Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 13 de abril de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 395)

Machado de Assis
O Espelho
“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro.
Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir.
A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavarina, um tambor etc.
Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja.
Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.
Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração”.
Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele.
Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
- Não?
- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell.
São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável.
Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos.
Pela minha parte, conheço uma senhora, — na verdade, gentilíssima, — que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a Rua do Ouvidor, Petrópolis...”
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Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, considerado como o maior nome da literatura nacional. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário. Testemunhou a mudança política no país quando a República substituiu o Império e foi um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época. Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade.Assumiu diversos cargos públicos, passando pelo Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, e conseguindo precoce notoriedade em jornais onde publicava suas primeiras poesias e crônicas. Em sua maturidade, reunido a colegas próximos, fundou e foi o primeiro presidente unânime da Academia Brasileira de Letras. Sua extensa obra constitui-se de nove romances e peças teatrais, duzentos contos, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas. É considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Sua obra foi de fundamental importância para as escolas literárias brasileiras do século XIX e do século XX e surge nos dias de hoje como de grande interesse acadêmico e público. Influenciou grandes nomes das letras, como Olavo Bilac, Lima Barreto, Drummond de Andrade, John Barth, Donald Barthelme e outros. Em seu tempo de vida, alcançou relativa fama e prestígio pelo Brasil, contudo não desfrutou de popularidade exterior na época. Machado de Assis é considerado um dos grandes gênios da história da literatura, ao lado de autores como Dante, Shakespeare e Camões.
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Uma Trova de Maringá/PR
A. A. de Assis
Agredir a natureza,
destruir o verde – a vida,
é como cuspir na mesa
que nos fartou de comida!
Uma Trova de São Paulo/SP
Ronnaldo Andrade
Meu coração – em pedaços –
reclama a ausência do seu...
E eu, amor, sem seus abraços,
sou qualquer um, menos eu.
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
MINHA TERRA
Da minha Terra, as riquezas se foram,
embaralhadas no lastro da história
onde se prendem com sangue, dor e cobiça.
O que ficou, entre relevos de cristas maciças,
(violados totens silentes sagrados da natureza),
foram as gentes. As gentes e os poetas.
             
Foi Marília, foi Dirceu. Alphonsus de Guimaraens.
As gentes miscigenadas que edificam o futuro
velando o germe do passado, pisado de presente.
Maná de poesia: chão pisado por índio, rei e escravo,
padres levando imagens em prece, por gentes indomáveis:
a minha terra, minha parte imortal de Brasil!
Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Therezinha Dieguez Brisolla
No açougue foi tal o susto
ante o preço do filé,
que a peruca do "seu" Justo
ficou de cabelo em pé!
Uma Trova de Santos/SP
Ana Maria Guerrize Gouveia
Sentindo o timbre que adestra,
todos os momentos meus...
Vejo que a vida é uma orquestra
regida nas mãos de Deus!
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
POETA
Ah poeta, dê asas a sua inspiração,
Mostra a todos como você vê nosso mundo,
Com tristeza, bastante alegria e paixão
E muitas vezes com um ódio profundo!
Ah poeta, conte a todos a sua atração
Pela exuberância da mãe natureza,
Pelo firmamento de esplêndida beleza,
Da noite ou do dia que enche o homem de ilusão!
Ah poeta, fale-nos da maior riqueza
Que é o Amor que a gente tem no coração,
Deste Deus que lhe ensinou esta rara lição
Entre a tecnologia, paz, guerra e pobreza!
Ah poeta, que divina missão do bem:
Em versos, lembra ao homem a alma que ele tem!
Uma Quadra Popular
Autor Anônimo
Se alguém tiver um segredo,
não conte à mulher casada.
A mulher conta ao marido,
o marido à rapaziada.
Uma Trova Hispânica da Argentina
Alicia Borgogno
Toda mi ilusión flotando
en el cauce de sus ríos...
lo pienso siempre cantando
en su barca y con sus bríos.
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
NASCER DE UM POEMA
(Dia Nacional da Poesia)
    Olho a folha branca,
           vazia,
   querendo um poema.
       Olho a caneta,
         com tinta
   azul? vermelha? preta?
   Olho a lapiseira. A borracha.
   Uma inquietação me domina,
   quero, preciso de um poema meu
   nascendo sobre este papel branco...
   feito de árvores mortas...
   Escuto o meu silêncio...
   Dentro de mim há um livro,
   um livro de poemas
   como este,
   que espera o momento sideral
   de conjunturas numerais,
   espirituais, cabalísticas
   de que não entendo nada,
   para vir a lume.
      Sorvem de mim
         a alma,
       e no papel
  parecem libertados.
Tento em vão fechar meu livro
    prender meu poema.
    É tarde,
outro poema já está a caminho.
Trovadores que deixaram Saudades
Rodolpho Abbud
Nova Friburgo/RJ (1926 – 2013)
– "Não conto mais com você!..."
Diz a mulher lá da sala:
– "Se no verão não se vê,
no inverno, então, nem se fala!..."
Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Fagundes Queiroz
Quando o mar não é tão brando,
sigo e jamais me torturo:
– Deus comanda e vai levando
meu barco a um porto seguro.
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
PROFESSOR
A cada turma que se forma, abre os braços:
será mais uma separação na vida,
hora de guardar no coração pedaços
de tristeza e alegria – formal despedida.
A cada turma que entra, há braços e abraços,
novas relações, conquistas. Sua lida
é oferecer seu saber, sem ter cansaços,
disposto e feliz inda de alma combalida.
Ouvir reclamações, e ser criticado;
com garra estimular o desmotivado
nos estudos, carreira e em vida abrangente.
Profissão de valor, salário aviltado,
molda o futuro, a feição da nossa gente.
Seu presente: nosso olhar de aprendizado.
Uma Trova Humorística de São Paulo/SP
Giva da Rocha
O “cara” desafinou,
no agudo do clarinete
e o maestro caprichou,
na espetada do alfinete.
Um Haicai de Duque de Caxias/RJ
Paula Ferreira Mendes
Verdes montanhas
Céu e mar sempre azuis
Obra Divina.
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
POESIA DE VIVER
O viver é uma inédita poesia
Que cada ser escreverá ao nascer.
O parto, o verso puro então seria,
À dor, o prazer faz desaparecer.
Na infância do José ou na da Maria
Há alegrias, dores. Crer e querer
Ser sol, ser lua e ser amor, e o poder
Dá à juventude uma aura de magia.
Nos tropeços e acertos haveria
Combinar sentimentos e perceber
Que o ódio é noite escura e o amor é dia
Que tudo rima e gira em torno do Ser.
E o poeta imitando a vida se inspira
Escreve poemas que sente viver!
Uma Trova de Cambridge/Canadá
Secel Barcos
Dentre tudo posto à prova
verdade que se comente,
primavera se renova
primeiro, dentro da gente.
Uma Sextilha de Porto Alegre/RS
Milton Souza
Descobri que esta vida é muito bela
nas ações perfumadas de amizade...
Conheci nos amigos a beleza
da mais pura e maior felicidade...
Tenho tantos... mas muitos já passaram:
cada amigo é um pedaço de saudade...
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
JULGAMENTO
Hoje, você será julgado
no Tribunal da Minha Vida:
o Cérebro será Promotor,
o Coração será Defensor,
o Orgulho Ferido, Juiz,
a Emoção será Relator.
Seu crime: TRAIR NOSSO AMOR.
Os Jurados foram chamados:
a Paixão e a Cumplicidade,
Afinidade e Lealdade,
Companheirismo e Amizade,
por fim, a Atração Sexual.
As Testemunhas arroladas:
a Acusação trouxe o Ódio,
o Abandono, a dor e a Mágoa.
A Defesa esperta, a Saudade
e os Anos de Felicidade.
Todos com falas decoradas!
Mal o Julgamento começou,
O Ódio queria sua morte,
O Abandono, a sua prisão,
A Mágoa, arrancar-lhe o coração.
E o Juiz sorria bem feliz,
Até que a sua defesa chegou:
Chorava-me a Felicidade,
Apoiada pela Saudade.
Os jurados se comoveram,
os meus sentidos me traíram.
Sentença: PERDÃO! Exclamaram.
Caso encerrado: O AMOR VENCEU!
Uma Trova de Santos/SP
Carolina Ramos
Vida é estrada à minha frente
que o sol beijando ilumina.
Quando o sol falta, descrente,
paro! Onde é  que ela termina?!...
Uma Sextilha de São Simão/SP
Thalma Tavares
Passarinhos cantando no arvoredo
e as espigas dourando o milharal,
são sinais de que restam esperanças
de salvar a pureza ambiental.
O homem foi mais danoso à natureza
do que a fúria de muito temporal.
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
COMO AVES DE ARRIBAÇÃO 
Somos como aves, as aves de arribação,
Somos seres, seres de arribação.
Pelos tempos infinitos, à deriva da eternidade,
Fazemos pouso na Terra; o espírito
Buscando evolução, buscando perfeição.
Vamos chegando em bandos,
Vamos partindo em bandos,
Embora parecendo dispersos nesta seara,
Chegamos um a um, para formar um todo
Que se integra e se completa e se pertence.
Uns se perdem na busca
E trocam seus valores por coisas inúteis;
Outros se esquecem do que buscar,
Criam objetivos que destroem a si e aos outros;
E muitos regridem e se embrutecem,
Muitos se aprisionam no passado que não retorna.
Alguns... já chegam machucados...
(Como nos ferimos e nos curamos na jornada...)
Mas muitos crescem e são nossos exemplos
E, quando partem, deixam fluidos de paz,
Certeza de que valeu a pena o nascer e o viver,
A sensação de que nos esperam em algum lugar.
São como a primeira ave de arribação que chega
E a primeira que parte, e, como um guia, pousa
E levanta vôo e sabe onde é a próxima parada,
Onde aguardará seus companheiros de viagem,
Até pousarem no verdadeiro lar.
Somos como aves de arribação,
Somos seres de arribação,
A caminho do pouso final, o Criador.
Um Haicai de Duque de Caxias/RJ
Alexsandro Geraldo de Almeida Pereira
Maravilhoso
o amor a natureza
banha a nós mesmos.
Uma Trova de Porto Alegre/RS
Delcy Canalles
A bonita escadaria
que parece não ter fim,
é um convite à poesia
que existe dentro de mim!
Um Acróstico de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
DOMINAÇÃO
Minha vontade é beber
As letras do seu alfabeto pessoal,
Retirar dele as palavras e roubar do
Zodíaco o seu signo e
Ocultá-los no meu coração.
Soprar ao vento o meu amor,
E esvoaçar o seu sentimento,
Tornar palpável o momento de
Tocar sua alma
E uni-la à minha.
Teria então a felicidade,
O amor total me preenchendo,
Renegando sua vontade,
Refazendo sua personalidade,
Escondendo suas verdades,
Só para você ser eternamente meu.
Recordando Velhas Canções
Eu daria a minha vida
(jovem guarda, 1968)
Martinha
Eu daria a minha vida
para te esquecer.
Eu daria a minha vida
pra não mais te ver.
Já não tenho nada
a não ser você comigo.
Sei que é preciso esquecer
mas não consigo.
Eu daria a minha vida
para te esquecer.
Eu daria a minha vida
pra não mais te ver.
Digo a tudo mundo
nunca mais verei
aqueles olhos tristes
que eu tanto amei
Mas existe em mim
um coração apaixonado
que diz só pra mim
Que eu daria a minha vida
pra você voltar.
Que eu daria a minha vida
pra você ficar.
Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez
Engenheiro da Ciência,
construindo a Terra e o Mar,
Deus nos deu a inteligência
para tudo projetar.
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
FUTEBOL DE GATOS
Quer ver confusão?
É pegar uma bolinha,
De verdade ou de papel,
E jogar no chão.
E quatro gatinhos,
Cindi, Samanta,
Glove e Tiger Angel
Aparecem de supetão,
Correndo atrás da bola,
Fazendo um jogão.
Futebol de gatos,
Um cai, outro rola,
Um joga, o outro pega,
A bola vai longe,
Todos correm atrás.
Um se julga o goleiro
E esconde a bola, matreiro,
Sob o corpo, todo gabola.
Os outros esperam calminhos.
Parece que foi uma trégua,
Pois, aquele solta a bola,
E, o segundo tempo, eles jogam.
Mas uma briga se desenrola,
Para a bola já nem ligam,
E só param os gatinhos,
Quando alguém lhes joga a bola,
Ou Mamãe Tiazinha os chama para o ninho.
Finalmente ficam quietinhos,
Comportadinhos...
Dormindo!
Um Haicai de Magé/RJ
Robson Esmael Siqueira
(15 anos)
Barulho distante.
O trovão de inverno soa
Em dias de chuva.
Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Renato Alves
Não temas o precipício,
é firme a escada suspensa.
Subir pede sacrifício,
mas a vista recompensa!
Um Poema de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro
SE ME QUISESSE
 Queria ser uma estrela do mar
Berço onde a sonhar você adormece
Ondas de espumas para lhe acalmar
Se, longe de mim, o dia escurece.
 Queria ser um pássaro e cantar
Uma canção ao dia que amanhece
Ser um som suave para lhe acordar
Ser-lhe da vida o que lhe contentasse.
