Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 19 de maio de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 403)





Mensagem na Garrafa
Gabriela Mistral
O Prazer de Servir

Toda natureza é um anseio de serviço
Serve a nuvem, serve o vento, serve a chuva
Onde haja uma árvore a plantar, planta-a tu
Onde haja um erro a corrigir, corrige-o tu
Onde haja um esforço que todos se esquivam,
aceita-o tu
Seja o que remove a pedra do caminho,
o ódio entre os corações e as dificuldades do problema

Há uma alegria de ser são e de ser justo, mas há,
sobretudo, a maravilhosa, a imensa alegria de servir.
Que triste seria o mundo se tudo estivesse feito,
se não existisse uma roseira a plantar, uma obra a iniciar.

Que não chamem somente os trabalhos fáceis
É tão bonito fazer o que os outros se recusam
Mas não caia no erro de que só há mérito
nos grandes trabalhos; há pequenos serviços
que são bons serviços: arrumar a mesa,
organizar os livros, pentear uma criança
Aquele que critica, este é o que destrói;
seja você o que serve.

O servir não é trabalho de seres inferiores.
Deus, que dá o fruto e a luz, serve
Poderia chamar-se assim: “Aquele que serve”.
E tem seus olhos fixos em nossas mãos e
nos pergunta a cada dia: Você serviu hoje? A quem?
À árvore? Ao seu amigo? À sua mãe?

            Gabriela Mistral, pseudônimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga nasceu na cidade de Vicuña, Chile, em 7 de abril de 1889. Seu pai abandonou a família quando Lucila completou três anos de idade. A mãe de Lucila faleceu no ano de 1929 e a escritora lhe dedicou a primeira parte de seu livro Tala, a que chamou: Muerte de mi Madre. Educada em sua cidade natal, começou a trabalhar como professora primária (1904) e ganhou renome ao vencer os Juegos Florales de Santiago, em 1914, com Sonetos de La muerte, sob o pseudônimo de Gabriela Mistral, cuja escolha deu-se em homenagem aos seus poetas prediletos: o italiano Gabriele D'Annunzio e o provençal Frédéric Mistral. Em 1922 é convidada pelo Ministério da Educação do México a trabalhar nos planos de reforma educacional daquele país.
            Em 1945, membro do corpo diplomático chileno, Mistral residia na cidade de Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, ao receber a notícia de que fora agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura, tornando-se o primeiro escritor latino-americano a receber tal honraria." O Prêmio Nobel transformou-a em figura de destaque na literatura internacional e a levou a viajar por todo o mundo e representar seu país em comissões culturais das Nações Unidas, até falecer em 1957 em Hempstead, estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos.
            A notoriedade a obrigou a abandonar o ensino para desempenhar diversos cargos diplomáticos na Europa. Tida como um exemplo de honestidade moral e intelectual e movida por um profundo sentimento religioso, a tragédia do suicídio do noivo (1907) marcou toda a sua poesia com um forte sentimento de carinho maternal, principalmente nos seus poemas em relação às crianças. Em sua obra aparecem como temas recorrentes: o amor pelos humildes, um interesse mais amplo por toda a humanidade.
            Entre suas mais significativas obras podemos destacar:
Sonetos de la Muerte, 1914; Desolación, 1922; Lecturas para Mujeres, 1923; Ternura, 1924; Nubes Blancas y Breve Descripción de Chile, 1934; Tala, 1938; Antología, 1941; Lagar, 1954; Recados Contando a Chile, 1957, Poema de Chile, 1967




Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez

Toda Trova tem, na rima
e na métrica, a beleza,
tendo, ainda, assim por cima,
na elisão, a sutileza.

Uma Trova de Bauru/SP
João Batista Xavier Oliveira

O caráter se desfaz;
irmão não é mais irmão...
se a mentira for capaz
de confundir a razão!
Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

ASSOMBRAÇÃO

Cera, "rimmel", pomadas, parafina,
Talco, "rouge", "cilion"... Mademoiselle
Gasta um dinheiro louco na surdina
Mas, quando sai, que sedução na pele!

A boca de morango se ilumina,
O olhar provocador que não repele,
Antes, em filtros mágicos, fascina,
E ao delírio mais alto nos impele.

Mas, se pela manhã, alguém surpreende
Mademoiselle em pijama e sem cabelo,
Antes de restaurada... ó monstro! ó — duende!

Corre gritando: "— Que animal é este?"
Como se no pavor de um pesadelo
Um Saci-Pererê lhe aparecesse...

Uma Trova Humorística de Uruguaiana/RS
Luiz Machado Stábile

Chora a viúva do Honório,
que morreu envenenado,
e o "veneno", no velório,
"mata" qualquer convidado.

Uma Trova de Belo Horizonte/MG
Relva do Egipto Rezende Silveira

És meu príncipe e senhor,
e sou feliz, plena, viva,
pagando, com muito amor,
tributos por ser cativa!

Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

O ENAMORADO DAS ROSAS

Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.

Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.

Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.

Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.

Uma Quadra Popular
Autor Anônimo

Cravo branco na janela
é sinal de casamento.
Menina, tira seu cravo,
inda não chegou seu tempo.

Uma Trova Hispânica do México
Ernestina Ramírez Escobar

La música es toda esencia,
es la alegría del alma,
su sonido y su presencia
hace que llegue la calma.

Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

A VELHA MANGUEIRA

No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.

Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa…
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa…

Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.

Trovadores que deixaram Saudades
João Freire Filho
Rio de Janeiro (1941 – 2012)

Por sentir bem mais escasso
o tempo... e mais curta a vida,
agora... tudo que eu faço
parece uma despedida!

Uma Trova de São Paulo/SP
Ana Cecília Ferri Soares

Vou definir a saudade
em claro e bom português:
– a saudade é uma vontade
de fazer tudo outra vez...

Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

ARCO-ÍRIS

Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

“Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol.”
De repente, no céu desfraldado em bandeira,

Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.

Uma Trova de Bauru/SP
Antonio Valentim Rufatto

Fecho as portas e janelas
mas a saudade, matreira,
zomba de minhas cautelas,
entrando pela lareira.

Um Haicai de São Paulo/SP
Débora Novaes de Castro

varando nuvens,
levando sonhos d'ouro
cavalo alado

Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

CASTELOS NA AREIA

— Que iluminura é aquela, fugidia,
Que o poente à beira-mar beija e incendeia?
— É apenas a criação da fantasia: —
São castelos na areia.

Andam, tontas de sol, brincando as crianças
Como abelhas que voaram da colmeia.
Erguem torreões fictícios de esperanças…
São castelos na areia.

Ao canto de um jardim adormecido:
“Por que não crês no afeto que me enleia?
E as palavras que eu disse ao teu ouvido?”
— São castelos na areia.

E o tempo vai tecendo, da desgraça,
Na roca do destino, a eterna teia.
— “E os beijos que trocamos?” — Tudo passa,
São castelos na areia.

Coração! Por que bates com ansiedade?
Que dor é a grande dor que te golpeia?
Ouve as palavras da Fatalidade:
Ventura, Amor, Sonho, Felicidade,
São castelos na areia.

Uma Trova de São Paulo/SP
Zaé Júnior

Velha viola, na orfandade,
calou-se, pois seus segredos
não suportam a saudade
nem o toque de outros dedos!

Uma Aldravia do Rio de Janeiro/RJ
Luiz Poeta

Girassóis
pulsam
tela
de
Van
Gogh


Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

DO MEU TEMPO…

Quando eu era menino e tinha cheia
A alma de sonhos bons e, fugidio,
Como a abelha que voa da colmeia,
Andava a errar do canavial bravio;

Quando em noites de junho o luar macio
Punha um lençol de rendas sobre a areia,
Tiritava de medo ouvindo o pio
Da coruja mais lúgubre da aldeia.

Feliz! Bendita essa primeira idade!
Andava como quem anda sonhando
De olhos abertos, com a felicidade.

Dormia tarde e enquanto eu não dormia,
Mamãe rezava o padre-nosso e quando
Me mandava rezar, eu não sabia.

Uma Trova de Nova Friburgo/RJ
Sérgio Bernardo

Mais cruel na despedida,
teu desprezo me mostrou
que é possível a partida
de alguém que nunca chegou.

Uma Endecha de Bragança Paulista/SP
Lola Prata Garcia

Despedida

Fecha-se o caixão.
Lá dentro o morto
segue obediente;
não clama nem chora.

Vai em direção
ao celeste porto
a ver Deus de frente
em solene hora.

Sem mais ilusão,
no pensar absorto,
em triste ambiente,
uma prece implora:

– Deus lhe dê perdão,
conceda conforto
ao amado ente
que se vai embora!

Depois da oclusão
no sepulcro torto,
saudade inclemente
me visita agora.

Endecha é uma composição formada de várias estâncias de quartetos de cinso sílabas, redondilha menor com teor triste. Pode ser com ou sem rimas. No acima, 4 rimas pelas estrofes: ABCD. Isto é, rimam-se entre si A: primeiro verso de cada quarteto, B: segunda estrofe de cada quarteto, etc.

Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

O FLIRT

Retirei um breve instante
Das minhas cogitações,
Para falar-vos do Flirt,
A epidemia elegante
Dos salões.

 Nasce de um sorriso mudo,
De um quase nada que, enfim
Vale tudo
Para elas e para mim.

 O Flirt. Haverá no mundo
Quem não sinta essa embriaguez
De um momento, de um segundo,
De quinze dias, de um mês?

Ele é efêmero e fortuito,
Vale pouco ou vale muito,
Conforme o Diabo o compôs.
É um simples curto-circuito
Entre dois.

Uma carícia inflamável
Doidinha por incendiar,
Um micróbio insuportável
Que vai de olhar para olhar.

 Ou antes: um precipício
Que a gente olha sem pavor.
O divino instante, o início
Do êxtase imenso do amor.

 Um galanteio, uma frase
Intencional
Que sendo frívola, é quase
Um madrigal.

 A mão que outra mão afaga,
O pé que pisa outro pé.
Carícia lânguida e vaga…
Só quem ama e quem divaga
Pode saber o que isto é.

 A orquestra soluça um tango:
Dois. Ela folle, ele fou.
Flor de Tango. — A flor de Tango,
Diz ele baixinho, és tu.

 E assim vai num tal crescendo,
Que ela se debate em vão.
Parece que está morrendo
Nos braços do cidadão.

 Quando passa o áureo momento,
Vem a tragédia em três atos.
Três atos
Com um epílogo. Depois,
Um noivado, um casamento,
Um bruto arrependimento
E ao fim divórcio entre os dois.

Um Haicai de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946-2009)

Seis hora da tarde:
sons de cigarras prolongam
os sinos do templo.

Uma Trova de Porto/Portugal
Domingos Freire Cardoso

Por rainha se tornava
no seu trono de altivez
mas na Vida não passava
de uma peça de xadrez...

Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

OLHOS TERNOS

Olhos ternos azuis, humildes, inocentes,
Orvalhados de dor, da lágrima sentida...
Chorais, e com razão, os amores ausentes,
Que são a vossa luz na estrada desta vida.

Chorais como dois lagos calmos, transparentes,
Refletindo a amplidão de uma tela estendida...
Olhos ternos azuis, desmaiados, dormentes,
Vejo em vós o sofrer de uma monja sentida.

Chorai, olhos azuis, que a lágrima divina
Vale mais do que rir de boca pequenina
Que comece a falar, mil beijos implorando...

Prefiro a vossa luz inundada na mágoa...
Olhos ternos azuis, ao ver-vos cheios d'água,
Eu padeço também... mas vos amo, chorando.

Recordando Velhas Canções
Alvorada
(samba, 1968)

Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho

Alvorada
lá no morro
que beleza
Ninguém chora,
não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo
É tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo
tingindo tingindo

Alvorada
lá no morro
que beleza
Ninguém chora,
não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo
É tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo
tingindo tingindo

Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco
Quase nada de que ir assim
Vagando   
numa estrada perdida
Alvorada .....

(repetir tudo)

            A história de “Alvorada” começou numa madrugada, quando Cartola e Cachaça, descendo o morro do Pendura a Saia, sentiram-se impressionados com os primeiros raios de sol que iluminavam o cenário, contrastando a beleza da cena com o sofrimento dos moradores do lugar. Fizeram, então, a primeira parte do samba. A segunda parte surgiu na casa de Hermínio Bello de Carvalho, onde tinham ido para completar a composição. Hermínio fez a letra, enquanto Cartola compunha a melodia na hora. Em suas primeiras gravações, com Odete Amaral e Clara Nunes, o samba saiu com o título de “Alvorada no Morro”. Depois, inclusive nas gravações de Cartola e Carlos Cachaça, o nome foi simplificado para “Alvorada”. Detalhe curioso é que essas duas figuras fariam os seus primeiros elepês na velhice, Cartola aos 65 anos e Cachaça aos 74, sendo ambos os discos realizados por iniciativa de um mesmo produtor, J. C. Botezeli, o Pelão.
Fonte: Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo. v. 2

Uma Trova de São Paulo/SP
Darly O. Barros

No olhar, teu convite escrito
com as chamas da paixão,
deitou por terra o conflito
que havia entre um SIM e um NÃO...

Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

O ENTERRO DA CIGARRA

As formigas levavam-na... Chovia...
Era o fim... Triste outono fumarento!...
Perto, uma fonte, em suave movimento,
Cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci, ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento.
Era a cigarra de maior talento,
Mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas...
Que tristeza nas folhas... Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!...

Pobre cigarra! Quando te levavam,
Enquanto te chorava a Natureza,
Tuas irmãs e tua mãe cantavam…

Um Haicai de Ilhéus/BA
Abel Silva Pereira

Caminhos não erra
que, à luz dos vaga-lumes,
vai subindo a serra.

Uma Trova de São Francisco de Itabapoana/RJ
Roberto Pinheiro Acruche

A tristeza em minha casa
está num quarto vazio:
– de dia a saudade abrasa,
à noite mata de frio.

Olegário Mariano

MIGALHA DE VENTURA

Tirem-me a luz que os olhos me alumia,
O ar que me enche os pulmões e o céu que adoro;
Tirem-me esses momentos de alegria,
Tirem-me a voz de pássaro canoro;

Tirem-me a paz do espírito, a harmonia
Da vida, e o mar que canta, quando eu choro
Tirem-me a noite e, ao luar da noite fria,
O sonoro esplendor do céu sonoro;

Tirem-me a glória de viver, o encanto,
A lágrima, o sorriso, a mocidade
Que faz com que eu na vida engane tanto!

