Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 28 de abril de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 399)




Mensagem na Garrafa
Charles Chaplin
“Texto de O Grande Ditador”
         "Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objetivo.  Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém.
         Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos.
         O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho.
         A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.
         Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados:
         As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria.
         O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos céticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
         Pensamos em demasia e sentimos bem pouco:
         Mais do que máquinas, precisamos de humanidade;
         Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.
         Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
         O avião e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções clama pela bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Mesmo agora a minha voz chega a milhões em todo o mundo, milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Para aqueles que me podem ouvir eu digo: "Não se desesperem".
         A desgraça que está agora sobre nós não é senão a passagem da ganância, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano: o ódio dos homens passará e os ditadores morrem e o poder que tiraram ao povo, irá retornar ao povo e enquanto os homens morrem [agora] a liberdade nunca perecerá…
         Soldados: não se entreguem aos brutos, homens que vos desprezam e vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, vos dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir, que vos corroem, digerem, tratam como gado, como carne para canhão.
         Não se entreguem a esses homens artificiais, homens-máquina, com mentes e corações mecanizados. Vocês não são máquinas. Vocês não são gado. Vocês são Homens. Vocês têm o amor da humanidade nos vossos corações. Vocês não odeiam, apenas odeiam quem não é amado. Apenas os não amados e não naturais.
         Soldados: não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade.
         No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito:
         "O reino de Deus está dentro do homem"
         Não um homem, nem um grupo de homens, mas em todos os homens; em você, o povo.
         Vós, o povo tem o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade.
         Vós, o povo tem o poder de tornar a vida livre e bela, para fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Então, em nome da democracia, vamos usar esse poder, vamos todos unir-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que vai dar aos homens a oportunidade de trabalhar, que lhe dará o futuro, longevidade e segurança. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder, mas eles mentem. Eles não cumprem as suas promessas, eles nunca o farão. Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Agora vamos lutar para cumprir essa promessa. Lutemos agora para libertar o mundo, para acabar com as barreiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos os homens.
         Soldados! Em nome da democracia, vamos todos unir-nos!
         Olha para cima! Olha para cima! As nuvens estão a dissipar-se, o sol está a romper. Estamos a sair das trevas para a luz. Estamos a entrar num novo mundo. Um novo tipo de mundo onde os homens vão subir acima do seu ódio e da sua brutalidade.
         A alma do homem ganhou asas e, finalmente, ele está a começar a voar. Ele está a voar para o arco-íris, para a luz da esperança, para o futuro, esse futuro glorioso que te pertence, que me pertence, que pertence a todos nós.
Olha para cima!
Olha para cima!"
            Sir Charles Spencer Chaplin, que era canhoto, nasceu no dia 16 de abril de 1889, supostamente na East Street, Walworth, Londres, Inglaterra. Seus pais eram artistas de music-hall. Seu pai era vocalista e ator, e sua mãe era cantora e atriz. Ambos separaram antes de Charles completar três anos de idade. Após a separação, Chaplin foi deixado aos cuidados de sua mãe, que estava cada vez mais instável emocionalmente. O pai de Charles Chaplin era alcoólatra, morreu de cirrose no fígado quando Chaplin tinha doze anos, em 1901, foi enterrado numa cova comum sem nome.
            Chaplin foi um ator, diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico. Um dos atores mais famosos da era do cinema mudo, notabilizado pelo uso de mímica e da comédia pastelão. É bastante conhecido pelos seus filmes O Imigrante, O Garoto, Em Busca do Ouro (este considerado por ele seu melhor filme), O Circo, Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador, Luzes da Ribalta, Um Rei em Nova Iorque e A Condessa de Hong Kong. É considerado por alguns críticos o maior artista cinematográfico de todos os tempos, e um dos "pais do cinema", junto com os Irmãos Lumière, Georges Méliès e D.W. Griffith.
            Charlie Chaplin atuou, dirigiu, escreveu, produziu e financiou seus próprios filmes. Sua carreira no ramo do entretenimento durou mais de 75 anos, desde suas primeiras atuações quando ainda era criança nos teatros do Reino Unido durante a Era Vitoriana quase até sua morte aos 88 anos de idade. Sua vida pública e privada abrangia adulação e controvérsia. Juntamente com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith, Chaplin fundou a United Artists em 1919.
            Seu principal e mais famoso personagem foi The Tramp, conhecido como Charlot na Europa e igualmente conhecido como Carlitos ou "O Vagabundo" no Brasil. Consiste em um andarilho pobretão que possui todas as maneiras refinadas e a dignidade de um cavalheiro (gentleman), usando um fraque preto esgarçado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, um chapéu-coco ou cartola, uma bengala de bambu e - sua marca pessoal - um pequeno bigode-de-broxa.
            Foi também um talentoso jogador de xadrez e chegou a enfrentar o campeão estadunidense Samuel Reshevsky.
            Por sua inigualável contribuição ao desenvolvimento da sétima arte, Chaplin é o mais homenageado cineasta de todos os tempos, sendo ainda em vida condecorado pelos governos britânico (Cavaleiro do Império Britânico) e francês (Légion d 'Honneur), pela Universidade de Oxford (Doutor Honoris Causa) e pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos (Oscar especial pelo conjunto da obra, em 1972).
            Conheceu Oona O'Neill, filha do dramaturgo Eugene O'Neill. Se apaixonaram rapidamente e casaram-se em 1943. Ele tinha 54 anos enquanto ela somente 18, mas a enorme diferença de idade não diferenciou em nada. Este casamento foi longo e feliz. Oona, mesmo sendo ainda muito jovem, deu oito filhos a Charlie. O amor era tão grande que Charlie ficou com ela até sua morte, e Oona cuidou dele no fim de sua vida.
            A saúde de Chaplin começou a declinar lentamente no final da década de 1960, e por volta de 1977, já tinha dificuldade para falar, e começou a usar uma cadeira de rodas. Chaplin morreu dormindo aos 88 anos de idade em consequência de um derrame cerebral, no Dia de Natal de 1977 em Corsier-sur-Vevey, Vaud, Suíça, e foi enterrado no cemitério comunal. Em 1991,  Oona O'Neill faleceu e foi sepultada ao lado do cineasta.
Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Fagundes Queiroz
Caso a sobremesa fosse
escassa, a mamãe mentia:
- Tomem! Não gosto de doce...
e, docemente, sorria.
Uma Trova de Itapema/SC
Túlio de Ayala
Que o bom pescador se queixe
de sua vida penosa
é justo: lidar com peixe
é missão bem espinhosa.
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
Soneto 1
Átomo de prazer e de loucura
eu fui, quando estiveste nos meus braços.
Naveguei nas artérias da aventura
e me perdi nos teus longos abraços.
Quero o teu corpo nesta noite escura.
Serei feliz depois dos embaraços,
quando do ser vital for a procura,
modelando em teu útero outros traços.
Neste jogo de amor e de prazer,
ferve minha patética lembrança;
na chama crepitante a renascer,
vejo a realidade da esperança,
e no teu ventre está a florescer
mais um sorriso, clássica-criança.
Uma Trova Humorística do Rio de Janeiro/RJ
Luiz Poeta
“Que dente mal implantado!”
disse o vampiro ao doutor.
“Mordi um pobre coitado
e fui eu que senti dor.”
Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Tamara Kaufmann
Sorriso moldura o rosto,
mostra o que a pessoa tem,
ele está sempre disposto
a escutar quem perto vem.
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
SONETO 2
Arquiteto emoções e na paisagem
aglomero meus sonhos inocentes;
sou um nauta buscando na miragem
lembranças dos amores decadentes.
Nas páginas da vida vejo a imagem
das saudades que tão evanescentes
repousam na tranquila e doce aragem
de que não tem a luz dos céus poentes.
Na povoação do sonho indecifrável,
sou banquete argiloso da porfia
que procura na mística o elo amável
para soltar esta melancolia
que faz o meu presente impraticável
e o futuro delírio da ironia.
Uma Quadra Popular
Autor Anônimo
Em cima daquela serra,
correm águas sem chover.
Os mocinhos da cidade
me namoram sem me ver.
Uma Trova Hispânica da Argentina
Libia Beatriz Carciofetti
Si Dios reina en la familia
mora la paz  y la unión
todo el mal se reconcilia
pues se vive en comunión.
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
SONETO 3
Gracinha, tua exótica beleza
é de uma perfeição mais do que pura,
que parece uma orquídea na realeza,
que me envolve na graça da ternura.
Seguia minha estrada com tristeza,
procurando teus lábios com loucura,
até que refloriu na natureza
o teu sorriso-forte que murmura.
Tecerei nas neblinas da ansiedade
uma intuição aflita a regressar,
serei vivência em que, na realidade,
com teus longos cabelos vou sonhar,
Vou repousar nos templos da saudade
modelando uma flor para te dar.
Trovadores que Deixaram Saudades
Miguel Russowsky
Santa Maria/RS (1923 – 2009) Joaçaba/SC
Na trova, às vezes, invento
emoções e não as sinto.
Mas creia no meu talento,
sou sincero quando minto!
Uma Trova de Rio Negrinho
Mirian Lima dos Santos Weber
O que eu amo é o seu olhar,
seu jeito de pouco siso,
e a alegria a emoldurar
o brilho do seu sorriso.
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
SONETO 4
Estou colhendo a flor miraculosa
do destino, orvalhada de alegria.
Sinto a brisa da tarde venturosa,
marcando a minha vida dia a dia.
Penetra na minha alma cor-de-rosa
teu sorriso de clássica magia.
Sou feliz, a beleza que se entrosa
é fonte, é encantamento, é fantasia.
Na distância, rasgando a escuridão
das águas coloridas da saudade,
só o amor abençoa o coração.
A vida é o mapa da felicidade,
onde a rosa esquecida da ilusão
brota sorrindo para a eternidade,
Uma Trova de Brusque
Maria Luiza Walendowsky
Volte agora com vontade,
ser o amor que me encantou
traga consigo a saudade,
 que ao partir, você deixou.
Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Eolo Yberê Libera
Não sei teus gestos
nem a cor do teu sorriso
mas pressinto os passos.
Constantino Gonçalves
SONETO 5
Se esses meus pensamentos são tristonhos,
tristonhos como um fim de madrugada:
— ainda sinto no resto dos meus sonhos
o abandono desta alma tão cansada.
Nas vidas os retalhos são bisonhos,
mas geram a paixão escravizada
nas saudades que formam os risonhos
ângulos de uma pálida alvorada.
Uma faísca divide a alma imortal;
só o amor tem beleza acolhedora
que faz de uma fagulha divinal
a saudosa tristeza encantadora
na sua trajetória natural...
O amor é essência da alma sonhadora.
Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Maria Carmen Varejão
Segredo... Calou no peito
 um sentimento profundo.
Não revelo... Não tem jeito.
 Selado está para o mundo.
Uma Aldravia do Rio de Janeiro/RJ
Marilza de Castro
palavra
arma
eficaz
para
fazer
paz
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
SONETO 6
Cicatrizes; de angústia em meu viver
moldadas pela mão do esquecimento.
Como sofro por não tentar mais ver
a exuberante estrela do tormento.
A solidão percebo renascer;
chora a minha alma, chora o sentimento:
— tanta melancolia faz crescer
saudades que trituram meu momento.
Quero cortar o laço do passado,
libertar a minha alma tão cansada
desse viver tristonho e transtornado
pela aflição sombria e renegada.
Quero meu sonho que foi exilado
pela saudade fria e longa espada.
Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Marah Teresinha de Souza
O teu sorriso me encanta
em qualquer hora do dia,
docemente me acalanta
como suave sinfonia.
Um Emaranhado de Setilhas e Trovas, de Fortaleza/CE
Nemésio Prata
Agora fiquei com medo
de encaminhar ao universo
os meus versos, pois, Aedo
que não sou, pode um meu verso
trazer erro malfazejo,
rimando beijo e desejo
ou, quem sabe, o seu inverso!
Mesmo assim, criei coragem
e aqui passo a encaminhar
"balaio", que de passagem
não é "balaio" sem par;
é "balaio" preparado
para ser aproveitado
por quem almeja rimar!
Rimar beijo com desejo
é beijar sem desejar;
a quem faz isso, no ensejo
desejo: aprenda a rimar!
O que rima mel com céu
no céu nunca vai chegar,
quem sabe no fogaréu
do inferno ele vai rimar!
O que rima sal com mau,
na rima está muito mal,
precisa levar quinau
pois rima tem que ter "sal"!
Temos regras definidas
para as sílabas poéticas,
que precisam ser seguidas
pra não ficarem patéticas!
Pra se fazer elisão
é bom conhecer a norma,
pois não pode a supressão
ser feita de qualquer forma!
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
SONETO 7
Nesta angústia incontida que me prende,
o lamento é figura amargurada,
a sombra é a projeção que se desprende
da minha alma que chora abandonada.
A saudade é o crepúsculo que pende
da mortalha — minha última morada.
A solidão é um pássaro que rende
lembrança que é tristeza renegada.
A dúvida cruel é o fim de tudo,
a esperança é patética e vazia.
Meu olhar se convence, quase mudo,
ao ver que a vida já não me sorria,
que a agonia reside em meu estudo:
— felicidade é clássica utopia.
Um Haicai de São Paulo/SP
Débora Novaes de Castro
concha perolada
descoberta pelos ventos
soprar das areias
Uma Trova de Rio Negrinho/SC
Lucas Barbosa
Foi assim com um sorriso
que eu saí da escuridão
hoje estou no paraíso
mas morrendo de paixão.
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
SONETO 8
O sorriso enigmático da sorte
nas patéticas fórmulas da vida
e as forças invisíveis do teu porte
marcaram de tristeza a minha lida.
Os mágicos espelhos da consorte
refletem desencantos da partida.
Sinto no olhar satânico da morte
o vulto de uma estrela mal-dormida.
A saudade é o ensaio da agonia
com seu sempre romântico sorriso,
expressão nebulosa da alegria,
navegando nos veios do meu guizo,
nas paisagens perdidas da ironia...
Assim é o meu estranho paraíso.
Recordando Velhas Canções
Quero lhe dizer cantando
(1968)
Reinaldo Rayol e Renato Correia
Quero lhe dizer cantando
Tudo o que eu estou sofrendo
Quero lhe dizer chorando
Que aos poucos vou morrendo
Pois sem você não sou ninguém
E eu canto pra esquecer
O que sinto por você, meu bem
Vou dizer que eu choro
E o seu amor eu não imploro
Quero lhe dizer sorrindo
Sabendo que eu estou mentindo
Pois sem você não sou ninguém
E eu canto pra esquecer
O que sinto por você, meu bem
Meu coração está chorando
Pporque não tenho você
Pra disfarçar vou cantando
Sabendo que jamais vou lhe esquecer
Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Gledis Tissot
A lua espera confiante
o eclipse que vai chegar,
e o sol está radiante
querendo a lua abraçar!
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
SONETO 9
Emergindo de lousa quieta e fria,
pairando na minha alma flagelada,
em angélico vôo de harmonia,
a saudade é uma flor despetalada.
É uma escultura clássica e sombria
que mantém a minha alma atropelada.
É uma lembrança inquieta da porfia,
é uma dor, é uma vida embalsamada.
A saudade é uma chama adormecida
que está bem viva em nosso pensamento.
Ela é a cinza patética da vida,
é uma luz de alegria e de tormento,
é uma fonte de angústia indefinida,
é a essência vesperal do sentimento.
Um Haicai de Lençóis/BA
Afrânio Peixoto
Júlio Afrânio Peixoto
(1876 - 1947) Rio de Janeiro RJ
Perfume Silvestre
As coisas humildes
Têm seu encanto discreto:
O capim melado...
Uma Trova de Balneário Camboriú/SC
Fabiana Gonçalves da Veiga
Lindo mar, eu te amo tanto!
Tu me dás muita alegria.
Nessa beleza me encanto,
pois iluminas meu dia!
Um Soneto de Campos/RJ
Constantino Gonçalves
SONETO 10
Quero ser prisioneiro dos seus braços,
quero ser a paisagem companheira
para abrigar teus tímidos cansaços;
serei repouso e a sombra hospitaleira.
Serei uma paixão sem embaraços,
serei o teu amor a vida inteira.
Nunca serei as vozes dos fracassos,
serei a paz risonha e verdadeira.
Serás a fonte em mágica alegria
presa no meu planeta de ventura.
Na forja da felicidade, ria!
Mas me dá o consolo da ternura,
porque sou preso à místíca magia
desse olhar que é uma fonte que murmura.
Hinos de Cidades Brasileiras
Santa Cruz Cabrália/BA
Pelos Lusos descoberta,
Pindorama, Vera Cruz,
Santa Cruz, hoje Brasil.
Lindas praias, que beleza,
Sua terra é riqueza
Com seu índio varonil,
Deslumbrou o navegante
Neste radiante,
De 22 de abril.
Céu azul e verde mar,
Tem na cruz o esplendor
nos faz agora sentir,
o passado apoteótico,
de um povo Patriótico,
confiante no porvir,
salve berço idolatrado,
salve solo abençoado,
que frutifica a sorrir.
É a grandeza da certeza que terás;
Nesta terra, em se plantando tudo dá,
É a grandeza da certeza que terás;
nesta terra, em se plantando tudo dá,
em se plantando tudo dá.
Uma Trova de Joinville/SC
David José Passerino
Não tenho medo da morte,
nem um pouquinho, meu bem...
Para quem não teve sorte,
a morte é quase que um bem.
Constantino de Alvarenga Gonçalves nasceu em Campos (RJ), no dia 23 de dezembro de 1937. Filho de Constantino Gonçalves Netto e Licínia de Alvarenga Pinto.
            Fundou em julho de 1962,com Antônio Weindler e Walter Siqiieira, o Instituto Campista de Literatura, onde ocupa a cadeira de Antônio Sarlo.
            Pertence à: Academia Pedralva de Letras e Arres; União Brasileira de Trovadores, Seção de Campos; Associação de Imprensa Campista (como efetivo); Ateneu Angrense de Letras e Artes; Academia Cachoeirense de Letras (como correspondente); Casa de Cultura de Alegre; Sala de Letras e Artes "Gabriela Mistral" (antes em Petrópolis, agora no Rio); Academia Teresopolitana de Letras; Academia Cachoeirense de Letras (como correspondente em Campos).
            Publicou livros, como : "Pétalas" (trovas), em 1962; "Tardes Verdes" (sonetos), em 1966; "Friburgo, Cidade Inspiração" (trovas, de parceria com Alberto Lima e A. A. de Assis), em 1963; "A Rosa" (poema), em 1964; "É..." (poemas), em 1976; e "Noites Brancas" (sonetos), em 1981. Tem sido incluído e citado em antologias e coletâneas de trovas e poemas. Recordista, em Campos, na conquista de diplomas, troféus, medalhas e certificados em jogos florais e concursos de todo o Brasil. Possui o título de "Príncipe dos Trovadores Campistas".
_________________________
Adeus! Palavra inclemente!
Ninguém pode definir...
Lembra a saudade presente,
na hora de despedir.
A trova, tão pequenina.
essência da poesia,
traz a mensagem divina
da própria filosofia.
A vida é um segredo mudo,
em barro e pó transformada.
- É o desejo de ser tudo...
e a agonia de ser nada!
A vida tem tal crueza,
que a alegria de viver
está na doce certeza
de um dia ter que morrer.
Bendigo a Deus e à Verdade.
No mundo tudo eu bendigo...
Só não bendigo a Saudade
que tu deixaste comigo!
Colhendo divinos pomos,
hoje eu digo de uma vez:
- De dois seres que ontem fomos,
amanhã seremos três...
Deixarei estrofes tantas,
tantos versos, tantas trovas,
que ficarão como as plantas:
– germinando em folhas novas.
Dor. Prazer. Queixa e bondade,
tudo passa, tudo cansa...
Somente fica a Saudade
iluminando a Lembrança.
Felicidade é colmeia
que se quer e não se alcança.
É um castelinho de areia,
feito por mão dc criança.
Há duas coisas na vida
que nos deixam descontentes:
- Uma pessoa fingida...
E a língua dos maldizentes!
Há uma forma literária
que aqui e ali se renova.
É singela e multifária,
e nós chamamos de Trova.
Hoje é o terno do amanhã
que ontem nos preocupou.
O passado é o do Futuro
que o Presente transformou.
Mãe! Divina criatura,
razão do nosso viver:
– Mãe! Poema de Ternura,
que só Deus pode escrever!
Neste momento é que vejo,
como é que o amor se insinua.
- Saudade é ânsia, desejo.
da eterna presença tua.
Por nosso amor me intimido.
e vivo a te intimidar,
"Tu sofres porque eu duvido,
e eu sofro por duvidar".
Procede bem. De tal forma
que, pelos gestos sensatos,
coloque seus inimigos
debaixo dos seus sapatos.
Quando velhinhos, risonhos,
nós dois, em cismares francos,
veremos bailar os sonhos,
nos nossos cabelos brancos.
Saudade é a presença eterna
de alguém que está bem distante.
Quanto mais longe mais terna,
quanto mais terna - constante.
Saudade fonte da vida,
quando se vive de amor.
É nostalgia querida,
vivendo dentro da dor.
Só duas coisas receio
por este mundo de Deus;
de amigos falsos – o enleio,
de bons amigos - o adeus!...
Tenho na vida um temor;
ficarmos nós sem carinho,
- nossas almas sem amor,
seriam aves sem ninho.
Um inimigo constante
serve para estimular.
Desperta em nós o gigante.
que não queria acordar.
Vontade nós todos temos,
de glórias mil conquistar.
Lutemos, sim! Mas, deixemos,
a Estima - em nosso lugar!
            Ricardina Yone  (nome literário de Ricardina Marques da Silva), nasceu em Recife/PE, filha de José Marques da Silva e Áurea M. da Silva. Professora universitária em Economia Política, formada em Direito, exerceu o magistério siperior, lecionando na Faculdade Técnico-Educacional Souza Marques – Administração de Empresas e Ciências Contábeis. Jornalista, pertencente ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro, Associação Brasileira de Imprensa e União dos Profissionais de Imprensa.
            Diploma de honra da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul (1968), pertence à Academia Guanabarina de Letras, Academia Federal de Letras, Ciências e Artes, membre honnoraire de 1. Association Culturalle Brésil-Canadá (Siégede Quebec).
            Primeira mulher a ocupar a Presidência da Sociedade Brasileira de Filosofia. Secretária-geral da Sociedade Brasileira de Geografia. Membro Da Ordem das Cinco Estrelas. Secretária da Academia Brasileira de Literatura/RJ
            Autora de livros como:"Eterna Ironia" (contos) e  "Cerejeiras em Flor".
Jean de La Fontaine
O Leão e o Rato
Saiu da toca aturdido
Daninho pequeno rato,
E foi cair insensato
Entre as garras de um leão.

