
carinhoso e comovido:
hei de amar-te até morrer!

José Virgílio Gomes Alexandre
Teus olhos, doces guaridas,
estrelas na escuridão,
duas conchas prometidas
ao mar da minha ilusão.

Lalita (Maria Eulália B. Oliveira)
Quanto mais o tempo passa,
agradeço ao Criador
tudo o que me dá de graça,
fé, discernimento e amor.

Lavínio Gomes de Almeida
Veleiro, que ao vento avanças,
a demandar outras plagas,
tu vais cheio de esperanças
sobre a esperança das vagas!

Leonor Silveira Carvalho
O sol surge no horizonte
despertando a natureza
e a luz que vem dessa fonte,
cobre a manhã de beleza!

Lília Stein Goulart de Souza
A trova quando trovada
bem profunda e com amor,
sabemos que foi tirada
de um coração trovador.

Lourdes Lago Felício
No doce encanto do amor
reside a felicidade
fica o mundo multicor,
quando se ama de verdade.

Margarida Maria Fortes de Mello
Contemplo o mar... E lembrando
os dias da mocidade,
parece-me ver, singrando,
o veleiro da saudade.

Maria da Glória C. de Vasconcellos
Censurar a juventude
por seu desleixo ou pecado
é de fato um modo rude
de olvidar nosso passado.

Maria José Aranha de Rezende
Meu amor vai implorando
a esmola do teu olhar,
como um veleiro singrando
as águas mansas do mar...

Maria Lucy Figueiredo
Meus louros ao trovador,
que na emoção do seu estro,
rima os versos com primor,
qual talentoso maestro!

Maria Magdalena D. de Mendonça
O quintal da juventude
tem horta, pomar, jardim,
tem céus, voos, amplitude...
O meu quintal foi assim!

Maria Nelsi Sales Dias
Quando, então, o sol desmaia
e o vento assanha o coqueiro,
completa o quadro na praia,
se passa um barco veleiro.

Maryland Faillace
Terminada a criação,
Deus olhou a terra nova
e ao homem deu permissão
de eternizá-la na trova!

Mercedes Lisboa Sutilo
Trova - apenas quatro versos
traduzem a vida, a fundo,
do homem em seus universos
- poesia que abraça o mundo!

Nair Lopes Rodrigues
Por eu ser tão sonhadora
sentindo o amor e a emoção,
tornei-me uma trovadora
e da trova fiz paixão!

Neiva Pavesi
Neste belo e claro dia
de sol forte e céu azul,
vem chegando frente fria
no vento que vem do sul.

Nelquis Müller
Sonho sereno, tão puro,
dorme a criança feliz.
Seu lindo sorriso, eu juro,
acorda e tudo bendiz!

Neusa Simões Carito
Na juventude, a paixão
traz feitiço verdadeiro
pois grava no coração
o fremir do amor primeiro.

Nilo Entholzer Ferreira
Guardas, porto, e silencias
quando chegam ao teu cais,
solidões de calmarias...
destroços de vendavais.

Ochelcis Aguiar Laureano
Ser irmão é sofrer tanto
quanto aquele sofredor,
amenizando o seu pranto,
dando de si por amor.

Odênia Damázio
Um conceito antigo ensina:
"vale mais o interior".
Na concha é que se confina
a pérola de valor.

Rita de Cássia Ventura Gaspar
Em longa espera, eu, a sós,
ouço os teus passos perdidos,
e o eco da tua voz
nas conchas dos meus ouvidos.

Rosália Helena G. Bonsegno
Eu tenho sido um veleiro
nos mares da fantasia,
mas faço sempre o roteiro
levado pela poesia…

Rosalina Rosa
Ainda que não pareça,
e mesmo em tempo mais rude,
por mais que a gente padeça,
é feliz na juventude!

Sebastião Pereira
Ilusão, muito contente,
tu deixas meu coração
e eu quero pedir, somente,
que não me abandones, não!

Selma Moraes
Juventude trago na alma
e também no coração
e assim enfrento com calma
os dias de solidão...

Silvina Antunes Leal
Vi teu veleiro partindo...
Logo após, do cais sombrio,
meu coração te seguindo
deixou-me o peito vazio...

