Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 8 de maio de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 402)




Mensagem na Garrafa
Benedita Azevedo
A terra continua a girar
          A vida continua, ainda que tenhamos sofrido grades perdas materiais ou até um ente querido. Independente de qualquer situação tem-se de continuar vivendo e dando exemplos de superação. Precisamos pensar positivamente e aceitar as leis da natureza, pois, todos os seres vivos nascem, crescem se reproduzem ou não e morrem.
         A vida nos é ofertada a partir do relacionamento de duas pessoas que se amam e resolvem formar sua família, baseadas no modelo social que conhecem e herdaram de seus pais. Cada casal cria suas próprias regras, mas, é preciso cuidado para não se isolarem e se afastarem do que é normal e aceitável para seu grupo social e familiar.
         Além disso, é importante manter o apoio da família, independente, da situação financeira que por ventura tenham alcançado após o casamento. Há momentos na vida, dependendo da gravidade do que nos tenha atingido, que, de bom grado reformularíamos grande parte do que fizemos e vivemos, só para termos de volta uma situação de liberdade, paz ou a família completa à nossa volta.
         Embora saibamos que são premissas da natureza os ciclos da vida, nem sempre entendemos quando há inversão do que consideramos natural. Por exemplo, a partida precoce de tantas crianças e jovens. Doenças incuráveis, acidentes, violências de todas as ordens, tudo foge ao nosso controle e ficamos atordoados quando o fato acontece conosco. Aí nos indagamos, por que comigo? Onde deixei escapar o fio da meada e não percebi o que estava acontecendo com minha filha, meu filho, meu neto, meu pai, minha mãe? É doloroso e só quem passou por um problema igual será capaz de avaliar tal situação.
         Entretanto, a misericórdia de divina, a força de renovação da natureza e a nossa fé nos mostram que tudo na vida é transitório e que nós, seres humanos, acompanhamos o mesmo ritual de qualquer ser vivo. O homem, animal racional, socialmente condicionado às leis civis e religiosas, baseadas em sentimentos variados de crenças, rituais e dogmas cria para si uma proteção que às vezes o deixa inseguro e vulnerável.
         Mesmo assim, a vida continua, precisamos manter o equilíbrio, o pensamento de que não poderemos parar no tempo, seja lá o que nos tenha atingido, a terra continua a girar, o sol continuará a surgir e desaparecer todos os dias, as nuvens carregadas desabarão em forma de chuva, nós teremos sono, fome, sede e demais necessidades fisiológicas e um dia também partiremos. Vamos, pois, superar momentos difíceis com o discernimento de que certas coisas não podem ser mudadas.
Nasceu em Itapecuru-Mirim/MA. Filha de Euzébio Alberto da Silva e de Rosenda Matos da Silva. Radicada no Rio de Janeiro desde janeiro 1987. Mudou-se para a Praia do Anil, Magé-RJ em janeiro de 1990. Educadora, poeta, escritora e animadora cultural. Formada em Letras, especialista em Educação e pós-graduada em Lingüística. Pertence a várias instituições literárias. É haicaísta premiada em vários concursos nacionais. Publicou 13 livros individuais. Organizou 11 antologias com a participação de vários poetas e escritores. Tem participação em revistas, jornais e sites. Participou de 42 antologias.
            Recebeu vários prêmios a nível nacional. Fundadora do Grêmio Haicai Sabiá, em Magé, RJ /2006 e do Grêmio Haicai Águas de Março, na cidade do Rio de Janeiro /2008. Tem haikais publicados na Revista Brasil Nikkei Bungaku. Seus haicais têm sido selecionados, na seção de haicais do Jornal Nippo-Brasil, desde 2004, onde tem quase duas centenas de poemas publicados.
Livros:  
Nas trilhas do haicai, Ed. Da autora, 2004; Canto de Sabiá:haikai; Praia do Anil:haikai, Curitiba, Araucária Cultural, 2006; Gota de Orvalho:haikai,2007, Silêncio da Tarde:haicai e Rumor das Ondas:haicai,2010, também da Araucária Cultural.
Fonte: Haicai, Verso e Prosa
Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Alves da Silva
Depois que se aposentou,
seu pijama é só frangalho,
pois nunca mais o tirou
para não lhe dar trabalho.
Uma Trova de Senhor do Bonfim/BA
Clóvis Wilson de Mattos Andrade
Não louves minha virtude
que os aplausos não são  meus,
pois mudei minha atitude,
graças aos exemplos teus!
Um Poema de Taubaté/SP
Sílvia Simões
Outono II
Cheiro de inverno
Nas folhas mortas
Das calçadas sombrias
...Mofo sem sol
...Alma sem calor
Onde as mãos quentes?
Onde o corpo aconchego?
Cheiro de inverno
Folhas mortas...
Amarelecidas ao vento
Espio as sombras...
Seu contorno ilusão
Você não está
Nem o ipê floriu!
...Latidos ao longe
...Ruas desertas
Meu corpo como as folhas
Perdidas no tempo
Sem rumo nem porquê
Craquela-se sob os passos
gelados do não ser...
Folhas mortas...
Cheiro de inverno
...Levem-me ao vento
em busca de um novo amanhecer...
Uma Trova Humorística de Nova Friburgo/RJ
Sérgio Ferraz
Por um erro na feitura,
o coitado do "Parreira"
não escova a dentadura.
Espana e tira a poeira.
Uma Trova de Santos/SP
Carolina Ramos
Sempre acolho de mãos postas
e humilde, tento aceitar
o silêncio das respostas
que a vida não sabe dar!
Um Poema de Taubaté/SP
Dom Antonio Affonso de Miranda
A minha casa, o largo, a igrejinha,
    as tropas, os cargueiros, a freguesia,
    a venda de meu pai, a cachacinha,
    a gente que comprava e que bebia...
    O seu Chicão, o Pedro, a Amelinha...
    de noite, o lampião que acendia,
    os risos, as lorotas de quem vinha
    para comprar o que papai vendia.
    Lembranças da infância que se foi...
    gente a cavalo, a pé, carros de boi,
    as festas, procissões, sino a tanger,
    foguetes, bandeirinhas que se agitam,
    as crianças que correm, brincam e gritam,
    lembranças do passado a remoer...
Uma Quadra Popular
Autor Anônimo
Eu joguei meu limão verde
numa moça na janela.
O limão caiu no chão
e eu caí no colo dela.
Uma Trova Hispânica do México
Jaime Solís Robledo
Desterremos la violencia
y el odio entre los humanos
sea la música esencia
que nos convierta en hermanos.
Um Poema de Taubaté/SP
Angelica Maria Villela Rebello Santos
Roça
A tropa segue, com a "madrinha" à frente,
tilintando, o cincerro vai guiando.
E após galgar a serra - esforço ingente -
chega a um rancho, descanso procurando.
Logo o café, cheiroso e muito quente,
dá ânimo e vigor àquele bando;
enquanto a carne seca e a aguardente,
de mão em mão também vão repassando.
Ali na roça, sob a luz da lua,
homens e animais, juntos, adormecem,
gozando a doce paz que se insinua,
como benção divina aos viajantes.
E de manhã, nos pés, já se oferecem,
louras espigas, belas e brilhantes.
Trovadores que deixaram Saudades
Lamartine de Azeredo Babo
Rio de Janeiro/RJ (1904 – 1963)
Homens puros!... Sempre os via...
E sei que não sou dos tais,
porque a gente desconfia
quando a pureza é demais.
Uma Trova de Santos/SP
Mercedes Lisbôa Sutilo
Levanto-me quando caio
(posso tombar, num tropeço)
e logo em seguida ensaio,
para a vida, um recomeço!...
Um Poema de Taubaté/SP
Maria Marlene Nascimento Teixeira Pinto
A poesia sou eu!
Na sala obscura... tácita...
Tateio às cegas, uma estante que jaz num canto,
à  procura de mim mesma...
Com as mãos trêmulas, tento pegar
um livro qualquer!
Quero entreter-me nas suas entrelinhas,
embriagar-me nos escaninhos das suas páginas
esmaecidas!
Estou à mercê de mim mesma...
Sento-me num sofá - solitário - como eu...
no canto da sala vazia.
Vou abrindo, vagarosamente, página por página,
a sondar o desconhecido...
Desperto da apatia, da inércia que tomava conta do meu ser,
até que, de supetão, o amor se revela!
Sem se dar conta, atropela a minha soledade,
e me segreda a sua alma, desnudando a sua essência!
Uma poesia de versos livres, soltos,
à deriva como eu...
Contando a paixão enclausurada,
no peito do eu lírico...
Amor proibido... resignado amor... amor pérfido!
Minha lágrimas inundam cada palavra, cada letra,
desvendando o óbvio!
– Eu sou o eu lírico! A poesia sou eu!
Minha voz cavernosa ressoa na sala emudecida:
- Eu sou o eu lírico! A poesia... sou eu...
Uma Trova de São José dos Campos/SP
Amilton Maciel Monteiro
A estrada da minha vida
é cheia de sobe e desce,
mas na subida ou descida
um sol radiante aparece!
Um Haicai de Magé/RJ
Benedita Azevedo
Jardineira em flor.
A beleza das rosas
agora esquecidas.
Um Poema de Taubaté/SP
Darcy Azevedo Bandeirante Costa
Momentos
Quero contar alguns dos meus momentos,
posso até revelar algum segredo.
Abro a janela dos meus sentimentos
onde há tristezas, alegrias, medo.
Manhãs de abril, encontros amorosos,
tardes de maio, a vida é um sol poente;
noites de lua, olhos tão saudosos
de um grande amor que já se faz ausente.
Nos longos dias que eu estou vivendo,
na solidão somente me conforta
saber que aos poucos eu vou esquecendo
os maus momentos aos quais fecho a porta.
Sentindo os bons momentos renascendo,
serei feliz, porque a tristeza é morta.
Uma Trova de São Paulo/SP
Darly O. Barros
Um fio de água barrenta,
à ponte, num balbucio:
“ Velha ponte, vê se aguenta,
até que eu volte a ser rio!”
Uma Trova Hispânica da Venezuela
Iván Valero Bracamonte
La música más temprana
se escucha por los esteros
cuando vuelan la sabana
los pájaros mañaneros.
Um Poema de Taubaté/SP
Pedro Luiz de O. Costa Neto
A Quarta Idade
O ainda vivente que haja superado
   os quinze lustros pode olhar em frente
   orgulhoso, quiçá, do seu passado,
   porém, de uma maneira diferente...
   Não importa o que traga em seu costado,
   ele agora decerto está consciente
   de que em breve cremado ou enterrado
   se encontrará, inevitavelmente...
   Dois, cinco, dez ou vinte, quantos anos
   irá ainda o organismo a esmorecer
   suportar?...Como pôr isso nos planos?...
   Dou resposta, elementar: não pôr,
   saborear cada dia com prazer,
   extrair de cada instante seu sabor..
Uma Trova de São Paulo/SP
Ronnaldo Andrade
Eu sinto que estou amando,
e este amor é tão perfeito,
que aos poucos vai ocupando
mais espaço no meu peito.
Uma Teia de Trovas de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Júnior
Todo o amor que não me tinhas
Todo o amor que não me tinhas
se escondeu num violão,
violando as "musiquinhas"
que se encontram sem refrão.
Todo o amor que não me tinhas
se espalhou do coração,
violento como as linhas
que me cortam toda a mão.
Todo o amor que não me tinhas
se encantou com a solidão,
solidário com as coisinhas
que se guardam no porão.
Todo o amor que não me tinhas
nunca teve compaixão
e fez pouco das florinhas
que deixei em sua mão.
Todo o amor que não me tinhas
sempre teve condição
de ver tudo que eu lhe tinha,
mas foi cego, coração.
Um Poema de Taubaté/SP
Lygia Therezinha Fumagalli Ambrogi
Filosofando
Devia nesta vida estar cansada...
Desci ladeiras e escalei montanha...
Foi longa e árdua minha caminhada,
de sombra e luz, mas, de beleza estranha...
Sofri revezes na áspera jornada...
Venci, porém, com esta fé tamanha.
Os espinhos abriram-se em florada
nos desertos e matas que o sol banha...
Sobre os fiordes da vida fiz castelo,
enfeitei-o com tudo de mais belo,
que passava sonhando o viajor...
Sob as manhãs douradas colhi flores...
Sempre a cantar desfiz os dissabores
e nesta vida, só colhi amor…
Um Haicai de Curitiba/PR
Alice Ruiz
aparecem às vezes
teias de aranha
com borboletas presas
Uma Trova de Fortaleza/CE
José Pereira de Albuquerque
No conceito das cidades,
a minha é bem pequenina;
porém é lá que as saudades
fazem ponto em cada esquina.
Um Poema de Taubaté/SP
Judite de Oliveira
Garças Brancas
Para as várzeas verdejantes,
lindas garças vão voando,
imponentes e elegantes,
alimentos procurando.
De manhã cedo elas vão,
em direção do nascente,
à tardinha voltarão,
rumo ao lindo sol poente.
Na várzea ficam pescando,
nunca faltando comida,
sua sede vão saciando,
na nascente que dá vida.
Brancas como o branco véu,
ficam horas contemplando,
toda a beleza do céu
e banhos de sol tomando.
À noite dormem seguras,
nos eucaliptos gigantes,     
pra não terem desventuras,
nem surpresas transtornantes.
Sem as várzeas não teremos
as pastagens verdejantes,
nem cruzar o céu veremos
brancas garças elegantes.
Recordando Velhas Canções
Ciúme de você
(canção, 1968)
Luiz Ayrão
Se você   demora mais um pouco
eu fico louco  
esperando por você
e digo que não me preocupa
procuro uma desculpa   
mas que todo mundo vê
que é ciúme, ciúme de você, 
ciúme de você, ciúme de você
Se você põe aquele seu vestido
lindo, e alguém olha pra' você
eu digo que já não gosto dele
que você não vê
que ele está ficando demodê
mas é ciúme, ciúme de você, 
ciúme de você, ciúme de você
Esse telefone que não para de tocar
está sempre ocupado
quando eu penso em lhe falar
quero então saber logo,
quem lhe telefonou
o que disse, o que queria  
e o que você falou
só de ciúme, ciúme de você, 
ciúme de você, ciúme de você
Se você me diz que vai sair
sozinha eu não deixo você ir
entenda  que o meu coração
tem amor demais, meu bem   
e essa é a razão
do meu ciúme, ciúme de você, 
ciúme de você, ciúme de você
do meu ciúme, ciúme de você, 
ciúme de você, ciúme de você.
Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Ailto Rodrigues
Por ser um falso processo
que envolve o jovem no vício,
a droga é rua de acesso
que conduz ao precipício!...
Um Poema de Taubaté/SP
André Bianc
Escrevi para ninguém.
A desilusão que tudo antecede,
no verso ainda sequer gerado,
provoca uma convulsão ocultista,
na lucidez dos amargos diálogos.
Busco a proposta vazia do tema,
resultante de vagas intuições,
que oprime o poeta desavisado,
pelas formas heróicas da obra.
E a irrelevância da qualidade proposta,
aliada das múltiplas subjetividades,
está na importância de apenas criar,
independente do medo instituído.
Ao fim, se tudo amanhã for deserto,
sobreviverá a poesia embalsamada,
nas pirâmides, morta-viva e atemporal.
Leiam o livro que jamais escrevi.
Um Haicai de Belo Horizonte/MG
Angela Togeiro Ferreira
Táboa no brejo,
enfeite do lamaçal,
escondendo rãs.
Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Edmar Japiassú Maia
Dentre os tantos talismãs
que a vida me ofereceu,
o sol que acende as manhãs
é um talismã todo meu!
Um Poema de Taubaté/SP
Luiz Antonio Cardoso
Soneto da Esperança
Escravo da mais mórbida lembrança,
de toscos sofrimentos que vivi,
eu ando ouvindo a vil destemperança,
chorando... mas a face é de quem ri.
Percorro as trilhas-sonhos, e a esperança
em meio ao caos, me diz: “- Estou aqui...
caíste, mas eu venho sem tardança,
iluminar o amor que vejo em ti”.
Ouvindo aquela voz, eis que desperta
minha alma que dormia... e se liberta,
para cumprir a  mais bela missão:
encontrar minha Musa Inspiradora...
a grande amiga... amante... redentora!
A Dona deste ardente coração!
Hinos de Cidades Brasileiras
Imaruí/SC
Na Beleza ao sul do Brasil,
Despontou um lugar sem igual,
Um pedaço então esquecido,
Destacou-se no litoral.
Descendentes dos açores trouxeram,
A cultura e mistura de raças,
De origens jamais esquecidas,
Nos deram clamores de graças.
Imaruí, Imaruí,
Pequena joia no sul do Brasil,
No litoral, tanta grandeza,
E amor a terra jamais se viu.
Freguesia gerou o progresso,
E por severos foi saqueada,
O massacre nos lembra a história,
E a coragem de um povo de raça.
A cultura também se consagra,
Entre as glórias de nosso Imaruí
Religião sempre forte e presente,
Terra querida de amor sem fim.
Imaruí, Imaruí,
Pequena joia no sul do Brasil,
No litoral, tanta grandeza,
E amor a terra jamais se viu.
Com a pesca e agricultura,
As margens da lagoa azul,
Que sustentam as nossas famílias,
Tem fartura na região sul.
Hoje humilde ilustre e serena,
Natureza de terras bem farta,
Brilha o sol, reflete a luz,
No esplendor e nos verdes das matas.
Imaruí, Imaruí,
Pequena joia no sul do Brasil,
No litoral, tanta grandeza,
E amor a terra jamais se viu.
Uma Trova de Belém/PA
Antonio Juraci Siqueira
Quem se vale da mentira
deve lembrar-se, primeiro,
que um dia o feitiço vira
contra o próprio feiticeiro!
Um Poema de Taubaté/SP
Cesídio Ambrogi
Minha terra
Meu vilarejo um cromo estilizado.
O Largo da Matriz. Uma palmeira.
A cadeia sem preso nem soldado.
Calma em tudo. Silêncio. Pasmaceira.
Andorinhas em bando no ar lavado.
O rio. O campo. Além de uma porteira,
Um velho casarão acaçapado.
Nossa casa tranqüila e hospitaleira.
O Cruzeiro lá em cima, em plena serra,
Braços abertos para a minha Terra...
E, eu criança e feliz. Que doce idade !
Hoje, porém meu Deus, quanta emoção!
Do meu peito no triste mangueirão,
Cavo e soturno, o aboio da saudade...”.
Aarão Reis te fez surgir,
teus filhos te deram glória,
Belo Horizonte, és porvir
dos cem anos de uma história.
A brisa passou cantando,
e trouxe, com seus enleios,
teu rosto, em sonho, singrando
as águas dos meus anseios.
A cara de Sá Constança
é de osso e pele somente,
mas tem ela uma poupança
tão gorda que assusta a gente.
A cortina solta ao vento
dança, insone, o seu bailado:
- revolve o velho aposento
e os segredos do passado.