Eis o monarca das feras
Lhe concedeu liberdade,
Ou por ter dele piedade.
Ou por não ter fome então.

Mas essa beneficência
Foi bem paga, e quem diria
Que o rei das feras teria
De um vil rato precisão!
Pois que uma vez indo entrando
Por uma selva frondosa,
Caiu em rede enganosa
Sem conhecer a traição.

Rugidos, esforços, tudo
Balda sem poder fugir-lhe:
Mas vem o rato acudir-lhe
E entra a roer-lhe a prisão.
Rompe com seus finos dentes
Primeira e segunda malha;
E tanto depois trabalha,
Que as mais também rotas são.

O seu benfeitor liberta,
Uma dívida pagando,
E assim à gente ensinando
De ser grata à obrigação.
Também mostra aos insofridos,
Que o trabalho com paciência
Faz mais que a força, a imprudência
Dos que em fúria sempre estão.
Jean de La Fontaine foi um poeta e fabulista francês. Filho de um inspetor de águas e florestas, nasceu na pequena localidade de Château-Thierry/França, em 8 de julho de 1621. Estudou teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi a literatura. Escreveu o romance "Os Amores de Psique e Cupido" e tornou-se próximo dos escritores Molière e Racine. Em 1668 foram publicadas as primeiras fábulas, num volume intitulado "Fábulas Escolhidas". O livro era uma coletânea de 124 fábulas, dividida em seis partes. La Fontaine dedicou este livro ao filho do rei Luís 14. As fábulas continham histórias de animais, magistralmente contadas, contendo um fundo moral. Escritas em linguagem simples e atraente, as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente seus leitores.Várias novas edições das "Fábulas" foram publicadas em vida do autor. A cada nova edição, novas narrativas foram acrescentadas. Em 1692, La Fontaine, já doente, converteu-se ao catolicismo. Antes de vir a ser fabulista, foi poeta, tentou ser teólogo. Além disso, também entrou para um seminário, mas aí perdeu o interesse. A sua grande obra, “Fábulas”, escrita em três partes, no período de 1668 a 1694, seguiu o estilo do autor grego Esopo, o qual falava da vaidade, estupidez e agressividade humanas através de animais. Faleceu em Paris, 13 de abril de 1695.
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Folclore Indígena
A Vingança de Maire-Pochy
         A saga dos descendentes de Monan não terminou com os dois irmãos do anterior. Depois deles, vieram outros, e dentre esses sobressaiu-se um certo Maire-Pochy.
         Apesar da nobre ascendência, Maire-Pochy, por alguma desgraça do destino, nascera votado à infelicidade. Além de servo do cacique, ele era feio e corcunda. Maire-Pochy gostava de pescar, e certo dia trouxe do rio um belo peixe.
         Ao vê-lo, a filha do seu amo lambeu os lábios de apetite.
         – Que beleza! Tudo faria para saboreá-lo!
         Maire-Pochy correu logo a preparar, ele mesmo, o belo peixe no moquém, uma espécie de grelha na qual os índios assam a carne. O peixe devia ser muito especial, pois tão logo a jovem o comeu, ficou grávida. O menino nasceu com uma rapidez inaudita, e logo o pai da jovem quis saber quem era o pai da criança. Mas ninguém se apresentou, o que obrigou o cacique a ter uma conversa com o pajé.
         – Os miseráveis estão calados, e ninguém quer assumir a paternidade! – disse o morubixaba. – Como hei de saber quem é o pai da criança?
         O pajé, porém, que tinha receitas para todos os males, tinha uma também para este.
– É fácil descobrir – disse ele, com uma empáfia serena. – Reúna todos os homens da tribo e os faça desfilar diante da jovem portando seus arcos. Quando o verdadeiro pai se apresentar, a criança tocará o seu arco.
         O cacique fez como o pajé dissera, e todos os homens saudáveis da tribo desfilaram diante da jovem com o bebê ao colo. Mais de cem índios, de todos os tamanhos, passaram à frente do bebê, mas ele não tocou o arco de nenhum deles.
         Então, o terror cresceu na alma do cacique.
 – Será Anhangá, o espírito mau, o pai da criança?
         Mas, quando todos já estavam se dispersando, o pajé gritou:
         – Esperem! Faltou Maire-Pochy, o corcunda!
         Um coro de risos explodiu entre os índios.
         – Está brincando? – exclamou o cacique ao pajé.
         – Ele é um homem saudável, apesar da aparência – disse o pajé. – Que desfile também!
         Então Maire-Pochy desfilou diante da índia e de seu bebê. Assim que ele passou diante dos dois, portando o seu arco, o garoto esticou o bracinho e fez vibrar a corda.
         Um som parecido com o da harpa soou, fazendo calar a tribo inteira.
         – Afronta e vergonha! – gritou o morubixaba, fuzilando a filha com os olhos.
         No mesmo dia, o cacique ordenou que a tribo inteira partisse daquele lugar, abandonando a filha e o neto junto com Maire-Pochy.
         – De hoje em diante, não tenho mais filha! – esbravejou o cacique, antes de partir.
         Desde aquele dia, a taba florescente converteu-se numa taba-fantasma, habitada apenas pela mulher, a criança e Maire-Pochy.
         Mal sabia, porém, o cacique que, ao partir, levara consigo uma maldição, pois nas novas terras verdejantes onde a tribo se instalou não crescia mais um único talo de erva, a água havia secado e toda a criação perecera.
         – Isto só pode ser uma maldição de Maire-Pochy! – disse o cacique.
         Nas terras onde haviam permanecido o corcunda e a índia, tudo continuava às mil maravilhas: as plantações brotavam por si mesmas, a água corria fresca e estuante e os animais procriavam como coelhos.
         Ao saber dos infortúnios do cacique, Maire-Pochy mandou dizer a ele que poderiam vir abastecer-se nas terras onde agora era o senhor.
         – Maire-Pochy diz que não guarda mágoa alguma – disse o emissário ao cacique.
         O morubixaba pensou um pouco e disse:
         – É, não tem outro jeito, vamos ter de nos humilhar diante daquele
miserável!
         Então apresentaram-se diante do corcunda e da jovem.
         – Abasteçam-se de tudo quanto quiserem – disse Maire-Pochy, com um ar piedoso.
         Os esfomeados se lançaram à comida farta, espalhada por dúzias de moquéns. Ao experimentarem os pitéus, no entanto, sobreveio imediatamente a desgraça, pois tudo não passava de uma armadilha. Logo todos começaram a se converter em porcos, em grilos e em maracanãs (espécie de arara menor, de plumagem verde). O cacique se converteu num jacaré, enquanto sua esposa virou uma tartaruga.
         Cumprida a vingança, Maire-Pochy fez como o seu antepassado Monan e subiu às nuvens, para nunca mais retornar à Terra.