Tirem-me o manto, deixem-me desnudo,
Mas não me tirem da alma esta saudade,
Que é meu sangue, meu ser, meu pão, meu tudo!

Hinos do Brasil
Estado do Rio de Janeiro

Fluminenses, avante! Marchemos
Às conquistas da paz, povo nobre!
Somos livres, alegres brademos
Que uma livre bandeira nos cobre

Fluminenses, eia! Alerta!
Ódio eterno à escravidão!
Que na Pátria enfim liberta
Brilha a luz da redenção!

Nesta Pátria, do amor áureo templo
Cantam hinos a Deus nossas almas
Veja o mundo surpreso este exemplo
De vitória, entre flores e palmas

Fluminenses, eia! Alerta!
Ódio eterno à escravidão!
Que na Pátria enfim liberta
Brilha a luz da redenção!

Nunca mais, nunca mais nesta terra
Virão cetros mostrar falsos brilhos
Neste solo que encantos encerra
Livre Pátria terão nossos filhos

Fluminenses, eia! Alerta!
Ódio eterno à escravidão!
Que na Pátria enfim liberta
Brilha a luz da redenção!

Ao contar delirante dos hinos
Essa noite, dos tronos nascida
Deste sol, aos clarões diamantinos
Fugirá, sempre, sempre vencida

Fluminenses, eia! Alerta!
Ódio eterno à escravidão!
Que na Pátria enfim liberta
Brilha a luz da redenção!

Nossos peitos serão baluarte
Em defesa da Pátria gigante
Seja o lema do nosso estandarte
Paz e amor! Fluminenses, avante!

Fluminenses, eia! Alerta!
Ódio eterno à escravidão!
Que na Pátria enfim liberta
Brilha a luz da redenção!

Uma Trova de Juiz de Fora/MG
Arlindo Tadeu Hagen

Chegaste... e a tua chegada
varreu, com gestos risonhos,
a poeira acumulada
sobre as costas dos meus sonhos!

Um Poema de Recife/PE
Olegário Mariano

FULANINHA

Foxtrotando pela rua
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...

Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!

Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!

Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.

— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.

E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!

Uma Trova de Bandeirantes/PR
Neide Rocha Portugal

Não há paixão que descarte
a despedida sem mágoas:
– todo veleiro que parte
deixa um rastro sobre as águas!

Chuvisco Biográfico do Poeta
         Olegário Mariano Carneiro da Cunha nasceu na cidade de Recife, Pernambuco, a 24 de março de 1889. Faleceu no Rio de Janeiro a 28 de novembro de 1958. Era filho de José Mariano Carneiro da Cunha, herói pernambucano da Abolição e da República, e de Olegária Carneiro da Cunha.
            Fez o primário e o secundário no Colégio Pestalozzi, na cidade natal, e cedo se transferiu para o Rio de Janeiro. Frequentou a roda literária de Olavo Bilac, Guimarães Passos, Emílio de Meneses, Coelho Neto, Martins Fontes e outros. Estreou na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, em 1911. Sua poesia falava de neblinas, de cismas e de sofrimentos, perfeitamente identificada com os preceitos do Simbolismo, já em declínio.
            Foi inspetor do ensino secundário e censor de teatro. Representou o Brasil, em 1918, como secretário de embaixada à Bolívia, na Missão Melo Franco. Foi deputado à Assembléia Constituinte que elaborou a Carta de 1934. Em 1937, ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados. Foi ministro plenipotenciário nos Centenários de Portugal, em 1940; delegado da Academia Brasileira na Conferência Interacadêmica de Lisboa para o Acordo Ortográfico de 1945; embaixador do Brasil em Portugal em 1953-54. Exerceu o cargo de oficial do 4o Ofício de Registro de Imóveis, no Rio de Janeiro, tendo sido antes tabelião de Notas.
            Em concurso promovido pela revista Fon-Fon, em 1938, Olegário Mariano foi eleito, pelos intelectuais de todo o Brasil, Príncipe dos Poetas Brasileiros, em substituição a Alberto de Oliveira, detentor do título depois da morte de Olavo Bilac o primeiro a obtê-lo.
            Além da obra poética iniciada em livro em 1911, e enfeixada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), publicados pela José Olympio, Olegário Mariano publicou durante anos, nas revistas Careta e Para Todos, sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos, mais tarde reunidas em dois livros: Bataclan e Vida Caixa de brinquedos.
            Sua poesia lírica é simples, correntia, de fundo romântico, pertinente à fase do sincretismo parnasiano-simbolista de transição para o Modernismo. Ficou conhecido como o “poeta das cigarras”, por causa de um de seus temas prediletos.

Obras:
Angelus (1911); Sonetos (1921); Evangelho da sombra e do silêncio (1913); Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac (1917); Últimas cigarras (1920); Castelos na areia (1922); Cidade maravilhosa (1923); Bataclan, crônicas em verso (1927); Canto da minha terra (1931); Destino (1931); Poemas de amor e de saudade (1932); Teatro (1932); Antologia de tradutores (1932); Poesias escolhidas (1932); O amor na poesia brasileira (1933); Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso (1933); O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas (1937); Abolição da escravatura e os Homens do Norte, conferência (1939); Em louvor da língua portuguesa (1940); A vida que já vivi, memórias (1945); Quando vem baixando o crepúsculo (1945); Cantigas de encurtar caminho (1949); Tangará conta histórias, poesia infantil (1953); Toda uma vida de poesia, 2 vols. (1957).

Fonte:
Academia Brasileira de Letras

Trovas dos Concursos Internacionais de Israel e da Espanha

Concurso de Trovas de Israel

Tema: Paz

VENCEDORES

1º Lugar
O terno olhar da criança
é luz singela que encerra
toda crença na esperança
de que a paz suplante a guerra.
Herbete Felipe Silveira e Souza
(Natal/RN)

2º Lugar
São tantas as consequências,
ante o amor que se desfaz...
Que há medos temendo ausências
e há gritos pedindo paz!...
Professor Garcia
(Caicó/RN)

3º Lugar
Ó vento, que varre os mares,
vento que leva e que traz,
sopre sobre nossos lares
a branda aragem da paz!
Dáguima Verônica de Oliveira
(Santa Juliana/MG)

4º Lugar
No dia em que a humanidade
se ver livre, enfim , da guerra,
haverá fraternidade
e “ PAZ” no seio da Terra!
Edna Gallo
(Santos/SP)

5º Lugar
A paz, meu sonho profundo,
vai me escapando das mãos
ao perceber que no mundo
não somos todos irmãos.
Olympio da Cruz Simões Coutinho
(Belo Horizonte/MG)

Menções Honrosas

Um casebre bem singelo
que seja um ninho de paz,
vale mais do que um castelo
onde a união se desfaz.
Marina Gomes de Souza Valente
(Bragança Paulista/SP)

As seduções do dinheiro
e do poder contumaz
matam com tiro certeiro
qualquer desejo de paz.
Lóla Prata
(Bragança Paulista/SP)

Que a paz não seja somente
um acordo entre as Nações,
mas, sim, fraterna corrente
sempre unindo os corações!
Wanda de Paula Mourthé
(Belo Horizonte/MG)

Minha vida tem valia
quando se faz tão maior
que me ultrapassa... e irradia
paz e amor ao meu redor!
Vanda Fagundes Queiroz
(Curitiba/PR)

Se o coração for capaz
de superar queixas vãs,
haverá, de fato, a paz,
e as nações serão irmãs.
Carlos Alberto de Assis Cavalcanti
(Arcoverde/PE)

Menções Especiais

Dos outros não dependamos,
mas cada um erga a voz;
a paz que tanto almejamos
começa dentro de nós.
Jessé Fernandes do Nascimento
(Angra dos Reis/RJ)

Amar é chama, luzeiro,
que a desavença desfaz,
pois só o amor verdadeiro
é mensageiro da Paz.
Eliana Ruiz Jimenez
(Balneário Camboriú/SC)

A palavra de união,
que sempre liberta e acalma,
é simplesmente o perdão...
que veste de paz nossa alma!
Vanda Alves da Silva
(Curitiba/PR)

Jamais ficarás a esmo,
nem sem paz no coração,
se aquele amor por ti mesmo
for igual por teu irmão!
Glória Tabet Marson
(São José dos Campos/SP)

A paz que o homem procura
em qualquer parte da Terra,
ele encontra na ternura,
que mata o vírus da guerra!
Delcy Canalles
(Porto Alegre/RS)

Trovas Destaque

Ó Deus Pai, todo bondade,
cessai a guerra voraz
impondo a fraternidade
para vivermos em paz!
Ruth Farah Nacif Lutterback
(Cantagalo/RJ)

Que a Trova plante, pioneira,
pelo bem que a todos faz,
um raminho de oliveira,
criando o Jardim da PAZ!
Carolina Ramos
(Santos/SP)

Se a paz é um dos caminhos,
mesmo pisando em cascalhos
e enfrentando torvelinhos,
por que vamos por atalhos?
Maryland Faillace
(Santos/SP)

Há de vir um tempo novo,
no qual, meu bom Deus, verás
unido afinal teu povo
no grande abraço da paz!
Antonio Augusto de Assis
(Maringá/PR)

Dentre os caminhos medonhos,
a guerra, sempre voraz,
clausura as cores dos sonhos
longe dos quadros da paz.
Hélio Alexandre S. e Souza
(Caicó/RN)

Concurso de Trovas da Espanha

Tema Música

VENCEDORES

1° Lugar:
Quando uma saudade aperta
e a tristeza não tem fim,
encontro a música certa
nos acordes de Jobim.
Edweine Loureiro da Silva
(Saitama/Japão)

2° Lugar
Deus conferiu tanta essência
à Vida, em múltiplos tons,
que a música da existência
tem mais do que sete sons!
Vanda Fagundes Queiroz
(Curitiba/PR)

3° Lugar
Expressão de amor completo
que um filho pode sentir,
vem da música e do afeto
de quem canta e o faz dormir...
Giovanelli
(Nova Friburgo/RJ)

4° Lugar
O teu sussurro, em langor,
roçando, assim, meus ouvidos,
é grito acordando o amor...
é música aos meus sentidos.
Dodora Galinari
(Belo Horizonte/MG)

5° Lugar
Toda música inebria
de sons os nossos caminhos,
mas prefiro a melodia
do canto dos passarinhos.
Olympio da Cruz Simões Coutinho
(Belo Horizonte/MG)

MENÇÃO HONROSA

É lá no alto das palmeiras
onde cantam sabiás,
que as músicas brasileiras
parecem hinos de paz...
Ercy Maria Marques de Faria
(Bauru/SP)

Quando a música se “solta”...
Deus, rompendo as madrugadas,
rege a orquestra, em nossa volta,
dos cantos de passaradas...
Roberto Tchepelentyky
(São Paulo/SP)

Quando a música abre a porta,
e deixa a saudade entrar,
ao passado me transporta
numa canção de ninar.
Eliana Ruiz Jimenez
(Balneário Camboriú/SC)

A música dos meus sonhos
canta encantos ao luar...
E uns amores tão risonhos
que eu jamais ousei sonhar...
Jaqueline Machado
(Cachoeira do Sul/RS)

Da música inspiradora
das "redondilhas maiores",
faço a trova redentora,
que faz pessoas melhores.
Olivaldo Gomes da Silva Junior
(Mogi-Guaçu/SP)

MENÇÃO ESPECIAL

É um salmo aos ouvidos meus
o trinado dos pardais,
santa música de Deus,
nos altares matinais…
Maria Nelsi Sales Dias
(Santos/SP)

Usem música e poesia
no combate à ofensa e ao ódio.
Assim, quem sabe, algum dia,
possa a paz subir ao pódio!
Antonio Augusto de Assis
(Maringá/PR)

Música, encontro sublime
de acordes, num ritual
que a alma, enlevada, imprime
numa pauta musical...
Darly O. Barros
(São Paulo/SP)

A música é dom fecundo
que o bom Deus mandou à Terra;
única língua em que o mundo
se entende sem fazer guerra.
Thalma Tavares
(São Simão/SP)

O Criador, com certeza,
esmerou-se muito bem:
na mulher, na natureza
e na música também...
Jessé Fernandes do Nascimento
(Angra dos Reis/RJ)

TROVAS DESTAQUE

Tem o tempo um suave encanto,
soprando nos meus ouvidos.
Traz música no seu canto,
saudades de tempos idos.
Agostinho Rodrigues
(Campos dos Goytacazes/RJ)

A música é a arma certa
para matar a saudade;
é também a porta aberta
que atrai a felicidade.
Marina Gomes de Souza Valente
(Bragança Paulista/SP)

A fauna e a flora são mestras
com notas que o mundo encerra
nas músicas das orquestras
em cada “canto” da terra.
Hélio Alexandre S. e Souza
(Caicó/RN)

Quer mamar e, muito esperta,
chora forte e sai da linha...
O choro é a música certa
para chamar a mãezinha...
Milton Souza
(Porto Alegre/RS)

A música mais bonita
que eu consegui escutar,
de uma beleza infinita,
nasceu nas ondas do mar!
Gislaine Canales
(Porto Alegre/RS)

Jean de La Fontaine
O Burro e os Donos

O burro de um hortelão
À Sorte se lamentava.
Dizendo que madrugava
Fosse qual fosse a estação,
Primeiro que os resplendores
Do sol trouxessem o dia.
«Os galos madrugadores –
O néscio burro dizia –
Mais cedo não abrem olho.
E porquê? Por ir à praça
Com uma carga de repolho,
Um feixe de aipo, ou labaça,
Alguns nabos e beringelas;
E por estas bagatelas
Me fazem perder o sono.»
A Sorte ouviu seu clamor,
E deu-lhe em breve outro dono,
Que era um rico surrador.
Eis de couros carregado,
Sofrendo um cruel fedor,
Já carpia ter deixado
O seu antigo senhor:
«Naquele tempo dourado –
Dizia – andava eu contente;
Cada vez que ia ao mercado
Botava à cangalha o dente,
Lá vinha a couve, a nabiça,
A chicarola, o folhado,
E outras castas de hortaliça;
Mas se hoje, fraco do peito,
O meu dente à carga deito,
Em vez da viçosa rama
Da celga, do grelo, ou nabo,
Só acho dura courama
Que fede mais que o diabo!»
Prestando às queixas do burro
A Sorte alguma atenção,
Lhe deu por novo patrão
Um carvoeiro casmurro.
Entrou em nova aflição
O desgostoso jumento.
Vendo faltar-lhe o sustento,
E em negro pó de carvão
Andando sempre afogado,
Tornou a carpir seu fado.
«Que tal! – diz a Sorte em fúria
– Este maldito sendeiro,
Com sua eterna lamúria,
Mais me cansa, mais me aflige
Que um avaro aventureiro
Quando fortunas me exige!
Pensa acaso este imprudente
Que só ele é desgraçado?
Por esse mundo espalhado
Não vê tanto descontente?
Já me cansa este marmanjo!
Quer que eu me ocupe somente
Em cuidar no seu arranjo?»
Foi justo da Sorte o enfado,
Que é propensão do vivente
Lamentar-se do presente,
E chorar pelo passado:
Que ninguém vive contente,
Seja qual for seu estado.

