Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 14 de março de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 384)



Paulo Vinheiro
Uma Flor no Meio da Vida

     “O que queres?” Perguntei-me!
     Dia e outro, na procura dos sentidos, me perco nas palavras que brotam por todo lado com seu propósito de me confundir.
     Jornais, revistas, livros... tantas letras que doem.
     Já li de tudo, me arrebatam as bulas...
     Machado, Alencar, Scliar, Saramago, Lobato, e tanta gente que depois de um tempo me cobra: – que dizes? Que me dizes?
     Ousado, talvez com um pouco de medo, arrisquei umas pequenas linhas... pequeninas... pequenininhas.
     Então escrevi.
     Tive a sorte de aprender a “letrar” pensamentos e os “letrei”; então achei pouco.
     Pensei: – se posso descrever o que penso... porquê não posso escrever o que sinto?
     Vi que existia uma ponte estreita, longa, perigosa e muita vez conflitiva, entre o que eu sentia e pensava.
     Sofri, mas não desanimei, então me reescrevi.
     Contei contos, desvelei novelas, trabalhei textos... passei a ler com mais cuidado, com mais rigor, com mais seleção.
     Passei a ler como se eu tivesse escrito o texto que não escrevi. Busquei o sentimento que vale a pena (no estrito sentido da pena que escreve).
     Antes disso, eu não respeitava os que escreveram tanto como mereciam.
     Textos bons ou textos nem tanto como queríamos ler, servem para o que servem, para se qualificarem uns aos outros.
     Quem sabe o que é bom?
     Sempre gostei das coisas mais fáceis, e por isso busquei as mais difíceis, só para me contrariar... só eu sofri no caso das palavras que li.
     Agora há pouco me perguntaram:  – E a flor, onde entra nisso que dizes?
     Ora entendo que a flor é o produto da expressão do que se diz, do que se escreve, do que se pinta, do que se faz para a apreciação, como o trabalho, como o amor... como a expressão pura e simples da ação.
     Existe no campo ou nos jardins, todo o tipo de expressão floral. Existe no jardim de nossos dias uma quantidade de obras a se admirar, umas com mais cuidado, outras com mais atenção, outras detalhadas, outras simples... cada qual com suas qualidades.
     Para nós sobra entender o que fizemos ou faremos de nós.
Paulo Vinheiro (nome artístico de Paulo Vieira Pinheiro), escritor da cidade de Monteiro Lobato/SP
  


Uma Trova de Londrina/PR
Cidinha Frigeri

A tristeza hoje veio
com vontade de ficar…
Oh! alegria, eu receio
que ela queira demorar.

Uma Trova de Mangualde/Portugal
Elisabete Aguiar

Muita gente neste mundo
quando pode, faz o Bem;
pena que lá bem no fundo
só possa se lhe convém.

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

DEVANEIO

Sua imagem visita
a madrugada do meu sonho.
Recebo-a com a carícia da saudade,
A penumbra da sala
tem o aconchego do seu abraço
e as rosas ainda guardam
o perfume do seu corpo.
Reclino lembranças
sobre a almofada de veludo,
onde nossas mãos se encontraram
ainda há pouco,
no adeus das nossas esperanças.
Para brindar sua presença
retida em meus sentidos,
experimento o sabor de beijos
no vinho que você deixou
na taça de cristal.
E o silêncio dos meus lábios
recita a poesia do seu nome,

Uma Trova Humorística de São José dos Campos/SP
Amilton Maciel Monteiro

Diz-se um machão da pesada,
valentão que dá no couro,
mas não passa sob escada,
com medo de mau agouro.

Uma Trova de Porto/Portugal
Emilia Peñalba de Almeida Esteves

Faz o bem sem ver a quem,
até às pessoas más,
porque o bem faz sempre bem,
Inclusive a quem o faz!...

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

FUGA

A ave solitária
enfeitava, lá no alto,
a monotonia do espaço.
Depois, seu voo branco
desapareceu na distância,
sem deixar vestígio.
E o céu ficou apenas azul,
numa imobilidade vazia.

Uma Quadra Popular do Norte de Minas Gerais
Autor Anônimo

Meu benzinho não é este,
nem aquele que lá vem.
Meu benzinho está de branco,
não mistura com ninguém.

Uma Trova Hispânica de Buenos Aires/Argentina
Nora Lanzieri

La Samba viene de lejos
y la bailo en mi Brasil
emisaria de cortejos
al compás del tamboril.

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

INOCÊNCIA

Sorrindo, à tardezinha,
o sol despediu-se com um beijo
na face tímida
de uma nuvem branca,
deslumbrada por estar no céu...
E ela ruborizou-se, inteirinha,
de luz.

Trovadores que deixaram Saudades
Nilo Aparecido Pinto
Caratinga/MG (1915 – 1974) Rio de Janeiro/RJ

O bambu com muita gente
se parece no feitio:
por fora é belo e imponente,
por dentro é oco e vazio…

Uma Trova de Belém/PA
Sarah Rodrigues

Encontrei com a saudade
solitária, mas tão bela,
e sem medo, sem vaidade…
eu beijei as tranças dela.

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

RAZÕES

Penitência
é o homem, dotado para o deslumbramento
do mundo das idéias,
viver na contingência vulgar
das necessidades cotidianas,
disfarçando-se
na reticência da mediocridade,
para se ajustar,
sacrificando-se
na omissão de si mesmo,
para sobreviver.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Carmen Pio

Olhando o sol na vidraça
e o balançar das palmeiras,
invejo a aragem que passa,
indo afagar as roseiras.

Um Haicai do Paraná



Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

HARMONIA

Corpo cor de areia,
olhos cor do horizonte,
sorriso da cor do sol,
movimento leve de brisa
a se espreguiçar pela praia,
toda ela mulher, toda ela envolvente
como o abraço das ondas,
toda ela beleza
como o fascínio do céu,
toda ela mistério
como as distâncias do mar.

Uma Trova de Natal/RN
Joamir Medeiros

O beijo, quando silente,
(o chamado beijo mudo)
entra profundo na gente
e em pouco tempo diz tudo!