A gata ruiva e bonita
passa toda rebolando;
o garotão logo grita:
- tem "filet mignon" sobrando!...
A vida me revigora,
lembranças que tanto amei!
E dos sonhos, junto, agora,
os retalhos que guardei.
Belô, mais bela e altaneira,
em teus cem anos de glória,
és raínha e timoneira
de teu povo e de uma história.
Canto, alegre, a fortaleza
que sempre cobriu meus passos,
porém escondo a fraqueza
de não contar meus fracassos.
Chuva fina nas calçadas
vai regando a minha dor,
que cresce nas madrugadas,
distante do meu amor.
Com juras apaixonadas,
compondo sonhos a dois,
brindamos às madrugadas,
num talvez... que vem depois.
Em nossos dedos, ternura,
lindo troféu de esplendor;
anel que tem espessura
e o brilho do nosso amor.
Entre as dunas da lembrança
a saudade, em fantasias,
deixa areia de esperança
no deserto de meus dias.
Entre colinas reinando,
Belô, és sonho encantado:
mulher bonita enfeitando
cem anos de teu passado!
Foi tão lindo o sentimento
que nos uniu, sem apelos,
que o luar brindando o evento
prateou nossos cabelos.
Hoje a vitória te alcança!
Cuidado, ao virar a mesa,
a vida é imensa cobrança,
num mercado de surpresa.
Já nasceste Capital,
traçada em retas iguais;
hoje és linda e magistral,
centenária das Gerais.
Lá no alto, bem escondido,
no velho tronco que o enlaça,
um coração esculpido
veste a ramagem da praça.
Manhã dourada, sol quente,
nós dois e o sonho que aflora.
Deitados na areia ardente...
Só o amor importa agora!
Marido a deixa sozinha...
E, com medo de ladrão,
a beldade da vizinha
chama o gato do patrão.
Na balança deste mundo,
pesa mais que seu talento,
ser honesto, ser profundo,
ser direito em pensamento.
Na madrugada vazia,
     quando o desprezo me invade,
     teu desprezo me angustia
    num resquício de saudade.
Não desanime, trabalhe,
combata o mal, queira o bem...
Pois o bom, mesmo que falhe,
é sempre luz para alguém!
Nesta aflição que me cansa,
distante de teu amor,
com timidez, a esperança
tenta acalmar minha dor.
Nunca, em tardes de sol-posto,
eu me ponho esmorecida;
rasgo o véu do meu desgosto
e brindo ao sabor da vida!
O luar flertando a areia,
cai do céu feliz, por certo,
enamorado vagueia,
cobrindo em prata o deserto.
O luar, olhando a areia,
cai do céu, quase desmaia;
em vigília ele vagueia
cobrindo de prata a praia.
O tempo não mede espaços,
passa em corrida fatal,
e o trovador, em seus passos,
nunca passa, é um imortal.
Passa a noite... raia a aurora...
      Só pensamento enfadonho;
      o teu desprezo se ancora
      na solidão do meu sonho.
Recordam tempos passados,
toda magia e ternura,
nossos sonhos enlaçados
no retrato na moldura.
Se o seu horizonte brilha,
não se esqueça do irmão pobre,
veja que, na mesma trilha,
passa o humilde e passa o nobre.
Sob a névoa, sem ruído,
       juntei meu sonho aos pedaços:
      - no véu do tempo, esmaecido,
       senti-me presa em teus braços.
Tive alegrias e penas,
vi noites e amanhecer,
fui palco de muitas cenas,
na conquista do viver.
Transformei em lindo adorno
os ritos do meu sonhar...
Andei, vaguei sem retorno,
me acampei no teu olhar.
Um manto em prata orvalhada
acobertou com pudor,
o nascer da madrugada
no seio de nosso amor.
            Maria da Conceição Antunes Parreiras Abritta nasceu em Crucilândia/MG, em 19 de dezembro de 1941.
            Radicada em Belo Horizonte desde criança, formou-se em Magistério, Letras (Literatura Infantil), Canto Orfeônico  e Literatura Infantil.
            Pertenceu à:
            Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais,
            Academia Feminina Mineira de  Letras,
            Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerias
            União Brasileira de Trovadores (UBT)/Seção de Belo Horizonte. 
            Foi Presidente eleita na UBT/Belo Horizonte, durante três biênios seguidos (seis anos). Presidente Emérita desta entidade. Presidente  da Academia Feminina Mineira de Letras, por duas vezes; Vice-Presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, e Presidente de Honra da AFEMP (Associação Feminina do Ministério Público).
            Seu nome consta da "Enciclopédia  de  Literatura Brasileira" de Afrânio Coutinho  e Galante de Sousa , "Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras" de Nelly Novaes Coelho,  do "Dicionário de Mulheres " de Hilda Agnes Hübner Flores ,do  "Dicionário Bibliográfico de Escritores Brasileiros Contemporâneos" de Adrião Neto e “Dicionário Bibliográfico de Escritores Mineiros” de Constância Lima Duarte.
            Possui muitas premiações literárias, inclusive o Prêmio "João Alphonsus" em 2000 , da  Academia Mineira De Letras, pelo seu livro já publicado, de Contos, intitulado "Janela Dos Ventos".
            Faleceu em Belo Horizonte, em 29 de abril de 2015.
            Publicou doze livros de sua autoria:
"De Braços Com A Saudade"- contos ; "Frasco de Cristal"- poemas; "A História de Crucilândia"- histórico-geográfico; "Janela Dos Ventos"- contos; "Canto Das Águas"- poemas; "Portal Das Rosas"- trovas; "O Baú Que Contava Histórias", infanto-juvenil; "História Sem Pé Nem Cabeça ou As Aventuras De Um Casaco Esquecido",infanto-juvenil; "O Urso Que Amava A Roça", infanto-juvenil; “O Rodeio”, infanto-juvenil; “Belo Horizonte, Nossa Capital”, infanto-juvenil; e, “Descortinando Alvoradas”, romance.
Jean de La Fontaine
A Cigarra e a Formiga
Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
– Amiga – diz a cigarra
– Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos, antes de Agosto,
Os juros e o principal.
A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
– No verão, em que lidavas?
– À pedinte, ela pergunta.
Responde a outra: – Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
– Oh! Bravo! – torna a formiga
– Cantavas? Pois dança agora!
            Jean de La Fontaine foi um poeta e fabulista francês. Filho de um inspetor de águas e florestas, nasceu na pequena localidade de Château-Thierry/França, em 8 de julho de 1621. Estudou teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi a literatura. Escreveu o romance "Os Amores de Psique e Cupido" e tornou-se próximo dos escritores Molière e Racine. Em 1668 foram publicadas as primeiras fábulas, num volume intitulado "Fábulas Escolhidas". O livro era uma coletânea de 124 fábulas, dividida em seis partes. La Fontaine dedicou este livro ao filho do rei Luís 14. As fábulas continham histórias de animais, magistralmente contadas, contendo um fundo moral. Escritas em linguagem simples e atraente, as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente seus leitores.Várias novas edições das "Fábulas" foram publicadas em vida do autor. A cada nova edição, novas narrativas foram acrescentadas. Em 1692, La Fontaine, já doente, converteu-se ao catolicismo. Antes de vir a ser fabulista, foi poeta, tentou ser teólogo. Além disso, também entrou para um seminário, mas aí perdeu o interesse. A sua grande obra, “Fábulas”, escrita em três partes, no período de 1668 a 1694, seguiu o estilo do autor grego Esopo, o qual falava da vaidade, estupidez e agressividade humanas através de animais. Faleceu em Paris, 13 de abril de 1695.
Folclore Indígena Brasileiro
Nação Taulipang
Konewó e as Onças
         Konewó é um índio que parecia ter nascido para disputar com as bichanas. Certo dia, ele estava sentado, encostado a uma árvore, quando uma onça chegou e perguntou:
         – Por que está aí sentado, a escorar esta árvore?
         – Para que ela não caia – respondeu Konewó, secamente. – Todas as árvores estão por cair. Por que não faz o mesmo que eu com aquela outra árvore ali?
         A onça viu uma árvore que parecia prestes a ruir e achou que seria uma boa distração ficar escorando-a, pois não tinha nada melhor para fazer. Depois de encostar-se ao tronco, a onça fechou os olhos, sentindo-se vagamente virtuosa.
         “De vez em quando é bom ser útil”, pensou, vaidosa da sua virtude.
         Mas a virtude logo transformou-se em sono, e, quando a onça começou a roncar, Konewó ergueu-se e, ligeirinho, amarrou-a ao tronco com cordas trançadas de cipó.
         Konewó desapareceu, a reprimir o riso, e a onça só acordou algumas horas depois, completamente imobilizada.
         Os dias se passaram e ela já estava quase morta de fome quando um macaco surgiu.
         – O que faz aí, toda amarrada à árvore?
         – Fui amarrada, não está vendo? – rugiu a fera. – Vamos, solte-me já!
         – Ah, isso eu não faço, não! Se soltá-la, você me come!
         – Não comerei, dou-lhe minha palavra!
         O macaco não foi muito atrás da onça, e ela precisou insistir várias vezes para que ele finalmente se decidisse a arriscar o pelo. Com toda a cautela, ele desamarrou a onça, e só por isso escapou vivo. Atento, assim que viu a pata peluda eriçar as unhas na sua direção, deu um pulo para longe.          O macaco desapareceu dentro da mata, enquanto a onça ficou maquinando a sua vingança contra o índio que a aprisionara. Depois de andar muito, farejando o rastro de Konewó, ela finalmente encontrou o seu desafeto, desta vez escorado numa rocha.
         – Ah! Aí está você! – disse ela, pulando à frente do índio. – Desta vez você me paga!
         Konewó olhou serenamente para a onça.
         – O que quer? – disse ele, friamente.
         – Vingança!
         Ao observar, porém, a calma do índio, a onça não pôde deixar de perguntar-lhe:
         – Ei! O que faz escorado aí nesse pedregulho?
         – Estou impedindo que ele caia. Todos os rochedos estão por cair.
         Konewó, então, olhou para o lado e apontou outro rochedo dez vezes maior.
         – Se você fosse uma onça realmente útil, faria como eu, impedindo que aquele rochedo caia.
         Uma espécie de nuvem estúpida desceu sobre a mente da onça, obrigando-a a ir tomar o seu lugar, mas assim que ela o fez, o índio ergueu-se.
         – Espere aí, sabichão, onde pensa que vai? – gritou ela.
         – Tive uma excelente ideia para poupar-me trabalho. Vou procurar um tronco para fazer uma escora e assim livrar-me de ficar o resto da vida escorando a minha pedra.
         A onça sentiu o pedregulho chacoalhar às suas costas e deu um grito:
         –Traga uma escora para mim também!
         Konewó sumiu e nunca mais apareceu com escora alguma. Quanto à onça, das duas uma: ou está lá até hoje, escorando o pedregulho, ou terminou sepultada viva pelo desabamento.
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         Certo dia, ele estava sentado à beira de um rio de águas profundas quando uma onça surgiu por detrás.
         – Que faz aí, bobão? – disse a onça, mais curiosa do que esfomeada.
         – Estou pensando em mergulhar no rio para apanhar aquele bolo de tapioca que está lá no fundo.
         Konewó apontou para o reflexo da lua sobre a água.
         – Então vá – disse a onça, desconfiada. – Quero ver se consegue apanhá-lo!
         Konewó tinha escondido debaixo da tanga um pedaço de bolo e mergulhou para logo em seguida retornar.
         – Ah, aqui está! – disse ele, dando uma dentada no bolo.
         A onça lambeu os beiços, mas o índio enfiou ligeiro o resto na boca.
         – Por que não trouxe o bolo inteiro? – disse a onça, frustrada.
         – Acontece que sou muito leve – respondeu o índio. – Por que você, que é mais pesada, não desce e traz o restante do bolo?
         A onça estava tão ávida por provar aquela delícia que aceitou na hora o desafio.
         – Amarre esta pedra ao pescoço – disse o índio. – Ela a ajudará a descer mais rápido, pois há muita correnteza nestas águas.
         A onça aceitou, e depois de ter o pedregulho bem amarrado ao pescoço, mergulhou. Quando chegou ao fundo do rio, porém, constatou que não havia bolo algum por ali. Olhou para cima e viu que o bolo – ou a lua – agora estava boiando na superfície.
         E essa foi a última coisa que a desgraçada viu antes de morrer afogada.
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         Mais uma com onça.
         Konewó ia andando na mata quando viu uma trilha de antas. No mesmo instante, uma onça surgiu.
         – O que espia aí? – perguntou a bichana.
         – Não está vendo? – respondeu o índio. – É o rastro de uma anta gorda.
         A onça lambeu-se três vezes antes de voltar a falar.
         – Acha que está longe?
         – Que nada! Veja, o rastro ainda está fresco!
         – Então deixe comigo! – disse a onça, preparando-se para uma boa corrida.
         – Não, espere, tenho um plano melhor – disse Konewó. – Está vendo aquele morro elevado e coberto de vegetação? Foi por lá que ela se escondeu. Eu vou atrás dela, e você fica aqui embaixo. Vou assustá-la e encaminhá-la bem na direção da sua boca.
         A onça adorou a ideia e foi colocar-se na base do morro, enquanto o índio o escalava. Ao chegar ao topo, Konewó encontrou um pedregulho enorme e rolou-o até o começo da descida.
         – Aí vai a anta! – gritou o índio.
         Ao escutar o ruído de algo pesado descendo, a onça firmou-se nas pernas.
         – Que anta enorme deve ser! – disse ela, lambendo os bigodes.
         De repente, porém, surgiu do matagal inclinado o pedregulho enorme, a rolar furiosamente, e passou por cima da onça, deixando-a esmigalhada e fininha como um tapete.
         E esse foi o fim de mais uma onça.
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         Uma última.
         Konewó estava sentado em um galho elevado de uma enorme árvore. Ele havia encontrado uma colmeia e estava se deliciando com o mel quando uma onça chegou e perguntou:
         – Que faz aí?
         – Estou saboreando esta delícia – disse Konewó, lambendo os dedos dourados de mel.
         – Também quero! – disse a onça, apaixonada por mel.
         – Então, façamos o seguinte: eu desço e corto a árvore. Quando ela cair, você apara a colmeia nos braços e fica o resto do dia se deliciando.
         A onça topou e ficou aguardando enquanto o índio metia o machado na árvore.
         Quando a árvore finalmente começou a inclinar-se, a onça fez menção de sair correndo.
         – Idiota, fique no lugar! – berrou Konewó. – Apare a colmeia, senão ela vai se estraçalhar.
         A onça se encheu de coragem e esticou os braços na direção da colmeia. Só que atrás dela vinha a árvore inteira, e foi assim que a pobre felina viu-se esmagada e coberta de picadas de abelhas.
Fonte: Franchini, Ademilson S. As 100 melhores lendas do folclore brasileiro. Porto Alegre/RS: L&PM, 2011.
Tatiana Belinky
Viola no Saco
História do Folclore Paulista Recontada
         Vocês sabem por que quando alguém perde uma discussão, ou coisa assim, e tem de se calar, se diz que “fulano meteu a viola no saco”? Pois eu vou contar.
         Há muito tempo, quando os bichos falavam e muitas coisas eram diferentes, havia muita festança no mundo. Um dia houve uma festa no céu e todos os bichos foram convidados. Entre eles, um dos mais esperados era o Urubu, porque as danças dependiam das músicas que ele tocava na viola.
         No dia da festa, o Urubu enfiou sua viola no saco e, antes de iniciar a viagem, foi beber água na lagoa. Lá encontrou o Sapo Cururu, que se secava ao sol. Enquanto o Urubu bebia, o espertalhão do Cururu, que também queria ir à festa, se escondeu dentro da viola para viajar de carona.
         Quando o Urubu chegou ao céu, foi muito bem recebido, pois todos esperavam por ele para começar a dançar o cateretê e a quadrilha. Mas antes o chamaram para beber umas e outras.
         O Urubu foi, deixando a viola encostada num canto. O Cururu aproveitou para pular da viola sem ser visto e foi se empanturrar com os quitutes da festa. O Urubu também comeu e bebeu até não poder mais e não viu que o Cururu, aproveitando uma distração sua, se escondera de novo dentro da viola para tornar a tirar uma carona na volta para a terra.
         Quando chegou a hora de voltar, o Urubu guardou a viola no saco e saiu voando de volta para casa. Durante o voo, estranhou que a viola estivesse tão pesada. “Na vinda foi fácil, mas na volta está difícil. Será que fiquei fraco de tanto comer e beber?”, pensou ele. Por via das dúvidas, examinou o saco com a viola e acabou descobrindo o malandro do Sapo Cururu agachado lá dentro. Furioso por ser usado desse jeito, o Urubu começou a sacudir o saco com a viola, para despejar o Cururu lá do alto e se ver livre dele.
         O Cururu, com medo de se esborrachar no chão pedregoso lá em baixo, recorreu à sua proverbial esperteza e começou a gritar: “Urubu, Urubu, me jogue sobre uma pedra, não me jogue na água, que eu morro afogado!”.
         O Urubu, tolo, querendo se vingar do Sapo, viu lá de cima uma lagoa e tratou logo de despejar o Sapo dentro d’água, que era pra ele se afogar. O espertalhão do Cururu, que só queria era isso mesmo, saiu nadando, feliz da vida. O bobão do Urubu só não ficou “a ver navios” porque não havia navios naquela lagoa. E é por isso que, quando alguém perde a partida e tem de sair quieto e calado, dizem que “fulano teve de meter a viola no saco”…
Fonte:
Revista Nova Escola: Contos
Imagem: Rogério Borges
Tatiana Belinky
A Lebre na Lua
Lenda Indiana Recontada
         Segundo alguns povos do Oriente, as manchas que aparecem na face da lua cheia se assemelham à figura de uma lebre. E diz a lenda que isto aconteceu assim…
Há muitos milênios, viviam, à margem do rio Ganges, quatro bichos diferentes que eram amigos e companheiros: um macaco, uma lontra, um pequeno chacal e uma lebre, a mais virtuosa dos quatro.
         Um dia ela reuniu os amigos e lhes disse: “Amanhã será lua cheia, o dia que nós reservamos para meditar e fazer jejum. Não precisamos, pois, de comida, mas sugiro que cada um de nós saia à procura de alimentos necessários para dar de esmola caso alguém nos venha pedir”.
         Os bichos concordaram e cada um foi se recolher para passar a noite, e no dia seguinte sair em busca de comida. O chacal subtraiu o almoço de um pastor distraído, que era uma gamela de coalhada com arroz. O macaco tirou algumas mangas maduras de uma mangueira próxima. A lontra apanhou alguns peixinhos esquecidos por um pescador. E a lebre, que passara a noite em profunda meditação, pensou consigo mesma: “Não vou preparar nada. Se algum necessitado vier pedir comida, darei meu próprio corpo para ele se alimentar”.