            Jean de La Fontaine foi um poeta e fabulista francês. Filho de um inspetor de águas e florestas, nasceu na pequena localidade de Château-Thierry/França, em 8 de julho de 1621. Estudou teologia e direito em Paris, mas seu maior interesse sempre foi a literatura. Escreveu o romance "Os Amores de Psique e Cupido" e tornou-se próximo dos escritores Molière e Racine. Em 1668 foram publicadas as primeiras fábulas, num volume intitulado "Fábulas Escolhidas". O livro era uma coletânea de 124 fábulas, dividida em seis partes. La Fontaine dedicou este livro ao filho do rei Luís 14. As fábulas continham histórias de animais, magistralmente contadas, contendo um fundo moral. Escritas em linguagem simples e atraente, as fábulas de La Fontaine conquistaram imediatamente seus leitores.Várias novas edições das "Fábulas" foram publicadas em vida do autor. A cada nova edição, novas narrativas foram acrescentadas. Em 1692, La Fontaine, já doente, converteu-se ao catolicismo. Antes de vir a ser fabulista, foi poeta, tentou ser teólogo. Além disso, também entrou para um seminário, mas aí perdeu o interesse. A sua grande obra, “Fábulas”, escrita em três partes, no período de 1668 a 1694, seguiu o estilo do autor grego Esopo, o qual falava da vaidade, estupidez e agressividade humanas através de animais. Faleceu em Paris, 13 de abril de 1695.

Folclore Indígena Brasileiro
O Uirapuru

         Existem diversas lendas sobre essa pequena ave amazônica, cujo canto deslumbrante inspirou Heitor Villa-Lobos a compor um poema sinfônico.
         Esta lenda conta como duas amigas tornaram-se rivais pelo amor de um mesmo homem. As duas moças chamavam-se Moema e Juçara. Desde crianças, elas eram apaixonadas por Peri, o índio mais belo da aldeia. Não havia índia que não se interessasse por ele, mas as únicas que tinham condição de disputar o cobiçado prêmio eram as duas amigas inseparáveis.
         Apesar de rivais, as duas amigas não escondiam uma da outra a sua pretensão.
         – Amo Peri perdidamente – dizia Juçara a Moema.
         – Também sou louca por ele – dizia Moema a Juçara.
        
         As coisas seguiram assim, numa rivalidade amistosa, até o dia em que decidiram consultar o pajé da aldeia para ver o que poderia ser feito para resolver o dilema.
         – Peri não sabe dizer qual de nós duas prefere – disse Moema ao pajé.
         – Acontece que já estamos em idade de casar – disse Juçara.
         Então o pajé, depois de meditar, elaborou a seguinte proposta:
         – Não há outro jeito: vocês terão de disputá-lo para ver quem fica com ele.
        
         No dia aprazado, as duas índias, munidas de arco e flecha, apresentaram-se na mata.
         – Quem acertar o pássaro que eu apontar será a vencedora – disse Peri.
         De arco na mão, as duas índias ficaram à espera da ordem de Peri.
         – Ali, atirem! – gritou o índio ao ver uma ave branca surgir por entre os galhos.
         Duas flechas velozes partiram, silvando no ar, mas somente uma delas acertou a pequena ave.
         – Aqui está! – disse Peri, tomando nas mãos a ave alvejada.
         As duas flechas estavam marcadas, e aquela que estava encravada na ave tinha a marca de Juçara.
         Desde então, Juçara passou a ser a esposa de Peri. Quanto à pobre Moema, decidiu fugir da aldeia e ir se esconder na mata para lamentar a sua infelicidade.
         Tupã, apiedado da moça, decidiu, então, transformá-la numa ave de canto maravilhoso.
         – O seu canto será tão belo que terá o dom de curar a sua própria tristeza – disse o deus.
         Moema, convertida no uirapuru – que em tupi significa “pássaro que não é pássaro” –, passou a morar na floresta, e desde então toda ela silencia sempre que seu canto começa a soar.

Fonte:Ademilson S. Franchini. As 100 melhores lendas do folclore brasileiro. Porto Alegre/RS: L&PM, 2011.

Carlos Leite Ribeiro

Dois Amigos

         Depois de aposentado, o Ricardo vagueava pelas ruas da Baixa de Lisboa, para passar o tempo e recordar antigos episódios da sua vida. Nesse dia, por casualidade, passou pelo café onde seu amigo Alberto passava as tardes a ler o jornal. Entrou no café e dirigiu-se logo para a mesa onde seu amigo estava.
         - Olá, Alberto, como vai essa saúde? Passas o tempo aqui sentado e daqui a pouco nem andar consegues!
         - Tinha o pressentimento que algo desagradável me ia acontecer hoje. Não sabia o que era, mas com certeza que eras tu que me ias aparecer! Já me vai correr a tarde mal. Tu que andas sempre a vaguear pela Baixa, hoje deu-te para entrares aqui neste café posso perguntar porquê?
         - Porque? Porque tinha saudades tuas e queria cumprimentar o meu querido amigo, Alberto.
         - Querido amigo? Por favor não me ofendas com esse termo tão nobre, quando é verdadeiro!
         - É o que eu sou: nobre e verdadeiro. E vim cá dizer-te que ontem vi a tua querida Lena ainda te recordas dela?
         - És um verdadeiro finório (cara de pau). E o que eu tenho com isso?
         - Como foi a tua amada pensei que ficasses feliz por eu a ter encontrado.
         - És mesmo impossível. És sempre o mesmo amigo da onça!
         - Não sei porquê, pois até na altura tive a gentileza de te apresentar a ela, o que ficaste (na altura) muito contente. Pois uma avião (moça linda e apetecível não aparecia todos os dias)!
         - Já conheço essa conversa tua há muito, grande (nem te quero classificar). Mas em que falaram. De mim?
         - De ti não! Falámos das nossas anteriores passagens pela vida. Mas vou contar-te tudo tim-tim por tim-tim?
         Ontem fui dar um passeio até ao Terreiro do Paço e junto à muralha que separa o rio Tejo, vi ao longe um vulto de mulher que não me era desconhecida. Aproximei-me dela e qual o meu espanto que reconheci a Madalena. A nossa conhecida Lena!
         - Olha quem encontro aqui, a minha querida e inesquecível amiga Lena!
         - O que é que fazes aqui? Já pensava que tivesses morrido (o que não seria nenhuma pena?).
         - Passei casualmente por aqui e mesmo de costas reconheci-te. Ainda hoje és uma avião, embora diferente do que conheci há anos, é certo respondeu-lhe ele.
         - Para ti é tudo casualmente, grande finório (cara de pau). Deves estar a recordar as malandrices que fizeste na outra Banda (margem esquerda do Tejo), principalmente em Cacilhas e em Almada?
         - Recordo-me daquela vez em que me convidaste a jantar no Ginjal (Cacilhas); não me recordo bem em que restaurante. Seria no Floresta?
         - Nesse não foi de certeza, pois era muito caro para a minha bolsa. Foi no restaurante Elias.
         - Recordo-me. Até notei que tu eras freguês habitual daquele restaurante, pois o garçon piscou-te o olhos e levou-nos para a tua mesa preferida, junto de uma janela que se via o Tejo e grande parte de Lisboa.
         - Lena, tu tens boa memória! Claro que tinha ido algumas vezes a esse restaurante ? com os meus pais.
         - Deixa-me rir ahahah. Que ingénua eu era nessa altura. Depois do jantar, quiseste que eu fosse a uma pequena praia que ficava mais adiante do Gihjal, onde tu dizias que tinhas pescado muito, com uma armação de dois varões de ferro; fazias um triângulo com a linha e colocavas um sinizinho; depois lançavas a linha ao mar e quando o peixe picava, o sininho tocava? Cara de Pau.
         - Lena, a minha intenção era ensinar-te a arte de pescar, nada mais?
         - Ricardo, quase que estou a acreditar (só quase) é que depois desse ensinamento, passaste à pesca em alto mar, e longe do razoável:
         - Parece que me estou a recordar, sim. Sabes que esta memória já não é a que foi!
         - Cara de Pau! Perdemos com a conversa o último barco para Lisboa, pois quando chegámos ao cais de embarque, já o ferryboat tinha partida há mais de uma hora. E ficámos no teu decrépito e furado Volkswagem, a quem tu chamavas carochinha (no Brasil fusca).
         - Querida amiga, e ficámos muito bem, até às 6.30 horas quando do primeiro ferry para Lisboa.
         - Tinha ido ao cabeleireiro fazer uns caracolinhos e quando abri a janela do meu quarto para minha mãe não saber a que horas tinha regressado, assustei-me a ver-me ao espelho, com o cabelo todo desgrenhado (em desalinho), além das nódoas de óleo que manchavam o meu vestido novo, apanhadas na tua praia, onde prometeste dar-me uma lição de pesca.
         - Felizmente, tinhas deixado a janela de teu quarto só encostada. Eras previdente?
         - Só deixava a janela encostada quando saía contigo.
         - E com os outros?
         - Não comento. Mais tarde, houve outro dia que me convidaste a ir a um baile, não em Cacilhas mas em Almada. Não me recordo o nome da localidade que dizias haver um grande baile.
         - Parece-me que estou a recordar-me. Jantámos no restaurante Gonçalves.
         - Onde também eras conhecido?
         - Nesse dia não fomos para a praia que tinha óleo na areia. Subimos até ao castelo de Almada e depois descemos uma descida muito íngreme até quase ao Olho de Boi, onde descarregavam os barcos de pesca e onde me tinha dito haver um grande baile (mentiram-me).
         - Ricardo, não sei porquê não acredito, nem na altura acreditei. Mas continua?
         - Deve estar recordada que a estrada estava em reparação do lado do mar (direito) e tivemos que fazer inversão de marcha, e subir o que tínhamos descido. Quando chegámos junto das muralhas do castelo?
         - Num recanto que devias conhecer muito bem? Continua.
         - O carochinha avariou e tivemos que passar lá a noite. Dessa vez não te ensinei a pescar lembraste?
         - Se me lembro, dessa tão estranha avaria, pois às 6 horas da manhã, o carro estava bom para apanharmos o ferry às 6.30 horas. Há avarias assim e tu eras mestre em inventá-las!
         - Pelo menos, nessa manhã não chegaste a casa com o vestido com nódoas de óleo.
         - De óleo vegetal, não, mas com nódoas negras (hematoma) nas pernas, principalmente nos joelhos.
         - Nesse dia também tive problemas com minha mãe por causa das calças?
         - Ricardo, por falar em tua mãe, ela era uma formidável cúmplice tua. Atendia muito bem os meus telefonemas, mas tu nunca estavas em casa; ou tinhas saído em serviço da empresa, ou tinhas saída não sabia para onde e por fim disse-me que tinhas ido fim-de-semana com a tua noiva. Perguntei-lhe quem era tua noiva o que ela me respondeu com grande descontração: não sei, são tantas!. Cara de Pau, da pior espécie!
         - Mas tu gostavas do cá cara de pau!!! rssss
         - Na nossa última saída te fintei e muito bem recordaste?
         - Não. São fatos passados há tanto tempo?
         - Vou-te recordar: Combinámos ir a um baile no Estoril. Desta vez não fomos para a outra margem, que ainda não havia a ponte 25 de abril (estava em começo de construção). Jantámos em Oeiras e depois seguimos para o Estoril. No regresso e como habitualmente, o teu carochinha avariou perto da Parede. Enquanto tu fingias que estavas a consertar o carro, eu sorrateiramente, procurei a casa de uma amiga, enfermeira no Sanatório da Parede. Faço ideia da rua cara depois de teres esperado horas e eu não ter aparecido! kakakaka
         - Estou a recordar, estou. Esperei uma hora ou hora e meia antes de regressar a casa de meus pais. Imagina quão furioso eu estava, sua cara de pau, cafajeste, pilantra, etc… Confesso que não achei graça nenhuma com a tua atitude.
         - Estás muito abrasilado, deves ter visto já muitas telenoelas!
         - Pois é, minha amiga, hoje a juventude tem mais liberdade, mas no nosso tempo fazíamos tudo que eles fazem, mas tínhamos que ser mais engenhocas.
         - E nesse aspeto, Ricardo, tu eras um grande engenheiro: Até talvez merecesses o Prémio Nobel.
         - Estamos aqui parados e podíamos ir a qualquer lado?
         - Eu vou ao Barreiro.
         - Então podemos ir ao Barreiro?
         - Tu é que sabes, mas na gare meu filho e meu neto estão à minha espera?
         - Certo. Podíamos marcar um encontro para outro dia?
         - Talvez para o próximo século! Passa bem e se possível, com mais juízo nessa cabeça oca!
         - Então, inté?
         - E foi assim amigo Alberto a minha conversa com a nossa Lena! Na próxima vez que nos encontrarmos, pago eu os cafés.
         - Não disse que te pagava o café!
         - Até à próxima, amigo!

(este texto é pura ficção, qualquer situação, lugar ou pessoas é pura coincidência)

Fonte:
Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal

            Carlos Leite Ribeiro nasceu em Lisboa, na freguesia de São Jorge de Arroios, no dia 05 de Março de 1937. Filho de Acácio Sousa Ribeiro e de Irene Martins Leite Ribeiro. Radicou-se na pequena cidade da Marinha Grande (Distrito de Leiria) com cerca de 30 mil habitantes. É jornalista (da escrita e da rádio), e diz que nas horas vagas é escritor.
            Cursou Educação Física em 1962. Curso Geral de História (Politécnico) com Mestrado em 1976. Curso Geral de Geografia (Politécnico) com Mestrado em 1984. Idealizador do Portal CEN - "Cá Estamos Nós", fundado em 15 de Julho de 1998.
            Membro Honorário e de Honra da ALMECE - Academia de Letras Municipais do Estado do Ceará (Brasil); Membro de “Os Confrades da Poesia” – Amora / Portugal. Participou em várias coletâneas. Tem obras publicadas em ebooks-digitais.

