Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 5 de abril de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 391)


Eliana Ruiz Jimenez
O Trovador

O poeta é detentor de uma sensibilidade aguçada e tem a necessidade de compartilhar a sua visão emocional e os seus sentimentos com as outras pessoas, transformando essas impressões em versos, que podem ser livres, ou em formatos predeterminados, como na trova, por exemplo.
Os versos livres costumam surgir de repente e arrebatam o poeta onde ele estiver. É preciso segurar a ideia, transpô-la imediatamente para o papel antes que o sopro inspirador se dilua e as palavras se percam.
Já a trova é a expressão poética trabalhada. De formato rígido, requer métrica e rimas, além da expressão de um pensamento completo em quatro versos, sendo que o último arremata a reflexão com um grande final.
Habilidoso, o trovador precisa adequar o querer dizer na precisão das sete sílabas tônicas e ainda provocar no leitor a empatia com a saudade sentida, com o coração partido e – por que não dizer? – com as reminiscências que cada um traz consigo.
Audacioso, o trovador elabora a trova com sofisticação, procurando justapor as palavras num encaixe cuidadoso, observando tanto a forma como a sonoridade, procurando a rima inédita, notável. Vale pensar, refazer, pois o que importa é o resultado perfeito.
A trova é, portanto, a ideia sintetizada, a comunicação imediata, que pode trazer tanto um pensamento filosófico como a sabedoria da experiência, o humor ou o lirismo.
Quando finalmente pronta, a trova é como o filho criado, independente, que percorre o mundo levando a mensagem de seu criador.
Nesse oceano de trovas brilhantes, os trovadores são amigos fraternos que, embalados pela mesma inspiração poética, vão compartilhando a vida nos versos, falem eles das dores sentidas ou das alegrias da jornada.
No dia 18 de julho, data de nascimento de Luiz Otávio, responsável pela consolidação do movimento trovadoresco no Brasil, é comemorado o dia do trovador, data em que todos os poetas e admiradores dessa bela e requintada expressão poética relembram o saudoso e querido amigo, principalmente com a leitura de suas belas trovas, tão contemporâneas, que nos deixam a certeza de um homem que viveu à frente de seu tempo e que assim escrevia:

Meus sentimentos diversos
prendo em poemas pequenos.
Quem na vida deixa versos,
parece que morre menos.

Pelo tamanho não deves
medir valor de ninguém;
sendo quatro versos breves,
como a trova nos faz bem!
___________________________
            Eliana Ruiz Jimenez, nasceu em São Paulo, Capital, e reside em Balneário Camboriú desde 2001. Tem formação em Letras e em Direito. Ligada a entidades de proteção ao meio ambiente. Presidente da Comissão de Meio Ambiente e Urbanismo da OAB e secretária do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Balneário Camboriú/SC. Escritora de crônicas, contos, poemas livres, trovas, haicais e literatura infantojuvenil. Membro da Academia de Letras de Balneário Camboriú e União Brasileira dos Trovadores.

Uma Trova de Maringá/PR
Jeanette De Cnop

Se sofres, poeta, canta,
que essa cantiga, aonde for,
consola, embala, acalanta,
quem vive pobre de amor!

Uma Trova de São Paulo/SP
Domitilla Borges Beltrame

Eu ergo a taça a brindar
a noite que o quarto invade
e, no cristal do luar,
bebo o vinho da saudade!

Um Poema de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla

SE EU TE CONTAR…

Desta secreta paixão
que em meu peito já não cabe,
falo a Deus em confissão,
mas eu sei que Ele já sabe!

Se eu te contar, Senhor, quanto padeço
por este amor, que quero e que abomino,
concluirás, eu sei, que não mereço
a triste sorte que me dá o destino.

Se eu te contar, Senhor, que desconheço
– e por não ver razão eu me amofino -
por que pagar, meu Deus, tão alto preço
sem merecer o Teu perdão divino?

Se eu te contar, Senhor, minha tortura
quando alguém diz que o tempo tudo cura,
se ao pensar nisso mais me desiludo…

Tu terás pena desta condenada
se eu te contar… Mas não direi mais nada.
Por que contar, Senhor?… Sabes de tudo!

Uma Trova Humorística de Salvador/BA
Hildemar Araújo Costa

Jogador de muita raça,
o compadre Zé Nozinho,
ele fazia trapaça,
mesmo jogando sozinho.

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

Na união que nos alcança,
não há nada que destrua
a verdadeira aliança
que é minha mão sobre a tua!

Um Poema de Fortaleza/CE
Nemésio Prata

POR FALAR EM QUEDA..

Neste final de semana,
na rua, andando, não vi
uma casca de banana:
nela escorreguei..., caí!

Coisa de velho uma ova!
Queda não escolhe idade,
e disso posso dar prova:
veja que fatalidade!

Caí, quando era menino,
de mangueira e cajueiro;
por sorte quis o destino
jamais caí de coqueiro!

Caí, quando era rapaz,
quando corria na praça,
e a turma que vinha atrás
mangou da minha desgraça!

Caí, quando era homem feito,
em casa, no meu quintal;
nessa não teve outro jeito:
fui direto pro Hospital!

Vejam que para cair
basta que o sujeito esteja
em pé, e um escorregão
ou topada, logo enseja
uma queda desastrada,
que pode não dar em nada
mas pode ser malfazeja!

Agora vou falar da
queda que foi a maior
queda que caí na vida,
um quedaço em lá menor;
até hoje estou caído,
com o coração moído
de amor... o que é melhor!

Esta queda, já se vê,
foi uma queda de amor,
decorrente de "escorrego"
que dei numa linda flor -
menina, que me jogou
em seus braços e ainda estou
com ela... e nem senti dor!

Uma Quadra Popular
Autor Anônimo

Essas meninas d’agora
que só sabem namorar,
botam panela no fogo
e não sabem temperar.

Uma Trova Hispânica da França
Carlos Imaz Alcaide

No morir es bien sencillo
pues basta con no nacer,
deja de ser un chiquillo
sabes que debes ¡Crecer!

Um Poema de Catanduva/SP
Ógui Lourenço Mauri

LUGAR-COMUM

Tristeza é lugar-comum
para quem ama à distância
e não vê jeito nenhum
de mudar tal circunstância.

Na tela do pensamento,
passa-me o mesmo cenário
que neste exato momento
cobre teu imaginário.

Jamais te neguei o mérito
do amor que deste pra mim
nas delícias de um pretérito
que não vai tão longe assim.

Também sei que tu não negas
minha "queda" por teus braços.
Eu sempre te quis às cegas,
apesar dos embaraços.

Se agora sofres sozinha,
o mesmo ocorre comigo.
A saudade não é só minha,
sinto-a, de longe, contigo.

Trovadores que deixaram Saudades
José Maria Machado de Araújo
Vila Nova de Famalicão/ Portugal (1922 – 2004) Rio de Janeiro/RJ

Grita no velório, a Helena,
perdendo o oitavo marido:
- É o destino que envenena
as setas do meu cupido!

Uma Trova de Fortaleza/CE
Leda Costa Lima

Tecendo os sonhos mais belos,
pisando estrelas, cogito:
- nossos rumos paralelos
se hão de encontrar no infinito!

Um Poema de Saquarema/RJ
João Costa

A TRISTEZA DO POETA
Parece-me que todo poeta é triste.
É o que percebo nos versos que leio,
onde a dor é a temática que insiste,
servindo o tempo todo de recheio.

Por que no coração do poeta existe
esse sombrio estado de alma em meio
a um mundo meigo e lindo? Em que consiste
esse mistério, a causa desse enleio?

Tristeza, desencanto, nostalgia...
Como pode o universo da Poesia
conter esses sombrios sentimentos?

Talvez seja para os versos brotarem
mais belos, mais sublimes e encantarem
a vida e o mundo, em todos os momentos!
Uma Trova de Fortaleza/CE
César Coelho

Navegando em rumo incerto
nos mares da solidão,
eu encontrei rumo certo
no cais do teu coração.

Um Sonetilho de São Simão/SP
Thalma Tavares

SONETILHO XX
(Da Fidelidade)

Este perdão que me negas
por “um nada” que eu te fiz,
é mais um cravo que pregas
na cruz de um peito infeliz.

Se alguma mágoa carregas,
magoar-te, eu juro, não quis.
E o desamor que tu alegas
o teu olhar contradiz.