Fonte:Ademilson S. Franchini. As 100 melhores lendas do folclore brasileiro. Porto Alegre/RS: L&PM, 2011.
Júlia Lopes de Almeida
A Pobre Cega
         Na cidade de Vitória, no Espírito Santo, havia uma ceguinha que, por ser muito amiga de crianças, ia todos os dias sentar-se perto de uma escola, num caminho ensombrado por bambus. Entretinha-se ela ouvindo as conversas da pequenada que subia para as aulas.
         As auras do mar vinham de longe queimar-lhe o rosto trigueiro. Imóvel, com o cajado nas mãos pequenas, ela imaginava quanto os rapazinhos deveriam estar pimpões dentro das suas roupinhas bem lavadas, e ria-se quando, a qualquer ameaça ou repelão de um dos mais velhos, os pequenos gritavam:
         -Eu vou dizer à mamãe!
         E havia sempre um coro de gargalhadas, a que se juntava uma voz lamurienta.
         Um dia, dois dos estudantes mais velhos, já homenzinhos, desciam para o colégio, quando verificaram ser ainda muito cedo, e sentaram-se também numas pedras, a pequena distância da mendiga. O dever da pontualidade, que não deve ser esquecido em nenhum caso da vida, aconselhou-os a ficarem ali até a hora fixada pelo mestre para a entrada na escola. Entretanto, para não perderem tempo, repassaram os olhos pela lição, lendo alto, cada um por sua vez, o extrato que tinham feito em casa, de uma página de História do Brasil.
         A cega, satisfeita por aquela inesperada diversão, abriu os ouvidos à voz clara de um dos meninos, que dizia assim:
         “A civilização adoça os costumes e tem por objetivo tornar os homens melhores, disse-me ontem o meu professor, obrigando-me a refletir sobre o que somos agora e o que eram os selvagens antes do descobrimento do Brasil. Eu estudei história como um papagaio, sem penetrar nas suas idéias, levado só por palavras. Vou meditar sobre muita coisa do que li. Que eram os selvagens, ou os índios, como impropriamente os chamamos? Homens impetuosos, guerreiros com instintos de animal feroz. Entregues absolutamente à natureza, de que tudo sugavam e a que por modo algum procuravam nutrir e auxiliar, estavam sujeitos às maiores privações; bastando que houvesse uma seca, ou que o animais emigrassem para longe das suas tabas, para sofrerem os horrores da fome. Sem cuidar da terra e sem amor ao lar, abandonavam as suas aldeias, poucos anos habitadas, e que ficavam pobres “taperas” sem único indício de saudade daqueles a quem agasalharam! Elas ficavam mudas, com os seus telhados de palma apodrecidos, sem ninhos, sem aves, que as flechas assassinas tinham espantado, sem flores, sem o mínimo vestígio do carinho que temos por tudo que nos rodeia. Abandonando as tabas, que por um par de anos os tinham abrigado, os donos iam plantar mais longe novos arraiais. Os homens marchavam na frente, com o arco pronto para matar, e as mulheres iam atrás, vergadas ao peso das redes, dos filhos pequenos e dos utensílios de barro de uso doméstico. O índio vivia para a morte; era antropófago, não por gula, mas por vingança.
         Desafiava o perigo, embriagava-se com sangue e desconhecia a caridade. As mulheres eram como escravas, submissas, mas igualmente sanguinárias. Não seriam muito feios se não achatassem os narizes e não deformassem a boca, furando beiços. Além da guerra e da caça, entretinham-se tecendo as suas redes, bolsas, cordas de algodão e de embira, e polindo machados de pedra com que cortavam lenha. Quero crer que as melhores horas da sua vida seriam passadas nessas últimas ocupações.
         Que alegria invade o meu espírito quando penso na felicidade de ter nascido quatrocentos anos depois desse tempo, em que o homem era uma fera, indigno da terra que devastava, e como estremeço de gratidão pelas multidões que vieram redimir essa terra, cavando-a com a sua ambição, regando-a com seu sangue, salvando-a com a sua cruz!
         Graças a elas, agora, em vez de devastar, cultivamos, e socorremo-nos e amamo-nos uns aos outros!
         Pedro Álvares Cabral, Pêro Vaz de Caminha, Frei Henrique de Coimbra, vivei eternamente no bronze agradecido, com que no Rio de Janeiro vos personificou o mestre dos escultores brasileiros!”
         Vinham já os outros rapazes muito apressados a caminho da escola. A cega calculou pelas vozes o tipo e a estatura de cada um, e, quando já se perdia ao longe o rumor dos passos da maior parte deles, sentiu, como nos outros dias, cair-lhe devagarinho no colo uma laranja e um pedaço de pão.
         Nenhuma palavra costumava acompanhar aquela dádiva, mas uma corridinha leve denunciou, como das outras vezes, o fugitivo, o Chico, que não tendo nunca dinheiro para dar à pobrezinha, dava-lhe a sua merenda!
         Nesse dia as crianças voltaram imediatamente do colégio: o professor adoecera e não havia aula. Sentindo-os, a cega levantou o bastão para que parassem e perguntou:
         - Como se chama o menino que todos os dias me mata a fome, dando-me a sua merenda?
         Ninguém respondeu. Como a pobre renovasse a pergunta, Chico fugiu envergonhado. Reconhecendo-o pela bulha dos passarinhos rápidos, a mendiga exclamou:
         - É aquele que fugiu! Tragam-mo cá; quero beijar-lhe as mãos!
         Alcançado pelos colegas, Chico retrocedeu, vermelho como uma pitanga, e deixou-se abraçar pela mendiga, que lhe passava os dedos pelo rosto, procurando adivinhar-lhe as feições.
         Familiarizados com ela, os meninos perguntaram-lhe:
         - Vocemecê não vê nada, nada?
         - Nada.
         - Já nasceu assim?
         - Não…
         - Como foi?
         - Coitadinha…
         As perguntas das crianças não a humilhavam, porque ela já as tinha por amigas.
         - Querem saber como fiquei cega? Escutem: quando eu era moça, morava e frente à casa de uma viúva carregada de filhos. Uma noite acordei ouvindo gritos. - Socorro, socorro! Pediam em brados. Levantei-me à pressa, vesti-me não sei como, e fui à janela. Da casa fronteira saíam chamas e grandes novelos de fumo; na rua, a dona da casa, gritando sempre, aconchegava os filhos ao peito. De repente deu um grito agudíssimo: faltava um dos filhos mais moços - o Manoel!
         A desgraçada quis atirar-se às chamas, ms as crianças agrupavam-se todas agarradas à sua saia: então eu atravessei correndo a rua, e de um pulo trouxe para fora o menino, já meio tonto e pálido como um morto. Não me lembro senão do calor do fogo que me cercava por todos os lados, da fumaça que oprimia e da dor horrível que senti nos olhos, quando, à rajada fria da noite, entreguei na rua o filho à mãe.
         Ela gritou radiante: - Está salvo! e eu pensei com amargura: - Estou cega…
         - E essa família? Inquiriu um dos meninos.
         - Era pobre também. Nem sei onde pára…
         - Sei eu! Respondeu um dos pequenos; essa família é a minha! A criança que a senhora salvou é hoje um homem trabalhador e que há-de protegê-la. É meu pai.
         Uma hora depois a velha cega entrava para sempre em casa de Chico, onde lhe deram o melhor leito e a trataram sempre com o mais doce carinho, provando assim que muita razão tinha o mestre fazendo ver ao discípulo quanto a civilização adoça os caracteres e torna os homens bons!
Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Histórias da nossa terra. (Rio de Janeiro. Ed. Francisco Alves, 1925),
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Júlia Valentina da Silveira Lopes de Almeida nasceu na então Província do Rio de Janeiro, em 24 de setembro de 1862, filha do Dr. Valentim José da Silveira Lopes, professor e médico, depois Visconde de São Valentim, e de D. Adelina Pereira Lopes. Mãe dos escritores Afonso Lopes de Almeida, Albano Lopes de Almeida e Margarida Lopes de Almeida. Viveu parte da infância em Campinas/SP, onde estreou sua carreira de escritora, 1881, escrevendo na Gazeta de Campinas.
Desde cedo mostrou forte inclinação pelas letras, embora no seu tempo de moça não fosse de bom-tom nem do agrado dos pais, uma mulher dedicar-se à literatura. Numa entrevista concedida a João do Rio entre 1904 e 1905, confessou que adorava fazer versos, mas os fazia às escondidas.
Em 1887 casou-se com um jovem escritor português, Filinto de Almeida, à época diretor da revista A Semana, editada no Rio de Janeiro, que recebeu a colaboração sistemática de Dona Júlia por vários anos.
Sua produção literária foi vasta, mais de 40 volumes abrangendo romances, contos, literatura infantil, teatro, jornalismo, crônicas e obras didáticas. Em sua coluna no jornal O País, durante mais de 30 anos, discutiu variados assuntos e fez diversas campanhas em defesa da mulher.
Foi presidenta honorária da Legião da Mulher Brasileira, sociedade criada em 1919; e participou das reuniões de formação da Academia Brasileira de Letras, da qual ficou excluída por ser do sexo feminino.
Sua coletânea de contos Ânsia Eterna, 1903, sofreu influência de Guy de Maupassant e uma das suas crônicas veio a inspirar Artur Azevedo ao escrever a peça O dote. Em colaboração com Felinto de Almeida, seu marido, escreveu, em folhetim do Jornal do Comércio seu último romance A casa verde, 1932, vindo a falecer dois anos depois, em 30 de maio de 1934, na cidade do Rio de Janeiro.
Romances
A Família Medeiros ; Memórias de Marta ; A Viúva Simões ; A Falência ; Cruel Amor ; A Intrusa ; A Silveirinha ; A Casa Verde (com Felinto de Almeida) ; Pássaro Tonto ; O Funil do Diabo
Novelas e contos
Traços e Iluminuras ; Ânsia Eterna ; Era uma vez… ; A Isca (quatro novelas) ; A caolha
Teatro
A Herança (um ato) ; Quem Não Perdoa (três atos) ; Nos Jardins de Saul (um ato) ; Doidos de Amor (um ato)
Diversos
Livro das Noivas ; Livro das Donas e Donzelas ; Correio da Roça ; Jardim Florido ; Jornadas no Meu País ; Eles e Elas ; Oração a Santa Dorotéia ; Maternidade (obra pacifista) ; Brasil (conferência)
Escolares
Histórias da Nossa Terra ; Contos Infantis (com Adelina Lopes Vieira) ; A Árvore (com Afonso Lopes de Almeida)
Fontes:
Deonísio da Silva
Expressões e Suas Origens
Parte V
Beija-me com os beijos da tua boca
Esta frase, inserida em diversos textos literários por escritores de muitos países, está num dos mais belos livros da Bíblia, o Cântico dos cânticos, esplêndido poema sobre o amor, da autoria de Salomão (970-931 a.C.), que, além de construir o famosos templo de Jerusalém, escreveu livros cheios de sabedoria, apaixonou-se, namorou e casou com cerca de mil mulheres, incluídas esposas e concubinas. Não apenas suas proclamada sabedoria, mas também seus amores tornaram-se lendários, como foi o caso daquele que viveu com a Rainha de Sabá. Salomão, fruto do amor arrebatado e dramático vivido pelo rei Davi (1015-975 a.C.) com uma mulher casada, Betsabéia, foi o terceiro rei de Israel.
Cada povo tem o governo que merece
Esta frase é proferida quando se quer falar mal do governo, atribuindo-se ao povo a má escolha. É de autoria do filósofo francês Joseph De Maistre (1753-1821), crítico da Revolução Francesa, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias e do papa. Apesar de a frase ter servido sempre para vituperar todos os governos, os alvos preferidos são aqueles escolhidos por voto popular. Porém, nada se diz quando os eleitores mostram sabedoria nas votações. Assim, contrariando a máxima popular, o filho feio sempre tem por pai o próprio povo. No fundo, a crítica não é aos maus governantes, mas aos responsáveis por sua elevação aos cargos.
Chegar de mãos abanando
Os primeiros imigrantes deviam trazer as ferramentas indispensáveis ao cultivo da terra, entre as quais eram importantes a foice e o machado, para a derrubada de matas. Dos colonos europeus esperava-se que trouxessem também galinhas, porcos e vacas, bases de uma economia auto-sustentável. Quem chegasse, pois, de mãos abanando, não vinha disposto a trabalhar. Manter, pois as mãos ocupadas era sinal de disposição para o trabalho e ajuda mútua. O imigrante, que no dizer de Ambrose Bierce (1842-1914), é um indivíduo mal-informado, que pensa que um país é melhor que outro, não poderia chegar de mãos abanando.
Cobra que perdeu o veneno
Aplica-se esta frase a pessoas iradas que, entretanto, nada podem fazer em situações de desespero. Nasceu da crendice popular de que as cobras, para não sucumbirem ao próprio veneno, depositam-no em folhas quando precisam tomar água. Ao voltarem dos riachos, algumas acabam esquecendo-se de onde o puseram, mantendo-se como loucas à procura da peçonha temporariamente dispensada. O escritor maranhense Henrique Maximiano Coelho Neto (1864-1934), autor de mais de cem livros e um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, registrou o adágio em sua peça A muralha, numa fala da personagem Ana que, incapaz de resistir ao jogo do bicho, comporta-se como cobra que perdeu o veneno.
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Com uma mão se lava a outra
Esta frase resume preceitos de solidariedade, dando conta de que as ajudas devem ser mútuas. Foi originalmente registrada no parágrafo 45 do romance Satyricon, do escritor latino Tito Petrônio Arbiter (século primeiro a.C.), transposto para o cinema pelo famoso cineasta italiano Federico Fellini (1920-1994). Em síntese, o romance narra a história de um triângulo amoroso, envolvendo dois rapazes apaixonados por um terceiro, mas livro e filme põem em relevo a decadência dos costumes políticos. Tanto o romancista como o diretor criticam duramente a civilização ocidental, apesar dos 20 séculos que o separam, onde o que mais falta é justamente a solidariedade.
Custar os olhos da cara
A história desta frase começa com um costume bárbaro de tempos muitos antigos, que consistia em arrancar os olhos de governantes depostos, de prisioneiros de guerra e de indivíduos que, pela influência que detinham, ameaçavam a estabilidade dos novos ocupantes do poder. Cegos, eles seriam inofensivos ou menos perigosos. Naturalmente, a expressão alude também ao incomparável valor da visão. Por isso, pagar alguma coisa com a perda dos olhos passou a ser sinônimo de custo excessivo, que ninguém pode pagar. A expressão tem servido para designar preços exagerados em qualquer produto. Um dos primeiros a registrá-la foi o escritor romano Plauto (254-184 a.C.), numa das 130 peças de teatro que escreveu.
Coisas da casa cuide a mulher
Esta frase, dando conta de que os trabalhos domésticos são incumbência exclusivamente femininas, tem suas origens remotas, mas houve um caso que a tornou ainda mais proverbial e famosa. Guilhaume Budé (1467-1540), um dos fundadores do College de France, onde ensinaram alguns dos maiores intelectuais do mundo nas diversas épocas, estava pesquisando etimologia quando irrompeu em seu escritório, todo esbaforido e aflito, um mensageiro de triste notícia: a casa do já célebre humanista francês tinha pegado fogo. Sem levantar os olhos dos manuscritos de grego, língua cujos estudos disseminou na França toda, limitou-se a pronunciar esta frase. Mas nada restou depois do incêndio para a mulher cuidar.
De boas intenções o inferno está cheio
Esta frase é de autoria de um teólogo e santo famoso, o francês São Bernardo de Clairvaux (1090-1153). Muito místico, travou grandes polêmicas com o célebre namorado de Heloísa, o também teólogo e filósofo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142). Conselheiro de reis e papas, São Bernardo pregou a segunda Cruzada, destacando-se no combate àqueles que eram considerados hereges por ousarem interpretar de modos plurais a ortodoxia católica. A frase foi brandida, não apenas contra seus desafetos, mas também a seus aliados, e tornou-se proverbial para denunciar que as boas intenções, além de não serem suficientes, podem levar a fins contrários aos esperados.
Deixo a vida para entrar na história
