Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Adriana Lopes de Araujo e Lúcia Osana Zolin (Construção de personagens femininas em Acasos Pensados, de Luci Collin)





RESUMO: Historicamente, a mulher foi sempre mantida como uma figura emudecida e marginalizada em todos os aspectos. Tomada, todavia, a partir de uma suposta fragilidade e incapacidade de viver fora do domínio patriarcal que implicou no sacrifício à própria identidade. Para tanto, tem-se atualmente a procura desesperada por autenticidade e independência, que consiste o sujeito ativo. Nossa proposta, assim, é tecer considerações acerca das personagens femininas que integram contos de Acasos pensados (2008), da autora paranaense Luci Collin, a fim de evidenciar como tais personagens são construídas e representadas ao longo da narrativa, se reduplicam, questionam ou ironizam as relações de gênero. Em vista disso é que o estudo se insere no âmbito dos estudos de gênero e da teoria crítica feminista. Importa salientar, ainda, que a análise refere-se a um primeiro momento do projeto de pesquisa intitulado A personagem na literatura de autoria feminina paranaense contemporânea, coordenado pela professora Lúcia Osana Zolin e com o apoio da Fundação Araucária. O projeto objetiva um estudo acerca da personagem que compõe a prosa de ficção contemporânea (publicada a partir dos anos 1970), de autoria feminina, no Paraná para, posteriormente, organizar um banco de dados a ser disponibilizado com vistas a pesquisas futuras mais específicas.

         Acasos pensados (2008), coletânea de contos da autora paranaense Luci Collin, apresenta narrativas que assumem diferentes formas, tais como a de um “diário íntimo, passando pelo verso, pela enciclopédia, a entrevista, numa tessitura experimental curiosa, quase um almanaque de composições” (TEIXEIRA, 2008, p. 75). A prosa da escritora, desse modo, apresenta enredos muitas vezes fragmentados, com múltiplas intertextualidades. A partir dos conceitos empreendidos pela Teoria Crítica Feminista é que se pretende tecer considerações acerca das personagens femininas que integram contos de Acasos pensados (2008) entre eles, Daqui e Fotinha, a fim de evidenciar como tais personagens são construídas e representadas ao longo da narrativa, se reduplicam, questionam ou ironizam as relações de gênero.
         O cânone literário ocidental, historicamente formado por homens, brancos e de classe média/alta correspondeu a uma das extensões do discurso dominante. Todavia, não se restringia apenas às questões estéticas do texto literário, mas também a fatores sociais e morais do universo da crítica. Para tanto, eram regulados por uma ideologia de exclusão aos escritos das mulheres, das etnias não-brancas. Enfim, todos aqueles que eram considerados minorias não pertenciam à lista.
         Sendo assim, a Crítica Feminista além de promover, em seu bojo, o desmantelamento das amarras do patriarcalismo que manteve a mulher, durante um longo período da história à margem, como um ser submisso e sem direito à voz, impulsiona a emancipação da mulher na literatura quando, a partir de 1960, pesquisadoras (es) voltadas (os) para as discussões do movimento feminista começaram a (re) elaborar uma crítica literária que buscasse interpretar as obras de autoria feminina analisando-as de modo diferenciado da escrita masculina e sendo ela, muitas vezes, influenciada pelas vivências dessas escritoras.
         Desse modo, a inauguração da Crítica Feminista, por volta de 1970, fez emergir uma tradição literária de autoria feminina que promoveu a reavaliação e redescoberta desses textos, assim como a releitura de obras do ponto de vista da mulher resultando em uma subversão ao cânone.
         Para tanto, tem-se em um primeiro momento a percepção de que a mulher enquanto leitora e escritora possuía uma experiência diferente da masculina, o que “implicou significativas mudanças no campo intelectual, marcadas pela quebra de paradigmas e pela descoberta de novos horizontes de expectativas” (ZOLIN, 2009, p. 217).