Eu sei que sou pecador,
mas nunca tive outro amor
senão o amor que te dei…

Sempre fui teu e em verdade,
para mim, fidelidade
mais que virtude, é uma lei!…

Um Haicai de Bauru/SP
 
Um Poema de Ohio/Estados Unidos
Teresinka Pereira

POEMA PELO DIA MUNDIAL DO POETA

A poesia está no Universo
como matéria viva
de nosso pensamento,
em intimidade subversiva
com o destino de cada poeta.
A poesia é o cultivo
da esperança, do tempo
que nos permite estar
acima da terra.
A poesia nos faz ouvir sua lírica
diariamente, gota a gota,
para que a essência da vida
não emudeça em nenhum céu.

Uma Trova de Niterói/RJ
Antonio Bispo dos Santos

Esta saudade atrevida
garimpa os dias risonhos
e na peneira da vida,
deixa cascalhos de sonhos!...

Um Poema de São José dos Campos/SP
Amilton Maciel Monteiro

ÁGUA

Abençoada linfa que sacia
A sede natural das criaturas,
Não falte nunca em nosso dia a dia
Nas suas fontes mil que a jorram puras!

Reconhecendo a sua cortesia,
Não iremos manchar o que depuras;
Jamais seremos causa de avaria
Ao bem que a todos nós só traz venturas!

Aos jovens prometemos ensiná-los
Que sejam sempre, sempre seus vassalos
Em uso altamente consciencioso.

E assim os homens, plantas e animais,
Nosso planeta, enfim, terá jamais
Um final triste, por demais sequioso!

Uma Trova de São Paulo/SP
Lila Ricciardi Fontes

Sobre o entulho de cascalho,
dos garimpeiros tristonhos,
desliza o choro do orvalho,
pelo fracasso dos sonhos.

Uma Grinalda de Trovas, de Santa Juliana/MG
Dáguima Verônica

Analisa a própria crença,
vê a beleza da flor,
sente seu perfume e pensa:
– A minha essência é o amor.

A minha essência é o amor,
meu viver não tem descrença,
tendo Deus como Senhor,
Ele faz a diferença!

Ele faz a diferença,
é campeão de valor;
com AMOR faço presença,
eu sou afeto e calor!

Eu sou afeto e calor
e traço a minha sentença:
- No meu mundo não tem dor,
isso eu herdei de nascença.

A minha essência é o amor,
ele faz a diferença!
Eu sou afeto e calor,
isso eu herdei de nascença.

Um Soneto de Porto Alegre/SP
Ialmar Pio Schneider

SONETO A UMA MUSA

Tento ainda escrever mas, tristemente,
meu coração soluça e não esquece
a musa que enfatiza a minha prece
e sinto que estou mal, estou doente.

Por que será que foste a grande ausente
na vida do poeta que padece,
(oh! fada que percorres minha messe)
e me fazes sofrer inutilmente?!...

No entanto, minha velha companheira,
eu te levo comigo na desdita,
e há de ser a esperança derradeira

de seguir versejando amargas penas,
porque em sonhos te vejo tão bonita,
e pra mim tal conforto basta, apenas...

Um Haicai de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

Lar do joão-de-barro
destruído na queimada.
Colheita de prantos.

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Alves da Silva

Meu tempo tornou-se esparso…
Por mais que eu tente retê-lo,
nem com tintura eu disfarço
as cinzas do meu cabelo.

Um Poema de Poços de Caldas/MG
Laércio Borsato

POÇOS DE CALDAS

Poços de Caldas, cidade querida!
Em minha vida, jamais te esqueci.
Às vezes ausentando, querida cidade,
A dor da saudade faz-me voltar a ti!

És um paraíso, cidade das flores!
Fonte dos amores: Que recordação!
Formoso recanto onde os namorados,
Vivem embalados em doce ilusão!

São tuas paisagens de vales, serranias;
Quão saudáveis e frias as brisas matinais!
Poços de Caldas, esplendor da natureza...
Fonte de riqueza de Minas Gerais!

Terra hospitaleira de águas sulfurosas..
Cidade das rosas de sutilezas mil!
És a estância sempre preferida,
A mais conhecida, em todo o Brasil!

Recordando Velhas Canções
Pára Pedro
(rancheira, 1967)

João Mendes e José Portela Delavy

Era um baile lá na serra na fazenda da ramada
Foi por lá que um tal de Pedro se chegou de madrugada
Só escutei um zum-zum mas não sabia de nada
Só ouvia a mulher gritando este Pedro é uma parada

(Pára Pedro, Pedro pára, pára, Pedro, Pedro pára
Pedro para, para Pedro pára Pedro, Pedro pára)
Era o Pedro lá num canto beliscando a namorada

Quando foi lá pelas tantas que a farra estava animada
Apagaram o lampião e a bagunça foi formada
As véias se revoltaram Pedroca não é de nada
E o Pedro brigou com as véias e deu uma peleia danada

(Pára Pedro, Pedro pára, pára, Pedro, Pedro pára
Pedro para, para Pedro pára Pedro, Pedro pára)
Fazia cosca nas véia e as véia davam risada

Pedro foi dançar um xote com uma véia apaixonada
Surgiu o velho da véia e a coisa foi complicada
Pedro correu pelos fundos e entrou numa porta errada
E as moças levaram um susto e gritavam desesperadas

(Pára Pedro, Pedro pára, pára, Pedro, Pedro pára
Pedro para, para Pedro pára Pedro, Pedro pára)
Velha grudada no Pedro e velho no Pedro agarrado

Uma Trova de Bueno Brandão/MG
Élzio Barbosa de Alencar

Carro de boi a gemer
no cascalho do caminho,
me faz, triste, reviver
minha infância sem carinho.

Um Poema de Balneário Camboriú/SC
Pedro Du Bois

INFINITO

Penso o infinito
e bato a face
contra a porta. Distâncias
castigam por me saber perto.
Portas invadem domínios
cortados em salas e quartos.
O infinito dispensa o fato
de não acontecer ao acaso.

Um Haicai de São Paulo/SP
Hazel de São Francisco

Fartura de Verão
no ciclo da Natureza
escassez de Inverno.
Uma Trova de Jaguari/RS
Antonio Araújo Boeira

Há muito tempo que eu ando
colhendo rosas e espinhos,
já tenho meus pés sangrando
no cascalho dos caminhos.

Uma Glosa Poética de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Junior

MEUS CANTEIROS (Nº I)

Glosa:
Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade

(Trecho da letra de Canteiros, canção de Fagner, inspirada no poema A marcha, de Cecília Meireles)
Quando penso em você,penso em mim mesmo,
pois nada sou, meu bem,
que um poeta a esmo.

Fecho os olhos de saudade,que a saudade é o vento
que me faz ter mais idade
que, no rosto, aparento.

Tenho tido muita coisa,mas as coisas não são gente,
são apenas a tão doida
impressão de que preenchem
toda falta que atordoa.

De tudo que já tive,de todos que não tenho,
sei que alguém revive
e surge quando desenho
meus canteiros, triste,
e tudo quero de verdade,
menos a felicidade.
Hinos de Cidades Brasileiras
Uiraúna/PB

Uiraúna cidade altaneira
Onde reina o progresso e o amor
Os seus filhos coesos proclamam
E se ufanam por este primor.

Salve, salve Uiraúna querida
Nobre terra bendito brasão
É a luz que ilumina o horizonte
E o menestrel de uma viva canção.

Foi no dia 2 de dezembro
Que ela então se tornou independente
Revestindo-se de honra e glória
Graças pois ao valor de sua gente.

Uiraúna não será mais escrava
Sua gente batalhou e venceu
Hoje vive num clima de paz
Sua gente sempre mereceu.

Neste dia tão maravilhoso
Não podia deixar de cantar
Irmanados num só sentimento
Ao Uiraúna querida, saudar.

Uma Trova de Belém/PA
Antonio Juraci Siqueira

Quem tem o coração limpo,
sem cascalhos de rancor,
guarda no peito um garimpo
pleno em pepitas de amor!

Um Poema de Belo Horizonte/MG
Clevane Pessoa

AMOR TRANSCENDENTAL

Dificuldades espiraladas,
impedimentos, nãos,
quantos obstáculos interpostos
à beleza de um amor eternal!
Machucaduras de outrem
deviam sobrepor-se à sua ternura,
mas todas as barreiras ,
todas as diferenças,
apontadas, impostas ,
desmancharam-se qual papel de seda
nas águas de suas intenções.
Ficaram firmes, mesmo afastados.
A distância não diminuía seu bem,
as lembranças derradeiras
faziam-se jubilosas
quais se fossem as primeiras.
Olor no ar: abriram-se os botões de rosas,
pareciam em debut todas as roseiras.
A paixão era forte e leda,
para aqueles jovens conformados
mas esperançosos em sua procura
por dias mais ditosos.
Outrora, quantos casais eram separados,
por causa de diferenças sociais,
barreiras de cor, de religiões,
quando podavam seus desejos!
Escreviam-se, às escondidas,
sentiam a presença do ser amado
, quase ouviam seus sussurros
nas longas noites de espera...
Ele, uma doença tropical
encurtou a estadia aqui na Terra.
Chega a noticia, quando ela seria obrigada
a casar-se com alguém determinado pelos pais.
Fica noiva e todos os linhos bordados
são de lágrimas molhados,
ou pintalgados do sangue dos dedos picados,
tão trêmula e triste andava...
Então,exausta, adoece.
Cada rosa do amor antigo, mais floresce.
Febril, sente o doce beijo ardente
de quem sequer beijara.
Esvai-se em saudade.
Vai-se antes do tempo redimensionado.
E ao chegar à outra dimensão,
encontra à sua espera o bem amado,
ela, o ser que ele mais amava...
E no abraço de espíritos
sentem o amor consagrado
perenal e transcendente,
muito maior que suas vidas
aqui na terra não juntas construídas,
E entendem que não existe a morte
para um amor desse quilate!