 Queria ser tecelã e me haver
Na malha em que seu corpo se vestisse;
Ser-lhe a alimentação que vai comer.
 Queria ser metade que pudesse
(paixão embalando um sonho de ser)
Ser seu todo imortal... se me quisesse.
Hinos de Cidades Brasileiras
Carangola/MG
Rico Solo, ricas fontes
Com pureza de cristal. . .
Verdes vales, verdes montes
Formam um todo especial
Com tal porte, tal moldura,
Tua imagem não se esquece
Tens magia que perdura,
Tens encanto que embevece
Cidade hospitaleira,
Laboriosa e gentil...
Fascinante feiticeira,
Joia rara do Brasil (bis)
Carangola, Carangola,
Foste a teia de meu ninho
E és a luz, a grande Escola
Que norteiam meu caminho.
És pão farto sobre a mesa,
És a graça dos salões...
E daí a real beleza
Que cativa os corações
Cidade hospitaleira,
Laboriosa e gentil...
Fascinante feiticeira,
Joia rara do Brasil (bis)
Esta terra providente
Tem notória tradição
Pela Pátria espalha gente
De talento e projeção
Carangola, segue em frente
Esta bela trajetória
Pois teus dotes são semente
Para as páginas da história
Lá rá lá lá lá rá rá
Mi Ré Dó Fá Lá Dó Si...
Fascinante feiticeira,
Joia rara do Brasil (bis)
Uma Trova de Barreiro/Portugal
Victor Batista
Mesmo feita de madeira
toda ponte é uma passagem,
quer se queira ou não se queira
que nos leva à outra margem.
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Chuvisco Biográfico da Poetisa
        Angela Togeiro Ferreira, é natural de  Volta Redonda/RJ,  radicada em Minas Gerais desde jovem, residiu em  Rio Preto,  Congonhas, Barroso, Conselheiro Lafaiete e  hoje está em Belo Horizonte.  Escritora,  artista  plástica,  formada em Administração de Empresas em Belo Horizonte/MG, com os cursos de Pós-Graduação em Política   Econômica   e   Finanças   das  Empresas e Pós-Graduação em Administração de Recursos Humanos, ambos em Belo Horizonte/MG.
            Como escritora, possui prêmios literários em prosa e verso em quase todos os estados do território brasileiro e internacionais em Portugal, Espanha, Inglaterra, Itália, EUA, Canadá, México, Argentina, Chile, Uruguai. Participa de antologias nacionais e internacionais em português, inglês, espanhol, italiano e francês, como convidada ou decorrente de concursos literários, lançadas no Brasil, e em diversos países do exterior.
            É verbete em diversos dicionários, entre eles, no “Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras”, de Nelly Novaes, “Dicionário de Mulheres”, da Profª Hilda Agnes Hübner Flores  e na “Enciclopédia de Literatura Brasileira”, de Afrânio Coutinho e Jô Galante de Sousa.
            Diploma de Mérito Cultural 2002, da UBE-União Brasileira de Escritores/RJ e Diploma de Destaque Internacional 2005 da AMULMIG – Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. Título de "Doutora em Filosofia Universal/Ph.I. - Filósofa Imortal - Honoris Causa pela Academia de Letras do Brasil e Conalb - Conselho Nacional das Academias de Letras do Brasil, Brasília/DF, 2010.
            Membro de diversas entidades culturais: Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, Academia Feminina Mineira de Letras, as duas com sede em Belo Horizonte/MG, Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette - Conselheiro Lafaiete/MG, InBrasCI -  Instituto Brasileiro das Culturas Internacionais - Governadoria de Minas Gerais, sede em Mariana/MG; Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil - Mariana/MG. Sociedade Brasileira dos Poetas Aldravinistas - sede em Mariana/MG, Associação Profissional dos Poetas no Estado do Rio de Janeiro/RJ, Grêmio Literário de Autores Novos - Volta Redonda/RJ, Sociedade de Cultura Latina do Brasil/Mogi das Cruzes/SP; Membro Correspondente da Academia Cachoeirense de Letras - Cachoeiro do Itapemirim/ES; Clube da Simpatia – Olhão/Portugal, Poetas del Mundo – Chile, ao Proyecto Cultural Sur, sede no Brasil em Bento Gonçalves/RS, e a Accademia Internazionale Il Convivio, Castiglione di Sicilia - Sicilia/Itália; Embaixadora Universal da Paz-Belo Horizonte/MG-Brasil, pelo Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix - Suisse/France.
            Alguns livros publicados:
            Contato Urbano – poesia; Pudim de claras com baba-de-moça – novela; Cavalo alado – contos; Trem mineiro – poemas; Na luz dos teus olhos – poesia; O Compositor – romance; Sou mulheres – poesia; Flagrantes do viver -  crônicas premiadas; Vitrines da vida - contos premiados, etc.
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A santa que mais incenso,
minha mãe, já bem velhinha,
sem que eu lhe diga o que penso,
meu pensamento adivinha...
A saudade, pensativa,
e alheia ao tempo que avança,
é uma cadeira cativa
onde a velhice descansa...
A tristeza aqui não mora!
Meu lar, à luz do Senhor,
feito de pedra – por fora,
por dentro é feito de Amor!
A vassoura do bom vento
é aquela que varre, enfim,
das ruas do pensamento,
o pensamento ruim...
Castigo é ter, apertado
entre as mãos, na despedida,
um lenço todo molhado
no cais-do-porto da Vida!
Cegos de amor, desprezados...
por este mundo de Deus,
meus olhos vivem fechados
depois da fuga dos teus!
Correndo, de sorte em sorte,
num desespero crescente,
a gente foge da Morte...
e a Vida foge da gente!...
Deus, trovador que se espelha
na inspiração mais ditosa,
compôs a trova vermelha
e deu-lhe o nome de rosa.
Dona Saudade, velhinha,
bordadeira paciente,
não tem agulha nem linha,
mas borda os sonhos da gente!
É libertando a saudade,
quando me encontro contigo,
que estendo a mão da amizade
para prender um amigo!
Fui vaqueiro!... Hoje, sou monge...
Minha saudade, depois,
ficou mugindo, lá longe...
na voz dolente dos bois!...
“Jeca Tatu” se consome
na eterna queixa de um ai:
– “Meu Deus, eu morro de fome!”
Responde a Terra: – “Plantai!”
Mantendo a alegria acesa,
o teu olhar, tão profundo,
criança, apaga a tristeza
dos olhos tristes do mundo!
Na dança e na contra-dança
desta vida, que se evade,
o sol nascente é esperança,
o por-do-sol é saudade!
Na fogueira abandonada,
vejo esta imagem, tristonho:
- saudade é a lenha queimada
no fogo azul do meu sonho.
Não há mais doce alegria
do que lembrar, ao sol-posto,
de mamãe quando fazia
trovas de beijo em meu rosto.
Na vida, que nos consome,
quem tiver coração nobre,
não mata o pobre de fome,
matando a fome do pobre!
Numa alcova abandonada,
a saudade, penitente,
a noite inteira acordada,
orvalha os olhos da gente.
Nunca se apresse à conquista
de alguém de muita promessa...
que o amor, à primeira vista,
foge da vista, depressa!...
O Morro vive cansado!…
Sem pão, sem lar, sem escolas,
é um chapéu velho emborcado,
de tanto pedir esmolas!
Para o céu te levaria,
em troca do teu carinho,
se me ensinasses, Maria,
onde começa o caminho...
– Por que a Deus, a alma volvida,
agradeço o que me deu?!
– Porque me deu tanta vida,
que a Morte já me esqueceu!
- Por que a gente engana o tédio
quando a lembrança é ternura?!...
- Porque a saudade é o remédio
de um mal que não tem mais cura!
- Por que dormir docemente,
num travesseiro sem fronha?!
- Porque a humildade da gente,
quanto mais dorme... mais sonha!
- Por que matar um Poeta,
se é irmão de Deus,  quer viver?!
- Porque a Morte, analfabeta,
seus versos não sabe ler!
- Por que não se firma em pé
a alma descrente... abatida?!
- Porque, em se perdendo a Fé,
perde-se a vida da vida!
– Por que o Mal não tem segredo
e seu castigo está perto?!
– Porque, mais tarde ou mais cedo,
o Mal sempre é descoberto!
Por que o olhar de mãe, se ingrato
é o filho, nunca o magoa?!
- Porque revela o retrato
do coração que perdoa!
Por sobre as ondas serenas,
a gaivota, em seu compasso,
é uma tesoura de penas,
cortando o pano do espaço.
- Quem é Deus?!  Ninguém, no mundo,
ao certo dirá!  Por quê?
- Porque é o Mistério profundo
que a gente vê... mas não vê!
Quem vive cego de amor
– frase que trago de cor -
embora de olhos fechados,
enxerga a vida melhor.
Sábio é toda criatura
que vive da inteligência,
colhendo a espiga madura
do milho da experiência!
Saudade, vida da vida
de um sonho que se desfez.
É uma vontade incontida
de sonhar tudo outra vez!
Sem te esperar, desespero
se te procuro esquecer...
Pois quanto menos te quero,
mais te quero, sem querer!
Sou trevas!... Mas, se, a contento,
bebo luzes... ao bebê-las,
no luminoso momento,
eu viro noite de estrelas!
Teu amor não tem segredo,
criança. Teu coração
até parece um brinquedo
que passa de mão em mão…
Teus olhos, cor de esperanças,
fogem... Teimoso, os persigo!...
- Parecem duas crianças
brincando de amor comigo.
Três Marias, três amores
passaram pelos meus dias...
Ficou Maria das Dores,
- a dor maior das Marias!
Tu vives andando a esmo
por distâncias… e eu, aqui,
quando me abraço a mim mesmo,
é com saudades de ti.
Venho de longe… e pressinto
que para longe prossigo…
– Sem dizer tudo o que sinto,
eu sinto tudo o que digo.
___________________________
            Onildo Barbosa de Campos descendente de ilustre família de poetas baianos, nasceu na histórica cidade de Cachoeira, a 21 de abril de 1924, berço de Castro Alves. Filho do poeta Jacinto de Campos, o consagrado autor de Penumbras e Clarões, e de dona Maria Madalena de Campos, é, ainda, sobrinho dos poetas e romancistas Astério de Campos e Sabino de Campos. Augusto Astério de Campos, Maria Celeste de Campos e Terezinha de Jesus de Campos, seus irmãos, são poetas e trovadores.
            Funcionário aposentado do Ministério da Justiça. Bacharel em Ciências e Letras. Técnico de Administração, cursou Relações Públicas. Estudou Direito, não concluindo, em virtude de enfermidade física e problemas financeiros.
            É autor dos Hinos Oficiais da Associação Federal de Polícia, da Associaççao dos Músicos Militares do Brasil e da Academia Brasileira de Trova - A Casa de Adelmar Tavares – sodalício de que é Sócio Benemérito, idealizador e fundador, juntamente com outros intelectuais. Pertence a inúmeras instituições lítero-culturais.
            Foi redator de "O JORNAL", órgão líder dos Diários Associados, no Rio de Janeiro.
            É portador de inúmeras Medalhas e Troféus conquistados em torneios literários, além do "Colar do Mérito Cultura Revista Brasília/ 20 anos;         Medalhas "E. D’ Almeida Victor", "Assis Chateaubriand" e "Tiradentes". Esta é a mais alta homenagem prestada pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). Comenda Mérito Juscelino Kubitschek.
            Foi více-Presidente da Academia Brasileira de Trova, que tanto amou e cujo órgão de divulgação - O ADELMARISTA - foi por ele fundado, juntamente com o saudoso poeta e jornalista Symaco da Costa.
            Onildo publicou vários livros em prosa e em versos.
            Faleceu em 2002, no Rio de Janeiro/RJ.
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Profa. Ana Suzuki
Aula 8
Que será kigologia?
         O haicai é um pouco complexo, principalmente quanto ao kigô.
         O que era mesmo o kigô?
         É o termo que indica a estação do ano, lembram-se?
         Pois é, onde já se viu dificuldade maior, para quem mora em centro de cidade, que ficar observando a natureza? A gente sabe quando floresce a quaresmeira, quando é Natal ou Páscoa, mas quando será que floresce a suinã e que diabo é a sibipiruna?
         Para facilitar a vida do haijin (haicaísta), foi criada a Kigologia, que nada mais é que uma espécie de glossário dos termos referentes a cada estação do ano.
         A melhor fonte disponível, com certeza, é o livro "Natureza - Berço do Haicai", de H. Matsuda Goga e Teruko Oda, editado em 1996 pela Empresa Jornalística Diário Nippak Ltda, em Edição Comemorativa do Centenário de Amizade Brasil-Japão. Um kigô pode denotar fenômeno atmosférico, geográfico, do calendário, da flora, da fauna, qualquer coisa pertinente à natureza.
         Primavera: gorgeio, trinado, bem-te-vi, setembro, outubro, novembro, magnólia, flor de pessegueiro, lírio branco, lírio-do-brejo, lírio-da-paz, açucena, Semana da Pátria, Dia dos Animais, Dia de Finados, Dia da Árvore, Sete de Setembro, queimada, rodeio, pipa, primavera, catavento, flor, flores, ipê amarelo, ipê branco, primaveril.