         Em uma segunda fase, todavia, a intenção era demonstrar que as mulheres tinham sua escrita marcada pelo gênero e que, portanto, seria importante o destaque ao texto de autoria feminina. Já em um terceiro instante, a crítica feminista propôs uma revisão sistemática dos conceitos hegemônicos e patriarcais predominantes em vários campos sociais e culturais, com vista ao reconhecimento da produção literária feita por mulheres.
         Com o passar do tempo, a crítica feminista expandiu-se e passou a enfatizar quatro enfoques principais com o objetivo de investigar a literatura produzida por mulheres. São eles: o biológico, o lingüístico, o psicanalítico e o político-cultural. O primeiro enfoque, o biológico, tem sido utilizado por homens através da justificativa de “tomar o corpo da mulher como o seu destino e, portanto, de aceitar os papéis a ela atribuídos como sendo da ordem da natureza” (ZOLIN, 2009, p. 227). Não obstante, dá-se a desconstrução desse argumento quando algumas feministas radicais entendem os atributos biológicos da mulher como sendo superior e não inferior como constata o discurso falocêntrico.
         O enfoque lingüístico volta-se para discussões que buscam responder se homens e mulheres utilizam a língua de forma distinta. Assim como observa Zolin (IBIDEM, p. 227), no caso de uma resposta afirmativa “tais diferenças [...] seriam teorizadas em termos de biologia, de socialização ou de cultura”. Ademais, esse enfoque privilegia também questões relacionadas à ideologia dominante.
Quanto ao campo psicanalítico, situado na diferença na psique do autor e na relação do gênero com o processo de criação, tomaram-se como base os pressupostos de Lacan e Freud propondo um estudo acerca da escrita feminina. E por último o enfoque político-cultural que, apoiando-se nas tendências marxistas, estabelece a relação gênero e classe social, sendo bastante evidente no romance em estudo.
         Embora os estudos a respeito da mulher e sua representação na literatura constem a partir de 1970 nos Estados Unidos e Europa, no Brasil essa discussão figura-se recente. Contudo, é imperativo destacar que cada vez mais o tema tem sido objeto de inúmeras pesquisas. O desenvolvimento desses estudos, assim, nos permite falar, como considera Zolin (IBIDEM, p. 240), “na crítica literária feminista no Brasil como algo consolidado”.
         Vale destacar, todavia, que os textos de autoria feminina permaneceram, durante um longo período, perdidos ou esquecidos. Sua redescoberta, portanto, provocou o desenvolvimento da Crítica Literária Feminista. A esse respeito, Pratt (apud BONNICI, 1997, p. 28) considera que tais textos “não eram nem perdidos nem esquecidos, mas simplesmente suprimidos porque [...] eram altamente críticos para sobreviver à crítica masculina”.
         Os primeiros textos literários escritos por mulheres no Brasil apontam para figuras femininas silenciadas pela sociedade patriarcal, presas à ideologia dominante. Nesse contexto, há a reduplicação dos valores vigentes que conduzia a mulher à alteridade.
         Na metade do século XX, portanto, com a publicação de Perto do coração selvagem (1944), Clarice Lispector inaugura uma nova fase da literatura brasileira de autoria feminina. Há, nesse momento, o desnudamento da ideologia dominante promovendo, assim, discussões a respeito da dominação masculina e da opressão feminina. A literatura passou, então, a representar a mulher sob uma ótica diferente daquela tradicional patriarcal que permeava a literatura anterior. Sendo assim, se no passado a literatura produzida por homens e mulheres reproduzia a ideologia patriarcal, que conduzia a mulher à submissão e à marginalidade, a literatura de autoria feminina contemporânea propõe um questionamento da condição feminina. Para tanto, traz em seu bojo questões como representação, identidade e diferença. Destaca-se, portanto, que tais textos apresentam temas que não dizem respeito apenas às mulheres, mas à humanidade em geral, isto é universais. Luci Collin possui livros publicados em forma de prosa e de verso. É, também, ganhadora de diversos prêmios em concursos de literatura no Brasil e nos EUA. Seus escritos, todavia, são marcados pela fragmentação, exploração de temas não usuais, ironia, manipulação sintática e semântica, ou seja, adquirem um caráter experimental.