Sônia Regina Rocha Rodrigues
O poeta faz a trova
inspirado pela lua,
a excelência se comprova
se é repetida na rua!

Sophia Leite Cruz
Qual uma esteira de prata,
o luar cai sobre a areia,
e o mar, numa serenata,
faz trovas à lua cheia!

Zaíra Almeida Gomes
Borboletas multicores
sobrevoam o jardim,
adornando nossas flores
de uma beleza sem fim.

Zilda Pedroso
Juventude! Quem me dera,
que essa quadra colorida
voltasse a ser primavera
nos dias de minha vida!

Lino Mendes
O Trabalho e o Lúdico nos Meios Rurais

Naquela semana, alguns “ranchos de trabalhadores” iam sair para uma quinzena, pelo que a “praça da jorna” tinha sido das mais concorridas enchendo a Rua Grande, da taberna do Zé Gabirra até à Praça onde já terminara o “mercado semanal”, e no qual de quase tudo se vendia, desde os produtos da horta e do calçado do Badeirana, até aos tremoços e “pirolitos de chupar” da ti Ilda Pina. “E o povo era tanto que se dizia que se uma laranja caísse do céu não chegava ao chão.”
Era no entanto junto às tabernas que se verificava uma maior afluência de gente, pois era aí que se procurava patrão. De uma maneira geral este( o patrão) estava lá dentro, e como as mulheres não podiam lá entrar (a não ser chegar à porta para chamar o sê homem), era o capataz que fazia a ligação. A propósito de capataz (ou manageiro) este era uma figura por quem os trabalhadores, salvo uma ou outra exceção não tinham simpatia. Às vezes, diziam-me as irmãs Ramira e Margarida, eram piores que o patrão, só não nos tiravam a pele se não pudessem. E cantaram-me uma quadra das “saias”, que dizia assim:

Vai-te sol,vai-te sol
lá para trás do outeiro
alegria para o rancho
tristeza pró manageiro

Claro que também cantavam uma destinada ao patrão

Vai-te sol, vai-te sol
para trás do barracão
alegria para o rancho
tristeza para o patrão

Isto e como se calcula, era cantado quando o dia de trabalho estava a chegar ao fim
Por volta da meia-noite começavam a regressar a casa ,mas podia acontecer que pelo caminho até à entrada da vila, mesmo quem tinha patrão encontrasse quem lhe desse mais cinco ou dez tostões por dia, e lá ficava o outro sem trabalhador/a. E era por isso que no outro dia logo de manhãzinha havia outra “praça da jorna”, mas agora no Lugar da Farinha Branca, a uns cinco quilômetros da vila.
Diga-se entretanto, que especialmente as mulheres ,mas também alguns homens, era à entrada da vila que se calçavam, voltando a descalçar-se à saída. Quando se calçavam para entrar na vila, deixavam guardadas em qualquer sítio as meias e a rodilha com que limpavam os pés.
Vindas do campo havia duas entradas.
A vida era, de fato, dura, pois bem cedinho, a pé e descalços lá partiam levando o farnel e as mantas à cabeça (elas) ou nos alforjes (eles), dormindo ao relento e no meio do mato, quando por exemplo iam para as vindimas em Almeirim.
Chegados ao trabalho, que era de sol a sol, arrumavam as suas coisas no “quartel”,que era uma cabana grande que por vezes compartilhavam com o gado, e onde à noite contavam histórias ou faziam rendas(por exemplo “marcavam”lenços que depois ofereciam aos rapazes)
Mas o seu grande divertimento era o balho, e neste caso os chamados “bailes do trabalho”que faziam duas vezes por semana, e em cujos dias por vezes faziam empreitadas para descansar ainda um bocado. Que o horário, e foi mais uma vez a cantar que a senhora Margarida me explicou:

O almoço quere-se às nove
e o jantar ao meio-dia.
a merenda às quatro e meia
e a ceia ao fim do dia