Ouvem a música angelical.
sabem-se parte de um plano
mais amplo , belo, transcendental.
Felizes por completo,afinal!



A expressão dos sentimentos,
no  compasso da canção,
transfigura  os movimentos
em magia e sedução.

Amor, senhor da utopia;
Tempo, senhor da razão.
Mas, nessa eterna porfia,
sempre vence o coração.

Ao soltar pipa, a criança
desata as peias do sonho
e acende a luz da esperança
para um futuro risonho.

Coração duro, fechado,
prenhe de angústia e rancor,
constrói cárcere privado
com grades feitas de dor.

Coração, vê se te aquieta
não bebas desse pecado,
cuidado, que ele é poeta...
não fiques apaixonado!

Da minha terra encantada
eu guardo a estação mais bela,
o canto da passarada
e os meus sonhos de janela!

Deixaste sobre o deserto
pegadas de tua andança;
o vento virá, por certo,
dissipar qualquer lembrança.

Desafiando a ciência,
superando meus fracassos
eu quebrei o elo da ausência
só para ter-te em meus braços!

Desde as janelas de outrora
ao mais novo monitor,
da noite ao romper da aurora,
corremos atrás do amor.

Destemida, aventureira,
meu destino é caminhar;
Não tem ponte nem porteira
que eu não possa atravessar.

Deus, o Artista, se revela
e sua obra prima alcança
na amizade mais singela,
no abraço de uma criança.

Dois amigos, um caminho...
Uma história de amizade;
num contexto de carinho
constrói-se a felicidade.

Duas taças, dois amantes,
roupas jogadas no chão...
Velhos lustres, tremulantes,
testemunhas da paixão.

Em pensamentos risonhos,
naveguei pelos espaços
numa gôndola de sonhos,
feliz cativa em teus braços!

Enfrento o escuro da noite
singrando os mares da lida
e a solidão, feito açoite,
me lança aos braços da vida.

Entre a multidão imensa,
eu vejo pelas calçadas,
solidão e indiferença
caminhando de mãos dadas.

É setembro! É Primavera!
Deus, o artista das mudanças,
em seu ofício se esmera
para alegrar as crianças.

Eu perco o chão dos meus pés
num rodopio em teus braços!...
Em degradê ou viés
o amor vai tecendo laços.

Farol altivo que guia
o meu barco,  a navegar,
rasgue o véu da nostalgia,
faça o meu amor voltar!

Folhas migradas de outono,
tais quais meus sonhos trincados,
vagam pelo chão, sem sono,
à demanda de outros prados...

Gerando empregos, divisas,
a floresta exuberante
move o mundo das pesquisas,
dá vida a cada habitante.

Jamais se perde o contato
de um lar se, sobre a mobília,
existe um porta-retrato,
que imortaliza a família.

Jorra a luz feito cascata,
pelas mãos do Criador,
quando a lua, Eros de prata,
abre a janela do amor.

Mãos que se irmanam nas lidas,
dos irmãos sanando os ais,
embora não parecidas,
pelo amor tornam-se iguais.

Meu amor, não me abandone
que as lembranças me devassam
e eu passo as horas insone
nessas horas que não passam...

Meu verso é barco largado
na pauta da inspiração;
tendo Deus sempre ao meu lado
não temo nem furacão!

Na corda bamba da vida,
eu  venci! O meu segredo?
Foi, sob a  pressão da lida,
derrotar meu próprio medo.

Não desista ante empecilhos
que o segredo é acreditar;
quem corre a favor dos trilhos,
cedo ou tarde há de chegar!

Não recue ante a fileira
de tantas portas fechadas,
que a persistência é a bandeira
que as tornam escancaradas!

Não se compra, tendo em vista
que não se vende alegria;
felicidade é conquista
que se faz no dia a dia.

Não se quede ante as mazelas,
seja terno e pertinaz,
que  caminhos são janelas
que conduzem  para a paz.

Não teme, nunca, o amanhã
quem toma a nobre atitude
de guardar na alma anciã
os sonhos da juventude!

Nas mãos ungidas por Deus,
repousa o Espírito Santo
mostrando, a crentes e ateus,
que é tempo de um novo encanto.

Na tarde que se desfaz
borda, o sol, rendas no mar
com linhas de amor e paz
para o meu sonho enfeitar.

No emaranhado das linhas,
pelo avesso desta lida,
descobri, nas entrelinhas,
Deus bordando o chão da vida.

Noiva mineira exigente,
do tipo que não debanda,
traz o noivo na corrente
só para mostrar que manda!

No silêncio do meu grito
ouço a voz da solidão...
Nos meus versos deixo escrito
como está meu coração.

Nos vagões de um mesmo Trem,
por sobre trilhos em flor,
sou peregrina do além,
sou mensageira do Amor!

Numa rede um sonho a dois
sob as cores do arrebol:
— Fazer amor e depois
deleitar-se à luz do sol.

O céu pinta de esperança
o cenário da injustiça:
- Meu  Brasil, desde criança,
explorado por cobiça.

O meu tema preferido
 é trovar minha saudade,
dessa forma faz sentido
minha “ausência” na cidade.

O passado e seus escombros
de preces que a Deus eu fiz.
Um vazio sobre os ombros
dos sonhos que Ele não quis.

Pedi a Deus, tanto, tanto
que a resposta Ele me lança:
– A saudade enxuga o pranto
no grosso véu da esperança!

Poluição, violência e medo...
O Planeta pede aliança:
desenhe um sol no rochedo,
acenda a luz da esperança!

Prego o bem por onde passo,
paz e amor semeio ao léu
e em cada trova que faço
chego mais perto do céu.

Presente na mente sã,
a diversidade é bela!
Parece o sol da manhã
desenhando uma aquarela.

Quando a minha inspiração
se retira e vai embora,
eu procuro a solução
descobrindo onde ela mora.

Quando pensei que eras meu
- no poder daquele olhar -
o imprevisto aconteceu:
– Era filme o meu sonhar!

Quem da luta tira o pão
trabalha feito formiga,
pois sabe que o pobre irmão
depende da mão amiga.

Quem já foi um prisioneiro
- se não der uma guinada
permanece em cativeiro,
mesmo a porta escancarada.

Que mundo maravilhoso
e em verso deixo meu grito:
- É Deus, pintor primoroso,
pondo cores no infinito!...

Quero envelhecer sem medo,
arrolar-me  na esperança.
Das rugas não ter segredo...
Ser na vida uma criança!

Seja em qualquer situação
- com fartura  ou sem guarida -
basta amor e uma canção,
para  transformar a vida!

Se perder o chão dos pés,
não chore, pois, em verdade,
muitas vezes num revés
se encontra a felicidade.

Sou feliz, estou amando!
Minha vida é só cantar,
na chuva vivo bailando
nos braços do verbo amar.

Trabalhe sobre si mesmo,
fazendo da alma cinzel.
Quem não leva a vida a esmo,
vence a luta mais cruel.

Tuas cartas eu rasguei,
recortei em mil pedaços,
cada bilhete eu colei
desenhando os teus abraços.

Um pequenino poema,
das artes, a mais formosa;
a trova é mais que um emblema:
– é uma crença religiosa!...

Voando sobre a amplidão
qual belo cartão postal,
araras em extinção,
pedem vida ao Pantanal.
_________________________________
J.B. Xavier
Cunhaporã - Uma história de amor

VII

O SILÊNCIO DO LAGO

Porém a tragédia ainda não se findara,
E o povo que sempre o cacique endeusara,
Em bem pouco tempo também o esqueceu.
O chefe que outrora, com muitos amigos
Rompera tacapes, vencera inimigos,
Voltou, sim, à vida, mas enlouqueceu.