Deonísio da Silva

Expressões e Suas Origens
Parte IX

PAGAR O PATO
Trata-se de expressão que está presente em vários textos de escritores portugueses e no nosso Gregório de Matos (1636-1695), que escreveu esses versos dirigidos a certa mulata: “quem te curte o cordovão/ por que não te dá sapato?/ pois eu que te rôo os ossos/ é que hei de pagar o pato?” A origem mais remota é uma brincadeira: um pato era amarrado a um poste. A calo, a galope, o jogador deveria de um só golpe, cortar as amarras. Quem errasse pagaria o pato. Passou a significar algum ato pelo qual pagamos sem conseguir nenhum benefício.

PAGAR TINTIM POR TINTIM
No final do século XIX, uma peça intitulada Tintim por tintim, estrelada por uma atriz portuguesa que nela fazia dezoito papéis, teve grande sucesso nos teatros do Brasil. A frase já era famosa por suas ligações com desejos de vingança. Tintim é vocábulo onomatopaico para designar o barulho que fazem as moedas ao se chocarem. A expressão, sempre na boca do povo, indicando que todo pagamento deve ser minucioso, usando-se o dinheiro como metáfora, está presente num clássico da literatura portuguesa, Aulegrafia, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515-1583), autor de teatro, mais para ser lido do que encenado.

PARA INGLÊS VER
Esta frase foi dita pela primeira vez em 1808, quando a família real chegou ao Brasil, ainda colônia. A cidade de Salvador, então capital, estava iluminada e Dom João VI (1767-1826) comentou que aquela recepção festiva demonstrava aos ingleses, aliados e protetores dos portugueses, que os brasileiros recebiam-no calorosamente. Virou, depois disso, símbolo de burla nacional ou internacional, sempre de grandes proporções, em que são utilizados vistosos aparatos para enganar. Alguns historiadores dizem que a frase pode ter nascido da fingida vigilância com que os navios brasileiros procuravam navios negreiros. Faziam isso apenas para agradar aos ingleses, que haviam proibido o tráfico de escravos.

PARA TUDO SERVEM AS BAIONETAS, MENOS PARA SENTAR-SE SOBRE ELAS
Esta frase é lembrada quando há ameaça ou promessa de intervenção militar na vida política. Se não foi pronunciada pela primeira vez, foi pelo menos escrita originalmente por Emílio Castelar y Rippol, célebre intelectual e político espanhol, na segunda metade do século XIX. Assumindo o poder, em 1873, na jovem República, cuja instalação liderara, encontrou seu país em grandes desordens. De um homem que já fora condenado à morte durante a monarquia, a Espanha recebeu uma contribuição decisiva para organizar-se como nação. A frase está em sua obra Discurso de cortes.

PARIS É UMA FESTA
Esta frase, título de um dos livros de Ernest Miller Hemingway (1898-1961), nasceu de uma delicadeza parisiense. De acordo com o que nos informa a escritora e psicanalista Betty Milan em seu livro Paris não acaba nunca, em 1957, depois de uma curta viagem à Espanha, o romancista norte-americano hospeda-se no famoso hotel Ritz. Para sua surpresa, os funcionários lhe devolvem duas malas esquecidas 30 anos antes. Dentro delas estavam os diários que escrevera na mesma Paris, entre 1921 e 1926. Outros famosos escritores aprenderam o ofício na mesma cidade, como Henry Miller (1891-1980) e Scott Fitzgerald (1896-1940). Especialmente para estes escritores, a Cidade Luz foi uma festa, pois lá escreveram grandes obras.

PARIS VALE UMA MISSA
Quem pronunciou esta frase pela primeira vez, inaugurando o significado que carregaria pelos séculos seguintes, foi Enrique IV (1553-1610), rei de Navarra e posteriormente da França. Por achar que Paris valia uma missa, abjurou o protestantismo duas vezes, tornando-se católico por conveniência. Primeiro, para casar-se com Margarida de Valois, a rainha Margot (1553-1615), a quem posteriormente repudiou. Escapou do massacre da noite de são Bartolomeu, tonou-se rei da França, voltou ao protestantismo e depois tornou a abjurá-lo por motivos políticos. Morreu assassinado. Paris valeu-lhe outras tantas missas, mas por sua alma. O significado da frase é que vale qualquer sacrifício quando o objetivo é essencial.

PENSANDO NA MORTE DA BEZERRA
A história mais aceitável para explicar a origem do termo é proveniente das tradições hebraicas, onde os bezerros eram sacrificados para Deus como forma de redenção de pecados.
Um filho do rei Absalão tinha grande apego a uma bezerra que foi sacrificada. Assim, após o animal morrer, ele ficou se lamentando e pensando na morte da bezerra. Após alguns meses o garoto morreu.

PENSO, LOGO EXISTO
Um dos pilares da ciência moderna, esta frase celebérrima é de autoria do filósofo, matemático e físico francês René Descartes (1565-1650), e coroa seu método, que se baseia no questionamento de todo o conhecimento, restando apenas a certeza daquele que duvida. As contribuições de Descartes estenderam-se também à geometria analítica e à óptica geométrica. Educado por jesuítas, o filósofo teve também experiência militar, lutando na famosa Guerra dos Trinta Anos. Segundo ele próprio, a natureza de sua ciência, exposta no método sintetizado nesta frase, foi mais claramente revelada num sonho que teve em 10 de novembro de 1619. Com seu nome latino, Renatius Cartesius, foi personagem de Catatau, um importante romance de Paulo Leminski (1944-1989).

PENTEAR MACACOS
Esta frase, proferida como ofensa, é adaptação brasileira de um provérbio português: “Mau grado haja a quem asno penteia”. Na tradição de Portugal, pentear burros e jumentos seria tarefa menor, quase desnecessária. Provavelmente o verbo significava escovar, um luxo para animais de carga. Mas no século XVIII, o animal já havia sido substituído por bugio em Portugal e por macaco no Brasil, tal como aparece em documentos de 1756 assinado pelo rei Dom José (1714-1777), que deve ter penteado muitos macacos, já que quem exercia o poder era o marquês de Pombal (1699-1782), que, inclusive, transferiu a capital do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro. A expressão está registrada por Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) em Locuções tradicionais do Brasil.

PÔR EM PRATOS LIMPOS
O primeiro restaurante foi aberto na frança em 1765. Estabeleceu-se desde o início que a conta seria paga após a pessoa comer, ao contrario do que depois veio a acontecer com os lanches rápidos. Quando o dono ou o garçom vinha cobrar a conta e o cliente ainda não havia feito a refeição, os pratos limpos eram a prova que ele nada devia. A frase passou a servir de metáfora na resolução de conflitos. Quem gostava de pôr tudo em pratos limpos, com “a alma lavada e enxugada”, era o personagem Odorico Paraguaçu, criado por Dias Gomes em O bem-amado e vivido por Pelópidas Gracindo, mais conhecido como Paulo Gracindo (1911-1995).

PRIMEIRO VIVER, DEPOIS FILOSOFAR
Esta frase integra proverbiais sentenças latinas e está registrada em Leviatã, livro publicado em 1651, que viria a transformar-se na grande obra do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), um velhinho que teve muito o que nos ensinar. Em seus textos, defendeu a desobediência quando as leis impostas contradizem as leis naturais, mas ao mesmo tempo defende o Estado como elemento coercitivo que leva ao bom comportamento dos homens. Foi, assim, um partidário do despotismo político, do materialismo filosófico e do egoísmo moral. Pregou o recurso o racionalismo contra as imposições vindas de autoritarismo religiosos. Escrevia em latim e se interessava muito por literatura, tendo traduzido para o inglês a Odisséia. A frase foi originalmente escrita em latim: “Primum vivere, deinde philosophare”.

Fonte:
SILVA, Deonisio da. Expressões e Suas Origens. SP: Girafa Editora, 2004.

Deonísio da Silva nasceu em Siderópolis/SC em 1948. Professor, escritor e etimologista brasileiro, membro da Academia Brasileira de Filologia, vinculado às universidades Unijuí, RS (1972-1981), Ufscar, SP (1981-2003), Estácio, RJ (2003-2015) e Unisul, SC (2014-2015), dando aulas e videoaulas de Língua Portuguesa e respectivas literaturas e desenvolvendo projetos editoriais. Autor de 34 livros, alguns dos quais publicados também em Portugal, Itália, Alemanha, Canadá etc. Suas obras referenciais são o romance "Avante, soldados: para trás" (Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago); "Nos bastidores da censura" (sua tese de doutoramento na USP) e o livro de etimologia "De onde vêm as palavras".

Conto Árabe

A Donzela de Pau

Contam os livros do passado muitas histórias verdadeiras. Por exemplo, que um dia quatro homens: um carpinteiro, um ourives, um alfaiate e um monge, foram viagem. Depois de viajarem certo tempo, aconteceu terem que tiveram de passar a noite numa região perigosa. Temendo ser agredidos por animais ferozes, resolveram que cada um deles, por sua vez, vigiaria algum tempo. O primeiro foi o carpinteiro. Enquanto os outros dormiam, sentiu-se ele invadido de cansaço e, para afugentar o sono, pegou suas ferramentas. Derrubou uma árvore delgada, pôs-se a talhar a madeira, e acabou formando uma figura de donzela, com a cabeça, a mãos e os pés.
Depois foi a vez do ourives. Ao cabo de certo tempo, também este sentiu sono e procurou em que se ocupar. Então seus olhos encontraram a donzela de pau.
Admirou a arte com que estava feita e, para não ceder à sonolência, também deu provas de sua habilidade, fabricando para a estátua brincos, braceletes e outros adornos femininos, com os quais a enfeitou maravilhosamente.
Terminada a vigília do ourives, o alfaiate, por seu turno, ao despertar, avistou, com forte surpresa, o lindo figurino, e exclamou:
– Eu também tenho de mostrar a minha arte.

E fez um encantador vestido de festa para a donzela e vestiu-a da cabeça aos pés Quem a visse sem saber que era apenas uma figura esculpida, toma-la-ia por um ser vivo, tão parecido estava com um espírito encarnado.
Quando a vigília do alfaiate chegou ao fim, ele acordou o monge e foi deitar-se. Mal o monge abriu os olhos, viu a formosa figura. Teve a impressão de um viandante a cujos olhos, em meio as trevas noturnas, de repente rebrilha uma luz – e aproxima-se dela. Que viu? Uma linda figura de tal formosura que nem ascetas e anacoretas a deixariam de adorar; uma bela donzela sem-par; suas sobrancelhas, um oratório, para o amante suplicante rezar; os rubis dos lábios numa tez de marfim prometiam prazeres sem fim. Logo o monge os braços alçou implorando a Quem as almas criou:
– Ó Deus todo-poderoso, que do seio do nada brumoso -para os campos floridos do ser arrancaste o homem e a mulher, tu, só tu, tens o poder de fazer brotar do córtice duro fruto doce, fofo, maduro; ó Deus, demonstra-me tua graça, não me precipites na desgraça, ante os meus companheiros não me humilhe; eu te invoco, empresta alma a este corpo oco a fim de que goze da existência exaltando a tua clemência.

Assim rezava com todo fervor. Como fosse homem de coração puro, o Senhor ouviu-lhe a prece. Com sua inesgotável misericórdia, o Eterno presenteou a estátua com uma alma, e mandou-a viver. Ela se tornou uma linda donzela, cola a vida ligada a uma brilhante estrela; – começou a andar, a se balancear, como os ciprestes oscilam no ar e sem demora se pôs a falar, e tudo o que dizia era gaio como a fala de um papagaio.
Ao chegar da aurora e, com ela, do Sol, delicia do mundo, as olhos dos quatro viandantes caíram sobre o ídolo arrebatador chamado à vida durante a noite.
Apenas viram a esplêndida mulher, uma louca paixão lhes invadiu o ser, os anéis de seus cabelos prenderam-nos em cadeias e feitos moscas ao redor e candeias, voaram em torno dela, dementes, e de paixão doentes -os quatro começaram a brigar.
Sou eu – disse o carpinteiro – de sua vida o autor verdadeiro. Meu direito a vós outros vence; a mim, só a mim ela pertence

Porém o ourives falou assim:
– Não lhe dei brincos, braceletes, enfim? Isso, como todos devem saber, é metade da alma de uma mulher. Ora, se tanto fiz por ela, claro que é minha esta donzela.

Disse o alfaiate, por sua vez:
– Despesas com da minha bolsa também fez; vesti-a seda e brocado, tomando o seu encanto perfeito e acabado comunicando-lhe um brilho tal que acendeu nela a chama vital. Portanto, sou eu o sou dono, e a ninguém a abandono.

Mas o monge exclamou:
– Não! – Tudo o que disseste é vão. Então esqueces me sua vida é fruto de minhas preces? Foi a mim que deu o Supremo Juízo, como antegozo das huris do Paraíso. Para mim a requisito; meu direito é manifesto!.

Em poucas palavras. não encontraram outra saída a não ser se meter suas reivindicações à decisão de um tribunal; e iam-se caminhar ao mais próximo, quando aparece diante deles um viandante vestido de pano de chita. Logo os quatro resolvem fazê-lo árbitro de sua divergência o aceitar qualquer sentença ele pronunciasse. Chamaram-no, pois. e contaram-lhe minuciosamente todo o sucedido. Mas logo o daroês viu a linda donzela – apaixonou-se por ela e, como flauta plangente, entrou a gemer de repente, refletiu no momento e, para curar o seu próprio tormento, assim falou aos quatro viajantes:
– Ó muçulmanos que palavras estultas acabais de pronunciar! Não temeis o Todo-Poderoso ao cometer tamanho crime querendo-me roubar minha legítima esposa?
Um de vós até ousa pretender havê-la talhado na madeira; outro ter pronunciado uma prece por ela. Dizei, afinal, algo de razoável, algo de possível segundo a lei divina! Esta é a minha mulher e as vestes e os objetos que ela usa, fui eu que mandei fazê-los. Alguns dias atrás, houve entre nós uma briga sem importância; aborrecida com isso, minha mulher deixou a casa esta noite. O desejo de encontrá-la fez-me ir à procura dela. Graças a Deus consegui encontrá-la, efetivamente. Cuidai vós outros pois, de não vos tonardes ridículos com conversas, destituídas de qualquer fundamento.