         Essa ideia tão generosa chamou a atenção dos mundos superiores, e um dos espíritos, o deus Sekra, decidiu descer até a terra, encarnado no corpo de um brâmane, para conferir em pessoa as dádivas dos quatro amigos animais. Primeiro, ele apresentou-se à lontra: “Minha filha lontra, estou com fome, desde ontem não como nada. Será que você poderia ceder-me algum alimento? Em troca, eu lhe darei as minhas bênçãos.” A lontra entregou-lhe os peixinhos, e ele agradeceu, dizendo que voltaria logo mais para buscá-los. E foi falar com o pequeno chacal: “Amigo chacal, você não teria algum alimento para dar a um pobre faminto?” O chacal ofereceu-lhe a coalhada com arroz, e o brâmane agradeceu e disse que voltaria logo para buscar a comida. Então, foi procurar o macaco pendurado pelo rabo num galho de árvore e fez o mesmo pedido. O macaco ofereceu-lhe as mangas maduras. O brâmane agradeceu, dizendo que voltaria logo para buscá-las.
         Por último, o deus Sakra disfarçado em brâmane foi procurar a lebre que continuava a meditar à beira da sua toca, e tornou a fazer a mesma pergunta, à qual a lebre respondeu: “Meu santo homem, vou oferecer-lhe um lauto almoço. É um pedaço de carne fresca, que você só terá de assar numa pequena fogueira. Prepare o braseiro. Quando o fogo estiver alto, eu trarei a carne para o seu almoço.”
         O brâmane juntou alguns gravetos, acendeu uma alegre fogueira ao lado da toca da lebre e perguntou então qual seria a carne que lhe serviria de almoço. “É o meu corpo”, respondeu a lebre, e no mesmo instante pulou para o meio do fogo. Mas o fogo ardia e não queimava a lebre, que até reclamou: “Ó santo homem, o seu fogo não queima. Você vai ter de aumentá-lo, pois do jeito que está, chego a sentir frio”.
         Em vez de responder, o brâmane desapareceu e no seu lugar surgiu um belíssimo e luminoso jovem, que se apresentou como o deus Sakra encarnado e disse: “Um ato tão nobre e generoso como este tem de ficar para sempre na memória dos homens.” E, crescendo desmesuradamente, ele arrancou com a mão o cume de uma montanha próxima, amassou-o dentro do punho, e com essa massa lambuzou a face da lua cheia que acabava de surgir no céu, formando uma figura na forma de lebre. Esta figura apareceria aos homens a cada lua cheia para lembrar-lhes a bela ação daquela pequena lebre, que mostrou que quem dá uma esmola deve dá-la de todo o coração, dando tudo, e às vezes até o próprio corpo.
Fonte:
Revista Nova Escola: Contos.
            “Sou antiga, mas não sou velha, porque dentro de mim continua vivinha a criança que fui e isto me permite estar em sintonia com crianças e jovens, com quem procuro repartir minhas curtições de ontem e de hoje. Meu prêmio maior é saber que meus livros irão para as mãos das crianças, e se elas sorrirem, ou se emocionarem, ou ficarem pensativas, eu ficarei feliz”.
            Tatiana Belinky é uma das mais importantes escritoras infanto-juvenis contemporâneas. Embora russa, está radicada no Brasil há quase oitenta anos. Nasceu em São Petersburgo (Rússia) no dia 18 de março de 1919, mudando-se para Riga aos dois anos de idade. Seu pai, Aron, era comerciante e a mãe, Rosa, cirurgiã-dentista. A menina Tatiana aprendeu a ler no idioma materno, o russo. Aos dez anos de idade, fugindo das guerras civis que assolavam a então União Soviética, Tatiana já falava russo, alemão e letão. Devido à perseguição aos judeus na Rússia Soviética, a família Belinky, que era judia, resolveu se mudar para o Brasil, chegando a São Paulo em 1929.
            Aos dezoito anos, após concluir um curso preparatório, começou a trabalhar como secretária-correspondente bilíngüe, nos idiomas português e inglês. Aos vinte (1939) ingressou no curso de Filosofia da Faculdade São Bento, mas abandonou-o em 1940, quando casou-se com o médico e educador Júlio Gouveia.
            De 1948 a 1951, criou com o marido várias adaptações de histórias infantis para teatro. Nessas encenações, Tatiana fazia o roteiro e o marido, a direção. As peças eram encenadas em teatros da Prefeitura de São Paulo, com recursos da prefeitura.
            Em 1952, o casal encenou sua bem-sucedida adaptação “Os três ursos” na extinta TV Tupi. Com o sucesso da encenação na televisão, a Tupi convidou o casal a elaborar o programa “Fábulas Animadas”, preenchendo uma lacuna da programação da época para o público infanto-juvenil. A primeira versão do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, estreou em 1952, e a direção coube a Tatiana Belinky e Júlio Gouveia. Foram 300 episódios, mas infelizmente não ficou nada registrado pois o programa era feito ao vivo.
            A primeira adaptação ocorreu no Teatro Escola de São Paulo – TESP – um teleteatro dirigido ao público infantil, criado em 1948 por Tatiana e Júlio Gouveia. “A Pílula Falante”, um dos capítulos do livro “Reinações de Narizinho”, foi a história escolhida para ser exibida ao vivo na Tupi. O sucesso alcançado por esta única apresentação levou a emissora a produzir a primeira série de televisão do “Sítio do Picapau Amarelo”.
            Torna-se presidente da CET (Comissão Estadual de Teatro de São Paulo).
            Paralelamente à atividade como roteirista de teatro e televisão, Tatiana Belinky deu início, em 1952, à atividade como tradutora literária, iniciada com suas adaptações de peças de teatro infantis e contos russos. Traduziu mais de 80 livros do russo, alemão, inglês e francês. Entre os textos que traduziu e adaptou estão obras de autores como Dostoiévski, Tolstói, Gorki, Gogol, Turgueniev, Goethe, Brecht, Irmãos Grimm e Lewis Carroll. Sua especialidade sempre foi a literatura infantil russa, ajudando a divulgar a cultura russa entre crianças e adolescentes. Também atuou, a partir de 1972, como crítica de literatura infanto-juvenil e de teatro, como colaboradora dos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde e da TV Cultura.
            Finalmente, em 1985, Tatiana Belinky desponta como escritora de livros, colaborando em uma série infanto-juvenil. Seu primeiro livro de poesia infantil, “Limeriques das Coisas Boas”, foi publicado em 1987. Os poemas do livro, que brincam com cacófatos e exploram a riqueza verbal da língua portuguesa, inspiram-se nos “limerick”, poemas de origem irlandesa de apenas cinco versos, cuja característica é o non-sense e o bom-humor. A partir desta publicação, Tatiana passa a trabalhar fervorosamente sobre novas criações, chegando a escrever mais de cem obras. Suas publicações são acompanhadas por vários prêmios literários, entre eles o célebre Prêmio Jabuti, recebido em 1989.
            Tatiana Belinky é autora premiada em literatura e teatro. Recebeu o Prêmio Mérito Educacional em 1979, e o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano em 1989, entre outras premiações.
            Faleceu em São Paulo/SP, em 15 de junho de 2013.
Fontes:
wikipedia
Deonísio da Silva
Expressões e Suas Origens
Parte VIII
O amor é mais forte do que a morte
Esta frase é de autoria de Salomão, célebre rei dos hebreus e filho de outro rei famoso, Davi, de quem se tornou sucessor. Sua sabedoria passou à História como digna de ser seguida. Teve muito mais mulheres do que seu pai, mas não mandou o marido de nenhuma delas para a frente das batalhas para ficar com a mulher do próximo. Foi ele quem construiu o templo de Jerusalém e escreveu três dos livros bíblicos: Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos, onde encontramos frases deslumbrantes como esta, em português chamadas de versículos por uma convenção aplicada aos textos bíblicos. Não se pode contestar a experiência amorosa deste rei-escritor, senão qualitativa, quantitativa, pois que amou a mais de mil mulheres.
O amor é uma enxaqueca universal
A frase é do poeta, romancista e ensaísta inglês Robert von Ranke Graves (1895-1985), autor de mais de 120 livros, que incluem pesquisas reveladoras de importante religião baseada na figura de uma deusa branca, cuja adoração teria existido ainda no cristianismo. Outros livros seus muito conhecidos são uma autobiografia sobre sua participação na primeira guerra mundial, em que foi gravemente ferido, e o romance Eu, Cláudio, narrado pelo famoso imperador romano, que tão pouco amou. Seus sofrimentos não o impediram de escrever notáveis livros de poemas, tratando de sentimentos profundos, vividos num século que fez mais a guerra – duas mundiais – do que amor.
O amor é uma loucura
Esta frase é atribuída ao extraordinário poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856), cujos versos estão cheios de melancolia. Apesar, porém, da tristeza de sua poesia, Heine tinha muito humor em seus textos de prosa, entre os quais estão narrativas de viagem e o romance O rabino de Bacherach. Adorava a mulher que desposou, Eugênia, mas comentando a marcha nupcial dos casamentos, comparou-a à música dos soldados que vão à guerra. Crítico com o próprio país, dizia que as únicas boas coisas da Alemanha eram as salsichas e a cerveja. De ascendência judaica, de família de banqueiros, converteu-se ao cristianismo “para não ter que encontrar-se com os parentes judeus no outro mundo”.
O amor que não ousa a dizer seu nome
Identificando a homossexualidade, esta frase, muito citada, é um verso do poema “Dois amores”, de autoria do lorde inglês Alfred Douglas (1870-1945), escritor de reconhecidos méritos que influenciou até mesmo o francês André Gide (1869-1951), prêmio Nobel de literatura em 1947. O lorde foi um dos muitos jovens aristocratas britânicos a ter caso com o escritor inglês Oscar Wilde (1854-1900). Entretanto, quando se tratou de punir as práticas homossexuais de todos ele, o autor de O retrato de Dorian Gray e A alma do homem sob o socialismo, foi o único a ser condenado à prisão pelo amor que não ousava dizer seu nome, já que seus amados também não ousaram declarar-se.
O cinema não tem futuro comercial
Esta frase é de autoria de Auguste Lumière (1862-1954) que, juntamente com o irmão, Louis Lumière (1864-1948), é tido como um dos inventores do cinema. Ele a teria pronunciado por ocasião da primeira projeção de um filme, ainda mudo, ocorrida em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895. Os industriais inventores estavam enganados. O cinema tomou conta do mundo e hoje movimenta verdadeiras fortunas, a ponto de um filme apenas, O parque dos dinossauros, ter arrecadado um bilhão de dólares. Também os investimentos comerciais foram aumentando, e Waterworld, produzido em 1995, custou 150 milhões de dólares.
O coração tem razões que a razão desconhece
A história desta frase não poderia Ter origem mais paradoxal, pois foi proferida e escrita por um personagem que deu grande valor à ciência, o célebre matemático, físico, filósofo e escritor francês Blaise Pascal (1623-1662). Aos 16 anos já tinha escrito um ensaio científico e aos 18 inventou uma máquina de calcular, base de nossos atuais computadores. Depois que sua irmã Jacqueline entrou para um convento, Pascal retirou-se para a célebre localidade de Port-Royal-des-Champs, que deu nome a uma escola de língua francesa, escreveu sempre em estilo irrepreensível. A frase dá grande valor à intuição.
O escritor é irmão de Caim e primo distante de Abel
Esta frase, inspirada na história bíblica de Caim – filho mais velho de Adão e Eva, que matou o irmão Abel -, é o penúltimo haicai da série de 123 que constam de um folheto distribuído a algumas pessoas em 1993 pelo escritor curitibano Dalton Trevisan e posteriormente reunidos em livro publicado pela Editora Record com o título de Ah, é? Conciso, lacônico, avesso a entrevista, o ficcionista de reconhecido talento tem espelhado essa concepção amarga da literatura nos seus mais de 20 livros publicados, que lhe valeram prêmios e traduções para diversas línguas.
O estado sou eu
Esta frase é sempre citada como exemplo de personalismo de reis e presidentes. Foi pronunciada pela primeira vez por Luís XIV (1638-1715), rei da França, no dia 13 de abril de 1655, aos 17 anos, ao entrar no parlamento em trajes de caça. Advertido pelo presidente da Casa, respondeu: L’État c’est moi! (o Estado sou eu!). Voltou a pronunciá-la sempre que era contrariado por seus ministros e ainda mandou inseri-la num curso de Direito Público, feito especialmente para um de seus duques, acrescentando: “na França, a nação reside toda na pessoa do rei”. O tempo mostrou o quanto o rei estava enganado. Na Revolução Francesa, não foi a França quem perdeu a cabeça.
O homem põe, mas deus dispõe
Esta frase, tão citada como provérbio, deve sua fama ao enorme sucesso do livro A imitação de Cristo, um best-seller que está na lista dos mais vendidos e, neste caso, também dos mais lidos, há vários séculos. Publicado pela primeira vez em 1441 e só perdendo em traduções para a Bíblia, é de autoria do escritor e asceta alemão Tomás de Kempis, que viveu no século XV. A frase significa que, por mais que o homem planeje meticulosamente sua vida, algo de imponderável pode acontecer e deve ser creditado à intervenção divina. Com o passar dos anos outras variações foram surgindo e uma das mais comuns, no Brasil, é Deus não joga, mas fiscaliza.
Olho por olho, dente por dente
Esta frase, que consagra a vingança do preceito jurídico, está inscrita num dos 282 artigos do Código de Hamurabi (1792-175 a.C.), o criador do império Babilônico. Em 1901, arqueólogos franceses descobriram, em território hoje pertencente ao Irã, uma estrela cilíndrica de diorito onde está gravado este célebre conjunto de leis, um dos mais antigos que se tem notícia. Baseado na lei de talião, presente também num dos livros da Bíblia, o Levítico, prescreve para o transgressor pena igual ao crime que praticou. Ainda é aplicado em várias sociedades do Oriente.
O pior cego é o que não quer ver
Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D`Argent fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imagina era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para a história como o cego que não quis ver.
O poder é o afrodisíaco mais forte do mundo
O Prêmio Nobel da Paz de 1973, Henry Alfred Kissinger (73), surpreendeu os jornalistas com esta frase que ficaria famosa, proferida em entrevista coletiva que tinha como assunto principal as negociações que levariam ao fim da guerra do Vietnã, nos anos 70. Responsável também pelo cessar-fogo de uma das muitas guerras travadas entre árabes e israelenses, Kissinger foi o secretário de Estado de 1973 a 1977 e um dos primeiros idealizadores das aproximações políticas dos Estados Unidos com a ex-União Soviética e a China. Atuando como um dos homens mais poderosos do mundo numa época marcada pela geração que proclamava ser melhor fazer o amor do que a guerra, apresentou, com esta frase, um outro mirante de desejo.
O povo quer pão e circo
Segundo uma das sátiras do escritor latino Décimo Júnio Juvenal (60-140), a plebe romana só queria saber de pão e circo, sendo esta uma das razões do declínio do Império. Vários imperadores providenciaram o cumprimento desta máxima, entre os quais Lúcio Vero (130-169), que partilhava com o povo o gosto pelos esportes, principalmente os espetáculos de gladiadores, bem antes das perseguições que levaram os cristãos à maior arena do Ocidente para serem comidos por leões. A frase, retomada por autores de diversas épocas e países, consolidou-se como sinônimo de uma certa preguiça universal. Mas certamente este não é um ponto de vista popular, já que quem mais come, bebe e se diverte é a classe social privilegiada, tanto no capitalismo como no socialismo, haja vista a famosa nomenclatura soviética.
Ordem e progresso
Esta frase, lema inscrito em nossa bandeira, é de autoria de Benjamim Constant, cujo nome completo é Benjamim Constant Botelho de Magalhães (1836-1891), militar e político brasileiro, um dos fundadores da República. Foi ele quem, inspirado nas idéias do fundador da sociologia, o positivista francês Auguste Comte (1798-1857), orientou o desenho da bandeira nacional. Engenheiro de formação e defensor da premissa de que a ordem é indispensável ao progresso, lutou na Guerra do Paraguai, onde foi o responsável pelas fortificações de Tuiuti. Foi ministro da Guerra do governo provisório e mais tarde da Instrução, onde travou sua melhor guerra, realizando uma reforma educacional de excelentes resultados em instituições que se tornaram famosas pela qualidade de ensino, como o Colégio Pedro II e a Escola Normal, ambos no Rio.
O real não está nem na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia
Eis uma frase que poderia ser inscrita na nova moeda brasileira, o real. É da autoria do grande escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967). Foi profecia pelo jagunço letrado Riobaldo no célebre Grande Sertão: veredas, publicado pela primeira vez em 1956 e levado à televisão com Bruna Lombardi no papel, misterioso e repleto de sutis complexidades, de Diadorim. Guimarães Rosa recomendava a quem já tinha lido o livro que não revelasse o grande segredo do romance, envolvendo Riobaldo e Diadorim, porque, como sugere a frase, no desfecho do romance é que os leitores entendem melhor algumas de suas passagem mais memoráveis.
O rei reina, mas não governa
Esta frase e seu sentido estão muito bem estudados numa obra clássica do ensaísta brasileiro Raymundo Faoro (71), Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro, que recebeu no ano de seu lançamento o prestigioso Prêmio José Veríssimo de Ensaio e Crítica da Academia Brasileira de Letras. A frase sintetiza a base das monarquias constitucionais. Válida para as outras cortes, no caso da portuguesa não poderia ser empregada, pois o rei reinava e governava, sendo chefe político, religioso e militar. Acima do rei e seu poder incontestável, estava apenas o papa. O papa, e não o clero. Um dos primeiros a proclamar esta frase foi o célebre político, historiador e depois presidente francês Adolphe Thiers (1797-1877).
Os acionistas são ovelhas ou tigres
Esta frase é de autoria do lendário banqueiro israelense Mayer Amschel Rothschild (1744-1812), fundador da casa de crédito que levaria seu nome. A família obteve muita fortuna com suas operações, especialmente com o financiamento de várias guerras europeias. No final do século XIX, os Rothschild lideravam o ranking dos bancos, mas depois outras casas de créditos os superaram. A família distinguiu-se também na política, tendo vários membros barões do então poderoso império austríaco, além de um descendente deles ter sido o primeiro judeu a entrar para o parlamento britânico. A frase indica o comportamento dos acionistas diante de operações que dão lucro ou prejuízo.
Os aduladores são os piores inimigos
A cada nova mudança no governo, surgem, inevitáveis, os aduladores, que se comprazem em lisonjear com o fim de obter recompensas que de outro modo não alcançariam, dada a ausência de méritos. Em todas as sociedades, os favores prestados a aduladores demonstraram ser perigosos àqueles que os concederam, beneficiando apenas aos puxa-sacos, que é como a linguagem popular, sem nenhum eufemismo, os denominou. A frase é do historiador latino Públio Cornélio Tácito (55-120), alertando as autoridades romanas contra esta praga universal. O mesmo pensamento foi expresso em outras palavras na Bíblia em textos de doutores de Igreja.
O senhor combinou com os adversários?