         Quando indagada em uma entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão (COLLIN, 2005, p.1), sobre o caráter transgressor de sua obra, a autora afirma que “antes de representarem transgressão, são apenas egressão, não no sentido de regredir, mas de regressar, regressar a um experimentalismo”. A autora considera, ainda, que esse caráter experimental pôde ser visto na linguagem moderna porém, foi abandonado “por muitos pós-modernos confortavelmente estacionados na linearidade e num realismo que em nada correspondem à realidade”. Para Luci Collin, portanto, o fazer literário realiza-se como um território a ser explorado.
         Narrado em primeira pessoa, o conto Daqui evidencia uma personagem protagonista inominada que (sobre)vive com a família em uma aldeia distante. Diante de uma situação de miséria e fome, nos é apresentada sua família e o contexto em que está inserida. Dessa forma, importa salientar uma das primeiras informações que a narrativa desnuda, como sendo a incerteza da própria personagem em relação à sua idade. Assim ela afirma: “Não sei quantos anos eu tenho. Sete talvez” (COLLIN, 2008, p. 35). E continua: “Tenho dez anos talvez” (IBIDEM, p. 36); “Eu tenho doze anos talvez” (IBIDEM, p. 37). Apesar de ser citada repetidas vezes durante o conto, a dúvida em relação à idade pode ser compreendida como um fato não trivial para a menina, uma vez que o que importa para ela é ter uma individualidade, acreditar que pode ter algo que seja tão somente seu. Sendo assim, é possível destacar a passagem: “Vou trabalhar em Seaba porque tem o porto. E o Arouj disse que é de lá que saem os barcos. Depois de três semanas os barcos chegam na cidade . Lá cada pessoa come num prato só seu. E é isso que eu mais quero ver” (COLLIN, 2008, p. 38). A personagem protagonista anseia fugir para a cidade que viu na revista de seu irmão Arouj. Vale destacar, todavia, que o que ela almeja não é, em princípio, poder se alimentar em seu próprio prato, mas sim crer que isso é possível. Na aldeia em que vive, ela cita que todos da família comem em um único e enorme prato. Ao gesto da mãe, “cada um avança com sua colher de madeira e se serve” (IBIDEM, p. 35).
         Assim, a figura materna, entre outros, evidencia-se como uma representação da difícil situação vivida naquele lugar. É, portanto, descrita como sendo muito magra e sempre calada. É, ademais, na esfera doméstica que possui voz, sendo aquela que diz quando todos podem começar a comer. Além disso, o lenço que trazia na cabeça, cobrindo todo o seu cabelo, demonstra uma mulher voltada para os afazeres do lar, o que aponta para uma reduplicação do estereótipo patriarcal. Destaca-se, dessa forma, que a mãe da personagem protagonista descortina a imagem de mulher doméstica, assim definida por Susana Pravaz (1981). Para esse estilo de mulher, enquanto o marido realiza o trabalho dito como fora de casa, ela é reconhecida, conforme Susana Pravaz, como a concavidade, o Dentro. Para a autora (PRAVAZ, op.cit, p.56), “é no lar, [...] onde pode mostrar toda a sua riqueza, sua generosidade e sua capacidade protetora, que permite o crescimento daquela que ela contém, seres carentes que necessitam dela”. Entende-se, desse modo, que a mãe possuía um poder velado que, embora tivesse autonomia na esfera doméstica, ou seja, atuando nos bastidores, não tinha voz em relação às grandes decisões familiares.
         A mãe teve dez filhos. Como considera a narradora: “Felizmente a maioria é de homens - só nós três que não” (COLLIN, 2008, p. 35). O advérbio utilizado revela, assim, que a personagem protagonista compreende os papéis sociais pré estabelecidos tanto para o homem como para a mulher. No meio em que está inserida, cabe à figura feminina ser obediente e submissa aos padrões vigentes. Ela tem, portanto, que lidar com fatores de objetificação. Em sua família, enquanto as mulheres permanecem somente no espaço do lar, os homens vão à guerra, viajam para outros lugares, o que lhes confere uma autonomia. Ao longo da narrativa, é possível verificar essa distinção dos papéis sociais em que a mulher é sempre mantida como uma figura emudecida e marginalizada em todos os aspectos. Tomada, ademais, a partir de uma suposta fragilidade e incapacidade de viver fora do domínio patriarcal que implicou no sacrifício à própria identidade.