Seus olhos dispersos não tinham mais foco.
Crianças sorrindo, corriam em bloco
E de Ygarussú  iam escarnecendo.
Com medo, corria a embrenhar-se na selva,
Por horas e horas deitava na relva
Enquanto seu corpo ia esmorecendo.

Nem mesmo os tupis, seus irmãos conhecia.
Dos homens, crianças e moças fugia
Qual lebre assustada, de medo e terror,
Enquanto a aldeia homenageava
O novo cacique que já governava
Em nome da paz, harmonia e amor.

Tempos depois ninguém mais se lembrava
Do grande Oyakã  que um dia bradava
O desejo doentio de um dia ser deus.
Vivia sozinho em meio à floresta,
Não ia à aldeia, nas danças, nas festas,
Até que, esquecido, afastou-se dos seus.

Às vezes, no entanto na selva ecoava
Um grito de guerra que aos céus se elevava
Num ponto distante da grande folhagem.
O grito que outrora acuara inimigos
Em sua chegada, seus medos, perigos,
Não tinham agora nenhuma mensagem.

Ouvia-se às vezes, no entanto, gemidos,
Sons guturais, soluços, bramidos
Ininteligíveis, à  luz da manhã.
E sempre um nome então se ouvia
À noite, à tarde, na selva sombria
Num triste lamento: Cunhaporã .

Sem nunca deixar o arco de lado,
O louco podia ser sempre encontrado
Crivando de setas um grande carvalho.
Precisas, mortais, ali se encravavam.
E o louco sorria dos que observavam
Por entre a carranca, qual tolo espantalho.

E havia até quem ousasse dizer
Que o mau Anhangá estava em seu ser
Levando-lhe o corpo e a alma guerreira.
Cobrava seu preço - falavam medrosos.
E cortando caminho iam temerosos
Orar a Tupã , à luz da fogueira.

*  *  *

Caía a noite, muitas estrelas
Já cintilavam.
Os bichos todos se recolhiam,
Já dormitavam.

Em claro espelho se transformara
O lindo lago.
Nenhuma brisa o incomodava
Com seu afago.

Tupã  descera  a paz suprema
Por sobre o mundo.
E o sol no ocaso, lá descamba
Já moribundo.

Distante o canto gentil se ouvia
Da araquã .
Um grito ao longe rompeu a noite:

"Cunhaporã !"

"É ele! é ele! que vem na noite
De sua loucura,
Vagando a esmo o pobre louco
Por mim procura!"

"Tupã  o guie na noite escura.”
 - Disse Nhuamã .
Mais perto o grito soou mais forte:

"Cunhaporã !"

E Nhuamã envolveu terno
Num grande abraço
Seu grade amor
A protegendo em seu regaço.

"Que Jassy guie seus pobres passos
Até a Manhã."
Mais perto o grito soou mais forte:

"Cunhaporã !"

E sobre a pedra, a laje imensa,
Os dois amantes
Os gritos loucos ouviam sempre
De instante a instante.

"Que triste sorte guardou a ele
O deus Tupã !"
Mais perto o grito soou mais forte:

"Cunhaporã !"

"Deuses o levem o quanto antes
Da vida vã"
Mais perto o grito soou mais forte:

"Cunhaporã !".

Mais perto o grito soou mais forte:

"Cunhaporã !".

Mais perto ainda soou o grito:

"Cunhaporã !".

Ainda mais perto soou o grito:

"Cunhaporã !".

O grande ybirapar retesou-se inteiro.
Tensas as cordas chorosas consomem
A força inumana. Estalou o madeiro
Enviando uma flecha da altura de um homem.

Sentiu o charrua bem perto o perigo
Pairando na orla da grande clareira.
Do arco guerreiro, outrora amigo,
A flecha partiu assassina e certeira.

A morte soara o acorde fatal,
E a flecha, qual raio, o espaço cortou.
Com baque macabro, qual louco punhal
O peito charrua ela atravessou.

Saiu pelas costas, luzente, vermelha,
Tingida do sangue do novo Oyakã .
E a vida, a seiva, a tênue centelha
Jorrou sobre os seios de Cunhaporã .

Ainda de pé, por longos instantes
Ficou o charrua, negando-se a crer
Que assim terminava seu sonho de amante.
De joelhos caiu, recusando morrer.

E Cunhaporã , que a fala perdera,
Imóvel que estava, imóvel ficou.
Um grito viera à garganta e morrera,
E o olhar marejado na noite faiscou.

Sonhos...
delírios...
devaneios...
mau augúrio...
A voz de yara soou
num débil murmúrio...

"Cuidado com a súcia
Do grande arvoredo!
Não tema ter medo!
Na selva, guerreiro,
O que vale é a astúcia!"

"...Tua amada...
Yara...dissera.
Cuidado... a morte... Em flecha ligeira...
Te espera..."

Distantes soaram as palavras de Yara.
Distantes... distantes... não mais as ouviu.
Dobrou-se o guerreiro, A vida findara.
Rolando da pedra, no lago caiu.

De longe, lá das fraldas da colina
Veio o pio de uma coruja, sonolento.
E o céu todo enfeitado em purpurina,
Registrou o assassínio tão sangrento.

Nada houve que tivesse perturbado
O sossego e a beleza dessa noite.
E as águas que haviam se fechado
Ribombaram pelos ermos, como açoite.

O escarlate veio à tona num só ato.
Nuvens negras rolaram no firmamento.
E Jassy vociferou:" Ingrato! Ingrato!"
E o eco foi-se embora com o vento.

Em instantes só restava o espumaredo
No sepulcro dessas águas agitadas.
E o silêncio perguntava ao arvoredo
O motivo dessa vida arrebatada.

Lá no fundo o corpo inerte do charrua
Confirmava a terrível realidade.
E brincando com seu corpo, a luz da Lua
De mãos dadas o levou à eternidade.

continua… final  VIII – A Cascata e o Carvalho
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Profa. Ana Suzuki
Aula sobre Haicai

Aula 4 - O HAICAI E O SEN-RYU

         O sen-ryu, embora também tenha três versos e siga a regra do 5-7-5, despreza as outras convenções e destina-se à sátira, à gozação crítica. Vamos dar alguns exemplos e aproveitar para praticar um pouco de métrica:
         Um prédio redondo.. (Um-pre-dio-re-don-do = 5 sílabas, desprezada a última por ser átona, fraca).

         É Congresso ou pizzaria? (É-con-gres-soou-piz-za-ria = 7 sílabas, por se juntarem as vogais átonas)

         Eh, povo confuso! (Eh-po-vo-con-fu-so = 5 sílabas, pelo mesmo motivo do primeiro verso).

         Ingênuo o tal homem! (In-gê-nuoo-tal-ho-mem = 5 sílabas, pelas vogais que se agregam e pela última sílaba desprezada)

         Nem percebe que carrega (Nem-per-ce-be-que-car-re-ga = 7 sílabas, desprezada a última, que é átona)

         Dinheiro do povo. (Di-nhei-ro-do-po-vo = 5 sílabas, pelo mesmo motivo do verso anterior)

Garrafa escondida. (Gar-ra-faes-con-di-da = 5 sílabas)

Até baba o nobre homem (A-té-ba-bao-no-bre-ho-mem = 7 sílabas)

E diz que está sóbrio. (E-diz-quees-tá-só-brio = 5 sílabas)

Velhaco, macaco (Ve-lha-co-ma-ca-co = 5 sílabas)

Não escuta, não diz nada (Não-es-cu-ta-não-diz-na-da = 7 sílabas.)

E finge não ver. E-fin-ge-não-ver = 5 sílabas.