Esta frase lendária entrou para o folclore do futebol como tendo sido dita por Garrincha (1933-1983) após ouvir a preleção do técnico Vicente Feola (1909-1975) sobre o esquema de jogo contra a então União Soviética na Copa de 1958. Garrincha, tido por simplório, mas um dos maiores jogadores de todos os tempos, fez uma pergunta que, por sua lógica absurda, desconcertou a todos. Segundo ele, do modo como o técnico explicava, para o esquema dar certo era indispensável a ajuda dos adversários. No primeiro minuto de jogo, Garrincha esqueceu os planos, driblou meio mundo e chutou na trave. Diante do carnaval que fez, a derrota por 2 a 0 saiu barata a URSS.
O ser humano não pode suportar muita realidade
A imprensa caracteriza-se por extremado realismo, tanto em jornais e revistas como no rádio e na televisão, como fez a literatura do século passado e até meados deste século. Entretanto, todas as pessoas têm necessidade de fantasia e para tanto a indústria cultural tem-se esforçado para atender a este anseio. A sétima arte, como é chamado o cinema, tem sido, entre todas as manifestações artísticas, a que mais se preocupou em fornecer fantasia ao público, com o intuito de atenuar a realidade, cada fez mais dura, da vida cotidiana. Em outros tempos este propósito teria sido acusado de alienante, mas os tempos modernos deram razão a esta famosa frase do escritor anglo-americano Thomas Stearns Eliot, mais conhecido como T.S. Eliot (1888-1965).
O sertanejo é, antes de tudo, um forte
Esta frase, uma das mais repetidas da vida nacional, foi escrita pela primeira vez em O Estado de S. Paulo pelo engenheiro civil, professor de lógica e jornalista, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, que se tornaria escritor famoso justamente com as reportagens onde está esta frase, depois reunidas em livro sob o título de Os sertões, em 1902. Cobrindo a campanha de Canudos, o escritor captou e expressou com argúcia o sertão, o povo e sua famosa trágica luta. Soube ver a força dos fracos, escondida em aparências que indicavam, ao primeiro olhar, o cansaço e a fraqueza do sertanejo, que ele chamou de “Hércules-Quasímodo”, desgracioso, desengonçado, torto. Mas, antes de tudo, um forte.
Os fins justificam os meios
A ideia de que não importam que os meios sejam ilícitos quando os fins são nobres consolidou-se nesta frase, atribuída, entre outros, aos jesuítas e aos autores italianos Niccolò Machiavelli (1469-1527) e Francesco Guicciardini (1483-1540), dois filósofos que se preocuparam com o poder e a ética dos governantes, o último dos quais é autor das célebres Ricordi – em italiano, advertências, conselhos – somente agora traduzidas para o português com o título de Reflexões, mais de acordo com os temas do livro.
O silêncio é de ouro
Esta frase já estava na boca de muitos povos quando o cineasta René Clair (1898-1981) a utilizou literalmente, no original francês, como título de um filme, Le silence est d’or, cujo tema é o cinema antigo, quando o som não era ainda utilizado. A aquisição da linguagem é etapa decisiva do desenvolvimento humano. Porém, tendo aprendido a falar, o homem precisa aprender também a calar, daí a razão da sabedoria desta frase, presente em muitas outras línguas, algumas dos quais acrescentam que a palavra é de prata. Saber calar e cultivar a discrição são recomendações tão antigas que já estão presentes também em famoso livro da Bíblia, o Eclesiastes. No Brasil, a variante popular é “em boca fechada não entra mosca”.
Os negócios são o dinheiro dos outros
Esta frase, tornada proverbial, aparece em A questão do dinheiro, comédia do escritor francês Alexandre Dumas Filho (1824-1895), também autor de A dama das camélias. É pronunciada na cena sete do segundo ato. A frase desagradou um importante banqueiro francês, que atacou o autor pelos jornais. O teatrólogo respondeu com ironia, também pela imprensa: “Quando quiser uma peça honesta, pedirei seus conselhos; quando você fizer uma operação bancária honesta, pedirei ações”. Filho natural de Alexandre Dumas (1802-1870), suas obras obtiveram grande sucesso de público, mas algumas foram proibidas várias vezes. As do banqueiro, não.
O viaduto é a menor distância entre dois engarrafamentos
Frase do ex-prefeito de Curitiba e governador do Paraná, Jaime Lerner (59), já famosa, mas que se tornou ainda mais célebre depois de proferida na Conferência Internacional do Meio Ambiente, denominada Hábitat 2, realizada em junho de 1996, em Istambul, principal cidade da Turquia. O autor da frase imprimiu à cidade de que foi prefeito por muitos anos um projeto urbanístico marcado por eficiente rede viária para os transportes públicos, tornando-a cidade-modelo no mundo, segundo critérios adotados pela Unesco. Para substituir os viadutos, evitados pelo governador, são feitas propostas alternativas de trânsito, como as vias expressas e o ônibus conhecido como Ligeirinho, a grande vedete daquele evento internacional.
Fonte:
SILVA, Deonísio da. Expressões e suas origens.
Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. Professor, escritor e etimologista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Filologia, vinculado às universidades Unijuí, RS (1972-1981), Ufscar, SP (1981-2003), Estácio, RJ (2003-2015) e Unisul, SC (2014-2015), dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Autor de 34 livros, alguns dos quais publicados também em Portugal, Itália, Alemanha, Canadá etc. Suas obras referenciais são o romance "Avante, soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago); "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras".
Conto do Moçambique
O Coelho e a Hiena
         O coelho e a hiena eram amigos.
         Um dia, a hiena que estava a passear sozinha, passou por uma povoação e viu algumas raparigas a pilar. Entre elas havia uma muito bonita e que se chamava Chipha Dzuwa.
         A hiena disse: “És muito bonita, casa comigo”. A rapariga respondeu: “Primeiro tens de falar com os meus pais, traz o teu padrinho. E caso contigo”.
         Entretanto, o coelho, que pouco depois passou pela mesma povoação, apaixonou-se pela mesma rapariga. “Casa comigo”, disse-lhe o coelho. “Não posso, já dei a minha palavra à hiena. Ele vem apresentar-se aos meus pais”, respondeu a rapariga. O coelho começou a soltar grandes gritos e a rebolar-se no chão. Riu e zombou da rapariga: “Não compreendo nada. Então tu, tão bonita que és, casas com um qualquer? Não sabes que a hiena é meu serviçal e serve-me de cavalo quando entendo?” “Não acredito, apresenta-me provas”, pediu a rapariga, humilhada e espantada.
         Quando o coelho se encontrou com a hiena, nada disse. Esta, porém, estava feliz e pediu ao amigo para ser seu padrinho no dia da apresentação aos pais. O coelho fingiu: “Não sei, amigo, é que não ando lá muito bem. Além disso, piquei-me num pé e não consigo caminhar longas distâncias”. A hiena ofereceu-se logo cheia de boa vontade: “Não faz mal, eu carrego-te às costas. O que eu quero é que vás apresentar-te aos pais da Chipha Dzuwa”. Mas o coelho insistiu: “Tu andas muito depressa, tenho receio que me deixes cair. Só se permitires que eu ate uma corda ao teu pescoço”. A hiena estava por tudo naquele momento. Aceitou.
         No dia combinado, lá foram os dois, o coelho no dorso do amigo e com as mãos na corda. Quando chegaram à povoação, o coelho começou a fazer manobras como se estivesse montado num cavalo e logo que viu a rapariga, começou a gritar: “Corre depressa, aí está a nossa amiga”. A hiena, que não tinha percebido ainda o que o coelho estava a fazer, correu mesmo. Ao chegarem ao pé da rapariga, o coelho saltou para o chão e disse-lhe: “Estás a ver como eu tinha razão? A hiena é ou não o meu servidor fiel?” Esta apercebeu-se então do que estava a passar-se e ficou de tal maneira envergonhada que fugiu para bem longe. E o coelho casou com Chipha Dzuwa.
Fonte:
Lourenço Joaquim da Costa Rosário. Contos moçambicanos do vale do Zambeze. Moçambique: Editora Texto/Leya, 2001.
A Obra Poética de T. S. Elliot
         A obra poética de T. S. Eliot não é de fácil compreensão. Alguns comentadores chegam a afirmar que foi um "poeta para literatos". Tal juízo, no entanto, não nos parece o mais correto. O autor de "A Terra Desolada" apenas não estava disposto a fazer concessões a certo tipo de leitor, que buscava na poesia um meio de entretenimento ou mesmo uma espécie de lenitivo; tinha a convicção de que deveríamos optar pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à  perdição. Como Kafka, acreditava que precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos magoem profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. Para Eliot, a poesia deveria ser um meio de despertar a consciência de uma sociedade que se contentava com os prazeres efêmeros de uma rotina medíocre. Daí a sua aversão à  bem-comportada poesia de salão, poesia tão ao gosto das madames do “five clock tea."
         A crítica tende a considerar a "Canção de amor de J. Alfred Prufrock", "Os Homens Ocos", "A terra desolada "e os "Quatro Quartetos "como as obras máximas de T. S. Eliot. Poemas como "Gerontion "e "Quarta-feira de cinzas", embora bem realizados, não atingem o nível estético nem a densidade filosófica dos quatro poemas acima elencados.
The Love Song of J. Alfred Prufrock (1915)
         Em 1915 Ezra Pound, editor da revista “Poetry”, recomendou a Harriet Monroe, fundadora da revista, que ela publicasse “The Love Song of J. Alfred Prufrock”. Embora Prufrock parecesse tratar-se de um homem na meia idade, Eliot escreveu a maior parte do poema quando tinha apenas 22 anos. Os seus hoje famosos primeiros versos, que comparam o céu ao entardecer com “a patient etherised upon a table” (algo como “um paciente anestesiado sobre a mesa.”) foram considerados chocantes e ofensivos, ainda mais numa época na qual a poesia Georgiana imperava, com suas derivações românticas do século XIX. O poema retrata uma experiência consciente de um homem, Prufrock, sob a forma de um “stream of consciousness” (figura de linguagem típica do modernismo, que consiste em mostrar por escrito o monólogo interior de um personagem). Prufrock lamenta sua inércia física e intelectual, as oportunidades que perdeu ao longo de sua vida e a falta de um progresso espiritual, recorrente de amor carnal que não conseguira atingir.
Os estudiosos não sabem dizer se o narrador sai de sua casa ao longo da narração, pois as localidades descritas podem ser interpretadas tanto como experiências reais, lembranças, ou mesmo imagens simbólicas do subconsciente, como por exemplo no refrão “In the room woman come and go / talking about Miguel Angelo“.
         A estrutura do poema foi imensamente influenciada por Dante Alighieri. Há ainda referências a Hamlet de Shakespeare e outras tantas obras literárias: essa técnica de alusão e citação foi muito usada em toda poesia posteriormente escrita por Thomas Stearns Eliot.
The Waste Land (1922)
         Em outubro de 1922, Thomas Eliot publicou “The Waste Land” no jornal “The Criterion”. Composto durante um período turbulento na vida do autor – seu casamento estava acabando, pois tanto ele quanto sua esposa Vivienne sofriam de uma desordem neural – este poema é muitas vezes lido como uma alegoria à desilusão experimentada pela geração pós-guerra. Mesmo antes de “The Waste Land” ser publicado como livro (em dezembro de 1922) Eliot já havia se distanciado da visão desesperadora do poema: “No que diz respeito a “The Waste Land”, esse poema ficará no passado, pois agora estou trabalhando com formas e estilos diferentes”, escreveu ele para Richard Aldington no dia 15 de novembro de 1922. A despeito da obscuridade do poema – que tem sátiras e profecias; mudanças abruptas de narrador, localidade e tempo; além de invocar uma vasta e dissonante gama de culturas e obras literárias – ele acabou se tornando referencial da literatura moderna, sendo considerado o reflexo poético de um romance publicada no mesmo ano: Ulysses, de James Joyce.
         Entre seus muito famosos versos estão “April is the cruellest month” (referência ao fato que abril é o mês de recomeçar a plantar, e não há colheitas na Europa), “I will show you fear in a handful of dust” e “Shantih shantih shantih”, (Sânscrito que deve ser lido pausadamente e de forma onamatopeica. Algo como “Xantir… Xantir… Xantir…”. Shantih significa “paz” e o sânscrito segue uma súplica pela paz).
         A obra de Eliot foi muito apreciada pelos poetas da geração de trinta. Em certa ocasião W.H. Auden leu em voz alta todo o poema durante um encontro social. A publicação do esboço do poema em 1972 mostrava uma grande influência de Ezra Pound sobre a sua forma final. A parte IV, “Death by Water”, fora reduzida de noventa e duas linhas para dez apenas, e com dez linhas foi publicado. Pound repreendeu Eliot por ter rasgado a maior parte do poema. Eliot o agradeceu por “incentivar-me a fazer as coisas do meu jeito”.
The Hollow Men (1925)
         Publicada em várias partes e com vários títulos diferentes, a versão final de “The Hollow Men” data de 3 de março de 1925. O poema faz referências a diversas obras do próprio Eliot e, embora tenha grande densidade literária, muitos críticos o consideram somente como um post scriptum de “The Waste Land”.
         Seu conteúdo é metafórico e de difícil interpretação, mas estudiosos dizem tratar-se de um poema que filosofa sobre os aspectos da mente humana num contexto ora social, ora religioso. Trata ainda dos medos humanos, considerando-os “more distant and more solemn/than a fading star” (mais distantes e solenes/que uma estrela cadente) e mostrando que mesmo nos sonhos é difícil visualizá-los sem temor. São estes medos “Eyes I dare not meet in dreams/In death’s dream kingdom” (olhos que temo encontrar em sonhos/e no reino de sonho da morte). Esses olhos são muito similarmente descritos aos olhos de Beatriz, em “A Divina Comédia”.
         Há ainda uma passagem que mostra um ritual dançante, “Here we go around the prickly pear” (andamos em torno da pêra espinhenta) que tem relação com os rituais missais, sendo a pêra a representação de um altar, sem ter portanto, centro exato, mas sendo o centro em si. O poema tem ainda grande musicalidade, com várias repetições e rimas eventuais.
Four Quartets (1943)
         O próprio Thomas Eliot considerava “Four Quartets” sua obra-prima, embora muitos críticos literários preferissem seus trabalhos anteriores.
         “Four Quartets” é baseado nos conhecimentos de Eliot nas áreas de misticismo e filosofia. O poema consiste de quatro poemas longos, que foram publicados individualmente: “Burnt Norton” (1936), “East Coker” (1940), “The Dry Salvages” (1941) e “Little Gidding” (1942), cada um deles dividido em cinco partes. Embora seja difícil fazer comparações entre eles, nota-se que cada um tem uma descrição geográfica da localidade em seus títulos, todos especulam sobre a natureza do tempo, seja ela teológica, histórica ou física, e sobre a influência exercida pelo tempo nos humanos.
         Além disso, cada um está associado a um elemento da antigüidade clássica: ar, terra, água e fogo, respectivamente. Eles se aproximam nas idéias, de forma variável porém intercalada. Os poemas não esgotam seu questionamento e nem obtêm respostas suficientes às perguntas feitas.
         “Burnt Norton” (ar) questiona de que adianta considerar o que podia ter sido e não foi. Há nele a descrição de uma casa abandonada, e Eliot brinca com a idéia que todas essas possíveis realidades estão presentes simultaneamente, mas invisíveis para nós: todas as formas de atravessar o jardim se transformam numa vasta dança que não podemos ver, e crianças que não estão ali se escondem nos arbustos. Burnt Norton é uma casa de campo situada em Cotswold Hills, na cidade de Gloucestershire, Reino Unido.
         “East Coker” (terra) continua a examinar o tempo e seu significado, mas agora focando também na natureza da linguagem e da poesia. Saído da escuridão, Eliot fortalece a sua idéia de solução: “I said to my soul, be still, and wait without hope” (algo como “Eu disse à minha alma: fique quieta, e espere sem esperança”). East Coker é uma pequena vila, no sul do Reino Unido.
         “The Dry Salvages” (água) trata do elemento água via imagens de rios e mares. Nesse poema, os opostos parecem se aproximar de forma impossível, como no barroco: “…the past and future/Are conquered, and reconciled” (algo como “…o passado e o futuro/são conquistados e reconciliados”). The Dry Salvages são um grupo de rochas com um farol para navios em Cape Ann, Massachusetts, como explicado no prefácio do poema.
         “Little Gidding” (fogo) é o mais antagonizado dos quartetos. As próprias experiências do autor como voluntário na equipe civil antiataque aéreo dão força ao poema, e ele se imagina encontrando com Dante no meio do bombardeio alemão. O cenário mostrado no começo dos quartetos (“Houses…/Are removed, destroyed” ou “Casas…/são removidas, destruídas.”) haviam se tornado uma experiência cotidiana, o que cria uma série de imagens, entre elas a do amor: a força condutora de toda a experiência. O quarteto acaba então com uma frase de Julian of Norwich: “all shall be well and/All manner of things shall be well.” ou “Tudo ficará bem e/todo tipo de coisa ficará bem”. Little Gidding é uma igreja localizada em Huntingdonshire, Reino Unido.
Old Possum’s Book of practical Cats (1939)
         É composto por quinze poemas com a temática “Gatos”. Cada um dos poemas conta a história em particular ou uma característica de um determinado gato. Eliot os escrevera ao longo da década de 1920 como presentes de aniversário para seus afilhados, herdeiros do dono da editora Faber & Faber. Os poemas são, no mais íntimo, metáforas com os testamentos da sociedade. Durante muito tempo os poema ficaram esquecidos dentro dos pertences dos afilhados, até que um deles já adulto, mexendo em velhos papéis, os encontrou e notou a grande possibilidade de publicá-los. Eliot, entretanto, ficou apreensivo com as críticas, pois considerava os poemas fracos e exclusivos para crianças. Uma semana antes da publicação mudou-se para uma vila no interior da Inglaterra, tamanho era o seu medo, mas, logo depois do lançamento em Londres, recebeu um telefonema do afilhado dizendo que o livro fizera o maior sucesso. Na década de 1970, já 10 anos após a morte de Eliot, o então jovem Andrew Lloyd Webber musicou alguns dos poemas e fez uma versão reduzida do musical Cats. A viúva de Eliot, Esme Valerie Eliot, após assistir essa prévia do musical, presenteou o jovem autor musical com rascunhos de um poema inacabado pelo falecido marido. Esse poema chamava-se Grizabella: The Glamour Cat, e foi determinante para a finalização do famoso musical, dando abertura para a composição Memory, gravada por mais de 170 artistas até hoje. Os quinze poemas que compõe o livro são:
The Naming of Cats; The Old Gumbie Cat; Growltiger’s Last Stand; The Rum Tum Tugger; The Song of Jellicles; Mungojerrie and Rumpleteazer; Old Deuteronomy; Of the Awefull Battle of the Pekes and Pollicles; Mister Mistoffelees; Macavity: The Mistery Cat; Gus: The Theatre Cat; Bustopher Jones: The Cat About Town; Skimbleshanks: The Railway Cat; The Ad-dressing of Cats; Cat Morgan Introduces Himself.