A celebridade desta frase deve-se à carta-testemunha do presidente Getúlio Vargas, assinada momentos antes de suicidar-se, na madrugada de 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Um padre ainda o encontrou consciente e de olhos abertos. Antes de ocupar a Presidência da República por quase 20 anos, ele foi governador do Rio Grande do Sul, seu Estado natal. Um dos maiores estadistas brasileiros, foi sob seu governo que ocorreu a maior industrialização do Brasil. Logo depois de deposto a primeira vez, em 1945, candidatou-se a senador, conseguindo 17 por cento dos votos, recorde jamais alcançado por qualquer outro. No segundo mandato, cumpriu a frase profética.
Deus me defenda dos amigos, que dos inimigos me defendo eu
Frase atribuída ao escritor e filósofo francês Voltaire, pseudônimo de François Marie Arquet. Teve desempenho brilhante nas célebres polêmicas do Século das Luzes, com suas idéias claras, temperadas por cáustica ironia, arma verbal que lhe rendeu muitos inimigos entre os obscurantistas, sendo obrigado a retirar-se de Paris após a publicação do seu livro Cartas filosóficas, em 1734. Foi, porém, apoiado e acolhido pela escritora Madame de Châtelet (1706-1749), sua inspiradora e amiga, da qual Deus não precisou defendê-lo.
Dinheiro não tem cheiro
A frase original foi pronunciada em latim, pelo imperador Vespasiano (9-79), cujo filho, Tito, estava inconformado com o novo imposto baixado pelo pai, que, para melhorar as finanças da antiga Roma, taxara os mictórios públicos. Logo nas primeiras arrecadações, Vespasiano tomou uma das moedas recolhidas nas privadas imperiais e pediu que o filho a cheirasse, dizendo: non olet, isto é, não tem cheiro. Vespasiano fez boa administração, recuperou a economia do império e entre seus feitos está também a construção do Coliseu. Mas, como todo administrador austero, incompatibilizou-se com os meios senatoriais.
Dize-me o que comes e eu te direi quem és
Variação do preceito evangélico “dize-me com quem andas e eu te direi quem és”, esta frase famosa está presente em A filosofia do gosto, livro clássico do célebre gastrônomo Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826) e faz parte dos 20 aforismos ali reunidos, os mandamentos de quem quer comer bem. Bom gourmet e bom gourmand, esse francês notabilizou-se por suas célebres tiradas a respeito do ato de comer. Entre outras prescrições, recomendou aos cozinheiros e aos visitantes a pontualidade e escreveu que convidar alguém para comer em nossa casa equivale a encarregar-se de sua felicidade. Sempre com verve, proclamou que mais vale para o gênero humano a invenção de um novo prato do que o descobrimento de um novo astro.
Dizer as coisas em alto e bom som
Esta frase nasceu das dificuldades de comunicação em sociedade, principalmente no trabalho, nas lides e em conversas de rua. Não se sabe quem a inventou, com o fim de deixar muito claro o que dizia, mas há um bom exemplo recolhido do célebre escritor, jornalista, orador, político e jurisconsulto brasileiro Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923). Foi também vice-presidente da República e teve uma desastrada atuação como ministro da Fazenda. Redigiu nossa primeira constituição republicana, a de 1891. Esta frase está presente em célebre conferência que fez sobre o dever da imprensa de dizer a verdade em alto e bom som.
Dois bicudos não se beijam
Ao contrário do que se possa parecer, o vocábulo não se aplica às aves, mas aos homens. Antigamente eram chamados de bicudo tanto estiletes compridos e armas pontudas, como certos valentões que, nas bodegas, festas e ajuntamentos diversos, patrocinavam arruaças. Indivíduos de pouca conversa e gestos grosseiros, brigavam por qualquer coisa. O brasileiro, tido por cordial e afável no trato entre colegas e amigos, sempre se caracterizou por abraços, afagos, beijos e outras efusivas demonstrações de carinho. Daí o contraste de dois bicudos que não se beijam, de que são exemplo célebres parcerias impossíveis como certos presidentes e vice-presidentes do Brasil, entre os quais Jânio Quadros e João Goulart. O primeiro mandou o outro para a Cochinchina – oficialmente, seria a China, mas conhecendo as intenções ocultas de Jânio, sabemos que ele queria o vice ainda mais longe – e renunciou para ver que bicho dava. Deu o maior bode, como a História mostrou, resultando, por fim, na deposição do presidente que os militares não queriam empossar.
Dourar a pílula
Esta frase tem o significado de se apresentar algo difícil ou desagradável como coisa fácil de aceitar. Nasceu de conhecida prática das farmácias antigas, que consistia em embrulhar pílulas em finos papéis, com o fim de preparar psicologicamente o cliente para engolir um remédio de gosto amargo. Do sentido literal, passou a metáfora e logo recebeu aplicação literário, estando um de seus mais antigos registros na peça Anfitrião, de Jean Baptiste Poquelin Molière (1622-1673), em que Sósia, na última cena do terceiro ato, diz: “o senhor Júpiter sabe dourar a pílula”. Dourar a pílula é ainda hoje tática sutil de persuadir renitentes, quando se procura destacar os aspectos positivos de algo desfavorável.
Fonte:
Deonísio da Silva. De onde vêm as palavras?
Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. Professor, escritor e etimologista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Filologia, vinculado às universidades Unijuí, RS (1972-1981), Ufscar, SP (1981-2003), Estácio, RJ (2003-2015) e Unisul, SC (2014-2015), dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Autor de 34 livros, alguns dos quais publicados também em Portugal, Itália, Alemanha, Canadá etc. Suas obras referenciais são o romance "Avante, soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago); "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras".
Maria Nascimento Santos Carvalho
Romance Inacabado
      Romance Inacabado é uma história triste, como tantas outras que já escrevi, retratando não só o meu drama pessoal, mas, também, o de muitos seres humanos cujo romantismo, despreparo psicológico ou a carência afetiva os levam a acreditar nas mais absurdas utopias do Destino, como continuo, ingenuamente, acreditando.
      Um dia, que poderia ser qualquer um do mês de agosto, Maria, como fazia há algum tempo, saiu para fazer uma caminhada de fim de tarde, que lhe fora imposta pelo excesso de peso gerado pela vida sedentária que ultimamente levava.
      Mal chegou ao destino avistou, a meia distância, um cavalheiro que, em princípio, lhe pareceu muito familiar, mas depois de observar atentamente percebeu que era um estranho, uma daquelas pessoas que, à primeira vista, encantam e deixam uma impressão tranqüilizadora.
      O seu mais novo conhecido, anônimo, parecia um artista. Sua beleza negra era de tirar o fôlego de qualquer mulher desacompanhada ou encostada num “estaleiro”. Estava num papo animado com um amigo, simpático, com jeito brejeiro, rindo como se estivessem fazendo comentários maliciosos a respeito de alguma coisa ou de alguém.
      Estavam andando em posições opostas e Maria percebeu, ao passar olhando para o “artista”, que sua presença parecia fazer parte da paisagem das pedras do Calçadão, que ele estivesse acostumado a pisar todos os dias, sem se dar conta, sequer, de que ela poderia ser uma pedra com formato diferente.
      Ao voltarem, novamente se encontraram e Maria teve a sensação de ser a mesma pedra do calçadão que ele havia ignorado e pisado há menos de uma hora e por mais que ela olhasse em sua direção não foi nem notada, porque os dois amigos só tinham sorrisos um para o outro, o que reforçou a sua certeza de que andavam o tempo todo debochando de colegas ou de quem quer que por eles passasse.
      Mais uma vez, mesmo nunca tendo avançado um sinal em sua vida afetiva, olhou com admiração para o “artista” e o achou a “paisagem” mais interessante que já havia passado diante dos seus olhos e, instintivamente, desafiando a sua timidez e esquecendo todos os Mandamentos da Lei de Deus, pela primeira vez na vida se via transgredindo todas as normas de boa conduta e como se os seus olhos despertassem a sua mente, sua alma e o seu coração, como uma louca que perdeu a noção do raciocínio, pensou alto, pronunciando, imaginariamente : “- eu quero este artista para mim”.
      Maria era solteira e não pensava em se prender a ninguém, mas aquele “atleta” havia mexido com sua cabeça e por um momento pensou em tentar conquistá-lo, esquecendo sua meta principal : a liberdade … E, fugindo daquele pensamento brusco, pensou: como queria conquistar um homem que nem havia olhado para ela, que não sabia seu nome, que nada sabia a seu respeito, a não ser que a ignorara como se ela fosse mais um pedaço do calçamento embaixo da sola dos seus tênis?
      Maria, mesmo sem perceber, passou a observá-lo, e, por incrível que pareça, tinha sempre a mesma impressão do dia em que o conheceu. Seu colega parecia mais falante e ele mais observador, mas, no fundo, dava para notar que tinham sempre um bom repertório de coisas engraçadas para comentar enquanto malhavam e nada que considerassem errado ou ridículo passava despercebido por seus olhos críticos.
      O tempo foi passando e cada dia mais crescia a vontade de Maria ouvir a voz do ilustre “desconhecido”, de saber se era gentil, atencioso, se era romântico… essas coisas que mulher, geralmente, tem curiosidade de saber. Mas, mesmo quando uma vez ou outra estava sozinho, não lhe dava a menor chance de se sentir mais visível do que aquela pedra à qual já se reportou.
      Maria se sentia a pessoa mais insignificante da face da terra, mas jurava que, um dia, nem que tentasse o resto de sua vida, derreteria aquela pedra de gelo e falaria com o “dito cujo”, nem que fosse para ficar mais decepcionada do que já estava com a sua indiferença, ou seu preconceito inconcebível.
      Depois de poucos meses de tê-lo visto, Maria já estava tão escravizada à presença daquele ilustre desconhecido que nem sabia como andar, quando passava por ele. Tinha medo de parecer que estava rebolando para chamar a sua atenção, de que ele a interpretasse mal… mas como iria interpretar isso ou aquilo se não se dava conta da sua existência ?
      Maria, na ânsia de perder peso mais depressa, caminhava usando meias compridas, roupas grossas etc. o que, para eles, poderia dar a impressão de que estava com as pernas mais riscadas de varizes do que o Mapa do Brasil, uma vez que pareciam observar o que viam e o que imaginavam ver para aumentar o rol de assuntos engraçados para as longas caminhadas.
      Por isso, para não alimentar a má impressão, com o tempo Maria foi se desvencilhando dos excessos do vestuário, descobriu as pernas, passou a usar camisetas, como quase todos os “atletas” com excesso de peso, e só faltou pendurar uma melancia no pescoço para que aquele homem lhe dirigisse a palavra.
      Apesar de saber que estava agindo errado, ela não abria mão do seu desejo de ser notada, e comeu o pão que o Diabo amassou por conta dessa maluquice que se havia apoderado dela. Ela reconhecia o “seu artista” a uma distância incrível e seu coração começava a bater desordenadamente. Pouco tempo depois, passou a pensar nele vinte e quatro horas por dia e quase toda noite chorava e se desesperava pela sua incapacidade de falar com uma pessoa que via quatro ou cinco vezes por semana e não era vista por ele hora nenhuma.
      Às vezes, ele sumia uma, duas semanas, para o seu maior desespero e quando o revia era como se o céu se abrisse aos seus pés e ela pudesse entrar nele com o seu “admirador imaginário” que, magicamente, a tornava invisível, como se nunca tivesse passado por ele. Era como se Deus se lembrasse de lhe devolver uma felicidade que nem lhe pertencia e talvez nunca fosse pertencer. Seu coração disparava e ela já não tinha mais controle da situação.
      Em síntese, já estava com os nervos à flor da pele e só faltava agarrá-lo a força e dizer : - eu estou aqui, eu o amo, eu sou louca por você… só falta eu me pendurar no seu pescoço e você finge que nunca me viu ? Será que sou uma porcaria tão sem valor que você não inclina seu rosto nem para rir de mim ?
      Mas, felizmente, sua loucura, por milagre, não chegou a tanto, embora tenha faltado muito pouco para ter um ataque histérico e se jogar nos braços dele.
      Um dia, quase três anos já passados, após tanto sofrimento, Maria viu, de longe, que “seu artista” estava sozinho e, quase como um desafio, prometeu a si mesma: é hoje que vou fazer este homem falar comigo, custe o que custar … e ficou maquinando o que poderia fazer. De repente, quando ele se aproximou, fingiu que estava se sentindo mal, mas, nem assim ele parou para lhe perguntar se estava com algum problema de saúde, se precisava de ajuda.
      Foi a pior ideia que ela poderia ter, pois nunca pensou que mesmo fingindo que nunca havia cruzado com ela, ele fosse passar como um cometa, sem lhe dirigir uma palavra, nem perguntar se ela estava precisando de alguma ajuda. Parece até que sabia que a única coisa que ela estava precisando era ouvir sua voz e receber um gesto de carinho, por menor que fosse.
      Como não estava sentindo nada além da vontade de tê-lo mais perto, quando percebeu que nem olhou para trás para ver se alguém havia se importado com ela, recomeçou a caminhada e na volta, com voz trêmula, fingindo uma ousadia que não tinha, se atravessou na frente dele, quase o atropelando e foi logo perguntando, num fôlego só. - Porque você não deixa de ser metido a importante demais e não fala comigo? Só falta eu engolir você com os olhos e você finge sempre que não me vê ? Fingi que estava passando mal e você nem quis saber se eu precisava de auxílio… - Você já me viu algum dia aqui, por acaso ?
      Ele, surpreso, com voz pausada disse, com um ligeiro sorriso, não sei se de nervosismo pela reação de Maria ou de deboche pelo inusitado : - Eu conheço você, sim, e quando você usava aquelas meias grossas eu comentava com o meu amigo : - esta mulher, coitada, deve ter as pernas cheias de varizes, por isso, só anda com elas cobertas com estas meias ridículas. - Adorei quando você tirou as meias e passou a caminhar com roupas mais joviais. Aí, disse ele : - percebi como é uma mulher charmosa, interessante e sensual. Nesse momento ela se esqueceu de que era apenas uma pedra do calçadão e começou a se sentir uma pedra bruta, mas visível aos olhos do novo “amigo”.
      Seguiram batendo papo, embora ela estivesse morrendo de medo que alguém a visse com um estranho e a interpretasse mal. Mas estava tão feliz com o rumo que a conversa estava tomando que queria que o mundo parasse naquela noite.
      Depois desse dia, “seu príncipe”, o José, como se identificara, volta-e- meia aparecia sozinho e saíam conversando amenidades, separados como dois estranhos, com receio das línguas maldosas, uma vez que ele se revelara comprometido.
      Das amenidades passaram para conversas mais arrojadas, até que, um dia, chegaram ao ponto que ela queria : Ficar a sós com aquele deus negro, há tanto tempo dono dos seus sonhos, das saudades,de sua alma, dos maus pensamentos; enfim, do seu todo.
      Foi o que de mais bonito aconteceu em toda a sua vida. Ela se sentiu mulher de verdade, pela primeira vez, e abandonou aquela sensação de estar errada por amar tanto aquele adorável desconhecido.
      Em seus encontros e desencontros esporádicos foram descobrindo as suas afinidades… E quantas !
      Maria pensava que suas afinidades fossem capazes de aproximá-los cada vez mais, mas lhes faltava um fator em comum : ele a queria como amiga que aceitasse apenas uma “amizade colorida”; ela o queria como amigo, como homem e como o pai dos filhos que ela tanto sonhava ter, o que levava suas afinidades a um grande distanciamento, a um imenso abismo. O quase tudo em comum parecia muito pouco para um relacionamento mais sólido e, dia a dia, se perdeu na diversidade dos seus sentimentos, como nesses versos :
Coincidências
     Agora que conheço a tua infância,
      eu vejo que foi quase igual à minha :
      a falta de recursos, com constância,
      e tudo o que não tinhas … eu não tinha !
        