         O sen-ryu, como se pode ver, não dá lugar para o sublime. E tampouco respeita as regras do haicai, a não ser quanto à métrica. No Japão, é muito utilizado para críticas debochadas.

continua… O Haicai como flash de uma cena
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Seção Nada de Versos
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Folclore Indígena Brasileiro
Kuadê – Juruna mata o sol

Kuadê, o Sol, era gente também. Morava longe e falava outra língua. Os Jurunas costumavam passear na casa dele. Perto de onde morava o Sol tinha um buraco na pedra que estava sempre cheio de água. Era uma armadilha para pegar bicho. Bicho que enfiava a cabeça no buraco para beber água ficava preso. Todos os dias o Sol ia ver se havia caça presa. Quando encontrava, matava e levava pra casa para comer. A pesca, ele só fazia à noite, clareando a água com uma luz que ele tinha no traseiro. Ele zangava e matava quem dizia ter visto a sua luz. Havia um moço Juruna que não sabia da armadilha do Sol, o buraco na pedra.
Passando perto um dia, com sede, foi beber e ficou preso pela mão. Quando no outro dia viu o Sol que se vinha aproximando na sua visita diária, o moço fingiu de morto. Deitou e ficou imóvel, com o coração parado também, de tanto medo. O Sol chegou e começou a examiná-lo. Abriu a boca, os olhos, apalpou o peito e verificou que estava tudo parado como gente morta. Aí o Sol desprendeu o moço Juruna do buraco e o colocou dentro de um cesto para ser transportado. Mas antes de pôr o cesto nas costas, para ver se o moço estava bem morto mesmo, jogou formiga em cima dele. O Juruna aguentou as formigas, sem se mexer, mas quando elas morderam nos olhos, ele se mexeu um pouquinho.
A borduna do Sol, que estava perto, percebendo o movimento, quis logo bater, mas o dono não deixou, dizendo que o Juruna estava bem morto. Em seguida, o Sol levou o cesto com o corpo para perto da casa dele, pendurando-o no galho de uma árvore. No dia seguinte, pediu ao filho que trouxesse o cesto para dentro de casa. O filho do Sol foi mas não encontrou mais o Juruna. Ele tinha fugido de noite. O Sol sabendo disso, na mesma hora jogou a sua borduna atrás dele. a borduna saiu voando e logo adiante bateu num veado.
O Sol disse que não era aquilo que ele queria, e saiu em perseguição, até que encontrou o fugitivo escondido na raiz oca de um pau. A borduna chegou e começou logo a bater no tronco. Vendo que isso não dava resultado, cortou uma vara e passou a chuçar o buraco. O Juruna ficou todo machucado, mas continuou dentro da toca. Como já estava muito tarde, o Sol tapou a boca do buraco com uma pedra e disse para a borduna: “Amanhã nós voltamos para acabar de matar”. De noite, na ausência do Sol, todo tipo de bicho – anta, porco, veado, macaco, paca, cutia – apareceu para ajudar o moço Juruna a sair de dentro da toca onde se tinha enfiado.
Lá dentro, ele pedia: “Cavem esse pau para eu sair”. Os bichos começaram a cavar. Quando os seus dentes quebravam, iam à procura de outros bichos para continuar a escavação. a anta conseguiu abrir uma pequena saída. O moço Juruna pôs a cabeça para fora e pediu que cavassem mais um pouco. Com o alargamento que a cutia e a paca, por último, fizeram, ele pôde sair de uma vez para fora. Quando o sol chegou, não o encontrou mais. O moço a essa hora já estava chegando em casa. Lá, contou para os parentes o que havia acontecido com ele, dizendo que quase tinha sido morto pelo Sol.
Três dias depois foi dizer à mãe que ia sair novamente para colher coco. A mãe, chorando, pediu a ele que não fosse. “Não vá, meu filho, que o Sol vai matar você”. O moço, depois de cortar todo o cabelo e se pintar de jenipapo, foi dizer à mãe que assim como estava não ia ser reconhecido pelo Sol. “Não tenha medo, que o Sol não me vai conhecer. Agora estou diferente”. Falou isso e entrou mata adentro. Subiu no primeiro inajá que encontrou e ficou lá em cima colhendo coco.
Certo jovem, não muito belo, era admirado e desejado por todas as moças de sua tribo por tocar flauta maravilhosamente bem. Deram-lhe então o nome de Catuboré, (flauta encantada). Entre elas, a bela Mainá conseguiu o seu amor; casar-se-iam durante a primavera. Certo dia, já próximo do grande dia, Catuboré foi à pesca e de lá não mais voltou. Saindo a tribo inteira à sua procura, encontraram-no sem vida à sombra de uma árvore, mordido por uma cobra venenosa. Sepultaram-no no próprio local. Mainá, desconsolada, passava várias horas a chorar sua grande perda. A alma de Catuboré, sentindo o sofrimento de sua noiva, lamentava-se profundamente pelo seu infortúnio. Não podendo encontrar paz pediu ajuda ao Deus Tupã. Este então transformou a alma do jovem no pássaro Irapuru, que mesmo com escassa beleza possui um canto maravilhoso, semelhante ao som da flauta, para alegrar a alma de Mainá. O cantar do Irapuru ainda hoje contagia com seu amor os outros pássaros e todos os seres da Natureza.
O Sol, que passava por perto, pensou que era macaco que estava no alto da palmeira. Quando viu que era gente e reconheceu o Juruna, disse assim: -Quase matei você naquele dia, mas agora você vai morrer. -Eu não sou quem você está pensando. Sou outro – disse o moço lá do alto. Mas o Sol sabia, e replicou: – É você mesmo. Desça daí que você vai morrer agora mesmo. O Juruna, então, lá da copa da palmeira, pediu ao sol que parasse primeiro um cacho de coco que ele ia jogar. -Pega primeiro este cacho que eu vou jogar. -Joga – disse o Sol. O moço jogou o cacho e o Sol pegou. Era um cacho pequeno, esse primeiro jogado.
O moço lá de cima tornou a pedir: Pega mais este. E lá de cima jogou um cacho pesado, muito grande. O Sol estava esperando com os braços estendidos para o alto. O cacho caiu direito no peito dele e o matou na hora. Ao morrer o Sol, tudo ficou escuro. A borduna, com a morte do dono, no mesmo instante correu e se transformou em cobra, a salamanta (uandáre-borduna do Sol).
O sangue que escorria do Sol ia-se transformando em aranha, formiga, cobra, lacraia e outros bichos. Essas cobras e aranhas que forravam o chão não deixavam o moço Juruna descer da palmeira. ele, então, como os macacos, foi passando de árvore para árvore. Só desceu quando viu o chão limpo. Uma vez em baixo, procurou o caminho e voltou para a aldeia. Lá chegando, disse para a mãe: -Matei o Sol. -Por que você fêz isso? eu bem não queria que você saísse. Agora está tudo escuro – a mãe, assustada, lamentou. As crianças todas começaram a morrer com a escuridão, porque ninguém podia pescar, caçar, ou trabalhar. Lá na aldeia do Sol, a mulher dele já sabia da sua morte.
Disse aos três filhos que já estavam passando fome: – O pai de vocês morreu porque gostava de matar gente. Qual de vocês quer ficar no lugar dele? Experimentou primeiro o mais velho dos três. Este, logo que pôs na cabeça o penacho do pai, achou-o muito quente. Foi subindo, subindo, quando estava quase amanhecendo não aguentou mais o calor e voltou. Aí foi a vez do outro, o do meio. Colocou o penacho na cabeça e começou a subir. Passou um pouco da altura a que chegou o primeiro, mas não aguentou também e voltou dizendo que o calor era demais. Restava o mais novo. A mãe perguntou se ele queria ficar no lugar do pai. Ele disse que sim. Adornou-se com o penacho e subiu, mas como o calor era muito grande, andou depressa e se escondeu logo do outro lado.
De regresso à casa, a mãe lhe disse: -Você aguentou um pouco,mas é preciso andar mais devagar da outra vez, para o pessoal poder matar peixe, caçar e trabalhar. Não corre não. O filho mais moço do Sol voltou a fazer a caminhada, e fez toda ela devagar, desta vez. A mãe havia recomendado a ele que parasse um pouco quando estivesse bem no alto, no meio do caminho, e que começasse a descer bem devagar depois, parando um pouquinho também, antes de entrar duma vez do outro lado. Quando a mãe viu o filho fazer todo o caminho, como devia ser feito, chorou dizendo: -Você agora está no lugar de seu pai, e não vai voltar mais para mim. O filho lá do alto por sua vez falou: -Agora não posso mais voltar para morar com você. Vou ficar sempre aqui em cima. A mãe, ao ouvir isso, chorou outra vez.
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Irapuru = pássaro
Catuboré = nome índio – masculino
Mainá = nome índio – feminino

Fonte:
PINTO, Wilson. As Mais Belas Lendas Brasileiras. Santa Catarina: Excelsus.
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Aventuras de Pedro Malasartes
O Urubu Adivinho

