Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 28 de março de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 387)

 
 
Abel Fernandes
Valorize o que você tem agora

A gente só dá valor à infância,
quando ela já passou…
Quando ela ficou lá no fundo da memória…
E não há como voltar atrás!
Não há como tirar os pelos dos rostos…
O cansaço dos músculos e ossos…
O branco dos cabelos…
Paletós empoeirados…
Não há como vestir novamente
aquelas calças curtas até os joelhos…
Não há como voltar a correr pelos campos e prados…
E depois deitar-se na grama verde
e sonhar que é um Super-homem,
ou um Batman ou um Robin!
A gente só dá valor ao amor quando ele foi embora…
Quando a casa ficou silenciosa, como agora…
Quando não há mais aquela saudosa presença,
aqueles ruídos de panelas fumegando no fogão…
E aquelas batidas fortes no coração…
Quando não há mais aquele calor gostoso na cama,
vindo da mulher que a gente ama,
aquele cafezinho quentinho de manhã…
A gente só dá valor ao amor
quando a solidão veio sentar-se no sofá da sala,
e contar-nos lindas histórias de tempos antigos,
quando os minutos eram amigos,
e se alongavam, e se derramavam lentamente
em dias cheios de alegria,
e havia esperanças de melhores dias,
e o ar era impregnado de poesias,
e havia noites estreladas,
e a gente saia por aí andando por estradas de mãos dadas somente para contemplar o luar…
Quando a gente se aquietava para ouvir melodias…
A gente só dá valor à felicidade
quando o véu cinzento da tristeza
veio envolver a nossa alma,
e tudo é vazio e frio,
e o destino é um rio
que corre silencioso pelas noites
e os fantasmas rondam pela casa vazia
e a cama fica assim tão fria…
Portanto, amigo,
acaricie sua mulher enquanto ela está aí contigo,
dê-lhe presentes enquanto ela está presente…
Abrace-a enquanto ela está bem aí na sua frente…
Diga-lhe as palavras mais carinhosas
enquanto ela não se fez ausente!
E ande, corra, se movimente
enquanto seu corpo pode,
olhe as flores, as nuvens e as estrelas
enquanto seus olhos são capazes de vê-las…
Enfim amigo, vive a vida intensamente,
não deixe que o entusiasmo se ausente,
vive, amigo, vive agora o momento presente!
Vive amigo!
Enquanto a vida está aí contigo
E também comigo…
Agora!
__________________
Abel Fernandes é natural de Marília/SP (1945), radicado em São Paulo/SP. Filósofo, pintor, escritor, poeta e restaurador.


Uma Trova de Rio Branco do Sul/PR
Sara Furquim

Quanta surpresa causaste!
Não esperava tão cedo,
ser feliz por ver o engaste
de tua aliança em meu dedo.

Uma Trova de São Paulo/SP
Jaime Pina da Silveira

Quando a lembrança revolve
os baús da tenra idade
e o meu passado devolve,
eu faço um brinde à saudade.

Um Poema de São Paulo/SP
Humberto – Poeta

PREITO Á NATUREZA

 Ah… Natureza! Que cruel regime
 te impõe o homem, perdulário e ateu:
 agride fauna e flora, alheio ao crime
 de estragar o que Deus nos concedeu!

 O ar, o sol, o azul que esmalta o espaço,
 O homem faz réus de equívocos critérios;
 enche os céus desse trágico bagaço
 de pós mortais e gases deletérios!

 Quando se rouba à mata a ave inocente
 e polui-se a mercúrio a água dos rios,
 é nessas horas que o Senhor pressente
 o quanto somos maus e somos frios!

 Da árvore que estala, vindo ao chão,
 evola-se um lamento ao infinito,
 mas não o ouve o autor da infanda ação,
 pois só Deus é capaz de ouvir tal grito!

 Natureza: viemos de outras plagas
 pra crescer nos reencarnes sucessivos,
 mas te enchemos de pústulas e chagas,
 inda presos a instintos primitivos!

 Falhos que somos desde os cromossomos,
 de nós tirai, Senhor, machado e serra;
 lembrai-nos que, afinal, nada mais somos
 que meros forasteiros sobre a Terra!

Uma Trova Humorística de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

Meu sogro cheio de medo,
tenta a peruca esconder
e o que ele guarda em segredo
"tô" careca de saber!

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Thereza Costa Val

Teu retrato até rasguei
para fugir à verdade…
“Sem lembranças”… eu pensei,
mas ninguém rasga a saudade!


Um Poema de Porto Alegre/RS
Ialmar Pio Schneider

MENSAGEM AO POETA

Vai em frente, segue a estrada
sem muito esperar da glória;
vida simples, devotada…
Se alguém ouvir tua estória,
nostálgica e merencória,
canta sempre, até por nada !…

Faze como o passarinho
que saúda a natureza,
enquanto busca um raminho,
com afã e singeleza,
p’ra construir o seu ninho:
- maior prova de beleza.

Sejam teus versos cantigas
que a gente escuta na rua;
pobres canções, mas amigas
como as estrelas e a lua;
pois a terra será tua,
longe de dor e fadigas…

Não temas crítica austera
e nem te afastes do tema,
sempre alcança quem espera…
Prosseguir ! seja o teu lema
e verás a primavera
cingir-te com seu diadema !…

Uma Quadra Popular do Norte de Minas Gerais
Autor Anônimo

Limoeiro pequenino,
carregado de “fulô”,
eu também sou pequenino,
carregado de “amô”.

Uma Trova Hispânica da Espanha
María Oreto Martínez Sanchis

La familia es el consuelo
en amarguras y penas,
la alegría y el anhelo
que fraguan bellas cadenas.

Um Poema de Maringá/PR
José Roberto Balestra

A BARRAGEM

Há dias que tanto faz como tanto fez
Que a coisa fique cinza ou amarela
Feito alguma estupidez
Ou qualquer abanadela
De um doce adolescer

Hoje amanheci assim
Não troco uma Zepparella
Por um velho e bom Led Zeppelin
A vida é boa barbaridade

Melhor é ter um dente só
E andar pela cidade
Do que ficar logo banguela
Sem nenhuma bocatividade
Esperando quando a barragem romper…

Trovadores que deixaram Saudades
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN (1951 - 2013) Natal/RN+

Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca faz chover prantos
nos olhos dos nordestinos…

Uma Trova de São Paulo/SP
Selma Patti Spinelli

No refúgio desmanchamos,
quando ficamos a sós,
esses nós que carregamos
no fundo de todos nós!

Um Poema de Montes Claros/MG
Alfredo Marques Vianna de Góes

AD IMORTALITATEM

Sinto a saudade vã de recôndita era...
De um mundo onde, talvez, eu já vivi outrora.
E sei, por intuição que a morte não supera
A vida, que transcende o espaço e o tempo em fora...

A vida é como o tempo: uma emoção de espera...
Se acaso vem, depois da noite vem a aurora.
Se um ser morre, ressurge, alhures, noutra esfera...
E assim como expirou, renasce e revigora.

Então, noutro avatar, em nova natureza
Revive, ama e, no amor, realiza a humanidade.
E a vida continua além da flama acesa

Do milagre vital, da entidade criada,
Por ser eterno o ser, essência e atividade
Do próprio Deus que anima a gênese do Nada.

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Flávio Roberto Stefani

As pedras do meu caminho
vou transpondo-as com ardor,
e cada dia um trechinho
vira caminho de amor.

Um Haicai de Santa Juliana/MG


Um Poema de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Júnior

ORDEM POÉTICA
Pega a poesia, menino,
como se fosse uma cor,
como se fosse um balão,
como se fosse uma dor
que lhe dá no coração!...

Pega a poesia, rapaz,
como se fosse uma flor,
como se fosse um vagão,
como se fosse um amor
que se faz em compaixão!...

Pega a poesia, senhor,
como se fosse um destino,
como se fosse capaz,
como se fosse uma coisa
que lhe cabe na razão!
Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Elisabeth S. Cruz

Orgulho bobo… vaidade,
caprichos do amor sobejo…
Eu, morrendo de saudade,
fingir que nem te desejo!