E já agora, e sem que tal se pudesse considerar um padrão, explica-me a senhora Margarida que a comida durante o dia poderia ser:
Logo ao levantar, e antes de se entregar no trabalho, comia-se um bocado de pão com queijo ou com azeitonas, depois ao almoço feijão frade ou batatas de azeite e vinagre, à merenda de novo pão com queijo ou com azeitonas, ao jantar feijão com couve ou sopas de carne e à ceia migas carvoeiras ou migas gatas
Mas voltemos à “balharada”. Naturalmente que levavam o fato com que trabalhavam.
(1) Gente havia sempre, até porque apareciam idos de outros ranchos que trabalhavam em herdades ali perto.
Naquele dia, não havia ainda tocador, mas esperavam que aparecesse o Ti Zé Bom Dia  (2) com o seu Harmónio, ou Ti António Carqueja com o seu Realejo, mas a falta de músicos nunca impediu que um balho se fizesse, pois cantava-se, por aqui normalmente as “saias” (3). Se eram mais as raparigas, bailavam umas com as outras, se eram mais os rapazes, havia o “bota cá dispensa”.
Era bonito, dizia-me o senhor João, mais conhecido por Jarreta quando uma (que andava a bailar) lançava a primeira quadra das saias, e de outro par lhe respondiam, podendo ainda outros ou outras entrar na liça. Mas o que ti António mais gostava de ver, era quando nos dois passos, que naturalmente cada um bailava como sabia, uns o faziam, rasteiro, outros pulado e ainda outros escufinhado.
A vida era, de fato, dura ,mas o baile era um refúgio, aliás o único divertimento que a vida rural lhes oferecia.
____________________________
(1) Como se compreende, só nos chamados “bailes do trabalho” a mulher usava o traje de camponesa, porque nos outros usava a blusa domingueira, por vezes a única que tinha e que ao regressar a casa era logo lavada para estar em condições no fim de semana seguinte. Curioso, é que por vezes entregava um lenço ao par, para este colocar entre a mão e a blusa de maneira a não sujar esta.

(2) O alcunha de Bom Dia resultou do fato de ainda gaiato, andando a guardar gado, fosse qual fosse a hora em que o cumprimentassem, respondia sempre com um “bom dia”.

(3) Bailava-se muito quando íamos à semana ou à quinzena. Se houvesse baile duas vezes por semana, era à terça e à quinta, se houvesse só uma vez era à quarta ou à quinta. Depois isso acabou e era só ao fim se semana, ao sábado à noite (Maria Gertrudes).

Fonte: Lino Mendes (Montargil—Alto Alentejo-Portugal)