         Devido o espírito aventureiro, Malasartes não consegue passar um dia fechado dentro de uma casa, assim ele comprova que “Sua casa é o mundo, seu destino é a estrada”, e ainda acrescenta: “Eu sou Pedro Malasartes, o sabido sem estudo, eu nasci sem saber nada e vou morrer sabendo tudo.”
         Em mais uma de suas andanças, numa certa manhã de verão e seca no sertão, ele encontra no meio do seu caminho um urubu com uma perna e uma asa quebradas, debatendo-se no meio da estrada. Agarrou o urubu, colocou dentro de um saco e seguiu o seu caminho.
         Ao anoitecer estava diante de uma casa grande e bonita. Pela janela viu uma mulher guardando vários pratos de comidas saborosas e garrafas de vinho em um armário. Bateu na porta e pediu abrigo e comida. Mas a mulher recusou o seu pedido, dizendo que como o marido não estava em casa ficava feio, pra ela, receber um homem em sua casa. O que as vizinhas não vão falar. Terminou dizendo.
         Malasartes foi pra debaixo de uma árvore e continuou a observar a casa. Com pouco tempo ele reparou que vinha chegando as escondidas um rapazinho ainda moço e que foi recebido com muitos agrados pela mulher dona da casa que o levou imediatamente para mesa e começou a servir vinho e um manjar de fazer inveja a qualquer rei.
         Quando os dois iam começar a comer a beber, eis que aparece montado num cavalo alazão o dono da casa. O rapaz fugiu pelas portas do fundo e a mulher tratou de esconder os pratos de comidas e os litros de vinho dentro do armário.
         Malasartes deu o tempo suficiente para o dono da casa tomar um banho e trocar de roupas e bateu novamente na porta da casa. O homem veio atende-lo, e ele pediu abrigo e comida. O dono da casa o mandou entrar, lavar as mãos e o convidou a sentar na mesa para o jantar.
         A mulher começou a servir outra comida, bem pobre e mal feita. Malasartes, sempre com o urubu dentro do saco, deu com o pé, fazendo o roncar e começou a falar baixinho, como se estivesse discutindo com o urubu.
         O dono da casa intrigado perguntou: – Com quem está falando?
         Malasartes sem gaguejar respondeu. – Com esse urubu.
         O dono da casa meio desconfiado retrucou: – Um urubu falando?
         – Sim senhor, falando e adivinhando. Esse urubu é ensinado e adivinhador. – Disse com toda a esperteza Malasartes.
         O patrão, imaginando que Malasartes era louco perguntou: – E o que é que ele está adivinhando agora?
         Malasartes com a firmeza que lhe é peculiar respondeu:
         – Ele está dizendo que naquele armário há um peru assado, arroz de forno, pernil de porco, bolho de milho, farofa de cebola e três litros de vinhos.
         O Dono da casa só para comprovar ordenou a mulher: Procura aí, mulher, pra ver se é verdade. A mulher desconfiada ainda tentou dizer que aquilo era loucura, pois urubu não fala e nem tão pouco adivinha e Malasartes retrucou:
         – Abra pra ver se é verdade ou não.
         O Dono da casa ordenou: – Abra é uma ordem.
         A mulher abriu o armário e fingindo surpresa anunciou tudo que o urubu tinha dito e todos comeram com muito apetite aquelas guloseimas.
         Ao terminar o jantar o Dono da Casa perguntou por quanto ele queria vender o urubu e Malasartes fingindo indiferença disse que não vendia de forma alguma.
         Pela manhã, após um grande e saboroso café, o dono da casa dobrou a oferta da noite passada e Malasartes fingindo contrariado aceitou o dinheiro, deixando na casa da mulher traidora e do homem besta enganado, um urubu, com a asa e as pernas quebradas, que nunca mais adivinhou coisa alguma.
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Nilto Maciel
Carlim

         Apesar de muito vivido, Carlim não entendia quase nada do que falavam as pessoas. Nem mesmo porque o chamavam dos mais variados nomes e nunca de Carlim. Aliás, esse nome ele mesmo se deu.
         Andava um dia perdido, porém satisfeito, quando parou junto a um muro e sua sombra. Só queria descansar e situar-se. Talvez não estivesse tão longe de casa. Isto é, de seus amigos, da rua onde costumava dormir.
         Recostado ao muro, ouviu vozes de crianças. Faziam perguntas a uma mulher. Gritavam, riam, num vozerio babélico. A moça falava do Sacro Império Romano Germânico. De imperadores, reis, príncipes. De Carlos V, Maximiliano, Borgonha, Solimão, etc. Palavreado difícil, nunca antes ouvido.
         Curioso, Carlim procurou ver as crianças e a moça. Descobriu uma janela. Primeiro viu a professora. Falava sem parar, explicava, lia. A certa altura, apontando para uma figura do livro, disse: este é Carlos Quinto. Porém, viu Carlim e nele fixou o olhar. Mirou-o profundamente. E havia tanta ternura (ou tanta piedade) em seus olhos, que aquele instante Carlim sentiu como sendo o seu batismo. Sentiu-se filho, sentiu ter tido mãe. Pois os olhos da moça lembravam os de outra…
         A mãe de Carlim morreu debaixo de um carro. E ninguém parou para socorrê-la ou remover seu pobre corpo a lugar seguro. Carlim ainda tentou arrastá-la para a calçada. Por um triz, não morreu também.
         Sim, Carlim não entendia quase nada do que falavam as pessoas. Nem do que faziam. Mesmo os gestos e as palavras mais repetidas. “Fulano não vale nada. É um cachorro”. Quando se aproximava de alguém, era enxotado. “Sem vergonha, vira-lata, cão-sem-dono”.
         Carlim procurou os amigos. Quem sabia o significado de cão-sem-dono? E passaram a conversar mais. Precisavam se unir, lutar por direitos básicos: casa, comida, carinho, etc. Propuseram a criação de uma sociedade. Alguém brincou: Sociedade dos Cães-Sem-Dono.
         A reação dos “outros” não tardou. Devem ter visto Carlim na televisão. Nada de casa, comida e carinho para aqueles vagabundos. Nada de nome. Quem vivia na rua era cão-sem-dono. Portanto, sujeito a comer lixo, levar pontapé, morrer debaixo dos carros. Além do mais, não havia casa para todos. Se aqueles sarnentos deixassem as ruas, eles, os “outros”, estariam perdidos. Adeus casa, comida, carinho, nome…
         Pobres de tais rebeldes! Pois muitos foram considerados doidos e, por isso, mortos. Passavam dias e noites a latir, protestar. Cachorros doidos!
         Em compensação, Carlim e seus amigos continuariam ao léu, perdidos nas ruas. E a toda hora morre um deles debaixo dos carros. Ontem mesmo foi a vez de Carlim.

Fontes:
MACIEL, Nilto. Pescoço de girafa na poeira. Brasília: Bárbara Bela, 1999. p.69-70.
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Lairton Trovão de Andrade
Trova e Quadra no Brasil

A Trova, que surgiu na amena região de Provença, ainda nos longínquos idos da Idade Média, expandiu-se naturalmente pela Itália, Espanha e Portugal, transbordando de ternura os corações das classes sociais da época, numa clara manifestação do espírito,  frequentemente espontâneo e extrovertido,  dos povos de línguas neolatinas.
Através dos tempos, a Trova não permaneceu inalterável como algo estático e acabado, mas sofreu alterações em sua estrutura, principalmente externa, como que a procura da própria identidade e perfeição.
Assim sendo, fora se transformando  progressivamente, através das literaturas, a tal ponto que podemos evidenciar: “As trovas dos seus primeiros tempos, bem como dos tempos de Dom Dinis,  diferem,  e muito, daquelas que praticamos hoje”.
Ainda no passado próximo, as alterações foram bem acentuadas. Cristalizaram-se definitivamente os versos setissilábicos. As rimas, que a princípio nem sempre existiam, tornaram-se indispensáveis.
Posteriormente, nos jogos florais e nos concursos, não se admitiu mais a presença de trovas com rimas simples ( rima do 2º com o 4º verso), permanecendo, como regra, apenas as de rimas duplas , do 1º com o 3º, e do 2º com o 4º verso.
As históricas alterações, entretanto, preservaram na Trova a grandeza da essência. O  íntimo substancial praticamente permaneceu, a tal ponto que o conceito “trova” ultrapassou os séculos e as culturas e, em nossos dias, recebeu  imenso vigor de expressividade.
E as tendências continuam…
Trovadores sérios do Brasil não admitem mais os termos “quadrinha”, “trovinha” etc. como referências à “Trova”.
Ainda mais: Em se tratando de trovadores brasileiros, mesmo que “trova” e “quadra” sejam ainda sinônimos, já existe por aqui, talvez por influência de trovadores da UBT (União Brasileira de Trovadores), tendência de não reconhecer o termo “quadra” como simples sinônimo de “trova”.
A Trova representa profícua escola literária da Língua Portuguesa, onde o dinamismo dos seus membros, no seio de entidades como a UBT, por exemplo, expressa o esmero de um gênero literário florescente, além da convivência de seus pares numa confraria exemplar.
Entre os brasileiros, o conceito “quadra” faz pensar, muitas vezes, que se trata de uma forma de versejar do povo, sem nenhuma preocupação gramatical, lembrando forma simples de poemeto de uma estrofe só, onde a simplicidade confunde-se com expressões incultas.
Diante da sua relevante envergadura, designá-la simplesmente de “quadra” parece-nos “sacrilégio literário”.
Nos dias de hoje, o conceito “trova” supõe rigor maior:  Há exigências incondicionais quanto ao número de sílabas, quanto ao sistema de rimas, quanto ao primor de conteúdo, quanto à correção gramatical e quanto à conclusão perfeita  de um pensamento.
Mais do que nunca, representa hoje a “excelência de um achado”. Por isso, a Trova, por sua estirpe e magnitude, pertence à alta nobreza da Literatura.
Enfim, o que se propõe, acima de tudo, é o cultivo da “Trova Literária” que, no seu íntimo, deve ser muito diferente da simples “trova popular”, apesar de que o desejo de todo trovador é que sua trova torne-se popular, no sentido de que seja lida e recitada  por todas as camadas sociais, manifestando a cultura e o esplendor do lado puro e simples da Língua Portuguesa.
Apesar disso, a “Trova Literária” será sempre erudita, ainda que espontânea, cujo conceito  ultrapassa, sem comparações, o mundo limitado e tacanho do conceito, às vezes pejorativo, de  “quadra  popular” do Brasil.
Trovador é aquele que faz trovas. O trovador é maior que o simples poeta, pois todo trovador é poeta, mas nem todo poeta é trovador. No reino das musas, não há orgulho maior que ser trovador!
Por isso, aquele que tem o dom de fazer trovas deve se sentir privilegiado, pois a Língua Portuguesa adquiriu suas primeiras formas literárias, através do labor heróico dos trovadores medievais.  
Os modernos trovadores são os legítimos herdeiros dos primeiros cultores da língua portuguesa.
É possível que, num futuro não muito distante, a Literatura Brasileira, o Dicionário Aurélio e outros possam apresentar diferenças essências entre “Trova” e “quadra”, uma vez que a Língua Portuguesa, sendo viva e dinâmica, pode, muito bem, continuar a ter evoluções e aquisições de novos conceitos, mesmo que alterando noções antigas por serem já, na opinião de muitos, obsoletas e inadequadas.
Concluindo, as considerações feitas aqui não dizem respeito à Trova de Portugal, denominada pelos irmãos lusitanos de “Quadra Popular”, que historicamente serviu de suporte ao nascimento da trova no Brasil.