         Diante dessa questão, Saffioti (1992) considera que não somente homens, mas também as mulheres são portadoras da ideologia machista. Para tanto, “não basta que um dos gêneros conheça e pratique atribuições que lhes são conferidas pela sociedade, é imprescindível que cada gênero conheça as responsabilidades do outro gênero” (SAFFIOTI, 1992, p. 10). Nesse contexto, tem-se nas relações de gênero o reflexo da concepção de gênero internalizada tanto pelo homem como pela mulher.
         Nesse sentido, Joan Scott (apud FISCHER; MARQUES, 2001) propõe uma análise do gênero como elemento constitutivo das relações sociais, a fim de explicar a subordinação da mulher e a dominação dos homens. No que concerne a essa questão, a autora fundamenta suas abordagens a partir de eixos teóricos que, entre outros, afirmam que a perspectiva de gênero permite entender as relações sociais entre homens e mulheres, o que pressupõe mudanças e permanências e que as relações de gênero, como relações de poder, são marcadas por hierarquias, obediências e desigualdades. Estão presentes os conflitos, tensões, negociações, alianças, seja através da manutenção dos poderes masculinos, seja na luta das mulheres pela ampliação e busca do poder (SCOTT apud FISCHER; MARQUES, 2001).
         Contudo, vale destacar que a posição atribuída à mulher no meio social desde sua infância até a vida adulta é fundamental para a percepção de como opera a ideologia do gênero. O destino imposto pela sociedade para a mulher é o casamento. Este, todavia, apresentava-se naquele meio social, muitas vezes, como sendo arranjado. Casavam-nas no intuito de terem uma existência melhor, fora daquele lugar, da casa patriarcal. Isso acontece com a irmã da personagem protagonista: “Casaram a Nastiha com um homem que levou ela embora num cavalo baio” (COLLIN, 2008, p, 37). O casamento, ademais, apresenta-se de modo diferente ao homem. Simone de Beauvoir (1980, p. 166) postula que “ambos os sexos são necessários um ao outro, mas essa necessidade nunca engendrou nenhuma reciprocidade”. É dessa forma que a mulher tem no casamento, a justificativa social de sua existência. Uma vez inserida dentro dos padrões preconizados pela sociedade é que ela volta-se à imanência, ou seja, assume o papel da perpetuação da espécie e manutenção do lar. O casamento faz da mulher dona de um lar. Seu destino, assim, é o de cuidar da casa, educar os filhos, ou seja, perpetuar a tradição de mulher doméstica.
         O que se verifica na narrativa é que a mulher doméstica, dada em casamento pelos pais, demonstra ser por vezes passiva, com uma independência interiorizada. Porém, o casamento apresenta-se como a única carreira para as mulheres da aldeia. De acordo com Lúcia Zolin (2004, p.165), “personagens femininas tradicionalmente construídas submissas, dependentes econômica e psicologicamente do homem, [...] passam paulatinamente, a ser engendradas como sendo conscientes de sua objetificação”. É o que acontece com Nastiha, irmã da personagem protagonista. Ela, todavia, aceita a condição de marginalidade sem questionar.