Folclore Brasileiro
Cobra Norato, Honorato ou Cobra Grande
Cobra Norato, ou Honorato, é uma das mais conhecidas lendas do folclore amazônico. Conta a lenda que em numa tribo indígena da Amazônia, uma índia, grávida da Boiúna (Cobra-grande, Sucuri), deu à luz a duas crianças gêmeas que na verdade eram Cobras. Um menino, que recebeu o nome de Honorato ou Norato, e uma menina, chamada de Maria Caninana.
Depois de nascidos, ao perceber que eram "Cobras", ela resolveu se aconselhar com um Pajé, e perguntou se devia matá-los ou jogá-los no rio. O Pajé, então respondeu que se os matasse ela morreria também. Então ela decidiu soltá-los no leito do rio Tocantins.
Lá no rio eles, como Cobras, se criaram. Honorato era bom e vinha sempre visitar a mãe. Por outro lado, sua irmã, "Maria Caninana", que era a mais pura expressão da maldade, nunca veio. Assim mesmo andavam sempre juntos e percorreram todos os rios da Amazônia.
"Maria", sendo muito má, um verdadeiro demônio, fazia muitas travessuras que desgostavam o irmão. Alagava canoas, mexia com os bichos, assombrava e afogava viajantes e banhistas, fazia naufragar embarcações, cometia, enfim, toda sorte de maldades.
Eram tantas as maldades e atentados praticadas por ela que, um dia, Honorato acabou por matá-la para por fim às suas perversidades. Honorato, em algumas noites de luar, perdia o seu encanto e adquiria a forma humana transformando-se em um belo rapaz, deixando as águas para levar uma vida normal na terra.
Outras versões dizem que, Honorato, como entidade encantada, quando queria, à noite (só à noite) transformava-se em gente, deixando à beira do rio, a monstruosa casca da cobra em que vivia. Gostava muito de dançar. Era um moço alto e bonito.
Muitas vezes ia dormir em casa de sua mãe, e então, pedia encarecidamente a esta que, antes do galo cantar, fosse ela à beira do rio, onde estava sem ação o seu corpo de cobra e que, deitando-lhe um pouco de leite na boca, lhe desse uma cutilada que o fizesse sangrar. Feito isso, ficaria ele desencantado para sempre.
A Mãe de Honorato foi muitas vezes tentar fazer isso, mas era tão grande, feia e monstruosa a cobra, que ela não tinha coragem e voltava sem ser capaz de cumprir o que lhe pedira o filho. Ele, porém, garantia que a cobra, apesar da aparência, nada lhe faria de mal.
O mesmo pedido fez eles a muitas outras pessoas, garantindo a mesma coisa, mas quando iam elas cumprir o pedido e viam tamanho monstro, corriam aterrorizadas para trás, e por isso ele não podia desencantar.
Como na tradição dos seres fabulosos das águas[1], Honorato, adorava a dança. Costumava então aparecer nos bailes ribeirinhos, encantando a todos com a sua elegância. Desaparecia para surgir, cinquenta léguas adiante, noutro baile. Na margem do rio ficava a pele enorme da cobra, esperando a volta do seu infeliz dono.
Ocorre que, estando ele certa feita nas águas do rio Tocantins, chegou a cidade de Cametá] (município do Pará). À noite, ali, procurou um soldado, conhecido pela sua bravura, e lhe fez o costumeiro pedido[2].
Dessa vez, aquele destemido soldado, foi à beira do rio, viu o monstro inerte, mas não recuou como todos os outros. Colocou leite na boca da cobra, e em sua cabeça deu uma cutucada com um punhal que a fez sangrar.
Pronto, a partir daquele dia, Honorato finalmente desencantou e se transformou de vez em gente. Deixou de ser cobra D’água para viver na terra com sua família, como um homem normal.
O imenso corpo da cobra foi então queimado e reduzido à cinzas, que logo se espalharam pelo rio.
Esta é a versão corrente atualmente em todo estado do Pará. Já está integrada ao fabulário popular e perfeitamente assimilada pelos moradores locais.

Origem Provável:
O mito, da forma como se apresenta, faz parte do folclore europeu. Se ignorarmos os episódios semelhantes em todos os folclores do mundo, é amazônico.
Em Portugal existiam entidades fantásticas com o corpo de cobras. Em certos dias, abandonando a pele, a linda moça canta, suplicando que alguém fira a serpente para livrá-la do encanto. É sem dúvida muito semelhante à lenda da nossa Cobra Honorato.
Os elementos formadores desse mito são muitos e complexos. No Brasil, as serpentes fluviais tiveram seu ciclo com a Mboi-assu, a Boiúna. Na América do Norte com Bachue, e no México com outras tantas.
Os africanos trouxeram muitos mitos onde as serpentes figuravam, representando fenômenos meteorológicos, ou forças subterrâneas, misteriosas, que eles identificavam como sendo o "Espírito da Morte".
=======================
(1) De acordo com a tradição, os seres misteriosos que vivem na água amam a dança como a mais natural das ocupações. A Iara cantava, mas a Ondina não dispensava um baile.
(2) Para que se quebrasse o encanto de Honorato era preciso que alguém tivesse muita coragem para derramar leite na boca da enorme cobra, e fazer um ferimento na cabeça até sair sangue. Ninguém tinha coragem de enfrentar o enorme monstro, até que apareceu esse soldado da cidade de Cametá.
__________________________
A Lenda