Uma Quadra de Ganilhos-Aljubarrota/Portugal
José António Palma Rodrigues

Minha Escola, minha amiga,
tudo o que ensinaste outrora
é o elo com que me liga
a tudo o que sou agora.

Um Poema de Montes Claros/MG
Cândido Canela

SAUDADE

Saudade - recordação,
de tudo quanto ficou
bem fundo, no coração
do velho que muito amou.

Saudade - sorriso e dor,
pranto dos olhos que rola,
saudade - prece de amor
passado que nos consola.

Saudade - nosso presente,
relembrando os nossos fados,
saudade - sabor ardente
de antigos beijos trocados.

Saudade - luar de prata,
festivos saraus de outrora,
saudade - mulher ingrata,
que a gente reclama e chora.

Saudade - infância passada,
juventude que se foi.
terno canto à madrugada
de um velho carro-de-boi.

Saudade - perfume estranho
de uma flor já ressequida
entre as páginas de antanho
dos livros de nossa vida.

Saudade - corpo ainda leve,
risos abertos e francos,
saudade- flocos de neve
dos nossos cabelos brancos.

Saudades, enfim, são dores
da velhice, atroz , arfante,
ouvindo trovas de amores
da mocidade distante.

Uma Trova de Pouso Alegre/MG
Conceição de Assis

Desprezei tua amizade,
queria mais, muito mais!…
Hoje sou nau da saudade,
apodrecendo no cais.

Uma Glosa de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

Glosando Miguel Russowsky (Joaçaba/SC)

Mote:
O silêncio às vezes fala
de saudades - Quem diria...
quando a rede, a sós, se embala
numa varanda vazia!

Glosa:
O silêncio às vezes fala
tão audível que enternece
o meu coração; que cala
para ouvir a sua prece!

Ao encher o coração
de saudades - Quem diria...
aguço a minha audição
para ouvir sua eufonia!

A saudade, "quinem" bala,
me mata, pensando nela,
quando a rede, a sós, se embala
sem ter nós dois dentro dela!

Em silêncio, no meu peito
ouço a voz da ventania
embalando a rede..., e deito...
numa varanda vazia!

Um Poema de Sorocaba/SP
Dorothy Jansson Moretti

NOS TEUS SETENTA ANOS
(Ao Colégio “Amadeu Amaral”)*

Velha escola que todos nós amamos,
que envolves igualmente tanto afeto,
nesta imensa família que formamos,
és a extensão de nosso próprio teto.

A quantas gerações que aqui passaram
nesses tão longos anos de existência,
estas velhas paredes abrigaram,
iniciando-as às letras e à ciência!

Quanto riso infantil, por estas salas,
já rebentou em cascatas fluentes!
Quanto arrulharam nos beirais das alas
os teus eternos pombos inocentes!

Percorrendo os teus longos corredores,
e os degraus desgastados das escadas,
sinto a força dos meus antecessores,
nestas marcas que aqui foram deixadas.

E evocando essas sombras do passado,
invade-me uma doce fantasia...
Ah se o tempo que tudo desenrola,

fizesse alguém dizer de mim, um dia:
- Ela também lutou ao nosso lado...
Ela deixou seu rasto em nossa escola!

*Escola Amadeu Amaral, no bairro Belenzinho, em São Paulo/SP, prédio construído em 1909, tombado pelo patrimônio público. Poema feito em 1979.

Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Eolo Yberê Libera

A mão que me espera
traça o caminho da volta
abrindo janelas.

Uma Trova de São José dos Campos/SP
Amilton Maciel Monteiro

Eu li num velho alfarrábio
o que agora certifico:
– O rico nem sempre é sábio,
mas o sábio é sempre rico.

Um Poema de Montes Claros/MG
Geraldo Freire

RETORNO À MINHA ALEGRIA

Meus braços estão vazios do teu corpo...
Minh'alma está ausente da tua alma...
E aqui dentro tão frio,
Tão frio,
Que chego a tremer neste vazio!

Vem!
Há torrentes de lágrimas rolando
Pelos longos caminhos de minha solidão.
E há corvos grasnando
Nos misteriosos escaninhos do meu coração!

Vem ! Caminha!
E, em vindo, então,
Eu sentirei toda a pujança do meu verso..
Afastarei toda a angústia do Universo...
- No momento exato em que tu fores minha !

Recordando Velhas Canções
O caderninho
(jovem guarda, 1967)

Olmir Stocker

Eu queria ser o seu caderninho
Pra poder ficar juntinho de você
Inclusive na escola
eu iria com você entrar
E na volta juntinho ao seu corpo
eu iria ficar
E em casa então, você me abriria
Para me estudar, e se assustaria
Ao ver revelado em seu caderninho o meu rosto
Me olhando dizendo baixinho
Benzinho eu não posso viver longe você

Eu queria ser o seu caderninho
Pra poder ficar juntinho de você
Inclusive na escola
eu iria com você entrar
E na volta juntinho ao seu corpo
eu iria ficar
E em casa então, você me abriria
Para me estudar, e se assustaria
Ao ver revelado em seu caderninho o meu rosto
Me olhando dizendo baixinho
Benzinho eu não posso viver longe você
Longe você, longe você, longe você

Uma Trova de São Paulo/SP
Sérgio Ferreira

Tentar desfazer as mágoas
que o meu peito guarda e sente
é como querer que as águas
corram da foz… à vertente!

Um Poema de Santo Antonio do Monte/MG
Carlos Lúcio Gontijo

POEMA DO OUTRO

Sobre a linha dos horizontes
O meu poema liberto de palavras
Céu aberto em muitas pontes
Destino a que me doei enjanelado
Para renascer em corpo alado
Sob o ensolarado olhar do outro...

Um Haicai de São Paulo/SP
Eunice Arruda

Fiapos nos dentes
o rosto todo amarelo
É tempo de manga

Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Sérgio Bernardo

O leito, o sonho, a comida…
tudo entre nós partilhei.
Entretanto, a minha vida
foi inteira que eu te dei!

Um Poema de Ohio/Estados Unidos
Teresinka Pereira

DIA DA POESIA NO BRASIL
(14 de março)

O Brasil tem mais poetas
que qualquer outro país.
Há poetas que escrevem
POESIA
e poetas que fazem a poesia
virar asas de liberdade lírica
e flores de emoção.
Não importa o tempo
nem o desabrochar da idade:
a poesia sempre nos dá
um toque de vitória
e renascemos em cada primavera
como a roseira que murchou
no inverno passado.
Viva eternamente a POESIA!

Hinos de Cidades Brasileiras
Boqueirão do Leão/RS

Nos campos altos da serra
Lindas matas e bom chão,
Povo ordeiro e honesto
Cultivando a tradição.

É a terra do fumo,
Do milho e do pinhão,
E este lugar que vos falo
É o Boqueirão do Leão.

Chegando nesta cidade
Já se tem boa impressão,
Pinhais, açudes e rios
Livres de poluição.

Onde tem gaúchas bonitas,
Erva- mate e o chimarrão,
E este lugar que vos falo
É o Boqueirão do Leão.

Onde se cultiva o fumo,
O arroz e o feijão,
Onde se planta o milho
E a erva pro chimarrão.

Das matas sai a madeira
E ainda sobra o pinhão
E este lugar que vos falo
É o Boqueirão do Leão.

Falando um pouquinho dele
Me encho de emoção,
Quero voltar pra minha terra,
Quero voltar pro meu chão.

Quero encontrar meus amigos,
Quero encontrar meus irmãos
E este lugar que vos falo
É o Boqueirão do Leão.

Uma Trova de Caicó/RN
Djalma da Mota

Corta-se a mata nativa,
fica o campo a céu aberto…
É a força bruta nociva
na construção do deserto.