      Nós tínhamos irmãos em abundância,
      pais honrados que, às vezes, à noitinha,
      percorriam a pé longa distância
      para vermos um circo, na pracinha.
           
      Lutando, já formados, progredimos,
      mas os nossos destinos não unimos
      porque em teu peito não me dás guarida …
    
      Noventa e nove por cento há em comum …
      e eu não sei como apenas ” menos um “
      pode matar os sonhos de uma vida ! …
         Meses depois, José se desvencilhou de Maria como se tivesse se desvencilhado de um par de tênis desgastado pelo uso, sem um desentendimento, sem uma explicação … Apenas sumiu como havia aparecido, sem se importar com o que poderia estar acontecendo com ela, como se percebesse que ela estava precisando do seu apoio, de cuidados especiais para enfrentar uma gravidez de risco, uma vez que estava na primeira gestação, com quase quarenta anos de idade.
         José, que se dizia caixeiro viajante, durante muitos anos não foi visto por Maria, que criara seus dois filhos, Leonardo e Lena, os gêmeos gerados num relacionamento proibido e sem importância para José. Foi num momento de desânimo e decepção que expressou mentalmente as suas
Marcas na Alma
     Partiste sem aviso, às escondidas,
      sem promessa de um dia regressar..
      e, embora com saudades incontidas,
      eu me recusaria a te esperar.
  
      Se eu tivesse o milagre de outras vidas,
      e motivos de sobra para amar,
      com receio de novas despedidas
      eu jamais voltaria a te aceitar …
    
      Foram tantos projetos que ruíram,
      tantos sonhos de amor que se evadiram,
      tanto estrago em minha alma a vida fez
     
      que, farta de tristeza e desengano,
      queria que o destino desumano
      acabasse comigo de uma vez.
         Quando passou para a faculdade, num “trote de calouros”, Leonardo se feriu gravemente e sua colega de cursinho, Andressa, que estava com ele, ajudou a socorrê-lo e passou a noite no hospital aguardando notícias.
         Maria, avisada da tragédia, chegou pouco tempo depois e conversava com a coleguinha de seu filho quando José chegou preocupado, tentando levar a filha para casa, sem perceber que era a mãe de Léo que se encontrava de costas. Foi um choque muito grande para os dois.
         Léo estava sendo operado e José logo se ofereceu para doar sangue, se fosse preciso e para ficar com Maria, enquanto o pai do garoto não chegasse. Maria agradeceu, dizendo que não era preciso, mas José levou Andressa para casa e voltou para lhe fazer companhia, confessando que sua esposa estava doente, há muitos anos, e que ele era quem cuidava dos dois filhos : Andressa e Anderson, já quase adultos.
         Foi no hospital que José teve certeza de que Leonardo era seu filho, depois de se submeter a exames para descobrir se havia compatibilidade para doação de um rim, uma vez que o acidente havia comprometido os rins do novo universitário.
         Leonardo, depois de muito tempo hospitalizado, voltou à vida normal, mas, ainda muito magoado por não ter conhecido seu pai, leu uma poesia que havia encontrado num “livro de bolso”, e parecia a sua história :
Desilusão
     Ao ver um pai chegar na minha escola
      trazendo a mão do filho em sua mão,
      carregando, feliz, sua sacola,
      sinto uma enorme dor no coração…
     
      Penso em mais tarde os dois jogando bola
      e sinto até inveja da emoção
      daquele pai que, às vezes, se controla
      para não dar no filho uma ” lição ” …
     
      Agora, quase adulto como estou,
      nem ligo para o pai que me gerou
      e não dirige a mim um simples ai …
     
      Se esse pai não me deu nenhum conforto,
      não sabe se estou vivo, ou se estou morto,
      não quero nem saber se tenho um pai !…
   
         Hoje, com os filhos ultrapassando os vinte e um anos de idade, Maria olha para trás, revive todo o sofrimento porque passou e ainda encontra forças para agradecer a Deus por seus filhos, fruto de um amor proibido e inconseqüente, e reza para que seu “artista preferido” encontre o amor que teve e jogou fora, sem sequer tomar conhecimento da existência de seus filhos, que, inteligentemente, talvez pouco estão se importando se em suas certidões de nascimento existe apenas um pai ignorado, como costumam dizer nos momentos mais angustiantes, embora Maria tenha certeza de que dizem isto para não entristecê-la mais ainda.
         Leonardo e Lena freqüentam a mesma sala de aula, e num trabalho escolar, falando sobre o Dia do Papai, Lena resolveu apresentar seu
Sonho Adormecido …
     Sonhei com o meu pai a vida inteira,
      embora um pai que nem me viu crescer …
      pois encontrei, no sonho, uma maneira
      de encarar meu problema sem sofrer …
     
      E, filha de um ausente e mãe solteira,
      eu me humilhei demais para entender
      que o preconceito é a mais triste barreira
      que o mundo inteiro, um dia, há de vencer.
     
      Meu pai, que era caixeiro viajante,
      mudava de lugar a cada instante,
      deixou o seu ” produto ” e foi embora …
     
      mas mesmo sendo um pai desconhecido,
      se acordasses meu sonho adormecido
      eu seria, meu pai, feliz agora.
         Maria foi quase todos os gêneros de pedras no caminho de José, o seu príncipe, mas embora tenha rolado nas tempestades que o destino lhe impôs, continua com a mesma certeza do primeiro dia em que o viu, porque seu coração, seus olhos, sua mente, sua alma e todo o seu ser o escolheram para ser o homem de sua vida e, mesmo depois de tudo que já passou, mesmo com o coração sangrando por não havê-lo conquistado, ainda não perdeu a esperança de reencontrar a felicidade ao lado do homem que, um dia, sem conhecê-lo, sem nada saber da sua vida, pensou como quem reza em silêncio : - ” Eu quero este homem para mim”. Por enquanto, enquanto vive de esperança, faz de Contradição a sua prece de cada dia.   
Hoje, mais uma vez, desesperada
por ser injustamente preterida,
vejo que já nasci predestinada
a amar sem nunca ser correspondida …
    
       Mas o que mais me dói, na despedida,
      é saber que fui sempre desprezada
      porque foste o anjo bom da minha vida
      e eu da tua jamais pude ser nada.
     
      Se me pudesse ver da eternidade,
      chorando de tristeza e de saudade
      pelo amor que no tempo se perdeu,
    