         Além disso, Simone de Beauvoir (1980, p. 87) explica que “certas moças experimentam mais concretamente a necessidade de um guia, de um senhor. No momento em que escapam ao domínio dos pais, sentem-se inteiramente embaraçadas com uma autonomia a que não foram habituadas”. A irmã da protagonista, desse modo, engendra sua vida à de um homem por vezes desconhecido. A narradora, por sua vez, não prevê o mesmo destino que a irmã obteve: “Daqui a dois anos, vou fugir desse lugar. Antes que o pai me case” (COLLIN, 2008, p. 38). É assim, retratada como sujeito ativo, pessoal, que rompe com os contatos e as expectativas sociais. Ela, ademais, não se vê inferiorizada diante do masculino e considera: “Os homens daqui não sabem fazer muita coisa” (IBIDEM, p. 36). Sendo assim, importa salientar que a protagonista reconhece a importância da conscientização da posição marginalizada e oprimida da mulher como ponto de partida para a sua emancipação.
         A visão de uma figura feminina desafiadora, que não se intimida pelo sistema hegemônico masculino não acontece em Fotinha. Narrado também em primeira pessoa, o conto desnuda uma personagem protagonista permeada pela ingenuidade que termina por velá-la da ambição e da maldade que estão ao seu redor. É assim, tida como uma figura marginalizada, excluída, subalterna, que não reconhece sua posição de alteridade.
         Assim como a personagem de Daqui, a protagonista vive em uma casa distante da cidade. A linguagem utilizada pela narradora, por sua vez, demonstra um cenário rural. Ademais, a opção ficcional se atém ao jogo de rememorações e reflexões, instantâneas e cortadas, de certas situações que compõem o microcosmo da personagem e que evidenciam sua inocência e simplicidade.
         A irmã da protagonista, Lisolete, mudou-se para a cidade. Para obter alguma ascensão financeira resolve se prostituir, mudando seu nome para Tati, o que torna motivo de briga para com a irmã, uma vez que a personagem narradora se acostumou a chamá-la de Lete.
         A prostituta, a amante, são convencidas da rejeição de uma existência autônoma na vida. Susana Pravaz (1981, p. 79), fala sobre o anseio da mulher sensual. Ela diz que esta “buscará ser contida pelos homens, o abraço masculino ocupar o lugar da nostalgia materna.” O corpo para a figura sensual é, desse modo, instrumento de poder. É com ele que ela conquista e domina os homens. Verifica-se, assim, que o corpo desse estilo de mulher, mesmo com uma intenção que é a de aparecer, tem, em seu desenho, o molde escravizado.
         A ingenuidade da personagem narradora, causada também pelo pouco estudo, não permite que ela compreenda o que está diante de seu olhar. Quando diz: “A Lete também é fraca da saúde que eu sempre vejo ela se espetando injeção na veia do braço dela quando vem aqui. Deve ser uma coisa nos osso, acho. Mas não dói ela falou. Mas acho que dói porque ela fica um tempão com os olhos vidrado” (COLLIN, 2008, p. 73); “Será que a dor dela é nas junta dos braço? Deve de ser. As veia tá até pelotada.” (IBIDEM, p. 74). O não conhecimento do que sejam drogas injetáveis, portanto, faz com que a personagem entenda o ato da irmã como um problema de saúde.
         Outro fato que o conto suscita e que permanece indefinido é o da protagonista ir todos os dias na casa de um velho e sua irmã receber por isso. Ao ordenar que a personagem narradora nunca vá de óculos, “E eu tomo tudo dia um remédio daqueles de comprimido que a Lete traz pra mim bem certo a cartelinha de cada dia completando perto dum mês, ocasiona alguns questionamentos que, todavia, não se solucionam ao longo da narrativa. O pensamento de que o velho poderia ser, talvez, um aliciador desconstrói-se na fala da narradora que afirma que ele era bondoso e que a chamou, uma vez, de filha, o que expõe um momento de saudade que viera a falecer. Por outro lado não se pode descartar a possibilidade da interpretação, uma vez que ele a mandava fazer coisas consideradas, por ela, esquisitas.
         Antes de sua mãe falecer, pediu a ela que fizesse tudo o que a irmã mandasse. A partir daí, a protagonista obedece sem contrariar. No entanto, Lisonete abusa da condição de superioridade em relação à narradora. Muitas vezes maltrata a irmã colocando, desse modo, a personagem protagonista em uma posição inferior. Além disso, em relação ao casamento, afirma que a garota nunca encontrará alguém que queira se casar com ela. Enquanto Lisonete não se volta para o casamento, a personagem narradora o idealiza e pretende não só assumir o papel de esposa como o de mãe: “Eu quero ter família grande. Encher a casa de filho para não acabar olhando pros móveis sozinha” (COLLIN, 2008, p. 75). O que revela um pensamento paradoxal entre as irmãs.