Um Poema de Montes Claros/M
João Valle Maurício

MUNDO VAZIO

Palavras vazias
Num mundo vazio.
Palavras
Clamando justiça,
Rogando perdão,
Chorando sem fé.

Palavras
Pedindo amor,
Esperando
Orando
Compreensão.

Palavras
Voando confusas;
Alucinadas
Em multidão.

Palavras vazias
Num mundo sem formas,
Sem perfume
Sem beleza,
Sem calor...

Mundo que segue
Sempre girando,
Sempre perdido
Eternamente envolvido,
Em nebulosa de dor.,

Palavras sem formas
Em todas as línguas
Em todas as bocas
Em todas as cores.

E os homens falando
Sempre falando.
E ninguém escutando.

O som das palavras
Não tem ressonância
É Babel de mensagens
Ganhando distância
Voando sem eco
Pelo mundo afora.

E os homens perdidos,
Sofridos,
Desesperados, angustiados,
Falando, sempre falando
E o mundo girando,
Sempre girando,
Sempre mais frio.

Palavras sem formas
Num mundo vazio!

Belo Horizonte em Trovas (Parte 2)

José Caram Elias Jaude
Voa, voa, ó andorinha
e vai em busca de alguém
entregar esta cartinha
e contar o que ela tem.

José Carlos Baeta
Tem cada igreja seus sinos,
cada sino tem um som;
soam às vezes como hinos,
e, muitas vezes, só um “bom”.

José Couri
É de me dar nostalgia
esse horizonte sem fim,
porque me lembra, Maria,
tua distância de mim…

† – José Chamone
Tenho irmãs freiras, por isto
não receio azares meus,
pois sendo esposas de Cristo,
eu sou cunhado de Deus.

† – José de Andrade e Silva
Eu sempre fui um escravo
de teus caprichos, querida;
mesmo julgando-me bravo,
fiz da prisão minha vida.

José de Assis
A caridade em ação
da grande obra Vicentina,
nos brota do coração…
Ó que dádiva divina.

† – José de Oliveira Fonseca
A velhice é fim de estrada…
à sua espera, um segredo;
para trás, só fica o nada
e, na frente, mora o medo!!!

José Lara
Graças ao nosso minério,
nossas matas, nossas fontes
serão logo um cemitério…
Adeus, meu belo horizonte!

José Lourenço
A saudade sempre é vida,
por mais que doa na gente.
recordar um Bem, querida,
é vivê-lo novamente.

José Lucas Filho
Pensei que o tempo esfriasse
a chama do amor de outrora,
mas vejo um sol que renasce
a cada romper da aurora…

José Octávio de Brito Capanema
E tomando verbo e brilho,
aprumado, já em cena,
falando, na voz do filho,
emocionado ele acena.

José Osvaldo de Souza
Não mudou a minha sina,
em tantos anos a fio:
acordo e sigo a rotina
dum horizonte sombrio.

† – José Valeriano Rodrigues
Onde a saudade é nascida,
minha saudade a revê.
quando vejo a despedida
dos outros, – penso em você.

Jupyra de Oliveira Vasconcelos e Almeida
Sua carta custou tanto,
foi tanto tempo a passar
que a saudade, ao ver meu pranto,
também se pôs a chorar.

Juraceí Barros Gomes
Do cruzeiro da cidade,
onde todos nós brincamos,
só ficou muita saudade
da infância que lá deixamos.

Laércio Andrade Pedroso
É o pensamento que insiste
na verdade que não nego;
A perfeição só existe
dentro dos olhos de um cego.

Laura Aparecida da Silva
Foi pensando na alegria,
que Deus nos criou a flor,
dando-lhe muita harmonia,
alegria, paz e amor.

Leila Míccolis
Esse perfume- gostoso
que de muito longe vem,
tão delicado e amoroso,
só pode ser do meu bem.

Leolina de Oliveira Mendonça
Fiz trovas para matar
saudades do trovador,
que me deixando a chorar,
não pensou na minha dor.

† – Libânio Rodrigues
Trabalhador incansável
nem tempo tem pra cuspir.
Inda consegue, notável,
Trovas fazer, sem dormir.

Lígia Maria de Rezende
“Ama e faze o que quiseres”
dizia Santo Agostinho
porque -puro em seus misteres-
traça o amor reto caminho!

Lucília Cândida Sobrinho
Sedução é como o vinho:
– inebria de repente,
mas fica sempre o gostinho
da conquista inconsequente.

Lucy Moreira da Silva Rodrigues
Saber bem envelhecer
pode ser arte ou virtude.
Difícil deixar de ter
saudades da juventude.

Luiz Carlos Abritta
O que conta nessa vida
não é tempo, nem idade,
mas a procura renhida
da deusa felicidade.

Lygia Britto de Souza
Quando eu sinto o vento arfando
teus cachos em mil novelos,
penso em teu gesto afagando
as mechas dos meus cabelos.

Lygia Gomes de Pádua
Concebo na trova o encanto
porque nela encontro o amor.
percebo sob o seu manto
quanto é bom ser trovador.

Marcos Nogueira da Gama
Toda fortuna que é obtida
sem trabalho e sem amor,
traz desenganos na vida,
faz do rico um sofredor.

Maria Anita Guimarães
Amor é forma constante
de conservar a união,
mais aumenta, se distante,
de perto…mais emoção.

Maria Auxiliadora de Carvalho e Lago
A maior sabedoria
dispensa toda ciência:
é aprender com Maria
fé, amor e paciência.

Maria Auxiliadora Galinari Nascimento
(Dodora Galinari)
Como prova de me amar,
Deus achou uma solução:
– foi letra de MÃE gravar
na palma de minha mão.

† – Maria Bicalho Parreiras Randt
Na mentira tanto tempo,
nosso falso amor viveu,
por isso no contratempo,
não resistindo, morreu.

Maria Carmem de Castro Amorim Ximenes de Souza
O Encontro dos Trovadores
vindo de outras paragens,
carrega muitos valores
em suas ricas bagagens.

Maria da Conceição Vieira de Almeida
Para enganar o meu pranto,
conto histórias, canto a dor
e me abrigo no acalanto
dos versos do meu amor.

Maria da Costa Lage
Este mistério de outono
vem me envolvendo, mansinho…
Velhice é como abandono
do amor que se foi do ninho.

Maria da Cruz Pereira Nunes
Pro Calvário foi Jesus,
levando a Cruz, grande dor!
dia sombrio e sem luz…
morreu Jesus por amor.

† – Maria Dolores Paixão Lopes
Lola de Oliveira
Um raio de sol, que a medo,
a vidraça atravessou,
desvendou nosso segredo…
o amor que a noite ocultou…

Maria Edna da Silva Lopes
Como é bom rever amigos
e pôr a conversa em dia,
lembrar dos tempos antigos
no reencontro da alegria.

Maria Eneida Nogueira Guimarães
Só através da aparência,
nunca se pode escolher,
pois a verdadeira essência
é difícil de se ver.

Maria Lúcia de Godoy Pereira
Uma palavra bem dita
é como seta certeira:
a sua ação infinita,
vale uma sentença inteira.

Maria Natalina Jardim de Almeida
Por um filho, amor tão doce
nutre a mãe em demasia,
se um cento de filhos fosse
pelos cem dividiria.

Maria Odete Souto Pereira
Foste chuva de verão,
benfazeja e passageira;
mas teu abraço, esse não,
me aquecerá a vida inteira.

Marleide Canedo de Oliveira
A vida nos leva sonho,
nos devolve outros também;
de todos os que transponho,
só o amor supera o bem.

Marlene Duarte de Sá
As nuvens brancas de arminho,
no céu puro cor de anil,
se movem devagarinho
desenhando seu perfil.

Marleide Leite
O egoismo que nos cega
não traz nenhuma emoção.
Quem na vida o amor sonega,
põe ódio no coração.

Marta Anael de Moura Magalhães
O amor é pura atitude
que assumimos livremente,
um terno olhar de virtude
faz amar eternamente.

Mercês Maria Moreira
No céu do meu coração,
teu amor é sol de outono,
aquecendo a solidão
do meu profundo abandono.