         Verão: Ano Novo, piracema, calmaria, trovão, trovoada, aguaceiro, chuva de granizo, arco-íris, pororoca, enchente, inundação, lambari, manjuba, mosquito, pernilongo, mosca, inseto, dezembro, janeiro, fevereiro, verão, antúrio, mandacaru, cacto, samambaia, broto de bambu, Festa de Iemanjá, Carnaval, agenda nova, agenda velha, Natal, Papai Noel, Sinos de Belém, jangada, jangadeiro, sorvete, estio, estival.
         Outono: frio matutino, tarde outonal, estrela cadente, cerração, neblina, céu limpo, orvalho, sereno, bruma, libélula, robalo, sardinha, manacá, quaresmeira, outono, Páscoa, março, abril, maio, flor-de-maio, Semana Santa, Dia da Paixão, Dia do Índio, Dia das Mães, pamonha, espantalho, curau, safra, Dia de Tiradentes, outonal.
         Inverno: inverno, junho, julho, agosto, seca, frio, frente fria, vento frio, neve, nevasca, poluição, coruja, urubu, atum, ipê roxo, ipê rosa, morango, pitanga, paina, balão, canjica, quentão, casaco, poncho, manta, tosse, pipoca, rojão, Dia de Santo Antonio, Dia de São João, Dia de São Pedro, festa junina, traje caipira, folha seca, boina de lã, invernal, hibernal.
         Para quem não mora no campo, uma boa fonte de inspiração pode ser a própria internet, com seus fantásticos papéis de parede, que a gente pode achar de graça em vários sites, sendo um deles o www.baixaki.com.br .
continua… Diferença entre Tanka e Haicai
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Folclore Indígena Brasileiro
A Lenda do Runipan

Na mitologia dos índios Kashinawá, no Alto do Bode, subindo o Rio Jordão, no Acre, a origem do cipó Runipan (Ayawaska) tem um destaque especial, sua narrativa é rica em detalhes, onde os animais se transformam em gente e vice-versa.
         Yo buié Nawa Tarani, um antepassado Kashinawá, foi à mata um dia procurar genipapo para pintar o corpo de seu filho recém-nascido.
         Na beira do lago, ele encontrou um genipapeiro coberto de frutas. Subiu na árvore carregada e começou a sacudir para fazer cair as frutas.
         De repente, ele ouviu um barulho debaixo dele. Viu então uma anta a roer as frutas do chão. Divertindo-se, ele ficou quietinho em cima da árvore, só olhando.
         Ora, tudo começou a ficar estranho quando a anta, após ter roído algumas frutas, começou a jogar elas no meio do lago, gritando:
         - Toma aqui esses genipapos do meu roçado!
         Após alguns minutos, uma jovem saiu do fundo d’água, carregando um tibungo cheio de caiçuma de banana. A anta estava escondida atrás do tronco de uma árvore. A jovem mulher se aproximou, tomou pé na terra e chamou:
         - Amigo, onde está você? Aonde se escondeu?
         Saindo do seu esconderijo, a anta disse:
         - Tô aqui! E então bebeu da bebida que a mulher ofereceu.
         Em seguida, a linda mulher se entregou à anta e eles se amaram. Do seu esconderijo, Yo buié Nawa Tarani não podia acreditar no que via.
         A mulher voltou para o fundo do lago e a anta para a mata. Yo Buié Tarani desceu da árvore, juntou ainda algumas frutas caídas e voltou para sua aldeia. Chegando em casa, deu as frutas para sua mulher, sem contar nada. Não quis comer a comida oferecida por ela. Em seguida, deitou em sua rede, onde ficou por muito tempo com os olhos abertos e perdidos. Ele não podia esquecer o que havia visto no lago. Como se estivesse enfeitiçado. Sua mulher ficou preocupada, mas ele disse estar um pouco doente.
         No dia seguinte bem cedo, Yo Buié juntou suas armas como se fosse caçar, e saiu na direção do lago. Passando debaixo do genipapeiro, ele juntou algumas frutas, roeu elas com os dentes e jogou no lago dizendo:
         - Toma aqui os genipapos do meu roçado!
         Depois correu e se escondeu atrás de uma árvore. E aconteceu que a linda mulher apareceu, como na véspera, com seu tibungo de caiçuma. Saiu for a d’água, colocou o tibungo na terra e chamou:
         - Amigo, onde está você? Aonde se esconde?
         - Estou aqui, respondeu Yo Buié, e jogou-se sobre ela, tentando pegar à força. Mas ela se defendeu e eles rolaram pela terra até derrubarem a bebida.
         De repente, a mulher se transformou numa cobra e enrolou-se no corpo dele. Mas ele não se deixou pegar. Ela tentou ainda escapar de Yo Buié, transformando-se num cipó espinhoso. Mas ele não a soltava de jeito nenhum. Então ela se transformou em aranha, serpente, fogo, mas sem nenhum resultado. Yo Buié não largava dela. E na confusão dessas mudanças, a cabeça da mulher reapareceu e perguntou:
         - Quem é você? E o que deseja de mim?
         Mas ele não respondeu, pois estava segurando a presa com os dentes.
         A mulher então voltou a sua forma humana até os peitos, mas continuou sem ter a resposta de Yo Buié. Resolveu então tomar forma inteiramente humana, da cabeça aos pés.
         - Bem, disse. Agora diga-me o que quer de mim. Por que não me solta para conversarmos feito gente?
         Yo Buié explicou então que tinha visto ela e a anta fazendo amor e que a partir daí passou a desejar ela para mulher.
         - Por que pegou-me pela força em vez de falar claro comigo? Olhe, você me fez derramar toda a caiçuma.
         Então ela pegou o que restava dentro do tibungo e fê-lo beber, enquanto carinhosamente livrava-se dele. Depois eles repousaram um pouco e acariciando Yo, a mulher perguntou:
         - Quem é você? Tem mulher e filhos?
         - Não, mentiu ele. Não tenho família.
         - Então, por que você não fica comigo? Eu serei sua mulher e teremos muitos filhos. Levarei você comigo para minha casa.
         Ela colheu em seguida todos os tipos de ervas e fez delas um suco. Depois derramou nos olhos, orelhas e em todas as juntas do corpo de Yo buié Nawa Tarani.
         Então a mulher disse: - Segure nos meus cabelos!
         E os dois mergulharam no lago. Chegando lá no fundo, encontraram uma roça de bananeiras e uma casa onde a mulher vivia com seus parentes. Eram as cobras e serpentes, habitantes do lago.
         Porém, antes de entrar na aldeia, a mulher disse a Yo Buié:
         - Esconda-se aqui e espere-me, que eu vou prevenir meus parentes de sua chegada e explicar a eles que você é meu marido. Não tenho medo que voltarei logo.
         O homem ficou só, ouvindo os barulhos estranhos e assustadores que saíam das águas do lago. Eram as cobras gigantes agitando-se ao redor da mulher. Rapidamente ela apareceu, tomou Yo Buié pela mão e apresentou-o como seu marido na grande casa dos habitantes do lago. E deste dia em diante Yo Buié e a mulher-cobra passaram a viver juntos como marido e mulher.
         Algum tempo depois, as cobras e serpentes do lago resolveram tomar cipó. Yo Buié perguntou a sua mulher se ela também iria tomar cipó.
         - É claro, disse ela.
         - E eu, poderei também?
         - Não, por que você terá muito medo. Você verá cobras e serpentes e pensará que elas querem te devorar. Então você gritará como um louco. Não se meta com isso. São nossos costumes e não os seus.
Mas Yo Buié insistiu tanto que terminaram por aceitar ele no círculo de cobras para tomar o cipó.
         Logo nas primeiras mirações, Yo Buié se pôs a gritar - Socorro, as cobras querem me engolir!
         Na mesma hora sua mulher se transformou em cobra, enrolou-se carinhosamente nele, aproximou a cabeça de sua orelha direita e cantou docemente. A sua sogra aproximou-se e fez o mesmo, cantando em sua orelha esquerda. Enfim, seu sogro se enrolou nos três e, balançando seu rosto na frente de Yo Buié, acompanhou também a canção.
         Um dia quando eles repousavam em suas redes, as frutas do genipapo roídas começaram a cair dentro do lago - a anta estava de volta.
         Como a jovem mulher não respondeu a seus apelos, a anta entrou n’água, mergulhou e permaneceu debaixo d’água muito tempo, como aliás faz até hoje. Assim mergulhada, a anta chegou bem perto da roça. A sogra de Yo Buié foi então a seu encontro explicar que sua filha não era mais livre. Pediu para a anta parar de procurar sua filha, e a anta não insistiu mais.
         A vida seguiu muito feliz debaixo das águas. Os esposos tiveram quatro filhos: dois meninos e duas meninas.
         Neste mesmo lago vivia Iskin, um pequeno peixe encouraçado. Um dia, Iskin foi nadando até um igarapé formado pelas águas do lago e encontrou na margem a antiga mulher de Yo Buié. Esta acreditava estar viúva e não parava de reclamar a falta de seu marido. Com tantos filhos para criar, ela sobrevivia com a ajuda de seus parentes e amigos da aldeia.
         Nesse dia ela tinha ido ao igarapé para tentar pegar algum peixe com as mãos, como fazem as mulheres. E enquanto pescava, chorava alto, contando detalhe por detalhe de sua desgraça. Nisso, ela quase pegou Iskin pela barbatana de couro que protege sua cabeça.
         - Ah! Gritou Iskin, jogando seu corpo para trás. E se ele conseguiu escapar da mulher, foi com o preço de deixar sua barbatana presa entre os dedos dela.
         Quando ela se afastou, Iskin voltou ao lago. Ele não estava nada satisfeito com o que tinha ouvido. Foi direto onde estava Yo Buié para jogar sua raiva sobre ele.
         - O que é que você está fazendo aqui no lago?
         Gritou Iskin. Você nunca nos falou de sua outra família que está morrendo de fome na terra. Eu encontrei sua mulher. E foi ela quem arrancou minha barbatana! E talvez você nem saiba, mas ela e seus filhos da terra estão todos morrendo de fome, vivendo com a ajuda dos amigos. E você aqui, dando de comer às pessoas que não são nem da sua espécie.
         Yo Buié então abaixou a cabeça e compreendeu todo o mal que tinha feito à sua família da terra.
Mas como farei para sair daqui? Suspirou ele. Se eu não posso nem mais viver ao ar livre?
         - Eu vou te ajudar, disse Iskin. Mas prometa para mim que não dirá nada a ninguém.
         - Prometo, disse Yobuié.
         Então Iskin colheu muitas ervas e jogou suco nas orelhas, olhos e em todas as juntas do corpo de Yobuié. Depois, levou ele até as margens do lago. Em seguida, Iskin abandonou o lago e foi viver no leito de um rio.
         Quando Yobuié chegou à sua aldeia, foi logo recebido com espanto de alegria por todos. - Eu pensava que você estava morto há muito tempo! Disse sua mulher.
         - Não, eu não estava morto. Foram as cobras que me raptaram e me prenderam entre elas. Hoje é que consegui fugir. Esconda-me porque tenho medo delas virem me buscar.
         Yobuié pendurou sua rede no ponto mais alto da casa e foi dormir meio assustado.
         Então as águas do lago começaram a se agitar e transbordaram em ondas que iam uma a uma inundando a aldeia.
         As cobras apareceram na superfície para chamar Yobuié. Como ele não aparecia, sua família do lago terminou por voltar para o fundo das águas que por fim baixaram ao nível normal.
         Era a família das cobras que desta vez estava triste e com dificuldades, sentindo a falta de Yobuié.
         Depois de algum tempo escondido lá em cima em sua rede, Yobuié resolveu ir caçar para ajudar a sua família da terra, que sentia fome. Pegou seu arco e flecha e se arrumou para sair. Sua mulher, com medo, fez todo o esforço para ele desistir da idéia.
         - Não tenha medo, dizia Yobuié.
         E ele partiu para caçar. A primeira caça que avistou foi um pássaro de crista vermelha. Atirou uma flecha, mas o pássaro voou. A flecha foi então cair na água a dois metros da margem do lago. E Yobuié resolveu ir buscar de qualquer maneira.
         Logo que pôs os pés n’água, deu de cara com uma de suas filhas cobras - Você aqui?
         Mas sua filha não respondeu. E com muita raiva perguntou - por que você abandonou minha mãe, meus outros irmãos, meus avós e eu?
         E como seu pai, de cabeça baixa, não deu resposta, ela gritou:
         - Já que é assim, nós vamos comer você todinho, papai.
         E a filha cobra atacou o pé de Yobuié, mas como era muito pequena ainda, não conseguiu comer mais que o dedão. Seu pai ficou paralisado de dor. Ela então chamou seus irmãos para ajudar a comer seu pai.
         E ferozmente eles tentaram comer Yobuié, mas não conseguiram nem mesmo engolir metade de seu pé com suas gargantas pequeninas de filhotes.
         Chegou então sua mulher, que conseguiu, cheia de raiva, devorar Yobuié até a metade das pernas.
Então deu lugar à sua sogra, cobra gigante, que num só bote devorou seu genro até a cintura. Quando o sogro chegou, antes de começar a comer seu genro, fez as devidas reprovações ao gesto de Yobuié. Este não conseguiu responder e, envergonhado, ficou de cabeça baixa.