Uma Aldravia de Belo Horizonte/MG
Gilberto Madeira Peixoto

luz
divina
Deus
assiste
minha
alma

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

DILEMA

O coração é uma taça para a festa da vida.
Com ela comemoramos, na embriaguez da euforia,
os esplendores das pompas, o riso da alegria,
a glória encantada dos amores.
Mas o fazemos com tamanha ansiedade,
com tanto medo
de ver a festa em breve terminar,
que, ao fim, quando brindamos à Felicidade,
que um dia há de chegar,
temos cansado o coração
e a taça está vazia.

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
José Messias Braz

A trova, quando termina
em perfeita construção,
é uma casa pequenina,
com requintes de mansão!

Um Haicai de Manaus/AM
Luiz Franco de Sá Bacellar
1928 – 2012

O lírio levanta
no meio da noite
seu copo de leite

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

RETROCESSO

Sonhos menineiros
acordam-me manhãs de saudade.
E eu caminho
pelas calçadas antigas do passado,
à procura do carinho criança
que deixei brincando
com as mentiras da vida;
da bondade ternura que o coração perdeu
pelas esquinas do mundo;
das venturas inocentes que deixei por aí
rabiscadas
nas paredes envelhecidas do tempo.

Um Haicai de Campinas/SP
Mailde Tripoli

Flores no jardim,
jabuticabas no quintal!
Eis a primavera.

Uma Trova de Magé/RJ
Maria Madalena Ferreira

Fito o espelho… e o que constato?
– Rugas… tristezas… enfim,
o verdadeiro retrato
do que a vida fez de mim!

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

RIMAS LIGEIRAS

Toda a beleza da vida,
nessa existência inquieta,
nunca será esquecida,
enquanto houver um poeta.

Sutil e simplificada,
mais simples não se podia,
fazer da quadra rimada
um mundo de poesia.

O sol, se a chuva encontrar,
no céu o arco-íris produz,
pincelando cores no ar,
com tintas feitas de luz.

O azul do céu se repete
sobre o mar que não tem cor.
A vida também repete
belezas que vêm do amor.

Recordando Velhas Canções
Olê, olá
(1966 )

Chico Buarque

Não chore ainda não
que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
            A Felicidade aqui
pode passar e ouvir
E se ela for de samba
há de querer ficar

Seu padre toca o sino
que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança,
que o samba é menino
Que a dor é tão velha
que pode morrer
Olê olê olê olá

Tem samba de sobra,
quem sabe sambar
Que entre na roda,
que mostre o gingado
Mas muito cuidado,
não vale chorar

Não chore ainda não
que eu tenho uma razão
Pra você não chorar

Amiga me perdoa
se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
para quem cantar
Meu pinho, toca forte
que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida,
nem fale da morte
Tem dó da menina,
não deixa chorar
Olê olê olê olá

Tem samba de sobra,
quem sabe sambar
Que entre na roda,
que mostre o gingado
Mas muito cuidado,
não vale chorar

Não chore ainda não
que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
É um samba tão imenso
que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
vai parar pra ouvir

Luar, espere um pouco
que é pra o meu samba poder chegar
Eu sei que o violão está fraco,
está rouco
Mas a minha voz
não cansou de chamar
Olê olê olê olá

Tem samba de sobra,
ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
nem há mais lugar
O sol chegou antes
do samba chegar
Quem passa nem liga,
já vai trabalhar
E você, minha amiga,
já pode chorar

Uma Trova de Natal/RN
José Lucas de Barros

A saudade é passarinho
que voa pela amplidão,
mas só sabe fazer ninho
na concha do coração.

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

BONDADE

Há gente que, nessa vida, tanto amou,
tanto padeceu resignadamente,
que lembra uma delicada
gota de orvalho
transformada em nuvem
no caminho do céu...
No alto, ainda se desfaz em chuva
sobre a haste de espinhos
onde viveu.

Um Haicai de Itajaí/SC
Anna Ribeiro

Quase pôr-do-sol!
Enquanto barcos navegam
gaivotas revoam.

Uma Trova de Vitória/ES
Humberto Del Maestro

Madrugada, vento esperto,
em meu sonho alcanço a lua…
Dorme a paz a céu aberto,
cai poesia sobre a rua.

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

CALMARIA

Esse entardecer que demora
é dia que se vai embora;
é azul que mergulha o poente;
é nuvem que foge no ar;
é onda que desliza macia;
é brisa que sopra de fora;
é barco que volta do mar.

Hinos de Cidades Brasileiras
Pracuúba/AP

Eia povo destemido tão querido,
Habitante desta linda natureza,
Vibra um sonho de um futuro radiante
Nesta terra que se torna fortaleza.

A vitória segue aos rios pela pesca,
Por pescadores corajosos habitantes,
Cuja fonte de saúde é majestosa
Se vasculhada nesses rios penetrantes.

Ó brava terra de mãe gentil,
Pracuúba, Amapá, Brasil...

Ó Deus, que abençoe esta terra
Da fauna rica e flora verdejante
Onde o rio que exalta a natureza
Resplandece seu trabalho exuberante.

Encoberto pela própria natureza,
Homenageia uma árvore gigante
Com um povo tão guerreiro e tão humilde
Que demonstra tal bravura radiante.

Que destaca nesta fauna o Tracajá,
O pirarucu e o Tucunaré
A beleza de Pracuúba, vale a pena observar,
É sua flora, a mais rica do lugar.

Ó brava terra de mãe gentil,
Pracuúba, Amapá, Brasil…

Uma Trova de Campos dos Goytacazes/RJ
Diamantino Ferreira

A trova, de qualquer jeito,
chega forte e vai bem fundo:
em seu contexto perfeito
já percorre todo o mundo!