A Cobra grande é uma lenda amazônica que fala de uma imensa cobra, também chamada Boiúna, que cresce de forma desmesurada e ameaçadora, abandonando a floresta e passando a habitar a parte profunda dos rios. Ao rastejar pela terra firme, os sulcos que deixa se transformam nos igarapés.
Conta-se que uma índia engravidou da Boiúna e teve duas crianças: uma menina que se chamou de Maria e um menino chamado de Honorato. Para que ninguém soubesse da gravidez, a mãe tentou matar os recém-nascidos jogando-os no rio. Mas eles não morreram e nas águas foram se criando como cobras.
Criaram-se livremente, revirando ao sol os dorsos negros, mergulhando nas marolas e bufando de alegria selvagem. O povo chamava-os: Cobra Honorato e Maria Caninana. Cobra Honorato era forte e bom. Nunca fez mal a ninguém. Vez por outra vinha visitava a tapuia velha, em seu tejupar* . Nadava para a margem esperando a noite.
Quando apareciam as estrelas e a aracuã* deixava de cantar, A Cobra Maria saía d’água, arrastando o corpo enorme pela areia que rangia. Vinha coleando, subindo, até a barranco. Sacudia-se todo, brilhando as escamas na luz das estrelas. E deixava o couro monstruoso da cobra, erguendo-se uma moça bonita e vistosa. Assim como seu irmão Honorato saiam como pessoas normais.
Cobra Honorato salvou muita gente de morrer afogada. Desvirou embarcações e venceu peixes grandes e ferozes. Por causa dele a Piraíba do Rio Negro abandonou a região, depois de uma luta de três dias e três noites.
Maria Caninana era violenta e má. Alagava as embarcações, matava os náufragos, atacava os mariscadores que pescavam, feria os peixes pequenos. Nunca procurou a velha tapuia que morava no tejupar.
Numa cidadezinha do amazonas, vive uma serpente encantadora, dormindo, escondida na terra, com a cabeça debaixo do altar da Senhora Santa Ana, na igreja que é da mãe de Nossa Senhora. Sua cauda está no fundo do rio. Se a serpente acordar, a Igreja cairá. Maria Caninana mordeu a serpente para ver a Igreja cair. A serpente não acordou, mas se mexeu. A terra rachou, desde o mercado até a Matriz.
Cobra Norato matou Maria Caninana porque ela era violenta e má. E ficou sozinho, nadando nos igarapés, nos rios e no silêncio dos paranás do arquipélago Mariuá.
Quando havia putirão de farinha, dabucuri de frutas nas povoações plantadas à beira-rio, Cobra Norato desencantava, na hora em que os aracuãs deixam de cantar, e subia, todo de branco, para dançar e ver as moças, conversar com os rapazes, agradar os velhos. Todo mundo ficava contente. Depois, ouviam o rumor da cobra mergulhando. Era madrugada e Cobra Norato ia cumprir seu destino.
Uma vez por ano Cobra Norato convidava um amigo para desencantá-lo. Amigo ou amiga. Podia ir na beira do Rio, encontrar a cobra dormindo como morta, boca aberta, dentes finos, riscando de prata o escuro da noite: sacudir na boca aberta três pingos de leite de mulher e dar uma machadada com ferro virgem na cabeça da cobra, estirada no areão.
A Cobra fecharia a boca e a ferida daria três gotas de sangue. Honorato ficava só homem, para o resto da vida. O corpo da cobra seria queimado. Não fazia mal. Bastava que alguém tivesse coragem.
Muita gente, com pena de Honorato, foi com aço virgem e fresquinho leite de mulher, ver a cobra dormindo no barranco. Era tão grande e tão feia que, dormindo como morta assombrava. A velha tapuia, ela mesma, foi e teve medo. Cobra Norato continuou nadando e assobiando nas águas grandes, do Amazonas ao Negro, indo e vindo, como um desesperado sem remissão.
Num putirão famoso, Cobra Norato nadou pelo rio Amazonas, até uma cidade vizinha. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar, beber e conversar. Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse.
O soldado foi, com o vidrinho de leite e um machado que não cortara pau, aço virgem. Viu a cobra estirada, dormindo como morta, boca aberta, sacudiu três pingos de leite entre os dentes. Desceu o machado, com vontade, no cocuruto da cabeça.
O sangue marejou, a cobra sacudiu-se e parou. A cobra Norato deu um suspiro de descanso. Honorato veio ajudar a queimar a cobra onde vivera tantos anos. As cinzas voaram. Honorato ficou homem.
E Honorato só morreu, anos e anos depois. Não há nesse rio e terras do Amazonas quem ignore a vida da Cobra Norato. São aventuras e batalhas. Canoeiros, batendo a jacumã, apontam os cantos, indicando as paragens inesquecidas: “Ali passava, todo dia, a Cobra Norato…”.