         Foi então que chegaram seus parentes da terra, preocupados com sua demora. Como fazer para livrar Yobuié? Pensaram eles. Se atirarmos flechas nas cobras, acabaremos por matar ele também.
         - Ah, já sei, disse um deles. Vamos esmagar o rabo da cobra, ela acabará por abandonar Yobuié.
E assim foi feito. A cobra ferida fugiu e os homens puderam ainda salvar Yobuié e levar ele para a aldeia. Mas daquele dia em diante, ele ficou paralítico dos ombros para baixo.
         Pouco tempo depois, sentindo-se enfraquecido e próximo da morte, Yobuié reuniu em redor seus parentes e amigos.
         - Enquanto eu estava debaixo das águas, as cobras me ensinaram a preparar e tomar esta bebida que é o cipó. Eu não quero morrer sem passar para vocês o meu segredo:
         - Corram à mata e juntem todos os cipós que encontrarem.
         E todos partiram, e quando voltaram, vinham carregados de muitas espécies de cipós.
         Yobuié examinou cada cipó, dizendo - Não é este! Até que por fim ele gritou - É esse aqui! Por sorte haviam encontrado um pedaço do verdadeiro cipó.
         Yobuié disse ainda: - Isto não é suficiente. Tragam-me agora as folhas de todas as árvores pequenas que vocês encontrarem na mata.
         E a busca recomeçou. O doente examinava com muita paciência todas as folhas que eram trazidas e suspirava: - Não, ainda não é esta!
         Até que um dia ele gritou: É esta aqui! E ele mostrou a folha do arbusto que chamamos Cauá (ou chacrona).
         Nosso antepassado amassou então os talos do cipó, meteu-os numa panela com água e juntou as folhas e pôs os dois para ferver.
         Após o cozimento, era coado e posto para esfriar. À noite,eles se reuniram todos, beberam a bebida e tiveram muitas mirações!
         Ao saírem daquele estado provocado pela bebida, Yobuié disse:
         - Eu tive a miração da minha morte bem próxima.
         E três dias depois Yobuié morreu.
         E foi depois desse dia que todos nós passamos a beber cipó em grupo. Pois é pelo poder do canto que mantemos distância de nós mesmos, de maneira que podemos ver na miração todas as coisas do presente, passado e futuro e do além, que não podemos ver com nossos olhos da carne.
Fonte:
http://www.xamanismo.com/lendas.asp. Adaptação da lenda do livro “A Verdadeira Estória dos Kachinawá”, de André M. D’Ans
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José de Alencar
DESCULPAI-ME!

     Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor. Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!
     Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.
     Eis o caso.
     Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.
     Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando...
     Talvez não acrediteis.
     Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda, coitadinha, e saiu intacta e pura. Não trazia nem uma niilidade de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde.
     O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério, quando a pena deu um passo, creio que temperou a garganta, e pediu a palavra.
     Estava perdido!
     Tinha uma pena oradora, tinha discussões parlamentares, discursos de cinco e seis horas. Que elementos para não trabalhar!
     Nada; era preciso por um termo a semelhante abuso, e tomar uma resolução pronta e imediata.
     Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.
     O meio era bom, e sortiu o desejado efeito como sempre.
     Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa dissidência.
     A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial quand même. E ambos tão decididos nas suas opiniões, que não havia meio de fazê-los voltar atrás.
     Era impossível, pois, evitar uma discussão; resignei-me a ouvir os prós e os contras deste meu pequeno parlamento.
     A pena do meu amigo fez um discurso muito desconchavado, a falar a verdade. Por mais que lho tenha dito, não quer acreditar que a oratória não é o seu forte; tirando-a da mesa e do papel não vale nada.
     Enquanto, porém, ela falava, o tinteiro voltava-lhe as costas de uma maneira desdenhosa, o que não achei bonito. Estive quase chamando-o à ordem; mas não me animei.
     Chegou finalmente a vez de falar ele, e defendeu-se dizendo que todas as penas faziam oposição aos tinteiros logo que estes lhes recusavam o elemento para trabalhar, e não lhes davam a tinta necessária para escrever, sem a qual ficavam a seco.
     - C'est trop fort! gritou a pena do meu amigo, que gosta de falar em francês. Quebro os meus bicos antes do que receber uma só gota de tinta em semelhante tinteiro.
     E, se o disse, melhor o fez. Não houve forças que a fizessem molhar os bicos no tinteiro e escrever uma só palavra com aquela tinta.
     Atirei-a de lado, abri a gaveta, e tomei um maço de penas que aí havia de reserva.
     Mesma coisa: todas elas tinham ouvido, todas se julgavam comprometidas a sustentar a dignidade de sua classe.
     Por fim, perdi a paciência, zanguei-me, e, como já era mais de meio-dia, larguei-me a toda pressa para a casa, a fim de escrever alguma coisa que pudesse fazer as vezes de um folhetim.
     Mas uma nova decepção me esperava.
     A minha pena, de ordinário tão alegre e tão travessa, a minha pena, que é sempre a primeira a lançar-se ao meu encontro, a sorrir-me a dar-me os bons dias, estava toda amuada, e quase escondida entre um maço de papéis.
     Quanto ao meu tinteiro, o mais pacato e o mais prudente dos tinteiros do mundo, este tinha um certo ar político, um desplante de chefe de maioria, que me gelou de espanto.
     Alguma coisa se tinha passado na minha ausência, algum fato desconhecido que viera perturbar a harmonia e a feliz inteligência que existia entre amigos de tanto tempo.
     Ora, é preciso que saibam que há completa disparidade entre esses dois companheiros fiéis das minhas vigílias e dos meus trabalhos.
     O meu tinteiro é gordo e barrigudo como um capitão-mor de província. A minha pena é esbelta e delicada como uma mocinha de quinze anos.
     Um é sisudo, merencório e tristonho; a outra é descuidosa, alegre, e às vezes tão travessa que me vejo obrigado a ralhar com ela para fazê-la ter modo.
     Entretanto, apesar desta diferença de gênios, combinavam-se e viviam perfeitamente. Tinha-os unido o ano passado, e a lua de mel ainda durava. Eram o exemplo dos bem casados.
     Façam, portanto, ideia do meu desapontamento quando comecei a perceber que havia entre eles o que quer que fosse.
     Era nada menos do que a repetição da primeira cena.
     Felizmente não veio acompanhada de discussões parlamentares, mesmo porque na minha mesa de escrever não admito o sistema constitucional.
     É o governo absoluto puro. Algumas vezes concedo o direito de petição; no mais, é justiça a Salomão, pronta e imediata.
     A minha pena, como as penas do meu amigo, como todas as penas de brio e pundonor, tinha declarado guerra aos tinteiros do mundo.
     Não havia, pois, que hesitar.
     Lembrei-me que ela me tinha sido confiada há coisa de nove meses pura e cândida, e que assim a devia restituir. Lembrei-me de muitas outras coisas, e tomei uma resolução inabalável.
     Atirei o meu tinteiro pela janela fora.
     A pena saltou, de tão alegre e contentinha que ficou. Fez-me mil carícias, sorriu, coqueteou, e por fim, fazendo-me um gestozinho de Charton no Barbeiro de Sevilha, um gestozinho que me mandava esperar, lançou-se sobre o papel e começou a correr.
     Escrevia sem tinta.
     Quero dizer, desenhava; esgrafiava sobre o papel quadros e cenas que eu me recordava ter visto há pouco tempo; debuxava flores, céus, estrelas, nuvens, sorrisos de mulheres, formas de anjos, tudo de envolta e no meio de uma confusão graciosa.
     E eu nem me lembrei mais de escrever, e fiquei horas esquecidas a olhar esses quadros, que decerto não conseguirei pintar-vos.
     Recordo-me de um.
     Passava-se na segunda-feira, na baía de Botafogo.
     A uma hora o tempo fez umas caretas, como para meter susto aos medrosos.
     Daí a alguns momentos o sol brilhou, o azul do céu iluminou-se, e uma brisa ligeira correu com os vapores do temporal que ainda toldavam a atmosfera.
(1855)
Fonte:
ALENCAR, José de. Ao correr da pena.  Edições Melhoramentos,
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    José Martiniano de Alencar (Messejana/CE, 1 de maio de 1829 — Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1877). Romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político brasileiro. Foi um dos maiores representantes da corrente literária indianista. Destacou-se na carreira literária com a publicação do romance "O Guarani", em forma de folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, onde alcançou enorme sucesso. Seu romance "O Guarani" serviu de inspiração ao músico Carlos Gomes, que compôs a ópera O Guarani. Foi escolhido por Machado de Assis, para patrono da Cadeira nº 23, da Academia Brasileira de Letras. Alencar consolidou o romance brasileiro, ao escrever movido por sentimento de missão patriótica. O regionalismo presente em suas obras, abriu caminho para outros sertanistas, preocupados em mostrar o Brasil rural. Criou uma literatura nacionalista onde se evidencia uma maneira de sentir e pensar tipicamente brasileiras. Suas obras são especialmente bem sucedidas quando o autor transporta a tradição indígena para a ficção. Tão grande foi a preocupação de José de Alencar em retratar sua terra e seu povo que muitas das páginas de seus romances relatam mitos, lendas, tradições, festas religiosas, usos e costumes observados pessoalmente por ele, com o intuito de, cada vez mais, abrasileirar seus textos. Casado com Ana Cochrane. Era filho do senador José Martiniano Pereira de Alencar e sua mãe era Bárbara de Alencar, irmão do diplomata Leonel Martiniano de Alencar, barão de Alencar e seu outro irmão era Tristão Gonçalves, e pai de Augusto Cochrane de Alencar. Morreu aos 48 anos no Rio de Janeiro vítima da tuberculose, em 12 de dezembro de 1877.
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Lygia Fagundes Telles
VENHA VER O PÔR DO SOL
         ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
         Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos crescidos e desalinhados, tinham um jeito jovial de estudante.
         - Minha querida Raquel.
         Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
         - Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que ideia, Ricardo, que ideia! Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima
         Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.
         - Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância...Quando você andava comigo, usava uns sapatões de sete-léguas, lembra?
         - Foi para falar sobre isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando as luvas na bolsa.
         Tirou um cigarro. - Hem?!
         - Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço rindo.
         - Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns cigarrinhos pilantras, azul e dourado...Juro que eu tinha que ver uma vez toda essa beleza, sentir esse perfume. Então fiz mal?
         - Podia ter escolhido um outro lugar, não? - Abrandara a voz - E que é isso aí? Um cemitério?
         Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
         - Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí como as criancinhas brincam sem medo - acrescentou, lançando um olhar às crianças rodando na sua ciranda. Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro. Sorriu. - Ricardo e suas ideias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
         - Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar um instante e te mostrarei o pôr do sol mais lindo do mundo.
         Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
         - Ver o pôr do sol!...Ah, meu Deus...Fabuloso, fabuloso!...Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr do sol num cemitério...
         Ele riu também, afetando encabulamento como um menino pilhado em falta.
         - Raquel minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
         - E você acha que eu iria?
         - Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um instante numa rua afastada...- disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou sério. E aos poucos, inúmeras rugazinhas foram se formando em redor dos seus olhos ligeiramente apertados. Os leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta. Não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio desatento -Você fez bem em vir.
         - Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
- Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
- Mas eu pago.
         - Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não pode haver passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
         Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
         - Foi um risco enorme Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha juntos, então sim, quero ver se alguma das suas fabulosas ideias vai me consertar a vida.
         - Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado - prosseguiu ele, abrindo o portão. Os velhos gonzos gemeram. - Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
         - É um risco enorme, já disse . Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto enterros.
         - Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha medo...
         O mato rasteiro dominava tudo. E, não satisfeito de ter se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrando-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com a sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
         - É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente - exclamou ela atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada.- Vamos embora, Ricardo, chega.
         - Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde!
         Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
         - Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
- Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
         - É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
         - Ele é tão rico assim?
         - Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até o Oriente, meu caro...
         Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente escureceu, envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as rugazinhas sumiram.
         - Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
         Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
         - Sabe Ricardo, acho que você é mesmo tantã...Mas, apesar de tudo, tenho às vezes saudade daquele tempo. Que ano aquele! Palavra que, quando penso, não entendo até hoje como aguentei tanto, imagine um ano.
         - É que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que romance você está lendo agora. Hem?
         - Nenhum - respondeu ela, franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: - A minha querida esposa, eternas saudades - leu em voz baixa. Fez um muxoxo.- Pois sim.
         Durou pouco essa eternidade.
         Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja- disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando insólita de dentro da fenda -, o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as folhas...Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
         Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
         - Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim - Deu-lhe um rápido beijo na face. - Chega Ricardo, quero ir embora.
         - Mais alguns passos...
         - Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! - Olhou para trás. - Nunca andei tanto, Ricardo, vou ficar exausta.
         - A boa vida te deixou preguiçosa. Que feio - lamentou ele, impelindo-a para frente. - Dobrando esta alameda, fica o jazigo da minha gente, é de lá que se vê o pôr do sol. - E, tomando-a pela cintura: - Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
         - Sua prima também?
         - Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...Penso agora que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, como os seus.
         - Vocês se amaram?