Um Poema de Tambaú/SP
Sebas Sundfeld

VERSOS À CABOCLA

Cabocla morena,
queimada de sol,
cheirando a suor,
de enxada na mão;
cabocla morena,
que faz na fazenda
o mesmo trabalho
do pai lavrador;
cabocla bonita,
que vai para o eito,
andando sozinha
pelo carreador;
cabocla bonita,
que leva no peito
a cruz pendurada
de Nosso Senhor;
cabocla faceira,
de lenço à cabeça,
de boca vermelha
que é tentação;
cabocla faceira,
que tem formosura,
que planta e que colhe
o fruto do chão;
cabocla doçura,
cabocla descalça,
tão bem brasileira
do nosso sertão;
cabocla rinhosa,
que luta e que sonha,
mas tem sua vida
tão simples, tão só.
Cabocla que vive
no sítio, na roça,
assim esquecida,
cabocla, tem dó!
Cabocla morena,
cabocla bonita,
cabocla faceira,
me diz uma coisa:
— Ninguém lhe falou
que você, cabocla,
é a maior grandeza
da União Nacional?
Da terra a colheita,
do amor sedução...
em você, cabocla,
tudo é produção,
____________
Chuvisco Biográfico do Poeta
         Sebastião Alício Sundfeld nasceu em Pirassununga/SP, em 5 de julho de 1924. Filho de Augusto Sundfeld e Natalia Hilsdorf.
         Graduou-se em Pedagogia.
         Professor nas escolas de comércio e de agricultura em Pirassununga foi para Tambaú em 1949. Lecionou no Grupo Alfredo Guedes e Ginásio Padre Donizetti, pertencendo ao seu primeiro grupo docente. No Alfredo Guedes criou o Grupo de Teatro Infantil (TIT), sendo um dos precursores do teatro tambauense.
         Além de responsável por inúmeros shows, espetáculos e concursos literários, foi o primeiro diretor artístico da Rádio Tambaú, participou da instalação da comarca e criou os símbolos do município: o Brasão Heráldico, a Bandeira e a letra do Hino.
         Foi vereador e instalou a Biblioteca Pública de Tambaú que hoje leva seu nome como patrono.
         Vencedor de vários concursos por todo o Brasil e em outros países.
         Palestrante, musicista, poeta e prosador, com presença em jornais e revistas.
         Distinguiu-se com os diplomas de Cidadão Honorário de Tambaú e de Cidadão Benemérito de Pirassununga.
         Ocupa a cadeira “Mario de Andrade”na Academia de Estudos e Pesquisas Literárias. 
         Na década de 80 realizou Concursos Internacionais de Trova. Recebeu homenagem pública, em 1991, por ocasião do desfile de aniversário da cidade.
         Membro da União Brasileira de Escritores; União Brasileira dos Trovadores; Academia de Letras Internacionais Três Fronteiras (Brasil, Argentina e Uruguai); Academia de Letras de Anápolis (GO); Academia de Letras de Piracicaba (SP); Academia de Letras de Uruguaiana (RS); Academia Internacional de Heráldica e Genealogia, de Ciências Humanísticas; Casa do Poeta “Lampião de Gaz”, de São Paulo (SP); Associação Paulista de Imprensa (SP) e outras.
         É considerado um dos corifeus do haicai da escola guilherminiana. Publicou 14 livros, entre 1960 e 2009, sendo 4 de trovas.
         Seus livros de contos e crônicas "Reticências" e "Figuras" foram premiados com Medalha de Ouro pela Câmara do Livro, orgão da ABEPL, no Rio de Janeiro.
___________________
 

Ah! Se Deus me desse a graça
de ter-te sempre ao meu lado,
eu não teria a desgraça
de viver tão maltratado…

Ave-Maria! Soou
lá na capelinha o sino.
E só a saudade ficou
de um coração peregrino...

A vida é como um navio
que, na procela do mar,
vai indo como Deus quer,
até seu porto encontrar.

Eu vivo perambulando
noite e dia sem cessar.
A sorte de um vagabundo
que nasceu para penar...

Há nos teus olhos ciúmes,
no teu corpo sedução.
No meu peito, uma saudade
nas noites de solidão.

Minha mãe, deusa querida,
santa que reza por mim,
és razão da minha vida,
és a flor do meu Jardim!

Minha terra tem salinas,
tem rios, tem coqueirais.
Também tem moças bonitas,
para quem mando os meus ais.

Na minha vida o caminho
é sempre tão negro e atroz...
Nem sequer tenho um carinho,
dela já não escuto a voz...

No meu silêncio tristonho
que teu amor me deixou,
minha vida é quase um sonho
e tudo, tudo arruinou...

No pé daquele arvoredo
coloquei o nome dela,
para que morra em segredo
o amor que tenho por ela.

Ó lua branca e formosa,
mandai do céu, por favor,
um bom presente, uma rosa,
como oferta ao meu amor...

Ó mundo todo maldade,
tu, que me roubas a calma,
dá-me um pouco de bondade
e alívio para minha alma!

Ó! Tu que pisas mansinho
e tens um bom coração,
dá-me bastante carinho
e mata minha paixão!

Quando eu a vejo sozinha
na escuridão dos meus dias,
sinto a dor que me espezinha
e as esperanças sombrias...

Saudade, dor que me invade
o coração facilmente...
Espinho atroz da maldade,
que me destrói lentamente...

Se ela por mim sentisse
um sentimento qualquer,
nem que ela apenas fingisse
que foi um dia mulher...

Se tu soubesses, morena,
o gosto que o beijo tem,
não me fazias tal cena...
me beijarias também.

Só entre escolhos vivido,
não sei mais o que fazer.
Eu já me sinto perdido
quando não posso te ver!

Tarde sombria de outono,
Orion já longe vai…
Quisera sempre ter sono
na hora em que o pranto cai.

Você, ó fada encantada,
dona do meu coração,
não lembra a vida passada,
berço de negra ilusão...

Vou sentindo dentro em mim
um quê de amor e paixão.
Meu viver é tão ruim
que até Deus tem compaixão...
_______________
      Benedito de Góis nasceu na cidade de Macau/RN, no dia 25 ãe julho de 1924. Filho de Pedro Simeão de Góis e D. Maria Anunciada de Góis.
         Fez os primeiros estudos com o poeta Edinor Avelino, em sua cidade natal. Ingressou no Seminário de São Pedro, em Natal/RN, bacharelando-se em Ciências e Letras; depois, foí para o Seminário Maior de Olinda/PE, não concluindo o curso por motivo de força maior.                            Convocado pelo Exército, lecionou, depois, em educandários religiosos, Latim, Religião, Português e outras matérias, oficializando seus estudos, mais tarde, no Ateneu Norte-Rio-Grandense, em Natal.
         No Rio de Janeiro, fez concurso para o Magistério, como professor primário; ingressou na Faculdade de Direito Cândido Mendes, não concluindo o curso.
         Colaborador de jornais, rádios, revistas do interior.
         Membro-fundador da União Brasileira de Trovadores, seção de Duque de Caxias e da Academia Duquecaxiense de Letras e Artes, de cuja Diretoria fez parte.
         Fixou residência em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
____________________
Lino Mendes
Moda de “saias”

Muitos saberão que a moda de “saias”, que são cantadas e bailadas ou só cantadas, com ou sem acompanhamento musical, são essencialmente cantadas a despique, entre homem e mulher ou entre mulheres, podendo eventualmente entrar na liça outro homem se em jogo está a conquista dessa mulher.
Ora, em 2004, solicitamos a um grupo de amigos que para o efeito  fizessem algumas “quadras”. E aqui deixamos algumas das que nos foram enviadas:

FERNANDO MÁXIMO (Avis)

Ela:
Quando chegas sobe o sol ,
quando te vais desce  a lua;
se tu foras um lençol
eu dormia toda nua.