         Sendo assim, importa salientar que os contos analisados, extraídos da coletânea Acasos pensados, evidenciam personagens femininas que tanto reproduzem o sistema patriarcal, revelando-se como inferiores, submissas, como também manifestam o desejo de romper com a pressão do paradigma falocêntrico. O que a personagem protagonista de Daqui anseia é ser sujeito ativo na história e não permanecer à margem, emudecida no meio social, enquanto que a narradora de Fotinha provém de uma linhagem de mulheres, como é o caso de sua mãe, que não questionam e aceitam como natural a posição de marginalizadas, o que a diferencia, mais uma vez, da personagem protagonista de Daqui que enxerga a situação da mulher no sistema hegemônico masculino como ponto de partida para a sua emancipação.

Referências
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
BONNICI, Thomas. Teoria e crítica literária feminista: conceitos e tendências. Maringá: Eduem, 2007.
COLLIN, Luci. Acasos pensados. Curitiba: Kafka Edições, 2008.
COLLIN, Luci. Entrevista cedida a Rodrigo Souza Leão. Revista Eletrônica Germina Literatura., jun. 2005. Disponível em: . Acesso em: 01/ jun./ 2010.
FISCHER, Izaura Rufino; MARQUES, Fernanda. Gênero e exclusão social., Recife, PE: Fundação Joaquim Nabuco, n.113, ago.2001. Disponível em: . Acesso em: 8/mai./2010.
PRAVAZ, Susana. Três estilos de mulher: A doméstica, a sensual, a combativa. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1981.
SAFFIOTI, H.I.B. Rearticulando gênero e classe social. In: COSTA, A.O.; BRUSCHINI, C. (Orgs.). Uma questão de gênero. São Paulo; Rio de Janeiro: Rosa dos
Tempos, 1992. p. 10.
TEIXEIRA. Níncia C. R. Borges. Acasos pensados: Luci Collin e a alquimia das letras. Revista de Letras. Taguatinga, DF: Universidade Católica de Brasília, v. 1, n. 2, p. 74-77, 2008. Disponível em: http://portalrevistas.ucb.br/index.php/RL/article/viewFile/946/826>. Acesso em: 12/ago./ 2010.
ZOLIN, Lúcia Osana. Crítica feminista. In: BONNICI, T.; ZOLIN, L. O. (Orgs.). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 2 ed. Maringá: Eduem, 2004. p. 217.

Fonte:
II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem: 06 a 08 de outubro de 2010 Diversidade, Ensino e Linguagem UNIOESTE - Cascavel / PR

Adriana Lopes de Araújo possui graduação em Letras Português/Inglês - Licenciatura Plena pela Universidade Estadual de Maringá (2008) e Mestrado em Letras (2012), com a dissertação “A representação da mulher no romance contemporâneo de autoria feminina paranaense”, área de concentração Estudos Literários, linha de pesquisa Literatura e construção de identidades, na mesma instituição. É membro do Grupo de Pesquisa & Literatura de Autoria Feminina Brasileira - LAFEB e atua principalmente nos seguintes temas: literatura de autoria feminina, crítica literária feminista, personagem feminina, representação e construção de identidades.

Lúcia Osana Zolin possui graduação em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (1987), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1994), doutorado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2001) e pós-doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007) . Compõe o corpo docente do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura de autoria feminina, crítica literária feminista, personagem feminina e representação de identidades. Tem livros, capítulos de livros e artigos publicados sobre os temas referidos. É líder do Grupo de Pesquisa Literatura de autoria feminina brasileira - LAFEB; e integra o Grupo de Pesquisa em Literatura Brasileira Contemporânea - GELBC.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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