         - Ela me amou. Foi a única criatura que...- Fez um gesto. - Enfim não tem importância.
         Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o
         - Eu gostei de você, Ricardo.
         - E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
         Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
         - Esfriou, não? Vamos embora.
         - Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
         Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Entre os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapos de um manto que alguém colocara sobre os ombro do Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
         Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naqueles restos da capelinha.
         - Que triste é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
         Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira.
         Sorriu melancólico.
         - Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação, certo?
         - Mas já disse que o que eu mais amo neste cemitério é precisamente esse abandono, esta solidão. As pontes com o outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
         Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
         - E lá embaixo?
         - Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó- murmurou ele. Abriu a portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze, como se fosse puxá-la. - A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
         Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se mais para ver melhor.
         - Todas estas gavetas estão cheias?
         - Cheias?...- Sorriu.- Só as que tem o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha mãe, aqui ficou minha mãe- prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido no centro da gaveta.
         Ela cruzou os braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
         - Vamos, Ricardo, vamos.
         - Você está com medo?
         - Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
         Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se para o medalhão frouxamente iluminado:
         - A priminha Maria Emília. Lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. Foi umas duas semanas antes de morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? Estou bonita?...- Falava agora consigo mesmo, doce e gravemente.- Não, não é que fosse bonita, mas os olhos...Venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.
         Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
         - Que frio que faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...
         Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
         - Pegue, dá para ver muito bem...- Afastou-se para o lado.- Repare nos olhos.
         - Mas estão tão desbotados, mal se vê que é uma moça...- Antes da chama se apagar, aproximou-a da inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente.- Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil oitocentos e falecida...- Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel - Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou-lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou o olhar para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio malicioso.
         - Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso? Brincadeira mais cretina! - exclamou ela, subindo rapidamente a escada. - Não tem graça nenhuma, ouviu?
         Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave, arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
         - Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! - ordenou, torcendo o trinco.- Detesto esse tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!
         - Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr do sol mais belo do mundo.
         Ela sacudia a portinhola.
         - Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente!- Sacudiu a portinhola com mais força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas. Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
         Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em leque.
         - Boa noite, Raquel.
         - Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... - gritou ela, estendendo os braços por entre as grades, tentando agarrá-lo.- Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos!- exigiu, examinando a fechadura nova em folha. Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor. Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando.
         - Não, não...
         Voltado ainda para ela, ele chegara até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas escancaradas.
         - Boa noite, meu anjo.
         Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente numa expressão embrutecida.
         - Não...
         Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
         - NÃO!
         Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra. Assim que atingiu o portão do cemitério, ele lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de roda.
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            Lygia Fagundes Telles é escritora brasileira. Romancista e contista, é a grande representante do pós-modernismo. Membro da Academia Paulista de Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa. O estilo de Lygia Fagundes Telles é caracterizado por representar o universo urbano e por explorar de forma intimista, a psicologia feminina. Lygia nasceu em São Paulo, no dia 19 de abril de 1923. Filha de Durval de Azevedo Fagundes, advogado, passou sua infância em várias cidades do interior, onde seu pai era promotor. Sua mãe, Maria do Rosário Silva Jardim de Moura era pianista. Formou-se em Direito e Educação Física, na Universidade de São Paulo porém, seu interesse maior era mesmo a literatura. Sua estréia oficial na literatura deu-se em 1944, com o volume de contos "Praia Viva". Em 1982 foi eleita para a Academia Paulista de Letras. Em 1985, tornou-se a terceira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras. Em 1987 é eleita para a Academia das Ciências de Lisboa. Entre os muitos prêmios que recebeu, destacam-se o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, em 1949; o Prêmio do Instituto Nacional do Livro, em 1958; o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por "Verão no Aquário", em 1965; o Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras, em 1973; o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do livro, com a obra "As Meninas", em 1974; o Prêmio Jabuti com a obra "Invenção e Memória", em 2001; e o Prêmio Camões em 2005, em Porto, Portugal.
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Zoé de Camaris
O SALTO DO SAPO
         "O príncipe desce do cavalo pronto para enfrentar a feiticeira que, sem fazer movimento, o mira com seus olhos incandescentes. Ele avança na sua direção decidido, a espada em punho, o cenho franzido. Em um segundo, cristaliza-se o tempo. A feiticeira observa, pupila de um gato sob o efeito do sol, a pequena figura de um sapo em seu primeiro salto".
         O sapo e a bruxa, a rã e a princesa. O príncipe e a feiúra, a metamorfose, a beleza. O sapo e a magia. As emoções aquáticas, o sexo. A sorte. Talismã, símbolo de fertilidade, a Mãe da Chuva. Resina erótica. Veneno mortal.
         Afinal, qual é a do sapo? Qual é o seu salto no imaginário simbólico?;
         Figurinha tarimbada nos contos de fada, símbolo ancestral da magia ou sinônimo de nojo e abjeção, esse pequeno animal é, no mínimo, surpreendente.
         Na magia, a rã é relacionada à Lua e o sapo ao severo Saturno, assim como a abelha seria uma espécie de antítese da vespa. Não há grimório que em algum momento não inclua o sapo ou a rã em suas receitas mágicas.
         Quem não se lembra do terrível feitiço que consiste em colocar o nome de uma pessoa 'desagradável' dentro da boca de um sapo alinhavando-a depois com um fio negro? O veneno é destilado como a secreção irritante que sai da sua pele...dizem que um dos efeitos desse encantamento é causar excesso de sudorese na vítima, provavelmente por causa da similar exudação do bichinho.
         O famoso magista Papus, cita um feitiço do não menos conhecido Cornélio Agrippa em que uma língua de rã d'água, colocada sobre a cabeça de uma pessoa, faz com que ela fale enquanto está dormindo. E o coração da rã, posto sobre o seio de uma mulher adormecida, provoca a revelação de todos os seus segredos - a rã desata a língua e o coração. Bem, seria melhor não ter revelado esse feitiço ... !! Já desatou a minha língua ...
         Bruxas e ciganas, não raro, gostam de ter sapos como animais domésticos. Dizem que o sapo pede para fazer parte da família impondo a sua presença, dia após dia, na soleira das portas. E um sapo doméstico é uma parafernália de sortilégios para caldeirão nenhum botar defeito: auxilia na leitura dos destinos, na meteorologia, nas magias de fertilidade. Em sagas populares o sapo personifica espíritos maternos protetores da casa.
         Um relato inquisitorial declara que meninas ciganas brincavam de pastoras e que seus rebanhos eram formados por sapos. Pode ser verdade, nada impede que crianças brinquem com o animal que estiver ao seu alcance. De qualquer forma é bom lembrar do estigma que acompanhava e acompanha o povo cigano e das alterações que o tribunal do Santo Ofício praticava nos relatos dos perseguidos por bruxaria e heresia. Era interesse da Igreja que as declarações se aproximassem o mais possível da imagem medieval - sapos pululando nos sabás diabólicos.
         Pessoalmente, acho o bichinho simpático, gosto da sua aparência fria e úmida; sua maneira de ficar imóvel e me surpreender com seus movimentos repentinos. Mas parece que essa não é a opinião vigente. Sapos não são amados.
         Para os algonquianos, esquimós e lapões, o sapo indicava a fusão de todos os vícios. Os tiroleses têm a máxima: "invejoso como um sapo". Ainda no Tirol, sapos são encarnações de pecadores, aqueles que fizeram um voto de peregrinação e não cumpriram. E por esse motivo, despertam a piedade dos cristãos.
         No mundo árabe, as mulheres que desejam ser mães usam colares com sapinhos de prata. Charles Leland, o grande estudioso da magia mediterrânea e do povo cigano, dizia possuir um desses colares, além de um anel também em prata no qual se via gravado um sapo em hematita - a hematita, apesar da sua cor cinza chumbo, é chamada de "pedra-do-sangue" devido ao seu alto teor de ferro. Esse anel, que reunia os pendores lunares e sangüíneos, foi considerado um poderoso amuleto.
         Na Baviera, onde o sapo representa o útero, existe até uma Virgem Maria-sapo. Como é costume agradecer pedidos atendidos por meio de "ex-votos" - réplicas em cera de partes do corpo do doente que apresentaram problemas - e como seria de "mau gosto" pendurar nas igrejas úteros feitos de cera, as mulheres depositavam pequenos sapos do mesmo material ao redor da estátua da Virgem Maria em agradecimento pela gravidez bem sucedida. Ou seja, em países rurais o sapo e a Virgem ainda guardam parentesco nos seus antigos aspectos ctônicos, sua ligação com a terra. Outro dado curioso e que corrobora nossa linha de pensamento, é que o sangue menstrual costumava ser recolhido em jarros com forma de sapos.
         Quem não se lembra da chuva de sapos nas cenas finais do filme Magnólia, unindo o destino dos vários protagonistas do filme? Eles explodem no pára-brisa, lotam as ruas - uma invasão de rãs é prevista no Apocalipse de São João (16, 13). Uma chuva de grandes sapos. O sapo e água, símbolo das emoções. Uma chuva simbólica? Devastando as emoções contidas?
         O que é a frase "engolir sapo" senão, trancar uma emoção dentro do peito? E que emoção, trazida por um beijo ou outra demonstração de amor e paixão é capaz de transformar sapos em príncipes?
         Ouvi falar, certa vez, de uma espécie de sapo com manchas amarelas nas costas. Vários adolescentes foram presos ao serem flagrados lambendo as costas dos animais. Com a boca na perereca. Sim, é isso mesmo, lambiam sapos. As leis foram severas para os infratores, multa alta ou prisão. Explico: Os sapos tinham propriedades alucinógenas. Suas secreções venenosas foram usadas para provocar alterações psíquicas. Será que não está aí a explicação para que sapos virem príncipes? Sim, porque sob o efeito de determinadas drogas, até sapo vira príncipe ... ou a princesa a se transforma em rã e se esconde em uma bromélia.
         Bruno Bettelheim, em seus estudos sobre os contos de fadas, inclui o sapo como um dos animais intermediários entre homem e a mulher no ciclo do noivo-animal. A Fera ainda irá seduzir a Bela. A jovem precisa superar a imagem do pai, ao qual devota um amor sublime, e aceitar o sexo com um homem, seu noivo. O sexo seria a porção animalesca e a interdição a ser superada - um novo tipo de amor, um novo ciclo na vida da heroína.
         Em "O Príncipe Sapo", dos Irmãos Grimm, o pano de fundo arquetípico é o crescimento feminino, a passagem da infância para adolescência. Uma menina deixa que sua bola de ouro caia em um poço fundo e fica muito chateada. Um sapo oferece ajuda e se prontifica a pegar a bolinha, desde que ela lhe ofereça algo em troca. A menina - que é uma princesa - oferece seus vestidos, suas coroa, sua jóias, mas isso o Sapo não quer. Ele quer ser seu amigo, seu companheiro. Comer do seu pratinho, beber do seu copinho e dormir na sua caminha, o amado sapinho. E sem pensar nas conseqüências ou já pensando em ludibriá-lo, a princesa topa a parada. Assim que o sapo lhe traz a bola, a menina foge. À noite, na hora do jantar, o sapo bate à porta exigindo o cumprimento da promessa. Seu pai, o Rei, que representa a consciência e a razão, ordena que a menina faça a vontade do animal, respeitando a palavra dada. A princesa acaba sendo obrigada a dormir com sapo - de quem morre de nojo - mas num acesso de fúria, o lança na parede. No lugar de um sapo mutilado aparece um belo príncipe. Um príncipe desencantado. Nesse momento, a menina transforma-se em mulher.
         Para Jung, a rã representa, entre os animais de sangue frio, uma antecipação do ser humano. Possivelmente a semelhança anatômica entre homens e mulheres, sapos, rãs e pererecas, saltou aos olhos do psicólogo suíço. E talvez aí se encontre uma pista bastante acertada sobre a mítica transformação do sapo em ser humano, a similaridade das formas, a Teoria das Assinaturas.
         O sapo, sua forma curiosa, seus saltos, sua magia, ativam a curiosidade e a imaginação.
A princesa olha, enfim, aquele bicho nojento, úmido, que aprendeu a amar. Sua pupila gelada e pequena cresce, dilata-se, esquenta. E derrete o cristal do tempo. O animal se torna uma pasta amorfa, mistura-se com a terra. E dessa mistura emerge o homem e a surpresa.
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              Zoe de Camaris (Monica Berger) é formada em Letras pela PUC-Paraná e pós-graduada pela UFOP-MG, onde foi professora de Lingüística. Trabalhou como redatora e revisora em agências de publicidade e foi coordenadora da Gibiteca de Curitiba. Em 1991 foi convidada para ministrar uma palestra na Semana da Mulher, em Termas de Jurema-PR. Nessa ocasião, foi despertado seu interesse pela dimensão sagrada do feminino, que mais tarde se traduziria no livro Cy, a Deusa do Brasil. Em julho de 1998, cursando o mestrado, apresentou a palestra O 14º Mistério - a transubstanciação, baseando-se em convergências e analogias entre as lâminas do Tarô, a Alquimia e imagens sacras do barroco mineiro no Congresso Internacional Ouro Preto 300 anos - Instituto de Filosofia, Artes e Cultura-UFOP.