Ele:    
Mas se eu fosse um lençol
branquinho como a geada,
tu, sem teres um cachecol
morrias toda gelada.

JOSÉ DA SILVA MÁXIMO (Santo Antº Areias)

             Ele:    
Menina que tens o curso
responde ao fim e ao cabo:
quantos pelos tem o urso
sem contar com os do rabo.

Ela:       
Os pelos que um urso tem
estou certa e não me iludo:
os mesmos que tu, também,
incluindo o rabo e tudo!

M. ROSA VICENTE BARRABÉ (Tramagal)

Ele:      
Contigo hei-de casar,
preciso de cozinheira;
ainda hei-de ser teu par,
ser teu dono a vida a inteira.

Ela:     
Lamento dizer que não ,
faço-o de forma singela,
sou bicho de estimação
mas não sou de andar à trela.

 GABRIEL RAMINHOS   (Reguengo da Monsaraz)

Ele:     
Minha linda alentejana,
moreninha de encantar,
meu coração não se engana…
– eu só vivo pra te amar!

Ela:      
Deixa-te de brincadeiras;
de falar com fingimento.
Dizes gostar de trigueiras…
Palavras leva-as o vento!

HIPÓLITA M.CHARNECA CARRIÇO (Évora)

Ele:     
Ó que menina tão linda
que me despertou paixão,
posso ter esperança ainda
de me dares teu coração?

Ela:     
Meu coração já o dei ,
já chegaste atrasado,
infiel não serei,
vai cantar pra outro lado.

  MARIA ALBERTINA DORDIO  (Portalegre)

 Ele     
Uns vivem na abastança
e outros pobres de mais;
para quê tanta riqueza,
se os homens são iguais?

  Ela     
Se os homens são iguais,
têm igual merecer.
O que têm uns a mais,
falta a outros pra viver

FRANCISCO MATOS SERRA (Cabeço de Vide)

 Ele         
Sempre aqui encontrarás,
se vieres a Montargil,
muito amor justiça e paz
num sonho feito de Abril.

Ela  
             Muito sincero e subtil…
Montargil sempre me apraz…
Aqui…o povo é gentil,
e, Abril não volta atrás.

 CELESTE M. DA SILVA AVÓ CHARNECA  (S. Miguel de Machede)

 Ele        
Vestidinho de chita verde,
nesta função se estreou,
está bonito e bem talhado,
minha bolsa é que o pagou.

Ela         
Tua bolsa é que o pagou,
e já remédio não tem;
tu deste-mo e eu aceitei,
Deus pague a quem faz bem.

Fonte:
Lino Mendes (Montargil/Portugal)
_______________
Folclore Brasileiro
A Lenda do Pé de Garrafa

Rafael Nolêto
Pé-de-Garrafa

Seu rastro maldito
Tem forma redonda
Ouve-se um apito
Por onde ele ronda

Faz todo vivente ficar perdido
Quem ouve seu grito amanhece aflito
É o pé-de-garrafa, é besta ruim
Se ele te encontra, será o teu fim

Esfola e esmaga
Quem lhe aparecer
É alma amarga
Lhe faz padecer

Quem pisa no rastro dessa pintura
Terá uma vida de muita amargura
Se ver uma roda gravada no chão
Fique precavido contra assombração.
_____________________
         Pé de Garrafa é um ente que vive nas matas e capoeiras. Raramente é visto. Mas ouvem sempre seus gritos agudos. Algumas vezes são amendrontadores ou tão familiares que os caçadores procuram-no, certos de tratar-se de um companheiro ou parente perdido no mato. Outras vezes, aqueles gritos, mais parecem coisa do outro mundo.
         E quanto mais procuram menos o grito lhes serve de guia, pois, multiplicado em todas as direções, desorienta, atordoa, enlouquece. Então os caçadores acabam perdidos ou voltam para casa depois de muito esforço para reencontrar o caminho conhecido.
         Quando isso acontece sabem logo que o temível Pé de Garrafa está por perto. Assim, não será surpresa nenhuma, se, a partir daquele momento, em qualquer parte da floresta, não encontrarem os vestígios inconfundíveis de sua passagem, claramente assinalado por um rastro redondo, profundo, lembrando perfeitamente um fundo de garrafa.
         Supõem que o estranho fantasma tenha as extremidades circulares, maçicas, fixando assim os vestígios que lhe servem de assinatura. Vale Cabral, um dos primeiros a estudar o Pé de Garrafa, disse-o natural do Piauí, morando nas matas como o Caipora. A julgar pelas enormes pegadas que ficava na areia ou no barro de massapê devia ser de estatura invulgar, talvez maior que dois homens.
         Conta a lenda, que o Pé-de-Garrafa é um ser que habita florestas do Paraná, não há evidências da origem dessa lenda, segundo afirmam muitas pessoas este ser é muito difícil de aparecer para uma pessoa, pois muitos dizem que ele evita ao máximo o contato, entretanto costuma atrair as pessoas quando quer. Muitas pessoas que já o viram ou que conhecem pessoas que já o viram, dizem que ele apresenta as seguintes características. Ele possui corpo de um homem , pode ser  de cor negra ou branca, tem o umbigo branco, é corpo coberto de pêlos, possui apenas um único olho e também um chifre localizados  na testa, apenas um braço, mão com grandes garras e uma perna que não possui pé e sim um formato de fundo de garrafa (o que lhe dá o nome). Dizem que ele costuma gritar para alguém informar o caminho na mata, as pessoas que escutam seu pedido de ajuda, não devem responder, pois ele seguirá a pessoa. Dizem que só se consegue escapar do Pé-de-Garrafa se atingir o seu umbigo branco, onde esta a sua fraqueza.
         Outro historiador, o Dr. Alípio de Miranda Ribeiro foi encontrar o Pé de Garrafa em Jacobina, Mato Grosso. Seu informante, Sebastião Alves Correia, administrador da fazenda, fez uma descrição mais ou menos completa. Disse ele: "O Pé de Garrafa tem a figura dum homem; é completamente cabeludo e só possui uma única perna, a qual termina em casco em forma de fundo de garrafa."
         É uma variante do Mapinguari amazônico e do Capelobo. Grita, anda na mata e tem uma pegada circular. No entanto, não há nenhuma informação se o Pé de Garrafa mata para comer ou é inofensivo. Também, não há relatos de que já tenha atacado alguém.
         Nas velhas missões de Januária, em Minas Gerais, o mítico Bicho-Homem é também chamado Pé de Garrafa. O Prof. Manoel Ambrósio explica que "o Bicho-Homem tem um pé só, pé enorme, redondo, denominado por isto - pé de garrafa."
         Há outro personagem cujo nome é Pé de Quenga, uma espécie de demônio que deixa vestígios semelhantes ao que seu irmão Pé de Garrafa imprime na areia dos riachos e no barro vermelho. São rastros redondos, configurando a intrigante presença de uma entidade fora do comum. O Pé de Garrafa é sem dúvida o Pé de Quenga. Mas não possui poderes infernais, nem a fome insaciável dos demais monstros da sua categoria.
         Barbosa Rodrigues informa que o Caapora era conhecido em certos Estados como sendo unípede e com um casco arredondado. O Pé de Garrafa possui, claramente, traços característicos do Caapora, do Mapinguari, do Capelobo e do Bicho-Homem. A pata redonda, que lhe dá o nome, lembra o Pé de Quenga. De verdade, o mito está tão mesclado que o Pé de Garrafa, gritador inofensivo do Piauí, perturbador dos caminhos em Mato Grosso, ao chegar em Minas Gerais, ganha o nome de Bicho-Homem e torna-se um devorador insaciável de viajantes e residentes incautos.