         Note o senso de humor no último poema, feito exclusivamente para finalizar o livro, na última estrofe:
         “So if yo ‘ave business with Faber – or Faber – I’ll give yu this tip, and it’s worth a lot more: You’ll save youself time, and you’ll spare yourself labour If jist you make friends with the Cat at the door. MORGAN.”
A Terra Desolada
Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam,
nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.
(Trecho de “Terra Desolada”, de T. S. Eliot. Tradução de Ivan Junqueira)
            Thomas Stearns Eliot (St. Louis, 26 de setembro de 1888 — Londres, 4 de janeiro de 1965) foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário britânico-norte-americano. Em 1948, ganhou o Prémio Nobel de Literatura.
            Membro de uma família puritana de origem britânica, naturalizou-se inglês e morou em Londres a partir dos 22 anos de idade. Em 1906, aos 18 anos de idade, seguiu para Boston para estudar em Harvard, onde se dedicou a estudar literatura e filosofia. Editou a revista universitária “The Harvard Advocate”, na qual publicou alguns trabaIhos. Após diplomar-se em letras clássicas, em 1909, foi a Paris, onde fez cursos de língua e literatura francesas, na Universidade Sorbonne. De volta a Harvard, voltou à filosofia e às letras, com ênfase na literatura sânscrita e na filologia indiana, o que o ocupou de 1911 a 1913.
            Em 1915 o poeta publica seu primeiro poema mais conhecido, The Love Song of John Alfred Prufrock, na revista Poetry, da cidade de Chicago, depois aproveitado por Pound em sua obra Catholic Anthology. Neste mesmo ano, Eliot contrai matrimônio com Vivienne Haigh-Wood. Lecionou no Highgate College, pequena escola para crianças nos arredores de Londres, mas depois o deixou para se tornar funcionário do Lloyds Bank Ltd., de Londres. Ele também atuou como editor-assistente do veículo Egoist, de 1917 a 1919, além de colaborar com outros impressos literários, entre eles The Athenaeum.
            Em 1917, publicou “Prufrock and Other Observations” (“Prufrock e Outras Observações”), obra ao mesmo tempo satírica e pessimista. Em seguida, começou a satirizar o passado da Europa com a coletânea “Poems” (1919; Poemas) e “The Waste Land” (1922; “A Terra Devastada”).
            Em 1920, um ano após a publicação de um pequeno estudo sobre Ezra Pound, ele reuniu, em “The Sacred Wood”, alguns de seus melhores textos críticos da juventude. Seu trabalho como crítico começou com o ensaio “The Metaphysical Poets” (1921), sobre a poesia de John Donne e outros metafísicos.
            Um de seus poemas mais famosos, The Waste Land, lançado em 1922, guardava vestígios da ascendência de Ezra Pound sobre a obra deste poeta, principalmente em seus esboços manuscritos. Esta publicação é considerada uma autêntica fonte de ensinamentos sobre a poética, e logo se torna um clássico, consagrando o autor nos meios literários, principalmente os de língua inglesa. Neste momento de sua existência, Eliot era descrito por seus companheiros como um verdadeiro britânico, no modo de agir, de se vestir, de pensar, fugindo do padrão inglês apenas no sotaque e na nacionalidade.
            Sua formação religiosa se manifestou nos livros seguintes: “Ash Wednesday” (1930; “Quarta-feira de Cinzas”) e, “Four Quartets” (1935-1943; “Quatro Quartetos”). O verso livre na obra de Eliot foi instrumento de uma renovação das estruturas formais. Publicou também “Homage to John Dryden” (1924; Homenagem a John Dryden), e colaborações na revista “The Criterion” (1922-1939).
            Na década de vinte, no pós-guerra, Eliot passa a freqüentar assiduamente a cidade de Paris, ao lado de vários outros artistas famosos desta época. O poeta Charles Baudelaire influencia definitivamente a obra de Eliot. Seu retrato da existência parisiense torna-se para o poeta norte-americano uma fonte de inspiração para sua própria reprodução da vida em Londres. Quando ele se torna membro da Igreja Anglicana, sua produção literária ganha contornos nitidamente religiosos e tradicionais, marcas que se refletem na tentativa de manter o inglês arcaico e certos valores cultivados na Europa. Eliot se tornou editor em 1923, quando assumiu a diretoria da Faber & Faber, à frente da qual se manteve até a morte. Este cargo lhe propicia a oportunidade de agir como um incentivador de estudos no campo da estética, um mecenas da moderna literatura de língua inglesa.
            Muito vinculadas à sua poesia, as obras para o teatro ganharam destaque com “The Rock” (1934; “O Rochedo”) e “Murder in the Cathedral” (1935; “Assassinato na Catedral”).
            Ele ganha, em 1948, o Prêmio Nobel de Literatura.
            Dez anos após se tornar viúvo, ele se casa novamente, em 1957, desta vez com Valerie Fletcher, sua secretária na Faber & Faber. Com o passar do tempo, ele se torna mais introspectivo, isolando-se gradualmente em Kensington, bairro de Londres onde residia. No dia 4 de janeiro de 1965, morre o poeta T S Eliot, na cidade que adotou em sua juventude, Londres.
Fontes:
Teatro de Ontem, de Hoje, de Sempre
O Cão Siamês
         Peça de Antônio Bivar lançada em 1969, na esteira do sucesso aberto por Cordélia Brasil, traz uma marcante interpretação de Yolanda Cardoso, que divide a cena com Antonio Fagundes, sob a direção de Emílio Di Biasi. A encenação é materialmente modesta, mas iluminada pelos intérpretes. Espetáculo cult, faz breve temporada e tem pouco público.
         A peça é centrada na figura de Alzira, uma explosiva outsider, crítica, bem informada, desbocada e irreverente, que atende a Ernesto, vendedor de enciclopédias que bate à sua porta. O rapaz, casado e com filhos pequenos, revela-se uma pessoa sem sonhos, conformado com sua vida modesta e sem perspectivas. O encontro entre figuras tão díspares produz um conflito: o anarquismo de Alzira triunfa, massacrando a racionalidade de Ernesto. Para Emílio Di Biasi, “Alzira é uma heroína marginal, já que ela faz a apologia de tudo o que vai contra os princípios do que se convencionou chamar sociedade. A sociedade absurda de Ernesto contra o absurdo mundo de Alzira. […] Ela se recusa a qualquer tipo de sentimentalismo pessoal e leva seu subconsciente violento até as últimas conseqüências”.
         Em 1970, o diretor Antônio Abujamra monta o texto no Rio de Janeiro, retrabalhado e aumentado por Bivar, com a mesma atriz e com Marcelo Picchi vivendo Ernesto. A encenação alcança grande sucesso e repercussão, rebatizada como Alzira Power, retorna posteriormente para São Paulo, onde faz longa carreira.
         A encenação carioca desperta vivo entusiasmo na crítica especializada, como anota Henrique Oscar no seu comentário: “O espetáculo de Abujamra está todo apoiado numa hábil direção de atores. Neste sentido, o rendimento obtido com Yolanda Cardoso é muito grande. Ela assume o papel com uma garra impressionante. Outro que se sai muito bem é o ator paulista Marcelo Picchi, em seu segundo desempenho profissional. Num papel que pede muito menos do intérprete do que sua parceira, ele tem um trabalho perfeitamente realizado, inclusive nos momentos mais perigosos que o texto lhe exige”.
         Antônio Bivar completa em seu livro detalhes peculiares sobre a montagem de Abujamra: “Tirando o Hair, onde todos ficavam nus, Alzira era novidade também por, além de ser uma peça que falava fundo às mulheres – como nenhuma peça brasileira até então (a personagem-título era uma libertária desvairada) – tinha, como sobremesa, a exibição demorada e ritualística de um rapaz pelado. Não estava no texto, era coisa da direção picárdica de Antonio Abujamra”.
         Yolanda Cardoso recebe, com este desempenho, todos os prêmios como melhor atriz do ano, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo.
Fonte:
Enciclopédia Itaú Cultural
Alberto Paco
Uma Estranha Mulher
O apelido dela era “peixeira”, mas o nome ninguém sabia, nem se preocupava em perguntar. Alta, magra e sisuda, tinha apenas trinta anos de idade, embora aparentasse muito mais.
Suas vestes eram pretas e longas, deixando aparecer somente os sapatos pretos e rasos de verniz. Completando sua indumentária, um lenço preto como as vestes, amarrado por baixo do queixo pontudo, cobria-lhe por inteiro a cabeça e as orelhas, sem deixar entrever o cabelo, que ninguém sabia qual era a cor.
Essa taciturna figura sobrevivia da venda de peixe, que uma camionete lhe entregava uma vez por semana. Daí provinha sua alcunha.
O diminuto casebre em que morava, na pequena aldeia encravada na encosta do rio Douro, na Província de Trás-os-Montes, em Portugal, tinha somente a porta de entrada e uma estreita janela, ambas confeccionadas com madeira grossa e pesada. A janela estava permanentemente fechada. A porta era entreaberta o suficiente para dar passagem à enigmática figura da “peixeira”.
Os curiosos, que formavam a totalidade dos moradores locais, esticavam os pescoços, querendo bisbilhotar o interior da diminuta moradia, que se resumia a um único cômodo de apenas dezesseis metros quadrados. As paredes eram constituídas de grossas e irregulares pedras, com espessura de no mínimo quarenta centímetros.
O telhado sem forro, de telhas velhas e desgastadas pelo tempo, era sustentado por vigas enegrecidas pela fumaça da fogueira que ardia em cima de grossa laje de cantaria, colocada em um dos cantos do casebre, à guisa de lareira.
No outro, canto uma cama de ferro, cujo estrado era formado por grossas tiras de borracha entrelaçadas, cobertas por um colchão de cor indefinida e recheado de palha de centeio.
Uma pequena mesa de madeira, de um metro quadrado, com uma banqueta feita de um tronco de árvore, colocadas no centro do cômodo por sobre o chão de terra batida, completavam a modesta mobília da estranha mulher.
O inverno naquelas paragens era rigoroso. Os aldeões se preveniam para os dias mais frios, carregando grande quantidade de lenha apanhada nas matas que circundavam a aldeia.
A “peixeira” seguia o exemplo dos outros moradores, apenas com uma diferença. Os camponeses carregavam a lenha em barulhentos e desengonçados carros puxados por parelhas de bois ou em feixes amarrados sobre o lombo dos burricos. Enquanto isso, a pobre mulher, que nada tinha de seu, carregava os pesados fardos na cabeça, percorrendo a grande distância a pé, entre seu humilde barraco e o local onde se abastecia de lenha.
Certa manhã, fria e cinzenta de fim de outono, a esguia “peixeira” pegou seu podão, um pedaço de corda grossa e dirigiu-se para o extenso e cerrado matagal. Com a afiada ferramenta cortou boa quantidade de galhos secos e amarrou-os com a corda. Retesando seus magros e longos braços, ergueu o pesado feixe de lenha, colocou-o na cabeça e dirigiu-se ao estreito caminho que trilharia de volta para casa.
Ao pular o pequeno regato de água cristalina que cortava o caminho entre dois muros de uma propriedade rural, sentiu um líquido quente escorrer por suas coxas.
Pousou o pesado fardo de lenha sobre um dos muros que ladeavam o caminho e agachou-se ao lado do riacho.
Arregaçou a longa saia e abriu as pernas, ficando à espera de que um ser vivo saísse de seu ventre.
Após algumas contrações, fez um violento esforço e finalmente nasceu um saudável menino.
Pegando o podão que carregava na cintura, cortou o cordão umbilical. Lavou o recém-nascido na água fria do regato, embrulhou-o em seu grosso xale preto e amarrou-o contra o peito para aquecê-lo.
Carregou novamente o feixe de lenha na cabeça e caminhou lentamente em direção de seu mísero casebre.
A coragem e o esforço sobre-humanos daquela enigmática mulher foram admirados e respeitados por todos os moradores da pequena localidade.
As piedosas esposas dos aldeões puderam finalmente adentrar o casebre da “peixeira”, levando-lhe roupas e alimentos, enquanto os maridos levavam montes de lenha para o inverno que se aproximava.
Entretanto, ninguém ficou sabendo quem era o pai daquela criança, porque a “peixeira” nunca fora vista na companhia de nenhum homem. Apesar das perguntas diretas formuladas pelas matronas da aldeia, ela nunca lhes satisfez a curiosidade.
O garoto cresceu saudável, brincando com as outras crianças do lugar. Era esperto e comunicativo.
Um dia, após atingir cinco anos de idade, grudou-se nas pernas de um policial chamando-o de pai. Dali por diante, qualquer homem fardado que passasse por perto era cercado pelo garoto, que se agarrava nas pernas dele gritando: Pai! Pai! Pai!
Na pequena aldeia onde nada acontecia, aquilo serviu de especulações maldosas, ocasionando até desavenças entre os poucos policiais do lugar e suas esposas. Com o tempo tudo ficou no esquecimento. Nas poucas vezes em que ainda se comentava o assunto, o gesto do garoto era atribuído à maldade de algum gaiato que incutiu na mente da criança aquela estranha mania, para causar desavença entre os moradores.
A “peixeira” continuou por muitos anos sua vida simples, vendendo seu peixe e cuidando do filho, sem nunca revelar quem era o pai dele.
Fontes:
Olga Agulhon e Eliana Palma (organizadoras). VI Coletânea 2011, da Academia de Letras de Maringá. Maringá: ALM, 2011.
Imagem:http://www.iplay.com.br/Imagens/Divertidas/0Ink/Mulher_Carregando_Enormes_Peixes_Amarrados_Sobre_A_Cabeca
Alberto Paco
O Escritor em Xeque
Entrevista virtual realizada por José Feldman, em 15 de fevereiro de 2010
         Alberto Paco, contabilista, empresário e escritor. Nasceu em Vilarinho dos Galegos – Portugal. Com vinte e dois anos chegou no Brasil para ficar residindo em caráter permanente. Em 2001 lançou seu primeiro romance que foi escrito entre 1958 e 1959, logo após sua chegada ao Brasil. Assumiu a cadeira de número 23 da Academia de Letras de Maringá ocupando o cargo de tesoureiro. Desde a posse escreveu mais oito livros sendo um de contos, um de poesias e seis romances. Além de membro da ALM é membro da UBT-Maringá, e do Elos Clube Maringá. Cadeira n. 25 da Academia de Letras do Brasil/Paraná, cujo patrono é Jorge Amado.
JF: Conte um pouco de sua trajetória de vida, onde nasceu, onde cresceu, o que estudou.
AP: Nasci no pequeno vilarejo de Vilarinho dos Galegos, distrito de Mogadouro, na Província de Trás-os-Montes. Ali vivi meus primeiros onze anos. Completei o quarto ano primário, único estudo existente naqueles lugares longínquos. Com essa idade mudei com a família para Lagoaça, uma aldeia um pouco maior que a primeira, mas com as mesmas necessidades. Com doze anos fui morar na cidade do Porto onde me formei em Contabilidade enquanto trabalhava. Com vinte e dois vim morar no Brasil em caráter permanente.
JF: Como era a formação de um jovem naquele tempo? E a disciplina, como era?
AP: Meu pai era militar. Impunha aos filhos o regime do quartel, mas nos ensinou a respeitar os outros e principalmente a ler. Não admitia erros de português.
JF: Quais livros foram marcantes antes de começar a escrever?
AP: O ano que passei na aldeia de Lagoaça, entre os onze e doze anos, recebi diversos livros de presente. Eram obras famosas de diversos autores. Acredito que aí começou minha ligação com a escrita. Lia esses livros e viajava com os personagens pelo mundo da fantasia.
JF: Fale um pouco sobre sua trajetória literária. Como começou a vida de escritor?
AP: Ao chegar em São Paulo no ano de 1958 entrei a serviço de grande empresa multinacional no setor de contabilidade. Lá publicavam um jornal mensal com a tiragem de trinta mil unidades distribuídas pelos funcionários das diversas filiais espalhadas pelo Brasil. Um dos editores, vendo que eu gostava de leitura porque nas horas vagas estava sempre com algum livro em mãos, me convidou a participar do jornal com algum artigo. Escrevi uma poesia que foi publicada e daí por diante, durante os dois anos que permaneci na empresa sempre era publicado algum trabalho de minha autoria. Foi nessa época que escrevi o meu primeiro romance.
JF: Você encontra muitas dificuldades em viver de literatura em um país que está bem longe de ser um apreciador de livros?
AP: São muitos os apreciadores de livros no Brasil, porém poucos têm acesso ao preço que custam. Por isso são raros os que vivem de literatura. Somente alguns privilegiados pela mídia ou então autores estrangeiros, priorizados pelas editoras nacionais.
JF: Como começou a tomar gosto pela escrita?
AP: Como disse quando falei de minha infância, comecei a ler obras famosas de aventuras, de amores intensos e policiais. Continuei sempre preferindo esses estilos e daí surgiu minha tendência por esse tipo de literatura.
JF: Como definiria seu estilo literário?
AP: Meu estilo literário é simples e objetivo. Evito fazer “rodeios” para não cansar o leitor nem desviar sua atenção da história. Meus romances são do estilo que sempre gostei de ler, mas com meu próprio estilo sem imitar ninguém. Digamos uma mistura de todos.
JF: Quais foram os seus livros escritos ?
AP: Entre 1958 e 1959 escrevi meu primeiro romance. Somente quarenta anos depois voltei a escrever. Em todo esse período que fiquei afastado da escrita continuei lendo muito, mas os afazeres eram tantos, envolvido com diversas atividades, principalmente a monetária para dar um futuro digno aos familiares que foram surgindo ao longo do caminho, que não houve tempo para continuar escrevendo.
         Finalmente no ano de 2001 publiquei aquele livro de quarenta anos atrás. Com essa publicação fui convidado a entrar para a Academia de Letras de Maringá e daí por diante recomecei minha trajetória literária.
Meus livros publicados são
“O homem do rio” romance (escrito em 1958) publicado em 2001“
“No coração do vulcão” Romance de aventuras publicado em 2002
“Caminhos…” Poesias Publicado em 2002
“Presídio feminino” Romance policial Publicado em 2003
“Conjugando o verbo trair” Romance publicado em 2007
“As amantes de Carolino” Romance publicado em 2007
“ Focos de fogo” Contos Publicado em 2007
“Mãe solteira” Romance
JF: Dentre os seus livros escritos , qual te chamou mais atenção? E por quê?
AP: O livro de minha autoria que mais gosto é o romance “Mãe solteira” porque é extraído de um caso real. Mostra a incompreensão de alguns pais com esse tabu que dá nome ao livro. Felizmente esse preconceito aos poucos vai sendo anulado.
JF: Que acha de sua obra?
AP: Sou suspeito de falar de minha obra. Deixo isso para meus leitores. No entanto, digo que gosto muito de tudo que escrevo.
JF: Qual a sua opinião a respeito da Internet? A seu ver, ela tem contribuído para a difusão do seu trabalho?