Fonte:
Falando de Trovas e Trovadores – Nº  03 – Outubro de 2006. Disponível no Portal CEN
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Lairton Trovão de Andrade, nasceu em 1943, em Pinhalão/PR. Poeta e trovador brasileiro, bacharel e licenciado em Filosofia Pura.Lecionou Filosofia, Psicologia e História, além de outras disciplinas. Editou sete livros – cinco de poesias e dois de reflexões filosóficas, além da participação em diversas antologias literárias. Concluiu o Curso de Música, tornando-se organista e compositor. Dirigente e organista do Coral Bento XVI da Igreja Matriz de Pinhalão. Pertence a União Brasileira de Trovadores/UBT – Delegado de Pinhalão; Movimento Poetas Del Mundo, Cônsul de Pinhalão; Movimento de Poetas e Trovadores de Porto Alegre /RS, etc.
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Miguel Sanches Neto

Decálogo do Autor

         Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor– embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar

I – Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.

II – Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.

III – Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso,
você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.

IV – Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar. O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

V – Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro. Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante. Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.

VI – Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora. Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso. Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro. Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas. E como você só pode contar com ele…

VII – Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial. É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou. Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo. Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo. O importante é se ocupar. Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado. Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto. Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora. E aí tive de aprender outras coisas. Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados. E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais. E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.

VIII – Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre seu livro. Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal, eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos. Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho. E mande umas palavras de agradecimento, pois você teve enfim uma apreciação. E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto? Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.

IX – Nunca passe recibo às críticas negativas. Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas. O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas. Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou – enfim uma vantagem de ter família grande.

X – Evite reclamar de sua editora. Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora. É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende. Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado. Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe…Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.

Fonte:
Miguel Sanches Neto. Decálogo do autor
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Miguel Sanches Neto(Bela Vista do Paraíso/PR, 1965) é um escritor, Professor universitário, e crítico literário paranaense. Responsável pela coluna semanal da Gazeta do Povo, de Curitiba, onde publica artigos sobre literatura. Também tem contribuído para outros veículos de comunicação como: O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Jornal do Brasil, República, Bravo!, Poesia Sempre e D`Pontaponta.
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Márcia Lígia Guidin

Machado de Assis: Por que lê-lo?

         Machado de Assis nasceu em 1839 e morreu em 1908. Foi um escritor do tempo de dom Pedro II. Por que, então, ler as obras de alguém que morreu há quase cem anos? Na verdade, poderíamos dar muitas razões acadêmicas e culturais: ele é o maior símbolo do realismo brasileiro, movimento que introduziu no país; fundou a Academia Brasileira de Letras, era genial, veio das classes baixas etc.
         Mas o fato é que a melhor razão as pessoas não dizem: ler Machado é muito engraçado. Suas histórias são irônicas, reveladoras de coisas que todo mundo sabe, mas não comenta… Elas falam de valores morais que todos criticam, mas têm.
         Quando alguém diz que Machado é “cético”, é disso que está falando: esse ótimo escritor não acreditava nas boas intenções, na bondade, na generosidade, no amor romântico, na eterna lealdade.

Máscaras da sociedade

         Machado desmascarou com sutileza a falsidade de homens e mulheres de sua época de, sua cidade, de nosso país. Só que as situações e temas de que trata em sua obra são tão universais (amor, adultério, egoísmo, cinismo, apadrinhamentos, pobres e ricos, casamentos por interesse etc.), que nosso escritor pode ser lido em qualquer outro país. Ou seja, temos um escritor brasileiro (na época em que havia poucos), tão importante quanto Eça de Queirós, Dostoiévski, Flaubert.
         Machado de Assis não imitava outros escritores, era original. A personalidade desse autor era tão irônica, tão observadora da realidade, que temos o riso de canto de boca a cada frase em que prestamos melhor atenção.
         Essa conversa de que só entenderemos Machado depois de adultos é besteira. O que existe é falta de ajuda de outros leitores (professores, pessoas mais velhas) para começarmos a ler e apreciar esse escritor universal.

O defunto Brás Cubas

         Por exemplo, um de seus mais famosos personagens, o solteirão Brás Cubas, do romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) resolve contar sua vida e seus amores depois da sua morte. Ele está entediado na eternidade, não tem o que fazer, é um defunto que vira autor (é, portanto, um defunto autor e não um autor defunto). Como Cubas quer ser original, diz que vai começar sua história narrando sua morte e não o nascimento. Moisés, o grande Moisés, começou pelo começo, diz ele; para ser original, então, vai começar pelo fim.
         Perceba: só esse início (a primeira página do romance) já é suficiente para notarmos que esse defunto quer debochar de nós, leitores. E ele vai em frente: diz que havia poucas pessoas em seu enterro, mas um amigo fez um belo discurso à beira de sua cova. Depois, como se não percebesse o que diz, afirma: “Bom e fiel amigo! Não, não me arrependo das vinte apólices que lhe deixei”. Nós, leitores, rimos ao ler a frase, pois está claro que o amigo só fez o discurso (aliás, ridículo, vá ler!) porque havia recebido uma pequena herança. Sugerir o contrário do que de fato diz (ou seja, construir a ironia) é uma especialidade machadiana.

Ironia e linguagem

         E nós continuamos a ler o tal romance; com um pouco de irritação com esse narrador estranho e arrogante, mas continuamos.
         Adiante, Brás Cubas, contando sua juventude (era na verdade um playboy rico e desocupado), apaixona-se por uma prostituta de luxo, com quem gasta muito dinheiro (do pai, é claro). Este ficará furioso, mas Brás Cubas, fingindo certa ingenuidade, nos conta: “Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis”. Esta curta frase é maravilhosa, pois, sem denegrir a moça diretamente, o protagonista nos afirma que o amor dela era profissional, interesseiro, por dinheiro. Marcela não o amava: o autor construiu outra ironia, sugerindo que entendêssemos o contrário do que disse.
         E esse romance, tão famoso, vai por aí afora. É só diversão, embora, é claro, com um vocabulário do século XIX, o que nem sempre é simples para nós. Na verdade, o tal Brás Cubas se exibe até no uso do vocabulário, ele é pedante. Se prosseguirmos na leitura, conseguimos rir muito, pensando que os vários episódios vividos naquela sociedade (por ele e por todos), são os mesmos nos tempos de hoje. E muitas ações sociais e morais são as mesmas… O pai de Brás Cubas, por exemplo, era um exibicionista. Dava festas muito ricas para ‘fazer barulho’, para aparecer na sociedade. Quanta gente faz isso ainda hoje, não? Existem até revistas especializadas nessa exibição de ricos e famosos…
         Acabamos percebendo que as pessoas são as mesmas, que o mundo da hipocrisia e farsa social não mudou. Esta sensação é parte do pessimismo machadiano de que tanto nos falam os livros Não gargalhamos, apenas rimos em silêncio, com o canto da boca, para nós mesmos. E este sinal é o famoso humor inglês de que falam os estudiosos: as piadas, as ironias são todas assim, inglesas; o defunto diz o que quer, fingindo não dizer.
         Um dos momentos mais cruéis (sim, a ironia às vezes é cruel com os personagens) se chama “A flor da moita”. Sabe por quê? Quando pequeno, Brás havia presenciado um beijo às escondidas que um poeta casado dava numa dama solteirona atrás de uma moita da mansão de seus pais. Pois bem, anos depois, conheceu a filha bastarda dessa mesma senhora, a menina Eugênia. Era linda, educada, pura, mas coxa (manca). Eugênia ficou então sendo “a flor da moita” porque concebida no amor ilícito. Por isso teria defeitos. Perceba que Brás é grosseiro, vulgar e deseducado. Mas quem vai punir um defunto? Quem?