Nomes comuns:
Pé de Garrafa, Pé de Quenga, Bicho-Homem, Homem Selvagem (Espanha).

Origem Provável:
         A lenda é conhecida no Piauí, Minas Gerais, Mato Grosso, e suas variantes nos estados do Norte do Brasil. É uma variante do Mapinguari Amazônico ou Bicho-Homem mineiro.
         Nos países Bascos, Espanha, sabe-se da existência de um mito chamado em língua local de Basayaun ou Vasajaun, que quer dizer "Senhor" ou "Homem Selvagem", cujo pé esquerdo deixa no solo uma pegada redonda.
         Mas o ente fantástico brasileiro não tem origem européia.
         A entidade da pegada em forma de fundo de garrafa é internacional, tendo sido também identificada no folclore basco (vide o Basajaun), segundo o erudito cearense Gustavo Barroso (1888-1959).
         O sertanista Renato Ignácio da Silva procurou uma explicação racional para as marcas em forma de fundo de garrafa que pululam no imaginário do caboclo. Seria talvez a fantasia de uma estratégia nas incursões dos caiapós do Brasil Central para despistar seus inimigos. Diz ele: “(...) Mesmo quando são muitos, apóiam-se nos calcanhares, levantando os dedos dos pés. No rasto tão pequeno deixado pelo primeiro índio caiapó, todo o resto passará, repisando-o, deixando, no chão, uma rodela do tamanho do fundo de um copo. O que deu margem à lenda do bicho-garrafa, tão temido pelos crédulos sertanejos”.
         Mesmo que essa curiosa estratégia de despistamento fosse usual entre os indígenas de todo o Brasil, não explicaria os petróglifos feitos com muita paciência e instrumentos de percussão. Nos lajedos às margens do rio Negro, em frente à antiga prefeitura de São Gabriel da Cachoeira (Amazonas), estão gravados vistosos "fundos de garrafa". O mesmo ocorre junto a petróglifos multimilenares da ilha de Maracá (Roraima).

Um Relato:
         Certa vez, o administrador saiu-se com o seguinte relato:
         "Quando os senhores chegarem à mata da Poaia, hão de verificar se é ou não verdade o que lhes conto. Nas horas do pôr do sol, quando a gente vem voltando cansado para o rancho, ouve o grito dum companheiro. Para, presta a atenção; o grito se repete. Naturalmente dá resposta e vai em procura do companheiro. Chegado ao lugar donde provinha o grito não vê nada, mas o grito se repete aqui para direita ou para esquerda; nova caminhada, outra vez o grito noutro lugar; por mais que procure nada encontra."
         "É o Pé de Garrafa; o rastro está no chão, tal qual o sinal deixado no pó pelo fundo duma garrafa. Se o poaieiro[*] não é bom, está perdido, deu tantas voltas que nunca mais acha a saída. Um conhecido meu encontrou com esse "bicho". Tem a figura dum homem; é completamente cabeludo e só possui uma única perna, a qual termina em casco em forma de fundo de garrafa. Eu nunca o vi, entretanto vi e ouvi os gritos; e os senhores que vão à Mata da Poaia, hão de, pelo menos, ver o rastro como eu".
         Percebe-se, antes de tudo, a sinceridade do contador. A natureza do conto, tão intensamente dado como verídico, parece comprovar de sobra o que foi dito.