         Carlos Drummond de Andrade me diria :
      “E agora”, como vais viver, Maria,
      sem o José que achavas que era teu ? !
     Como a esperança é a última que morre, Maria espera, um dia, poder dizer :
      - E serão felizes para sempre…
Fonte:
            Maria Nascimento Santos Carvalho nasceu em Coruripe/AL, em 25 de dezembro de 1937, filha de Manoel Amparo Santos e Maria Carolina Santos.  Radicou-se no Rio de Janeiro desde 1962. Foi jornalista e advogada. Aposentou-se pela Universidade do Rio de Janeiro.
            Magnífica Trovadora em trovas líricas/filosóficas, foi casada com o Magnífico Trovador Elton Carvalho, já falecido. Algumas de suas obras , publicadas: "Batel de Fantasias" (trovas), "Preces de Amor" (trovas), "Confissões de Amor" (trovas, sonetos e poemas em geral), "Promessas de Amor" - 2001 (trovas, sonetos e poemas em geral)
Sou MARIA NASCIMENTO
e por erro ou ato falho,
me esqueci, por um momento,
de acrescer SANTOS CARVALHO.
Tenho orgulho de dizer
que, entre muitas coisas boas
tive a glória de nascer
num lindo Estado: A L A G O A S.
Venho de humildes raízes,
mas a sorte generosa,
traçou minhas diretrizes
por uma estrada ditosa …
Com seu poder sem medida,
Deus legou-me a grande sina
de abrir os olhos à vida
filha de AMPARO e MARINA.
E, me ofertou todos sãos,
como parte de um tesouro,
meus dez queridos irmãos
que para mim valem ouro.
Antônio,Telma,Angelina,
José do Amparo, Abraão,
Benedito, Carolina,
e outros nomes que virão…
Jorge Carlos, Aurelina
e, completando, o Luiz,
que a família nordestina
se é numerosa, é feliz…
O meu segundo presente,
do Bom Pai Celestial,
foi nascer, exatamente,
numa Noite de Natal.
Em que ano foi sei de cor,
mas não digo, simplesmente,
porque a idade é bem melhor
vista no rosto da gente .
Sou feliz quando me lembro
em meu rumo alvissareiro,
que, em cada mês de dezembro,
completo mais um janeiro.
A idade quem quer inventa,
mas tive sempre em meus planos,
manter, após os quarenta,
o espírito de vinte anos.
E cumpriu-se a “profecia”:
Deus, como outro bom presente,
pôs em minha alma, poesia,
quando eu era adolescente…
CORURIPE foi meu berço…
Para o Rio vim embora
tendo pouco mais de um terço
da idade que tenho agora.
Com estudos incompletos,
e, ainda, quase menina,
eu vim cumprir os projetos
que o Destino me destina.
Com esforço me formei,
enfrentei muito trabalho
e anos depois me casei
com o poeta ÉLTON CARVALHO …
As tristezas e alegrias
que a vida me concedeu,
estão todas nas poesias
que a minha verve escreveu.
E, graças ao Criador,
enriqueceram meus dias
meus livros: “Preces de Amor”
e “Batel de Fantasias”…
Como simples andorinha
que alça vôos de condor,
fiz da bagagem que eu tinha
outras “Confissões de Amor”
Alguns decênios passados,
plenos de glórias terrenas,
os meus prêmios conquistados
contam mais de três centenas! …
Com esta Biografia,
rascunho do meu passado,
com respeito e simpatia
deixo a todos um recado …
Seja o seu gosto qual for
Veja este site e, por fim,
leia meus versos de amor
e aprenda a gostar de mim.
Nélson Jahr Garcia
Shakespeare: a arte da persuasão
         Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia ( There are more things in heaven and earth, Horatio, that are dreamt of than in your philosophy)
         Muito já se discutiu e se escreveu sobre persuasão. J.A.C. Brown, psicólogo, escreveu “Técnicas de Persuasão”. William Sargant, psiquiatra, produziu a obra “Battle for the Mind”. sobre conversão religiosa e lavagem cerebral. Serguei Tchakhotine escreveu “Le viol des foules par la propagande politique.”
         Os estudiosos da Escola de Frankfurt produziram várias obras que envolviam o assunto, principalmente Max Horkheimer, Theodor Adorno e Jürgen Habermas. Infelizmente nenhuma dessas obras trouxe uma explicação satisfatória sobre o processo da comunicação persuasiva.
         É que às vezes as respostas não se encontram em cientistas, pesquisadores e doutores, mas com literatos, poetas, dramaturgos; aqueles que observam, sentem e escrevem. Interessante, percebem as coisas da vida sem utilizar metodologias científicas e que tais. Aprende-se Psicologia com Machado de Assis, melhor que em Freud; Sociologia, com Gilberto Freire, se conhece melhor do que em Durkheim.
         William Shakespeare produziu uma teoria sobre a persuasão que cientista nenhum desvendou, basta ler com atenção devida.
         Iago, com argumentos e artimanhas, convenceu Otelo de que sua esposa, Desdêmona, era infiel. Lady Macbeth persuadiu Lorde Macbeth a matar o rei para tomar-lhe o trono. Próspero, dominou espíritos para que o ajudassem em sua vingança. Cássio convenceu Bruto a matar Júlio César. O fantasma do rei da Dinamarca convenceu Hamlet, o filho, a vingar sua morte. Romeu seduziu Julieta e foi seduzido por ela, a ponto de se suicidarem ambos. Petrucchio domou a megera Catarina, transformando-a em mulher dócil e submissa. Em todas essas obras, e em outras que não mencionei, há uma idéia recorrente: a comunicação persuasiva, para ser eficiente, pressupõe um fator: as fraquezas humanas. As pessoas são mais facilmente persuadidas quando se apela para o egoísmo, ambições, invejas, ciúmes, paixões, dores, arrependimentos.
         Esse foi um dos legados que William Shakespeare nos deixou, há quatrocentos anos. Entender o ser humano em suas fraquezas, suas forças, suas felicidades, seus gozos e angústias. Mas não se trata apenas de entender o outro, a nós mesmos também. Somos todos guerreiros, às vezes, políticos, no sentido grego, constantemente. Também somos incapazes. Romeu não conseguiu ser bem sucedido com Julieta, não lhe deram tempo nem oportunidade. Macbeth não pode obter as vantagens do trono, sanguinariamente conquistado.
         Quanto ao ser humano, Shakespeare nos ensina algo importante, senão fundamental: o homem não é bom ou mau, apenas homem. Um famoso humorista contestava a história do Chapeuzinho Vermelho. Perguntava: “por que lobo mau, acaso existe lobo congregado mariano ou coroinha de igreja? Lobo é lobo, nem mau nem bom, só lobo“. Pois é, o homem é homem, nem bom nem mau, apenas homem.
         Shakespeare percebeu, o que os chineses já sabiam há séculos e Marx viria a descobrir mais tarde: o homem é uma unidade de contradições, maldade e bondade as carrega no peito, ao mesmo tempo e em todas as horas.
         Frei Lourenço (Romeu e Julieta) em um breve monólogo disse o seguinte: “A terra é a mãe e a tumba da natura; ministra a morte e, assim, apresta a cura. Filhos de vária espécie, no seu seio a mamar encontramos, sem receio; uns por por várias virtudes, excelentes; cada um com a sua, todos diferentes. Oh! é admirável a potente graça que há nas ervas, na flora, na pedra crassa, pois até mesmo o que há de vil na terra algo de bom, influência dela, encerra; nem nada bom existe, que, torcido do uso normal, não se revele infiel à própria natureza e nascimento. Até mesmo a alta virtude, num momento mal aplicada, em vício se transforma, e este, por vezes, ao dever dá a norma. Na corola infantil desta florzinha veneno mora que dá morte asinha, Cheirado, ao corpo todo dá alegria; mas pára o coração no mesmo dia, quando dado a beber. Dois reis potentes nas plantas e nos homens oponentes acampamento têm: a atroz cobiça e a graça benfazeja. Se insubmissa se mostra a pior, então vem logo o verme da morte e rói essa plantinha inerme.”
         O arrependimento é de constante frequência na obra do dramaturgo, os personagens perpetram as piores crueldades imagináveis, mas acabam sofrendo dores de consciência. Macbeth mandou matar o rei para obter a coroa, mas passou a sofrer amarguras internas. Hamlet estava decidido a vingar o pai assassinado, mas era angustiado pela dúvida: “ser ou não ser, eis a questão”.
         Os chefes das famílias rivais, Capuleto e Montecchio, após a morte dos filhos, concluem: “CAPULETO: Dá-me tua mão irmão Montecchio; é o dote de minha filha. Mais pedir não posso. MONTECCHIO: Mas eu posso dar mais, pois hei de a estátua dela fazer do mais puro ouro. Enquanto for Verona conhecida, nenhuma imagem terá tanto preço como a da fiel e mui veraz Julieta. CAPULETO: Romeu fama também dará à cidade; vítimas são de nossa inimizade.”
         Próspero (A Tempestade) depois de dominar espíritos para que o auxiliassem em sua vingança, termina concluindo: “Restou-me o temor escuro; por isso, o auxílio procuro, de vossa prece que assalta até mesmo a Graça mais alta, apagando facilmente as faltas de toda gente. Como quereis ser perdoados de todos vossos pecados, permiti que sem violência me solte vossa indulgência.”
         Voltemos à teoria da persuasão. A credibilidade de quem assegura a veracidade da afirmação é importante.. Como duvidar da palavra de uma feiticeira. Macbeth ouviu, não de uma, mas de três feiticeiras: “Primeira bruxa: Viva, viva Macbeth! Nós te saudamos, thane de Glamis. Segunda bruxa: Viva, viva Macbeth! Nós te saudamos, thane de Cawdor. Terceira bruxa: Viva Macbeth, que há de ser rei mais tarde!” . Realmente Macbeth se tornou thane de Glamis, depois de Cawdor e afinal rei. Tornou-se thane por merecimento, mas foi induzido pela ambição, que Lady Macbeth soube explorar, a ponto de convencê-lo a matar o rei para tomar-lhe o trono.
         A força de um bom argumento, preferencialmente mesclado com sentimento, é decisivo para a persuasão. Julieta, na cena em que está na sacada (antigamente se dizia balcão), pronunciou uma das frases mais célebres da literatura universal: “Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuaria sendo o que és, se acaso Montecchio tu não fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu risca teu nome e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteiro.”
         A argumentação, acompanhada de um fato adrede preparado, por menor que seja, tem um incrível poder persuasivo, principalmente quando se explora uma fraqueza como o ciúme. Iago furtou a Desdêmona, um lenço que lhe havia dado Otelo e o deixou às mãos de Cássio. Daí o seguinte diálogo: “IAGO - Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: não vistes porventura nas mãos de vossa esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de morangos? OTELO - Dei-lhe um assim; foi meu primeiro mimo. IAGO - Ignorava esse fato; porém tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa. OTELO - Se era o mesmo… IAGO - O mesmo, ou outro qualquer dos lenços dela, é prova muito forte, ao lado de outras.”
         Incrível, o patriotismo, o amor à cidade onde se vive podem gerar susceptibilidade à persuasão, Vejam em Júlio César; Bruto orientado pelo patriotismo, e um pouco de ambição, aceita a influência de Cássio; e diz: “Preciso é que ele morra. Eu, por meu lado, razão pessoal não tenho para odiá-lo, afora a do bem público.” Matou Júlio César. Fator importante de convencimento é a cobrança por um favor prestado. Próspero (A Tempestade) libertou Ariel do domínio da bruxa Sicorax e, em troca, exigiu apoio para seu desejo de vingança. O diálogo é assim: “PRÓSPERO: Quê! Zangado? Que podes desejar? ARIEL: Lembra-te que te prestei serviços importantes nunca menti, nem descuidei de nada, nem me mostrei queixoso ou rabugento. Prometeste abater-me um ano inteiro. PRÓSPERO: Pareces esquecido do tormento de que te libertei.”
         O cansaço e o desgaste físico, geralmente, são fatores que aumentam a sugestionabildade em muitas pessoas. Nas forças armadas a leitura da ordem do dia é realizada depois que os soldados foram submetidos a pesados exercícios e longas marchas. Nas academias de artes marciais, os princípios morais e filosóficos são discutidos ao final do treinamento, quando os alunos já se encontram exauridos. Petrucchio (A megera domada) forçou Catarina, imediatamente após o casamento, a viajar sob um inverno rigoroso, ocasião em que ela caiu do cavalo sobre a lama. Já em casa, ralhando com o empregado, alegou que a comida estava ruim jogando-a fora. Com isso deixou Catarina faminta por logo tempo, levando-a quase ao desespero. Não a deixava dormir à noite, fazendo muito barulho e gritando com os empregados. Não a deixava fazer nenhuma afirmação sem contestá-la. Ao cabo de algum tempo a megera hostil transformou-se em mulher gentil, delicada e obediente.
         Recurso persuasivo muito utilizado, o apelo à indignação e ao sentimento de revolta, foi empregado por Marx, Lenin, Hitler e tantos outros. Cláudio envenenou seu irmão, rei da Dinamarca, tomou o trono e casou-se com a rainha. O fantasma do rei assassinado apareceu perante seu filho, Hamlet, convencendo-o a vingar-lhe a morte. Seu apelo dizia o seguinte: “Sou a alma de teu pai, por algum tempo condenada a vagar durante a noite, e de dia a jejuar na chama ardente, até que as culpas todas praticadas em meus dias mortais sejam nas chamas, ao fim, purificadas. Se eu pudesse revelar-te os segredos do meu cárcere, as menores palavras dessa história te rasgariam a alma; tornar-te-iam, gelado o sangue juvenil; das órbitas fariam que saltassem, como estrelas, teus olhos; o penteado desfar-te-iam, pondo eriçados, hirtos os cabelos, como cerdas de iroso porco-espinho. Mas essa descrição da eternidade para ouvidos não é de carne e sangue. Escuta, Hamlet. Se algum dia amaste teu carinhoso pai… Vinga o seu assassínio estranho e torpe.
         A Shakespare não passou despercebido que os seres humanos muitas vezes, tentam convencer não outros, mas a si próprios, especialmente quando precisam justificar suas atitudes e ações. Edmundo (Rei Lear) registra bem esse aspecto: “Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem - muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos - pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina… Ótima escapatória para o homem, esse mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se juntou a minha mãe sob a cauda do Dragão e minha natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo pé de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasião de minha bastardização.”
         As citações mostram que Shakespeare, sem pesquisas e fundamentos científicos, mas com intuição e sensibilidade, percebeu como é frágil a mente humana. Alguns recursos de comunicação podem induzir pessoas a agirem de maneira que elas não fariam em outras condições.
         Desconheço o que ocorre no céu, mas na terra há fatos e atos humanos que, com nossos conhecimentos e concepções filosóficas, mal sonhamos explicar.
Fontes:
            Nélson Jahr Garcia, nasceu em Atibaia/SP, em 1947 e faleceu em São Paulo, em 2002. Formado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Professor da USP, e de outras Faculdades Particulares. Fez mestrado e doutoramento em Ciências da Comunicação na ECA-USP. Escreve livros, artigos. É webdesigner e ebook-publisher.
Nélson Jahr Garcia, esse o nome sob o qual fui registrado e batizado em outubro de 1947. Fiz Primário, Secundário e Colegial em escola pública. O ensino oficial era sério, os professores, respeitados, viviam com dignidade. Veio o vestibular, fui aprovado para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Glória para mim, orgulho para a família, inveja entre certos vizinhos.
Advoguei por quase uma década e, ao mesmo tempo, ingressei no magistério superior. Lecionei em várias unidades da USP, principalmente na ECA, e em algumas Faculdades particulares. Na ECA matriculei-me em Pós-Graduação, fui aprovado e conclui mestrado e doutoramento. Especializei-me em comunicação persuasiva e propaganda ideológica. Valeu, aprendi, além de teorias gerais, propaganda, relações públicas, jornalismo, cinema, televisão, um pouco de artes plásticas. Além disso, consegui superar um pouco do espírito barroco e burocrático que a Faculdade de Direito me havia incutido.
Escrevi cinco livros, três em papel e dois eletrônicos, sem contar centenas de artigos e crônicas. Há três anos sou cronista de “O Atibaiense”, o maior e melhor jornal desta cidade.
Apaixonado pela Internet, criei site dedicado à comunicação persuasiva, inclusive reproduzindo obras clássicas relacionadas direta ou indiretamente ao tema. Todas as obras são de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigação de retribuir ao menos uma gota do que ela me proporcionou.
Teatro de Ontem, de Hoje, de Sempre
Eles Não Usam Black-Tie
         Espetáculo que inicia a fase nacionalista do Teatro de Arena e lança o autor Gianfrancesco Guarnieri, que serve de modelo e estimulo para outros jovens escritores dramáticos brasileiros.
         Em 1957, José Renato resolve assumir a produção de O Cruzeiro Lá no Alto, texto de Gianfrancesco Guarnieri, prevista para ser a última montagem do grupo, que passa por graves dificuldades financeiras.
         Rebatizada, por sugestão de José Renato, como Eles Não Usam Black-Tie, provocativa referência ao Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, e a seu público. A peça trata de uma greve operária, colocando em cena moradores de uma favela e seus problemas socioeconômicos. O texto faz um recorte preciso de um momento altamente dramático: o jovem operário Tião fura o movimento grevista, pois, tendo engravidado a namorada, teme perder o emprego na hora em que mais necessita dele. As conseqüências de sua atitude são dolorosas e ele é obrigado a enfrentar não apenas seu pai, o líder grevista, mas também sua própria namorada, que o impele à frente de luta e o abandona.
         Eugênio Kusnet, com sua larga experiência no método de Stanislavski, encarna o velho Otávio; Lélia Abramo, politizada intelectual vinda de experiências junto a grupos operários anarquistas, vive a mãe Romana; Miriam Mehler, recém-formada pela Escola de Arte Dramática - EAD, encarrega-se de Maria, amor de Tião, interpretado pelo melhor ator do Arena no período - Gianfrancesco Guarnieri, depois substituído por Oduvaldo Vianna Filho. Os outros papéis cabem a Flávio Migliaccio, Riva Nimitz, Chico de Assis e Milton Gonçalves.