Assim o daroês, em vez de resolver a contenda, sobrepujou as reivindicações dos quatro viajantes, e então foram cinco a pretender cada um estar com razão contra os demais. Em discussões e brigas chegaram a uma cidade, e sem demora se dirigiram ao chefe de polícia para expor o seu caso. Mal o chefe de policia viu a jovem, apaixonou-se por ela com veemência mil vezes maior do que a dos cinco forasteiros, e, no intuito de obtê-la para si investiu deste modo contra eles:
– Homens pérfidos, esta criatura era mulher de irmão mais velho. Este foi morto por ladrões, que lhe roubaram a esposa. Mas, graças a Deus, sangue derramado não se perde e vossos pés vos conduziram ao laço.

Destarte o chefe de policia terminou sendo um rival mais impetuoso ainda que os outros cinco; mandou citá-los sem tardança perante a justiça e ele mesmo os acompanhou ao cádi. Cada um se esforçava por explicar sua pretensão àquele respeitável personagem, quando ele de súbito olhou para o rosto da mulher, e

Surgiu-lhe ante os olhos formosa menina,
Dos pés a cabeça – graciosa, divina!
Altivo cipreste, perdido deixava,
Enfermo de amores, a quem fitava.

Quando o cádi viu ante si essa criatura, sentiu-se presa do desejo de possuí-la.
– Meus amigos, disse ele, a contenda que estais levantando é nula. Esta linda mulher é uma escrava crescida em minha casa e tratada desde criança como se fora minha filha. Seduzida por homens maus, abandonou-me, levando as jóias e as vestes com que a vedes. Graças sejam dadas ao Altíssimo que ma restitui mercê de vossa obsequiosidade. Espero que Deus, que tudo sabe, leve em conta o serviço que me acabais de prestar e vos dê merecido prêmio.

Ao ouvir tais palavras, quatro dos competidores de apartaram, porque sabiam que o cádi lhes poderia infligir humilhações e castigos sem que eles se pudessem defender. Mas o darôes teve coragem para levantar a voz:
– Achas lícito, tu que pretender estar sentado no tapete do Profeta, não resolver uma contenda de muçulmanos ortodoxos segundo a lei sagrada, mas, pelo contrário, levantar tu mesmo uma pretensão, procurando arrebatar-nos esta donzela? Que religião te autoriza semelhante injustiça? Como te atreverás a comparecer amanhã, perante o Criador do mundo?
– Olha, ladrão de estátuas – respondeu o cádi, tu que por meios de jejuns encovaste as faces para enganar as gentes; tu que pretender fazer crer que andas curvado pelo temor de Deus, olha o provérbio que diz: “Um bom mentiroso deve ter não só excelente memória, mas também uma inteligência penetrante e aguda.”
– Onde está a tua inteligência? Querendo contar-nos patranhas, procura, ao menos, dar-lhes uma aparência decente. Será possível fazer um ser humano de um pedaço de madeira? Renuncia a pretensões tão ridículas e vai-te para onde quiseres. Eu felizmente recuperei minha escrava.

Havia no pátio do tribunal alguns cidadãos que assistiam à disputa. Referindo-se a estes, disse o monge:
– Os cidadãos aqui presentes, como ignoram o verdadeiro estado das coisas, devem supor, ó cádi, que a verdade está contigo Mas nós outros sabemos bem o que aconteceu.Teme pois, a Deus, e, em respeito ao Santo Profeta, decide o caso segundo a lei sagrada.

O cádi replicou ao monge, o monge por sua vez respondeu ao cádi com as palavras que lhe pareceram mais violentas, e de pronto o diálogo se transformou em veemente discussão.Os sete homens, todos mortalmente apaixonados, preparavam-se para a luta. Porém, os mais razoáveis dos circunstantes deliberaram reconciliá-los e disseram-lhes:
– Muçulmanos, a vossa contenda é um nó insolúvel, a menos que o Magnífico se digne desatá-lo. Portanto, atendendo ao conselho de um ditado do Profeta que nos foi transmitido:
Se a um caso da vida não sabes achar solução,
Consulta os que dormem seu sono debaixo do chão.

– Vamos todos juntos ao cemitério; ali vós rezareis e nós pronunciaremos o amém Destarte se pode esperar que Aquele-Que-Tudo-Segura elucide o mistério.

A proposta foi aceita e transportaram-se todos ao cemitério, onde o monge, erguendo os braços ao céu, e com lágrimas nos olhos, pronunciou com o mais intenso fervor, esta oração:
– Ó Fortíssimo, cujo poder não tem lindas, – que os pensamentos mais secretos deslindas -, cuja mente de antemão conhece – a nossa prece, – imploramo-te que desates o nó, que nos causa tanto dó – e declares bondosamente – quem diz a verdade e quem mente.

Quando acabou de pronunciar estas palavras, toda a assembléia exclamou a uma voz:
– Amém!

Nesse instante aconteceu que uma grande árvore, à qual se recostara a linda donzela durante a oração, fendeu-se de súbito, engoliu a donzela, e novamente se fechou, ficando como dantes. Dessa maneira se verificou mais uma vê a verdade da misteriosa sentença: “Todas as coisas voltam a sua origem.”
Tal desfecho pôs fim a qualquer discussão. Com os olhos da certeza, todos reconheceram que os quatro viajantes haviam dito a verdade e os outros homens haviam mentido. Assim a razão dos peregrinos se manifesta e desmascara-se a fraude infesta. O darôes, o chefe de polícia e o cádi ali ficaram e quedaram de todos desprezados e envergonhados.
Mas os quatro peregrinos – apaixonados pelo lindo figurino, ficaram perplexos ao ver a virgem – tornar destarte à sua origem.

Fonte:
Jô Andrada (seleção). Contos Populares do Mundo.

A Poesia de Helena Kolody:
busca do essencial

artigo de Antonio Donizeti da Cruz (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)

         A inquietação é um dos eixos temáticos da poesia de Helena Kolody, visto como questionamento da linguagem e como uma solicitação original da consciência; uma agitação interior do sujeito, voltando-se para si-mesmo. Assim, ele se vê forçado “a inquirir os sinais de sua origem e transcendência, procurando na existência o sentido da vida”, tal como afirma o filósofo Lavigne (1958, p. 28-29). O poeta – “instaurador de sentido nos signos”, no dizer de Esteban (1991, p. 43), – é um ser em constante busca, deixando transparecer no poema sua inquietação e questionamentos. Em se tratando da questão da brevidade da vida, a poesia é o sinal do ser humano e seu testemunho perante o futuro. Na modernidade, segundo Paz, “o poema assume a forma da interrogação. Não é o homem que pergunta: a linguagem nos interroga” (1982, p. 345).
         No itinerário poético de Helena Kolody, poeta da modernidade, evidenciam-se certas temáticas constantes, dentre as quais, a questão da brevidade da existência, a inquietação do poeta em relação à vida, ora a exaltação intensa da vida ora o desencanto. Também, percebe-se a temática do amor, do desejo de realização, da questão da vida e da morte, da solidão e busca de sentido para a existência. Em sua poesia, a vertente da religiosidade – a nostalgia da totalidade, a aspiração ao absoluto (“Tu”, “Senhor”, “Deus”) – aponta para o desejo de um mundo transcendente. A questão da brevidade da vida e transcendência ficam evidentes no poema “Mergulho”. O sujeito lírico revela-se inquieto, dividido entre o plano terreno e o espiritual:

Almejo mergulhar
na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude (p. 70).

         No texto, percebe-se uma busca do eu-lírico em relação ao plano espiritual. O silêncio está associado à condição de solidão, pois o poeta, ser solitário e solidário, é capaz de dar sentido à vida. Entre as limitações próprias da condição da vida no plano físico e no plano espiritual, há o espaço intermediário, ou seja, o momento presente, no qual o poeta almeja mergulhar. Na interiorização do instante e despojamento, o eu-lírico constata que através de seu canto é quase possível preencher o vazio existencial.
         O tanka “Sabedoria” mostra a temática do efêmero, da brevidade da vida, do tempo e da saudade. No poema, salientam-se o exercício lúdico, as pausas dos versos, as ligações dos segmentos frasais e o conteúdo das recordações do sujeito lírico, que inquieta-se perante a vida:

Tudo o tempo leva.
A própria vida não dura.
Com sabedoria,
colhe a alegria de agora
para a saudade futura (p. 29).

         Há uma perfeita relação semântica entre os versos do poema, mostrando que a vida é finita como as coisas que passam. O texto aponta para uma questão essencial: o ser humano tem um tempo a cumprir na existência. Por isso, a necessidade de se viver intensamente o presente, ou seja, o carpe diem é a tônica que movimenta o poema e remete para a necessidade de se buscar com sabedoria a alegria de agora tendo em vista a saudade futura.
         O poema “Queixa” apresenta o inconformismo em relação ao sofrimento, à angústia e à tristeza, por parte do sujeito lírico que se questiona:

Tu, Senhor, que repartes os destinos:
Por que me deste o árido quinhão
De sonho, de tristeza e solidão? (p. 196)

         Os versos são marcados por um lirismo terno. No último verso do poema, os três signos: sonho, tristeza e solidão denotam a introspecção do sujeito lírico, que se sente inquieto perante a vida. As enumerações contribuem para a manutenção do ritmo do poema. O tom de indagação que direciona o texto mostra um conflito entre o eu e o mundo circundante. O questionamento da linguagem pode estar relacionado à consciência tensa, inquieta do eu poético, em constante interrogação.
         No haicai intitulado “Os tristes”, a inquietação do sujeito lírico enquanto questionamento fica evidente:

Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita? (p. 26).

         São versos marcados por um sentimento melancólico. Salienta-se a temática da solidão, pois em meio à ausência e silêncios, os tristes sonham. A imagem do caramujo remete à idéia de isolamento e introspecção. No verso final, destaca-se a indagação do sujeito lírico. Em “Emblema”, poema composto por três versos, a temática do sofrimento e da religiosidade aparecem de forma nítida, em que o eu-lírico salienta sua inquietação:

 “A fogo imprimiste, Senhor,
Na carne de meu coração
A tua insígnia de dor” (p. 195).

         São versos que revelam que a dor e o sofrimento são inseparáveis da vida. A religiosidade e o amor se fazem presentes no poema “Prece”, em que o sujeito lírico suplica:

Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d’alma alheia o espinho que magoa (p. 217).

         No texto, o amor é forma divinizada de oferenda, de desejo de partilha com os outros. A linguagem metafórica caracteriza-se pela rigorosa disciplina e pela concisão, visíveis na brevidade das composições, quase sempre apoiadas no esquema recorrente das rimas. O signo estrelas é metáfora de bondade e de amor. No poema abaixo, intitulado “Transeuntes”, o efêmero e o eterno cruzam-se numa rede de sentidos. Os versos do poema apresentam uma atitude inquieta do eu poético, que anseia por atingir o mundo transcendente:

Transeuntes
da vida provisória:
que rumor de asas eternas
para além das fronteiras e dos símbolos! (p. 59).

         Nos versos do poema, percebe-se que o ser humano vive uma “vida provisória”, ou seja, o texto trata da brevidade da vida. O sujeito poético alicerça a construção de uma lírica, através de um eu que se caracteriza pelo desejo de realizações e buscas. As imagens e símbolos, na poesia kolodyana, apontam para o caráter transitório da vida e também para o plano espiritual. Nesse sentido, Gilbert Durand assevera que “o símbolo, no seu dinamismo instaurador em busca de sentido, constitui o próprio modelo da mediação do Eterno no temporal” (1995, p. 108).
         O poema “Viagem infinita” expressa a condição do homem peregrino em permanente viagem. O eu-lírico declara:

Estou sempre em viagem.
O mundo é a paisagem
que me atinge
de passagem (p. 39).

         O poema apresenta uma linguagem condensada, característica essencial da poesia kolodyana. A rima é também um dos recursos fundamentais em sua poesia, justamente pelo poder de suscitar inesperadas alianças de termos, de sentidos. Não se trata apenas da sonoridade, musicalidade, mas o que está em jogo é a estrita relação entre som e sentido. O “estar em viagem” aponta para a condição itinerante do ser humano. Assim, a viagem simboliza a busca da verdade, da paz, da imortalidade, da procura e da descoberta de um centro espiritual (Chevalier & Gheerbrant, 1991, p. 951). Se a viagem infinita representa a busca do plano transcendente, o mundo apresenta-se como uma morada transitória dos homens, pois ele é só uma “paisagem” que atinge o sujeito lírico de “passagem”.
         O haicai intitulado “Depois” aponta para a relação do homem com a natureza. O momento presente inquieta o eu-lírico que sabe de sua situação enquanto viajante das galáxias, ao afirmar:

Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora (p. 26).

         A temática da transitoriedade do ser, faz-se presente nos versos do poema, situando o onde, o quando e o que do acontecimento poético. No haicai “Desafio”, o sujeito lírico declara:

A vida bloqueada
instiga o teimoso viajante
a abrir nova estrada (p. 27).

         Nos versos do poema, percebe-se as ligações dos segmentos frasais, a sonoridade e o jogo de palavras. O texto mostra que é necessário vencer os obstáculos da vida, para abrir novos caminhos. A estrada é símbolo de viagem e transitoriedade do ser que está sempre em busca de realizações.
         Em “Solidão”, a temática do tempo, da solidão, da insatisfação humana e do sofrimento aparece de forma nítida. Nos dois primeiros versos do poema (fragmento), o eu-lírico confirma que

“Estamos sempre sozinhos
Em nossas horas maiores” (p. 170).

São versos que revelam que o homem é por natureza um ser solitário. A solidão é a profundeza última da condição humana. Para Octavio Paz, o homem é nostalgia e comunhão, por isso, cada vez que se sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão (PAZ, 1984, p. 175). Essa afirmativa do autor fica evidente nos poemas kolodyanos. O tema da solidão também está presente no poema Cantar, mostrando que partilhar a solidão é uma maneira de ir ao encontro do outro. Os versos do poema exemplificam a afirmação:

“Quem vai cantando
não vai sozinho.
Dançam em seu caminho
o sonho e a canção” (p. 50).

         Ao se referir à solidão, Helena Kolody afirma que há uma espécie de solidão positiva e necessária: para pensar, para sonhar, para criar, ou, simplesmente, olhar pela janela a paisagem lá fora. É na solidão que a gente consegue olhar para dentro de si e encontrar-se. O próprio sonho floresce na solidão. E toda criação é, a princípio um sonho lúcido(In: BASSETI, 1990, p. 5).
         Na poesia de Helena Kolody, a temática da solidão, relacionada à questão da vida e da morte, é recorrente. A autora expressa sua maneira de ver o mundo e, ao mesmo tempo, realiza uma poesia enquanto busca de sentido existencial e resistência. No poema “Ensaio”, os signos vida e morte apontam para a solidão. Em três versos, com uma linguagem lúdica, o sujeito poético afirma:

A solidão da vida,
Longo ensaio
Da solidão da morte (p. 156).