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Zemaria Pinto
POEMA E POESIA NÃO SÃO A MESMA COISA?
Parte 1
        I - A ditadura do dicionário
        Poesia versus poema. De tão antigo, o tema pode parecer ao leitor menos atento um tanto esgotado. Nada mais enganoso. É recorrente escrever, e falar, que fulano lançou um livro de "poesias", sicrano recitou suas "poesias", fulaninha vai lançar um livro de "poesias" etc. Vá ao dicionário e constate: poesia é uma "composição poética de pequena extensão". Até quantos versos, exatamente? - poderá perguntar o leitor cioso das precisões matemáticas e/ou lingüísticas. Não sei. Mas, esqueçamos o que diz o dicionário e caminhemos um pouco por esse movediço e improvável terreno da teoria literária.
         Poesia é o gênero literário, subdivisível nas categorias épica, dramática e lírica. Poesia é a experiência cósmica de um poeta, o conjunto de sua obra. Poesia pode ser também o coletivo do fazer poético em um determinado tempo ou espaço. O poema, por sua vez, é, para efeito didático, a unidade que enforma o todo da poesia: é a composição, um conjunto de versos dispostos de maneira arbitrária pelo poeta, obedecendo a cânones preestabelecidos, estando entre estes, inclusive, a desobediência a cânones preestabelecidos!
         Poesia e poema são, portanto, dois animais distintos: este vive sem aquela tanto quanto esta não precisa daquele para ser. Um poema sem poesia, então? Claro, digno da lata de lixo mais próxima, mas um poema. E quantos poemas são perpetrados e quantos livros de poemas são editados sem poesia... A contrapartida define um paradoxo insofismável: a poesia é um estado do ser, é contemplação mística, é o i/logismo a serviço do ir/racional - a poesia é. Ponto.
         Há uma enorme carga de poesia em Grande Sertão: Veredas, em A Paixão Segundo GH. Há poesia num quadro de Van Gogh, num filme de Herzog, num pôr-do-sol no rio Negro, num fim de tarde em São Paulo, num passo de contradança, e, com o perdão da má palavra, também se encontra poesia num sorriso de criança. Já o poema, o poema-coisa, o poema-com-poesia, traduz em palavras aquilo que o artista-poeta discerniu no ser da poesia: a poesia traduzida em música, a poesia das imagens, a poesia que inventa línguas, remove palavras e fundamenta a linguagem.
         A didática do dicionário, já não tenho mais nenhuma dúvida, é um instrumento ideológico de coerção à poesia: ao tentar reduzir o geral dando-lhe a mesma definição, e, por extensão, as mesmas deformações do específico, procura, em verdade, eliminar ou esquecer o caráter arquetípico primordial da poesia - porque é através da palavra que o homem se aproxima do Ser e de si mesmo. Ignorar essa relação é frustrar todo o acúmulo de conhecimento produzido, desde Aristóteles às mais recentes discussões sobre o caráter intersemiótico da poesia.
         Para o leitor cúmplice que aceita que poema e poesia são vocábulos cujos significados se interpolam, mas jamais se cruzam, ainda que sejam partes da mesma gênese grega (poesia = fazer, poema = o que se faz), cito um exemplo bem mais prosaico do reacionarismo do dicionário: ao nomear o feminino de poeta como poetisa, diz que esta é uma "mulher que faz poesias". Evidenciada a má fé (a conotação pejorativa para a palavra poetisa), proponho a adoção definitiva do substantivo poeta comum aos dois gêneros. A bênção, tia Cecília Meireles, que, depois do primeiro espanto, me iluminou.

         II - Da arte de fingir
         Vimos o quanto é pernicioso o uso do dicionário ao pé da letra, ignorando-se sutilezas próprias de uma linguagem mais técnica e, por isso mesmo, menos vulgar. Mas não é só o dicionário que trama contra a poesia. Quando um crítico confunde, deliberadamente, a obra de um poeta com sua biografia, vendo reflexos desta naquela, ele dá demonstrações de nada entender de nada, caindo numa armadilha secular, que pretende ver na poesia, unicamente, manifestações mentais limitadas ao "eu" do poeta.
         No ensaio As Três Vozes da Poesia, T. S. Eliot, identifica-as da seguinte forma: a voz do poeta que fala consigo mesmo, ou com ninguém; a voz do poeta ao dirigir-se a uma platéia; a voz do poeta quando cria uma personagem dramática. Eliot, referia-se, respectivamente, à poesia lírica, à épica e à dramática. Como a minha área de interesse é essa coisa indevidamente chamada de "poesia lírica" (tema para uma outra discussão), vou-me ater unicamente, à questão da primeira voz - "a voz do poeta que fala consigo mesmo, ou com ninguém".
         Acontece que o ensaio de Eliot, na verdade uma conferência, apresentada em 1953, não traz nenhuma novidade, uma vez que a crítica empobrecedora sempre achou que o poeta lírico fala somente de si mesmo. Isso é de um reducionismo tão estúpido, que é preciso começar explicando o próprio "caso Eliot": longe de se considerar um poeta lírico, menor, via-se, unicamente, como poeta épico e dramático, nessa ordem, o que facilitava enormemente sua visão distorcida de que todo o resto é poesia confessional.
         O poeta lírico, é bem verdade, confunde o leitor desavisado ao escrever na primeira pessoa. Mas o "eu lírico" ou "eu poético", a voz emissora do poema, deve ser visto pelo crítico/leitor como uma máscara (persona) do autor. O poeta alarga sua percepção do mundo e verbaliza em valores positivos e/ou negativos tal percepção, daí resultando o poema, que vai refletir sua experiência pessoal, pois é disso que se alimenta a literatura: da realidade recriada, transmutada, transfigurada.
         Poesia é, pois, ficção. Do contrário será confissão, e isso é uma tremenda bobagem, porque a ninguém interessa a dor pessoal de ninguém. (A menos que ninguém se chame Manuel Bandeira, por exemplo, que, ao individualizar sua dor, mitifica-a. Mas esse é outro papo). Poesia também é fissão, rompimento, fratura, fragmentação, reinvenção da linguagem. Equacionando, para gozo dos estruturalistas:
Poesia = (ficção + fissão) - confissão
         E não é mero jogo de fonemas. Vejamos o caso extremo de Fernando Pessoa, criador de personas-poetas. Pelo conceito de Eliot, Pessoa está mais para poeta dramático que lírico, revelando-se este no interior daquele. Para mim, cada heterônimo despe/veste máscaras diferentes a cada poema. Logo, Pessoa não é apenas Caeiro, Campos, Reis ou ele-mesmo, mas muitos, muitos outros: Vivem em nós inúmeros (...)/ Tenho mais almas que uma./ Há mais eus do que eu mesmo (...). Mário de Andrade pegou isso legal, também: Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta (...). Eliot conclui seu trabalho com uma constatação genial, se não fosse óbvia: "duvido que em qualquer verdadeiro poema apenas uma voz seja audível". Menos mal, não?
         O que eu quero propor, afinal, em comum acordo com o mestre britânico, é que o poeta lírico encarna, em cada poema ou grupo de poemas, uma personagem específica, que traz em si a carga de experiência do autor, mas não é ele. Para ficarmos no âmbito da literatura amazonense, quando Tenreiro Aranha escreveu, há duzentos anos, o antológico soneto da Maria Bárbara, vestiu a máscara da mulher assassinada, despedindo-se do esposo: a voz emissora era a da própria Maria Bárbara, personagem. Tenreiro Aranha, o poeta-cidadão, por outro lado, exprimia-se por ele mesmo, provavelmente, quando praticava aquele aulicismo sem-vergonha, que marca a maior parte de sua obra conhecida, e não precisava fingir que fingia sentir o que não sentia. Aliás, aquilo nem é poesia.
         Estas reflexões remetem-me a uma outra falsa crença: a inspiração. É desnecessário, por tudo o que já se disse, enfatizar o caráter falacioso desse fantasma, mas é preciso dizer em alto e bom som que sem muito trabalho não se fazem poemas, não se constrói poesia. As musas não têm escolhidos: somos nós, os poetas, que as escolhemos, que as buscamos incessantemente, as assediamos através de muita leitura, pesquisa e exercício. O devaneio não é um atributo do poeta, mas sim de todo aquele que desenvolve um trabalho criador. E aqui não podemos esquecer Coleridge, para quem "a imaginação é a condição primeira de todo conhecimento".
         A sinonímia poeta/profeta está presente no imaginário ocidental desde Sócrates, via Platão, para quem "é quando estão possessos e inspirados por um deus que eles recitam todos esses belos poemas". As "antenas da raça", na verdade, colocam-se à frente de seu tempo (profetas) porque usam a imaginação com mais liberdade que os demais artistas. O poeta anda nu e tem plena consciência disso, não fosse o sorriso maroto que lhe aflora aos lábios, denunciando seu estado de vigília permanente em pleno devaneio. Et tout le reste est littérature.
         Ao longo da história da literatura, poema e poesia têm sido olhados, ora como coisas diferentes, ora como denominações diferentes para uma só manifestação estética. Consideremos, entretanto, que representam coisas diferentes. Existe já quase um consenso em se admitir que poema é a realização formal da poesia. Esta, por sua vez, é vista como uma “substância imaterial”* anterior ao exercício de realização do poema, através do qual se concretiza; ou, mesmo, como um estado de espírito que toma conta do poeta, proporcionando-lhe as condições necessárias à execução de seu exercício poético.
         Ao embarcarmos nesta dúvida, sobre qual é a diferença entre poema e poesia, resolvemos fazer uma pesquisa pela Web sobre este tema e encontramos mais dúvidas do que respostas, mas... acho que conseguimos distinguir a linha tênue que separa as duas definições, que, diga-se de passagem, estão muito mal feitas nos dicionários.
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POEMA x POESIA
         É bom ressaltar a diferença entre poema e poesia. Apesar de serem tratadas por muitos como sinônimos, o uso dos dois termos entre os estudiosos apresenta diferenças:
         Poesia: Caráter do que emociona, toca a sensibilidade. Sugerir emoções por meio de uma linguagem.
         Poema: obra em verso em que há poesia
         "Se o poema é um objeto empírico e se a poesia é uma substância imaterial, é que o primeiro tem uma existência concreta e a segunda não. Ou seja: o poema, depois de criado, existe per si, em si mesmo, ao alcance de qualquer leitor, mas a poesia só existe em outro ser: primariamente, naqueles onde ela se encrava e se manifesta de modo originário, oferecendo-se à percepção objetiva de qualquer indivíduo; secundariamente, no espírito do indivíduo que a capta desses seres e tenta (ou não) objetivá-la num poema; terciariamente, no próprio poema resultante desse trabalho objetivador do indivíduo-poeta." (Pedro Lyra)
O poema destaca-se imediatamente pelo modo como se dispõe na página. Cada verso tem um ritmo específico e ocupa uma linha. O conjunto de versos forma uma estrofe e a rima pode surgir no interior dessa estrofe. A organização do poema em versos pode ser considerada o traço distintivo mais claro entre o poema e a prosa (que é escrita em linhas contínuas, ininterruptas).
         LITERARIEDADE , ou seja, tudo aquilo que faz do discurso ser incomum, não usual, mas sim criativo, artesanal. Por exemplo: o discurso repleto de CONOTAÇÕES (figuras de linguagem, principalmente a metáfora ), de sonoridade especial (figuras de efeito sonoro), de polivalências, de ambiguidades, de rompimentos com as normas de uso dos signos e com as normas gramaticais (signos inventados, neologismos, vícios de linguagem , etc.)
continua…
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      José Maria Pinto de Figueiredo nasceu em Santarém, no Pará, em 1957, mas Manaus é sua casa desde criança. Além de economista,  é poeta de sólida formação literária. Atuou como professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Amazonas. Editor do jornal poético “O fingidor”, escreve também premiados textos para teatro. Seus principais livros são Corpoenigma (1994), Fragmentos do silêncio ( 1996), Música para surdos (2001) e Dabacuri (2004).
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Deonisío da Silva
EXPRESSÕES E SUAS ORIGENS
É A OVELHA NEGRA DA FAMÍLIA
A história desta frase nasceu do trabalho de pastoreio. Em todo rebanho sempre existe aquele animal de trato difícil, insubmisso, que não acompanha o outros. Está-se cuidando das ovelhas, protegendo-as dos lobos, providenciando-lhes os melhores pastos, e de repente uma delas se desgarra. Essa é a ovelha negra. Por metáfora, a frase passou a ser aplicada nas famílias ou em outras comunidades aos filhos ou afilhados que não têm bom comportamento. Na Ilíada, Homero (século VI a.C. ) relata o sacrifício de uma ovelha negra como garantia do pacto celebrado entre Páris e Menelau, que restou na Guerra de Tróia. Mas ela não foi punida por mau comportamento. Como tantas negras, ela era inocente.
É DE TIRAR O CHAPÉU
Foi no reinado de Luís XIV, o Rei Sol, que a França disciplinou as saudações feitas com o chapéu. O costume vinha dos templos da mais parda das eminências, o cardeal Richelieu, à época de Luís XIII. Os cumprimentos podiam ser feitos com um toque na aba; erguendo-o um pouco, sem retirá-lo da cabeça; tirando-o inteiramente ou fazendo-o roçar no chão, quase como uma vassoura, tudo dependendo da importância social de quem era saudado. Como se sabe, os Luíses XIII e XIV foram reis que se preocuparam muito com chapéus. Logo depois, um dos mais famosos da seqüência, Luís XVI, perdeu muito mais do que o chapéu: a própria cabeça, na Revolução Francesa.