AP: Em minha opinião, a internet é um meio rápido e eficiente de se tomar conhecimento de tudo (bom e ruim), mas como divulgação de livros de tamanho razoável, deixa um pouco a desejar. Acho que os reais adeptos da leitura gostam mais de manusear as páginas do livro do que acionar o mouse. É mais prazeroso.
JF: Você precisa ter uma situação psicologicamente muito definida ou já chegou num ponto em que é só fazer um “clic” e a musa pinta de lá de dentro? Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ?
AP: A criação literária existe dentro da minha mente. Simplesmente aflora sem muito esforço. Gosto de escrever de noite, quando reina o silêncio. Costumo rascunhar meus escritos durante a madrugada. Os personagens e os acontecimentos vão surgindo e passo-os rapidamente para o papel. Quando a obra termina é que passo a corrigir tudo, mas a história já esta delineada.
JF: Você acredita que para ser escritor basta somente exercitar a escrita ou vocação é essencial?
AP: Acredito que a vocação é essencial, mas é necessário ler muito porque vocação sem conhecimento não leva a lugar nenhum.
JF: Como é que você concebe suas obras?
AP: O momento de escrever um livro às vezes surge de uma conversa com alguém que nos conta uma história. A partir daí, modela-se o que nos foi contado, acrescentam-se fatos e personagens e a obra surge.
JF: Quanto tempo você leva para escrever um livro?
AP: Alguns livros são escritos em dois meses, mas para lhe dar forma aceitável demoram mais quatro ou cinco. È necessário uma revisão perfeita tanto nos textos quanto na gramática, então leio e reviso cinco ou seis vezes.
JF: Como foi o processo de pesquisa para a escrita de seus livros?
AP: Minhas histórias são fictícias. Entretanto pesquiso com muito cuidado os lugares a que me refiro para evitar que algum leitor que porventura conheça esses lugares me conteste. As pesquisas são feitas geralmente na internet ou em enciclopédias em que as informações são mais antigas.
JF: No processo de formação do escritor é preciso que ele leia porcaria?
AP: Acredito que devemos ler de tudo um pouco. O que não devemos é seguir o exemplo dos que escrevem porcarias. Em minha opinião, porcaria é uma história insípida com começo incompreensível, meio que nada diz e fim sem final definido.
JF: Existe uma constelação de escritores que nos é desconhecida. Para nós, a quem chega apenas o que a mídia divulga, que autores são importantes descobrir?
AP: Na época atual acredito que há quase tantos escritores quanto leitores. Existem pessoas que juntam algumas receitas caseiras, formam um livro e publicam. Porque essas pessoas são famosas em outra atividade, a mídia já as considera escritores. Outras, que escrevem obras interessantes, mas não têm acesso aos meios midiáticos, suas obras, muitas vezes verdadeiras pérolas literárias, ficam para sempre escondidas no fundo do baú.
JF: Na sua opinião, livro ou livros da literatura da língua portuguesa deveriam ser leitura obrigatória?
AP: A leitura obrigatória não deveria existir, mas ser mais abrangente. Deveriam dar mais opções de escolha aos jovens, para que cada um seguisse suas tendências.
JF: Qual o papel do escritor na sociedade?
AP: O papel do escritor é marcante na sociedade porque apesar da pouca divulgação da literatura, ainda consegue prender atenção de muita gente que sente prazer na leitura.
JF: Há lugar para a poesia em nossos tempos?
AP: A poesia é e será sempre uma peça importante na literatura mundial. Muitos leitores têm pouco tempo disponível para ler um romance, que deve ser lido com o menor tempo de interrupção para se assimilar a história. No livro de poesias podem ser lidas uma ou duas páginas, colocá-lo de lado e retomar a leitura muito tempo depois, sem ter perdido nenhuma sequência.
JF: Tem prêmios literários?
AP: Algumas trovas premiadas em diversos setores da União Brasileira de Trovadores da qual faço parte. Por opção, não costumo concorrer a prêmios literários.
JF: O que te choca ?
AP: O que me abala profundamente é ver jovens alunos serem aprovados e passar de ano sem os mínimos conhecimentos de escrita ou leitura. É uma falha dos dirigentes que vai refletir mais adiante. O ensino está decadente.
JF: O que lê hoje em dia?
AP: Leio muito e sempre. Acabei de ler “O caçador de pipas”, um romance que fala sobre as vidas de pessoas espezinhadas por regimes autoritários e desumanos.
JF: Você possui algum projeto que pretende ainda desenvolver?
AP: Meu projeto maior é continuar escrevendo, tentando sempre melhorar. Existem outros projetos que por enquanto não vejo necessidade de divulgar.
JF: De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização?
AP: A globalização é muito importante para a cultura popular porque aumenta a possibilidade de todos expandirem seus conhecimentos. Tudo se torna mais acessível.
JF: Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever?
AP: Diria para ler muito e analisar bem o que escreve antes de mostrar seus escritos ao público leitor, mas não pare nunca de escrever seja o que for. Escrever é um dom de Deus que não pode ser desperdiçado.
JF: O que é preciso para ser um bom poeta?
AP: Bom poeta é todo aquele que escreve poesia. Cada um tem seu gênero e cada leitor gosta de um tipo. O campo é vasto, porém deve existir certa coerência para não escrever patacoadas.
JF: E para encerrar a entrevista
Se Deus parasse na tua frente e lhe concedesse três desejos, quais seriam?
AP: Meu primeiro desejo seria que a paz reinasse entre os homens.
O segundo que a fome e a miséria fossem erradicadas da face da terra.
Finalmente que a Literatura fosse mais divulgada com incentivos para que os menos favorecidos tivessem acesso constante e garantido aos livros de sua preferência.
Marcelo Spalding 
História da leitura
(I): As tábuas da lei e o rolo
         Poucas gerações testemunharam tantas mudanças tecnológicas como a nossa, esta que agora ocupa os bancos universitários, as redações de jornais e revistas, as diretorias das grandes empresas, esta geração que cresceu lendo livros impressos e agora resiste à ideia de novos suportes para a leitura.
         Tal aceleração por vezes nos faz esquecer que inovações técnicas, ainda que num ritmo mais lento, ocorrem desde que o homem é homem e foram fundamentais para que um ser frágil como o nosso pudesse sobreviver num ambiente hostil e perigoso como a Terra. Leroi-Gourhan chega a afirmar que, pela liberação da mão e pela exteriorização do corpo humano, "a aparição do homem é a aparição da técnica; é a ferramenta, isto é, a tekhnè, que inventa o homem, e não o homem que inventa a técnica".
         Transpondo essa afirmação para a história da leitura, poderíamos dizer que são as técnicas de reprodução da escrita que inventam o leitor, e não o leitor que inventa tais técnicas, o que significa que os suportes digitais de leitura não são feitos para a geração acostumada com os códices impressos, e sim irá engendrar um novo leitor familiarizado com as novas tecnologias. Tal transformação, ainda que violenta, não é exatamente inédita na longa história da leitura.
         Robert Darnton, em A questão dos livros, identifica quatro mudanças fundamentais na tecnologia da informação desde que os humanos aprenderam a falar: a invenção da escrita, a substituição dos rolos de pergaminho pelo códice, a invenção da imprensa com tipos móveis e, finalmente, a comunicação eletrônica.
         A invenção da escrita, vale lembrar, é tida pelos historiadores como marco de transição entre a Pré-História e a Idade Antiga, ou Antiguidade, o que revela a absoluta importância da escrita para o desenvolvimento da nossa civilização. Não há consenso entre os historiadores sobre a data ou o local do surgimento da escrita, o mais provável é que sua invenção tenha se dado em vários lugares do mundo de forma independente a partir do momento em que as transações e a administração dos povos se torna mais complexa, além das possibilidades da memória.
         Um mito narrado por Platão mostra o quão difícil foi essa substituição da memória pela escrita: Thoth, um deus egípcio criador da escrita, dos números, do cálculo, da geometria, da astronomia e dos jogos de damas e dados, leva seus inventos a Tamuz, rei de Tebas, esperando que eles possam ser ensinados aos egípcios; a escrita, segundo seu inventor, tornaria os homens mais sábios, fortalecendo-lhes a memória. Comenta Thoth: "com a escrita inventei a grande auxiliar para a memória e a sabedoria", a que responde Tamuz:
         Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal cousa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.
         A escrita, naturalmente, com o tempo mostrou-se fundamental não apenas como auxiliar para a memória, mas também para materializar um conteúdo que não pode dispersar-se, como o conhecido Código de Hamurábi, datado do século XVIII a.C.. O Código de Hamurábi é um monumento monolítico talhado em rocha de diorito sobre o qual se dispõem 46 colunas de escrita cuneiforme acádica. Seu texto expõe as leis e punições caso não sejam respeitadas, legislando sobre matérias muito variadas. Embora houvesse outros códigos entre os sumérios, que viveram entre 4000 a.C. a 1900 a.C. na Mesopotâmia, o Código de Hamurábi foi o que chegou até os dias atuais de forma mais completa e simboliza bem, num tempo de bits efêmeros, a importância da palavra talhada na solidez de uma rocha milenar.
         Da mesma época são os Dez Mandamentos entregues a Moisés no Monte Sinai, uma das mais contundentes passagens bíblicas: "Então disse o SENHOR a Moisés: Sobe a mim ao monte, e fica lá; e dar-te-ei as tábuas de pedra e a lei, e os mandamentos que tenho escrito, para os ensinar".
         Apesar da importância desses códigos escritos em rochas sólidas, a escrita não teria se tornado marco zero da história da humanidade não houvesse um suporte capaz de facilitar seu manuseio e transporte, o que tornou a escrita um código com fins muito mais amplos do que, por exemplo, as pinturas ruprestes feitas nas cavernas pelos homens ditos pré-históricos.
         O papiro, desenvolvido no Egito por volta de 2500 a.C., é hoje considerado o primeiro suporte para a escrita. Para confeccionar o papiro, era cortado o miolo esbranquiçado e poroso do talo em finas lâminas. Depois de secas, estas lâminas eram mergulhadas em água com vinagre para ali permanecerem por seis dias, com propósito de eliminar o açúcar. Novamente secas, as lâminas eram dispostas em fileiras horizontais e verticais, sobrepostas umas às outras. A seguir as lâminas eram colocadas entre dois pedaços de tecido de algodão, sendo então mantidas prensadas por mais seis dias. Com o peso da prensa, as finas lâminas se misturavam homogeneamente para formar o papel amarelado, pronto para ser usado. O papiro pronto era, então, enrolado a uma vareta de madeira ou marfim para criar o rolo que seria usado na escrita.
         Embora a palavra grega biblos signifique hoje tanto rolo quanto livro, a leitura nesse rolo é muito diferente da leitura de um livro como hoje o conhecemos. O rolo é uma longa faixa de papiro - ou, mais tarde, de pergaminho - que o leitor deve segurar com as duas mãos para poder desenrolá-la, fazendo aparecer trechos distribuídos em colunas. Não é possível, por exemplo, que um autor escreva ao mesmo tempo que lê.
         Os rolos, criados posteriormente à invenção da escrita e, naturalmente, por causa dela, foram fundamentais para o que hoje chamamos de literatura, pois os textos gregos da época de Sócrates, Platão e Aristóteles, Ésquilo, Sófocles e Eurípedes se tornaram a base da cultura Ocidental e puderam sem preservados em locais específicos para este fim, como a lendária Biblioteca de Alexandria.
         A Biblioteca de Alexandria, uma das maiores bibliotecas do mundo antigo, foi fundada no início do século III a.C. por Alexandre, o Grande, que teve como tutor ninguém menos que Aristóteles, e existiu até a Idade Média, quando foi totalmente (ou quase) destruída por um incêndio casual. Calcula-se que havia mais de quinhentos mil rolos na Biblioteca de Alexandria, mas como uma obra podia ocupar, sozinha, dez, vinte, até trinta rolos, havia um número de obras muito menos significativo. Segundo Chartier, só o catálogo da biblioteca era constituído de cento e vinte rolos.
         À medida que a escrita foi ganhando em importância e valor, outro suporte, que embora mais caro era menos quebradiço e resistia melhor ao tempo, passou a ser muito utilizado nas confecções dos rolos: o pergaminho. O pergaminho é um material feito da pele de um animal (geralmente cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha) e especialmente fabricado para se escrever sobre ele. A origem do seu nome é a cidade de Pérgamo, onde havia uma produção vasta e de grande qualidade deste material, e há controvérsia se sua origem remonta mesmo a esta cidade. De qualquer forma, na Biblioteca de Pérgamo, contemporânea a de Alexandria, os rolos em papiro eram copiados em pergaminho, e este material foi fundamental para a preservação dos textos da Antiguidade.
         Carrière e Eco, em Não contem com o fim do livro, contam que Régis Debray, filósofo francês, perguntou-se o que teria acontecido se os romanos e gregos tivessem sido vegetarianos: "não teríamos nenhum dos livros que a Antiguidade nos legou em pergaminho, isto é, numa pele de animal curtida e resistente" (2010, p. 104).
Marcelo Spalding é formado em jornalismo e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, editor do portal Artistas Gaúchos, autor dos livros 'As cinco pontas de uma estrela', 'Vencer em Ilhas Tortas', 'Crianças do Asfalto', 'A Cor do Outro' e 'Minicontos e Muito Menos', membro do grupo Casa Verde e colunista do Digestivo Cultural. Recebeu o Prêmio AGES Livro do Ano 2008 pelo livro 'Crianças do Asfalto', categoria Não-Ficção, e o Prêmio Açorianos de Literatura em 2008 pelo portal Artistas Gaúchos.
Fábulas sem Fronteiras
México
Ti, o Pica-pau Avisador
         Conto inspirado numa lenda do povo Tzeltal, de Chiapas, no México, adaptado por Ana Maria Machado.
        
         Antigamente, quando o senhor Santo Ildefonso andava por aqui fazendo os trabalhos de Deus na Terra, ficava temeroso de que acontecesse alguma coisa aos filhos quando estivesse longe. Por isso, encarregou o pica-pau Ti de ficar tomando conta deles e avisá-los dos perigos.
         O passarinho passou a fazer isso muito bem. Por qualquer coisa, voava para junto dos meninos, pousava no ombro de um deles e cantava:
         — Ti-ti-ti-ti…
         Eles já sabiam. O passarinho não estava só dizendo seu nome. Estava era avisando de algum risco. Então, tomavam cuidado e se defendiam. Por isso, nunca tinham problemas.
         Santo Ildefonso ficou muito satisfeito. Para recompensar o passarinho Ti, fez que ele tivesse uma plumagem bonita. E também o ajudou para que nunca lhe faltasse comida. Ensinou-o a bater com o bico na casca das árvores, cavando buraquinhos para poder pegar as lagartas e outros insetos que se escondessem lá dentro.
         Então, o passarinho passava os dias nas árvores apanhando comida para os filhotes:
         — Toque-toque-toque…
         Mas, quando era preciso avisar os filhos de Santo Ildefonso, já se sabe. O pássaro Ti ia lá, pousava no ombro de um deles e cantava:
         — Ti-ti-ti-ti…
         E eles se preveniam contra os problemas.
         O pica-pau fazia seu trabalho tão bem que o santo resolveu ser generoso e dividir os avisos de perigo com todo mundo. Disse ao passarinho:
         — Ti, você agora fica encarregado de voar por perto das estradas e veredas, avisando aos caminhantes quando houver algum perigo. Assim, eles podem se cuidar.
         O pássaro Ti passou a fazer isso, sempre muito bem. Pousava no ombro de quem passava e cantava:
         — Ti-ti-ti-ti…
         Era só o caminhante tomar cuidado e não acontecia nada de mau.
         Mas os filhos do senhor Santo Ildefonso não gostaram nada da novidade. Não queriam dividir com ninguém os avisos do pica-pau. Por isso, um dia, quando Ti chegou, os meninos cuspiram nele.
         O passarinho voou até a casa onde estava Santo Ildefonso e contou:
         — Senhor santo, veja só o que seus filhos me fizeram. Maltrataram-me e cuspiram em mim. E cuspe de gente deixa passarinho manchado. Olhe só como minhas penas ficaram todas salpicadas de saliva.
         Santo Ildefonso olhou e disse:
         — Não posso fazer nada para consertar sua plumagem. Mas vou castigar meus filhos. De hoje em diante, eles não vão mais se livrar de nenhum perigo e vão ter muitos problemas. E você pode cuidar só da sua vida e de seus filhotes. Nunca mais precisa avisar ninguém de nada.
         Por isso, até hoje, o pica-pau Ti tem as penas bonitas, mas sarapintadas. E sabe muito bem procurar comida debaixo da casca das árvores.
         Por isso, também, as pessoas correm riscos e têm problemas. Mas, às vezes, o passarinho se lembra de seus tempos de avisador e canta, embora nunca mais tenha pousado no ombro de ninguém. E até hoje, pelas estradas de Chiapas, o caminhante atento e devoto toma cuidado quando ouve o pica-pau Ti no meio de uma viagem, pois sabe que pode ter contratempos pelo caminho.
Fonte:
Revista Nova Escola
Estante de Livros
Eça de Queirós
O Crime do Padre Amaro
Eça é considerado o melhor ficcionista do Realismo português e, também, enquadrado como naturalista pela ênfase às teses cientificistas da época.
Sua ficção fecunda procurou fazer um verdadeiro estudo da sociedade portuguesa de seu tempo. Adotou o Realismo no que este tem de análise da sociedade. Sem sair dessa orientação, demonstrou desencanto com a civilização técnica que evoluía. Foi quando criou o personagem Fradique Mendes, um gozador da vida, completamente desligado de preocupações coletivas.
À medida que foi amadurecendo em sua arte literária, Eça se aperfeiçoou na apresentação de tipos e grupos típicos, exatamente linha de Flaubert, realista, e Zola, naturalista.
O denominador comum de toda a sua ficção foi a crítica dos princípios burgueses que dominavam seu país. A família e a Igreja, por exemplo, foram duramente atacadas por ele, não por si mesmas, mas pela mentalidade burguesa que as dominava. Para isso, serviu-se dos fatos observados tanto no relacionamento diário dos compatriotas, quanto nos acontecimentos nacionais e internacionais que ele soube interpretar com lucidez.
Além de descomplicar a sintaxe, tornou os diálogos bem naturais, recorrendo a termos populares. Muitas vezes usou o discurso indireto livre, no qual o autor reproduz a fala dos personagens com fidelidade, sem a forma do diálogo direto.
Para quebrar a monotonia do estilo documental, introduziu situações meio fantásticas, caricaturas de tipos, personagens com ar de aparições, cenas melodramáticas, mas sempre com moderação.
Além de tudo isso, sua ficção se revela não propriamente como realidade, mas como humor, como subjetividade desmascarada. É o toque da ironia.
Principais romances: Os Maias – O crime do Padre Amaro – O Primo Basílio – A Capital – A ilustre Casa de Ramires – A Cidade e as Serras – Correspondência de Fradique Mendes.