         Nos versos do poema, a vida e a morte se fundem numa rede de sentidos. A solidão da vida parece ser somente um ensaio, para a “grande solidão” de cada ser humano. Nesse sentido, a poesia é capaz de comunicar uma profunda consciência do sentido da vida e seus mistérios, pois como diz Octavio Paz, “vida e morte são apenas dois movimentos, antagônicos mas complementares, de uma mesma realidade” (1984, p. 177).
         Na poesia de Kolody, a morte aparece como experiência cotidiana, mas marcada por ausências e despedidas, conforme se pode constatar no texto “’Anoitecer”, em que o eu poético afirma:

Amiudam-se as partidas…
Também morremos um pouco
no amargor das despedidas.

Cais deserto, anoitecemos
enluarados de ausências (p. 84).

         Verifica-se, nos versos, a linguagem metafórica e a preocupação do eu poético em relação à palavra, enfatizando o ato comunicativo. Nas séries “cais deserto, anoitecemos/ enluarados de ausências”, percebe-se um ritmo cadenciado. A imagem do cais deserto remete à idéia de solidão. O morrer um pouco, as partidas e despedidas, faz com que o sujeito sinta a ausência dos que se foram. Ele também acaba por se envolver, pois “anoitecemos/ enluarados de ausência. O vocábulo “anoitecemos” pode siginificar a metáfora de envelhecer (p. 33). A morte também pode estar relacionada ao aspecto lúdico. No texto intitulado “Jogo”, o sujeito poético mostra que a poesia é jogo e luta “de vida e morte” com as palavras:

A morte espreita, em silêncio
O vivo jogo dos homens
No tabuleiro do tempo.

Estende, às vezes, de repente,
A longa mão feita de sombra
E tira um peão do tabuleiro (p. 147).

         Se o jogo é, fundamentalmente, um símbolo de luta entre as forças da vida e da morte, nos versos kolodyanos, o jogo também aponta para este sentido. Na primeira estrofe, a morte observa o vivo jogo dos homens para, só depois, estender sua “mão de sombra”, e tirar um peão do tabuleiro. O vocábulo peão induz à metáfora de homem. Com uma linguagem metafórica, o sujeito poético cria significados precisos. No poema, a palavra é a pedra que ele joga no xadrez do poema: poesia feito jogo. As palavras-imagens vão sendo “colocadas” no tabuleiro do poema e, no final, tem-se o poema, composto de versos singulares. No prólogo da obra O outro, o mesmo, o escritor Jorge Luis Borges, afirma que a poesia é um xadrez misterioso, cujas peças mudam como um sonho (1999, p. 258), pois

“Em seu austero canto, os jogadores
Regem as lentas peças.
[…]
Não sabem que a mão assinalada
Do jogador governa o seu destino,
Não sabem que um rigor adamantino
Sujeita seu arbítrio e sua jornada”
(BORGES, 1999, p. 211).

         Dessa forma, os versos de Kolody e de Borges apontam para a idéia do inesperado e do jogo. Ou seja, os homens fazem parte da peça de um tabuleiro de xadrez e, de repente são retirados do jogo. A mesma temática da vida e da morte está presente no poema dístico intitulado “Tempo”. O eu-lírico declara:

Cai a areia da vida
Na ampulheta da morte (p. 145).

         Nos versos do poema, salienta-se o caráter lúdico da linguagem poética, ou seja, o que o poeta essencialmente faz é jogar com as palavras. As imagens da areia e da ampulheta estão organizadas na estrutura do poema de forma harmoniosa, confrontando com as palavras vida versus morte. A ampulheta, símbolo do tempo, está relacionada ao título do poema. No poema sintético intitulado “Areia”, percebe-se a temática da efemeridade da vida:

Da estátua de areia,
nada restará,
depois da maré cheia (p. 82).

         Os versos apontam para o caráter efêmero e transitório da existência. O signo areia funciona como metáfora de corpo; maré cheia como metáfora de morte. No jogo da linguagem aparece claramente os questionamentos do sujeito lírico. No texto “Diálogo”, a temática diz respeito à questão da vida, relacionada à problemática do ser que se questiona, em busca do sentido da vida:

Debruçados sobre a vida,
indagamos seus mistérios
e raramente alcançamos
suas respostas cifradas.

Ao calor do interrogar-se
nuvens ocultas esgarçam-se,
a luz em nós amanhece (p. 76).

         No texto predomina o trabalho metafórico da linguagem sobre outros recursos poéticos, tais como paralelismos, rimas, assonâncias. São versos que acentuam a condição do sujeito “plural”, que se indaga frente aos segredos da vida. Com uma linguagem elaborada e metafórica, a poeta celebra a vida e o canto festivo nos versos do poema intitulado “Alegria de viver”:

Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.

Quero viver a magia
de cada instante,
embriagar-me de alegria.

Que importa a nuvem no horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia (p. 35).

         A consciência da brevidade da vida e o futuro incerto fazem com que o sujeito lírico valorize o momento presente. No texto, a morte é um processo natural, surgindo como uma perspectiva certa da finitude do homem. A consciência de que a morte pode chegar a qualquer momento, não é obstáculo para que o sujeito lírico viva intensamente o momento presente. Um outro texto que traz o encanto e a magia da vida é o tanka “Aquarela”, com grau máximo de comunicabilidade e lirismo, em que o eu poético busca o instantâneo e a integração da vida e da natureza:

Sol de primavera.
Céu azul, jardim em flor.
Riso de crianças.
Na pauta de fios elétricos,
uma escala de andorinhas (p. 28-29).

         A linguagem do poema é marcada por uma força lírica na qual o sujeito poético conjuga a relação do sentimento vital integrada à constante renovação cíclica da vida. Neste tanka, os elementos da natureza se relacionam de maneira harmoniosa. No “coração do poema”, destaca-se o verso “riso de criança”, que simboliza a simplicidade natural, a espontaneidade. São versos deste teor que comprovam a simplicidade da poesia kolodyana, pois eles fluem naturalmente como voz sonora, capaz de bem-dizer a vida e seus instantes.
         Em “Dom”, verifica-se o poder mágico das palavras, em uma linguagem lúdica, rica em associações de idéias, símbolos e metáforas. Em três versos, o eu poético sintetiza o pensamento:

Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la (p. 51).

         A temática do poema mostra a questão da religiosidade e também a problemática que envolve o ser humano: as possibilidades e impossibilidades de realizar-se. O vocábulo estrela é a metáfora de vida. Se há os que fazem da estrela um sol de realizações, há os que nem conseguem atingir seus objetivos, justamente por não descobrirem a sua estrela. Símbolo do princípio da vida, a estrela é fonte de luz. Já o sol é fonte de calor, de luz e de vida. É também, símbolo de inteligência cósmica e da luz do conhecimento (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1991, p. 836-841).
         Em “Sempre madrugada”, poema dístico, os versos são simples e fluentes, marcados por um ritmo dinâmico:

Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada (p. 70).

         Através dos versos livres e da sonoridade, mostra-se a temática da busca de realização humana. Salienta-se também que o ser humano está sempre em viagem, em busca de um sol que o realize. Em “Cronos”, poema dístico, o sujeito lírico reforça a idéia expressa nos versos anteriores:

Não é o tempo que voa.
Sou eu que vou devagar (p. 55).

         O “estar em viagem” é um processo temporal delimitado pelas circunstâncias da vida. No afã de conquistar as realizações humanas, faz-se necessário “apressar a lida”. No poema sintético “Sem aviso”, o sujeito lírico salienta:

“Sem aviso,
o vento vira
uma página da vida (p. 35).

         São versos que apontam para a brevidade da vida. Percebe-se a sutileza do sujeito poético em articular a linguagem, atingindo a essência e um alto grau de concisão. No texto, o eu-lírico expressa a condição efêmera da vida, através da metáfora vento que funciona como morte. No poema “Hora plena”, o eu-lírico alerta para a necessidade de se viver o momento presente:

Hora plena, a do meio-dia.
As figuras não projetam sombras.
A luz incide, vertical, nas criaturas.

Hora total em que o ser atinge
a plenitude (p. 47).

         Nesse sentido, a poesia de Kolody apresenta uma linguagem metafórica que aponta para a busca de sentido exitencial. Sua poesia parte da experiência cotidiana e a transcende mediante a imagem poética a uma dimensão maior, despertando no leitor uma consciência de plenitude, ou seja, linguagem enquanto revelação da condição humana: presença e finitude.
         A obra kolodyana apresenta uma maneira intensa de entender e expressar os sentimentos do mundo, numa poesia que tem por centro temático a inquietação, em que a vida, “a inquietação suprema de viver”, alia-se à “suprema angústia de pensar”. O tema da inquietação, na poesia kolodyana, se refere à busca de sentido para a existência, sentido este evidenciado através do processo criador. Dessa forma, constata-se que seus poemas se traduzem em versos tranqüilos, apaziguadores, até mesmo esperáveis, em termos do código lírico, ou seja, a inquietude temática se resolve na composição em que predomina a harmonia.
         Em relação à síntese e ao “estado de poesia”, Helena Kolody afirma que “o nascimento do poema” surge da inspiração, mas depois vem o “burilamento, que antes eu não fazia. O meu burilar é principalmente cortar. Muitos poemas foram reduzidos, qualquer um pode notar isso, a três versos. Ao mesmo tempo, parece que a poesia vem mais enxuta, mais essencial” (In: VENTURELLI, 1995, p. 23).
         Cumpre observar que, entre os primeiros críticos a apresentar a poesia Helena Kolody estão Rodrigo Júnior e Andrade Muricy. A autora teve orientação muito especial de Muricy. Ela declara que na sua formação escolar seu contato era com textos literários simbolistas e parnasianistas, e que chegou à literatura modernista através da obra A nova literatura brasileira, de Andrade Muricy (MURICY, 1936). “Por ser amigo de meus amigos, ele me ofereceu o livro e para mim foi uma descoberta. Eu não conhecia nenhum daqueles autores, porque nada do que eu lia ia além de Olavo Bilac” (In: VENTURELLI, 1995, p. 20). A autora afirma ainda que Muricy lia seus textos, mas “não mexia no que a gente escrevia. […] Uma vez ele me falou: “reparei que você chega mais ao objetivo nos poemas curtos. Você tem talento para a síntese. Os seus poemas mais breves são os melhores” (Id.; ibid.).
         Consoante as afirmações da autora e a evolução de sua obra, nota-se que na lírica kolodyana ocorre um “enxugamento” dos textos, encaminhando-se cada vez para um estilo direto, privilegiando a economia dos meios de expressão. A força de seus poemas reside no alto grau de concisão e síntese. A autora realiza um fazer poético marcado por uma linguagem densa, sutil, registrando o instantâneo, a fugaz e as coisas mais simples. Tal como o tecelão que vai escolhendo os fios e emaranhando-os no tear, da mesma forma, Kolody constrói seus poemas, elaborando-os cuidadosamente. Os poemas kolodyanos possuem uma relação de sentido que os mantêm interligados a uma constante temática: a construção do poema, o fazer poético, seu material: palavras, frases, linguagem; as dificuldades encontradas pelo sujeito poético na construção de seus poemas; a tentativa do poeta de – por meio de um trabalho com a linguagem – transpor muros e barreiras, tendo em vista a livre expressão de seus anseios e desejos.
         Seus poemas sintéticos, condensados (haicais, tankas, dísticos, tercetos, epigramas, entre outros), são construídos a partir das coisas simples e cotidianas e remetem às profundas reflexões sobre o sentido da existência. Essencialmente lírica, sua poesia tem o poder de despertar o leitor para a observação da “linguagem-natureza” mostrando que a poesia é signo de vida, poder, alquimia e nostalgia. Helena Kolody tem uma obra inconfundível. Desde a sua primeira obra, Paisagem interior (1941) a Reika (1993), sua poesia evolui no sentido de síntese reflexiva, concisão e alto grau de lirismo espontâneo, contido, numa linguagem que é, acima de tudo, busca do essencial.

Fonte:
Espéculo. Revista de Estudios Literarios. Facultad de Ciencias de la Información Universidad Complutense de Madrid. Revista Digital Cuatrimestral. Nº 26. marzo – junio 2004 Año IX .

            Helena Kolody nasceu em Cruz Machado (PR), em 12 de outubro de 1912, e faleceu em Curitiba (PR), em 15 de fevereiro de 2004. Seus pais nasceram na Galícia Oriental, Ucrânia, mas se conheceram no Brasil, onde se casaram em janeiro de 1912. Passou a maior parte da infância em Três Barras.
            Foi professora do ensino médio e inspetora de escola pública.
            De 1928 a 1931, cursa a Escola Normal Secundária (atual Instituto de Educação do Paraná).
            Consta que foi a primeira mulher a publicar hai-kais no Brasil (1941).
            Foi admirada por poetas como Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminski, sendo que, com esse último, teve uma grande relação de amizade.
            A partir de 1985, quando recebe o Diploma de Mérito Literário da Prefeitura de Curitiba, a sua obra passou a ter grande repercussão no seu estado e no restante do País.
            Em 1988, é criado o importante Concurso Nacional de Poesia Helena Kolody”, realizado anualmente pela Secretaria da Cultura do Paraná.
            Em 1991, é eleita para a Academia Paranaense de Letras.
            Em 1992, o cineasta Sylvio Back faz filme “A Babel de Luz” em homenagem aos seus 80 anos, tendo recebido o prêmio de melhor curta e melhor montagem, do 25° Festival de Brasília.
            Em 2003, recebe o título de “Doutora Honoris Causa” pela Universidade Federal do Paraná.

Bibliografia:
Paisagem Interior (1941); Música Submersa (1945); A sombra no rio (1951); Poesias Completas (1962); Vida Breve (1965); Era Espacial e Trilha Sonora (1966); Antologia Poética (1967); Tempo (1970); Correnteza (1977, seleção de poemas publicados até esta data); Infinito Presente (1980); Poesias Escolhidas (1983, traduções de seus poemas para o ucraniano); Sempre Palavra (1985); Poesia Mínima (1986); Viagem no Espelho (1988, reunião de vários livros já publicados); Ontem, Agora (1991); Reika (1993); Sempre Poesia (1994, antologia poética); Caixinha de Música (1996); Luz Infinita (1997, edição bilíngüe); Sinfonia da Vida (1997, antologia poética com depoimentos da poetisa); Helena Kolody por Helena Kolody (1997, CD gravado para a coleção Poesia Falada); Poemas do Amor Impossível (2002, antologia poética); Memórias de Nhá Mariquinha (2002, obra em prosa); Viagem no Espelho (1995).