         A encenação de José Renato é simples, direta e eficiente. Valoriza o enredo e dá corpo às personagens, imprimindo dramaticidade e energia à ação. Utiliza um samba composto por Adoniran Barbosa para pontuar passagens significativas da trama. Êxito surpreendente para quem pensava em fechar as portas, Black-Tie permanece um ano em cartaz, cumprindo posteriormente bem-sucedida carreira no interior de São Paulo e no Rio de Janeiro. Animado pelo sucesso, o Arena investe forças na criação de outros textos nacionais, instituindo o Seminário de Dramaturgia, de onde sairão os textos para as montagens seguintes, que respondiam à necessidade do público de ver nos palcos a realidade nacional. Até 1960, foram montados, entre outros: Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho; Quarto de Empregada, de Roberto Freire; Fogo Frio, de Benedito Ruy Barbosa.
         Destaca o crítico Sábato Magaldi: “A encenação de José Renato foi, até aquele momento, a mais homogênea e de rendimento uniforme e satisfatório. E a recompensa supunha muitas dificuldades para transmitir a veracidade do texto, porque formavam o elenco atores inexperientes ou estrangeiros. Valorizou a montagem a maturidade, orientada no sentido do despojamento. […] Em poucos trabalhos ele não revela a preocupação de inventar algo, para que sua presença ficasse marcada. Aqui, o encenador se libertou da sedução de impor os próprios achados e atingiu a autenticidade, por despir o conjunto de efeitos. Não seguiu, também a falsa pista do pitoresco no morro, despreocupando-se da tarefa quase impossível, na arena, de mostrar a cor local”.
         Eles Não Usam Black-Tie é a primeira de muitas outras encenações que colocam o Teatro de Arena como o conjunto de maior representatividade em São Paulo até meados da década de 1960.
Fonte:
Enciclopédia Itaú Cultural
Kathryn VanSpanckeren
Panorama da Literatura dos Estados Unidos
Parte final
O Desabrochar do Indivíduo
A Grande Depressão dos anos 1930 tinha literalmente destruído a economia americana. A Segunda Guerra Mundial a recuperou. Os Estados Unidos tornaram-se a principal força no cenário mundial, e os americanos do pós-Segunda Guerra desfrutaram de prosperidade pessoal e liberdade individual sem precedentes.
A expansão do ensino superior e a disseminação da televisão nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial possibilitaram que pessoas comuns obtivessem informações por conta própria e se tornassem mais sofisticadas. Um excesso de comodidades aos consumidores e o acesso a casas grandes e atraentes em áreas residenciais de classe média deram maior autonomia às famílias. As difundidas teorias da psicologia freudiana enfatizaram as origens e a importância da mente individual. A “pílula” anticoncepcional liberou as mulheres da estrita obediência às normas biológicas. Pela primeira vez na história da humanidade, muitas pessoas comuns podiam levar a vida de forma altamente satisfatória e afirmar seu valor pessoal.
A ascensão do individualismo de massa — bem como os movimentos pelos direitos civis e contra a guerra dos anos 1960 — deu mais poder a vozes antes emudecidas. Os escritores revelaram a sua natureza mais íntima, bem como experiências pessoais, e a relevância da experiência individual indicava a importância do grupo ao qual estava ligada. Homossexuais, feministas e outras vozes marginalizadas exaltavam suas histórias. Escritores judeus americanos e negros americanos encontraram grande público por causa de suas variações do sonho ou do pesadelo americano. Escritores de origem protestante, tais como John Cheever e John Updike, discutiram o impacto da cultura do pós-guerra em uma vida como a deles. Alguns escritores modernos e contemporâneos ainda estão ligados a tradições mais antigas, como o realismo. Alguns podem ser descritos como classicistas, outros como experimentais, estilisticamente influenciados pela transitoriedade da cultura de massa ou por filosofias como o existencialismo ou o socialismo. Outros são mais facilmente agrupados por etnia ou região. No entanto, como um todo, os escritores modernos sempre afirmam o valor da identidade individual.
Sylvia Plath (1932-1963)
Sylvia Plath teve uma vida aparentemente exemplar. Frequentou a Faculdade Smith com bolsa de estudos e se formou como primeira da sua turma. Também ganhou uma bolsa Fulbright para a Universidade de Cambridge na Inglaterra. Foi lá que encontrou seu carismático futuro marido, o poeta Ted Hughes, com quem teve dois filhos e foi morar em uma casa de campo na Inglaterra.
Por trás do sucesso de conto de fadas acumulavam-se os problemas mal resolvidos evocados em seu romance altamente merecedor de ser lido, A Redoma de Vidro (1963). Alguns desses problemas eram pessoais, ao passo que outros eram fruto da identificação de atitudes repressivas com relação à mulher nos anos 1950. Entre elas encontram-se crenças — compartilhadas inclusive por muitas mulheres — de que a mulher não deveria mostrar raiva nem ter ambição de carreira, mas alcançar a realização na tarefa de cuidar do marido e dos filhos. Mulheres profissionalmente bem-sucedidas como Sylvia Plath sentiam que viviam uma contradição.
A vida de Sylvia Plath, que mais parecia ficção, desmoronou quando ela se separou de Hughes e começou a cuidar dos filhos pequenos em um apartamento londrino durante um inverno extremamente frio. Doente, isolada e desesperada, Plath trabalhou contra o tempo para produzir uma série de estonteantes poemas, antes de se suicidar inalando gás de cozinha. Esses poemas foram reunidos na coletânea Ariel (1965), dois anos após sua morte. O poeta Robert Lowell, que escreveu a introdução, ressaltou a rápida evolução de sua arte desde a época em que freqüentava aulas de poesia em 1958.
Os primeiros poemas de Plath eram bem elaborados e tradicionais, mas os da fase final revelam uma bravura desesperada e um grito protofeminista de angústia. Em “O Candidato” (1966), Plath expõe o vazio do atual papel de esposa (que se vê reduzida a uma “coisa” inanimada):
Uma boneca de carne, onde quer que você olhe.
Sabe costurar, sabe cozinhar.
Sabe falar, falar, falar.
(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo)
Allen Ginsberg (1926-1997)
Os “poetas beat” surgiram nos anos 1950. O termo “beat” sugere vários tempos fortes de uma música, como no jazz; beatitude angelical ou bem-aventurança; e “beat up”, cansado ou batido, surrado, machucado. Os beats (beatniks) tiveram como fonte de inspiração o jazz, a religião oriental e a vida errante. Tudo isso foi descrito no famoso romance de Jack Kerouac On the Road — Pé na Estrada, que foi uma sensação na época de sua publicação em 1957. Relato de uma viagem de carro pelo país em 1947, o romance foi escrito em um rolo de papel contínuo durante três semanas alucinantes, o que Kerouac chamou de “prosa bop espontânea”. O estilo selvagem e aberto a improvisações, personagens que eram ao mesmo tempo antenados e místicos e a rejeição às convenções inflamaram a imaginação dos jovens leitores e ajudaram a abrir a porta para a contracultura independente dos anos 1960.
Os beats mais importantes migraram da Costa Leste dos Estados Unidos para São Francisco, obtendo reconhecimento nacional pela primeira vez na Califórnia. O carismático Allen Ginsberg tornou-se o principal porta-voz do grupo. Filho de um pai poeta e de uma mãe que além de excêntrica era militante comunista, Ginsberg freqüentou a Universidade de Colúmbia, onde logo fez amizade com os colegas Kerouac (1922-1969) e William Burroughs (1914-1997), cujos romances violentos e apavorantes sobre o submundo da dependência química da heroína incluem O Almoço Nu (1959). O trio foi o núcleo do movimento beat.
A poesia beat é oral, repetitiva e produz grande efeito quando lida, principalmente porque surgiu das leituras de poesia em clubes “underground”.Algumas pessoas podem estar corretas ao vê-la como a bisavó do rap, que prevaleceu nos anos 1990. A poesia beat foi a forma literária mais antiestablishment dos Estados Unidos, mas por trás das palavras chocantes existe o amor pelo país. A poesia é um grito de dor e raiva contra o que os poetas vêem como a perda da inocência americana e o trágico desperdício de seus recursos materiais e humanos.
Poemas como Uivo (1956) de Allen Ginsberg revolucionaram a poesia tradicional.
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela
loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
“hipsters” com cabeças de anjo ansiando pelo antigo contato celestial
com o dínamo estrelado na maquinaria da noite...
(Tradução de Claudio Willer)
Tennessee Williams (1911-1983)
Nascido no Mississippi, Tennessee Williams foi um dos indivíduos mais complexos da cena literária americana de meados do século 20. Sua obra enfocou os distúrbios emocionais no seio das famílias — a maioria delas sulistas. Ficou conhecido por suas repetições encantatórias, pela dicção poética peculiar do sul, pelos estranhos cenários góticos e pela exploração freudiana da emoção humana. Um dos primeiros autores americanos a assumir abertamente a sua homossexualidade, Williams explicou que os anseios dos seus atormentados personagens eram expressão da solidão em que viviam. Eles vivem e sofrem intensamente.
Williams escreveu mais de 20 peças de teatro, muitas delas autobiográficas. Atingiu o apogeu relativamente cedo na carreira — nos anos 1940 — com À Margem da Vida (1944) e Um Bonde Chamado Desejo (1949). Nenhuma de suas obras publicadas nas duas décadas seguintes alcançou o nível de sucesso e a riqueza dessas duas peças.
Eudora Welty (1909-2001)
Nascida no estado do Mississippi em uma família abastada, de pais que vieram do norte, Eudora Welty teve como guias os romancistas Robert Penn Warren e Katherine Anne Porter. Na verdade, foi Katherine Porter quem escreveu a introdução da primeira coletânea de contos de Welty, A Curtain of Green [Uma Cortina de Verde] (1941). Em sua obra matizada, Eudora Welty buscou seguir o exemplo de Porter, mas essa mulher mais jovem se sentia de fato mais atraída pelo cômico e grotesco.Como a colega escritora sulista Flannery O’Connor, Welty escolhia geralmente como tema personagens anormais, excêntricos ou excepcionais.
Apesar da presença da violência em sua obra, a engenhosidade de Welty era essencialmente humana e afirmativa. Suas coletâneas de contos incluem The Wide Net [A Grande Rede] (1943), The Golden Apples [As Maçãs Douradas] (1949), The Bride of the Innisfallen [A Noiva de Innisfallen] (1955) e Moon Lake [Lago da Lua] (1980). Welty também escreveu romances como, por exemplo, Casamento no Delta (1946), que tem como tema central uma família rural em tempos modernos e A Filha do Otimista (1972).
Ralph Ellison (1914-1994)
Ralph Ellison era do Centro-Oeste, nascido em Oklahoma. Estudou no Instituto Tuskegee no Sul dos Estados Unidos. Teve uma das carreiras mais estranhas das letras americanas — que consiste de um livro altamente aclamado e pouco mais do que isso.
Seu romance Homem Invisível (1952) é a história de um jovem negro que leva uma vida secreta em um porão profusamente iluminado por energia elétrica roubada de uma prestadora de serviços públicos. O livro narra suas experiências grotescas e frustrantes. Ao ganhar uma bolsa de estudos para uma faculdade exclusivamente para negros, ele é humilhado pelos brancos; ao chegar lá, vê o presidente da escola menosprezar os problemas dos negros americanos. A vida também está corrompida fora da faculdade. Por exemplo, mesmo a religião não serve de consolo: um pregador acaba por se revelar um criminoso. O romance acusa a sociedade de falhar em prover seus cidadãos — negros e brancos — com ideais e instituições capazes de realizá-los. O romance expressa um tema racial forte porque o “homem invisível” não é invisível por si mesmo, mas porque os outros, cegos pelo preconceito, não conseguem vê-lo pelo que é.
Saul Bellow (1915-2005)
Nascido no Canadá e educado em Chicago, Saul Bellow era de família de origem judaica russa. Na faculdade, estudou antropologia e sociologia, e isso teve grande influência em sua produção literária. Certa vez expressou sua profunda gratidão ao romancista realista americano Theodore Dreiser por sua abertura para um amplo leque de experiências e seu envolvimento emocional nisso. Altamente respeitado, Bellow recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1976.
Os primeiros romances existencialistas e algo sombrios de Bellow incluem Por Um Fio (1944), estudo kafkiano de um homem esperando o alistamento no exército, e A Vítima (1947), sobre as relações entre judeus e gentios. Nos anos 1950, sua visão ganhou uma conotação mais cômica: usou diversos narradores ativos e ousados em primeira pessoa em As Aventuras de Augie March (1953) — o estudo de um empresário urbano do tipo “Huck Finn” que se torna comerciante no mercado negro da Europa — e em Henderson, o Rei da Chuva (1959), romance sério-cômico brilhante e exuberante sobre um milionário de meia-idade cujas ambições irrealizadas o encaminham para a África.
As obras posteriores de Bellow incluem Herzog (1964), sobre a vida agitada de um professor de inglês neurótico que se especializa no ideal do eu romântico; O Planeta do Sr. Sammler (1970); O Legado de Humboldt (1975); e o autobiográfico Dezembro Fatal (1982). Agarre a Vida (1956) é uma novela centrada em um homem de negócios fracassado, Tommy Wilhelm, que é de tal forma consumido por sentimentos de insuficiência que acaba por se tornar totalmente inadequado — um fracasso com as mulheres, nas tarefas, com as máquinas e no mercado de commodities, onde perde todo o seu dinheiro. Wilhelm é um exemplo do schlemiel (indivíduo sem sorte, pessoa azarada) do folclore judaico — a quem sempre acontecem coisas infelizes.
John Cheever (1915-2005)
John Cheever tem sido chamado com freqüência de “romancista de costumes”. É também conhecido por seus contos elegantes e sugestivos, que examinam minuciosamente o mundo dos negócios de Nova York por meio de seus efeitos sobre os empresários, suas mulheres, seus filhos e amigos.
Uma melancolia mordaz e o desejo de paixão — ou certeza metafísica — nunca totalmente mitigado, mas aparentemente sem esperança, espreitam nas sombras dos contos de Cheever, delicadamente elaborados em um estilo tchekoviano e reunidos em The Way Some People Live [A Forma Como Algumas Pessoas Vivem] (1943), The Housebreaker of Shady Hill [O Arrombador de Shady Hill] (1958), Some People, Places, and Things That Will Not Appear in My Next Novel [Algumas Pessoas, Lugares e Coisas que Não Aparecerão no Meu Próximo Romance] (1961), The Brigadier and the Golf Widow [O Brigadeiro e a Viúva do Golfe] (1964) e O Mundo das Maçãs (1973). Seus títulos revelam sua característica indiferença, jocosidade e irreverência e fazem alusão ao assunto tratado.
Cheever também publicou vários romances — O Escândalo dos Wapshot (1964), Acerto de Contas (1969) e Sobrevivendo na Prisão (1977) — o último do qual é largamente autobiográfico.
John Updike (1932-2009)
John Updike, como Cheever, também é considerado escritor de costumes com suas narrativas ambientadas nos bairros de classe média, assuntos domésticos, reflexões sobre o tédio e a melancolia e, em especial, seus locais ficcionais no litoral leste dos Estados Unidos, em Massachusetts e na Pensilvânia.
É mais conhecido por seus cinco livros do Coelho, descrições da vida de um homem — Harry “Coelho” Angstrom — por meio dos altos e baixos de sua existência ao longo de quatro décadas de história social e política dos EUA. Coelho Corre (1960) é um reflexo dos anos 1950, apresentando Angstrom como um jovem marido descontente e sem rumo. Coelho em Crise (1971) — destacando a contracultura dos anos 1960 — encontra Angstrom ainda sem objetivos e propósitos definidos ou sem uma alternativa viável para escapar do banal. Em O Coelho Está Rico (1981), Harry torna-se um empresário próspero na década de 1970, enquanto a era do Vietnã começava a sair de cena. O romance final, Coelho Cai (1990), vislumbra a reconciliação de Angstrom com a vida antes de morrer vítima de um ataque cardíaco, tendo como pano de fundo os anos 1980.
Updike é atualmente o escritor de estilo mais brilhante entre todos os outros, e seus contos oferecem exemplos cintilantes de sua abrangência e inventividade.
Norman Mailer (1923-2007)
Norman Mailer se transformou no romancista de maior visibilidade dos anos 1960 e 1970. Co-fundador do The Village Voice, jornal semanal antiestablishment da cidade de Nova York, Mailer promoveu ao mesmo tempo a si mesmo e suas opiniões políticas. Em sua ânsia por experiência, estilo vigoroso e persona pública surpreendente, Mailer segue a tradição de Ernest Hemingway. Para conseguir uma posição estratégica na cobertura do assassinato do presidente John F. Kennedy, dos protestos contra a Guerra do Vietnã, da libertação negra e do movimento de mulheres, encarnou diferentes personas, apresentando-se como alguém por dentro da moda, existencialista e o macho por excelência (em seu livro Política Sexual, Kate Millett identificou Mailer como machista arquetípico). O irreprimível Mailer não só casou seis vezes como se candidatou a prefeito de Nova York.
A partir de exercícios ao estilo do Novo Jornalismo como Miami e o Cerco de Chicago (1968), análise das convenções presidenciais americanas de 1968, e o instigante estudo sobre a execução de um criminoso condenado, A Canção do Carrasco (1979), Mailer passou a escrever romances ambiciosos, embora cheios de falhas, como Noites Antigas (1983), ambientado no antigo Egito, e o Fantasma da Prostituta (1991), que gira em torno da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA).
Toni Morrison (1931- )
A romancista afro-americana Toni Morrison nasceu no estado de Ohio em uma família de formação espiritual. Estudou na Universidade de Howard em Washington, D.C., onde tem trabalhado como editora sênior de uma grande editora e professora ilustre em várias universidades.
A ficção altamente elaborada de Toni Morrison ganhou reconhecimento internacional. Em romances fascinantes e cheios de vigor, ela trata da complexidade da identidade negra de forma universal. Em sua obra inicial, O Olho Mais Azul (1970), uma jovem negra de personalidade forte conta a história de Pecola Breedlove, que é levada à loucura por um pai agressor. Pecola acredita que seus olhos escuros tornaram-se azuis por um passe de mágica e que eles a farão uma pessoa adorável. Morrison tem afirmado que criou seu próprio sentido de identidade como escritora por meio desse romance: “Eu era a Pecola, a Claudia, todo mundo.”