Vocabulário
*Aracuã : é uma ave que faz muito barulho de manhã na beiro do rio.
*A tapuia: a índia.
*Tejupar: cabana.

Fontes:
_______________
Estante de Livros

Manoel de Barros
Poemas concebidos sem pecado
         Poemas concebidos sem pecado, é o primeiro livro de Manoel de Barros e foi publicado no Rio de Janeiro, em 1937. Foi feito artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele.
         Como o próprio nome diz, a ingenuidade de uma produção poética fincada nos anos juvenis e que indica, de forma inequívoca, as feições das palavras em Manoel de Barros.
         A obra quebra os padrões “normais” do poema inserindo recursos narrativos próprios da prosa (diálogo, narrador, personagem etc.). É também já nesse livro que encontra-se uma escrita em que o passado flui para o presente” proporcionando um “mergulho” na experiência pessoal e uma prática de experimentação no campo da linguagem.
         Evidentemente essa articulação entre experiência e experimentação cabe numa possível definição de poesia: “inteligência sensível da existência, formulada através da linguagem”.
         Em Poemas Concebidos sem Pecados, já aparecem marcados essa inclinação para as coisas sem importância na sociedade e o uso de uma sintaxe que se aproxima da modalidade da fala. Nessa obra inaugural, o título traduz para o leitor a expressão de desejos na forma de poemas, num estado singular de manifestação, driblando a tirania da educação ou dos “bons princípios”. Esse primitivismo na poesia de Manoel de Barros não se confunde com ingenuidade ou bondade da alma humana. Trata-se antes da espontaneidade do pensamento como artifício para ver o estado inominável das coisas.
         Manoel de Barros apresenta um vocabulário ao gosto clássico, de influência parnasiana, entretanto numa relação problematizadora do tradicional e canônico levada a efeito pela estética modernista. Nesse livro, aparecem várias referências ao léxico parnasianista, como por exemplo, as palavras e expressões “soneto”, “Grécia de Péricles”, “hexâmetros”, “cítaras”, “éolicas harpas”, “Clitemnestra", “inspiração”, “lírica”, “musa”. Essas referências convivem com o vocabulário prosaico que o poeta busca nos simples e humildes do pantanal. E, para cada uma daquelas construções eruditas o poeta contrapõe palavras da sua realidade cotidiana e popular: para “harpas”, “viola”; para “Clitemnestra”, “Petrônia lavadeira”, “mãe de Raphael” que não é o anjo, nem o pintor; o “soneto” é “sonetos de dor de corno” e a “Musa” sabe “asneirinhas” e está muito mais para mulher da vida do que para uma realidade mitológica. E para finalizar, o poeta escreve que “nenhuma cidade disputará a glória de me haver / dado a luz”, como acontecia, muitas vezes onomasticamente, com os heróis clássicos.
         A presença desse léxico elevado nesse primeiro livro de Barros, embora possa ser remanescência do soneticista e do leitor dos parnasianos na juventude, consiste mais num jogo parodístico ao gosto dos modernistas.
         A predileção pela infância, que permeia toda a obra deste autor, está presente desde este primeiro livro. Notadamente autobiográfico, nele o poeta traça a mitologia de um menino de sete anos, criado em Cuiabá, no Beco da Marinha, e que parte para o Rio de Janeiro para estudar.
         Em “Cabeludinho”, seu principal poema, o poeta narra fatos essenciais de sua vida, do nascimento à mocidade.
         “Postais da Cidade” e “Retratos a Carvão” marcam o distanciamento entre o poeta e seu mundo original.
         O livro tem raízes no Modernismo e, como tal, recebe forte influência oswaldiana: verso prosaico, construções coloquiais, excessivo uso de diálogos e de expressões erráticas. Segundo observações do critico Miguel Sanches Neto, o peso da poética, nesse momento, é o exaustivo trabalho de modificação da língua. Constata ainda que a infância e a cor local são o motor dessa obra.


Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to