Fonte:

Teatro de Ontem, de Hoje, de Sempre
A Solidão nos Campos de Algodão

         Estréia, no Brasil, da peça de Bernard-Marie Koltès, encenada por Gilberto Gawronski, que encontra na economia de meios e na secura expressiva uma via de valorização do texto e da tensão dramática.
         Em Na Solidão dos Campos de Algodão, o autor francês, como em outras obras, tematiza a solidão. Não há uma ação evidenciada – o texto é construído a partir de extensos monólogos e o conflito se estabelece até o final pela contraposição desses discursos que subentendem dois lados complementares de uma situação. São dois homens sem nome e sem referências passadas explícitas, que expõem, por meio da palavra, um jogo feito apenas de sugestões ao longo de cada monólogo. Tráfico de droga ou de sexo, o texto não explicita as motivações nem o local onde se dá o encontro.
         As qualidades poéticas do texto são ressaltadas pela tradução de Jacqueline Laurence. Na montagem de Gilberto Gawronski, o cenário trata apenas de circunscrever o espaço e neutralizá-lo, enquanto que a iluminação cria áreas de sombra e favorece o clima ermo. Não há divisão entre palco e platéia. O espetáculo é encenado para poucos espectadores que se sentam sobre caixas espalhadas pela pequena sala, onde os dois personagens se encontram. O diretor consegue imprimir ação ao texto por meio da sugestão, estabelecendo este jogo de gato e rato, de compra e venda, trabalhado apenas na voz e na atitude, com quase nenhum deslocamento e economia de gestos. Segundo o crítico Macksen Luiz, a montagem “pulsa com a virulência de um enfrentamento, ao mesmo tempo que leva o espectador a um universo provocantemente poético” e “procura ser aliciante, quando a força dramática da peça não está naquilo que sugere ação, mas naquilo que encobre a falta de ação”.
         Os dois atores trabalham em vias quase opostas. Ricardo Blat busca a interiorização e um tempo dramático emocional enquanto Gilberto Gawronski compõe uma figura socialmente nítida, com um humor ácido e uma tonicidade que sustentam o clima de tensão do espetáculo.

Fonte:
Enciclopédia Itaú Cultural

Adriana Lisboa

Lady Anne

I must take my leave
For promised I am
(Jagger/Richards)

         A pata encontrou no chão um buraco improvável. Lady Anne estava na dianteira, quinhentos metros finais. Mas o espaço mínimo colheu seu galope, fez dele um soluço, Lady Anne sentiu num pedaço de segundo a pane se propagar pela rede de músculos, de ossos e tendões e articulações. A pata se dobrou como não devia. E Lady Anne sentiu o corpo se dobrando sobre a pata e o mundo se dobrando sobre o corpo, e o céu envelopando sua queda num azul frágil, sem aconchego. Depois foi só a dor.
         Seus olhos estavam úmidos e seu corpo tremia: dava medo, a dor. Era um saber demais de si mesma. Seus olhos, contas intensas, espelhavam um rosto humano curiosamente deformado, como se na dor ainda coubesse o humor, e fosse esse o único transporte possível. O veterinário tocou o corpo enorme do animal: a massa de músculos por baixo do pêlo, alazão tostada. O suor frio. Equus caballus. Homo sapiens sapiens. Durante um instante o olhar dos dois foi um só, e o homem sentiu, com as pontas dos dedos, a gravidade da dor.
         O telefone celular se interpôs. Pelo toque, o veterinário sabia quem era. Não tirou os dedos do pêlo curto logo acima do focinho de Lady Anne. Afagava-a devagar, mas com uma urgência de estilhaços. Pediu ao jóquei, que estava ao seu lado, miraculosamente ileso: tira isso da minha maleta e desliga, faz favor.
         Do outro lado da cidade, a moça de óculos escuros tentou de novo o mesmo número: recebeu a mensagem, após o sinal etc. Não deixou recado. Por trás das lentes dos óculos escorreram duas confissões, dois adiamentos, duas resignações. Que o vento marinho secou, para que, fossem o que fossem, as lágrimas se confiassem apenas à epiderme, em invisibilidade (e não aos passantes, em auto-comiseração).
         Fazia algum frio na praia. Mas as meninas suavam na aula de vôlei. Na hora do saque, a mais baixinha olhou para o lado, viu a mulher ali, no banco do calçadão. De óculos escuros, guardando na bolsa um telefone celular. A menina aprumou seu corpo ansioso e desarmônico, antecipou a trajetória da bola e a elegância com que furaria o bloqueio das adversárias e cairia enfim sobre a areia, modestamente triunfal. Os músculos de seus braços ondularam, a mão direita fez o que tinha de fazer, e a bola de vôlei raspou o vento até se encontrar com a rede. Em cheio. Beijo assustado de um par que não se quer.
         Dentro do ônibus, o rapaz de cabelo comprido viu de relance o jogo. Registrou na periferia da consciência: a menina errou o saque. Depois ele continuou pensando com força no corpo de uma mulher, a sua namorada, a barriga que ia começar a crescer, a outra pessoa que estufaria essa barriga por dentro com um ímpeto de maré. Ele via o próprio reflexo na janela do ônibus, superposto ao drama lento lá fora. Palimpsesto: cidade, homem que vai ser pai, medo de ser homem e de ser pai, mas também traço do rosto que caberá ao filho (à filha). Se for menino, pode ser Mick. Se menina, Marie. Ele sorriu: que idéia. Foi o seu primeiro sorriso de pai.
         A moça de azul ao seu lado viu o reflexo. Um sorriso desconhecido que ela deixou onde estava, mas que sem querer copiou na memória. A moça desceu no ponto seguinte. Chegou ao portão, pediu informações. Foi cruzando aqueles espaços estranhos, o pátio vazio, os corredores largos, encontrou o banheiro, sentiu a água fria. Suspirou longamente um suspiro deserto e foi até onde era esperada.
         Equus caballus. Homo sapiens sapiens. O veterinário e a moça de azul trocaram um olhar e um cumprimento. As outras pessoas abriram espaço. As pontas dos dedos do homem continuavam alisando a pequena área logo acima do focinho do animal, e o toque se propagava em espasmos. Os dedos da moça de azul encostaram nos seus, susto-segredo, enquanto a seringa esvaziava um milagre dentro do corpo enorme, que no entanto estava como que transpassado de vazios. Lady Anne fechou muito devagar os olhos molhados. Enquanto morria, o mundo que enxergou foi denso, um mundo ágil, a galope, inteiramente alazão tostado. Lady Anne cruzou a linha de chegada em primeiro lugar.

Fontes:
publicado na revista Bravo! de novembro de 2005 . http://www.adrianalisboa.com.br/
Pintura = http://www.decorecomarte.com.br/ (Quadro Alazão Correndo na Praia (R.O. Peixoto)

            Adriana Lisboa nasceu em 25 de abril de 1970 no Rio de Janeiro, onde passou a maior parte da vida. Morou na França e vive hoje entre o Rio e a cidade de Boulder, Colorado, nos Estados Unidos.
            Estudou música e literatura, foi cantora, flautista e professora. Hoje, além de ficcionista, é também tradutora e às vezes poeta.
            Publicou os romances Os fios da memória, Sinfonia em branco, Um beijo de colombina e Rakushisha, os minicontos de Caligrafias (todos pela Rocco), a novela O coração às vezes pára de bater (PubliFolha), os recontos de Contos populares japoneses e, para crianças, Língua de trapos (ambos pela Rocco). Integrou diversas antologias de contos no Brasil e no exterior. Seus livros foram publicados também em Portugal, na Itália e na Suécia, e estão sendo traduzidos na França e no México.
            Recebeu o Prêmio José Saramago, em Portugal, e, no Brasil, o prêmio de autor revelação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e o prêmio Moinho Santista (atual Fundação Bunge). Recebeu ainda bolsas de criação e tradução da Fundação Biblioteca Nacional, do Centre National du Livre (França) e da Fundação Japão. Foi selecionada pelo projeto Bogotá 39/Hay Festival, que apontou os 39 mais importantes autores latino-americanos até 39 anos na ocasião da eleição de Bogotá como capital mundial do livro pela Unesco, em 2007.
            É atualmente pesquisadora visitante junto à Universidade do Texas em Austin, mesma posição que manteve em 2007 junto à Universidade do Novo México.

Marcelo Spalding

História da leitura (II):
o códice medieval

         A segunda grande mudança tecnológica, a passagem do rolo para o códice, deu-se logo após o início da era cristã, durante o Império Romano. Nessa época, juristas decidiram manusear o pergaminho de forma diferente, dobrando-o em quatro ou em oito. Esse caderno era chamado de volumem, uma denominação usada ainda hoje. Costurando esses cadernos uns aos outros, eram construídos o que se chamava de códex (códice).
         Tal inovação, afora ser crucial para a difusão do cristianismo, foi fundamental para a história da leitura, pois, como afirma Chartier, enquanto que os formatos de rolo encorajavam leituras sequenciais a expensas do movimento descontínuo para adiante e para trás em um dado texto, a estrutura paginada do códex promovia o desenvolvimento de novas práticas de leitura propriamente "livrescas", uma ruptura muito maior do que seria a invenção da imprensa por Gutenberg.
         É nesse período que se difunde a prática da leitura silenciosa, tendência que se consolida exatamente por causa da mudança técnica do rolo para o códice. Umberto Eco simboliza essa passagem da leitura em voz alta para a leitura silenciosa no espanto de Agostinho: "a leitura, até santo Ambrósio, era feita em voz alta. Foi ele o primeiro a começar a ler sem pronunciar as palavras, o que mergulhara santo Agostinho em abismos de perplexidade".
         A propósito da leitura silenciosa, os primeiros textos que impunham silêncio nas bibliotecas são apenas dos séculos XIII e XIV, é apenas nesse momento que, entre os leitores, começam a ser numerosos aqueles que podem ler sem murmurar, sem 'ruminar', sem ler em voz alta para eles mesmos a fim de compreender o texto.
         Além dessa importante mudança na forma de ler, o códice seria também responsável por grandes mudanças na forma de escrever, como nos conta Darnton:
         "A página surgiu como unidade de percepção e os leitores se tornaram capazes de folhear um texto claramente articulado, que logo passou a incluir palavras diferenciadas (isto é, palavras separadas por espaços), parágrafos e capítulos, além de sumários, índices e outros auxílios à leitura."
         Se voltarmos às imagens do Código de Hamurábi, do rolo e do códice medievais, realmente não encontraremos espaço entre as palavras, tampouco a divisão em parágrafos, uma organização para o texto que hoje nos parece tão natural mas que está ligada ao novo suporte da escrita e à superação de suas limitações. Não que um suporte mais antigo seja mais limitado que o outro, mais moderno, em geral o que ocorre é um ganho em alguns aspectos e uma perda em outros.
         O códice medieval, nesse sentido, era uma página elaborada manualmente por um copista num processo muito mais demorado porém artesanal, com ilustrações, cores, arabescos e, por vezes, até comentários às margens que faziam de cada exemplar algo único. Esta talvez seja a grande diferença do códice medieval para o livro impresso que viria a seguir.
         Umberto Eco resgata o já lendário ambiente de um scriptorium de copistas em O Nome da Rosa, representando monges de preferências e ideologias variadas criando seus códices com cuidado, dedicação e paixão:
         "Aproximamo-nos daquela que fora o local de trabalho de Adelmo, onde estavam ainda as folhas de um saltério com ricas iluminuras. eram folia de vellum finíssimo ? rei dos pergaminhos ? e o último ainda estava preso à mesa. Apenas esfregado com pedra-pome e amaciado com gesso, fora lixado com a plaina e, dos minúsculos furos produzidos nas laterais com um estilete fino, tinham sido traçadas todas as linhas que deviam guiar a mão do artista. A primeira metade já estava coberta pela escritura e o monge tinha começado a esboçar as figuras nas margens. (...) As margens inteiras do livro estavam invadidas por minúsculas figuras que eram geradas,como por expansão natural, pelas volutas finais das letra espledidamente traçadas: sereias marinhas, cervos em fuga, quimeras, torsos humanos sem braços que se espalhavam como lombrigas pelo próprio corpo dos versículos. (...) Eu seguia aquelas páginas dividido entre a admiração muda e o riso, porque as figuras conduziam necessariamente à hilariedade, embora comentassem páginas santas."
         É importante ressaltar que este cenário descrito por Eco já é do segundo milênio cristão (o romance se passa em 1327 d.C.), época em que outros importantes acontecimentos contribuiriam para o surgimento da prensa de Gutenberg e para a proliferação dos livros além dos muros eclesíasticos. Um deles é o surgimento das Universidades na Europa, uma instituição que de certa forma retomava o ideal das Academias gregas, em que atividades artísticas, literárias, científicas e físicas eram organizadas num único espaço, promovendo a universalidade do saber e a integração das áreas.
         Na concepção moderna, a Universidad de Bolonia (Itália), de 1089, é considerada a primeira do mundo ocidental: "L'Istituzione che noi oggi chiamiamo Università inizia a configurarsi a Bologna alla fine del secolo XI quando maestri di grammatica, di retorica e di logica iniziano ad applicarsi al diritto". Logo a seguir surgiram a Universidade de Oxford (Inglaterra), em 1096, a Universidad de París (França), em 1150, a Universidade de Palência (Espanha), em 1208, precursora de la Universidad de Valladolid, a Universidade de Coimbra (Portugal), em 1290, entre outras.
         Este aumento pela demanda de suportes para a escrita fez com que se buscasse alternativas ao pergaminho, popularizando o uso do papel. O papel foi inventado pelo chinês Cai Lun em 105 a.C., que sugeriu a utilização de casca de amora, bambu e grama chinesa como matérias-primas. No século VII, esse conhecimento foi levado à Arábia por um monge budista e de lá para à Europa através dos mouros.
         Na Itália, o papel era considerado um produto medíocre em comparação ao pergaminho, tanto que Frederico II, em 1221, teria proibido o uso em documentos públicos. O consumo, entretanto, só aumentava, e em 1268 foi criada a primeira fábrica de papel da Europa em Fabriano, uma pequena cidade entre Ancona e Perugia. O monopólio comercial da fabricação italiana durou até o século XIV, quando a França, que o produzia utilizando linha desde o século XII, a partir da popularização do uso de camisas e das consequentes sobras de tecido e camisas velhas pôde passar à fabricação de papel a preços econômicos, o que seria fundamental para a invenção da impressão por tipos móveis de Gutenberg, na década de 1450.

continua…

            Marcelo Spalding é formado em jornalismo e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, editor do portal Artistas Gaúchos, autor dos livros 'As cinco pontas de uma estrela', 'Vencer em Ilhas Tortas', 'Crianças do Asfalto', 'A Cor do Outro' e 'Minicontos e Muito Menos', membro do grupo Casa Verde e colunista do Digestivo Cultural. Recebeu o Prêmio AGES Livro do Ano 2008 pelo livro 'Crianças do Asfalto', categoria Não-Ficção, e o Prêmio Açorianos de Literatura em 2008 pelo portal Artistas Gaúchos.

