Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 12 de julho de 2015

José Feldman (Chuva de Versos n. 411)



Uma Trova de Curitiba/PR
Emiliano David Perneta
1866 – 1921
Poeta é a eterna criança
correndo atrás da ilusão,
que lhe foge, e ele não cansa
de tanto correr em vão!
Uma Trova de São Paulo/SP
Manuel Antonio Álvares de Azevedo
1831 – 1852, Rio de Janeiro/RJ
Quero viver de esperança,
quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
quero sonhar e dormir!…
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
O RELÓGIO
          Na parede
                                    os dias
                                  se modificam
a dimensão diuturna
da vida dissecada
O sossego
  o anel moído
                             os problemas
                     diminutos
                                      no relógio
Uma Trova de Macaíba/RN
Auta de Souza
1876 – 1901, Natal/RN
Não te maldigas, querida,
mesmo se a dor te magoa:
– é sempre feliz na vida
a alma que é pura e boa.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
O POÇO
O poço está cheio
com a água trazida
pela chuva.
       Agora
       a água escura
                    o fundo não se vê.
O lodo impregnado na alvenaria
o grito sufocado do menino
                                    que lá morreu
Sorrimos conversamos
                            os dias
                                      as horas
              os corpos apoiados
              em nossa superfície.
                           No fundo
                               sempre o poço
                                         escuro
                                      em nós.
Uma Trova de Casimiro de Abreu/RJ
Casimiro José Marques de Abreu
1837 – 1860, Nova Friburgo/RJ
Tudo se gasta e se afeia,
tudo desmaia e se apaga,
como um nome sobre a areia,
quando cresce e corre a vaga.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
IDA
Por ser pouca esta música
eu estendo meu ouvido
                    à Praça.
E
          de visita onde tanto
          colheu seu destino nos livros
          e becos
                       parece tê-la de novo
          não na forma antiga
                              retida para sempre
Mas na de caixa
                    cujo barulho
                          é um ofídio
                    que muda súbito
                     o raio fundo
                       no mergulho
                            de nossas veias.
Uma Quadra Popular
Autor Anônimo
Sete e sete são quatorze,
com mais sete vinte e um.
Eu tenho sete namorados,
mas não gosto de nenhum.
Uma Trova Hispânica da Argentina
Stella Maris Taboro
La música halo del alma
es melodía del cielo,
me acaricia con su talma
de seda y de terciopelo.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
XIII
Meu helicóptero
de pilha,
branco e maquinal,
soltas as hélices
no vento,
alegria acústica,
vendaval.
Uma Trova de Cabaceiras/BA
Antônio de Castro Alves
1847 – 1871, Salvador/BA
Na hora em que a terra dorme,
enrolada em frios véus,
eu ouço uma reza enorme
enchendo o abismo dos céus.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
DECLÍNIO
O amor será
se o mar
                voando
                              disser o seu azul
                              sua tinta hercúlea
                                                        derramada
os contornos do claro
e dentro o corpo de cetim
                   a epiderme fixa
                           as prisões desse delírio
                            murcho
                                     o móvel do que disser
Uma Trova de Ouro Preto/MG
Aphonsus de Guimaraens
(Afonso Henrique da Costa Guimarães)
1870 – 1921, Mariana/MG
Quando em teus olhos reluz
o carinho de uma prece,
se é dia, o sol tem mais luz
se é noite, logo amanhece.
Um Haicai de Lençóis/BA
Júlio Afrânio Peixoto
(1876 - 1947) Rio de Janeiro RJ
HERANÇA
Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
CASA
Na sala ampla
Os corredores consomem
A existência
De um grito.
Uma Trova de São Luís/MA
José Ribamar Ferreira Gullar
(1930)
Estes meus versos que a esmo
jogo aos espaços sem fim
são pedaços de mim mesmo,
que eu mesmo arranco de mim.
Um Haicai de Manaus/AM
Anibal Beça
(1946-2009)
Bem que me agasalho.
Galhos sem folhas lá fora
parecem ter frio.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
CASA DE PÁSSAROS
O tapete de tiras
estirado
a cor viva
se multiplica: espessura
volume, bordado
trazendo a criança
que o fabrica
agora em outro chão
plantado,
em outro molde contida
a viva cor
do seu bordado
de onda brota a infância
viva.
Para lá, do início de tudo,
foi palco
das muitas travessuras
perdidas.
Em suas cores se desenhava
uma epopeia viva:
heróis, dragões, cavalos,
todo um reino
que ora o verso mistifica
na lembrança
do seu bordado,
na viva cor
que se multiplica.
Uma Trova do Rio de Janeiro/RJ
Gilka da Costa Machado
1893 – 1980
Se a mágoa não nos conforta,
por que é que a felicidade
tem mais sabor quando morta,
depois que se faz saudade?