PERSONAGENS
PADRE AMARO VIEIRA: de origem pobre, aos 6 anos órfão de pai e de mãe, foi educado na casa de uma marquesa viúva, de quem seus pais tinham sido empregados domésticos; como padre muito jovem, nomearam-no vigário de Leiria, sede de bispado, por ser protegido do Ministro da Justiça.
CÔNEGO DIAS: padre idoso, rico, influente, morador de Leiria, conselheiro e confidente do Pe. Amaro, de quem tinha sido professor de Moral no seminário; amante não declarado de D. Augusta Caminha, conhecida como S. Joaneira.
S. JOANEIRA: viúva pobre, cuja residência era um ponto de encontro de padres para se divertirem; alugava quartos de sua casa para hóspedes.
AMÉLIA: filha única da S. Joaneira, bonita, solteira, morava com a mãe; desde menina era muito ligada aos padres freqüentadores da sua casa.
JOÃO EDUARDO: rapaz humilde, solteiro, escrevente de tabelião, apaixonado por Amélia, de quem chegou a ser noivo.
D. JOSEFA: solteirona, irmã do Côn. Dias, com quem morava.
D. MARIA ASSUNÇÃO: beata rica.
CONDE DE RIBAMAR: pessoa influente junto ao governo, casado com uma das filhas da marquesa que criou Amaro.
LIBANINHO: beato fofoqueiro, efeminado.
ENREDO
Por decisão da marquesa que o educara na infância, Amaro seria padre.
Dois anos antes de ir para o seminário, ele passou a morar na casa de um tio pobre, que o punha para trabalhar. Não desagradava àquele adolescente de educação desfibrada a idéia de vir a se tornar padre, embora não tivesse sido consultado. O período sofrido na casa do tio o animou a ingressar no seminário, ainda que fosse somente para ficar livre daquela vida.
Às vésperas, porém, de mudar-se para o seminário, já não estimava tanto a idéia: tinha vontade de estar com as mulheres, de abraçar alguém, de não se sentir só. Julgava-se infeliz e pensava em matar-se. Às escondidas, na companhia de colegas, fumava cigarros. Emagrecia, andava meio amarelo. Começava a sentir desânimo pela vida de padre, porque não poderia casar-se.
No seminário, isolados da cidade e da convivência com estranhos, Amaro e seus colegas, na maioria não vocacionados para o sacerdócio, viviam tristemente. Como se fossem prisioneiros, eles invejavam os que viviam fora, com a imaginação aguçada pela diligência que viam passar todas as tardes numa curva da estrada.
Amaro não deixara muita lembrança boa para trás. Mesmo assim, tinha saudades dos passeios, da volta da escola, das vitrines das lojas, onde parava para apreciar a nudez das bonecas.
Lentamente, com sua personalidade fraca, adaptou-se ao seminário como uma ovelha conformada do rebanho. Os colegas eram de vários tipos, todos com o ideal de, saindo do seminário como padres ou não, comer bem, ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.
Amaro não desejava nada, mas, influenciado pelos que queriam até fugir do seminário, ficava nervoso, perdia o sono e desejava as mulheres. Na imagem de Nossa Senhora que havia em sua cela via apenas uma linda moça loura, desejada sexualmente, pecado que ele nunca contou no confessionário. A disciplina do seminário deu-lhe hábitos maquinais; interiormente, porém, os desejos sensuais moviam-se como um ninho de serpentes imperturbadas. Ele quase invejava os colegas estudiosos: ao menos eles estavam contentes e eram respeitados. No entanto, nunca conseguiu ser um deles. Era piedoso, rezava, tinha fé ilimitada em certos santos e um terror angustioso de Deus; mas odiava a clausura do seminário.
Logo depois de ordenado padre, Amaro ficou sabendo que a marquesa havia morrido e não deixara herança nenhuma para ele.
O novo padre foi nomeado para Feirão, região muito pobre, de pastores, quase desabitada. Ficou lá um tempo, cheio de tédio. Indo a Lisboa, procurou a Condessa de Ribamar, uma das filhas da marquesa que o educara. Ela lhe prometeu interceder por ele junto a ministro amigo do conde, seu marido. Uma semana depois, Amaro estava nomeado para Leiria, sede de bispado, apesar de ser padre novo – o ministro intercedera junto ao bispo.
Orientado pelo Côn. Dias, o novo pároco foi morar na casa da S. Joaneira, contrariando a opinião do coadjutor – padre auxiliar, pessoa de respeito, mas sem influência – o qual havia ponderado que isso seria imprudente por causa de Amélia, poderia haver comentários maliciosos. O quarto do Pe. Amaro ficava no térreo, exatamente embaixo do quarto de Amélia, cuja movimentação ele podia ouvir nitidamente.
Na noite do primeiro dia de Amaro na casa da S.Joaneira, ela reuniu algumas velhas, João Eduardo e o Cônego Dias. Jogaram o lote. Por coincidência, Amaro e Amélia, sentados lado a lado, quinaram. O jovem padre ficou impressionado com a moça. Depois que todos saíram e os de casa se deitaram, Amaro foi buscar água na cozinha e viu Amélia de camisola. Ela se escondeu, mas não o censurou. No quarto, nervoso, atormentado pela visão de Amélia, Amaro não conseguiu rezar nem dormir.
Amélia também não dormiu logo e ficou recordando sua vida. Não chegou a conhecer o pai, militar, que morreu novo. Com 15 anos de idade, ela teve a primeira experiência de ser amada e de amar, quando passou umas férias na praia. Na véspera de o rapaz partir, ele a beijou sofregamente, às escondidas. Algum tempo depois, já em Leiria, ela soube que ele ia se casar com outra. Triste e acreditando não voltar mais a ter alegria, Amélia tornou-se uma beata e pensou em se fazer freira. Por esse tempo, o Côn. Dias e sua irmã Josefa começaram a freqüentar a casa em que Amélia morava. Falava-se muito da ligação do cônego com a mãe dela. Aos 23 anos, a moça conheceu João Eduardo, que chegou a falar em casamento, mas ela quis esperar até que o rapaz obtivesse o lugar de amanuense, a ele prometido.
Amaro estava se sentindo bem em sua rotina: celebrava a missa cedo para um grupo de devotas; à tarde e à noite deliciava-se na companhia doméstica da S. Joaneira e, sobretudo, de Amélia. Atraídos um pelo outro, estavam liberando os sentimentos. Na presença do noivo, porém, a moça nem olhava para o padre, o que lhe causava ciúmes.
Numa tarde, Amaro chegou sem ser esperado e flagrou o Cônego Dias na cama com a S. Joaneira. Ficou surpreso e saiu sem ser notado. Em contato com outros padres, ficou sabendo que eles tinham casos com mulheres.
Aos poucos, Amaro e Amélia começaram a demonstrar, um para o outro, seu envolvimento emocional. Ela se tornou totalmente apaixonada: acompanhava-o com os olhos sempre e, quando ele não estava em casa, ia ao quarto dele, colecionava os fios de cabelo que tinham ficado no pente, beijava o travesseiro. Tinha ciúmes dele ao saber que alguma mulher o escolhera como confessor.
Amedrontado com a evolução de seus sentimentos e temendo se deixar dominar pela paixão, Amaro pediu ao Cônego Dias que lhe arrumasse outra moradia, onde vivesse sozinho. Assim se fez. Sua vida solitária era muito monótona. Não visitava ninguém e só recebia a visita do coadjutor, servil, sem assunto. Sentia-se muito pouco padre, longe da “panelinha” eclesiástica.
Por sua vez, Amélia se sentia desconsolada pelo afastamento de Amaro. Depois de algum tempo, ele voltou a freqüentar a casa da S. Joaneira. Os dois não estavam conseguindo mais esconder a paixão recíproca. Enciumado, João Eduardo tentou apressar o casamento. Amélia estava enfastiada dele, mas tentou fingir-se apaixonada, para evitar escândalo. Mesmo assim, a paixão pelo padre falava mais forte.
Certa noite, indignado por ver Amaro segredar algo no ouvido de Amélia, João Eduardo redigiu e fez publicar no jornal de Leiria um artigo: “Os modernos fariseus”, no qual ele contava as imoralidades de alguns padres da cidade, inclusive do Côn. Dias e do Pe. Amaro, a quem chamou de sedutor de donzelas inexperientes. O artigo saiu como um comunicado e assinado por “um liberal”. Os padres mencionados se enfureceram e passaram a investigar quem seria o autor.
Abalada com as possíveis repercussões do artigo e magoada com o que ela achou covardia de Amaro (depois do artigo ele sumiu da casa dela), Amélia aceitou marcar o casamento com João Eduardo.
De fato, Amaro se retraíra. Seus sentimentos estavam confusos; não teria mesmo coragem de assumir o amor de Amélia e abandonar o sacerdócio, mas crescia sua raiva contra João Eduardo.
Através da confissão da mulher do responsável pelo jornal, os padres vieram a saber quem havia redigido o artigo maldito. A vingança foi cruel: João Eduardo perdeu o emprego, por influência deles. Ao contar para Amélia quem fora o articulista, Amaro afirmou que não deixaria, em nome de Deus, que ela se casasse com um ateu. Ao dizer isso, pela primeira vez os dois se beijaram com paixão.
Com aprovação da família, Amaro se tornou o confessor de Amélia, a fim de orientá-la melhor.
A moça desfez o noivado. Desolado, João Eduardo procurou apoio e não recebeu: ninguém queria manifestar-se claramente contra o clero. Certa noite, completamente embriagado, o rapaz passou por Amaro na rua e deu-lhe um soco, sem feri-lo gravemente. Armou-se uma enorme confusão. A polícia levou João Eduardo para a Administração. No entanto, atendendo a um pedido do Pe. Amaro, o administrador retirou a ocorrência. Na reunião da noite na casa da S. Joaneira, o jovem padre foi considerado um santo. A atração de Amélia por ele aumentou e o desejo de Amaro por ela também.
A empregada do Pe. Amaro ficou doente e foi substituída pela irmã, Dionísia, famosa por ser alcoviteira. Essa contratação contrariou a opinião das beatas que achavam conveniente o padre voltar para a casa da S. Joaneira. Ele quis continuar só, sem deixar, é claro, de freqüentar as reuniões noturnas junto de Amélia.
Um dia, voltando os dois sozinhos, sob forte chuva, da casa do Côn. Dias, que passara mal, Amaro levou Amélia para a casa dele, enquanto esperavam o tempo melhorar. Por meia hora, o padre dispensou Dionísia. Naquele momento, os dois apaixonados tiveram sua primeira relação sexual.
No dia seguinte, Dionísia falou ao padre que era perigoso a moça ir lá daquele jeito. Insinuando-se como protetora da união dos dois, sugeriu que se encontrassem na casa do sineiro, o tio Esguelhas, ao lado da igreja. Relutante a princípio, Amaro aceitou e até gratificou a empregada com meia libra. Tio Esguelhas, viúvo e sem uma perna, morava naquela casa com uma filha paralítica, Antônia, que ele chamava de Totó.
Inteligentemente, o padre convenceu o sineiro da seguinte história: Amélia queria ser freira – o que devia ser mantido em segredo – e aquela casa era o lugar ideal para ele conversar com a moça, orientá-la espiritualmente, longe dos olhos de todos.
Amélia concordou com o plano. Para a família e para os amigos, contudo, ela iria uma ou duas vezes por semana à casa do sineiro para ensinar leitura e religião à Totó. Isso seria sigiloso por se tratar de um ato de caridade, que não deveria ser divulgado para não favorecer a vaidade.
Assim, Amaro e Amélia passaram a se encontrar regularmente na maior discrição. A paralítica, sentindo-se alvo de atenções, apaixonou-se pelo padre, sem o declarar, evidentemente; com a mesma intensidade, odiava Amélia. Esta dava um pouquinho de atenção à doente e depois ia se deitar com o padre no quarto de cima, do pai, que naquela hora sagrada saía de casa. Amaro ia direto para o quarto, nem olhava para Totó.
Aquele foi o período mais feliz da vida de Amaro. Ele se achava na graça de Deus. Tudo dava certo. Amélia cada vez mais se tornava cativa dele. Nada lhe interessava a não ser Amaro. Ele, por sua vez, afirmava crescentemente sua dominação. Compensava com ela toda a subserviência do passado. Ciumento, procurava controlar até os pensamentos da moça. Amélia se entregava inteiramente a esse domínio. E ninguém parecia estar notando tudo isso; pelo menos, não havia qualquer insinuação.
Uma circunstância inesperada veio estragar aquelas manhãs na casa do sineiro: Totó agora não suportava Amélia. Quando ela chegava, Totó parecia ter um surto de fúria. Tanto que Amélia deixou de vê-la, subia direto para o quarto com Amaro. Mas foi pior; assim que a doente percebia que os dois haviam passado, começava a gritar: “Estão a pegar-se os cães!” A partir de então, Amélia começou a ter crises de remorso. Nos braços de Amaro, esquecia tudo; mas, depois, a crise lhe vinha. A perturbação atingiu o máximo de intensidade na ocasião em que Amaro, na sacristia, experimentou nela um manto rico que haviam doado para a imagem de Nossa Senhora. Nesse dia, não conseguiu se encontrar com Amaro de tão desnorteada.
A S. Joaneira pediu que o cônego verificasse o que estava acontecendo com a filha que, à noite principalmente, tinha surtos de nervosismo, empalidecia, gritava… Dias ficou de espreita e acompanhou Amélia, sem se fazer notar, até a casa do sineiro. Pelas palavras de Totó, percebeu o que estava acontecendo. Depois que Amélia saiu, conversou com a paralítica e se certificou de tudo. Indignado, procurou Amaro na sacristia e o censurou com violência. O outro revidou e quase bateu no velho. Mas depois acalmaram-se quando Amaro declarou saber que o cônego se encontrava com a S.Joaneira. No final, reconciliados, fizeram um pacto de silêncio. O cônego chegou a elogiar Amaro pela escolha da devota mais bonita de Leiria. Os dois concordaram: “é o melhor que se leva desta vida!”
A partir de então, Amaro ficou tranquilo. Chegava a chamar o cônego de sogro. Insistia em que Amélia andasse bonita, para saborear intimamente o prazer da conquista. A moça, entretanto, depois de um início de total submissão, passou a ter consciência crítica: era concubina de um padre! Temia, então, o castigo de Deus. Amaro se enervava com estes escrúpulos e a censurava. Ele estava mais seguro porque o médico fora ver Totó e lhe dera pouco tempo de vida.
Amélia ficou grávida. Já no primeiro mês, a gravidez foi detectada. Amaro entrou em pânico. Foi pedir a ajuda do Cônego Dias. A solução seria casar a moça com João Eduardo o mais depressa possível. Amaro convenceu Amélia a casar-se com o ex-noivo. Ela, a princípio, revoltou-se com ele, vendo-se objeto na sua mão. Mas acabou aceitando a idéia; Amaro é que ficou enciumado com a situação que ele próprio criara. Os dois combinaram que continuariam amantes após o casamento, o que acalmou os ciúmes do padre.
Tudo daria certo se João Eduardo, depois de tudo o que aconteceu, não tivesse ido para o Brasil, em lugar ignorado. Ele só foi descoberto quando a gravidez atingiu o terceiro mês! E nada estava resolvido, para desespero dos padres.
As piores semanas da vida de Amélia foram aquelas em que se aguardavam notícias do ex-noivo. Os encontros na casa do sineiro se espaçavam. Amaro a considerava agora uma “beata histérica”, porque ela se julgava castigada por Deus e tinha crises constantes.
Nessa ocasião, D. Josefa ficou doente. Para se restabelecer, aconselharam-na a ir passar uma temporada na roça. Amaro teve, então, uma idéia brilhante.
Enquanto o Côn. Dias e a S. Joaneira iriam para a praia, Amélia ficaria na propriedade rural do Côn. Dias, na Ricoça, região vizinha a Leiria, acompanhando D. Josefa em sua convalescença. Para que a irmã do cônego aceitasse a moça com ela, Pe. Amaro lhe segredou – e pediu sigilo – que Amélia fora engravidada por um homem casado. Para evitar escândalo, a moça daria à luz no período em que estivesse na roça sob a proteção de D. Josefa. A velha senhora acreditou na história e resolveu cooperar. Amélia se sentiu infeliz de ir para a roça, pois gostava muito da praia. Sua mãe sofreu por separar-se da filha.
Nesse ínterim, Totó morreu. Tio Esguelhas lamentou o fato de Amaro não ter chegado a tempo para a Unção dos Enfermos, pois a filha tinha pedido muito a presença dele.
Amaro, solitário em Leiria, se enfastiava da monotonia. Ocioso, as ocupações do sacerdócio o aborreciam ainda mais. Abandonou todas as orações e meditações pessoais. Amélia na Ricoça sofria muito. D. Josefa a desprezava por ser uma pecadora. Atormentada, a pobre infeliz passou a ouvir, à noite, vozes de condenação. O que a confortava eram as visitas que o abade Ferrão lhes fazia. Homem esclarecido na fé, preferia conversar com Amélia, desgastado com os escrúpulos absurdos da velha doente. Ele disse à desorientada grávida que suas perturbações não vinham de Deus, que Ele não fica a falar para as pessoas; o problema dela estava na consciência. Se ela quisesse, a confessaria para aliviar-se. Animada, a moça procurou-o para a confissão.
Amaro foi visitá-la algumas vezes. Sabendo da confissão que Amélia fizera com o abade, enciumou-se, ficou furioso e evitava conversar com ela. Arrependido e mais apaixonado ainda, escreveu-lhe uma carta. A resposta da moça, entregue por um rapazinho, foi: “Peço-lhe que me deixe em paz com meus pecados.” Amaro chegou a desconfiar de que ela estivesse de “homem novo”. Mas não desistiu, continuou as visitas freqüentes; a moça evitava vê-lo.
Quem reapareceu morando perto da Ricoça foi João Eduardo. Permanecia apaixonado por Amélia. Ficou conhecido do abade Ferrão, que simpatizou com ele e teve a idéia de fazê-lo casar-se com Amélia, a qual também o via com bons olhos. O abade tinha pensado em induzir Amélia a ser freira. Desistiu, todavia, porque percebeu que, embora a paixão por Amaro houvesse acabado, o desejo do prazer sexual ainda existia nela.
Amaro resolveu “dar um gelo” em Amélia: foi passar um tempo na praia. Ela se enfureceu com a frieza dele, pois a época do parto estava se aproximando e ele não tomava nenhuma providência. Por orgulho, ela não quis escrever-lhe pedindo ajuda. Na verdade, essa viagem de Amaro era estratégica. Ele aprendera que, se fugirmos da mulher que nos interessa, ela nos procura. Várias vezes, quando retornou da praia, visitou D. Josefa e se retirou sem nem olhar para Amélia. Numa dessas visitas, ela não agüentou mais: cercou-o, impediu-o de sair sem lhe dar satisfação. Estavam sós e acabaram indo para a cama. Combinaram encontrar-se à noite. Amaro foi, mas os cães latiram e o afugentaram.