Napoleão Ferreira de Macedo e Melo
Antigo Curral del-Rei,
depois, Cidade Jardim…
Hoje, poluída, nem sei
como chamar-te, por fim!

† – Nilo Aparecida Pinto
Sonhei com a Virgem Maria
- no céu, num trono de flores,
- Nossa Senhora aplaudia
- o canto dos Trovadores.

Olga Salomão de Francoubt
Vento, não batas à porta,
pois isso não fica bem…
penso ser minha Maria,
vou abrir, não é ninguém.

Olímpio da Cruz Simões Coutinho
Não quero melhor abrigo
do que no teu coração,
onde o nosso amor antigo
desconhece a ingratidão.

† – Paulo de Tarso Costábile
Declina o sol e aparece
o colorido horizonte!
Roga-se em serena prece
que um novo dia desponte.

Paulo Emílio Pinto
Mais bebo, mais me angustio,
tamanha é a dor que me invade.
-Sou planta de beira-rio
numa enchente de saudade.

Relva do Egypto Rezende Silveira
Das mãos de Deus vai caindo,
em forma de chuva mansa,
a bênção da água…e espargindo
as sementes da esperança.

Renato Passos
O médico, grande artista,
na arte de poder curar,
tem que ser malabarista,
pra sua morte driblar.

Rosa de Souza Soares
Sabe porque só me resta
debruçar-me na janela?
É porque o melhor da festa
é mesmo esperar por ela.

Sidnéia Nunes Guimarães
E Deus nos trouxe a verdade:
-nascimento de Jesus…
Sua própria eternidade
trouxe ao mundo paz e luz.

Sílvia de Lourdes Araújo Motta
Três filhos são lindos laços,
do meu amor sem medida,
para todos, dou abraços
e bênçãos por toda a vida.

Stella da Costa César
Amor de ternura feito
numa noite enluarada…
Por um nada foi desfeito,
numa fria madrugada.

Terezinha Raposo Cosenza
Minha cidade é uma fonte,
de pureza cristalina,
onde a visão do horizonte,
é um sonho que não declina.

Theolina Vilela
Quantas vezes o palhaço
com sorriso de alegria
disfarçando seu fracasso,
ganha o pão de cada dia.

Thereza Costa Val
(Maria Therezinha Costa Val Araújo)
Quando a noite silencia,
a saudade chega, intensa
e ocupa a casa vazia
onde, outrora, eras presença.

Vicente de Paula Viotti
Auto-estima é natural,
mas se demais, é vaidade,
sendo evidente sinal
de oculta mediocridade.

† – Virgílio G.Assunção
Das prendas do coração
só a saudade- destoa:
nas outras mora o perdão
e a saudade não perdoa.

Yvonne Grossi
Escreve-me e manda flores,
poesias, constantemente,
como entender seus amores
se a presença é tão ausente?

Waldemar Pequeno
Há uma luz que me alumia,
uma luz que o céu não tem,
nem de noite e nem de dia;
-a dos olhos do meu bem.

Wanda de Paula Mourthé
Brilho, sombra, e agora o breu:
– roteiro de vida a dois…
Amor fugaz que morreu
sem a chance de um depois.

Wilma de Paula (Peixoto) Lana
Vem caindo devagar,
boa chuva e é de verão.
Eu me ponho a divagar:
se volto com ele ou não.

† – Zélia Barros Alencar
Janelas mais indiscretas
que as dos teus olhos, não vi:
revelam coisas secretas,
sempre falando por ti.

Zeni de Barros Lana
As flores que tu me atiras,
com falsidade sem fim,
são pedras, pois são mentiras
que doem dentro de mim.

† – Zenília Paixão
As suas mãos enrugadas
às minhas se entrelaçaram,
lembrando emoções passadas
que em nossas almas ficaram.

Ziláh Ávila Castro
Tua presença me traz
sempre esta mesma emoção;
jogando assim, para trás,
tristezas que lá se vão.

† – Zilda Novais
Caminhando passo a passo,
entre sonhos me embalei,
mas passo a passo desfaço
todos sonhos que sonhei.

Fonte:
Seleção por Silvia Motta
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J.B. Xavier
Cunhaporã - Uma história de amor

III
QUANDO CHEGA O AMOR

E luas à  frente daquela orgia,
Ouviu-se na aldeia, já ao fim do dia
O ruído abafado de um calmo tropel.
E entrou pela taba, pasma, assustada,
Cansado e exausto de tal cavalgada,
Garboso guerreiro e seu belo corcel.

O espanto nos olhos tornou evidente
O susto que havia nos índios valentes,
Enquanto o corcel relinchava cansado.
Olhavam o homem que o controlava.
Seguro de si, o animal comandava.
Jamais tinham visto um  índio montado.

“Quem sois? Que quereis?” - disse um, afobado.

“Eu sou Nhuamã , a chuva dos prados.
Procuro abrigo, e por certo o encontrei.”

“O Oyakã  não  está , pois foram  à caça.
Mas ocas não faltam, repousa a carcaça,
Que à  noite, ao fogo, vos acordarei.”

E à noite, então os homens sentaram
Em volta do lume e seus casos contaram.
E após todos terem seus casos contado,
Saiu o cacique de onde sentara.
Rompendo a noite com voz forte e clara,
Chamou o estranho que estava ao seu lado.

“Estranho, quem sois?” - bradou Ygarussú.
“Me dizem que vindes dos prados do sul...”

A taba calou em silêncio, agoniada.

“Abrigo vos peço  até  amanhã .
Sou Chuva dos Prados. Eu sou Nhuamã,
Cansado de luas de extensa jornada...”

“Sois vós Nhuamã , o cacique charrua,
Que monta o Vento nas noites de lua,
Que os prados cultuam, de todos temido?
Sois vós Nhuamã , o leal combatente,
Que a todos ampara, gentil e valente,
Que em guerras ainda jamais foi vencido?”

“Assim o dissestes, Grande Ygarussú !”

“Sois vós de quem falam os cantos do sul
trazendo-me os feitos heróicos e ternos?
E tuas mãos de veludo que afagam a flor,
São as mesmas que tocam os hinos de amor,
E as mesmas capazes de ir aos infernos?”

“Sois vós que hoje vem à minha aldeia,
Que a fama de bravo meu sangue incendeia,
E que afoito já quer partir amanhã ?
Sois vós que aqui vem pedindo-me abrigo?
Sois vós, que, afinal, terei por amigo?”

“Sim, Grande Chefe, eu sou Nhuamã !”

E disse o oyakã, erguendo seus braços:

“Olhai este homem e seus fortes traços,
Do qual sua força não quero aferir.
Olhai para quem a derrota esqueceu,
E que considero agora irmão meu.
Seu canto de guerra queremos ouvir!”

Com gestos seguros, nos ermos da noite,
Com voz trovejante, tal qual um açoite,
Cantou o seu canto o Grande Nhuamã.
Seus olhos, no entanto, do meio da arena,
Pousaram no olhar da suave morena,
Corando as faces de Cunhaporã.
*  *  *
“Eu venho de longe, de terras distantes.
Dos prados dourados,
Dos campos dobrados,
E tenho por taba os espaços gigantes.

Eu venho de longe, das terras da Lua,
Da grama molhada,
Do Sol, da geada,
E trago o orgulho de ser um charrua.

Lamento os mortos, doentes, feridos,
Nas guerras cruentas,
Batalhas sangrentas,
Mas muito me ufano de ter um amigo.

Não busco a morte, o estertor, a ferida,
Nos campos de guerra.
O que em mim se encerra
É  a busca dos risos felizes da vida,

Os arcos trocamos por ávidas danças,
Cantigas e hinos.
E nossos meninos
Crescem felizes, eternas crianças.

Caçamos o potro selvagem nas serras,
Veloz como o vento.
Mas somos a um tempo
Amados na paz e temidos nas guerras.