Quem inventou Brás Cubas?

         Porém: Quem inventou Brás Cubas, que narra em primeira pessoa toda sua história? O verdadeiro autor da obra é Machado de Assis. Pensando melhor, vemos que esse Joaquim Maria Machado de Assis, fluminense, mulato, epilético, casado com Carolina, sem filhos, e muito famoso no Rio de Janeiro inventou um modo muito original de pôr na ” boca” de um defunto inventado coisas que ele, Machado, queria dizer. Quer dizer: o narrador Brás Cubas não é nem nunca será Machado. Mas Machado, usando seu personagem, ironiza a sociedade em que viviam os ricos no Rio de Janeiro.

Fonte:
UOL Educação Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação. Atualizado em 13/12/2013,
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Márcia Lígia Dias Di Roberto Guidin nasceu em São Paulo, em 1950. Graduação em Letras Anglo-Germânicas na USP. Mestrado em Literatura Brasileira na FFLCH da USP, tendo produzido uma tese sobre as relações entre feminino e morte em obras de Clarice Lispector, com destaque para a última obra da escritora, A hora da estrela. Em 1990, inicia o doutorado na mesma faculdade. Professora de Teoria Literária e Literatura Brasileira, na UNIP, onde se aposentou em 2006, como Professora Titular. Professora de graduação e pós-graduação da Universidade São Marcos. Trabalhou na Folha de S. Paulo (2000), onde foi professora Consultora da Redação.
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Estante de Livros
Andrey do Amaral
Mercado Editorial: Guia para autores
 
Dicas Para o Escritor

         1) Você não precisa esperar para ter condições financeiras para publicar uma coletânea. Pode pedir a participação dos autores com uma ajuda financeira. Por exemplo, cada página custaria R$ 50,00. Então, o autor adequará a publicação de acordo com o orçamento dele. Caso um escritor tenha um conto com 4 páginas, ele pagará R$ 200,00; se não puder pagar esse valor pagará por uma ou duas.
         2) Não misture os gêneros. Faça uma coletânea só com contos e outra só com poesias. O mercado não vê com bons olhos essa mistura. Para o livro de contos, publique apenas um conto por autor; para o de poesias, no máximo duas. Sobre a biografia desses autores, você deve manter um padrão. Peça aos autores para se definirem em no máximo 5 linhas. O leitor que quiser saber mais sobre eles que busquem informações num site, blog, etc.
         3) Sobre os direitos autorais: se você publicar textos de autores vivos ou falecidos tem que ter sim autorização. Os vivos têm que autorizar a publicação, independentemente se serão remunerados ou não. No caso dos falecidos, a autorização deve ser dada pela família.
         4) Geralmente, autores que participam de coletâneas são – na maioria dos casos – autores que não conseguem publicar pelas editoras comerciais. Talvez, por isso, seja comum pensar que não é necessário pedir autorização. Inclusive deve ser pago os devidos direitos autorais. O vc deve fazer enquanto a isso é o seguinte: Quando o autor aderir a participação na coletânea, você já pede para ele assinar o termo de autorização de publicação do texto tal no livro tal. Nesse termo, ele está ciente que os direitos autorais serão pagos com alguns exemplares do referido título. Para ser mais claro: eu te mando meu conto, mando cheque comprando a página ou o comprovante de depósito, assino o termo de autorização e já saberei que não receberei meus direitos autorais em pecúnia, ou em espécie, dinheiro; meus direitos autorais serão pagos com 5 exemplares da coletânea. Se eu quiser mais livros, aí tenho que comprar mais exemplares pelo preço de capa. Estipule um valor: por exemplo, sua coletânea de contos custará R$ 30,00, e a de poetas custará R$ 25,00
         5) Peça autorização por escrito dos escritores que for publicar, pois as fontes de referência ao final do livro não são suficientes.
         6) Acho que você pode fazer uma série desses livros. Todo ano você lança duas coletâneas (poesia/contos).
         Para mais dicas, obtenha o livro Mercado Editorial: Guia para autores . Neste livro, Andrey do Amaral dá o passo a passo para se ter êxito com uma editora comercial; indica onde, como e para quem vender seu original; nomeia quem são os principais agentes; quais as melhores editoras para seu livro etc.
         Andrey do Amaral, agente literário filiado à Câmara Brasileira do Livro (CBL/SP). Dá consultoria a autores, principalmente aos novos que pretendem entrar no mercado editorial.
Site do Escritor: http://www.andreydoamaral.com.
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Andrey do Amaral nasceu, em Brasília-DF, em 1976. Possui cidadania luso-brasileira. Formou-se em Letras, pós-graduando-se em Língua Portuguesa. Professor titular da Secretaria de Estado de Educação do DF e de algumas escolas particulares, além de educador indígena. Trabalhou com ensino a distância e educação de jovens e adultos. Pesquisador da vida/obra de Augusto dos Anjos (1884-1914). Doou parte do seu acervo e coleção sobre o poeta paraibano para o Memorial Augusto dos Anjos, do UniPê – Centro Universitário de João Pessoa – PB. Em 2002 seu ensaio-biográfico ganhou premiação da Fundação Biblioteca Nacional. É autor de livros de sucesso editorial. Andrey conhece o mercado livreiro como leitor; como professor, quando indicava o livro ideal a cada aluno; como autor, escolhendo a palavra ideal, e como livreiro, conhecendo vários estilos e segmentos.
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Concurso de Poesia Alberto de Oliveira Trovas e outros versos - Saquarema 2015

MODALIDADE: TROVA – CATEGORIA: VETERANO
1º Lugar – Therezinha Dieguez Brisolla – São Paulo-SP
2º Lugar – João Batista Vasconcellos – Nova Friburgo-RJ
3º Lugar – Élbea Priscila de Sousa e Silva – Caçapava – SP
4º Lugar – Gilvan Carneiro da Silva – São Gonçalo-RJ
5º Lugar – Therezinha Dieguez Brisolla – São Paulo-SP
6º Lugar – Edmar Japiassu Maia – Nova Friburgo-RJ
7º Lugar – Milton Souza – Porto Alegre – RS
8º Lugar – Renata Paccola – São Paulo-SP
9º Lugar – Dodora Galinari – Belo Horizonte-MG
10º Lugar – Messias da Rocha – Juiz de Fora-MG

MODALIDADE: TROVA – CATEGORIA: NOVATO
1º Lugar – Jaqueline Machado – Porto Alegre-RS
2º Lugar – Eulinda Barreto Fernandes – São Paulo-SP
3º Lugar – Sérgio Fonseca – Mesquita-RJ
4º Lugar – Austregésilo de Miranda Alves – Bahia
5º Lugar – Matusalém Dias de Moura – Espírito Santo

MODALIDADE: SONETO
1º Lugar – Edmar Japiassu Maia – Nova Friburgo-RJ
2º Lugar – Vanda Fagundes Queiroz – Curitiba-PR
3º Lugar – Marina de Oliveira Dias – São Gonçalo-RJ
4º Lugar – Edmar Japiassu Maia – Nova Friburgo-RJ
5º Lugar – Sérgio Fonseca – Mesquita-RJ

MODALIDADE: POEMA LIVRE
1º Lugar – Geraldo Trombin – Americana-SP
2º Lugar – Rita Mourão – Ribeirão Preto-SP
3º Lugar – Therezinha Tavares – Nova Friburgo-RJ
4º Lugar – Lúcia Sertã – Nova Friburgo
5º Lugar – Rita Mourão – Ribeirão Preto

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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