É DO TEMPO DA ONÇA
Foi governador do Rio de Janeiro, de 1725 a 1732, o capitão Luís Vahia Monteiro, apelidado o Onça. Em carta que escreveu ao rei Dom João VI, declarou: "nesta terra todos roubam, só eu não roubo". A frase acima foi sempre utilizada para aludir a coisas muito antigas, vigentes naquele tempo. Entretanto, outras autoridades, com o mesmo apelido, podem ter fomentado ainda mais a expressão, homenageando a energia, a coragem e a honestidade do antigo governante. Os novos tempos, infelizmente, não tornaram exceção aquilo que era norma nas práticas dos governantes no tempo do Onça. O pobre homem, a deduzir por sua carta ao rei português, comportava-se como uma virgem num bordel.
E EU ESTOU POR ACASO NUM LEITO DE ROSAS?
Cuauthémoc, também grafado Guatimozín (1497-1524), foi o último imperador dos astecas. Seu tio havia derrotado o conquistador espanhol Henán Cortés (1485-1547) na famosa Noite Triste. O derrotado, porém, reuniu as tribos descontentes com o domínio asteca e, à frente delas e de um pequeno grupo de espanhóis, venceu definitivamente o inimigo, conquistando o México. Informado de que o soberano guardava grandes tesouros em seu palácio, submeteu-o e a um dos seus ministro à tortura pelo fogo. Os dois se recusaram a falar e, quando o ministro se queixou ao imperador das dores das labaredas, este pronunciou a frase que ficaria famosa. Três anos mais tarde, o heróico soberano foi enforcado, acusado de conspirar contra os espanhóis.
E EU SOU BESTA?
A história desta frase remonta a uma expressão dos aldeões medievais portugueses e um dos primeiros a registrá-la foi Gil Vicente (1465-1536), no Auto da festa, num diálogo em que uma personagem pergunta: "e eu ficarei por besta?" O significado é em geral de recusa diante do ato que não se deve praticar. O grande dramaturgo tornou-se famoso, porém, por outras peças e autos, entre os quais os mais conhecidos compõem uma trilogia religiosa: Barca do inferno, Barca do purgatório, Barca da glória. Ao todo, escreveu 44 peças. Como todo escritor daquele período, apesar da copiosa produção, não viveu de seu ofício. Foi ourives da Corte e funcionário da Casa da Moeda de Lisboa, formas disfarçadas de a Casa Real portuguesa exercer o mecenato.
É FEIO COMO QUASÍMODO!
Diz-se de pessoa muito feia, em geral com deformações físicas. A frase apareceu originalmente no livro Notre Dame de Paris, do famoso escritor francês Victor Hugo (1802-1885), em que se destaca o personagem Quasímodo, corcunda, de pernas tortas, vesgo e de rosto deformado, sineiro da catedral referida no título do romance e apaixonado pela cigana Esmeralda. Em muitas traduções e também no cinema o título foi adaptado para O corcunda de Notre Dame, cuja versão em desenho animado fez muito sucesso. Tal foi a influência do romance que a expressão Quasímodo tem sido menos usada em seu significado anterior, que designava o primeiro Domingo depois da Páscoa.
É GENTE DE MEIA-TIGELA
Em Portugal, nos tempos monárquicos, havia vários tipos de nobreza, entre os quais ganhavam destaque a nobreza territorial e a de títulos. Habitavam os palácios, porém, diversos rapazes que, dados aos serviços domésticos que executavam para autoridades, tinham direito a rações, prescrita nos livro da cozinha do rei, diligenciada pelo velador, superior do mordomo-mor. Tão logo chegavam à corte para trabalhar, moços vindos do interior eram tratados com desprezo pelos que já moravam no palácio. Não tendo direito ainda a moradia, recebiam apenas alimentação e por isso eram tratados com ironia pelos mais antigos como fidalgos de meia-tigela. Fidalgos de meia-tigela jamais quebrariam a tigela, não porque somente dispusessem da metade dela, mas porque apenas os grandes fidalgos podiam quebrar a tigela por ocasião de ritos importantes.
ELEMENTAR MEU CARO WATSON
Com esta frase, Sherlock Holmes, o famoso personagem literário do escritor britânico Arthur Conan Doyle (1859-1930), coroa suas deduções, baseadas numa lógica implacável. E o doutor Watson rende-se admirado à inteligência do amigo. Alguns já viram na parceria dos dois uma vaga sombra daquelas sexualidades tidas heréticas ou ilegítimas, tão vituperadas por aqueles que só pensam naquilo. Outros não têm a menor dúvida de que aqueles dois faziam de tudo, convicto de que, em assunto de sexo, onde há fumaça, há, mais que fogo, grandes labaredas, incêndios, vulcões. Uma curiosidade, porém, marca a frase famosa. Ela não aparece nos livros, apenas nas adaptações teatrais, cinematográficas, televisivas. O mesmo se pode dizer da indumentária do famoso detetive, criada quando ele chegou ao teatro e às telas. Como se pode conferir isso? Elementar, meu caro leitor: nos romances policiais e nos contos do autor.
ELE SÓ PENSA NAQUILO
Esta frase ilustra a obsessão no mais alto grau por determinado assunto, pessoa, sentimento. Entretanto, consagrou-se no Brasil com um tempero licencioso, consolidado em programa de televisão do jornalista, ator, humorista e escritor Francisco Anísio de Oliveira Paula Filho, mais conhecido como Chico Anísio. ‘Aquilo’ funciona no português coloquial como eufemismo, suavizando palavra ou expressão ao substituí-la por outras mais polidas. A frase ficou ainda mais famosa, porém, como divertido bordão, repetido a cada programa da Escolinha do professor Raimundo pela atriz Zezé Macedo. E logo a frase caiu no gosto popular. À semelhança de outros bordões, foi incorporado ao nosso patrimônio de frases célebres.
ELES QUE SÃO BRANCOS, QUE SE ENTENDAM
A origem desta frase remonta a uma das primeiras punições que o racismo sofreu no Brasil, ainda no século XVIII. Um capitão do regimento dos pardos queixou-se a seu superior, um português, solicitando punição a um soldado que o desrespeitava. Ouviu em resposta: "vocês que são pardos, que se entendam". O capitão, inconformado, recorreu à instância superior, o décimo segundo vice-rei do Brasil, Dom Luís de Vasconcelos (1742-1807). Este, depois de confirmar o ocorrido, mandou prender o oficial português, que estranhou: "preso, eu? E por quê?" "Nós somos brancos, cá nos entendemos", respondeu o vice-rei. Desde então, tornou-se frase feita, dita de outra forma pelo povo. E está registrada em Locuções tradicionais do Brasil de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986).
É MAIS FÁCIL ENGANAR A MULTIDÃO DO QUE UM HOMEM SÓ
Esta frase, de proverbial sabedoria, foi escrita por Heródoto (484-420 a.C.), o Pai da História. Poucos historiadores modernos têm a graça de seu estilo, marcado pelos relatos de acontecimentos e lendas que põem em contraste a civilização grega e os bárbaros - egípcios, medos e persas: A frase deve ter-lhe brotado das muitas observações que fez entre esses povos, constatando como os grandes generais, usando a espada e a retórica, submetiam cidades inteiras, mas expunham sua franqueza num simples diálogo com um filósofo.
É MAIS FÁCIL UM CAMELO PASSAR PELO FUNDO DE UMA AGULHA DO QUE UM RICO ENTRAR NO CÉU
Os milionários, antes de serem procurados pelo Imposto de Renda, foram objetos de numerosas frases, algumas lapidares. Dentre as mais célebres, estão estas de Jesus, segundo o relato do Evangelho de São Mateus (século primeiro), que era cobrador de impostos. Pode ter havido engano de tradução, já que kamelos em grego tanto pode significar o animal como a âncora para amarrá-lo. Havia ainda em Jerusalém uma porta muito estreita chamado o olho da agulha, que poderia ter sido a referência de Jesus. Doutores bíblicos explicaram estas frases e deram a entender que era difícil a operação, mas não impossível, posto que a corda pudesse ser desfiada.
EM SE PLANTANDO, TUDO DÁ
Frase atribuída a Pero Vaz de Caminha (1450-1500), em sua famosa Carta, comentando as excelências da nova terra recém-descoberta. O minucioso escrivão tinha, porém, um estilo menos sintético e emitiu o mesmo juízo em outras palavras: "Querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo". Mas a agricultura foi ali evitada pela primeira vez. Havia outros interesses. O próprio Caminha termina sua Carta pedindo emprego para o genro. Apesar de sua importância, também foi adiada a publicação da certidão de nascimento do Brasil, que só apareceu em 1817. Nela são postas em relevo as belezas naturais e a inocência dos índios, cuja evangelização ele indicou como a tarefa principal de um rei cristão.
EM TERRA DE CEGO, QUEM TEM UM OLHO É REI
Esta frase, que não é exclusiva da língua portuguesa, dá idéia de que entre gente ignara, quem é só um pouquinho menos ignorante do que os outros ganha prestígio e recebe tratamento de rei. O filósofo e humanista holandês Desiderius Erasmus, dito Erasmo de Roterdam (1469-1536), foi um dos primeiros a registrá-la. Sua obra mais famosa é Elogio da loucura, em que tenta definir um humanismo cristão, desligado de polêmicas religiosas. Um dos principais nomes da Renascença na Europa do Norte, foi um dos primeiros editores do Novo Testamento. Destacou-se, não em terra de cego, mas em meio a uma constelação de outros renomados filósofos e teólogos do período.
ENTRAR COM O PÉ DIREITO
Esta frase revela antiga superstição que o Império Romano espalhou no mundo inteiro. Nas festas realizadas na antiga Roma os convidados eram avisados de que deveria entrar nos salões destro pede (com o pé direito) para evitar o agouro. Famosas personalidades brasileiras seguiram essa recomendação, entre as quais Rui Barbosa, que a registrou em discurso proferido às vésperas da posse do marechal Hermes da Fonseca (1855-1923): "que o novo presidente entre com o pé direito". Mas ninguém acatou mais a superstição que Alberto Santos Dumont, que mandou construir em sua residência escadas por onde só era possível subir ou descer iniciando-se o percurso com o pé direito.
ENVELHEÇAM DEPRESSA ANTES QUE SEJA TARDE
O dramaturgo Nelson Rodrigues, pioneiro do moderno teatro brasileiro, foi também um grande frasista. Ousado e desconcertante, incrustava frases geniais e polêmicas tanto nas peças como nas crônicas. Na elaboração dessas verdadeiras pérolas, cultivava o paradoxo, como no exemplo acima, dirigido aos jovens. Nos diálogos de seus textos, são freqüentes os recortes psicológicos da condição humana sintetizados numa frase que marca a fala do personagem de forma memorável, quase sempre como contraponto bem humorado à crueza das ações.
É POSSÍVEL MEDIR A INTELIGÊNCIA
Jamais ocorreu aos antigos medir a inteligência das pessoas, pois seus atos e falas logo desmanchavam reputações ou confirmavam suspeitas. Mas a partir desta frase, baseada nas teorias do psicólogo francês Alfred Binet (1857-1911), que montou um laboratório experimental em Paris onde passou a medir as aptidões das crianças, com vistas a melhor atendê-las na escola, uma obsessão por medir a inteligência tomou conta do mundo. E logo surgiram grandes enganos, sobretudo nos Estados Unidos, onde pesquisadores irresponsáveis passaram a medir o Q.I. (quociente intelectual) de vivos e mortos. Miguel de Cervantes Saavedra recebeu apenas 105, numa escala de 160, ficando próximo a anônimos débeis mentais.
EROS, AMARGO E DOCE, É INVENCÍVEL
Esta frase, constantemente citada, foi extraída de um verso da célebre poetisa grega Safo (625-580 a. C.), que vivia em Lesbos, de onde se originou o vocábulo lesbianismo para designar a homossexualidade feminina, dada a figura lendária da mais notável habilidade daquela ilha. Muito antes de psicólogos, psicanalistas e sexólogos, a literatura reconheceu as forças arrebatadoras e inconscientes do desejo, moldadas nas mais diversas contradições, tal como se pode ver na frase famosa. Precursora das lutas feminista, Safo, que na verdade era bissexual, casou-se e teve uma filha, a quem comparou a um ramalhete de crisântemos. Como eram nove as musas, Platão (428-348 a.C.) escreveu que ela era a décima.
Fonte:
Deonísio da Silva. De onde vêm as palavras.
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            Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. Professor, escritor e etimologista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Filologia, vinculado às universidades Unijuí, RS (1972-1981), Ufscar, SP (1981-2003), Estácio, RJ (2003-2015) e Unisul, SC (2014-2015), dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Autor de 34 livros, alguns dos quais publicados também em Portugal, Itália, Alemanha, Canadá etc. Suas obras referenciais são o romance "Avante, soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago); "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras".