Nós sempre nos pampas buscamos ficar”
 - Falou Nhuamã -
“O próprio Tupã
Nos deu essa terra de belo luar...

Que vento é  esse que sopra uivante
Ano após ano?
É  o Minuano,
soprando a vida  instante a instante.

Guerreiros valentes lutei e venci
Em nome da paz.
Meu corpo ainda traz
Medonhas lembranças que nunca esqueci.

Ali  uma flecha, aqui uma lança, ali
O branco atirou.
Nhuamã, eis quem sou!
E apesar dos perigos, encontro-me aqui.

Caçando feliz ou lutando nas guerras
Em mil estertores,
Eu busco os amores
De olhos bonitos, em longínquas terras.

Tupã  me guiou por caminhos escuros
Que  Jassy iluminou.
E eis que aqui estou
Em meio à floresta de ares tão puros.

Se amo os espaços, que faço na selva
E nela me embrenho?
Tupis! aqui venho
Deixando as mais lindas coxilhas de relva.

Um dia, num lago, surgiu-me Yara
À luz de Jassy.
E então me senti
Possuído de amor nessa noite tão clara...

‘Tua amada te aguarda’ - Yara dissera.
‘Cavalga p’ro norte.
E cuidado com a Morte
Que em flecha ligeira decerto te espera.’

Quem é minha amada. senhora das águas?
Indaguei ansioso.
‘Não sê curioso,
Que junto com o amor te esperam as mágoas.’

Seu nome ao menos não podes dizer?
Insisti desafiante.
‘Ah! os amantes!
Por que tão mais cedo preferem sofrer?’

E o nome eu ouvi dos lábios serenos
Da deusa do lago.
Um nome que trago
Queimando-me a alma qual doces venenos.

Meu braço me ampara, senhora. Observe.”

E a flecha voou
E no alvo pousou.

‘Na selva teu braço de nada te serve.’

‘A selva é escura’ - falou com voz fria -
‘E em certos locais,
Apesar dos demais,
A treva até  mesmo a Jassy desafia!

Parte, guerreiro, e cuidado com  a súcia
Do grande arvoredo!
Não tema ter medo!
Na selva, guerreiro, o que vale é a astúcia.’

Confie em mim, minha deusa e senhora,
Farei minha sorte
Até  mesmo com a morte!”

‘Cavalga, guerreiro, e parte agora!’

E, pois, eis-me aqui na solene aldeia
Dos bravos Tupis.
Os povos mais vis
Venci ! E eis-me aqui junto à vossa  candeia.

Lutei nas florestas, calquei sob os pés
Guerreiros valentes,
Comedores de gente,
caigangues, xavantes e os vis aimorés.

Feliz, meu regresso trará  mais vitórias
Ao meu amanhã.
Eu sou Nhuamã,
De futuro feliz e passado de glórias!”
*  *  *
Suspensas no ar as palavras ficaram
Ecoando em todos os que as escutaram,
Criando mil sonhos de amor, de perigos.
Guerreiros e velhos - gentil comunhão -
Deitaram seus arcos e flechas no chão:
Mudo sinal de que eram amigos.

E bradou Ygarussú:

“Honras as tabas dos Grandes Tupis!
Se Yara é quem quis
Findar tua procura,
Aqui tu serás,
Aqui viverás
Contente e feliz.
Se, porém, desejares
Os outros lugares
Que conheces tão bem,
apraz-me dizer:
Os Tupis, teus amigos,
Quebrarão as lanças
Dos teus inimigos.
Nada temas.
Nada e ninguém!
E quem, meu amigo,
foi a escolhida?
Por quem tu lutaste
P’rá haver-te aqui?
Que moças desejas
Daquelas adiante?”

Os olhos, num instante,
Do ansioso Nhuamã ,
Pousaram brilhantes,
Sorridentes,
Nos olhos ternos,
No olhar desafiante,
Nos lábios, no corpo,
No belo semblante
Daquela que um dia
Esposa seria
Do Grande Oyakã.
E chispas partiram
Do olhar febril
Da tupi e do charrua,
Brilhando luminosos
Mais claros que a lua.

Ygarussú percebeu
Os olhares tão ternos,
E o terrível instante
O levou aos infernos.

Restava saber
Se era ela a escolhida.
Se assim fosse, o ousado
Pagaria com a vida!
* * *
Vocabulário:
Nhuamã = Garoa, chuva fina.

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Folclore Brasileiro
Cabra Cabriola

A Cabra Cabriola é um ser imaginário da mitologia infantil portuguesa, mas também surge no resto da península Ibérica, foi depois levada para o Brasil pelos portugueses. A Cabra Cabriola é a personificação do medo, um animal em forma de cabra, um animal frequentemente de aspecto monstruoso comedor de crianças, um papa-meninos. No século XIX a Cabra Cabriola era tema de uma canção de embalar:

    "Cabra cabriola
    Corre montes e vales,
    Corre meninos a pares
    Também te comerá a ti
    Se cá chegares"

Considerada mais temida que o Lobisomem e a Mula-sem-Cabeça, que são mitos vindos de fora há muito mais tempo, a Cabra Cabriola, logo se tornaria o consolo das mães, já que não precisavam se esforçar muito para fazerem seus filhos tomarem o rumo da cama logo cedo. Para os pequenos era o maior pesadelo.
São muitos e faz parte da tradição regular, os contos populares em que figura a Cabra Cabriola em ação. Os testemunhos de época logo se tornavam valiosos meios para as mães colocarem na linha seus filhos travessos, ou malcriados.
Era uma Bicho que deixava qualquer menino arrepiado só de ouvir falar. Soltava fogo e fumaça pelos olhos, nariz e boca. Atacava quem andasse pelas ruas desertas às sextas a noite. Mas, o pior era que a Cabriola entrava nas casas, pelo telhado ou porta, à procura de meninos malcriados e travessos, e cantava mais ou menos assim, quando ia chegando:

Eu sou a Cabra Cabriola
Que como meninos aos pares
Também comerei a vós
Uns carochinhos de nada...

As crianças não podiam sair de perto das mães, ao escutarem qualquer ruído estranho perto da casa. Podia ser qualquer outro bicho, ou então a Cabriola, assim era bom não arriscar. Astuta como uma Raposa e fétida como um bode, assim era ela. Em casa de menino obediente, bom para a mãe, que não mijasse na cama e não fosse traquino, a Cabra Cabriola, não passava nem perto.
Quando no silêncio da noite, alguma criança chorava, diziam que a Cabriola estava devorando algum malcriado. O melhor nessa hora, era rezar o Padre Nosso e fazer o Sinal da Cruz

Nomes comuns:
Cabra Cabriola, Cabriola, Papão de Meninos, Bicho Papão, etc.

Origem Provável:
O mito do Bicho papão que ataca as crianças travessas, é bem antigo e remonta ao tempo da Idade Média na Europa. Na América Central, o Gulén Gulén Bo, é um negro que também assusta e come as crianças mal comportadas, e tem as mesmas características da nossa Cabriola.
No Brasil, deriva-se de um mito afro-brasileiro, onde acreditava-se tratar-se de um duende maligno que tomava a forma de uma cabra. Costumava atacar as mães quando estavam amamentando, bebiam seu leite direto nos seus seios, e depois devoravam as crianças. Além de Pernambuco, foram encontradas versões deste mito nos estados do Ceará e Pará.
A Cabra Cabriola no Piauí e Pernambuco data dos século XIX e XX.
A figura da Cabra Cabriola, também é mencionada na Espanha e Portugal. Possivelmente veio para o Brasil no tempo da colonização, e com a urbanização das cidades, ganhou fôlego.