Outro Relato:
         É o mito denominado Pé de Garrafa. Trata-se duma espécie de Caapora que habita as matas, anda pelas estradas ou ronda as casas à noite, gritando como um desesperado. Toda a gente se encolhe nas redes, tomadas pelo medo. Os meninos só faltam morrer... E o bicho pelo escuro a gritar, gritar... De manhã, todos se levantam e vão examinar o solo em torno das cabanas ou o saibro dos caminhos. Não há dúvidas. Era mesmo o Pé de Garrafa que andava por ali na sua resignada penitência.
         As provas são os rastros deixados no local, pegadas inconfundíveis das quais lhe veio o apelido invulgar, verdadeiros buracos redondos e com uma saliência no meio, como se aquela coisa enorme tivesse à ponta das pernas não patas, pés, cascos ou garras, mas verdadeiros fundos de garrafa.
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Nota:
         (*) Por volta de 1830 surge a extração da ipecacuanha ou poaia, Cephaelis ipecacuanha. Nesta época, José Marcelino da Silva Prado, explorando garimpos de diamantes nas imediações do Rio Paraguai, em região próximo à Barra do Bugres, observou que seus garimpeiros usavam, quando doentes, um chá preparado com raiz de arbusto facilmente encontrado à sombra da quase impenetrável floresta da região. Tratava-se da "poaia", que era antiga conhecida dos povos indígenas, que tinham repassado seu conhecimento aos colonizadores. Curioso e interessado, o garimpeiro enviou amostras da planta para análise na Europa, via porto de Cáceres e Corumbá. Desta raiz é extraída a Emetina, substância vegetal largamente utilizada na indústria farmacêutica, principalmente como fixador de corantes.
         Constatado oficialmente seu valor medicinal, iniciou-se, então, o ciclo econômico da poaia, de longa duração e grandes benefícios para os cofres do Tesouro do Estado de Mato Grosso. Esta planta é extremamente sensível, abundando em solos de alta fertilidade sob árvores de copas bem formadas. Seus principais redutos eram áreas dos municípios de Barra do Bugres e Cáceres. A princípio, os carregamentos seguiam para a metrópoles via Goiás, depois passou a ser levada por via fluvial, com saída ao estuário do Prata. Os poaieiros eram os indivíduos que se propunham a coletar a poaia.

Fontes:
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Solange Fiuza Cardoso Yokozawa
Presença simbolista em Mario Quintana (Parte I)

Resumo:

Leitura da poesia de Mario Quintana, procurando evidenciar a presença de convenções simbolistas em A Rua dos Cataventos e Canções. Propõe-se mostrar como essas convenções coexistem e são adaptadas à filiação modernista de tais livros e examinar quais tendências finisseculares permanecem, assimiladas e reinterpretadas pelo poeta, como traços definitivos de sua obra.
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Uma das evidências da poesia de Mario Quintana é a sua afinidade com o Simbolismo. Mas essa afinidade não deve ser rotulada de maneira simplista como anacronismo, manifestação estética tardia ou outra coisa que tal. A presença de elementos simbolistas entre os modernistas é uma constante, notadamente entre os poetas da primeira e da segunda fase. Basta que se lembre o tom gris e a atmosfera melancólica que dão uma nota crepuscular a muitos poemas de Manuel Bandeira, em especial àqueles que compõem A Cinza das Horas, livro em que o “sujeito da enunciação” declara, em poema liminar, no melhor estilo decadentista:

“Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...(...)
– Eu faço versos como quem morre”
(Bandeira, 1991, p.4).

Ou ainda a tristeza, a consciência do efêmero transfigurada em música leve, em “asa ritmada”, na poesia de “sangue eterno” de uma Cecília Meireles, poeta cujas notas intimista, musical e crepuscular são constantes simbolistas em sua obra.
A persistência da musicalidade, da poesia intimista, do clima crepuscular, enfim, do Neo-Simbolismo entre os nossos melhores modernistas é herança natural conferida a poetas que se formaram lendo e admirando Verlaine, Maeterlinck, Antônio Nobre e seus pares. Desses e de outros predecessores os modernistas receberam, entretanto, muito mais do que uma orientação intimista, crepuscular e musical em poesia. O rompimento com a representação realista da realidade, a sondagem do eu profundo, a comunicação ambígua e indireta, uma maior liberdade criadora, o verso livre são algumas das lições simbolistas que os modernistas aprenderam e desenvolveram. Destarte, Mário de Andrade (/s.d./, p.210), que busca em um dos principais antecedentes do Simbolismo francês o precursor da vanguarda por ele encabeçada, reconhece e esclarece em A Escrava que não é Isaura: “Não imitamos Rimbaud. Nós desenvolvemos Rimbaud. Estudamos a lição Rimbaud”. Assim sendo, o fato de o Modernismo aparecer, em certo sentido, como o herdeiro e o continuador de projetos esboçados pelos simbolistas parece justificar, em parte, a presença de tendências simbolistas entre os poetas que estrearam nas primeiras décadas do século passado.
No caso de Quintana e de outros poetas do Rio Grande do Sul, o Simbolismo, devido a uma componente local, parece ter desempenhado uma influência ainda mais forte do que aquela exercida sobre os poetas novos ligados ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Nesses centros literários do país, o Parnasianismo dominou e sobreviveu à estética simbolista, de modo que, ainda que Mário de Andrade e demais vanguardistas tenham “estudado a lição Rimbaud”, beneficiando-se do “chute” que o “vagabundo genial” deu numa tradição de séculos e séculos para libertar a poesia (Andrade, /s.d./, p.202), o Modernismo não representou um desenvolvimento tranqüilo e natural do Simbolismo brasileiro.
Explodindo numa época em que o descritivismo, o mimetismo, a sintaxe bem comportada e, sobretudo, o formalismo estéril dominavam as letras dos principais centros culturais do país, numa época em que “Não há mais poesia/Mas há artes poéticas” (Bandeira, 1991, p.46), o Modernismo de Mário de Andrade foi antes uma reação ao academicismo parnasiano que um desenvolvimento da estética de Cruz e Sousa. Essa reação foi marcada pelo tom destruidor, parodístico e por vezes pelo excesso de uma época que queria romper com a literatura passadista, de uma época marcada pela renovação do código lingüístico oficializado em literatura. Já no Rio Grande do Sul, a estética de Eduardo Guimaraens se afirmou de maneira sólida no panorama literário, em detrimento àquela de Bilac.
É verdade que, como no restante do país, o Simbolismo gaúcho coexistiu com o Parnasianismo, chegando a se fundir a ele em muitos poetas. Mas, à diferença do que aconteceu em outros estados do Brasil, é o primeiro que se afirmou como estética dominante e concorreu para que a assimilação das propostas da vanguarda de 22 se processasse de maneira menos polêmica e o Modernismo gaúcho representasse antes um desenvolvimento e, em certo sentido, uma correção do Simbolismo, do que uma ruptura violenta com um código anterior. Desse modo, incorporado às propostas da nova vanguarda, o Simbolismo permanece, sob a forma de convenções, na obra de vários modernistas sul-rio-grandenses, como é o caso de Augusto Meyer e  Mario Quintana.
A Rua dos Cataventos e Canções, livros publicados por Mario Quintana, respectivamente, em 1940 e 1946, são aqueles em que os traços simbolistas se evidenciam de maneira mais manifesta. Uma leitura desses livros permite verificar quais são as convenções simbolistas neles presentes e observar como elas coexistem e são adaptadas à filiação modernista de tais livros. A par dessas convenções, é possível examinar quais delas permanecem, assimiladas e reinterpretadas pelo poeta, como traços definitivos de sua obra.
O embate entre o artista e a sociedade, entre o poeta e o tempo presente parece se definir como o motivo a partir do qual se delineiam as características simbolistas que assinalam A Rua dos Cataventos. Esse embate não é, entretanto, privilégio somente dos poetas fin de siècle XIX, vez que assinala a arte moderna de uma maneira geral, desde os românticos alemães. Mas é entre os líricos que poetaram sob o signo do Simbolismo que o conflito entre a arte e o contexto que a engendrou se efetiva de maneira mais aguda, chegando às raias do paroxismo.
No caso do Brasil, conforme observou Regina Zilberman, esse movimento estético não significou uma reação à época moderna, ao que nela representava a mecanização da existência, a anulação da individualidade, a massificação dos indivíduos: “Num Brasil ainda marcado pela condição colonial e que proclamava a República para restaurar o poder, abalado pela suspensão do regime escravocrata, dos grandes proprietários rurais, não se podia esperar que os poetas expressassem, por via indireta, seu repúdio ao avançado desenvolvimento da civilização industrial e tecnológica” (Zilberman, 1992, p.24). Mas, ainda segundo Zilberman, em nenhum momento nacional se evidenciou com tanta nitidez a condição colateral do artista que vive numa sociedade considerada medíocre não por ter exagerado as conquistas da civilização tecnológica e industrial, mas por não ter chegado a elas.
Em A Rua dos Cataventos, é flagrante o desajuste entre o artista e o seu meio. Isso se dá não necessariamente em função do progresso técnico. O poeta está desafinado com o lugar onde vive sobretudo porque os valores burgueses deste não se afinam com os seus valores líricos. É o que se pode depreender do soneto III. Nesse poema, o eu-lírico, tendo acordado em uma atmosfera miraculosa, surrealista, poética, em que peixes, em reflexos doirados, voavam na luz, telhados acenderam-se, tabuletas riram e os seus sapatos velhos refloriram, é tomado pelo desejo súbito de sair voando céu em fora. Mas se detém ao se lembrar que as famílias, instituição mantenedora da ordem burguesa, censuram e banem o diferente, o que representa uma ameaça à ordem que as sustenta e é por elas sustentada:

Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio...
As famílias, que haviam de pensar?

Nenhum milagre é permitido agora...
E lá se ia o resto do prestígio
Que no meu bairro eu ainda possa ter!...
(Quintana, 1989, p.4)

Numa sociedade que não permite o milagre poético, o poeta se torna “o idiota da aldeia”, o que é compreendido apenas pelo “Céu e as criancinhas” (Quintana, 1989, p.24).
Ao embate entre o poeta e o contexto social, soma-se o choque entre o poeta e o tempo presente. O artista não está desafinado apenas com os valores burgueses, mas com o seu tempo, porque este, assinalado pela desesperança, substituiu o tempo mágico e alegre da infância. Emblemático desse inconformismo frente à perda dos privilégios infantis é o soneto VIII (Quintana, 1989, p.7-8), em que o eu-lírico recorda a infância, metaforicamente descrita como “dias de uma luz tão mansa” e simbolizada nos brinquedos deixados à porta quando do Natal. O transcurso irreversível do tempo, figurado pelo “vento de Desesperança”, substituiu a luminosidade diurna da infância pela “noite morta” e o sujeito lírico pendurou os seus brinquedos na “galharia torta”. Inconformado com a passagem do tempo e a consequente perda da infância, o eu-lírico diz querer os seus brinquedos novamente e privilegia a realidade interior em detrimento ao real sensível. Para ele, real não é o velho em que se tornou. Isso é aparência, é ilusão. Real é o menino que o habita e não envelhecerá jamais:

“Não vos iluda o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai…
Que envelheceu, um dia, de repente!...”

O fato de o presente representar a antítese de uma infância feliz e de o criador não estar afinado com a sociedade desencadeia as constantes simbolistas presentes em A Rua dos Cataventos: o predomínio de um espírito crepuscular, com a presença reiterada do tema da morte; um certo “dar de ombros” para o social; a valorização do sonhar acordado e a construção de uma poesia intimista, que privilegia a emoção e a sensibilidade; e a valorização da sugestão em detrimento ao descritivismo.
O espírito crepuscular que perpassa grande parte dos sonetos de A Rua dos Cataventos é remanescente do decadentismo simbolista e, como este, é sintomático do desafinamento do poeta com a sua realidade. O poeta não pode se integrar, feliz, na sociedade burguesa, no tempo presente, de modo que a sua poesia representa um canto dorido, triste e melancólico, como o atestam vários poemas do livro em questão.
No soneto IX (Quintana, 1989, p.8-9), o sujeito lírico se depara com a “mesma ruazinha sossegada” da infância. Mas esse espaço não suscita um reencontro com a felicidade perdida. Como cartazes amarelados que anunciam um circo que já foi embora, a rua da meninice apenas evoca uma alegria que não volta mais.
No poema que começa com “Tudo tão vago... Sei que havia um rio...” (Quintana, 1989, p.10-11), uma canção de ninar traz de volta, ao coração do eu-lírico, a sua infância. É essa canção que, prosseguindo vida afora, através da recordação, purifica-lhe o coração enegrecido e o consola do seu abandono presente. No soneto VII (Quintana, 1989, p.7), a garoa, a cidade adormecida, a tarde, criam um cenário melancólico para o ser do poema, que traz um livro ainda não lido sobre os joelhos e cujo “coração dorido” é embalado pela chuva.
O poeta tem consciência dessa sua visão triste e melancólica da realidade, desse espírito crepuscular que assinala esse seu livro de estréia. É assim que se autodescreve como “um operário triste” (Quintana, 1989, p.6) a compor um soneto para o menino doente, diz fazer versos “como os saltimbancos/Desconjuntam os ossos doloridos” e confessa: “Eu sei chorar... Eu sei sofrer... Só isso!” (Quintana, 1989, p.9).
Intimamente ligados a esse espírito crepuscular que dita a atmosfera melancólica de A Rua dos Cataventos, aparecem outros traços simbolistas no livro: a freqüência com que a tarde que cai, o crepúsculo, a noite alta aparecem como cenário de vários poemas; o caráter fantasmagórico de alguns sonetos; além da presença reiterada do tema da morte.
Em se tratando da morte, vale a pena examiná-la mais de perto, porque, constituindo um dos temas mais caros aos simbolistas, ela, além de aparecer como um dos leitmotivs não só do livro em evidência mas de toda a produção quintaneana, recebe em publicações subseqüentes um tratamento que se afasta daquele dispensado pelos simbolistas.
Em A Rua dos Cataventos, o olhar que o poeta lança sobre a morte não destoa da cosmovisão simbolista.
No soneto XIX (Quintana, 1989, p.15), ela aparece não como uma força brutal e indesejada que aguarda no fim da vida, mas como uma companheira que se faz presente desde o dia em que se nasce (“Minha morte nasceu quando eu nasci”). Ela é a “doce Prometida”, aquela cuja existência consola em meio às horas loucas e tristes. Assim sendo, a morte que mais agride não é o passamento físico, mas os “assassinatos” simbólicos a que se é submetido ao longo da existência:

“Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...”
(Quintana, 1989, p.14).

Segue-se desses assassinatos sucessivos o fato de que os fantasmas que mais perseguem o poeta sejam os seus próprios cadáveres de outrora.
No soneto XIV (Quintana, 1989, p. 12), o eu-lírico, depois de se assustar com uma voz escutada dentro da noite, conclui:
“Foi minha própria voz, fantástica e sonâmbula! Foi, na noite alucinada,/A voz do morto que cantou”.

No soneto XXVI (Quintana, 1989, p.21), a voz poética tenta se desvencilhar das suas almas penadas, que são os seus fantasmas interiores (“Saudade... amor... cantigas de ninar...”) e se transforma no seu “próprio Frankenstein”, “O belo monstro ingênuo e sem memória”.
Nas produções ulteriores de Quintana, a morte continua como um dos temas centrais, chegando até a ser evocada no título do último livro publicado em vida pelo poeta, Velório sem Defunto (1990). Nesse livro, cujo título apela para o non-sense, os poemas, dispostos em linhas verticais, compõem uma diagramação ideal para se ler, conforme disse o poeta em dedicatória, como um defunto, deitado. O defunto ausente do livro é, como sugere o poema que dá título à antologia, a inquietude de quem nunca se sacia, de quem se sente eternamente sem motivo algum, “Como alguém que estivesse comendo uma empada de camarão sem camarões/Num velório sem defunto” (Quintana, 1992, p.9).
Velório sem Defunto é aqui evocado porque esse livro é exemplar do tratamento que Quintana dispensa à morte, sobretudo a partir de Caderno H. Dela, por vezes, o poeta se acerca com um lirismo terno, singelo e leve, como em “Elegia” (Quintana, 1992, p.21):

“Esta noite eu sonhei que tinha morrido criança
E os que vieram ver o corpo do pobre menino
Apenas sentiram um cheiro evanescente de chocolate
E de balas de coco…
E uma colherinha morta no chão”.

Mas é sobretudo com humor que o poeta enfrenta a morte, como o atestam os poemas abaixo:

O VISITANTE

Aquele morto voltou para assistir à primeira reunião familiar
E retirou-se agradecido
Ao ver que seus saudosos parentes estavam falando em outras coisas (Quintana, 1992, p.19)

REFLEXÃO PARA O DIA DE FINADOS

Morrer, enfim, é realizar o sonho
que todas as crianças têm...
O motivo? Só elas sabem muito bem:
Fugir... fugir de casa (Quintana, 1992, p.53)

ESTRANHEZA

Os vivos e os mortos
Sempre tivemos uma coisa em comum
Não acreditamos uns nos outros... (Quintana, 1992, p.65)

Aparentemente gratuito, assinalado pelo tom prosaico e pela leveza, o humor de poemas como esses se afasta da ironia grave, do tom solene com que os simbolistas freqüentemente cantam a morte, sem contudo perder o poder desestabilizador e crítico que caracteriza o riso na boa literatura. É assim que, através de um riso descompromissado à primeira vista, o poeta dessacraliza, nos poemas acima e ao longo de sua produção, um dos maiores interditos da sociedade ocidental moderna: a morte.
A mudança no enfoque da morte é representativa da transformação da cosmovisão do poeta. Se em A Rua dos Catavento predomina uma visão suavemente melancólica, marcada por matizes crepusculares, em produções futuras são mais freqüentes um lirismo terno e feliz, uma alegria irreverente diante do viver. Isso não significa que o poeta passe a fazer uma arte reduplicadora do establishment, mas que ele, mesmo quando se volta contra valores sociais, morais ou estéticos, prefere o humor leve, o riso desmistificador, à ironia cáustica, que ele opte, ao representar este mundo que nos oprime pelo pesadume, pela leveza. Representativo dessa nova postura do poeta é o personagem Mister Wong, verdadeiro duplo do poeta:
Além do controlado Dr. Jekyll e do desrecalcado Mister Hyde, há também um chinês dentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll, muito compenetrado, é todo ouvidos e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na platéia... (Quintana, 1989, p.62)
Na atitude gratuita de Mister Wong, a ironia a uma sociedade pragmática que bane o riso gratuito. Na opção de Quintana por ser o Mister Wong em poesia, um encontro com um outro poeta do Rio Grande do Sul. Trata-se de Álvaro Moreyra, poeta cuja confluência com Quintana representa um verdadeiro encontro poético.

continua…
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Solange Fiuza Cardoso Yokozawa, doutorou-se em Letras, área de concentração Literatura Brasileira, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2000), realizou mestrado em Letras e Linguística, área de concentração Literatura Brasileira, na Universidade Federal de Goiás (1995) e graduou-se em Letras na Faculdade de Filosofia Cora Coralina (1991). É profesora da Universidade Federal de Goiás desde 2002, onde atua em nível de graduação e pós-graduação, mestrado e doutorado. Desenvolve estudos sobre poesia brasileira moderna e contemporânea. Coordena o projeto "Poesia brasileira contemporânea e tradição", financiado pela FAPEG. Desenvolve estágio pós-doutoral na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal, com projeto intitulado "Reconfigurações da poesa lírica em Cesário Verde e João Cabral". Entre várias outras publicações, é autora do livro "A memória lírica de Mario Quintana" e coorganizadora do livro "O legado moderno e a (dis)solução contemporânea".

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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