O padre sondou de Dionísia a indicação de uma ama para ficar com a criança logo após o nascimento. Havia duas possíveis: uma seria a aconselhável pelo bom senso; a outra, Carlota, era uma “tecedeira de anjos”, pois matava os recém-nascidos. Ele saiu para procurar a primeira; como dispunha de tempo, contudo, foi conhecer Carlota e resolveu optar por esta (seria mais conveniente que a criança desaparecesse).
Amélia estava em permanente sobressalto, à medida que se aproximava o dia do parto: às vezes, queria o filho; outras vezes, se horrorizava, tinha pressentimentos ruins. Uma idéia passou a animá-la: casar-se com João Eduardo e, quem sabe, conseguir que ele aceitasse a criança. Pediu ao abade Ferrão que realizasse esse seu desejo.
Chegou o momento do parto. Amélia foi assistida por Dionísia e pelo Dr. Gouveia, velho e discreto médico, que cuidava de D. Josefa. O menino nasceu bem. Dionísia o entregou ao Pe.Amaro, que aguardava fora de casa e o levou para Carlota, recomendando que o mantivesse vivo, já arrependido de não ter contratado a outra ama. Em seguida, o padre voltou para Leiria, certo de que tudo correra bem com a amante. Na verdade, entretanto, Amélia, depois de dar à luz, teve convulsões e, apesar do esforço intenso do médico e de Dionísia para salvá-la, não resistiu, morreu, deixando desolado o abade Ferrão.
Na manhã seguinte, Amaro teve um choque enorme ao saber da morte através de Dionísia. Passado o primeiro impacto, partiu imediatamente em busca de Carlota, na esperança de tirar o filho da guarda dela e levá-lo para a outra ama. Infelizmente, a criança já havia morrido.
Completamente desnorteado, o Pe. Amaro resolveu sair de Leiria. Sob o pretexto de que sua irmã estava doente em Lisboa, conseguiu licença e viajou.
Amélia foi enterrada na Ricoça, enterro oficiado pelo abade Ferrão, com acompanhamento de algumas pessoas do lugar e de João Eduardo, que chorou muito aquela morte.
Pe. Amaro foi removido de Leiria e passou muito tempo sem ver ninguém de lá. Certa feita, encontraram-se casualmente no Largo do Loreto, em Lisboa, junto à estátua de Camões, o Côn. Dias e o Pe. Amaro. Este estava procurando transferência para uma boa paróquia e procurava a influência do Conde de Ribamar.
Os dois padres conversaram sobre Leiria, onde o cônego ainda morava. Amaro lhe disse que as primeiras sensações após a morte de Amélia – remorso, tristeza, depressão… – estavam superadas definitivamente. “Tudo passa”, disse e o cônego confirmou: “Tudo passa”.
A eles juntou-se o Conde de Ribamar. Os três comentaram o horror da situação: estava-se nos fins de maio de 1872 e em Lisboa havia alvoroço com as notícias vindas da França, do massacre da Comuna de Paris, quando foram mortos pelo governo francês, em uma semana, cerca de 25.000 operários rebeldes. O Conde de Ribamar deu uma lição de política aos dois padres que ouviam e apoiavam seu discurso inflamado contra os rebeldes e elogioso a Portugal que mantinha a ordem e a paz.
“Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
E o homem de Estado, os dois homens de religião, todos três em linha, junto às grades do monumento, gozavam de cabeça alta essa certeza gloriosa da grandeza do seu país – ali ao pé daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, ereto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopéia sobre o coração, a espada firme, cercado de cronistas e dos poetas heróicos da antiga pátria – pátria para sempre passada, memória quase perdida!”
COMENTÁRIO
Paralelamente ao enredo, Eça de Queirós desenvolveu algumas idéias, por exemplo:
Política e clero
No diálogo do Conde de Ribamar com um ministro do Governo, ficou patenteado que os homens públicos contavam com os padres para influenciarem o povo na aceitação pacífica das medidas que as autoridades impusessem, sempre tomadas a favor dos interesses dos poderosos, inclusive fazendo estes ganharem as eleições.
O autor fez menção de explicitar a subserviência dos membros do clero às autoridades governamentais como forma de ser mantida uma situação que era confortável para ambos.
A confissão
Num almoço que reuniu vários padres na casa de um deles, mostrou-se a confissão como sendo um recurso que usavam para manipular as consciências e tirar proveito pessoal. Na verdade, os padres não acreditavam que Deus estivesse perdoando através deles.
Está clara a intenção do autor de dessacralizar o sagrado: nem os próprios padres acreditavam no poder sacramental.
O celibato dos padres
Impaciente por não poder ter uma vida sexual como a das pessoas comuns, Pe. Amaro se revoltava interiormente, dizendo para si mesmo que não abrira mão de sua virilidade: “Tinham-no impelido para o sacerdócio como um boi para o curral!” Nesses momentos, ele repassava na memória o que lhe haviam ensinado no seminário a favor do celibato, que quem o abraçasse evitaria o assédio dos três inimigos da alma: o Mundo, o Diabo, a Carne: o diabo ele nunca tinha visto; como evitaria o mundo (riquezas, cavalos, palacete…) e a carne (uma mulher bonita que o amava e era a consolação de sua vida)? Só se fugisse para o deserto! Então, ele justificava seu amor com exemplos da Bíblia que se referiam a casamentos. O celibato, afirmava o Pe. Amaro em seu íntimo, foi inventado por um concílio de bispos velhos, inúteis como eunucos! Ele concluía que o seu amor era apenas uma infração ao Direito Canônico, isto é, às normas da Igreja, mas não uma ofensa a Deus.
O autor, ao propor essa situação de conflito interior em um padre não vocacionado para o sacerdócio, evidenciava forte questionamento quanto à formação do clero burguês, a quem não se dava formação convincente, mas se impunham regulamentos sob a forma repressora.
A opinião da “ciência” sobre a Igreja
Carlos, personagem secundário e ridículo, dono de uma farmácia, se dizia liberal e adepto da ciência; não era um homem de Igreja, é claro. Contudo ficou indignado com o artigo de João Eduardo contra os padres. Afirmava o “adepto da ciência” que a religião é a base da sociedade. Ele não considerava os padres uns santos, mas os ateus republicanos deveriam ser eliminados do convívio social sadio.
Eça mostrou, nesse episódio, a visão reacionária dos falsos cientistas, pessoas medíocres, defensores de uma tradição conservadora e radical.
Redigido em terceira pessoa, o foco narrativo do livro é a visão onisciente do autor-narrador, que analisa os fatos de fora deles.
Publicado em 1876, foi o primeiro romance português de expressão que questionou o Romantismo feito de sonhos e idealizações.
O estilo descritivo não pára na pura descrição, mas mostra o que está por trás dos fatos da realidade provinciana de Portugal. O clero, desvirtuado por uma defeituosa educação do seminário, serve à ordem estabelecida pelos poderosos dirigentes, representados pelo Conde de Ribamar.
Tendo como motivo inspirador uma história de sedução, Eça de Queirós pretendeu mostrar um clero decadente em Portugal. Aliás, essa mesma motivação o levou a documentar a decadência da família portuguesa em “O Primo Basílio”.
Como pano de fundo dessas obras, portanto, há uma constante: os indivíduos são vítimas de um sistema social degenerado – no caso, a burguesia.
Especificamente em “O Crime do Pe. Amaro”, o sistema social burguês formou uma religiosidade hipócrita, de aparência virtuosa e de realidade viciada. Era sintomático que o Côn. Dias – um homem conscientemente sem escrúpulos para manipular as pessoas – tivesse sido professor de Moral dos futuros padres. As beatas, orientadas pelos próprios sacerdotes a bajulá-los e a respeitá-los como “homens de Deus”, tornaram-se vítimas dos detentores do poder através da religião. Amélia foi a sacrificada; as mais velhas, porém, embora não houvessem sido levadas à morte física, tinham suas vidas tolhidas pelos padres egoístas e ilimitados na consecução de seus objetivos interesseiros.
O Pe. Amaro – representante maior do grupo de vilões da história – saiu ileso no final. O mesmo aconteceu com Basílio em “O Primo Basílio”. Eça delineia, assim, uma situação de clara ironia: é a sociedade burguesa a verdadeira vilã e ela está viva em sua trajetória deformadora de uns – as beatas – e destruidora de outros – Amélia. Algumas pessoas escapam dessa avalanche, como é o caso do abade Ferrão e do Dr. Gouveia, figuras positivas que se apresentam como exceções não afetadas pela podridão.
Trata-se de um romance de tese, em que o Determinismo sobressai: o momento histórico, o meio social e os instintos atuam nos indivíduos, que passam a agir impulsionados por essas forças irresistíveis. Amaro e Amélia são os protagonistas dessa situação: ele, padre sem vocação, incapaz de uma reação pessoal que demonstrasse personalidade forte; ela, totalmente identificada com a hipocrisia em que crescera; ambos se deixam arrastar, sem reagir, pela pura paixão carnal.
Portanto, o livro expressa a documentação crítica do Realismo e o avanço destrutivo das paixões, característica do Naturalismo.
Como é do feitio de Eça de Queirós, a cena final contém a dose definitiva de ironia: o olhar frio de Camões sobre os representantes do clero e da política estabelece o contraste entre o heroísmo ideal (o épico renascentista) e a cega mediocridade real (os três interlocutores), incapazes estes últimos de perceber que seu país estava decadente, pois, a seus olhos, a Europa invejava Portugal por sua paz e prosperidade! Essa “estabilidade” portuguesa era construída pelos hipócritas líderes da monarquia liberal conservadora e assimilada pelas pessoas simples, absolutamente desprovidas de visão crítica.
Apesar do aparente ceticismo do autor ao documentar a derrota do bem pelo mal, o livro é moralista, porque dá ao leitor a visão clara de que os vencedores aparentes são os vencidos na realidade, no sentido de se constituírem as pessoas erradas, os imorais dominadores.
É uma literatura que visa a contribuir para a transformação da sociedade, ao mostrar suas falhas.
            José Maria de Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845, em Póvoa de Varzim, /Portugal. Filho de José Maria Teixeira de Queirós, nascido no Rio de Janeiro em 1820, e de Carolina Augusta Pereira d'Eça, nascida em Monção em 1826. O pai de Eça de Queirós, magistrado e par do reino, convivia regularmente com Camilo Castelo Branco, quando este vinha à Póvoa para se divertir no Largo do Café Chinês . Tinha mais 6 irmãos.
            Foi internado no Colégio da Lapa, no Porto, de onde saiu em 1861, com dezesseis anos, para a Universidade de Coimbra, onde estudou Direito.
            Em Coimbra, Eça foi amigo de Antero de Quental. Os seus primeiros trabalhos, publicados na revista "Gazeta de Portugal", foram depois coligidos em livro, publicado postumamente com o título Prosas Bárbaras. Em 1866, Eça de Queirós terminou a Licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra e passou a viver em Lisboa, exercendo a advocacia e o jornalismo. Foi diretor do periódico O Distrito de Évora e colaborou em publicações periódicas como a Renascença (1878-1879?), A Imprensa (1885-1891), Ribaltas e gambiarras (1881) e postumamente na Feira da Ladra (1929-1943). Porém, continuaria a colaborar esporadicamente em jornais e revistas ocasionalmente durante toda a vida. Mais tarde fundaria a Revista de Portugal.
            Entre 1869 e 1870, fez uma viagem de seis semanas ao Oriente, em companhia de D. Luís de Castro, 5.º conde de Resende, irmão da sua futura mulher, D. Emília de Castro, tendo assistido no Egito à inauguração do canal do Suez. Aproveitou as notas de viagem para alguns dos seus trabalhos, o mais notável dos quais o O mistério da estrada de Sintra, em 1870, e A relíquia, publicado em 1887.
            Em 1870 ingressou na Administração Pública, sendo nomeado administrador do concelho de Leiria. Foi enquanto permaneceu nesta cidade, que Eça escreveu a sua primeira novela realista, O Crime do Padre Amaro, publicada em 1875. Tendo ingressado na carreira diplomática, em 1873 foi nomeado cônsul de Portugal em Havana. Os anos mais produtivos de sua carreira literária foram passados em Inglaterra, entre 1874 e 1878, durante os quais exerceu o cargo em Newcastle e Bristol. Escreveu então alguns dos seus trabalhos mais importantes, como A Capital, escrito numa prosa hábil, plena de realismo. Manteve a sua atividade jornalística, publicando esporadicamente no Diário de Notícias, em Lisboa, a rubrica «Cartas de Inglaterra». Mais tarde, em 1888 seria nomeado cônsul em Paris.
            Seu último livro foi A Ilustre Casa de Ramires, sobre um fidalgo do século XIX com problemas para se reconciliar com a grandeza de sua linhagem. É um romance imaginativo, entremeado com capítulos de uma aventura de vingança bárbara que se passa no século XII, escrita por Gonçalo Mendes Ramires, o protagonista. Trata-se de uma novela chamada A Torre de D. Ramires, em que antepassados de Gonçalo são retratados como torres de honra sanguínea, que contrastam com a lassidão moral e intelectual do rapaz.
            Aos 40 anos casou-se com Emília de Castro, com quem teve 4 filhos
            Morreu em 16 de Agosto de 1900, perto de Paris. Teve funeral de Estado.
Fonte: Digerati. CEC 0004. (CD-Rom)
Mais Concursos Literários com Inscrições Abertas
V Concurso de Poesias de Ourinhos
Prazo: 25 de maio
         A Secretaria Municipal de Educação está com as inscrições abertas para o V Concurso de Poesias de Ourinhos, cuja finalidade é estimular, divulgar e prestigiar a produção literária por meio da Poesia.
         O concurso que foi criado pelo escritor Itamar Rabelo de Souza, é aberto a todas as pessoas que produzem e apreciam esse gênero literário. As inscrições se estendem até o dia 25 de maio e o edital completo, bem como a ficha de inscrição podem ser solicitados diretamente na Secretaria Municipal de Educação, localizada na Av. Antônio de Almeida Leite, nº 609, Jd. Paulista.
SOBRE O CONCURSO
O concurso é composto por três categorias, sendo elas:
A - MIRIM - para autores com idade até 12 anos;
B - JUNIOR - para autores de 13 a 17 anos;
C - MASTER - para autores a partir de 18 anos.
REGULAMENTO
         1 - Cada participante poderá inscrever 1 (uma) poesia inédita em língua portuguesa, datilografada ou digitada em papel A4, com fonte Times New Roman, tamanho 12, com no máximo 30 linhas. Não serão aceitos textos manuscritos.
         2 - O tema é livre.
         3 - Todos os trabalhos deverão ser enviados em 4 (quatro) vias e obrigatoriamente deverão ter um título e pseudônimo do autor.
         4 - Os trabalhos deverão ser enviados através dos Correios, em um único envelope, para o seguinte endereço:
V CONCURSO DE POESIAS CIDADE DE OURINHOS
Categoria: (indicar a categoria)
Caixa Postal, 164
Ourinhos - SP
CEP: 19900-970
A data da postagem será considerada válida para efeito de inscrição.
         5 - A ficha de inscrição deverá ser enviada junto com a poesia.
         6 - A comissão julgadora será composta por 9 (nove) membros de reconhecida expressão, sendo 3 (três) para cada categoria.
PREMIAÇÕES
         7 - Serão distribuídos troféus e certificados aos 3 (três) primeiros colocados de cada categoria. Os demais receberão certificados de participação. A critério da comissão julgadora poderão ser distribuídas Menções Honrosas.
         8 - Será premiada a escola ourinhense que tiver o maior número de classificados entre os 30 melhores na Categoria Mirim.
         9 – Todos os participantes serão notificados por correspondência sobre o resultado do concurso.
         10 - Os 3 vencedores de cada categoria, os que obtiverem Menção Honrosa e os 10 melhores trabalhos de cada categoria serão publicados em antologia.
         11 - Todos os participantes serão convidados para o evento de premiação, que ocorrerá em duas etapas:
         Etapa 1: no Teatro Municipal Miguel Cury, para os participantes das categorias Junior e Master.
         Etapa 2: nas escolas, para os participantes da categoria Mirim.
         Todos os participantes que desejarem participar do evento de premiação deverão comunicar-se com a organização do concurso com antecedência mínima de 15 dias.
CRONOGRAMA
- Inscrições: até 25 de maio/2015
- Julgamento: de 26 de maio a 15 de junho/2015
- Premiação: setembro/2015
PARA MAIORES INFORMAÇÕES
- por telefone: (14) 3322-3971 - com Itamar
- por e-mail: avessocult@gmail.com
CONSIDERAÇÕES FINAIS
         - Todos os participantes devem estar cientes de que a sua inscrição implica em conhecimento deste regulamento. Os casos controversos serão analisados pelas comissões, organizadora e julgadora em conjunto.
         - Os originais não serão devolvidos. Ao final do concurso serão todos incinerados.
XXIII Jogos Florais de Porto Alegre
Prazo: 30 de junho de 2015
Temas:
Nacional/Internacional:
LUZ (Lírica/Filosófica) e
SOMBRA (Humorística)
Novos Trovadores:
VIDA (Lírica/Filosófica)
Estadual-RS:
TREVA (Lírica/Filosófica) e
BRILHO (Humorística)
Estudantil (PUC):
CLARIDADE (Lírica/Filosófica)
Estudantil Especial:
SOM (Lírica/Filosófica)
Língua Hispânica:
LUZ (Lírica/Filosófica)
Máximo de 3 trovas, inéditas e de autoria do remetente, pelo sistema de envelopes
Remessa para:
XXIII Jogos Florais de Porto Alegre
Rua Grão Pará, 212 
CEP. 90.850-170
Porto Alegre – RS.
I Concurso de Trovas de Cachoeira do Sul
Prazo: 30 de julho de 2015
Promoção e realização da Delegacia da UBT local.
Tema:
CACHOEIRA (Lírica/Filosófica)
Haverá premiação estadual (RS) e nacional/internacional.
Enviar para:
I Concurso de Trovas de Cachoeira do Sul
Rua Araújo de Porto Alegre, 1204,
Bairro Santa Helena –
CEP 95503-450
Cachoeira do Sul/ RS
         Máximo de 3 trovas, inéditas, por autor, pelo sistema de envelopes.
         A premiação, composta de medalhas e diplomas, será enviada via correio.
VI Concurso Estadual (RS) de Trovas de Caxias do Sul
Prazo: 30 de julho de 2015
Somente para o Rio Grande do Sul
Temas:
Estadual (RS):
ESPIRAL (Lírica/Filosófica) e
FANTASMA (Humorística).
Municipal (Caxias do Sul)
CARROSSEL (Lírica/Filosófica) e
PRÊMIO (Humorística)
Estudantil (RS):
LEMBRANÇA (Lírica/Filosófica)
Máximo de 3 trovas por tema.
Trovas inéditas e de autoria do remetente, pelo sistema de envelopes.
Remessa para:
VI Concurso Estadual de Trovas-UBT
Caxias do Sul
A/C Alice Cristina Velho Brandão
Rua Pe. Cristóvão de Orellana Mendonza, 671/102
CEP 95 052-520 -
Caxias do Sul/RS

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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