Sula (1973) descreve a forte amizade entre duas mulheres. Morrison pinta as mulheres afro-americanas como personagens únicos, totalmente individualizados, não estereotipados. Seu romance A Canção de Solomon (1977) ganhou vários prêmios. O livro segue a trajetória de um negro, Milkman Dead, e suas complexas relações com a família e a comunidade. Amada (1987) é a perturbadora história de uma mulher que prefere assassinar seus filhos a deixá-los viver como escravos. Nesse romance emprega técnicas oníricas do realismo mágico ao descrever a misteriosa figura de Amada, que volta a viver com a mãe que havia cortado sua garganta. Jazz (1992), ambientado no Harlem dos anos 1920, é uma história de amor e assassinato. Em 1993, Morrison ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.
Literatura contemporânea
No final do século 20 e início do século 21, a mobilidade social e geográfica das massas, a internet, a imigração e a globalização apenas enfatizaram a voz subjetiva em um contexto de fragmentação cultural. Alguns escritores contemporâneos refletem uma inclinação em direção a vozes mais calmas e acessíveis. Para muitos autores de prosa, a região, em vez da nação, é a geografia que importa.
Louise Glück (1943- )
Uma das mais impressionantes poetas contemporâneas é Louise Glück. Nascida na cidade de Nova York, Glück, poeta americana premiada em 2003 e 2004, cresceu com permanente sentimento de culpa devido à morte de uma irmã nascida antes dela. Na Faculdade Sarah Lawrence e na Universidade de Colúmbia, estudou com os poetas Leonie Adams e Stanley Kunitz. Grande parte de sua poesia fala de perdas trágicas. Cada livro de Glück é um experimento de novas técnicas, tornando difícil uma síntese de sua obra.
Em seu memorável A Íris Selvagem (1992), diferentes tipos de flores pronunciam pequenos monólogos metafísicos. O poema que dá título ao livro, uma exploração da ressurreição, poderia ser uma epígrafe para o conjunto de sua obra. A íris selvagem, uma flor linda de cor azul profundo que ao brotar de um botão que ficou adormecido durante todo o inverno, diz: “É terrível sobreviver / como consciência / enterrada na terra escura.”
Do centro da minha vida brotou
uma grande fonte, sombras de cor
azul profundo sobre o azul-celeste da água do mar.
Billy Collins (1941- )
A poesia de Billy Collins é original e estimulante. Collins usa a linguagem corrente para registrar milhares de detalhes da vida diária, combinando livremente os eventos do cotidiano (comer, realizar tarefas, escrever) com referências culturais. Seu humor e originalidade fizeram com que ele atraísse o grande público. Embora alguns tenham acusado Collins de ser acessível demais, seus imprevisíveis vôos de imaginação mergulham no mistério.
A obra de Collins é uma forma domesticada de surrealismo. Seus melhores poemas catapultam de imediato a imaginação para uma série de situações cada vez mais surrealistas, propiciando no final uma aterrissagem emocional, uma disposição de ânimo na qual podemos nos apoiar. O pequeno poema “The Dead” [O Morto], tirado de Sailing Alone Around the Room: New and Selected Poems [Velejando Sozinho em Volta do Quarto: Novos Poemas Selecionados] (2001), dá uma idéia do vôo imaginativo e do suave aterrizar de Collins, como o de uma ave em busca de repouso.
Os mortos estão sempre a nos desdenhar, segundo dizem,
enquanto calçamos nossos sapatos ou preparamos um sanduiche,
eles nos olham com desdém de seus barcos de fundo de vidro, lá no céu
em seu lento remar pela eternidade.
Annie Proulx (1935- )
A surpreendente escritora Annie Proulx cria histórias sobre os batalhadores habitantes do norte da Nova Inglaterra em Canções do Coração (1988). Seu melhor romance, Chegadas e Partidas (1993), é ambientado mais para o norte, em Newfoundland, Canadá. Proulx também passou anos no Oeste, e um de seus contos originou o filme “O Segredo de Brokeback Mountain”, em 2006.
Richard Ford (1944- )
Oriundo do Mississippi, Richard Ford começou a escrever no estilo faulkneriano, porém, é mais conhecido por seu romance sutil ambientado em Nova Jersey, O Cronista Esportivo (1986), e sua continuação, Independência (1995). Esse romance é sobre Frank Bascombe, um vagabundo sonhador, ambíguo, que perde todas as coisas que dão sentido à sua vida — um filho, seu sonho de escrever ficção, seu casamento, amantes, amigos e emprego. Bascombe é sensível e inteligente — suas escolhas, diz ele, são feitas “para desviar a dor do arrependimento terrível” — e seu vazio, junto com os anônimos shopping centers e novos empreendimentos imobiliários áridos, os quais ele continuamente percorre em silêncio para comprovar a visão de Ford de uma doença nacional.
Amy Tan (1952- )
O norte da Califórnia abriga uma rica tradição literária ásio-americana, cujos temas característicos incluem família e papéis dos gêneros, conflito entre gerações e busca de identidade. Uma escritora ásio-americana da Califórnia é a romancista Amy Tan, cujo best-seller Clube da Felicidade e da Sorte tornou-se filme de sucesso em 1993. Seus capítulos interligados como contos delineiam os diferentes destinos de quatro pares de mãe e filha. Entre os romances de Amy Tan que abarcam a China histórica e os Estados Unidos da atualidade, encontram-se Os Cem Sentidos Secretos (1995), sobre meias-irmãs, e A Filha do Restaurador de Ossos (2001), sobre os cuidados de uma filha com sua mãe.
Sherman Alexie (1966- )
Sherman Alexie, índio criado na reserva de Spokane, da tribo Coeur d’Alene, é o mais jovem romancista indígena a alcançar fama nacional. Alexie faz relatos humorísticos e pouco românticos da vida dos índios abordando misturas incoerentes de tradição e cultura popular. Fazem parte de seus ciclos de contos Reservation Blues [O Blues da Reserva] (1995) e The Lone Ranger and Tonto Fistfight in Heaven [A Luta de Zorro e Tonto no Céu] (1993), que inspirou o ótimo filme sobre a vida nas reservas Sinais de Fumaça (1998), com roteiro do próprio Alexie. A coletânea recente de contos de Alexei é The Toughest Indian in the World [O Índio Mais Forte do Mundo] (2000).
Fonte:
            Kathryn VanSpanckeren é professora de Inglês na Universidade de Tampa. Ela lecionou literatura americana no exterior. Recebeu seu bacharelado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e seu Ph.D. da Universidade de Harvard.
Fábulas Sem Fronteiras
 Japão
O Paraíso dos Gatos
         Era uma vez uma bela menina órfã que se chamava Youkiko.
         Ela trabalhava na casa de uma velha terrível. Sua vida era pura tristeza, pois a menina só tinha como amiga uma gatinha. Mas um dia a gatinha desapareceu. Youkiko chorou muito. E a dona da casa, em vez de consolar a pobre menina, lhe dizia assim:
         - Viu no que dá se apegar aos animais? A gata a abandonou!
         A menina, porém, não acreditava nisso. Sua confiança no bichinho continuava a mesma. Foi então que um adivinho passou pela cidade.
         Falava-se que ele era capaz de revelar todos os segredos do mundo. Youkiko foi correndo lhe perguntar sobre o paradeiro de sua gatinha.
         - Sua gata está na montanha dos felinos, que fica a leste daqui. Se você for corajosa e tomar cuidado, será fácil reencontra-la - ele lhe disse.
         Youkiko não hesitou. Pediu licença à patroa e partiu em busca da gata.
         Andou muito até chegar a uma cidade lindíssima, onde foi acolhida por outra menina, que a convidou para jantar. De início ela se sentiu feliz, mas á noite ouviu vozes estranhas que diziam:
         - Essa menina adora gatos. Vamos protegê-la. É melhor impedir que algum de nós tente devorá-la.
         A menina despertou muito assustada. Que lugar era aquele? Porém, antes que ela pudesse partir, alguém bateu à porta de seu quarto. Youkiko a abriu e deu com sua gatinha, que havia se transformado em gente.
         - Minha querida amiga - disse-lhe a gata - você está no paraíso dos gatos. É um lugar perigoso para os humanos que nos tratam mal. Mas, como você sempre nos ajudou, os felinos pediram que eu lhe desse um presente.
         E então entregou à amiga uma caixinha repleta de jóias e pedras preciosas. Na manhã seguinte Youkiko voltou à sua cidade. Deixou o antigo emprego e comprou uma casa. Aliás, a caixinha era mágica: as jóias nunca se acabavam.
         Furiosa de inveja, a antiga patroa viajou até a montanha dos felinos.
         Quando lá chegou, bateu à porta da mesma casa onde a menina ficara hospedada e foi logo dizendo:
         - Quero as jóias também! Pois vocês, gatos, não vivem rondando a minha cozinha?
         Mas quando a porta se abriu ela foi jogada num salão. Um imenso tigre surgiu e lhe perguntou:
         - Você prefere trabalhar ou morrer?
         A patroa preferiu viver. Porém, como no paraíso dos gatos o tempo é eterno, lá ela continua e continuará a trabalhar até o final do mundo.
Fonte:
Estante de Livros
Victor Hugo
Os Miseráveis
O Corcunda de Notre Dame
Os Miseráveis
Um fato histórico…
        Durante 73 dias, a cidade sitiada, dominada pela Comuna mobilizada para a guerra, enfrentou o exército. Brigadas de operários e suas mulheres, as petroleuses, numa resistência desesperada, deslocavam-se pelas avenidas e ruas incendiando os prédios públicos. Num repente, os miseráveis que Victor Hugo imortalizara no seu gigantesco romance (Les misèrables, 3 volumes com 2.800 páginas, que, desde 1862, vendera sete milhões de exemplares!), rebelados, tentavam “tomar o céu de assalto”. Milhares de Jeans Valjeans, na companhia das Fantines e das pequenas Cosettes, assistidas pelo moleque Gavroche, um minúsculo herói das barricadas - personagens da grande epopéia literária do proletariado francês -, haviam ocupado as ruas de Paris preparando-se para o embate final. O poeta, ainda na Bélgica, impotente, deprimiu-se. Logo ele que tanto apostara nos Estados Unidos da Europa. Não só alemães lutaram contra franceses, como esses, agora, brigavam entre si.
Glória imorredoura
        Por essas e outras é que 700 mil pessoas desfilaram em frente a sua residência na avenida Eylau (hoje Victor Hugo) ao ele completar 80 anos, em 26 de fevereiro de 1881. Nem Napoleão vira tanto povo assim do seu palanque. A sua casa tornou-se local de romaria de gente do mundo inteiro. Até um poema sobre o Brasil ele compôs para o imperador D. Pedro II. Nada em matéria de multidão equiparou-se ao seu enterro quando, no dia 31 de maio de 1885 (ele falecera no dia 22), partindo do Arco do Triunfo onde seu modesto ataúde estava exposto, um milhão de franceses se irmanaram pelos Campos Elísios para levar o féretro de Père Hugo até o Panteão. Nos seus 70 anos de atividade ele fizera de tudo: foi par da França, membro da Academia de Letras, deputado, exilado político, militante anti-bonapartista, integrante do senado e o escritor mais famoso e mais popular das letras francesas em todos os tempos. Além de célebre defensor da abolição da pena capital e emérito ativista das causas populares. Dizem que no delírio que antecedeu a morte, ele gritou “esta é a luta entre o dia e a noite”. Pode ter sido a chegada da noite para ele, mas para a França, que agora celebra o bicentenário do nascimento do seu maior poeta, ocorrido em Besançon em 26 de fevereiro de 1802, Victor Hugo vai ser sempre a luz do dia.
        O clássico Os miseráveis, do escritor francês Victor Hugo, foi chamado de “um dos maiores best-sellers de todos os tempos”. Em 1862, nas 24 horas seguintes à publicação da primeira edição de Paris, as 7 mil cópias foram todas vendidas. O livro foi publicado simultaneamente em Bruxelas, Budapeste, Leipzig (na Alemanha), Madri, Rio de Janeiro, Rotterdam e Varsóvia. Depois, a obra foi traduzida para quase todas as línguas do mundo. No século XX, Os miseráveis se tornou filme e musical da Broadway.
Trecho da obra de Victor Hugo:
(…)
Jean Valjean achava-se pois no esgoto de Paris.
Outra semelhança de Paris com o mar. Como no oceano, o mergulhador pode nele desaparecer.
A transição era inaudita. Jean Valjean saíra da cidade mesmo no meio dela e, num abrir e fechar de olhos, no tempo de levantar e abaixar uma tampa, passara da luz do dia para a completa escuridão, do meio-dia para a meia-noite, do tumulto para o silêncio, do turbilhão dos trovões para a estagnação do túmulo; e, por uma peripécia muito mais prodigiosa ainda do que a da rua de Polonceau, do extremo perigo para a segurança absoluta.
Permaneceu alguns segundos como atordoado, estupefato. A bondade celeste tinha-o, de certo modo, surpreendido por traição. Adoráveis emboscadas da Providência!
Mas o ferido não fazia o mínimo movimento, e Jean Valjean não sabia se o que então levava às costas era Mário ou um cadáver.
A sua primeira sensação foi a cegueira. Repentinamente, deixou de ver. Pareceu-lhe que num minuto ensurdecera. Não ouvir já coisa alguma. A frenética e homicida tempestade que se desencadeava alguns metros acima dele não lhe chegava, como já dissemos, ao ouvido, senão muito confusamente, e como um rumor saído de uma profundidade graças à espessura de terra que o separava dela. Adiantou com precaução um pé, temendo que se lhe deparasse um buraco, desaguadouro ou um abismo; e convenceu-se de que o lajedo se prolongava.
Contudo, podia-se penetrar naquela muralha de nevoeiro, e forçoso era fazê-lo. Jean Valjean lembrou-se de que a grade, descoberta por ele debaixo das pedras, podia-o ser também pelos soldados e que tudo dependia de um tal acaso. Podiam também descer ao cano e revistá-lo. Não havia um minuto a perder. Depusera Mário no chão, tornou a pô-lo às costas e meteu-se ao caminho. Entrou resolutamente naquela escuridão.
(…)
O Corcunda de Notre-Dame
(Notre-Dame de Paris)
        Victor Hugo tinha a reputação principalmente como poeta, mas a fama bem maior lhe veio com a publicação do romance Notre-Dame de Paris, também intitulado O Corcunda de Notre-Dame em diversas traduções. O Misterioso tema do livro tocava profundamente os leitores, em particular dura crítica de uma sociedade que, nas pessoas de Frollo, o arcebispo, e de Phoebus, o soldado, condenava à infelicidade o corcunda Quasímodo e a cigana Esmeralda. Enquanto este romance estava sendo escrito, Luís Felipe , um rei constitucional , havia sido elevado ao poder pelos estudantes e pela burguesia liberal, nos três dias da chamada Revolução de Julho (1830). Hugo compôs um poema em honra ao acontecimento, que seria precursor de muita poesia política. O autor não se contentava, com os seus versos, em exprimir emoções pessoais : pretendia ser o “eco sonoro” do seu tempo, e assim, desempenhar a verdadeira função do poeta, tal como a entendia. Problemas filosóficos e políticos se misturavam à inquietação religiosa e social do período. Um poema tratava da miséria dos trabalhadores, outro proclamava a eficiência das orações .
        Algumas versões da obra de Victor Hugo já são bem conhecidas, filmes ou desenhos com adaptações diferenciadas já foram produzidos, para alguns casos, como a Disney por exemplo, o enfoque principal cai sobre a personagem Quasímodo. Na França, um grande musical vem sendo encenado sob o título de Notre Dame de Paris, que é também o título original da obra, que, quando da tradução para português, recebeu o nome de “O CORCUNDA DE NOTRE DAME”, daí talvez algumas leituras caiam sobre esta personagem
        Notre-Dame é um livro com o porte de um monumento. Como a igreja que o inspira, é uma obra de transição, exibindo a majestade de um clássico e a decadência do folhetim. Suas personagens expressam a diversidade e se identificam com cada um dos elementos da sua estrutura múltipla e complexa: o padre santo e sábio transformado em vilão ao longo da narrativa e que abriga e alimenta, sem saber, a figura que sintetiza sua própria decadência; o poeta dividido entre a cultura vazia do poder e a presença viva do povo nas ruas; a dançarina que encarna a beleza e a graça do movimento em confronto com uma espiritualidade rígida fundada no medo. Assim, a trama que enreda o leitor revela a solidez acumulada pela História em queda livre para o abismo.
        Em oposição a esta imagem do escritor no século 19 - que Victor Hugo denuncia ambientado no século 15 - um livro feito de pedra como Notre-Dame de Paris instaura uma postura intelectual sólida. A obra literária opõe-se à decadência, resgatando a grandeza perdida da arte. Em Gringoire, as palavras são como a caiação deformando antigos monumentos. Em Victor Hugo, elas funcionam como uma orquestra e assumem a força de uma tempestade.
(crítica de Nei Duclós em artigo “Um livro feito de pedra”)
Fontes:
            Nei Carvalho Duclós (Uruguaiana, 29 de outubro de 1948) é jornalista, poeta e escritor brasileiro. Tem quatro livros lançados e inúmeros textos publicados na imprensa brasileira. Aos 17 anos se mudou para Porto Alegre e se matriculou no curso de engenharia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o qual abandonaria logo depois em favor da faculdade de Jornalismo. Envolveu-se no movimento estudantil brasileiro após o golpe militar de 1964. Trabalhou no jornal gaúcho Folha da Manhã e publicou seu primeiro livro, Outubro, em 1975. Mudou-se para São Paulo, onde desenvolveu longa carreira como jornalista, tendo trabalhado no jornal Folha de S. Paulo, revistas Brasil 21, Senhor, e IstoÉ. Publicou textos também em O Estado de S. Paulo, Veja e Jornal do Brasil. Publicou Outubro e No Meio da Rua, ambos pela editora LP&M, em 1980, e No Mar, Veremos, pela editora Globo, em 2001, todos de poesia. Em 2004 publicou seu primeiro romance, Universo Baldio, pela W11 Editores. É bacharel em História pela Universidade de São Paulo. Trabalha na revista Empreendedor e publica coluna no Diário Catarinense.
_________________
            Victor-Marie Hugo (Besançon/França, 1802 — 1885, Paris, França) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Os Miseráveis. Notre-Dame de Paris, Os Trabalhadores do Mar, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
Biografia de Victor Hugo, no artigo Literatura Francesa, no Almanaque n. 396.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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