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Seção Nada de Versos
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Lino Mendes
Baú de Memórias: A Páscoa em Portugal

Embora nesses tempos (1920/1930) a religiosidade fosse maior entre as nossas gentes, pois para assistir a Missa ou mesmo rezar o terço muitos eram os que vinham dos arredores (do campo). A quadra da PÁSCOA já tinha ultrapassado as fronteiras do religioso, pois a crentes e não crentes se ouvia logo de manhã (domingo) o desejo de uma “Boa Páscoa. ”Como em todo o lado a Quaresma começava à “Quarta-Feira de Cinzas” o que não impedia que nesse mesmo dia se realizasse o “Enterro do Santo Entrudo”que viria a ser proibido de maneira brutal aí por 1950, e terminava no Sábado de Aleluia pelas 10 horas quando os sinos repicavam na torre da Igreja enquanto a garotada, batendo as “ matracas “diziam” Aleluia, Aleluia, Cristo Ressuscitou”.
Mais tarde começaram a dizer “Aleluia, Aleluia, Bacalhau” para a rua. É que de uma maneira geral a população respeitava o jejum não comendo carne no dia de sexta-feira. Nos meios-dias santos,— de quinta feira ao meio-dia a sexta feira à mesma hora –não se trabalhava, não  se mexia em terra, e às 15 horas dessa mesma sexta-feira, em casa ou no trabalho, respeitava-se um minuto de silêncio.
Ainda durante a “Quaresma” e também mais ou menos até aos anos 50, mais concretamente na terceira quarta-feira tinha lugar a “Serração das Velhas”.
Diga-se, entretanto, que a PÁSCOA tem lugar no 1º domingo depois da Lua Cheia que ocorra no dia ou depois do dia 21 de Março. É uma festa móvel que ocorre 47 dias depois da “Quarta-feira de Cinzas”.
A “Semana Santa”, durante a qual decorrem as cerimônias relativas às várias fases do processo que leva à crucificação, tem início no domingo anterior (Domingo de Ramos), que simboliza a entrada de Jesus em Jerusalém, e durante o qual são benzidos os “ramos de palmeira”.
PÁSCOA é tempo de festa, que se no aspecto religioso difere de terra para terra, o mesmo acontece no campo do lúdico, mas com a simbologia a não ter fronteiras. O “ovo” (símbolo do nascimento), o “folar”, as “amêndoas”, o pão e o vinho”(que representam a última ceia do Senhor), o “círio” (a grande vela que se acende na aleluia) são entre outros , símbolos que marcam esta quadra.
Curiosamente, e sem que saibamos o por quê, em Montargil não são ramos de palmeira que se benzem mas sim de alecrim e de oliveira que são depois colocados em cruzes de cana, nas hortas e nas cearas. Havia até quem colocasse duas cruzes, uma voltada para a outra.
Entretanto, décadas atrás (1920/1930) era por aqui tradição que ao domingo de Páscoa os pastores viessem dos campos à vila para comprar as amêndoas. É certo que o dinheiro era pouco, mas as amêndoas (de massa de centeio) eram baratas e vendiam -se ao preço de dois tostões a meia-quarta. Aliás, houve tempo em que nesta “quadra” se andava pela rua “rifando” pacotes de amêndoas—era o “Caçurras”, embora este não saísse da porta da taberna, era o “Rabanita” e era o “Perneta” e se calhar outros que agora não recorda. A cada jogador ( teriam que ser entre 3  a 9 e por um tostão eram dadas três cartas de um baralho de que se retiravam as figuras ganhando aquele que tivesse a carta com mais pintas.
Outro costume que também desapareceu, era o do “enganchar”. Rapariga com rapaz ou rapariga com rapariga, enganchando dedo mindinho com dedo mindinho diziam “enganchar, enganchar, para na quaresma fazer rezar”, e quem no domingo de Páscoa se deixasse enganar, isto é, se deixasse fazer rezar primeiro ,—apontava-se e  dizia-se Reza –lá tinha que dar o “folar”, que normalmente era um pacote de amêndoas . Mais tarde e ao enganchar já se dizia, ”enganchar, enganchar, para na Páscoa fazer rezar”.
Os que ” enganchavam” ficavam “compadres” (Compadres da Páscoa),e  o “folar” constava sempre de amêndoas, mas no caso das raparigas estas ofereciam sempre mais qualquer coisa como por exemplo uma “gravata”, um “lenço” ou um “colarinho”que nesse tempo era desligado da  camisa. Claro que havia sempre retribuição daquele que fazia “rezar”.
Nalguns pontos do país também é dado o nome de “folar” a um bolo que se faz por esta altura (e não só, creio) mas  foi hábito que por aqui não se enraizou. No entanto, aí pelos anos 1945/50, o Mestre Alfredo, um verdadeiro artista na arte de padeiro, fazia um “folar” da  massa das “arrufadas”, que como se sabe é um  bolo pouco doce. De formato circular, levava ao centro um ovo e cruzando sobre o mesmo duas “asas” como as das cestas e naturalmente da mesma massa. Era então cozido no forno a lenha o que como se sabe lhe dava outro sabor.
Quanto à gastronomia, a ementa era a canja de galinha ou de peru (este em casas mais endinheiradas), e as ditas aves assadas no forno a lenha (que lhe dava um outro sabor). À quinta e/ou  à sexta feira santa (dias em que não se comia carne) o bem tradicional arroz com castanhas. No que respeita a doces, as afamadas tigeladas, e os doces de amêndoa (os queijinhos e as tortas). Mas também nos falaram no chibo e no borrego assados (mas em fornos a lenha) havendo ainda quem nos fale, para o almoço, da sopa de pé de porco .
Durante muitos anos, a “Procissão dos Passos” que merecia uma enorme adesão, realizava-se no “Domingo de Ramos” para não coincidir com a que aqui ao lado se realizava em Cabeção. Durante a mesma, que percorria a Rua do Comércio e a Rua da Misericórdia, estava assinalada a “Via Sacra”sendo cada uma das 14 “estações” marcada por um altar, que determinava uma paragem do cortejo, sendo então entoado um cântico alusivo ao acontecimento, com acompanhamento de algum instrumental— Contrabaixo (Chico Lourenço), Trompete (José Arlindo) e Clarinete (Fouchinha) enquanto o maestro Alves do Carmo emprestava a voz. O  Sermão do Encontro”  tinha lugar ou frente à Travessa dos Combatentes com o orador na varanda do Pailó (já numa segunda fase) ou então  frente ao Moura (com o orador na varanda da casa deste). Era um momento emotivo, que sensibilizava mesmo os não crentes..
O “ Baile da Pinha” realizava-se no domingo anterior à Páscoa.
E na segunda-feira (de Páscoa) embora fosse dia de trabalho, era costume  ir-se  em grupos fazer “piqueniques” no campo, pelo que muitos nesse dia tomavam uma “empreitada” para poderem ir para a festa.
Domingo de Páscoa era altura em se realizavam muitos batizados, mas em  tempos mais remotos  era Domingo de Pascoela  a data escolhida , chegando a ser 45 no mesmo dia

Fonte: O Autor

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Solange Fiuza Cardoso Yokozawa
Presença simbolista em Mario Quintana (Parte IV, final)