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Estante de Livros
José de Alencar
Iracema
Iracema (ou Iracema, lenda do Ceará) é um romance da literatura romântica brasileira publicado em 1865, fazendo parte da trilogia indianista do autor. Os outros dois romances pertencentes à trilogia são O guarani e Ubirajara.
Enredo
    O romance conta, de forma quase poética, o amor de um branco, Martim Soares Moreno, pela índia Iracema, a virgem dos lábios de mel e de cabelos mais negros que a asa da graúna e explica poeticamente as origens da terra natal do autor, o Ceará.
Personagens:
    Caubi: índio tabajara, irmão de Iracema. O nome provém do termo tupi ka'aoby, que significa "mato verde" (ka'a, mato + oby, verde).
    Iracema: índia da tribo dos tabajaras, filha de Araquém, velho pajé; era uma espécie de vestal (no sentido de ter a sua virgindade consagrada à divindade) por guardar o segredo de jurema (bebida mágica utilizada nos rituais religiosos). A palavra "Iracema" é um anagrama de "América". Segundo o autor José de Alencar, "Iracema" seria uma palavra com origem na língua tupi que significaria "A virgem dos lábios de mel". Tal etimologia, no entanto, é contestada pelo tupinólogo Eduardo de Almeida Navarro, que sustenta que "Iracema" é um termo proveniente do nheengatu que significa "saída de abelhas, enxame".
    Martim: guerreiro branco, amigo dos potiguaras, habitantes do litoral, adversários dos tabajaras; os potiguaras lhe deram o nome de Coatiabo.
    Moacir: filho de Iracema e Martim, o primeiro brasileiro miscigenado. O nome provém do termo tupi moasy, que significa "arrependimento", "inveja". Segundo o tupinólogo Eduardo de Almeida Navarro, a etimologia dada por Alencar ao nome não é correta.
    Poti: herói dos potiguaras, amigo (que se considerava irmão) de Martim.
    Irapuã: chefe dos guerreiros Tabajaras; apaixonado por Iracema. O nome "Irapuã" é proveniente do termo tupi eirapu'a, que designa as abelhas meliponídeas, que são as abelhas tropicais sem ferrão, nativas do Brasil.
    Jacaúna: chefe dos guerreiros potiguaras, irmão de Poti.
    Araquém: pajé da tribo tabajara. Pai de Iracema e Caubi.
    Batuirité: o avô de Poti. Chama Martim de "Gavião Branco". Antes de morrer, faz a profecia da destruição de seu povo pelos brancos.
    Japi: cão de Martim. "Japi" é o nome de um pássaro (Cacicus cela).
Resumo dos capítulos
    I - Martim acorda em terras brasileiras e ouve alguém gritar por Iracema. Ele vê um barco indo embora.
    II - Iracema está junto à natureza, banhado-se, quando Martim a surpreende. Ela joga uma flecha nele, que apenas o machuca. Se arrepende, pede perdão e pergunta de onde ele vem. Ele diz que é de terras distantes. Ela o leva até a aldeia.
    III - Iracema leva Martim até o Pajé, que o recebe com muita hospitalidade e lhe diz que ele foi trazido por Tupã. Por conta disso, o pajé, pai de Iracema, diz a Martim que ele pode ter tanta fartura e mulheres da aldeia quando quiser.
    IV - Iracema vai à barraca de Martim com as índias que o servirão. Ele diz que queria Iracema. Ela diz que deve permanecer virgem. Ele sai da cabana, ela o busca e pergunta por que estava indo embora. Ele responde que queria ver os amigos. Iracema postula a Martim que fique ate seu Irmão Caubi voltar da caça para que o ajude a encontrar os amigos. Voltam à cabana e ele dormiu escutando Iracema cantar.
    V - Irapuã prepara todos para a guerra contra Martim. Andira, um velho guerreiro, propositalmente deixa o tacape (arma)de Irapuã cair no chão. Esta atitude demonstra que Andira não quer guerra. Irapuã, que acha que o melhor meio é a guerra, xinga-o.
    VI - Martim acorda. Iracema pergunta se há uma noiva o esperando. Ele diz que sim, mas que prefere Iracema a ela. A índia leva o estrangeiro para um bosque de juremas. Ela dá a ele uma bebida alucinógena. Eles têm um momento de romance. Ele adormece.
    VII - Irapuã surge no bosque e diz que está com ciúmes por Iracema estar acompanhando Martim. Ele diz que, quem sabe se matar Martim e chupar seu sangue, Iracema talvez o queira. Iracema diz que nunca se entregará a Irapuã. Aponta uma flecha para ele e diz que não o deixará machucar Martim. Irapuã vai embora mas jura vingança.
    VIII - Martim acorda e vê Iracema triste. Ela diz que é porque o estrangeiro partirá assim que Caubi, irmão de Iracema, chegar. Martim diz que fica, para vê-la feliz. Ele diz que quer deitar-se com ela, ela diz que quem a possuísse morreria e ela, logo depois. Ele diz que vai embora para mantê-la em segurança.
    IX - Martim avisa ao Pajé que ele vai embora. Eles preparam as coisas para a partida do estrangeiro. Iracema dá a ele uma rede. Iracema se despediu de Martim com um beijo.
    X - Iracema está triste. Ouve o grito de guerra de Caubi e sai correndo saber o que está acontecendo. Caubi estava protegendo Martim de Irapuã e do resto dos guerreiros. Caubi diz para Iracema levar Martim até a cabana do Pajé. Martim peita Irapuã e diz que não derramará sangue em terra hospedeira. Os guerreiros afastaram Caubi e Iracema e estavam para enfrentar Martim quando soou o grito de guerra dos pitiguaras (tribo inimiga dos tabajaras).
    XI - Os guerreiros tabajaras procuraram os pitiguaras. Irapuã, pensando que fosse armação de Iracema para salvar Martim, vai até a cabana para matar o estrangeiro. Araquém, o pajé, o defende, dizendo que ele hóspede de Tupã. Irapuã diz que Iracema se entregou para Martim. Araquém diz que, se isso acontecer, Iracema morre. Para proteger Martim, o pajé abre um buraco na terra com a ajuda de Tupã.
    XII - Martim sussurra para Iracema que o soar dos pitiguaras era de seu amigo, Poti. Martim diz que precisa falar com ele. Iracema o proíbe, por causa do perigo de Irapuã. Ela vai, no lugar do estrangeiro, falar com Poti.
    XIII - Iracema fala com Poti, fala sobre a ira dos tabajaras para com Martim. Poti avisa que irá salvar o amigo. Ele ouve ruídos na floresta e sai a procurar de quem são. Ela volta à cabana. Martim lhe diz que sairá para ajudar Poti. A índia o alerta para a perseguição de Irapuã. Irapuã e os guerreiros planejam matar Martim, mas Caubi os impede e abre um buraco na terra. Iracema e Martim entram na gruta feita.
    XIV - Caubi continua protegendo Martim. Poti fala com Martim na gruta através de Tupã. Iracema tem um plano: quando todos estiverem dormindo, após a festa da lua das flores, ela guiaria Martim para fora de Ipu, a tribo dos tabajaras. Poti concorda.
    XV - Iracema e Martim estão na gruta e se beijam. Martim está cheio de desejo por Iracema, ele pede a ela que lhe traga o licor alucinógeno. Ele visiona os dois se amando. Ao acordar, percebeu que era real seu sonho. Iracema já não era mais virgem.
    XVI - Os tabajaras festejam. Iracema distribui o vinho de jurema (alucinógeno), e os guerreiros deliram. Quando todos dormiam, Iracema e Martim vão de encontro a Poti. A índia os leva para fora dos campos dos tabajaras. Ela e Martim trocam juras de amor, despedindo-se.
    XVII - Já fora de Ipu, Iracema conta a Martim não pode mais abandona-lo, pois tornou-se sua esposa (deitaram-se juntos em meio ao delírio do guerreiro). Os três caminham em direção às terras dos pitiguaras.
    XVIII - Martim e os pitiguaras ficam amigos, através de Poti. Todos lutam contra os tabajaras; Iracema protege Martim de Irapuã. Ela se entristece ao ver a derrota de seus irmãos.
    XIX - Todos comemoram a vitória. Poti deixa Japi, seu cão fiel, para Martim ser guiado.
    XX - Martim diz a Jacaúna, chefe dos pitiguaras, que deve sair dali. Poti, Iracema e Martim viajam pelas terras arredores.
    XXI - Poti mostra a Martim o Mocoripe, grande morro das areias. O guerreiro branco, seu amigo e sua esposa decidem habitar as margens do rio perto do Mocoripe.
    XXII - Poti conta a história de seu avô, Batuireté. Os dois amigos decidem visitá-lo. Abraçam-no e logo após, o velho morre.
    XXIII - Poti diz à Martim que Iracema está grávida e ele beija os seios da esposa, feliz. Martim diz o quanto ama o amigo e a esposa.
    XXIV - Iracema e Poti fazem um ritual para tornar Martim um verdadeiro “guerreiro vermelho”. Chamam-no de Coatiabo.
    XXV - Passou-se tempo e Martim sente muita saudade de sua terra natal, tornando-se distante e arredio. Um mensageiro chega e avisa Poti que haverá uma batalha nos campos dos pitiguaras. Poti e Martim prometem ajudar seus irmãos.
    XXVI - Eles partem para guerrear, dando a Iracema um sinal de que voltariam (flecha com pluma vermelha fincada no chão). Iracema se entristece.
    XXVII - Martim e Poti voltam vitoriosos. Martim sente saudades de sua terra ainda mais. Mas não pensa em voltar, para não afastar Iracema de sua terra. Iracema sofre com o distanciamento do esposo.
    XXVIII - Certo dia, Martim vê Iracema chorando. Ela lhe diz que ele não mais ama, que ela perdeu o encanto. Ela diz a Martim que, assim que seu filho nascer, ela irá morrer e ele poderá voltar à sua terra.
    XXIX - Poti avisa Martim que os tupinambás invadirão as terras pitiguaras. Os amigos partem para a batalha. Vencem e festejam.
    XXX - Nasce o filho de Iracema e ela o nomeia Moacir (filho da dor). Caubi a visita e diz que a perdoou. Ela lhe mostra o filho.
    XXXI - Após alimentar o irmão, Iracema pede que ele volte para tomar conta do pai Araquém. Assim que ele sai, Iracema tentar alimentar seu filho, porém sem sucesso. Após grande esforço, ela consegue. Sofre.
    XXXII - Poti e Martim vêem Iracema. Ela pousa Moacir nos braços de Martim e morre. Ele a enterra perto de um coqueiro. Martim sofre.
    XXXIII - Martim volta às terras brasileiras, trazendo padres e guerreiros de sua terra, e o filho.
Características
O GÊNERO LITERÁRIO
    Para José de Alencar, como explicita o subtítulo de seu romance, Iracema é uma "Lenda do Ceará". É também, segundo diferentes críticos e historiadores, um poema em prosa, um romance poemático, um exemplo de prosa poética, um romance histórico-indianista, uma narrativa épico-lírica ou mito poética. Cada uma dessas definições põe em relevo um aspecto da obra e nenhuma a esgota: a lenda, a narrativa, a poesia, o heroísmo, o lirismo, a história, o mito.
O FOCO NARRATIVO
    A narrativa é em terceira pessoa e o narrador é onisciente e onipresente.
O TEMPO
    O encontro da natureza (Iracema) e da civilização (Martim) projeta-se na duplicidade da marcação temporal. Há em Iracema um tempo poético, marcado pelos ritmos da natureza e pela percepção sensorial de sua passagem (as estações, a lua, o sol, a brisa), e que predomina no corpo da narrativa, e um tempo histórico, cronológico. O tempo histórico situa-se nos primeiros anos do século XVII, quando Portugal ainda estava sob o domínio espanhol (União Ibérica), e por forças da união das coroas ibéricas, a dinastia castelhana ou filipina reinava em Portugal e em suas colônias ultramarinas.
    A ação inicia-se entre 1603 e o começo de 1604, e prolonga-se até 1611. O episódio amoroso entre Martim e Iracema, do encontro à morte da protagonista, dá-se em 1604 e ocupa quase todo o romance, do capítulo II ao XXXII.
O ESPAÇO
    A valorização da cor local, do típico, do exótico inscreve-se na intenção nacionalista de embelezar e engrandecer a terra natal por meio de metáforas e comparações que ampliam as imagens de um Nordeste paradisíaco, primitivo, que nada tem a ver com a aspereza do sertão do semi-árido. É o Nordeste da praias e das serras (Ibiapaba), dos rios (Parnaíba e Jaguaribe) e dos campos de Ipu.
ANÁLISE
    A relação do casal serviria de alegoria para a formação da nação brasileira. A índia Iracema representaria a natureza virgem e a inocência, enquanto o colonizador Martim (referência explicita ao deus romano da guerra Marte) representa a cultura européia. Da junção dos dois surgirá a nação brasileira, representada alegoricamente, pelo filho do casal, Moacir ("filho da dor").
    Para alguns críticos, a palavra Iracema é um anagrama de América, tratando-se o livro  pois de uma metáfora sobre a colonização americana pelos europeus. O desenvolvimento da história e, principalmente o final, assemelham-se em muito a história do novo continente.
Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Iracema

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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