Uma Aldravia Infantil de Juiz de Fora/MG
Cecy Barbosa Campos


Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
FOLHA
A folha em branco
Anuncia
O poema,
Com sua arena
Muda,
Quase verbo,
Nos bolsos.
Um Haicai de São Paulo/SP
Clicie Pontes
Tear suspenso
A mercê da brisa
O balanço da aranha.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
DEPOIS DA CHUVA
Levantar-se-á o muro,
A fachada
Do casario da esquina,
O endereço
No nome da rua.
Não o morto. Seu tempo
Dorme.
Já habitou o
Mesmo tempo
E as lajes do primeiro quarteirão.
Agora, é morto.
Não usa a correspondência.
Só assiste
À reconstrução do vilarejo
No seu quarto (vivo?)
Na terra.
Um Haicai de Curitiba/PR
Delores Pires
ORQUESTRA
Natural orquestra
toca no quente verão:
canto de cigarra.
Uma Trova de Caxias/MA
Antônio Gonçalves Dias
1823 – 1864, Atins/MA (naufrágio)
Minha terra tem primores
que tais não encontro cá.
Em cismar, sozinho, à noite,
mais prazer encontro eu lá.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
NUM VERÃO
No rio o grão,
O rito de escuma.
O homem molhado,
Sem escama.
O homem de vidro,
Cercas no rio, a orla
Nos pés alíferos
(O rio em seu naufrágio).
O homem vazio, polido,
Em seu curso matemático.
O giro sobre o leito: a ablução
Na manhã — o sonho do rio.
Recordando Velhas Canções
Sentinela
(1969)
Milton Nascimento e Fernando Brant
Morte, vela, sentinela sou
Do corpo desse meu irmão que já se vai
Revejo nessa hora tudo o que ocorreu
Memória não morrerá
Vulto negro em meu rumo vem
Mostrar a sua dor plantada nesse chão
Seu rosto brilha em reza, brilha em faca e flor
Histórias vem me contar
Longe, longe, ouço essa voz
Que o tempo não vai levar
Precisa gritar sua força é irmão
Sobreviver, a morte inda não vai chegar
Se a gente na hora de unir os caminhos num só
Não fugir nem se desviar
Precisa amar sua amiga é irmão
E relembrar que o mundo só vai se curvar
Quando o amor que em seu corpo já nasceu
Liberdade buscar na mulher que você encontrar
Morte, vela, sentinela sou
Do corpo desse meu irmão que já se foi
Revejo nessa hora tudo que aprendi
Memória não morrerá
Longe, longe, ouço essa voz
Que o tempo não vai levar
Uma Trova de Miritiba/MA
Humberto de Campos
1886 – 1934, Rio de Janeiro/RJ
Outrora, em tardes serenas,
chorei sob uns ramos largos;
e esses ramos, hoje, apenas
sabem dar frutos amargos.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
GÊMEOS
Lá fora o vento bate
               E traz para dentro
                                         como relíquia
                 os irmãos que não se separaram
                                                 na noite
no quintal
          daquele dia de pedra
                                   onde os pedaços da vida
                                     imitaram as rodas
voadoras
                             qual pássaros abertos
                                        trazendo no
bico
a flor do metal
Contornou a paisagem
                                o monte de folhas soltas
                                        o risco das
formigas de fogo
        e fugiu
                       dos pequenos anos
                             dos abraços trocados
                              no ouro das tardes
                                        que viam as
formas nítidas
      dos grãos
                                         rolando
                                          rolando
                            para a volta dos dois
Um Haicai de São Paulo/SP
Edson Kenji Iura
Uma borboleta
Beija uma flor murcha
Sobre a lousa fria
Uma Trova de Recife/PE
Manuel Carneiro de Souza Bandeira
1886 – 1968, Rio de Janeiro/RJ
A tarde cai, por demais
erma, úmida e silente…
A chuva, em gotas glaciais,
chora monotonamente.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
PÁSSARO ENTALHADO
                                    A Dedé Marques
Nasceu no Oriente,
Espantado.
Imóvel no móvel servil.
Os pés e o bico astutos,
O alçar de asas imaginário
Que se antevê
No perpétuo sono
Do madeiramento arguto,
Nessa árvore amputada,
Onde o lápis se escreve
E o pássaro de si
Cada vez mais se despede
Na invisível gaiola estruturada.
Hinos de Cidades Brasileiras
Estado do Mato Grosso do Sul
Os celeiros de farturas
Sob um céu de puro azul
Reforjaram em Mato Grosso do Sul
Uma gente audaz
Tuas matas e teus campos
O esplendor do Pantanal
E teus rios são tão ricos
Que não há igual
A pujança e a grandeza
De fertilidades mil
São o orgulho e a certeza
Do futuro do Brasil
Moldurados pelas serras
Campos grandes, Vacaria
Rememoram desbravadores heróis
Tanta galhardia!
Vespasiano, Camisão
E o Tenente Antônio João
Guaicurus, Ricardo Franco
Glória e tradição!
A pujança e a grandeza
De fertilidades mil
São o orgulho e a certeza
Do futuro do Brasil
Uma Trova de Alegrete/RS
Mário de Miranda Quintana
1906 – 1994, Porto Alegre/RS
Em cima do meu telhado,
pirulin, lulin, lulin,
um anjo, todo molhado,
soluça no seu flautim.
Um Poema de Manaus/AM
Efraim Amazonas
CONSTRUÇÃO
O metro em decúbito,
Nivelar no edifício.
Onde a máquina flamívola
Construtora na construção?
Andaimes em peripécia,
Catalogados no algodão,
Brotam números no cimo,
Destoantes na aclimação.
Sobe a planta industrial,
Rega-se a flor no ofício.
Rebocos e larguras
No dreno da alvenaria
Uma Trova de Itabira/SP
Paulo Menotti Del Picchia
1892 – 1988, São Paulo/SP
Às vezes também, risonho,
um sonho minh' alma junca;
corro doido atrás do sonho,
sem poder toca-lo nunca!
_________________________________
                Efraim Amazonas, nasceu em Manaus/AM, em 1967, onde cursou filosofia na Universidade Federal do Amazonas.
                Seu primeiro livro “Algum verso” teve edição esgotada na Bienal do livro de São Paulo, em 1994. Daí participou da Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, no mesmo ano. Integrando varias antologias e sendo poeta reconhecido pela critica nacional, é autor de “Algum verso”(1993), “Engenharia do tempo”(2000) e “Estação dos espelhos”(2002).
                Busca retratar em seus poemas, sobre o cotidiano e os pequenos acontecimentos da vida, capturados pelo olhar do autor e escritos numa linguagem poética.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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