Intimamente ligado a esse gosto quintaneano, e modernista, por desentranhar o ritmo poético a partir do “bulício cotidiano”, e com ele concorrendo para afastar a musicalidade simples de Canções da música sublime dos simbolistas, está a preferência do lírico gaúcho por buscar, no ritmo que pulsa na literatura popular, a musicalidade de sua poesia, de modo a fazer com que o diálogo com as “formas simples”, que se faz tanto no nível temático quanto no nível sonoro, se afirme como uma das evidências desse livro e como um dos traços característicos de toda a poética quintaneana. Na “Canção de junto do berço” (Quintana, 1989, p. 39), ressoa a sonoridade do acalanto. O ritmo das advinhas compõe a “Canção de domingo” (Quintana, 1989, p.39). Em “Canção de muito longe” (Quintana, 1989, p.49), o poeta encontra, na cantiga da infância “A canoa virou”, o foco musical desencadeador da recordação poética. “Canção do meio do mundo”, poema que, figurando na primeira edição de Canções, foi posteriormente substituído por “Pequena crônica policial” e passou a integrar os sonetos de A Rua dos Cataventos (soneto XXIV, 1989, p.19-20), recria o ritmo da conhecida “Ciranda cirandinha”. Além dessas intertextualizações particulares, há o aproveitamento freqüente que Quintana faz do verso heptassílabo e da quadra, respectivamente o metro e a estrofação mais comuns da literatura popular.
Em um balanço das tendências simbolistas observadas em A Rua dos Cataventos e Canções, pode-se destacar as notações íntimas, a musicalidade e a preferência pelo traço misterioso, onírico, mágico na representação dos “objetos” como as principais convenções simbolistas que vão persistir nos quintanares, assimiladas às necessidades individuais do poeta.
Em se tratando das notações íntimas, são elas que, ao lado do humor, vão dar o tom dominante dos  quintanares e fazer com que eles, mesmo quando vazados em prosa, não percam a emoção poética. Se o humor impede que o intimismo em Quintana resvale para o derramamento dos românticos ou para a poesia pura dos simbolistas, o lirismo íntimo desvia o seu humor do poema-piada, da paródia combativa da vanguarda de 22.
A musicalidade, encontrando em Canções a sua realização máxima, persiste nas demais produções de Quintana, fazendo-se sentir inclusive nos poemas em prosa. A ênfase que o poeta coloca nos elementos sonoros da poesia define a musicalidade como um dos principais traços caracterizadores de sua poética e faz de sua lírica uma das mais musicais da poesia brasileira. Tendo em Verlaine o seu modelo de realização musical, Quintana, ao encontrar na língua de todo dia, com seus clichês, seu ritmo irregular, suas formas populares, o ritmo de onde desentranha sua melodia e sua harmonia, afasta-se da sonoridade sublime dos simbolistas.
A preferência quintaneana por recriar insolitamente a realidade, de modo a desentranhar-lhe a magia, filia-se à fixação simbolista pela sugestão e pelo mistério. Mas enquanto os simbolistas buscavam o mistério contido em formas vagas, indefiníveis, etéreas, Quintana, aproveitando e levando adiante a preferência modernista por poetizar o cotidiano, opta por descobrir o mistério da vida cotidiana, ou melhor, por banhar esta realidade de todo dia numa intensa irrealidade, numa forma onírica, sobrenatural e lúdica. Como teoriza Quintana em sua poética, “a poesia é um sintoma do sobrenatural” (1994, p.158), mas, como o poeta adverte, “o mistério está aqui” (1994, p.180). Emblemático desse procedimento quintaneano é o livro Apontamentos de História Sobrenatural. Para um leitor que não tenha familiaridade com a poesia de Quintana, com o insólito dos títulos de seus livros, a simples leitura desse título poderia criar a expectativa de que a matéria do livro é o sobre-humano, o extraterreno. Essa expectativa se desfaz ante a leitura dos primeiros poemas, que revelam que a realidade recriada não é outra que essa que se desenrola diante dos olhos do leitor. E este se indaga: --Mas onde está o sobrenatural do livro? É então que ele descobre que o sobrenatural, do livro e da vida, está é aqui, nesta realidade de todo dia.

 Referências bibliográficas

ADORNO, T. Notas de literatura I. Trad. Jorge M. B. de Almeida. São Paulo: Duas Cidades, Ed. 34, 2003.
ANDRADE, Mário de. A escrava que não é Isaura: discurso sobre algumas tendências da poesia modernista. In: ______. Obra imatura. São Paulo: Livraria Martins /s.d./.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 19. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1991.
BALAKIAN, Anna. O Simbolismo. Trad. José Bonifácio A Caldas. São Paulo: Perspectiva, 1985.
FISCHER, Luís Agusto. Um passado pela frente: poesia gaúcha ontem e hoje. 2.ed. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1998.
MOREYRA, Álvaro. Casa desmoronada. Porto Alegre: /s.n./ 1909.
______. Circo. Porto Alegre: IEL, 1989.
NEJAR, Carlos. As palavras, as reticências, os mistérios. Zero Hora, Porto Alegre, 30 jul. 1994. Segundo Caderno, p. 5.
QUINTANA, Mario. A vaca e o hipogrifo. 4. ed. Porto Alegre: L&PM, 1983.
______. Caderno H. Porto Alegre: Globo, 1994.
______. Da preguiça como método de trabalho. Rio de Janeiro: Globo, 1987.
______. Poesias. 8. ed. São Paulo: Globo, 1989.
______. Velório sem defunto. 2. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992.
SCHÜLER, Donaldo. A poesia no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
VERLAINE, Paul. Oevres poétique completes. Paris: Gallimard, Bibliothèque de la Plêiade, 1968.
WILSON, Edmund. O castelo de Axel: estudo sobre a literatura imaginativa de 1870 a 1930. Trad. José Paulo Paes. 2.ed. São Paulo: Cia das Letras, 2004.
ZILBERMAN, Regina. A literatura no Rio Grande do Sul. 3.ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992.

Fonte:
Literatura : caminhos e descaminhos em perspectiva / organizadores Enivalda Nunes Freitas e Souza, Eduardo José Tollendal, Luiz Carlos Travaglia. - Uberlândia, EDUFU, 2006. CD-Rom
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Solange Fiuza Cardoso Yokozawa, doutorou-se em Letras, área de concentração Literatura Brasileira, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2000), realizou mestrado em Letras e Linguística, área de concentração Literatura Brasileira, na Universidade Federal de Goiás (1995) e graduou-se em Letras na Faculdade de Filosofia Cora Coralina (1991). É profesora da Universidade Federal de Goiás desde 2002, onde atua em nível de graduação e pós-graduação, mestrado e doutorado. Desenvolve estudos sobre poesia brasileira moderna e contemporânea. Coordena o projeto "Poesia brasileira contemporânea e tradição", financiado pela FAPEG. Desenvolve estágio pós-doutoral na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Portugal, com projeto intitulado "Reconfigurações da poesa lírica em Cesário Verde e João Cabral". Entre várias outras publicações, é autora do livro "A memória lírica de Mario Quintana" e coorganizadora do livro "O legado moderno e a (dis)solução contemporânea".

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Isabel Furini
Conselhos para Novos Escritores