Fábulas Sem Fronteiras

Portugal
A Raposa sem Rabo

         A prima Raposa andava à caça. Era noite fechada e nenhum de nós veria um palmo adiante do nariz. Mas a prima Raposa sabia ver de noite e, por isso aproveitava essa hora para fazer as suas caçadas; de dia cuidava dos arranjos caseiros, do asseio da sua linda pele e sobretudo do seu lindo rabo. Tinha o maior orgulho nele, e, na verdade, a prima Raposa passava por ter uma das caudas mais bonitas da família e da vizinhança.
          A caminho da capoeira próxima, a prima Raposa atravessou um quintal e outro e outro, e sem saber como, foi cair numa ratoeira de que ela nunca suspeitara e ficou presa pelo rabo.
          - Isto só a mim me aconteceria! - começou ela a lamentar-se -. Mais me valia não ter rabo! Se aqui me deixo ficar é morte certa…
          Mas, por mais que fizesse, nem o rabo se desprendia da ratoeira, nem esta vinha atrás do rabo. Porém, tanto puxou, na ânsia de se ver livre, que o ferro da ratoeira cortou-lhe o rabo e ela pôde fugir, sim, mas sem rabo: teve de lá deixá-lo.
          Chegou a casa tristíssima, por se ver privada da coisa mais bela que possuía no seu corpo e ao ver as primas e os primos todos com o seu formoso complemento, ficou ainda mais triste e começou a sentir inveja. Todos tinham cauda - uma cauda tão linda! - menos ela! E além disso passou a ser objecto de admiração: nunca tinham visto uma raposa sem rabo!
          Mas então que foi isso?! - perguntavam eles -. Como foi que ficou sem cauda, prima?
         Como foi que fiquei sem cauda, não! Porque é que a tirei! - emendou ela, resolvendo mentir, para não contar o que lhe acontecera.
         - Tirou-a?! - perguntaram todos espantados.
          É a última moda - explicou ela -. É o que se usa agora entre as raposas distintas, da melhor sociedade. E vocês devem fazer o mesmo. Isso de rabo é uma moda antiga, que já só se vê entre os velhos…
          Os primos e as primas mais jovens, zelosos da sua elegância, começaram a mirar-se com desgosto, convencidos de que a prima Raposa tinha razão. Mas uma parenta velha, que sabia perfeitamente como as coisas se tinham passado, falou no meio de todos à raposa der-rabada:
          - Minha querida amiga, acredito na sua moda e nas conveniências dela, mas digo-lhe já que nós não cortaremos os nossos rabos. Se um dia nos encontrarmos na mesma situação em que a priminha se viu, então deitaremos fora o rabo, mas antes disso, não! Que os infelizes como você queiram que os outros os acompanhem, compreende-se, mas que os outros se disponham a seguir a mesma sorte de um infeliz, é que não! Quando o mal por cá tocar, veremos… Fique lá sem o seu rabo, que nós tomaremos conta dos nossos, de forma a que continuem bem inteirinhos…
          É claro que a prima Raposa teve de calar-se e nunca mais quis convencer a família e os amigos de que o ideal era as raposas não usarem rabo.
         E aqui termina a história da raposa que ficou sem rabo

Fonte:

Estante de Livros
Salgado Maranhão

Sol Sanguíneo

artigo por Eduarda Rodrigues Costa, Edimilson de Almeida Pereira e Fabrício Tavares de Moraes*

         Salgado Maranhão destaca-se pelo trato apurado da linguagem e pelo domínio da mesma. Sua relação de intimidade com a palavra escrita denota uma postura centrada diante do fazer poético e da vida. Influenciado pela filosofia oriental, o poeta traz para seus versos o estado de equilíbrio empenhado na relativização dos valores instituídos. O ser humano mostra-se cada vez mais limitado e distanciado da realidade em que vive e torna-se necessário soltar as amarras do convencionado e experimentar o desconhecido. É isso que o autor faz com sua poesia: toma a palavra e desnudando-a de seus significados usuais, explora sua condição polissêmica apontando para o caráter simples e transitório das coisas.
         Numa dicção arraigadamente pessoal, Salgado Maranhão, em Sol Sanguíneo, atinge o (até agora) ponto máximo de sua obra, num conjunto coeso de poemas, em que a inteligência especulativa e a celebração da corporalidade do mundo se expressam com grande rigor metafórico. Nesta obra são preservadas todas essas características e percebe-se ainda um aperfeiçoamento da técnica escrita.
         A poesia de Salgado Maranhão procura libertar a palavra de seu caráter usual (com a qual nos deparamos diária e cotidianamente), desvinculando-a das amarras do convencionalismo, e, através de um sofisticado trabalho poético experimentar a polissemia da palavra, expandindo indefinidamente as suas significações. Nesse sentido, as palavras se desdobram em suas múltiplas e possíveis interpretações, ao mesmo tempo em que interagem entre si, a fim de formar o corpo coeso do poema. É por essa razão que nos poemas de Salgado se encontra presente uma “escrita ascética (quase sem palavras)” visando a “sinergia do signo”. Ao distender ludicamente a palavra e ao expandir a sua significação imediata, o poeta impede que esta se esgote.
         A ressignificação assumida pela palavra, produzida de forma proposital pelo poeta, causa no leitor certo estranhamento que altera o curso normal de suas interpretações e certezas, levando-o a novas percepções e experiências. Como o próprio Salgado afirma em uma entrevista: “(…) cada rasgo de autêntica poesia nos ensina a desconfiar das certezas. Nos revela, através da linguagem, a força sutil que dá vertigem ao esqueleto das palavras” (SOUZA, revista Agulha online, 2003). Através de suas observações, o poeta nos leva a crer que a fragilidade e a efemeridade da existência humana podem ser compensadas através da perenidade e imanência da palavra poética. Segundo essa perspectiva, o poema possui o poder de fixar as experiências e percepções da existência caracterizada pela transitoriedade. Tal é o desejo do poeta descrito no poema “Sol Sanguíneo” que abre o livro:

Voltar ao desolado abrigo
da terra
chã.
Voltar aos limítrofes
da palavra (larva fulminante
e alarde) que assiste
da despensa
ao rapto da existência.
Voltar ao solo atávico
onde os loucos
riem-se
à sombra da neblina.

         Percebe-se pela leitura do poema, que a “terra chã” é uma metáfora da palavra poética, terreno que deve ser conquistado pelo poeta, mas que se apresenta simultaneamente como abrigo e desolação. Como os versos sugerem, a palavra “assiste da despensa” – uma vez que ela se encontra à espera para ser transformada em poesia – “ao rapto da existência”, pois a vida humana nada mais é do que um “sopro itinerante”, fugaz e passageiro. A palavra atemporal assiste à inexorável temporalidade da existência humana.
         Este poema remete ao tempo da posse de terras. Tudo que nela existia também foi violado e tratado como bens comerciais. “Sol sanguíneo: terra chã” faz esse movimento de volta às origens de seu povo quando o eu lírico narra a chegada do navio negreiro no cais. Enquanto isso as noites, “a terçar atabaques”, esperavam os cativos que estavam a chegar, evidenciando o sincretismo de elementos da cultura européia e africana.

Do cais rasurado de esperas
velam noites a terçar
atabaques.

Minha terra é minha pele.

vieram o sol –
e o azeviche
conjugado à carne;
e vieram moendas de açúcar
e súplica;
e vieram demandas de açoite
e séculos
a desatar fonemas
à fervura.

         Nesse trecho do poema, o eu enunciador assume sua especificidade étnica e cultural encarando a terra como segmento de sua pele. Nota-se um cuidado na opção pelo vocábulo que irá representar a sua cor: o azeviche, tipo de carvão fóssil utilizado em joalheria. O efeito seria outro se em seu lugar estivesse simplesmente “carvão”. Além disso, destaca que junto com os escravos vieram as “moendas de açúcar”, que representa uma das contribuições dos negros à economia brasileira, e as súplicas dos cativos tratados como mercadoria. Desse regime vieram os açoites que duraram séculos e a imposição cultural dos brancos sobre os negros.
         Tratados apenas como corpo vazio de cultura e espírito, esses homens foram entregues ao cativeiro devido à ganância do branco que se julgava superior. Além de terem sido separados do seu povo, viram-se obrigados a receber os valores dos senhores, que lhes eram impostos, em geral, de maneira violenta.
         Já em “Mater”, o eu lírico faz uma homenagem à mãe África e chama a atenção para o descaso da história em representar sua herança entre o povo brasileiro. Seus descendentes em nosso país foram obrigados a se curvarem diante do branco. Porém o fio de sua memória ancestral, como “impressões digitais num rio”, mantém ligados seus filhos ao longo dos tempos:

I
De ti não há sequer
um álbum de família:

retratos da infância
nos campos de arroz e gergelim.

Talvez reste em pensamento
pedaços de tua voz

no vento
como impressões digitais
num rio.

II
No dia em que o azul
roubou teus olhos
e o silencio rival rasgou
teu nome,
cotovias cantaram no teu rastro.
No dia em que a manhã
cerrou teus olhos.

         No poema, o azul aparece como metonímia para o mar e metáfora para o traficante que levara os filhos da mater africana. Silenciosa foi como se deu a captura e dura foi a partida. Porém quando não havia mais corpo, foi ao som das cotovias, aves que voam para a África no inverno, que o espírito retornou a terra mãe.
         Noutra linha, totalmente metapoética, ”Fero” descreve a inquietação que a escrita causa ao poeta e este, que tenta representar o mais inimaginável como a oração dos pássaros, vê-se numa luta constante com a palavra quando esta parece se fechar às possibilidades de figuração:

Tento esculpir a Litania
dos pássaros
e as palavras mordem
a inocência. Aferram-se
ao que é de pedra
e perda.

insights de insânia
e súplica; volúpias insolúveis
acossam-me a página
em branco
qual bandido bárbaro
ou mar revolto
a rasgar a calha
do poema.

         O processo de escrita configura-se conflituoso; o poeta é tomado por uma onda de embriagante loucura e perseguição. Seu maior inimigo então se vislumbra na “página em branco” a exibir o não-resultado de trabalho. É este, portanto um forte veio da poesia de Salgado Maranhão, escritor comprometido com a reflexão da linguagem, empenhado em recriá-la, explorá-la ao máximo e encontrar, nas bordas da palavra, o sentido buscado. Foi possível perceber também o envolvimento com situações íntimas de um sujeito que, assumindo-se como negro filho de África, deixa vozes de tempos remotos falarem em seus poemas, aludindo às atrocidades do passado escravo e rebelando-se contra as do presente.
Fonte:
Disponível em http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/s/sol_sanguineo

*Eduarda Rodrigues Costa possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais(2006). Tem experiência na área de Letras. Autora dos artigos Tradição popular e pertencimento étnico na poesia de Lino Guedes; O preconceito não pede licença; Vozes afro-descendentes e metalinguagem na poesia de Salgado Maranhão. Literafro, 2005; A nova face da escravidão; Tradição e consciência negra; Memória e consciência negra, etc.
*Edimilson de Almeida Pereira possui Graduação em Letras Vernáculas pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Mestrado em Literatura Portuguesa (Letras Vernáculas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestrado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Doutorado em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Pós-doutorado em Literatura Comparada (2002) pela Universidade de Zurique. Atualmente é professor titular da Faculdade de Letras, na Universidade Federal de Juiz de Fora. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Cultura e Identidade, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira poesia, cultura afro-brasileira imagens/ identidades, cultura popular tradição modernidade, literatura juvenil e infanto-juvenil.
*Fabrício Tavares de Moraes, mestre em Estudos Literários pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora. Atualmente é doutorando do programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora, atuando principalmente na pesquisa sobre romance contemporâneo.
            José Salgado Santos (pseudônimo: Salgado Maranhão) nasceu em Caxias, no Maranhão, em 1954. Ainda adolescente, mudou-se com os irmãos e a mãe para Teresina/PI. Escreveu artigos para um jornal local e conheceu Torquato Neto, que o incentivou a ir para o Rio de Janeiro, o que fez no ano de 1972. Estudou Comunicação na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Terapeuta corporal, foi professor de tai chi chuan e mestre em shiatsu.
            Inicialmente, teve seu nome vinculado em publicações como "Ebulição da escrivatura -Treze poetas impossíveis" (Ed. Civilização Brasileira, 1978, RJ), coletânea que reuniu diversos poetas, como Sergio Natureza (assinando Sérgio Varela), Antônio Carlos Miguel (sob o pseudônimo de Antônio Caos), Éle Semog, Mário Atayde, Tetê Catalão, entre outros.
            Publicou poemas e artigos na revista "Encontro com a Civilização Brasileira" (1978). Nos anos seguintes, publicou: "Aboio" (cordel/ Ed. Corisco -Teresina - 1984), "Punhos da serpente" (poesia/ Ed. Achiamé, RJ, 1989), "Palávora" (poesia - Ed. Sette Letras, RJ, 1995), "O beijo da fera" (poesia - Ed. Sette Letras, RJ, 1996) e "Mural de ventos" (poesia - Ed. José Olympio, RJ, 1998).
            Em 1998, ganhou o prêmio "Ribeiro Couto", da União Brasileira dos Escritores (UBE), com o livro "O beijo da fera". No ano seguinte, com o livro "Mural de ventos", foi o vencedor do "Prêmio Jabuti", da Câmara Brasileira do Livro, dividido com Haroldo de Campos e Geraldo Mello Mourão. Colaborou em várias publicações com artigos e poemas, como a revista "Música do Planeta Terra".



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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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