Escritores iniciantes são como sementes jogadas em um jardim. Quais crescerão? Isso ninguém sabe. Quem será o autor iniciante hoje, mas reconhecido em 2030 ou 2045?
O caminho do escritor é, como dizia, Hemingway, um caminho solitário. O escritor é individualista, precisa de introspecção para encontrar sua própria voz, mas também precisa ser curioso, pesquisar, percorrer rotas externas.
Solicitei a escritores, editores e poetas, conselhos para os iniciantes. Claudio Daniel, poeta, jornalista e doutorando em Literatura Portuguesa pela USP, só disse o seguinte: “meu conselho é leitura, leitura, leitura, leitura e leitura”.
Uma visão semelhante é a do escritor e também professor universitário Miguel Sanches Neto: “Que nunca deixem de ler muita literatura, pois não há outro caminho para a construção de um estilo, de uma voz, de uma visão do mundo, do que lendo a literatura que nos antecedeu. Escrever deve ser sempre um subproduto da leitura, uma forma de unir nosso nome a uma tradição, nem que seja negando-a”.
Plínio Martins, escritor e diretor da Edusp, disse: “Leia. Leia muito. Quanto mais uma pessoa lê, melhor ela domina sua linguagem e torna-se capaz de transmitir melhor suas próprias ideias. É importante também ter cuidado ao analisar sua própria produção criticamente. Vale a pena pedir opinião de terceiros ou até mesmo um parecer de outros autores que já tenham publicado obras similares”.
Paulo Tadeu, jornalista, dono da editora Matrix e escritor de livros infantis: “Meu conselho é escrever sobre o que se gosta, e ler muito. Esse amor pela palavra escrita vai gerar frutos uma hora ou outra”.
Patrícia Vence Castilla, dona a editora Ruínas Circulares, de Buenos Aires deu algumas sugestões: “Leitura, muitíssima leitura contemporânea de autores consagrados de cada país. Capacitação. Aproximar-se das oficinas literárias que contam com bons coordenadores, de preferência escritores, porque penso que nenhum artista ― escultor, artista plástico, ator etc. ― jamais duvidaria em procurar um mestre para ser orientado no ofício escolhido. Então, para escrever bem, a primeira coisa a fazer, segundo o meu critério, seria capacitar-se”.
Para o escritor e jornalista José Castello “Toda grande ficção precisa despertar, antes de tudo, um sentimento de estranheza. Aquela sensação que nos leva a dizer: ‘Nunca li uma coisa assim!’, ou ‘De onde esse autor tirou isso?’. A literatura é o terreno do singular. Sempre que alguma coisa se repete, nos decepcionamos um pouco. Portanto, não dá para dizer que isso, ou aquilo, me impressiona mais. Eu me impressiono mais com o susto, o espanto de encontrar uma coisa que eu não pensava que pudesse existir”.
Outros profissionais da área do livro assinalaram caminhos diferentes. Isso me fez lembrar das palavras de Borges, que falou que sempre havia lido, nunca existiu uma época em que ele não lesse. E não falava só de livros, logicamente, mas de realizar uma leitura do mundo. O bebê lê alegria ou a tristeza no rosto materno. Crianças aprendem a ler a linguagem dos olhares e dos gestos. Escutei dizer que o jovem fala o que vive e os velhos vivem do que falam, fabulam, renovam biografias, enfim, reestruturam o passado para manter uma autoimagem positiva.
Alguns entrevistados falaram um pouco desse caminho de descobertas. Perguntei ao jornalista e escritor, autor de Meu nome não é Johnny, Guilherme Fiúza, quais conselhos poderia dar para os novos escritores que desejam escrever biografias. Ele respondeu: “Acho que não tenho autoridade para tal. De qualquer forma, arriscaria dizer a eles que tão importante quanto a vida do biografado é o olhar do autor sobre ela”.
Já Wanderlino Teixeira, escritor e poeta, membro da Academia Niteroiense de Letras, aconselhou: “estar atentos ao que os rodeia, não se fiem apenas na inspiração. Escrever é trabalho de carpintaria”.
Roberto Araújo, do Conselho editorial da Editora Europa, deu sua visão: “Livros não surgem por mágica. O conteúdo, que é sempre o que efetivamente interessa, tem que ser trabalhado cuidadosamente na cabeça do autor. O conselho mais prático que posso dar é que um livro é sempre fruto de um trabalho disciplinado. Algumas horas por dia devem ser separadas exclusivamente para este trabalho. E repetidos todos os dias. A verdade é que a concentração sempre demora. Para ela chegar ao ponto é necessário reler os capítulos anteriores, refletir sobre a nova cena, elaborá-la na cabeça e então partir para a escrita. Não há regras rígidas, já que este é um trabalho artístico, mas eu tenho a forte convicção que sem disciplina não é possível escolher com sabedoria as milhares de palavras que compõem um livro. Também acho inútil o uso de álcool ou qualquer tipo de droga. Com a consciência alterada, as palavras parecem ter uma força que não será compreendido por mais ninguém a não ser o autor. Se a intenção for publicar, o trabalho fica todo perdido. O certo é que é preciso garra e determinação. Nada está acima em termos de realização intelectual do que escrever e publicar um livro. É um esforço que vale a pena”.
Depois escutamos os conselhos de Reinaldo Polito, autor de livros de oratória que já venderam mais de 1.000.000 de exemplares: “Minha sugestão, portanto, aos jovens escritores é que estudem muito bem essa arte. Aprendam os pilares básicos de como escrever livros. Comecem publicando textos menores em blogs e sites. Abram suas obras para a crítica de amigos, conhecidos e até desconhecidos. Aprendam que é melhor receber críticas antes de publicar definitivamente seus livros. Saibam que depois de publicados os livros não lhe pertencerão mais. Serão de propriedade dos leitores. Conheço pessoas que escreveram sem se preocupar com pesquisas, sem se aprofundar nos temas que abordaram, sem analisar as características de suas personagens. Foram tão criticadas que se sentiram desestimuladas a continuar. Escrever é uma arte que se aprende fazendo. Quanto mais a pessoa escrever mais competente se tornará. Tem de saber também que depois que o livro estiver pronto não será fácil publicar, que depois de publicado também não será fácil vender. Entretanto, o prazer de escrever irá compensar todos esses desafios. Vale a pena”.
Quando a jornalista Luana Gabriela me pediu “dicas” para os novos escritores eu fiquei pensando que é muito mais fácil perguntar do que responder, mas falei:
Escrever um livro é uma tarefa empolgante. Se for de ficção, o autor deve desenvolver o enredo passo a passo, alguns mestres do oriente falam que qualquer arte deve ser iniciada com cuidado, com leveza, como quem caminha pisando sobre papel de arroz. Acontece que o caminho do escritor é longo ― e não é tão charmoso como as pessoas pensam. Escrever é um trabalho solitário. Então, a primeira dica é ter disciplina, escrever diariamente, ainda que seja uma página. E no mínimo uma vez na semana reler as páginas escritas procurando aprimorar o texto. Outra “dica” é estar sempre atento aos detalhes, caminhar pela rua, ouvir as pessoas. Observar gestos, atitudes, comportamentos e tomar notas daquilo que foi mais interessante. E depois, ao escrever um conto, um romance, analisar se algumas dessas notas podem servir para completar a construção de nossos personagens ou do cenário. Escrever é também aprimorar a leitura do mundo.

Fonte: A Autora

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Mais Concursos com Inscrições Abertas

XIV Concurso de Trovas do CTS/UBT CAICÓ-RN  2015

Prazo: 30 de junho de 2015

Tema Estadual (apenas residentes no Rio Grande do Norte): SOMBRA
        Coordenador: Wellington Freitas
        Rua: Renato Dantas, 33 - Caicó-RN
        CEP: 59300-000

Tema Nacional e Internacional para Língua Portuguesa: SEIVA

Tema para "Novos Trovadores": "SEIVA”

        Coordenador: Djalma Alves da Mota
        Rua: José Eustáquio, 1330 - Bairro Paraíba-Caicó-RN
        CEP: 59300-000

Tema para Língua Española: MAR (virtual)
        Coordenadoras: Gislaine Canales e Cristina Oliveira Chaves.

Prazo para recebimento: 30.06.2015.

UMA TROVA por autor em todos os níveis.
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XXXV Concurso de Trovas da ATRN 2015
Prazo: 30 de junho de 2015.

TROVAS LÍRICAS E FILOSÓFICAS

CONCURSO NACIONAL
Tema: ANOITECER,

coordenador José Lucas de Barros,
Travessa Alda Ramalho Pereira, 1010, Tirol,
Natal/RN, CEP 59014-602.

CONCURSO ESTADUAL –
Tema: RELÍQUIA,

coordenador Flávio Roberto Stefani,
Rua Otto Niemeyer, 2460,
CEP 91910-001, Porto Alegre RS.

CONCURSO PARA SÓCIOS CORRESPONDENTES –
Tema: BRINQUEDO,

coordenador Hélio Pedro Souza,
rua Cel. Luciano Saldanha, 1740, bairro Capim Macio,
Natal/RN, CEP 59078-390.

CONCURSO PARA SÓCIOS EFETIVOS –
Tema: LADEIRA,

coordenador Mílton Souza, rua João Paris, 211,
Porto Alegre/RS, CEP 91160-440.

                                   NORMAS ESPECIAIS:

a)   2 (duas) trovas inéditas, por concorrente, para cada tema;

b)   Prazo para chegada das trovas: 30 de junho 2015;

c)   Sistema de envelopes;

d)   Endereçar as trovas aos coordenadores de cada concurso, colocando como remetente ADEMAR MACEDO;

e)   Admite-se o uso de cognatos para todos os temas.

José Lucas de Barros,
Presidente da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte.
Pirangi/Parnamirim/RN, 8 de março de 2015.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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